Reabilitação para mutilados de guerra

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Reabilitação para mutilados de guerra


por Ashfaq Yusufzai, da IPS


Peshawar, Paquistão, 2/2/2012 – A longa guerra contra o terrorismo encabeçada pelos Estados Unidos deixou uma multidão de deficientes no Paquistão e obrigou o governo a criar um plano de reabilitação, que incluirá capacitação vocacional. O programa começará em março compilando dados sobre a quantidade de pessoas com lesões causadas pela guerra nas Áreas Tribais Administradas Federalmente (Fata) e na vizinha província Khyber Pakhtunkhwa (ex-Província da Fronteira Nordeste), explicou Mahboob ur Rehman, diretor do departamento de fisioterapia do Complexo Médico de Hayatabad, em Peshawar, capital da província. “Planejamos melhorar os serviços de reabilitação física para as vítimas do terrorismo para evitar que fiquem deficientes para sempre”, disse à IPS. O conflito armado de uma década deixou milhares de mutilados por explosões, bombas e ataques de aviões não tripulados. A maioria das vítimas precisa de próteses e ortopedia para voltar a caminhar, disse Rehman. Com base em estatísticas dos hospitais estatais, acrescentou que 35 mil pessoas morreram na guerra e 60 mil ficaram gravemente feridas e cerca de dez mil pacientes precisam de reabilitação. Mohammad Haris, cirurgião ortopédico do Hospital Lady Reading de Peshawar, disse que há mulheres, crianças e idosos que perderam membros e estão imobilizados. “Precisam de cadeiras de rodas, muletas e outro tipo de ajuda. A maioria é pobre e não pode pagar uma cara reabilitação nas instituições privadas”, acrescentou. Muitas ignoram que os hospitais estatais e oficinas ortopédicas ofereciam tratamento, ressaltou. Irfanullah, de 22 anos, perdeu as duas pernas em um ataque com morteiro no Waziristão do Norte em outubro de 2011,, e espera o ansioso o início do programa. “Preciso de prótese para andar e cuidar da frutaria da família. “Meu pai, gravemente ferido há um mês, teve amputada a perna esquerda e também precisa de uma”, disse. Shagufta Bibi, de 38 anos e três filhos, teria ficado incapaz de se mover não fosse pela prótese que recebeu. “Estava sentada no jardim de casa quando um talibã jogou uma granada e me feriu gravemente na perna direita”, disse a mulher originária de Swat. O movimento islâmico afegão Talibã se refugiou nas áreas tribais do Paquistão após ser expulso em 2001 de Cabul pela força militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), liderada pelos Estados Unidos. Uma vez ali, começou os ataques contra forças paquistanesas, mercados e prédios estatais para impor sua ideologia fundamentalista. O novo programa, com orçamento de US$ 1,2 milhão, cobrirá, entre outros custos, os de prótese e cadeiras de rodas. O governo japonês prometeu acessórios no valor de US$ 2 milhões, que serão entregues gratuitamente. “Decidimos contratar fisioterapeutas e especialistas em ortopedia nos hospitais dos distritos de Khyber Pakhtunkhwa e Fata. O processo de recuperação começa com a intervenção cirúrgica, a reabilitação médica e física e inclui capacitação vocacional e apoio para buscar trabalho”, explicou um funcionário. Os hospitais já têm instalações de fisioterapia, mas a reabilitação de paraplégicos e hemiplégicos só é possível com apoio de organizações privadas especializadas. Os departamentos de Saúde, Bem-Estar Social e de Mulheres, bem como organizações religiosas de benemerência também colaboram com a iniciativa. A necessidade de um programa desse tipo ficou evidente pela primeira vez após o terremoto de 2005, que deixou milhares de pessoas gravemente feridas. Programa vinculará fisioterapeutas com especialistas em cirurgia, ortopedia, neurocirurgia e outras disciplinas em hospitais especializados. Será criado um centro de reabilitação com 20 leitos no Complexo Médico de Hayatabad para pacientes com paralisia. No momento não há unidade interna de recuperação no setor público, embora exista um centro, muito limitado, para atender essas pessoas. O Complexo de Fisioterapia Habib, uma instituição privada com 15 leitos e uma unidade para atender apoplexias, assinará um acordo com o governo para coordenar o trabalho de instituições públicas e privadas. Milhares de crianças que ficaram com sequelas de poliomielite também poderão se beneficiar do programa, segundo as autoridades.  Envolverde/IPS

Pela primeira vez a Sérvia toma consciência da situação das mulheres vítimas de violência de gênero. Foto: Ranmali Bandarage/IPS Inter Press Service - Reportagens

Maltratadas, presas e estigmatizadas

[caption id="attachment_41272" align="alignright" width="300" caption="Pela primeira vez a Sérvia toma consciência da situação das mulheres vítimas de violência de gênero. Foto: Ranmali Bandarage/IPS"][/caption] Belgrado, Sérvia, 2/2/2012 – As mulheres na Instituição Correcional Penal de Pozarevac, na Sérvia, são duplamente vítimas: sofreram décadas de violência sexista e depois foram presas, algumas por até 15 anos, por terem matado seus companheiros. Em um raro exemplo de cooperação entre as organizações da sociedade civil e o governo sérvio, foi implantado um plano para lançar luz sobre este fenômeno e criar consciência entre a população. “Existia um plano geral para melhorar as condições das mulheres na prisão”, explicou à IPS a diretora da Sociedade de Vitimologia da Sérvia (SVD), Vesna Nikolic Ristanovic. “Mas, quando nos demos conta de que uma em cada dez delas foram condenadas pela morte de seus companheiros após sofrerem anos de violência familiar, decidimos lançar uma ação mais ampla”, acrescentou. Vesna afirmou que o esforço incluía “apoio, educação e programas de inclusão uma vez reincorporadas à sociedade”, e acrescentou que “as mulheres vivem com as experiências traumáticas combinadas da violência doméstica e enfrentam a possibilidade de se converterem novamente em vítimas e perpetradoras”. Estatísticas da SVD revelam um aumento anual nos casos de violência familiar, que aumentaram 30% em 2010 e 30% no ano passado. Um novo estudo dessa entidade concluiu que mais da metade das mulheres na Sérvia sofreram alguma forma de violência intrafamiliar em 2011, e que pelo menos 44 morreram nas mãos de seu companheiro nesse período. No ano passado, 16 mulheres, a maioria entre 60 e 70 anos, vítimas por décadas de violência de gênero, foram condenadas por terem matado seus companheiros e enviadas a prisão de Pozarevac. Este cárcere, único em seu tipo para mulheres na Sérvia, leva o nome da localidade onde foi construída em 1874, 120 quilômetros a leste de Belgrado. Atualmente, tem 769 detentas. “Da prisão para a vida sem violência” é o nome do plano conjunto de dois anos de duração a cargo da SVD. Conta com participação do Escritório do Defensor do Povo, da secretaria do governo encarregada de temas de igualdade de gênero e combate à violência doméstica, e a administração de Pozarevac. O projeto busca instruir o sistema judicial sobre os impactos da violência machista no âmbito familiar e as respostas violentas específicas das mulheres vítimas de abusos, explicou Milos Jankovic, do escritório do Defensor do Povo, encarregado de proteção dos direitos dos presos. “As políticas punitivas eram praticamente a única área em que os homens e as mulheres eram iguais na Sérvia”, disse Jankovic à IPS. “As mulheres eram condenadas a penas de prisão tão graves quanto os homens, a 15 anos ou mais em casos de assassinatos, sem importar a tortura que haviam sofrido e que as levaram a cometer o crime”, acrescentou. Mas, reformas judiciais nos últimos anos e uma profunda análise da violência de gênero levaram à primeira sentença “indulgente” (de dois anos e meio) para uma mulher que matou seu companheiro que a maltratava. O crime foi catalogado como “homicídio em estado afetado”, pois considerou-se que a acusada estava sob forte pressão mental quando cometeu o assassinato. Para ativistas como Jankovic, que trabalham diariamente com estes temas. Essa sentença foi uma vitória. O Comitê Helsinque para os Direitos Humanos na Sérvia lançou uma campanha exortando os juízes para, na hora de dar a sentença, levem em consideração os maus-tratos sofridos pelas mulheres acusadas. Também lançou uma iniciativa, apoiada pelas líderes políticas e ativistas mais destacadas da Sérvia, para solicitar indultos e libertação antecipada de algumas detentas. A Sérvia ainda é uma sociedade fortemente tradicional e patriarcal, na qual se considera que os assuntos familiares devem ser totalmente privados. Mas, a campanha nacional animou muitas mulheres a quebrarem o silêncio e contar suas histórias. Mais de 6.500 casos de violência de gênero foram registrados entre janeiro e novembro de 2011. “O aumento de casos informados não necessariamente significa que haja mais abusos, mas quer dizer que existe uma crescente conscientização entre as pessoas”, afirmou Jasmina Nikolic, do escritório de vítimas da SVD. “O crescente estímulo (do governo e da sociedade civil organizada) para que relatem os abusos e peçam proteção serviu para isto”, disse à IPS. Anka Gogic Mitic, guarda em Pozarevac, disse que as mulheres que cumprem penas por assassinato e outros crimes contra seus companheiros procedem de “todas as classes sociais e situações financeiras e de todos os níveis educacionais. “Procuramos trabalhar no fortalecimento de suas capacidades e em prepará-las para a inclusão social uma vez que ganhem a liberdade”, afirmou à IPS. O plano prevê capacitação profissional em padaria, costura e hotelaria, e também oferece assistência de um grupo de quatro psicólogos que as ajudam a superar suas experiências traumáticas de violência, a maioria delas com origem na infância. Muitas negam o grave crime que cometeram ou têm vergonha de falar com seus filhos, já crescidos, e com o resto de seus familiares, disse Mitic. “Os temas que estas mulheres enfrentam só podem ser descritos como delicados e complexos. Nenhum caso é igual a outro, só na superfície. Temos a esperança de que não as veremos mais nesta prisão, e colocamos todo nosso esforço nessa meta”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Vesna Peric Zimonjic, da IPS
01 Inter Press Service - Reportagens

Oportunidade para a América Latina com doenças esquecidas

Rio de Janeiro, Brasil, 2/2/2012 – O surgimento de economias emergentes na América Latina é uma oportunidade para melhorar as estratégias de combate a doenças esquecidas e ampliar sua contribuição à luta mundial contra elas, afirmou o diretor regional da Iniciativa Medicamentos para Enfermidades Esquecidas (DNDi), Eric Stobbaerts. “Nossa região passa por uma plena mutação em termos econômicos e sociais”, destacou Stobbaerts ao citar os avanços nesse aspecto no Brasil, Chile, México, na Argentina e Colômbia. Essa mudança positiva deveria ser aproveitada para “redefinir a maneira como essas doenças foram abordadas no passado”, várias delas endêmicas na região, como o mal de Chagas e a leishmaniose visceral, afirmou à IPS na sede da DNDi no Brasil. Trata-se de males desatendidos pelos grandes laboratórios internacionais por serem consideradas “doenças de países pobres”, sem maior retorno lucrativo no desenvolvimento de remédios para combatê-las. O surgimento dessas economias emergentes no cenário mundial “significa mais recursos disponíveis para o desenvolvimento, a produção industrial e a inovação no combate a doenças tropicais esquecidas”, disse Stobbaerts. O especialista conversou com a IPS após o encontro “Unidos para combater as enfermidades tropicais esquecidas”, realizado em Londres no dia 30 e organizado em apoio ao “Mapa do caminho 2020 para as doenças tropicais esquecidas”, com o qual a Organização Mundial da Saúde (OMS) pretende erradicar dez delas nesta década. A DNDi comemorou em um comunicado, ao final do encontro na capital britânica, os avanços alcançados em nível mundial. Mas, exortou no sentido de se acabar com as lacunas em pesquisa e desenvolvimento para melhorar as ferramentas de diagnóstico e criar novos medicamentos antes de terminar esta década. A iniciativa é uma organização não-governamental de pesquisa e desenvolvimento sem fins lucrativos que desde 2003 trabalha no desenvolvimento de medicamentos e tratamentos para as doenças esquecidas. Foca-se especialmente em enfermidades com alta taxa de mortalidade: a tripanosomiasis africana (doença do sono), infecções por vermes e aids infantil, além do Mal de Chagas e da leishmaniose visceral. Stobbaerts destacou que a América Latina é tradicionalmente uma região com altos níveis endêmicos e um grande depósito de doenças desatendidas, para as quais existe “ótimo conhecimento técnico e científico”. Acrescentou que, “no entanto, as necessidades continuam sendo grandes diante da variedade de doenças esquecidas devido às leis de mercado, e grande número de pacientes continua sem tratamento”. A DNDi tem entre seus sócios na América Latina a Fundação Fiocruz, e laboratórios públicos como Farmanguinhos e Lafepe, no Brasil. Entre seus sócios fora da região se destacam o Instituto Pasteur, da França, e a organização Médicos Sem Fronteiras. Estas sociedades permitem acordos com o setor privado e instituições acadêmicas para desenvolver atualmente projetos no Brasil, na Argentina, Bolívia e Colômbia. Além disso, foi possível desenvolver em nível mundial seis tratamentos para a malária, a doença do sono ou a leishmaniose. Desde a América Latina se contribuiu com um remédio infantil contra o Mal de Chagas, o benznidazol pediátrico (http://envolverde.com.br/noticias/brasil-desenvolve-medicamento-contra-mal-de-chagas/). “O apoio político em todas as fases da pesquisa e do desenvolvimento foi fundamental para esses êxitos”, recordou Stobbaerts. “Mas, sabemos que não são suficientes os esforços em termos de desenvolvimento farmacêutico”, disse o especialista. “As regulamentações e a distribuição, bem como os sistemas de saúde, são essenciais para o sucesso da inovação. São inúmeras as barreiras que podem fazer com que um novo medicamento fique na prateleira”, ressaltou. Stobbaerts citou como exemplo o que ocorre na América Latina com o mal de Chagas, ou tripanosomiasis americana, por suas vinculações com a doença do sono. As pessoas portadoras ou infectadas da região com o parasita tripanosoma cruzi, muitas sem saber disso, passam de oito milhões. A doença afeta especialmente Brasil, Argentina, Bolívia, México e Paraguai, e as mortes registradas relacionadas com esse mal são cerca de 12 mil ao ano, embora se considere que, na realidade, sejam muitas mais, porque “existe um sub-registro evidente”, segundo o diretor da DNDi. A falta de ferramentas adequadas para diagnosticar o mão de Chagas é outro problema. “Há urgência em contar com um exame para o diagnóstico que permita de maneira confiável um tratamento de sucesso”, afirmou. “Sem isso, se continua tratando sem ter a perspectiva da situação parasitária do paciente no longo prazo. Isso exige intenso acompanhamento médico e um custo para os serviços de cuidados de saúde primária e secundaria”, acrescentou Stobbaerts. “O desafio é conseguir ferramentas que sejam aplicáveis no terreno, muitas vezes em lugares remotos e isolados. Ou seja, que sejam fáceis na utilização e no manejo para o pessoal da saúde no local. E, também, que sejam de tecnologia barata, devido aos limitados orçamentos de saúde pública”, ressaltou o especialista. No encontro de Londres a DNDi mencionou entre outros aspectos-chave no combate das doenças esquecidas os da promoção da inovação, o intercâmbio aberto dos conhecimentos e da pesquisa, e a criação de associações de instituições públicas e privadas para o desenvolvimento de medicamentos. Nesse sentido – afirmou-se – nesta região “se trabalha desde a sociedade civil até as áreas mais avançadas da ciência no sentido de demandar posições abertas com soluções pragmáticas dos grandes países da América Latina nos fóruns internacionais, com a Assembleia Mundial da Saúde ou o G-20” (maiores países industrializados e emergentes). Para Stobbaerts, existe “um caminho na região que traz esperança”. “As universidades se mobilizam, abrindo bibliotecas e laboratórios a iniciativas sem fins lucrativos, o setor farmacêutico privado parece mais interessado em questões de responsabilidade social e corre um vento de filantropia privada que poderia se interessar mais em questões de saúde”, acrescentou o especialista. Para a DNDi as plataformas regionais para a pesquisa clinica de doenças específicas, que aglutinam pesquisadores, médicos, reguladores, controladores nacionais e, idealmente, os próprios afetados, “são vitais para garantir que trabalhamos com base nas necessidades dos pacientes”. Nesse contexto, citou a Plataforma de Pesquisa Clinica no Mal de Chagas, que desde 2009 reúne um grande número de associados na América Latina. A DDNi também disse que é chave garantir a participação e a liderança dos países endêmicos para responder aos pacientes e conseguir um financiamento sustentável e diversificado para ampliar o desenvolvimento e a pesquisa. “Aqui o interesse de nossa região é duplo: por estar liderando em nível global, proporcionando novas ideias, além de resolver emergências de saúde que se sofre localmente. É um trabalho cotidiano para alimentar a reflexão e romper os modelos de que pouco se pode fazer”, concluiu Stobbaerts. Envolverde/IPS


por Fabiana Frayssinet, da IPS
Milhares de contêineres esperam para serem carregados em um porto de Cingapura. Apenas alguns são inspecionados. Foto: Shnapthat!/CC By 2.0 Inter Press Service - Reportagens

MuNavios do Ocidente violam embargos da ONU

[caption id="attachment_41168" align="alignright" width="300" caption="Milhares de contêineres esperam para serem carregados em um porto de Cingapura. Apenas alguns são inspecionados. Foto: Shnapthat!/CC By 2.0"][/caption] Nações Unidas, 1/2/2012 – Quando o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) castiga governos com sanções econômicas e embargos de armas, seus 193 Estados-membros têm a obrigação de implantar estas medidas. Contudo, um estudo divulgado no dia 30 revela o contrário. O informe do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), intitulado Maritime Transport and Destabilizing Commodity Flows (Transporte marítimo e fluxos desestabilizantes de matérias-primas), diz que mais de 60% dos navios que se envolvem em casos registrados de violações de sanções ou tráfico ilícito de drogas, armas e outros equipamentos militares, são propriedade de empresas do Ocidente. Os barcos pertencem principalmente a linhas de navegação comerciais de países da União Europeia (UE), da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ou da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE). Segundo a investigação, as embarcações que violam as sanções procedem principalmente de Alemanha, Grécia e Estados Unidos. Entre os 12 Estados que lideram a lista, também estão Coreia do Norte, Panamá, Irã, Noruega, Rússia, Belize, Holanda, Dinamarca e Japão. “Isto não significa que os proprietários dos navios, ou mesmo seus comandantes, saibam o que estão transportando. Porém, para os traficantes é relativamente fácil esconder armas e drogas entre as cargas legais”, disse Hugh Griffiths, coautor do estudo do Sipri. Ao longo dos anos, o Conselho de Segurança impôs sanções econômicas ou embargos de armas a mais de 25 países, entre eles o antigo regime do apartheid na África do Sul, e Angola, Costa do Marfim, Haiti, Iraque, Libéria, Líbia, Ruanda, Serra Leoa, Somália, Sudão e a antiga Iugoslávia, entre outros. Segundo o Comitê de Sanções do Conselho de Segurança, este órgão recorre a castigos obrigatórios como uma ferramenta para fazer cumprir seus mandatos, “quando a paz se vê ameaçada e os esforços diplomáticos fracassaram”. A variedade de sanções inclui medidas econômicas e comerciais, e outras mais específicas, como embargos de armas, proibição de viagens e restrições financeiras ou diplomáticas. Segundo o Sipri, o uso de contêineres não só revolucionou o comércio internacional como forneceu uma fachada ideal para os traficantes. Dos muitos que chegam diariamente aos portos do mundo, só é possível inspecionar uma fração. Os donos dos navios, e mesmo os funcionários aduaneiros, simplesmente têm de acreditar que em seu interior há exatamente o que consta nos documentos. “Certos embargos de armas da ONU podem ser mais efetivos se os Estados-membros derem maiores recursos e informações para controlar o envio por mar”, disse Griffiths à IPS. O caso da Líbia é um bom exemplo, afirmou, porque os Estados patrulharam a costa desse país e interceptaram envios de petróleo e armas sob o guarda-chuva de um grupo que funcionava na órbita da Otan. “Isto realmente ajudou a cumprir o embargo”, ressaltou. Também está claro que há diferentes graus de cooperação entre as missões de paz da ONU com os grupos de especialistas que fiscalizam o cumprimento dos embargos, reconheceu Griffiths. Mas este é basicamente um assunto dos Estados-membros, porque são os únicos que têm os recursos para fornecer informação e realizar inspeções em navios. Segundo o informe, o governo do comércio marítimo sempre foi um assunto complexo. E estão sendo desperdiçadas oportunidades para melhorar a vigilância e usar mecanismos já existentes para erradicar o tráfico. “Sem dúvida, não é culpa dos grupos de especialistas da ONU, nem de sua Secretaria Geral, responsável por apoiar o trabalho dos comitês de sanções”, apontou Griffiths à IPS. Esses organismos fazem um trabalho excepcional com recursos quase sempre muito limitados, acrescentou. O fracasso se deve a dois motivos: o fato de muitos Estados não terem a capacidade necessária, e não haver suficientes sistemas de informação compartilhada entre esses países. Esta informação se refere principalmente aos navios sob suspeita de participarem do transporte de materiais militares destinados a regiões africanas ou a atores submetidos a um embargo pela ONU. Ao ser consultado se o Conselho de Segurança deveria divulgar o nome dessas empresas, Griffiths declarou que “isto é assunto do Conselho, mas de uma perspectiva contrária ao tráfico, penso que seria útil informar algumas companhias que podem ter ajudado – inadvertida ou deliberadamente – em um processo de transporte que definitivamente levou a uma violação de um embargo de armas da ONU”. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Dorothy Kabajungu, de 50 anos, começou a vender lenha graças ao empréstimo que obteve em um banco para mulheres. Foto: Wambi Michael Inter Press Service - Reportagens

Mulheres dirigem bancos para tempos difíceis

[caption id="attachment_41160" align="alignleft" width="251" caption="Dorothy Kabajungu, de 50 anos, começou a vender lenha graças ao empréstimo que obteve em um banco para mulheres. Foto: Wambi Michael"][/caption] Wakiso, Uganda, 1/2/2012 – A maioria das ugandesas não conta com títulos de propriedade sobre suas terras que lhes sirvam de garantia para obter um empréstimo, e não podem pagar os altos juros bancários. Porém, seis bancos rurais com lideranças femininas começaram a mudar as suas vidas. Estas instituições facilitam o acesso a créditos, permitindo iniciar pequenos negócios e melhorar a segurança alimentar da solicitante e de sua família. A cerca de 20 quilômetros da capital fica a aldeia de Wakiso. Aqui existe a Iniciativa de Agricultura Alimentar das Mulheres Africanas, uma cooperativa de poupança e crédito, um dos seis bancos rurais administrados por mulheres. Tem 1.600 poupadores e tomadoras de empréstimos e conta com apoio do The Hunger Project, uma organização internacional que promove soluções sustentáveis contra a fome. “É um banco único por ser dirigido por mulheres e apoiar as mulheres, especialmente as dedicadas à agricultura. Mobilizamos e incentivamos estas mulheres, para combater a fome e a pobreza economizando e tendo acesso a pequenos empréstimos”, contou a gerente da cooperativa, Rose Nanyonga. Ao contrário dos bancos comerciais, a instituição é propriedade das mulheres que participam de seu crescimento, explicou. “Nossas integrantes compram ações no banco, assim são suas donas e obtêm dividendos no final de cada ano”, disse Nanyonga. Também são mulheres as sete integrantes da junta diretora. Os serviços não se limitam ao crédito. Na entrada estão à venda insumos agrícolas, lanternas e inclusive painéis solares. Joel Kamakec, do Hunger Project, disse à IPS que sua organização busca garantir que as clientes comprem as sementes e os equipamentos corretos com o dinheiro emprestado. “Com a atual crise energética que sofre o país, todos se apressam a comprar painéis solares. Contudo, pode acontecer de usar o empréstimo na compra de um equipamento de baixa qualidade. Assim, garantimos que obtenham o correto”, acrescentou. A diretora do Hunger Project em Uganda, Daisy Owomugasho, disse à IPS que o programa de microfinanças da aldeia é parte de uma estratégia que a organização promove em Uganda e em mais oito países africanos. “O crédito sob a forma de microfinanças tem por objetivo ajudar as comunidades a cultivar alimentos, ter acesso a insumos, a sementes melhoradas ou a qualquer outra coisa que possam precisar. Vemos isso como um enfoque integrado para acabar com a fome e a pobreza da população”, afirmou Owomugasho, explicando que os homens também podem solicitar empréstimos. As comunidades obtêm treinamento para lidar e usar efetivamente o crédito para sair da pobreza. “Entretanto, nos demos conta de que para dar poder às mulheres também é necessário que elas possam obter crédito. A elas é ensinado contabilidade e conhecimentos bancários para que possam manejar elas mesmas os bancos rurais”, detalhou Owomugasho. Os seis bancos não apenas conseguem lucro como também registram uma proporção grande de pagamento dos empréstimos, porque suas integrantes sentem que são suas proprietárias, acrescentou. A 14 quilômetros de Wakiso, uma cabine de metal azul fornece serviços bancários às áreas rurais que circundam Kikandwa Parish e zonas vizinhas. É administrada por Aisha Nansuna, que recebe os depósitos diários e facilita as retiradas quando as clientes não podem viajar até a sede central. Essa cabine ajudou a criar a cultura da poupança nas mulheres rurais de Wakiso, disse Nansuna à IPS. “As mulheres trazem até mesmo uma quantia menor para poupar porque o banco está perto”, contou. Nansuna também é beneficiária do banco. Atrás da cabine está sua bem abastecida loja de remédios. “Me beneficiei muito com nosso banco. Comecei com um empréstimo para avicultura e depois pedi US$ 1,5 mil que usei para montar esta farmácia”, contou. Com o dinheiro que ganha conseguiu enviar um de seus filhos para a universidade. Outra beneficiária, Dorothy Kabajungu, de 50 anos, disse à IPS que estes bancos cooperativos cobram juros menores do que os comerciais. “Agora pagamos 20% de juros, e nos dão dez meses para devolver a quantia. Soube que os outros bancos cobram em torno de 30% de juros”, afirmou. “Este banco é muito bom porque é nosso. Gostamos muito porque não nos pressionam muito para pagar”, acrescentou. Kabajungu começou tomando emprestado US$ 125, que investiu em criação de aves. Quando pagou, recebeu outro empréstimo, de US$ 500, que também investiu na avicultura, mas também usou o dinheiro para começar a vender lenha. “Decidi me dedicar a este negócio, porque o carvão é muito caro e há procura por lenha”, contou à IPS, acrescentando que nos cursos de capacitação ensinaram a identificar e dar seguimento a uma necessidade. Graças a essa formação aprendeu a sobreviver mesmo em tempos difíceis, afirmou. Envolverde/IPS


por Wambi Michael, da IPS
Manifestantes no Bahrein exigem reformas democráticas. Foto: Suad Hamada/IPS Inter Press Service - Reportagens

Ativistas denunciam venda de armas ao Bahrein

[caption id="attachment_41154" align="alignright" width="300" caption="Manifestantes no Bahrein exigem reformas democráticas. Foto: Suad Hamada/IPS"][/caption] Washington, Estados Unidos, 1/2/2012 – A decisão do governo dos Estados Unidos de realizar uma venda limitada de armas ao Bahrein é duramente criticada por grupos de direitos humanos pró-democráticos. Estas organizações, bem como vários congressistas, exigem que o governo de Barack Obama diga publicamente o que pretende fornecer a esse reino do Golfo. Também alertam que qualquer transferência militar neste momento seria vista pela oposição no Bahrein como um apoio ao repressivo regime de Manama. “Mesmo uma venda militar limitada ao governo baremense passaria uma mensagem equivocada”, disse David Kramer, presidente do Freedom House, grupo pró-democrático que recebe apoio da Fundação Nacional para a Democracia (NED), que, por sua vez, é financiada pelo Congresso norte-americano. “Os Estados Unidos não deveriam considerar a venda de nenhum artigo militar até que o governo baremense acabe com os sistemáticos abusos contra os direitos humanos, permita acesso irrestrito aos meios de comunicação e a organizações internacionais e comece a implantar uma significativa reforma política”, declarou Kramer no dia 30. Outros setores se mostram mais cautelosos. “Como os detalhes da venda são secretos, é difícil determinar de forma independente se Washington fornece o tipo de armas, munições e equipamentos que as forças de segurança do Bahrein poderiam usar para violar os direitos humanos”, comentou o diretor para o Oriente Médio da Anistia Internacional, Sanjeev Bery. Entretanto, “num momento em que os baremenses sofrem abusos não parece correto que se entregue armamento adicional ao seu governo”, acrescentou Bery, que também condenou as mortes em janeiro de pelo menos nove pessoas na repressão. As históricas relações entre Washington e as forças militares de regimes amigos, mas repressivos, do norte da África e do Oriente Médio, se tornaram cada vez mais problemáticas no contexto das revoltas da Primavera Árabe que ocorreram no ano passado. Ativistas, apoiados por legisladores, pediram a Obama que suspenda sua ajuda militar de US$ 1,3 bilhão ao Egito até que o Conselho Supremo das Forças Armadas, que governa transitoriamente esse país, deixe de perseguir organizações não governamentais internacionais e locais. Nos últimos dias, Washington sugeriu que poderia aceitar esse pedido, a menos que Cairo permita a saída do país de meia dúzia de ativistas apoiados pela NED, cujos escritórios foram invadidos por forças de segurança egípcias no começo de janeiro. Grupos de direitos humanos também criticam Washington por continuar fornecendo ajuda antiterrorista ao Iêmen, cujo presidente Ali Abdalá Saleh, acaba de chegar aos Estados Unidos para receber tratamento médico. Seu governo é alvo de maciços protestos pró-democráticos. A situação no Bahrein, aliado estratégico no Golfo, causou grandes dores de cabeça ao governo de Obama no ano passado. Sede da Quinta Frota da Marinha dos Estados Unidos, esse reino se tornou cada vez mais importante no contexto das tensões, que se agravaram em 2011, entre Irã, de um lado, e, de outro, Israel e os países do Golfo governados por famílias do ramo sunita do Islã. A família governante do Bahrein, os Al Khalifa, reina sobre uma majoritária população xiita que, com apoio também de alguns sunitas, exige reformas políticas. Reforçada por 1.500 soldados e policiais da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, a monarquia baremense lançou uma dura repressão contra o movimento opositor em meados de março passado, alegando que elementos xiitas apoiados pelo Irã queriam desestabilizar o país. Nos meses seguintes, houve mais de 40 manifestantes mortos, milhares presos (muitos deles torturados) e centenas de desaparecidos. Embora a Casa Branca tenha condenado inicialmente a repressão, permaneceu relativamente afastada da crise a maior parte do ano passado. De forma secreta, mas sem êxito, Washington tentou fortalecer a ala reformista da família que governa o Bahrein, liderada pelo príncipe Salman bin Hamad Al Khalifa, alertando que a repressão, com batidas noturnas em bairros e aldeias xiitas, só radicalizaria a população e a entregaria nas mãos do Irã. Porém, em setembro, o governo Obama informou ao Congresso sua intenção de vender US$ 53 milhões em mísseis antitanque e veículos militares multiuso Humvee ao Bahrein, o que desatou fortes protestos. Congressistas alertaram que os Humvee, em particular, poderiam ser utilizados contra os opositores. O Congresso não pode anular a venda, mas convenceu o governo a atrasá-la até que uma comissão internacional apresente um informe sobre a situação no Bahrein. Finalmente, a Comissão Baremense Independente de Investigação, liderada pelo jurista egípcio-norte-americano Cherif Bassiouni, apresentou um relatório que, entre outras coisas, pede julgamento dos culpados, libertação dos detidos, reintegração profissional dos demitidos e início de um diálogo entre governo e oposição para alcançar reformas democráticas e constitucionais. Assim, o governo de Obama anunciou que o envio de armas dependeria da implantação dessas recomendações e de melhoria na situação dos direitos humanos. Ainda que o regime do Bahrein tenha dados alguns passos nesse sentido, a oposição e a maioria dos analistas concordam que não conseguiu o mínimo do que foi requerido. Inclusive, defensores dos direitos humanos asseguram que a situação piorou. Entretanto, o Departamento de Estado informou há uma semana que realizaria a venda de alguns artigos militares, como “peças de reposição e equipamentos de manutenção, necessários para a defesa externa do Bahrein e para o apoio das operações da Quinta Frota”. A chancelaria norte-americana também disse que o valor dessas vendas “não é tão grande a ponto de exigir uma notificação ao Congresso”. Nenhum desses artigos “pode ser usado contra os manifestantes”, acrescentou. Porém, os críticos temem que o governo esteja tentando dividir o volume original de armamentos em pacotes menores que não necessitem ser notificados ao Poder Legislativo. Daí desejaram saber com precisão quais equipamentos estão sendo vendidos. “Um pouco mais de transparência não faria mal algum à administração”, disse Brian Dooley, especialista no Golfo da organização Human Rights First, que foi proibida pelo governo baremense de entrar no país. No entanto, “é preciso questionar a oportunidade disso”, advertiu Dooley, referindo-se às tensões que aumentam na medida em que se aproxima o aniversário da primeira grande manifestação democrática, de 14 de fevereiro de 2011. “Fevereiro anuncia-se com mau agouro. Possivelmente haja tentativas de organizar um ou vários protestos, e o governo não dá sinais de poder controlá-los adequadamente. Manifestações muito menores foram reprimidas com uso excessivo da força”, afirmou Dooley à IPS. Envolverde/IPS * O blog de Jim Lobe está em www.lobelog.com.


por Jim Lobe*
O secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, ao centro, durante um de seus encontros no Rio de Janeiro. Foto: Fifa Inter Press Service - Reportagens

Mundial de 2014, a elitização do futebol no Brasil

[caption id="attachment_41149" align="alignright" width="300" caption="O secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, ao centro, durante um de seus encontros no Rio de Janeiro. Foto: Fifa"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 1/2/2012 – A pouca transparência nos preparativos para a Copa do Mundo de 2014 levanta dúvidas no Brasil sobre o legado social desse torneio e críticas sobre uma “elitização” do esporte mais democrático e popular do país. Os constantes aumentos nos orçamentos, pautados inicialmente para as obras de mobilidade urbana e de construção e remodelação de estádios nas 12 cidades que serão sede do Mundial, alimentam a percepção negativa. A previsão é que a Copa do Mundo dará grande visibilidade ao Brasil e atrairá numerosos investimentos. As projeções indicam que deverão visitar o país, durante as seis semanas de jogos, cerca de 3,4 milhões de turistas, representando a entrada de aproximadamente US$ 5,3 bilhões. O governo afirma que o Mundial aumentará o produto interno bruto em US$ 103 bilhões no período 2010-2019, o que se traduzirá em um aumento anual superior a 0,4%. “A Copa é para os brasileiros?”, perguntou à IPS o pesquisador Christopher Gaffney, do Programa de Pós-Graduação de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense, que faz um acompanhamento do desenvolvimento dos grandes projetos urbanos no país. “É uma Copa para os interesses da especulação imobiliária, para as grandes construções civis. Deixará de legado estádios bonitos, mas significará a elitização do futebol”, respondeu este pesquisador de origem norte-americana. O preço do ingresso poderá ficar entre US$ 120 e US$ 150, impossível de ser comprado pelo brasileiro médio, afirmou este geógrafo, que monitora especialmente os preparativos da Copa do Mundo desde que o Brasil foi escolhido como sede, em 2007. “Será uma elitização do futebol, que é o esporte mais popular e democrático do país e que será cada vez mais caro”, advertiu. Gaffney criticou o fato de essa elitização já se expressar “na construção de estádios faraônicos, multimilionários, que são a expressão de uma proposta para tornar o futebol elitista”. Para este especialista, o próprio termo “legado”, no qual as autoridades insistem para falar do saldo social positivo do Mundial, é um erro. “Quando se recebe uma herança não se deve pagar para tê-la, no Brasil, teremos de pagar para sustentá-la, então, na realidade é uma dívida”, ressaltou. Segundo Gaffney, a Fifa quer que o brasileiro pague caro para ir aos estádios, além do investimento sem precedentes que acontece para que aconteça a Copa do Mundo. “O brasileiro está pagando uma quantia multimilionária. Esta é a Copa mais cara da história e a Fifa quer que a sociedade pague ingressos muito caros para ver os jogos”, criticou. Do total de 12 estádios que serão construídos ou remodelados, nove o serão com dinheiro público. Em 2010, os cálculos oficiais estimavam que o investimento necessário para isto seria de US$ 3 bilhões, enquanto atualmente o valor aumentou para US$ 4 bilhões. “Em 2007, o então ministro do Esporte, Orlando Silva, disse que não seria gasto um centavo de dinheiro público para os estádios. Contudo, o investimento privado não apareceu. Na verdade, um estádio não dá lucro e é preciso mantê-lo”, esclareceu Gaffney. A maior fatia será destinada à remodelação do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, cujo orçamento atual aumentou até US$ 530 milhões. Nestas obras já foram gastos outros US$ 180 milhões, para melhorar suas instalações para a realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007. Nos próximos quatro anos, o Brasil também será sede de outros dois megaeventos esportivos: Copa das Confederações, em 2013, e Jogos Olímpicos, em 2016, no Rio de Janeiro. O problema, segundo Gaffney, é “que tipo de estádio teremos”. Para um estádio com tecnologia vanguardista e painéis fotovoltaicos produzidos por empresas europeias, “a conta final será insustentável”, porque será preciso importar a tecnologia e a mão de obra para instalação e manutenção, alertou. O custo anual da manutenção posterior seria de 10% do seu valor, por isso que “durante dez anos pagaremos por um novo estádio”, assegurou. Em cada um dos estádios acontecerão de quatro a sete partidas. No caso da cidade de Cuiabá, no Mato Grosso, serão quatro jogos, o que se traduz em um investimento de US$ 370 milhões para oito horas de Mundial, que depois ficarão subutilizados. Além disso, há custos sociais que podem transformar a Copa do Mundo na “Copa da Exclusão”, porque as obras para sua realização já causaram grande quantidade de despejo e expropriações em assentamentos onde vivem famílias pobres, as favelas, para estabelecer as linhas de ônibus de trânsito rápido. Nas proximidades do Maracanã, por exemplo, já foram desalojadas 400 famílias na Favela do Metrô para construção de um estacionamento. As famílias foram enviadas para uma distante região do subúrbio, com a qual não têm nenhuma ligação. Gaffney também calcula que, somente na cidade do Rio de Janeiro, cerca de 30 mil famílias serão retiradas das áreas onde vivem. Também se somam a isto denúncias de violações de direitos humanos, como a exploração dos trabalhadores que participam da construção dos estádios e de outras obras. Isso desembocou em greves e paralisações das obras, como ocorreu no Maracanã e no Mineirão. Os motivos foram baixos salários, más condições de trabalho e horários abusivos, devido a cronogramas mal administrados. “Com a pressão para acabar as obras, o que desaparece primeiro são os direitos dos trabalhadores”, denunciou Gaffney. O secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, visitou o Brasil em janeiro para verificar como estão os preparativos. Vistoriou obras em Brasília, Rio de Janeiro, Fortaleza e Recife. “A Copa do Mundo custa o que o país pode pagar e quer investir. A Fifa não pede nada além do que o país se propôs a fazer”, disse Valcke. Nesse sentido, ressaltou que foi o governo brasileiro que decidiu utilizar 12 sedes para o Mundial, “em cidades que carecem de infraestrutura, sistema de telecomunicação, hospedagem e transporte”, ponderou Valcke. “Por isto, é preciso fazer um grande volume de investimentos. Não somos uma organização privada, não existimos para lucrar, do dinheiro arrecadado, 80% retornam ao mundo do futebol”, acrescentou durante sua escala no Rio de Janeiro. Valcke se mostrou preocupado porque persistem “desencontros e discórdias” para a aprovação da Lei Geral da Copa, que tramita no Congresso e deverá ser aprovada em março. A lei estabelece os compromissos assumidos pelo governo com a Fifa para poder realizar o Mundial, na qual se incluem aspectos polêmicos com venda de álcool nos estádios, além dos habituais de infraestrutura, mobilidade urbana e hospedagem. “Fomos muito flexíveis nas negociações. Estamos em 2012 e é preciso finalizar as discussões. Desde 2007 vimos alertando que o tempo era curto”, ressaltou Valcke. Quanto aos ingressos, serão três milhões para a Copa do Mundo, mas apenas um milhão estará à venda para o público brasileiro e visitantes. Os outros dois milhões ficam nas mãos das delegações nacionais e da Fifa, explicou Valcke. Desde o Mundial de 2010, na África do Sul, a Fifa criou a Categoria Quatro, com entradas mais baratas, exclusivas para os torcedores do país anfitrião. Serão cerca de 300 mil ao custo aproximado de US$ 25. Os maiores de 60 anos também terão direito à meia-entrada. Após negociar com o governo, a Fifa também aceitou colocar cem mil ingressos à disposição de grupos especiais, como indígenas e integrantes do programa Bolsa Família. Envolverde/IPS


por Fabiola Ortiz, da IPS
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HIV desacelera a economia sul-africana

Cidade do Cabo, África do Sul, 31/1/2012 – Não fosse pelo HIV/aids, a África do Sul teria 4,4 milhões a mais de habitantes do que possui atualmente. Esta importante redução demográfica causa uma desaceleração econômica e problemas sociais, afirmam pesquisadores. Dados coletados pelo Instituto Sul-Africano de Relações Raciais (Sairr) mostram que, este ano, em teoria, o país deveria ter 55 milhões de habitantes, mas conta com apenas 50,6 milhões. Sem aids, até 2040 a população do país chegaria a 77,5 milhões de pessoas. “A redução no crescimento populacional tem impacto negativo na África do Sul, porque o grupo mais afetado pelo vírus HIV e a aids tem entre 15 e 49 anos, que é a idade mais produtiva”, explicou Thuthukani Ndebele, pesquisador do Sairr, sobre os dados divulgados no dia 23. “Se este grupo etário continuar morrendo precocemente, veremos um grave impacto social e econômico em todo o país”, alertou. A África do Sul perdeu rapidamente boa parte de sua força de trabalho, o que levou à queda de produtividade. A análise do Instituto, que se baseia em estatísticas da Sociedade Atuarial da África do Sul e do Instituto Sul-Africano para as Pesquisas do Futuro, conclui que quase um terço de todas as mortes registradas em 2011 estiveram relacionadas com a aids. A previsão é de que em 2025 esta proporção aumentará para 121%, segundo o Sairr. Especialistas em economia afirmam que isto desacelerará a economia. “Uma epidemia como esta, que afeta grande parte da população, sem dúvida tem um impacto econômico negativo”, confirmou David Hornsby, pesquisador do Departamento de Pesquisas Internacionais da Universidade de Witwatersrand, em Johannesburgo. “Isto limita a quantidade de pessoas educadas e qualificadas que participam da produção, criação de empresas, da inovação e do desenvolvimento”, ressaltou. O Sairr também prevê que o número total de pessoas com HIV/aids chegará a seis milhões em 2015, o dobro da quantidade registrada em 2000. Isto “deveria chamar seriamente a atenção para a África do Sul, já que implicará uma crise séria para o desenvolvimento econômico e social do país”, alertou Hornsby. O HIV/aids não só reduz a expectativa de vida como também é amplamente responsável por males sociais como órfãos e famílias onde meninos e meninas assumem responsabilidades de adultos. Em 2009, cerca de dois milhões de menores sul-africanos haviam perdido um de seus pais ou os dois, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Quase um terço da população do país tem menos de 15 anos, destacou Siobhan Crowley, do Unicef. “Isto significa um sério desequilíbrio demográfico. E o governo sul-africano se esforça para dar o apoio necessário a essas pessoas, em termos de educação, bem-estar social e serviços de saúde”, informou Crowley. A grande quantidade de órfãos nesta faixa etária, bem como famílias onde os chefes são os avós, começam a criar uma maior dependência do sistema de assistência social, que exige uma fatia ainda maior do orçamento nacional. As organizações sul-africanas de bem-estar social confirmam com persistência o aumento da indigência devido ao HIV/aids. “A quantidade de famílias necessitadas e de pessoas que não podem satisfazer suas necessidades mais básicas aumenta continuamente”, alertou Bernice Roeland, diretora da não governamental Aids Response, com sede na Cidade do Cabo. O que preocupa Roeland é que, sem um esforço concertado para prevenir novas infecções e manejar as existentes de modo mais efetivo, a carga futura sobre o sistema de segurança social da África do Sul logo se tornará insuportável. “Questões como o bem-estar social, a saúde, segurança alimentar, pobreza e moradia estão estreitamente interligadas”, disse Roeland. “Se os investimentos no longo prazo em nossa população, especialmente em nossas crianças, não forem suficientemente rigorosos, o sistema social poderá entrar em colapso”, ressaltou. Pesquisadores do Sairr se mostram particularmente preocupados pelo aumento da carga que o HIV/aids terá sobre o sistema de saúde pública. Segundo o Banco Mundial, em 2009 os sul-africanos gastaram quase 9% de seu produto interno bruto em saúde, quase o dobro do gasto na maioria das nações industrializadas. Esta porcentagem pode aumentar ainda mais num futuro próximo. “É uma quantidade significativa, 9%. Os orçamentos de saúde podem ter que aumentar ainda mais se os governos quiserem impedir que o HIV/aids tenha um efeito ainda mais negativo sobre a economia”, advertiu Ndebele. Como as pessoas soropositivas vivem mais graças aos tratamentos antirretrovirais, também geram grandes gastos em atenção à saúde no transcurso de sua enfermidade, acrescentou. Porém, isto tem um outro lado: maior acesso às terapias antirretrovirais ajuda os adultos com aids a continuarem economicamente ativos por mais tempo, aliviando outros custos do sistema social. Especialistas dos setores acadêmicos, econômico e social, enfatizaram a urgente necessidade de fazer maior esforço para impedir novas infecções com HIV como única maneira de reduzir efetivamente os custos deste mal na sociedade. “Na África do Sul vive 0,7% da população mundial, mas representa cerca de 17% de todos os casos de HIV no mundo. Esta correlação é preocupante e precisa mudar”, afirmou Ndebele. Envolverde/IPS


por Kristin Palitza, da IPS
O navio de assalto norte-americano USS Bataan navega pelo estreito de Ormnuz. Foto: Marinha de guerra de Estados Unidos Inter Press Service - Reportagens

“Falcões” batem em revoada diante de ameaça de guerra

[caption id="attachment_40986" align="alignright" width="300" caption="O navio de assalto norte-americano USS Bataan navega pelo estreito de Ormnuz. Foto: Marinha de guerra de Estados Unidos"][/caption] Washington, Estados Unidos, 31/1/2012 – O ensaísta britânico Samuel Johnson (1709-1784) escreveu que, quando um homem sabe que será enforcado, consegue se concentrar de forma maravilhosa. O mesmo pode ser aplicado aos “falcões” nos Estados Unidos, quando veem que a ideia de uma guerra com o Irã se faz mais real. A ameaça de Teerã, de bloquear o estratégico estreito de Ormuz, aumentou os temores de um conflito bélico, enquanto Israel fala em atacar instalações nucleares iranianas e continua a escalada de sanções econômicas internacionais contra a República Islâmica. A tensão aumentou também este mês com o assassinato – em um atentado, ao que parece, orquestrado pela agência de inteligência israelense Mossad – do cientista iraniano Mustafa Ahmadi Roshdan, que supervisionava a usina de enriquecimento de urânio de Natanz. Foi o quinto homicídio de um cientista iraniano nos últimos dois anos. Como se não bastasse, candidatos presidenciais do opositor Partido Republicano dos Estados Unidos fizeram belicosas declarações contra Teerã, desejosos de mostrar aos eleitores fundamentalistas cristãos e judeus seu amor por Israel, enquanto a influente revista Foreign Affairs publicou um artigo intitulado “Hora de atacar o Irã. Porque o ataque é a opção menos ruim”. O artigo foi escrito por Matthew Kroenig, que acaba de terminar um período de anônimo analista estratégico no Departamento de Defesa. Ele é favorável a uma ofensiva aérea limitada e cuidadosamente calibrada contra as instalações nucleares iranianas e suas defesas antiaéreas. Entretanto, no contexto do discurso a favor de uma guerra, várias figuras da elite da política externa, incluídos vários destacados “falcões” (ala mais belicista de Washington), que em seu momento apoiaram a invasão do Iraque, agora aconselham Estados Unidos e Israel a frearem a escalada de ameaças. “Novamente temos esta terrível atitude”, escreveu Leslie Gelb, presidente emérito do Conselho de Relações Exteriores, influente centro de estudos em política externa que publica a Foreign Affairs, e pediu a realização de sessões no Senado para analisar as consequências da guerra no Iraque. “Como antes, estamos deixando que um monte de ignorantes, políticos torpes e analistas em assuntos externos politizados deem ultimatos. Como antes, estamos deixando que nos conduzam rapidamente para uma guerra”, alertou este arrependido partidário da invasão do Iraque, se referindo ao coro de neoconservadores e outros “falcões” com os quais esteve alinhado. Por sua vez, o ex-analista da Agência Central de Inteligência (CIA), Kenneth Pollack, cujas opiniões são frequentemente citadas pelos “falcões”, escreveu no The New Republic que não só é preciso frear a escalada como o caminho das sanções seguido pelo governo de Barack Obama e pela União Europeia está se mostrando contraproducente. Pollack, da Brookings Institution, é autor do livro The Threatening Storm: The Case for Invading Iraq (A tempestade ameaçadora: os argumentos para invadir o Iraque), de 2002, obra de referência para os “falcões” antes da guerra contra esse país do Oriente Médio. “O problema é que as sanções (contra o Banco Central do Irã) têm tanto potencial daninho que podem ser contraproducentes”, escreveu Pollack, mencionando seu possível impacto negativo sobre as atribuladas economias do Ocidente e a dificuldade de mantê-las se causarem uma catástrofe humanitária como a sofrida pelo Iraque desde 1992 até a invasão em 2003. “Quanto mais tensão tivermos com o Irã, mais esse país responderá, e a forma como gosta de fazer isso pode derivar em uma escalada não planejada. Sem dúvida, uma guerra afetará muito, muito mais o Irã do que a nós. Mas também será dolorosa para nós, e pode durar mais tempo do que todos querem”, advertiu Pollack. Outra influente figura entre os “falcões” liberais, Anne-Marie Slaughter, professora da Universidade de Princeton, disse em seu site Project-syndicate-org que o Ocidente e o Irã estão em um jogo perigoso. Os Estados Unidos e a União Europeia colocam Teerã diante da encruzilhada de se “retratar publicamente, coisa que não o fará, ou aumentar suas provocações”, afirmou. “Quanto mais o Ocidente ameaçar publicamente o Irã mais facilmente os líderes iranianos poderão apresentar os Estados Unidos com o Grande Satã diante de setores da população iraniana que nos últimos tempos trataram de considerar este país como seu amigo”, escreveu Slaughter, que renunciou como diretora de planejamento de políticas no escritório da secretária de Estado, Hillary Clinton. “É hora de prevalecerem cabeças mais frias, com uma estratégia que ajude o Irã a retroceder”, ponderou Slaughter, sugerindo que se poderia reativar o abortado esforço de mediação de Brasil e Turquia, de 2010. Outro “falcão” que apoiou a guerra no Iraque, Bill Keller, colunista do The New York Times, se colocou contra o artigo da Foreign Affairs, assegurando aos seus leitores que ex-colegas de Kroenig no Pentágono “estão bastante surpresos com o que escreveu”. O artigo de Kroenig – afirma o colunista – “combina o alarmismo de uma ameaça nuclear do Irã com a mais otimista ideia de que os Estados Unidos são capazes de melhorar as coisas”. Ao contrário dos prognósticos de Kroenig, Keller escreveu: “Com segurança, um ataque contra o Irã unirá o povo iraniano em torno dos mulá e será preciso que o líder supremo redobre os esforços para obter capacidade nuclear, só que a maior profundidade abaixo da terra e sem inspetores internacionais”. E acrescentou que “no Pentágono, às vezes se ouve dizer que bombardear o Irã é a melhor forma de conseguir exatamente o que queremos evitar”. Em uma resposta a Kroenig intitulada “Não é hora de atacar o Irã”, Colin Kahl, que até dezembro trabalhou no Pentágono como chefe de políticas para o Oriente Médio, argumentou que esse cenário de um conflito limpo e calibrado é uma miragem. “Uma guerra contra o Irã seria extremamente violenta e um desastre, com uma quantidade significativa de consequências e de vítimas”, alertou.  Entre outras objeções, Kahl, do neoconservador Center for a New American Security, advertiu que um ataque preventivo contra o Irã poderia derivar em uma guerra regional, consolidar o apoio popular ao regime e transformar o discurso popular da Primavera Árabe em um discurso decididamente antinorte-americano. Envolverde/IPS


por Jim Lobe, da IPS
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Primavera Árabe só deu outra cor à censura

Cairo, Egito, 31/1/2012 – Os esforços dos regimes do Oriente Médio e do norte da África, para impedir o fluxo de informação durante as revoltas populares do ano passado, deixaram uma grande quantidade de jornalistas mortos, feridos ou detidos. Hoje, a censura continua. “No começo da Primavera Árabe, o controle de informação foi uma prioridade para as autoridades”, contou à IPS a pesquisadora para o Oriente Médio e a África do Norte da organização Repórteres Sem Fronteiras, Soazig Dollet. “Os governos tratam de censurar a cobertura da repressão lançada pelas forças de segurança contra os protestos, impedindo o acesso à internet e bloqueando os telefones celulares, bem como atacando jornalistas locais e internacionais”, denunciou. O levante popular na Tunísia, em janeiro de 2011, que levou à queda do presidente Zine al-Abidine Ben Ali, deu origem a uma onda de protestos que rapidamente se propagou pelo resto do mundo árabe. No dia 25 daquele mês, foi a vez do Egito, quando manifestantes começaram a reclamar o fim do regime de 30 anos do presidente Hosni Mubarak. Após o êxito de Egito e Tunísia, outros países como Bahrein, Marrocos, Líbia, Iêmen e Síria lançaram suas próprias revoltas. A imprensa teve um papel fundamental informando sobre as manifestações e a consequente repressão, mas os profissionais correram sérios riscos quando as autoridades trataram de bloquear a propagação de notícias. Um informe da Repórteres Sem Fronteiras diz que pelo menos 20 jornalistas foram mortos e 553 agredidos ou ameaçados na Primavera Árabe, o que fez do Oriente Médio e do norte da África uma das regiões mais perigosas para os trabalhadores da imprensa. “Os regimes dos países onde houve levantes populares tentaram, no começo, censurar a informação”, apontou Ayman Mhanna, diretor-executivo da Fundação Samir Kassir. “Começaram bloqueando o acesso a redes sociais como Facebook e Twitter, mas depois se deram conta de que podiam abrir esses sites para controlar quem escrevia e o que escreviam. Depois restringiram o acesso a jornalistas estrangeiros e independentes, a menos que estivessem totalmente sob seu controle”, disse Mhanna à IPS. “A situação melhorou um pouco, salvo na Síria e no Bahrein. No primeiro país, os jornalistas estrangeiros só entram furtivamente, a menos que aceitem trabalhar sob controle das autoridades, que, por outro lado, não garantem sua segurança. A morte de Gilles Jacquier (no dia 11) é um exemplo disso”, afirmou Mhanna. “No Bahrein, a situação é muito difícil. Os países do Conselho de Cooperação do Golfo têm interesses em bloquear a revolução nesse país. Todos os meios de comunicação opositores estão censurados, e os que são afinados com o regime distorcem totalmente a informação”, ressaltou. Defensores dos direitos humanos consideram o Oriente Médio e o norte da África uma das regiões com maior censura pela abundância de controles, leis, normas, hostilidades, detenções e restrições físicas. Disposições legais de todo tipo são usadas para deter jornalistas, acusando-os de prejudicar a reputação do Estado, freando, assim, denúncias de corrupção contra funcionários públicos. As autoridades do Bahrein utilizaram a Lei de Imprensa de 2002 para censurar. O Código Penal da Síria criminaliza a propagação de notícias no estrangeiro. Além disso, Egito e Síria têm leis de emergência que permitem perseguir e deter sem o devido processo jornalistas, trabalhadores de imprensa em geral e ativistas políticos. “Durante o regime de Mubarak houve muitas formas de censura, como pressão sobre os editores, proibições de impressão de determinados números em particular, confisco de edições diárias, hostilidades contra jornalistas e apreensão de seus pertences”, contou Ramy Raoof, diretor de mídia na internet para a Iniciativa Egípcia de Direitos Pessoais. “Estas coisas continuam ocorrendo, mas com diferentes funcionários. No lugar do pessoal do Ministério do Interior, entra o do sistema militar. Por exemplo, no dia 22 de fevereiro de 2011, uma carta da Marinha enviada aos jornais egípcios dizia, de modo resumido, que não publicassem nada sobre o exército”, afirmou Raoof à IPS. “Os códigos de imprensa da maioria dos países árabes pretendem respeitar a liberdade de imprensa, mas na realidade deixam amplos espaços para serem violados pelos regimes da vez. Alguns de seus artigos, como ‘desmoralizar a nação’, são usados muito nos últimos tempos na Síria. Acusar ativistas de traição ou de cooperar com inimigos estrangeiros é outra acusação à qual se recorre frequentemente”, esclareceu Mhanna. No entanto, um ano depois do começo da Primavera Árabe, quando vários países lutam para construir um futuro democrático e em outros continuam ocorrendo manifestações reclamando democracia, ainda é difícil para os jornalistas fazerem seu trabalho. Agora “os jornalistas podem expressar suas opiniões com maior liberdade porque quebraram a barreira do medo. Porém, continua sendo perigoso expressar sua opinião onde as revoluções conseguiram derrubar o regime ou onde cresce o peso de grupos religiosos extremistas”, alertou Mhanna. “De certa forma, mudou a natureza da censura. Agora, são perigosas as consequências do que escreve ou diz um jornalista”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Simba Shani Kamaria Russeau, da IPS
O encontro Conexões Globais, durante o FST. Foto: Clarinha Glock/IPS Inter Press Service - Reportagens

A contrassenha é “ocupar”

[caption id="attachment_40976" align="alignright" width="300" caption="O encontro Conexões Globais, durante o FST. Foto: Clarinha Glock/IPS"][/caption] Porto Alegre, Brasil, 31/1/2012 – A ocupação, que movimentos tradicionais como os sem teto ou os sem terra utilizaram por anos como instrumento de pressão, é a chave para lutar contra o sistema capitalista em crise também no mundo virtual. Ao grito de “Vamos ocupar o Parque do Flamengo” (no Rio de Janeiro), representantes de movimentos sindicais, dos sem terras, de mulheres, indígenas, negros e quilombolas fecharam no final de semana o Fórum Social Temático (FST) em Porto Alegre (RS). Durante a semana passada, o FST serviu como encontro preparatório para a Cúpula dos Povos, que acontecerá em junho de forma paralela à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). Enquanto isso, na reunião Conexões Globais, dentro do FST, ativistas convocaram uma campanha para bloquear sites de grandes empresas como forma de ocupação virtual. O FST, um desdobramento do Fórum Social Mundial (FSM), propiciou uma discussão das formas modernas de protesto. Do encontro participaram, pessoalmente e pela internet, representantes dos movimentos populares Primavera Árabe, Ocupe Wall Street e dos “indignados” de Espanha, Estados Unidos e Grã-Bretanha. Dois temas atraíram a maior parte das atenções: o que fazer após as ocupações e como conseguir que as novas ferramentas informáticas possam favorecer movimentos sociais tradicionais que ainda não têm acesso a elas. Em videoconferência a partir da Grã-Bretanha, o comunicador e pesquisador Matheus Lock não quis arriscar uma previsão sobre o futuro destas ocupações. “Durante o Ocupe Londres, as pessoas ficavam esperando orientações políticas pelo Twitter. Não há uma liderança. Há grupos de debates e alguns representantes. Participam, inclusive, os sem teto”, acrescentou. No mesmo painel, Wilhelmina Trout, da Marcha Mundial das Mulheres, se referiu às dificuldades para informar ao mundo o que ocorria na África subsaariana, onde a maioria das pessoas não tem eletricidade e muito menos internet. O jornalista Emiliano Bos, que cobriu diversos conflitos no norte da África e no Oriente Médio, recordou como, no ano passado, um milhão de pessoas fugiram da Líbia para países vizinhos como Egito e Tunísia. “Podíamos acompanhar a movimentação nas praças do Egito, mas não víamos que milhões de pessoas estavam se mobilizando, fora dos noticiários, em acampamentos para refugiados”, afirmou Bos. “Estas pessoas não estão representadas, não protestam, não ocupam. A única forma que têm de se expressar é por meio da fuga. Esperam um pedaço de papel que lhes permita sair dali”, comentou. O marroquino Hamouda Soubhi, do Fórum Social do Magreb, afirmou: “As lutas são comuns, apesar de falarmos idiomas diferentes. Quando os meios de comunicação anunciaram que havia uma revolução no mundo árabe, também nos surpreendemos, porque por muitos anos denunciamos as violações dos direitos humanos e fomos presos, mas os ocidentais queriam manter o regime, porque podiam exportar o petróleo e retirar matérias-primas”. “Para nós, não era uma revolução. Era apenas o direito de ter democracia, justiça e liberdade. Estamos diante de uma oportunidade histórica, e temos muitas: Rio+20, Fórum Social do Magreb, Fórum Social sobre a Palestina e os movimentos jovens da Europa e de diferentes partes do mundo que possibilitam mudanças, não amanhã, mas agora”, acrescentou Soubhi. Na visão do sociólogo e professor da Universidade Federal do ABC paulista, Sérgio Amadeu da Silveira, que participou das discussões na reunião Conexões Globais, afirmou que as mudanças passam pela criação de “democracias interativas” e não apenas participativas. “Falta os movimentos tradicionais unirem-se mais estreitamente com os ativistas da cultura hacker (piratas da informática), os ciberativistas. Assim se poderá construir uma nova esfera pública interativa, interligada, outro espaço para a formulação de políticas”, acrescentou. Para isso, segundo Silveira, “é preciso abrir o código-fonte do poder”, em referência ao conjunto de linhas de texto que funcionam como instruções para um computador executar um programa. Corporações que tomam decisões importantes e podem causar devastações ambientais, sociais e econômicas podem ser responsabilizadas pela sociedade civil, disse o professor. Por exemplo, “o Ocupe Wall Street pode cobrar destas grandes corporações o preço da crise. Os partidos políticos, em geral, não podem, porque são financiados por essas empresas”, destacou. Já o economista francês Gustave Massiah, ao falar na Sala dos Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, afirmou que a crise é social, geopolítica e ecológica, e que o desafio é conectar os novos movimentos populares com os grupos altermundistas que já lutavam contra o sistema.  Com ele coincidiu o ativista Sam Halvorsen, do Ocupe Londres, que admitiu que a questão ambiental não é, até agora, uma preocupação central. “Estamos pensando em como vincular os problemas derivados da crise com as mudanças do clima. É o momento de pensar como formar vínculos”, explicou. As mais de 30 organizações nacionais e internacionais que se reuniram no FST para definir as reivindicações que apresentarão na Cúpula dos Povos já utilizaram a internet para divulgar seu manifesto, embora saibam que precisarão mais do que isso para marcar uma diferença. A agenda começará em 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente. A partir daí e a até o dia 10 haverá jornadas internacionais de “lutas, denúncias e articulações”. Os dias 15 e 16 servirão para discussões, enquanto em 17 de junho haverá uma marcha de abertura da Assembleia Permanente dos Povos, que estará reunida até o dia 21 do mesmo mês. No dia 20 de junho será convocada uma grande marcha no Rio de Janeiro, que os organizadores esperam ver repetida em todo o país e em várias cidades do mundo, com uma visível ocupação das ruas. Envolverde/IPS


por Clarinha Glock, da IPS

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Austrália quer proibir fertilização do oceano com sulfato de ferro. Método reduziria acidificação e combateria efeitos da mudança do clima.

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Já pensou em vender ou comprar sobras de comida através da internet? Esta é a ideia da plataforma virtual Shareyourmeal, uma forma interativa de combater o desperdício de alimentos. Saiba mais aqui.

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CET de São Paulo abres inscrições para o curso “Pedalar com Segurança”. Saiba mais.

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Cerca de 62% dos acidentes da exploração de petróleo offshore aconteceram em plataformas com mais de trinta anos. Novo site do Greenpeace vai monitorar ocorrências no pré-sal.

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Unesco critica Austrália por riscos ambientais na Grande Barreira de Coral