Estados Unidos: Perder uma guerra ganha

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Estados Unidos: Perder uma guerra ganha


por Joaquín Roy*


Miami, Estados Unidos, janeiro/2012 – O fim oficial da guerra do Iraque é uma admissão de derrota. Recordará com dureza que todos perdem nas guerras, inclusive os vencedores. Nas guerras dos Estados Unidos, uma constante histórica desde a fundação da União é que em poucas ocasiões se reclamou vitória limpa. As duas únicas exceções são, por motivos diferentes, a justificada (se for aceito o motivo de opor-se à escravidão) Guerra Civil e, depois, o caso mais emblemático da dupla façanha de provocar a aniquilação do Eixo na Europa e na Ásia na Segunda Guerra Mundial. Embora a guerra da Coreia pudesse ocupar um lugar privilegiado, ao fim desse conflito e a consequente divisão da península, o mérito de ter liderado a coalizão das Nações Unidas ficou um tanto desvanecido. O mesmo se pode dizer da Primeira Guerra Mundial, já que a espécie de trégua que se estendeu após o armistício privou os norte-americanos de uma plena glorificação. Mais anteriormente, a invasão e captura de grande parte do território mexicano, em nome do Destino Manifesto, e depois a chamada Spanish American War em Cuba ficou como restos de vergonha e ressentimento. Estas contendas agressivas geraram o nascimento e a consolidação do anti-imperialismo latino-americano. A aventura do México foi um convite para que século e meio depois se produzisse uma “reconquista” mediante a imigração, legalizada e criminalizada. A de Cuba se converteu na plataforma de saída para a revolução castrista. As sucessivas invasões de um arco enorme de países no Caribe e na América Central, unidas ao apoio a ditadorzinhos de opereta, só serviu para a periódica aparição de caudilhos populistas que fazem do anti-imperialismo vazio a senha de identidade. Dentre todos os conflitos, o Vietnã é a derrota por excelência, ao custo de mais de 50 mil mortes norte-americanas, número que se multiplica com dimensões vertiginosas nas baixas civis. Agora se pode dizer que a retirada do Iraque se dá ao custo de mais de quatro mil mortos. Entretanto, a hipocrisia sem escrúpulos aceita simultaneamente que os cadáveres de soldados sejam trasladados praticamente incógnitos para suas sepulturas em caixões. É o preço e a conveniência que os cidadãos dos Estados Unidos estão dispostos a pagar pela manutenção de forças armadas profissionais e inteiramente voluntárias, às quais agradecem pelos serviços prestados. Assim se entende porque ninguém protesta contra o déficit de proporções astronômicas que ameaça hipotecar o futuro de pelo menos duas gerações preparadas para pagá-lo. Para trás fica o desastre dos atentados diários no território iraquiano abandonado ao controle das diversas facções. “I told you so” (já lhe disse isto), dizem os de língua inglesa com suficiência e hipocrisia. Na realidade, numerosos se abstiveram vergonhosamente, tanto diante do rumo que a reação ao 11 de setembro tomou a partir da Casa Branca, como na reeleição de George W. Bush. O país, então, ficou paralisado pelo medo, ao que parece, antipatriótico de analisar criticamente a irresponsável “missão civilizadora” que a máquina militar dos Estados Unidos colocara em marcha. Então, os norte-americanos se deixaram enganar pela denúncia da fictícia existência de armas de destruição em massa. Contudo, Bush continuou deslumbrado pelo que dizia sua assessora Condoleezza Rice, que lhe vendeu a noção de aproveitar uma oportunidade única na história, em uma segunda versão do triunfo do final da Guerra Fria, de estabelecer um controle sólido nessa região tão estrategicamente importante. Na verdade, a estratégia se reduz à posse e à mercantilização dos poços de petróleo. Agora, lamentavelmente, os mesmos que se abstiveram antes de se opor, agora sorriem satisfeitos também ao afirmarem que já “haviam dito antes”. Segundo esta malévola lógica, a melhor maneira de manter a estabilidade em algumas zonas do planeta é deixar os autocratas continuarem controlando seu terreno. Paradoxalmente, Bush se equivocou e deveria ter agido como seu pai, que deteve a corrida para Bagdá quando a guerra do Kuwait já estava ganha. É trágico aceitar agora que povos como Iraque – como Estado-Nação inexistente – não podem ser deixados sozinhos. Depois de uma ração de democracia imposta, tudo volta à violência, ao ódio tribal, à rejeição desses valores que chamamos de ocidentais, e a busca por oportunidades dos vizinhos (Irã) que parecem impelidos pelo lema popular de que “em rio revolto, ganham os pescadores”. Entretanto, pesando as diversas alternativas e custos, a próxima vez será preciso deixar esses desgraçados países como estavam. E, por extensão, a lógica se estenderia ao Egito de Mubarak e à Líbia de Gadafi. Envolverde/IPS * Joaquín Roy é catedrático Jean Monet e diretor do Centro da União Europeia, da Universidade de Miami (jrou@Miami.edu).

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Economia inteligente passa pela igualdade de gênero

Cidade do México, México, 19/1/2012 – A igualdade de gênero tem vital importância para alcançar o desenvolvimento e deve integrar os objetivos de políticas públicas do Estado, políticas que fazem funcionar as engrenagens do mercado, as famílias e as instituições públicas, formais e informais. No documento do Banco Mundial “Informe sobre o desenvolvimento mundial 2012: Igualdade de gênero e desenvolvimento”, concebe-se a igualdade de gênero como parte da economia inteligente: pode aumentar a eficiência econômica e melhorar outros resultados em matéria de desenvolvimento de três formas. Primeiro, eliminar as barreiras que impedem as mulheres de terem o mesmo acesso que os homens à educação, às oportunidades econômicas e aos insumos produtivos. Segundo, melhorar o status absoluto e relativo das mulheres promove outros resultados em matéria de desenvolvimento, incluídos os que afetam suas filhas e seus filhos (igualdade intergerações). Por fim, promover a autonomia das mulheres como agentes políticas e sociais pode modificar as opções em matéria de políticas e fazer com que as instituições sejam mais representativas de uma variedade maior de vozes. “As mulheres e os homens de todas as faixas etárias, níveis de renda e localidades consideram que a educação, a propriedade de bens, o acesso às oportunidades econômicas e às oportunidades de obter renda são a chave para melhorar seu bem-estar e o de suas famílias”, diz o informe. Pobreza e discriminação são barreiras para a igualdade de gênero, que exige um aumento generalizado do nível de renda, ampliação das oportunidades de emprego para as mulheres e prestação eficaz de serviços. Todos estes elementos são aplicáveis para o caso do México. Os fatores que aprofundam as brechas de gênero, segundo o Banco Mundial, são a persistência da segregação e as brechas de renda das mulheres geradas em quatro setores: 1. Famílias, pela destinação diferencial de trabalho e recursos; 2. Instituições formais. Preconceitos e discriminação no contexto jurídico; 3. Instituições informais. Normas sociais sobre o trabalho de cuidado e o mercado profissional; 4. Mercados. Diferenças de acesso ao mercado de trabalho, ou em propriedade dos ativos fixos (terra, moradia, água, crédito) e redes de contato. Como resultado, as mulheres trabalham duramente em suas casas e no mercado profissional – seja como agricultoras, empresárias ou assalariadas –, em condições pouco equitativas, caracterizadas pela desigualdade de acesso aos insumos produtivos. Esta armadilha impõe custos consideráveis para o bem-estar e as oportunidades econômicas das mulheres de hoje, e graves desestímulos para investir nas mulheres de amanhã. Também se traduz em menor peso da opinião das mulheres nas tomadas de decisões na sociedade e no lar. Por exemplo, em 14 anos (em nível mundial), a proporção de mulheres parlamentares aumentou apenas de 10% para 17%. O documento do Banco Mundial propõe quatro esferas de máxima prioridade para a formulação de políticas públicas, que finalmente formam parte essencial da solução: 1. Reduzir as disparidades de gênero quanto às dotações que criam capital humano, isto é, resolver a mortalidade feminina – neste país não se cumpriu a meta dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – e eliminar as desvantagens de gênero em educação, outra questão pendente; 2. Superar as brechas de renda e produtividade entre mulheres e homens, brecha que oscila entre 20% e 30% para as trabalhadoras mexicanas; 3. Reduzir as diferenças de gênero no tocante a fazer valer a própria opinião. É o caso dos recursos que os partidos políticos devem destinar à formação de lideranças femininas e que são desviados para outros propósitos; 4. Limitar a reprodução das desigualdades de gênero no tempo implica atenção às meninas, oportunidades econômicas e fortalecer a capacidade de ação e decisão das mulheres. É indispensável aumentar o tempo disponível das mulheres, para isso são necessários três tipos de políticas: cuidado infantil (creches), licença maternidade ou paternidade, e melhoria dos serviços de infraestrutura. Sobre isto, a situação das mulheres trabalhadoras do México é crítica, porque a carência de acesso a creches é muito grave. No setor agrícola, nove em cada dez mulheres não têm acesso, na indústria, sete em dez, e na área de serviços 7,7 em dez. O mesmo ocorre no caso da licença paternidade. É inegável a crescente presença das mulheres no mercado trabalhista como parte de um fenômeno mundial. No México, atinge participação de 46,9% nas áreas mais urbanizadas, segundo dados sobre a população economicamente ativa do terceiro trimestre de 2011. Isto se deve à redução das taxas de fertilidade, aumento nos níveis de educação e as recorrentes crises econômicas que, desde meados da década de 1980, empurram as mulheres para o trabalho remunerado. Não basta contarem com maior renda. É indispensável disporem de melhores instituições para a prestação de serviços, combinado com o funcionamento das famílias com melhor igualdade. Tarefas nas quais o Estado tem papel estratégico, com uma sociedade civil que incentive as políticas públicas. Envolverde/IPS * Este artigo foi publicado originalmente pela agência mexicana de notícias Comunicación e Información de la Mujer AC, Cimac. Sua autora é economista especializada em temas de gênero.


por Carmen R. Ponce Meléndez*
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Sites na internet em guerra contra a Sopa

Doha, Catar, 19/1/2012 – A regra número um para os jovens jornalistas quando começam a trabalhar em rádio é simples: não permitir “ar morto”. É preferível tossir ao microfone a permitir um longo silêncio. Para os sites na internet, a premissa equivalente é jamais se desconectar. Entretanto, a enciclopédia de conteúdo livre Wikipédia, a plataforma para compartilhar links web Reddit e outros importantes sites suspenderam seus serviços ontem em protesto à Lei Contra a Pirataria Online (Sopa), a ser votada no Congresso dos Estados Unidos. Se for aprovada, a lei – segundo seus críticos – restringirá a liberdade de expressão censurando o conteúdo na internet. “Imagine que você é um comerciante e que o governo possa entrar em seu negócio, pegar sua caixa registradora sem aviso prévio, advertência ou o devido processo, e que você nada soubesse até que esta desaparecesse”, disse o consultor em tecnologias da informação Nick Farr à rede árabe de televisão Al Jazeera. “É basicamente isto que estão tentando fazer na internet”, acrescentou. A Casa Branca uniu-se aos que criticam a Sopa, dizendo que “reduz a liberdade de expressão, aumenta o risco da segurança cibernética e atenta contra uma internet global dinâmica e inovadora”. Andrew McDiarmid, analista político no Centro para a Democracia e a Tecnologia, que acompanha de perto o projeto de lei, disse que a declaração da Casa Branca é um “grande avanço” e “um forte sinal” de que a Sopa “não foi completamente examinada”. Analistas acreditam que o projeto não irá adiante agora que é rejeitado pelo governo de Barack Obama, mas outros, incluindo Jimmy Wales, cofundador da Wikipédia, não estão tão certos. “Não temos indícios de que a Sopa tenha sido arquivada”, escreveu Wales no Twitter. “Precisamos enviar a Washington uma grande mensagem”. Outras companhias tecnológicas e de mídia, como Google, Facebook, Yahoo, Twitter, eBay e AOL, também se expressaram contra o projeto, apesar de não suspenderem seus sites em protesto. O fechamento da Wikipédia em inglês foi por 24 horas. Sites “desonestos” No entanto, enquanto a Sopa perde apoio político, outro polêmico projeto, a Lei para a Proteção da Propriedade Intelectual (Pipa), está em exame no Senado norte-americano. Seus principais partidários, incluindo a indústria cinematográfica, afirmam que o projeto servirá para proteger os direitos de propriedade intelectual na internet, permitindo que agentes da ordem fechem sites “desonestos” vinculados à pirataria e à violação do direito de autor. Michael O’Leary, porta-voz da Associação Cinematográfica dos Estados Unidos, que cuida dos interesses dos grandes estúdios de cinema, afirmou que a desconexão temporária voluntária da Wikipédia é parte de uma campanha de “armadilhas e distorções” para distrair o público do verdadeiro problema: “Estrangeiros continuam roubando o trabalho dos norte-americanos”. Críticos do projeto afirmam que as definições no texto são muito gerais, e que os Estados Unidos seguem o caminho de países como China e Irã, que censuram a internet. A preocupação pela pirataria – dizem – está sendo usada como cortina de fumaça para retirar material da rede. “Os requisitos para que os motores de busca eliminem determinados sites de seus resultados estabelecem um perigoso precedente em nível internacional, prejudicando a campanha dos Estados Unidos contra o uso de exatamente as mesmas táticas para suprimir a liberdade de expressão online” em outros países, disse McDiarmid à Al Jazeera. O congressista Lamar Smith, representante do Estado do Texas pelo opositor Partido Republicano e principal promotor do Sopa, disse no dia 13 que pretendia eliminar do projeto as disposições que exigem que os provedores da internet bloqueiem sites suspeitos de violar os direitos de autor. Como funciona Pela legislação proposta, qualquer um que seja considerado culpado de fazer circular material protegido por direitos de autor em mais de dez ocasiões no prazo de seis meses pode ser condenado a até cinco anos de prisão. Companhias como PayPal e MasterCard podem ser obrigadas a deixar de enviar pagamentos a sites acusados de ter conteúdo pirateado. Suponhamos que o advogado do cantor canadense Justin Bieber descubra que um jovem cineasta usou 20 segundos de imagens de um clipe de seu cliente para um filme que distribui na internet (são mais do que os 16 segundos permitidos), disse Farr para explicar os casos em que se aplicaria a lei e como isso afetaria a produção de conteúdos na rede. O advogado simplesmente tem de telefonar ao Escritório Federal de Investigações (FBI) ou ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos denunciando pirataria e, sem investigação formal por um juiz, todo o site onde foi divulgado o filme do cineasta seria fechado. “De uma só vez, uma empresa que está começando pode perder seu site, seus fundos e seus ganhos”, acrescentou Farr. “Do modo como a lei está escrita, não há como apelar, e existe um mandato judicial imediato. O fechamento de um site pode ser aprovado por um juiz de primeira instância, que basicamente o que faz é assinar”, alertou. Mesmo com a lei vigorando apenas nos Estados Unidos, muitos sites e serviços utilizados no mundo seriam afetados, já que esse país abriga grande parte da infraestrutura da internet e tem o controle sobre vários domínios.  Envolverde/IPS * Publicado em acordo com a Al Jazeera.


por Chris Arsenault, da IPS
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Tailândia: Anistia gera cautelosa esperança

Chiang Mai, Tailândia, 19/1/2012 – A libertação de 651 prisioneiros na Birmânia a partir deste mês é vista como uma vitória por parte de ativistas e familiares que lutam contra o infame sistema carcerário deste país da Ásia. Contudo, ainda não se sabe se a anistia será submetida a algum tipo de condição por parte do regime militar. Pelo menos 300 dos presos em vias de serem libertados foram detidos por motivos políticos, incluindo figuras de alto perfil como Khun Tun Oo, líder da etnia shan, U Gambira, líder da Aliança de Todos os Monges da Birmânia, e o jornalista Zaw Thet Htwe. Entretanto, Geraldine May, que lidera a campanha Free Burma VJ pela libertação de jornalistas, disse à IPS que seu trabalho não estará terminado enquanto não tiver provas de que o governo permitirá aos ex-prisioneiros participar da vida pública e das próximas eleições sem interferência. “A campanha não pode acabar agora. Temos de garantir que estão seguros e reintegrá-los às suas vidas”, defendeu May. Ela lembrou que as autoridades impuseram “condições” aos jornalistas para sua libertação, como no caso de Sithu Zeya, que terá de cumprir pena de 18 anos de prisão se for pego cometendo “qualquer crime no futuro”. Zeya trabalhava para a Voz Democrática da Birmânia (DVB), destacada organização de meios de comunicação exilada na Tailândia, responsável pelas imagens transmitidas ao mundo durante a Revolução do Açafrão em 2007, na qual milhares de monges protestaram pedindo reformas democráticas. No total, 13 jornalistas vinculados à DVB, presos sob as severas leis de mídia enquanto cobriam a Revolução do Açafrão e os estragos causados pelo furacão Nargis em 2008, seriam libertados como parte da anistia. Com o apoio da organização Repórteres Sem Fronteiras, a DVB lançou a campanha Free Burma VJ em maio de 2011, exigindo a imediata libertação de seus jornalistas. Hla Hla Win, uma repórter de 27 anos, foi uma das primeiras a recuperar a liberdade na manhã do dia 13. Uma anistia anterior, em outubro de 2011, foi concedida com base em um artigo da Constituição que permite indultos com a recomendação do Conselho Nacional de Defesa e Segurança, encabeçado pelo presidente. Contudo, a adotada agora em janeiro se baseou em outro artigo que não exige permissão do Conselho. Embora à primeira vista isto possa indicar uma perda de influência do Conselho em assuntos de importância nacional, também é possível significar que as libertações podem estar condicionadas ou ser revertidas. Ativistas discordam quanto ao número estimado de presos políticos. Grupos de direitos humanos, como Anistia Internacional, por anos pedem ao regime birmanês que permita a formação de um painel, liderado pela Organização das Nações Unidas (ONU), para comparar as diferentes listas. “Isto não seria apenas para encontrar um terreno comum, ou, talvez, identificar significativas diferenças, mas também serviria para assegurar que nenhum preso político seja esquecido”, explicou o investigador-chefe da Anistia para a Birmânia, Benjamin Zawacki. O número de presos políticos continua sendo motivo de controvérsia devido à falta de acesso à informação no sistema judicial. A Associação de Assistência a Prisioneiros Políticos, com sede na Tailândia, afirma que ainda há 1.260 pessoas nas prisões da Birmânia por motivos políticos, mas a Liga Nacional pela Democracia, o principal partido de oposição, insiste que são 300. Oficialmente, o governo da Birmânia nega a existência de presos políticos, e diz que todos os prisioneiros são criminosos comuns. Entretanto, mesmo os grupos de oposição mais acirrados reconhecem que a última anistia terá implicações de longo alcance e a consideram um sinal de que a nova administração está mais disposta a se reconciliar com seus críticos. O regime militar que governa esse país do sudeste asiático desde 1962 convocou eleições em 2010 como parte de um “mapa para a democracia”. As eleições, embora consideradas uma farsa pela oposição, levaram à adoção de um novo sistema de governo encabeçado pelo presidente Thein Sein, do Partido União, Solidariedade e Desenvolvimento, favorável à junta militar. Aung San Suu Kyi, a mais importante líder opositora e prêmio Nobel da Paz, está sob prisão domiciliar há 14 anos consecutivos, disse que a libertação de presos políticos é um “sinal positivo”, e anunciou planos de disputar uma cadeira no parlamento nas eleições previstas para 1º de abril. Os perfis dos presos libertados também sugerem a disposição do governo de forjar melhores relações em nível local e também internacional. “Muitos que foram soltos nesta ocasião podem ser considerados líderes, de uma forma ou de outra: líderes do grupo Geração 88 (movimento estudantil opositor de 1988), da Revolução do Açafrão, da etnia shan e da Liga Nacional pela Democracia”, informou Zawacki. A comunidade internacional também responde positivamente à anistia. Governos que tradicionalmente apoiam sanções contra o regime militar birmanês começaram a abrir caminhos de reconciliação em resposta às mudanças que ocorrem nesse país desde o ano passado. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, prometeu “responder com ações às ações” do governo da Birmânia, durante entrevista coletiva no dia 13, enquanto a Noruega levantou seus embargos sobre a Birmânia para incentivar companhias privadas a investirem nesse país. Entretanto, defensores dos direitos humanos continuam pressionando para a libertação de todos os presos políticos. A Human Rights Watch, com sede em Nova York, pediu ao governo birmanês que permita que observadores internacionais constatem o paradeiro e o número exato dos perseguidos políticos. Envolverde/IPS


por Preethi Nallu, da IPS
Templo das Mil Colunas de Chichén Itzá, na península de Yucatán. Foto: Creative Commons Inter Press Service - Reportagens

Maias, atores e vítimas do turismo apocalíptico

[caption id="attachment_39778" align="alignright" width="300" caption="Templo das Mil Colunas de Chichén Itzá, na península de Yucatán. Foto: Creative Commons"][/caption] Cidade do México, México, 19/1/2012 – Os povos indígenas do sudeste do México exigem participar dos programas oficiais para aproveitar o interesse mundial pela “profecia maia”, enquanto temem o desencadeamento de um “turismo apocalíptico” que afete e contamine seus locais sagrados. Organizações indígenas denunciaram à IPS sua exclusão do projeto do plano promocional Mundo Maia, lançado pelo governo no dia 16 para atrair visitantes locais e estrangeiros às zonas indígenas dos cinco Estados onde se localizam dezenas de antigas cidades. “Não ouvem nossa voz, continuam agindo sem nos levarem em conta. Somente os consócios vão se beneficiar”, disse à IPS Artemio Kaamal, coordenador-geral do não governamental Fórum Permanente sobre Política Indígena Kuxa’ano’on (vivemos, em língua maia). “O foco é comercial, prescindindo de nossa cultura, nossas raízes e nossas práticas”, acrescentou. A entidade, fundada em 2005, atua nos Estados de Campeche, Chiapas, Quintana Roo, Tabasco e Yucatán, para defender os direitos dos povos indígenas no México. A onda de atração mundial pela civilização maia em 2012 alimenta-se de interpretações de que seu calendário estabelece que em 21 de dezembro ocorrerão grandes catástrofes e o fim do mundo, algo negado pelos sábios e representantes de seus próprios povos. A campanha do governo conservador de Felipe Calderón se desenvolverá em seu próprio país, nos Estados Unidos, na Europa e Ásia, e centra-se em promover a região da Mesoamérica, onde floresceu a civilização maia, que se estende pelo que agora constitui o sudeste mexicano, mais Belize, Guatemala, El Salvador e Honduras. Com investimento de US$ 49 milhões, o México espera receber 52 milhões de turistas nacionais e estrangeiros e arrecadar cerca de US$ 14 bilhões. O programa Mundo Maia inclui uma série de atos gastronômicos, arqueológicos e astronômicos. O calendário maia estabelece que o chamado período 13 Baktún finaliza em 21 de dezembro, data do solstício de inverno no hemisfério norte, o que alimenta as previsões apocalípticas. Este período começou, segundo os historiadores maias, no dia 11 de agosto de 3114 antes de Cristo e ao terminar terá início um novo ciclo de uma chamada conta longa de 144 mil dias, semelhante ao que termina. O programa e as promoções pautadas centram-se na contribuição da cultura maia, sem nenhuma referência às interpretações apocalípticas sobre o significado deste fim de ciclo em seu calendário, que sábios e historiadores indígenas qualificam de incorretas, quando não de manipuladas ou histéricas. “Nossos associados do centro e sul do país nos disseram desconhecer as atividades oficiais, apesar de estarem programadas para seus territórios. Queremos deixar claro que não é uma questão de filme ou de folclore, mas de um suceder histórico, de geração em geração, uma herança espiritual”, disse à IPS Cecilio Solís, presidente da Rede Indígena de Turismo do México (Rita), criada em 2002 por 32 sócios, que aglutina 160 empresas indígenas com cinco mil membros e 20 mil beneficiários. Dos 112 milhões de habitantes deste país, 6,6 milhões são indígenas, segundo o censo de 2010 do Instituto Nacional de Estatística e Geografia, cujo registro restringe os moradores originários a pessoas com mais de cinco anos que falam a língua ancestral. Desse total, 786 mil são maias. Contudo, organizações indígenas elevam para mais de dez milhões os integrantes das diferentes etnias que sobrevivem no México. Até a conquista espanhola no Século 16, no território predominavam os astecas, mas os maias exerceram grande influência no sudeste, por suas expressões artísticas e conhecimentos científicos e astronômicos. Atualmente, calcula-se que existam no México 1,2 milhão de micro e pequenas empresas assentadas em territórios indígenas, com média de 25 trabalhadores cada uma. A Pesquisa Nacional da Discriminação no México de 2010 constatou que os principais problemas percebidos pelas minorias étnicas são discriminação, pobreza e apoio do governo. Esse instrumento mostra que quase quatro em cada dez membros de um grupo étnico consideram que não têm as mesmas oportunidades que os demais para conseguir emprego, e três em cada dez acreditam não ter as mesmas oportunidades para receber ajudas governamentais. “Tememos que nossos locais sagrados sejam afetados. Por isso nos preocupa mais a atenção estrangeira. Esperamos que os recursos cheguem às nossas comunidades”, ressaltou Kaamal. Os empresários originários do México lançaram, no dia 17, o primeiro Centro Empresarial Indígena, na cidade de Toluca, a 66 quilômetros do norte da Cidade do México, que conta com 40 filiados. A meta é constituir este ano outras 24 organizações similares que sejam o germe da Câmara Empresarial Indígena do México. As companhias indígenas dedicam-se a atividades que vão do ecoturismo à extração de minerais, sem que haja estatísticas de sua contribuição para a economia. A Universidade Autônoma do México realiza um estudo sobre o valor desse setor. “Vemos um processo de reencontro, de reconstrução, de reunião entre os diferentes povos indígenas. Vemos também iniciativas que não são apenas de autossustento, mas que impulsionam uma economia local que é uma válvula de escape diante das pressões” sociais e econômicas, destacou Solíz. A organização Rita pertence ao Conselho Indígena Mesoamericano e ao movimento autóctone continental Abya Yala (terra que floresce, em língua cuna e que designa a América). Com elas a rede coordena atividades relacionadas com a mudança de ciclo. As agrupações indígenas querem fortalecer a organização de seus povos, interagir com instituições regionais e preparam atividades sobre assuntos espirituais, mudança climática, proteção da biodiversidade e a reivindicação dos direitos indígenas. “Temos de buscar uma maneira de nos organizarmos e nos aproximarmos de outros povos indígenas. Nos falta confluir em uma só organização para definir o rumo de nosso destino”, ponderou Kaamal. Envolverde/IPS


por Emilio Godoy, da IPS
Jovem somaliano caminha pelo bairro de Hodan, na capital. Foto: Abdurrahman Warsameh/IPS Inter Press Service - Reportagens

Somália: regresso depois do inferno

[caption id="attachment_39638" align="alignleft" width="300" caption="Jovem somaliano caminha pelo bairro de Hodan, na capital. Foto: Abdurrahman Warsameh/IPS"][/caption] Mogadíscio, Somália, 18/1/2012 – Em carros puxados por burros e carregados com seus pertences, somalianos regressam após quatro anos aos destruídos bairros desta cidade, que estiveram sob controle do grupo islâmico Al Shabaab. Agora que grande parte da capital foi recuperada pelas forças do governo, apoiadas pela União Africana, os moradores se animam para retornar às suas casas após a surpreendente retirada dos extremistas em agosto do ano passado. Apesar de ainda ocorrerem incidentes, há uma crescente sensação de segurança. Os residentes iniciaram um lento processo de reconstrução de suas casas e de suas vidas, embora não haja dados oficiais de quantos voltaram para as áreas antes ocupadas por Al Shabaab. Muitos tiveram que passar anos em condições de miséria em abrigos improvisados nos arredores da cidade. Maryan Guled viveu com seu marido e cinco filhos no acampamento de Elasha, arredores de Mogadíscio, desde 2008. Agora puderam regressar ao seu antigo bairro no distrito de Hodan, mas encontraram sua casa completamente destruída após os confrontos pelo controle da cidade. A família fora obrigada a abandonar a casa depois que uma rajada de tiros matou a irmã de Guled. “As coisas começaram a ir mal quando, surpreendentemente, nosso bairro se transformou, em 2008, em palco de bombardeios indiscriminados e tiroteios. Minha irmã e muitos de meus vizinhos, que estavam bem próximos, morreram diante dos meus olhos. Tivemos que fugir só com nada além de nossas vidas”, contou Guled, enquanto varria o quintal de sua arruinada casa. Ela disse que não sabe como poderá pagar a reforma. O Governo Federal de Transição Somaliano, financiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e por países doadores, não conseguiu apoiar economicamente os moradores para que reconstruam suas casas. E as agências de ajuda internacionais continuam ocupadas dando assistência aos refugiados por causa da fome. E os desafios de segurança persistem. Centenas de minas terrestres sem explodir, colocadas pelo Al Shabaab, permanecem espalhadas em todas as áreas abandonadas pelos rebeldes islâmicos. Funcionários do governo alertaram os cidadãos para a presença de explosivos, que já mataram vários civis e feriram dezenas. Os que regressam também dizem que os próprios soldados governamentais são uma ameaça. Soldados são acusados de assassinatos, violações, roubos e saques. O governo impôs o estado de emergência nas áreas antes ocupadas pelos islâmicos, enquanto os tribunais militares já julgaram e condenaram vários soldados por violações e saques. Alguns foram condenados à morte por assassinarem civis, e outros receberam penas de prisão. Nas últimas semanas os abusos diminuíram. Enquanto isso, escolas e mercados começam lentamente a reabrir em Mogadíscio, enquanto o governo municipal faz reparos na principal avenida da cidade. A iluminação voltou a alguns distritos, as ruas foram limpas e o lixo coletado. Contudo, os demais serviços ainda estão ausentes. Apenas companhias privadas administram água e eletricidade para os moradores que podem pagar. Os hospitais nas áreas abandonadas pelos islâmicos estão destruídos ou fechados. Dahir Kulmiye e sua família de cinco membros voltaram à sua casa parcialmente destruída em Hodan, pouco depois que os rebeldes abandonaram a cidade, em agosto. Ele disse que a falta de água e eletricidade é o maior problema, enquanto as empresas públicas, destruídas durante duas décadas de guerra civil, tentam reiniciar seus serviços. “A falta de água potável é outro grande problema para nós desde que regressamos, há um mês. A companhia de energia restaurou a eletricidade em muitas casas, e esperamos que chegue até a nossa em breve”, afirmou Kulmiye à IPS, acrescentando que seus filhos não tiveram outra opção a não ser ir para uma escola distante de casa porque as mais próximas estão em reforma. Mohamed Hallane contou que sua família queria regressar à sua antiga casa, no distrito de Hawlwadag, no sul da capital, antes reduto do Al Shabaab. Mas a casa foi destruída por morteiros e precisa de grande reforma para que possam se mudar. “Fui ver minha casa. As áreas estão seguras, mas quase todas as casas em nosso bairro apresentam marcas de projéteis, e há buracos feitos por balas por todo lado”, descreveu Hallane à IPS. Enquanto os somalianos tentam reconstruir suas vidas, também encontram tempo para desfrutar. Pela primeira vez em anos puderam visitar as praias de Mogadíscio. Centenas de pessoas foram à praia de Lido no final de semana do Natal. Envolverde/IPS


por Abdurrahman Warsameh, da IPS
Pessoas a pé se tornaram alvo de instituições de microcrédito. Foto: Ignatius Banda/IPS Inter Press Service - Reportagens

Microcrédito é antídoto contra doença de janeiro

[caption id="attachment_39631" align="alignright" width="300" caption="Pessoas a pé se tornaram alvo de instituições de microcrédito. Foto: Ignatius Banda/IPS"][/caption] Bulawayo, Zimbábue, 18/1/2012 – Thomas Dlakama sofre todos os anos a “doença de janeiro”, cujos sintomas são a carteira vazia, pressão alta pelo sustento da família e inexplicáveis desejos de que caia um presente do céu. O fenômeno afeta milhões de pessoas no Zimbábue. Este mal desperta no primeiro mês do ano e, para Dlakama, se tornou um ritual desagradável que, com os bolsos vazios após as festas de fim de ano, o fazem pensar em como pagar a escola dos filhos com seu minguado salário de funcionário público, pagar as contas e tudo o mais. Janeiro “é um mês terrível e se tornou uma tradição pedir dinheiro emprestado depois do Ano Novo”, disse Dlakama, ao relatar seu prolongado conhecimento das microfinanças. Dlakama é um dos muitos funcionários que se dirigem às instituições de microcréditos de Bulawayo, onde outros funcionários do Estado como ele fazem fila para pedir um empréstimo, apesar das denúncias de que a falta de controles permitiu o surgimento de inescrupulosas entidades financeiras. “As instituições se aproveitam de nossa pobreza para impor taxas de juros ridículas”, lamentou Dlakama. Aplicam entre 30% e 40% de juros, enquanto os emprestadores independentes, que não pedem garantia, cobram até 50%. As instituições de microcrédito ressurgiram depois que o Zimbábue suspendeu sua moeda como divisa legal, em 2009, para evitar a hiperinflação. O dólar zimbabuense foi substituído por euro, dólar americano, rand sul-africano ou pelo kwacha zambiano. Os baixos salários obrigam Dlakama e outros trabalhadores a pedirem créditos para minimizar as dificuldades econômicas. Numerosos governos do Norte e agências de desenvolvimento elogiam o papel importante do microcrédito nos países em desenvolvimento, mas no Zimbábue o setor foi criticado por endividar os mais pobres com suas altas taxas de juros. As instituições financeiras concedem empréstimos em função do salário mensal do interessado. Mas este país, com uma flagrante disparidade entre renda e custo da cesta básica, se tornou um terreno fértil para o florescimento de operadores fantasmas, segundo analistas locais. O Conselho de Consumidores do Zimbábue informou que uma família média de seis integrantes precisa de mais de US$ 500 por mês para cobrir suas necessidades básicas, incluídas as contas de serviços. Mas o Congresso de Sindicatos disse que alguns de seus filiados ganham apenas US$ 100 por mês. Os professores, principais clientes procurados pelas instituições de microcrédito por sua estabilidade salarial, ganham US$ 300 mensalmente. “Conheço bem a doença de janeiro”, disse a professora Jennifer Darirai. “Tenho quatro filhos em um internato e com meu salário não posso pagar tudo que preciso e devo recorrer a pequenos empréstimos, embora contra minha vontade. Mas, o que posso fazer?”, disse à IPS. O Ministério das Finanças registrou 37 instituições no final de 2010, mas estima-se que possa haver centenas delas, pois muitas operam sem autorização. As casas de microcréditos estão regidas pela lei que obriga as instituições financeiras não bancárias a estarem registradas. “Há muitas organizações de microcrédito se aproveitando das pessoas pobres, precisamos de controles mais rígidos”, disse Garfield Murombedzi, assessor nessa área de um banco local. “Todos os dias vêm pessoas pedir empréstimos para pagar suas dívidas em outro lado. Naturalmente alguma coisa está errada”, acrescentou. “Contudo, não podemos seguir a pista, pois mesmo os operadores com licença vencida continuam trabalhando, enquanto outros nem mesmo se preocupam em se registrar”, ressaltou. Desde a independência do Zimbábue, em 1980, o microcrédito é visto como uma fonte de dinheiro fácil e não conseguiu se livrar das críticas que gera o endividamento permanente de pessoas de baixa renda. Sam Dube, dono de uma instituição de microcrédito de Bulawayo, afirmou que os pedidos de controles mais rígidos são justificados, apesar de qualificarem as operações do setor de “especulativas”. “Compreendemos a preocupação de algumas pessoas, mas as críticas surgem de prestamistas inescrupulosos. Alguns são banqueiros qualificados e conhecem muito bem as normas do setor. Entretanto, as pessoas que mancham nosso nome com taxas de juros exorbitantes, ficando com a propriedade dos outros sem justificativa, operam fora de nosso mandato. Somos um setor bem regulado, mas há enganadores como em qualquer outro”, afirmou Dube à IPS. A Associação de Instituições de Microcrédito do Zimbábue disse que os membros que violam as normas perdem a licença. Mas Murombedzi alegou que as pessoas necessitadas não verificam se as instituições estão registradas, ou se cobram taxas de juros ilegais. “Esta é a questão importante aqui, muitos setores reclamam autorregulamentação no Zimbábue, mas as pessoas violam suas próprias regras. Deve haver uma autoridade superior que as supervisione”, disse Murombedzi, se referindo à falta de controles. O Ministério das Finanças já alertou no passado sobre instituições financeiras não registradas, inclusive alguns bancos foram fechados no pior do caos econômico de 2008. No entanto, parece que haverá instituições de microcrédito inescrupulosas por muito tempo mais, devido à convivência de baixa renda com falta de controles. Envolverde/IPS


por Ignatius Banda, da IPS
Grandes extensões de floresta no noroeste de Paquistão foram cortadas. Fonte: Ashfaq Yusufza/IPS Inter Press Service - Reportagens

As árvores também são vítimas do Talibã

[caption id="attachment_39622" align="alignleft" width="200" caption="Grandes extensões de floresta no noroeste de Paquistão foram cortadas. Fonte: Ashfaq Yusufza/IPS"][/caption] Peshawar, Paquistão, 18/1/2012 – As florestas do noroeste do Paquistão se converteram nas últimas vítimas do movimento islâmico Talibã, que desesperadamente busca recursos para financiar sua campanha bélica. A outrora bela paisagem de Swat, distrito administrativo na província de Khyber Pakhtunkhwa, ficou dizimada depois que os combatentes arrasaram o lugar em busca de madeira. “Quase todas as áreas florestais foram despojadas inexoravelmente de árvores, mas Swat, em particular, foi a mais castigada pelas atrocidades do Talibã nos últimos dois anos”, disse à IPS o secretário da organização Sarhad Awami Forestry Ittehad (Safi), Jamshaid Ali Khan. A Safi foi fundada em 1997 para conservar, administrar e desenvolver as florestas paquistanesas, proporcionar renda aos trabalhadores locais, reduzir a contaminação aérea e minimizar a erosão dos solos nas inundações. Contudo, suas atividades foram severamente restringidas entre 2007 e 2009, quando o Talibã assumiu pleno controle de Swat. Apesar de todos seus melhores esforços, a organização não conseguiu deter o corte de árvores. Jamshaid lamentou a tática do Talibã de apelar para os serviços da “máfia da madeira” para comercializá-la a preços insignificantes. Rahim Gul, pesquisador da Universidade de Peshawar, disse que o Talibã apelava frequentemente para os recursos naturais quando ficava sem dinheiro. “O Talibã financia seu movimento extraindo madeira ou impondo altos impostos ao transporte de mármore nas Áreas Tribais Federalmente Administradas”, explicou Gul, lembrando que os métodos para o corte usados pelos islâmicos causavam danos permanentes no meio ambiente. “Uma árvore cem anos para amadurecer antes que possa ser cortada para ter sua madeira usada na construção. O governo corta as árvores após uma avaliação, e volta a plantar”, explicou Jamshaid. A maioria das árvores cortadas pelo Talibã ainda não tinha atingido plena maturidade, acrescentou. Citando uma investigação feita pelo Instituto de Florestas do Paquistão, com sede na cidade de Peshawar, Gul afirmou que o Talibã também realiza sequestros extorsivos, cultiva papoula (matéria-prima do ópio, da heroína e da morfina) e abriga criminosos em troca de dinheiro, tudo para obter fundos. Também extrai e vende pedras preciosas, incluindo esmeraldas de grande qualidade. Contudo, a extração de madeira continua sendo o método mais empregado, e de longe o mais daninho. Mohammad Jawad, funcionário florestal de Khyber Pakhtunkhwa, explicou que antes de o Talibã lançar sua campanha na região, em 2005, a província contava com 40% das florestas do país. Embora não tenham sido feitas novas investigações desde então, “acredita-se que o Talibã destruiu 80% dessas florestas”, afirmou. A Divisão de Malakand, noroeste do Paquistão, antes famosa por suas vastas quantidades de pinheiros e cedros, entre outras árvores, agora apresenta uma paisagem desértica. “Menos florestas significa menos dinheiro para as mais de 20 mil famílias em Swat e nos distritos vizinhos da Divisão Malakand, pois todos obtêm seu sustento das árvores, que lhes proporcionam renda”, acrescentou. Ameer Muhammad Khan, da Safi, disse à IPS que as comunidades locais dependem das florestas para obter lenha e construir suas casas, entre outras coisas. “O governo tem a responsabilidade de proteger essas florestas, mas não conta com a autoridade necessária para deter o Talibã, que privou 80 mil pessoas de se beneficiarem com a venda sustentável das árvores”, ponderou. Segundo a Safi, cada morador das áreas ricas em florestas de Malakand recebia cerca de US$ 100 em direitos anualmente antes que o Talibã arrasasse suas árvores, e agora só conseguem US$ 10. A população maldiz o movimento por ter arruinado sua renda. O governo também sofreu perdas superiores a US$ 350 milhões, segundo a corporação de Desenvolvimento Florestal. O ministro de Florestas de Khyber Pakhtunkhwa, Wajid Ali Khan, disse à IPS que sua pasta lançou um plano destinado a mobilizar as comunidades locais para plantar mais árvores, com a esperança de repor as perdidas para o Talibã. “Também iniciamos consultas com legisladores, funcionários públicos, comunidades locais e os meios de comunicação para promover bons hábitos de plantio nas áreas afetadas”, acrescentou. O programa também busca mobilizar, organizar e fortalecer os proprietários de florestas, os titulares de direitos (aqueles que se beneficiam com venda de árvores propriedades do governo) e os não proprietários, para influenciar reformas, acrescentou o ministro. “Embarcamos em reformas em colaboração com os titulares de direitos para realizar planos de plantação e prevenir futuros desmatamentos. Foram criados mais de 20 postos de vigilância nas florestas, administrados pelas comunidades locais em colaboração com o governo”, informou. Envolverde/IPS


por Ashfaq Yusufza, da IPS
1 Inter Press Service - Reportagens

Contagem regressiva para encontro comunista

Havana, Cuba, 18/1/2012 – Ao aproximar-se a inédita Conferência Nacional, no dia 28, que dará continuação ao VI Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC), a reiteração oficial de que o encontro se concentrará em questões internas da organização parece excluir da agenda os temas sociais. Para analistas, modernizar o PCC, o partido único cubano e no poder desde a década de 60 do século passado, é estratégico, mas não é menos dar uma resposta orgânica às aspirações de setores da sociedade civil interna sobre problemas que ficaram inconclusos ou não foram mencionados no encontro realizado em abril do ano passado. Entretanto, o presidente Raúl Castro diminuiu as expectativas para a próxima reunião. “Não se deve ter grandes ilusões com a Conferência. O Congresso é o definitivo, agora se trata de uma questão interna do partido”, disse no dia 12 à imprensa estrangeira em Cuba. O VI Congresso traçou o mapa para as mudanças econômicas e deixou para a Conferência assuntos como novas mudanças na nomenclatura política ou adotar uma decisão sobre o prazo não superior a dez anos de permanência em cargos partidários e de governo. Segundo fontes oficiais, a reunião também deverá avaliar, “com realismo e espírito crítico”, o trabalho do PCC e precisar as transformações necessárias para que a organização possa exercer com eficiência seu papel de “força dirigente superior da sociedade e do Estado” que lhe confere a Constituição cubana. Também terá faculdade para atualizar os métodos e o estilo de trabalho, as estruturas políticas de quadros e continuar avançando no que Castro denomina “processo gradual de renovação e rejuvenescimento da cadeia de cargos políticos e estatais”. A Conferência Nacional pode ser convocada entre um e outro Congresso para tratar de “assuntos importantes da política do partido”, e pela primeira vez este instrumento interno é utilizado pelo PCC. Sua agenda foi divulgada em um “documento base” que inclui temas sociais, além dos assuntos internos da organização governante. Ao contrário do documento das Diretrizes da Política Econômica e Social, submetido a debates populares com participação aberta antes de ser aprovado no Congresso de abril, o texto da Conferência foi analisado apenas pelos filiados do PCC e da União de Jovens, a organização política da juventude cubana. Para o ensaísta Víctor Fowler, o encontro partidário pode ganhar em ressonância se todos os meios de comunicação (e, em geral, a própria vida do país) estivessem voltados para a discussão cidadã, pública e “nacional” do estilo de trabalho do PCC, bem como ao seu papel e lugar nos tempos atuais. Ao participar junto com outros intelectuais cubanos de um debate sobre a Conferência convocado pela publicação católica Espaço Laico, Fowler contrapôs essa “anemia” informativa com o processo equivalente a uma grande assembleia social que aconteceu a partir das discussões em bairros e locais de trabalho sobre as Diretrizes. No mês passado, o segundo secretário do comitê central do PCC, José Ramón Machado Ventura, assegurou que, como resultado das consultas, 78 dos 96 objetivos propostos no documento base foram modificados, ao mesmo tempo em que outros cinco foram incorporados. O novo texto não foi divulgado. Em sua primeira e agora modificada versão, o projeto se refere a problemas de especial sensibilidade e silenciados por muito tempo, como o enfrentamento dos “preconceitos raciais, de gênero, crenças religiosas, orientação sexual e outros que podem originar qualquer forma de discriminação”. Inclusive, comissões de trabalho prévio à Conferência colheram propostas concretas de solução para estes problemas. “Avançamos muito nos últimos cinco anos e caíram muitas barreiras que barravam determinados temas”, disse à IPS a psicóloga Sandra Álvarez, autora do blog Negra Cubana Tinha que Ser. Além  disso, o texto propõe analisar e acordar ações para “enfrentar a violência de gênero e dentro da família e a que se manifesta nas comunidades”, bem como “fortalecer as ações dirigidas a prevenir e enfrentar as manifestações de indisciplina social, ilegalidades, corrupção e outros crimes”. Entretanto, o traçado dos documentos de trabalho do sexto Congresso e da Conferência ficou abaixo das expectativas de alguns especialistas. “Ambos deveriam ter ingredientes sociais muito mais explícitos e fortes”, disse a socióloga Mayra Espina à IPS. Em sua opinião, nas Diretrizes faltou expressar como se cumprirá na prática uma plataforma de mudança social, algo que deveria ficar claro porque são os princípios da reforma. No entanto, o texto base da Conferência carece de um compromisso mais explícito com a igualdade social. De maneira coincidente, o ano começou com a entrada em vigor, no dia 15, de uma disposição governamental concedendo subsídio estatal às pessoas de escassos recursos que necessitam reparar ou construir suas casas. A medida dá a largada do processo gradual de subsidiar pessoas e não produtos, como ocorria até agora. Envolverde/IPS


por Patricia Grogg, da IPS
MKhor Inter Press Service - Colunistas

A China é uma potência desenvolvida ou um país em desenvolvimento?

Genebra, Suíça, janeiro/2012 – A China ainda é um país em desenvolvimento ou se transformou em uma nação desenvolvida? Esta pergunta ganhou atualidade depois que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse ao presidente Hu Jintao que a China deve assumir maiores responsabilidades agora que se converteu em uma potência econômica. Obama quis dizer que a China deveria ser tratada como os Estados Unidos ou a Europa quanto às suas obrigações internacionais, como as adotadas para reduzir as emissões de gases-estufa, diminuir suas tarifas alfandegárias, renunciar a medidas protecionistas, proporcionar ajuda aos países pobres e deixar sua moeda flutuar livremente. Devido às pressões de Estados Unidos, Japão e Europa para que a China renuncie ao seu status atual e assuma as obrigações de uma nação desenvolvida, importantes negociações multilaterais estão em um beco sem saída. Eles também pretendem que outros países, como Brasil e Índia, façam o mesmo. Mas, a China é um país desenvolvido? A resposta depende dos critérios que forem usados. Em termos absolutos a China é uma grande economia. Seu produto interno bruto (PIB) é o segundo no mundo, superado apenas pelos Estados Unidos. Também é o maior emissor de gases-estufa, à frente inclusive dos Estados Unidos. Contudo, isto é principalmente porque, com 1,3 bilhão de habitantes, é o país mais populoso do planeta. Entretanto, apesar da imagem poderosa com que se apresenta nos meios de comunicação, a China é um comum país em desenvolvimento se forem examinados seus indicadores per capita. O status econômico dos países é definido pelas Nações Unidas, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial, e o critério principal que utilizam é a renda per capita. O FMI classifica a China como país em desenvolvimento com PIB per capita em 2010 de US$ 4.382 e o coloca em 91º lugar entre 184 nações do mundo. Seis países africanos (Guiné Equatorial, Gabão, Botsuana, Maurício, África do Sul e Namíbia) têm PIB per capita superiores ao da China. O PIB per capita chinês é menos de décimo do norte-americano, que chega a US$ 46.860. Luxemburgo encabeça a lista, com US$ 108.952. Banco Mundial classifica os países em quatro grupos: 1) os de baixa renda, com menos de US$ 1.005 dólares per capita; 2) os de renda média-baixa, entre US$ 1.006 e US$ 3.975; 3) os de renda média-alta, entre US$ 3.976 e US$ 12.275, e 4) os de renda alta, com mais de US$ 12.275. Segundo o Banco Mundial, o PIB per capita da China em 2006 era de US$ 2.050, em 2007 de US$ 2.490, em 2008 de US$ 3.050, em 2009 de US$ 3.650 e em 2010 de US$ 4.260. Depois, a China esteve nos últimos anos no nível de renda média-baixa até que, em 2010, passou à categoria de renda média-alta. Os economistas também usam a medida do “poder aquisitivo” per capita (GPP), que compara o diferente custo de vida nos países. Os habitantes de um país com custo de vida relativamente baixo podem desfrutar de um nível maior de vida do que o quantificado pelo produto nacional bruto (PNB) desse país. Segundo esse critério, em 2010 a China estava ainda mais abaixo na lista mundial, ocupando o posto 95 com US$ 7.544 de poder aquisitivo, abaixo de Equador e Bósnia Herzegovina. O Programa para o Desenvolvimento da ONU tem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que mede a qualidade de vida em termos de renda, educação, expectativa de vida, etc. O IDH 2011 mostra a China na 101ª colocação entre 187 países, com índice de 0,687. E o que acontece na questão ambiental? Embora seja o principal emissor de gases-estufa, o nível de emissões per capita da China, de 5,5 toneladas de CO², coloca esse país em 84º lugar no mundo, enquanto os norte-americanos emitem 23,4 toneladas de CO². Assim, sendo 91º no mundo em PIB per capita, 101º em desenvolvimento humano e 84º em emissões de gás-estufa per capita, a China é um país em desenvolvimento de nível médio ou mesmo médio-baixo, atrás de todos os países desenvolvidos e também de muitas nações em desenvolvimento. A China compartilha outras características dos países em desenvolvimento. Mais de 600 milhões de seus 1,3 bilhão de habitantes vivem em zonas rurais e, em 2008, havia um amplo desequilíbrio, com uma renda por família urbana 3,3 vezes maior do que as das famílias rurais. Ao mesmo tempo, é inegável que há pontos altos na economia chinesa: seu grande PIB em termos absolutos, sua alta taxa de crescimento e suas reservas de divisas acima dos US$ 3 trilhões. No entanto, enquanto a China se converte em uma grande potência econômica, ainda é um país em desenvolvimento de nível médio, com os problemas socioeconômicos que tem a maioria das nações em desenvolvimento. E se a China é pressionada para assumir os deveres de um país desenvolvido e renunciar ao seu verdadeiro status de nação em desenvolvimento, o mesmo será exigido de muitos outros países que estão inclusive à frente da China. Assim, a luta da China para manter seu status de país em desenvolvimento é de interesse de outras nações em desenvolvimentos, porque elas poderão ser as próximas se os chineses perderem essa luta. Envolverde/IPS * Martin Khor é diretor-executivo do South Center, em Genebra.  


por Martin Khor*
4 Inter Press Service - Reportagens

China aponta suas baterias culturais para o Ocidente

Londres, Grã-Bretanha, 17/1/2912 – O presidente da China, Hu Jintao, surpreendeu ao anunciar que seu país se encontra em uma guerra cultural com o Ocidente, e ao chamar seu povo a se defender. Suas palavras, proferidas no começo deste mês, tocaram a fibra dos mais leais funcionários do governo em Pequim, dispostos a promoverem a cultura chinesa como nova forma de expansão internacional. Entretanto, intelectuais liberais expressaram receio, dizendo que a promoção de uma “indústria cultural” pode esconder objetivos econômicos. “Talvez, a cultura seja o último bolo sem cortar da China”, afirmou Zhu Dake, pesquisador da Universidade Tongji, de Xangai. “No ano da transição de liderança, quando tudo é politicamente delicado, promover a cultura é fácil e inquestionável. Todos estão interessados em uma fatia do bolo”, acrescentou. O crítico de arte Carol Lu, radicado em Pequim, também é cético: “um impulso governamental para promover a cultura significa que teremos mais materiais para o desenvolvimento da cultura. Haverá um auge de grandes galerias e outros espaços artísticos, mas isso não necessariamente significa que serão obras de grande qualidade”. Hu Jintao já havia adiantado a iniciativa cultural em outubro passado, durante a reunião anual do Partido Comunista, do qual também é chefe. Contra as expectativas de que anunciaria medidas para enfrentar os desafios econômicos, Jintao revelou uma campanha para fortalecer o poder cultural chinês no exterior e converter as indústrias culturais em pilares do desenvolvimento nacional. O Partido destacou que a cultura deveria ser “fonte de unidade nacional” e “principal elemento de um completo poder nacional”. Em seu discurso do dia 2, o presidente ampliou o conceito, alertando que “forças internacionais hostis intensificavam o complô para ocidentalizar e dividir a China”. “Os campos ideológico e cultural são as áreas principais de sua longa infiltração”, disse em um discurso publicado na revista Buscando a Verdade, uma das principais publicações do Partido Comunista. “É a primeira vez que os líderes colocam o desenvolvimento cultural no mesmo nível do econômico”, destacou Zhang Guoxiang, do Centro de Pesquisa do Poder Brando Cultural da China. “Falamos de economia como um ‘poder duro’, e nos preocupamos que, sem uma sólida base econômica, nosso país seja facilmente dominado. Agora há um claro entendimento de que, sem o poder brando, o país entrará em colapso por si só”, acrescentou. O Partido foi sacudido por uma série de escândalos de corrupção, justo no ano em que acontecerá a mais importante mudança de líderes em dez anos. Os levantes populares da Primavera Árabe no ano passado e a difusão pela internet de chamados para uma Revolução do Jasmim na China também alarmam os governantes comunistas. A influência chinesa no exterior se ampliou de forma sustentada nos últimos anos. Por meio de exposições e espetáculos financiados pelo Estado, e com a ajuda de uma crescente rede de institutos confucionistas em todo o mundo, Pequim conseguiu promover sua arte e cultura tradicionais. Entretanto, os líderes do Partido querem redobrar a luta. A influência cultural “internacional do Ocidente é forte, enquanto nós somos fracos”, lamentou Hu Jintao em seu discurso do dia 2. Contudo, esta debilidade é culpa de Pequim, afirmam escritores e artistas chineses, que condenam a censura estatal. Han Han, uma celebridade de 29 anos na China, cujo blog tem milhões de seguidores, causou polêmica quando, em um ensaio intitulado Sobre a Liberdade, apontou as razões pelas quais acredita que o gigante asiático não pode emergir como potência cultural. “As restrições às atividades culturais fazem com que seja impossível para a China influir na literatura e no cinema em nível global, e impedem que nos sintamos orgulhosos culturalmente”, escreveu. Por sua vez, Zhu Dake disse que a censura é apenas uma parte de um complexo panorama. O Partido acredita no poder do dinheiro e não tem vergonha de usá-lo para sua própria vantagem. “O Partido sabe bem como usar o poder do dinheiro na política externa, e acredita firmemente que também pode comprar a criatividade dos intelectuais”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Análise de Antoaneta Becker

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