Direitos humanos com agenda ampliada

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Direitos humanos com agenda ampliada


por Marcela Valente, da IPS


Buenos Aires, Argentina, 6/12/2011 – Apesar de o imaginário social se vincular com a resistência às ditaduras das décadas de 1970 e 1980, as organizações de direitos humanos latino-americanas há muito tempo expandiram suas preocupações, para atender assuntos como os ambientais e a violência contra mulheres, aborígines e imigrantes. Os conflitos socioambientais pelo acesso à terra e aos recursos naturais, que são gerados em torno de indústrias extrativistas contaminantes ou de projetos de expansão agrícola à custa das florestas, agora estão entre as prioridades dos ativistas. Também se destacam na agenda dos líderes humanitários as violações dos direitos dos povos originarios, a violência e os abusos contra mulheres, os direitos trabalhistas, dos imigrantes e das minorias sexuais. “Os temas principais da nova agenda derivam da tensão entre o desenvolvimento econômico que avança sobre o meio ambiente e os direitos humanos”, disse à IPS o diretor-executivo do Centro de Estudos Legais e Sociais (Cels), Gastón Chillier. A direção deste organismo não governamental especializado inaugurou ontem o “Encontro de Defensoras e Defensores dos Direitos Humanos na América Latina”, com participação de mais de 70 representantes de organizações humanitárias de 14 países da região convocados pelo Cels. O objetivo do encontro é analisar os novos temas, identificar outros atores que violam os direitos humanos, citar os desafios que enfrentam muitos de seus líderes ameaçados (inclusive alguns foram assassinados por causa de suas denúncias) e avaliar diferentes mecanismos de proteção em nível local, nacional ou regional. “Hoje, não só o Estado viola os direitos humanos, como também empresas, agências paraestatais e membros do crime organizado”, disse Chillier, lembrando diversos casos de ativistas assassinados ultimamente na Argentina e no restante da América Latina. Tradicionalmente, o Cels e outras organizações similares na América Latina surgiram no calor dos regimes autoritários dos anos 1970 e 1980, que deixaram o saldo de milhares de desaparecidos, mortos, torturados e perseguidos em cada país. As entidades, algumas formadas por familiares de vítimas das ditaduras, outras por dirigentes políticos e advogados, denunciavam as violações e exigiam justiça. E na medida em que os países se democratizaram ampliaram os temas para violência policial e torturas nas prisões. Nos últimos anos, os assuntos ultrapassaram a temática político-institucional para avançar em conflitos econômicos e sociais crescentes, nos quais o Estado não é necessariamente o ator principal nas violações dos direitos humanos. Na Argentina, cada vez há mais conflitos envolvendo povos originários e camponeses sem terra na defesa de parcelas de uso comunitário e contra o avanço da fronteira agropecuária, como se chamam os desmontes para plantar produtos de exportações como a soja. O mesmo ocorre em outros países da região frente a diversas indústrias. Em conversa com a IPS a brasileira Andrea Caldas, da organização Justiça Global, contou como a entidade que integra foi incluindo os novos temas. No começo abordava assuntos de violência institucional, prisões e acesso à justiça. Com sede no Rio de Janeiro, a organização também documenta casos de violações de direitos econômicos, sociais e culturais causadas por multinacionais vinculadas à mineração ou à construção de grandes represas, que afetam as comunidades mais pobres e vulneráveis. “O Brasil avança em um projeto de desenvolvimento baseado em megaobras de infraestrutura e na promoção de grandes corporações, como, por exemplo, a siderúrgica Vale, a maior do setor”, disse Andrea. Também assegurou que a Justiça Global comprovou violações dos direitos ao território, ao meio ambiente e à saúde de duas comunidades do Maranhão, rodeadas por siderúrgicas da Vale que, assegura, contaminam os cursos d’água. Diante dessas denúncias, os defensores correm riscos crescentes. No painel de debate, o brasileiro Edmundo Rodrigues Costa, da Comissão Pastoral da Terra, denunciou que 1.855 defensores de direitos humanos foram ameaçados na última década por conflitos pela posse da terra, e 42 deles foram assassinados. “Não há segurança para os defensores. A impunidade prevalece, por isso as grandes empresas mineradoras e agrícolas exportadoras agem como querem nos territórios, diretamente matando pessoas por meio da contratação de pistoleiros e guardas particulares”, denunciou Costa. Ele também recordou o caso da freira norte-americana Dorothy Stang, morta em 2005 no Pará, após denunciar o avanço do desmatamento por fazendeiros sobre comunidades de camponeses sem terra. Costa citou, ainda, o caso mais recente do casal de defensores assassinado em maio deste ano por suas denúncias contra a extração ilegal de madeira no norte do país. José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foram mortos a tiros. Consultado pela IPS, o peruano Francisco Soberón, da Associação Pró-Direitos Humanos, também se referiu aos conflitos socioambientais pela mineração a céu aberto, que afetam o solo e os cursos de água. “Há múltiplos conflitos por petróleo, mineração, gás, madeira. O extrativismo e os conflitos sociais que geram é um tema fundamental da nova agenda dos direitos humanos”, destacou. Soberón disse que no parlamento peruano há um projeto de legisladores direitistas para dar às forças armadas o controle da ordem interna, uma iniciativa que, esperam, não prospere. Presentes ao encontro também estavam ativistas que defendem os direitos humanos das mulheres. Carmen Herrera, da Advogados e Advogadas pela Justiça e pelos Direitos Humanos no México, contou à IPS seus novos desafios. “O novo desafio é tornar visível a dupla discriminação que sofrem as indígenas. Estamos denunciando que os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (fixados pelos governos em 2000 na Organização das Nações Unidas) jamais são cumpridos entre os indígenas e isto parece normal”, afirmou. Por sua vez, Andrea Medina, da Rede Mesa de Mulheres de Ciudad Juárez, afirmou à IPS que as dez organizações que formam a rede não só denunciam a brutal violência contra as mulheres nessa cidade do norte mexicano, como as defensoras também as sofrem. “Há um ano, assassinaram Marisel Escobedo, mãe de uma desaparecida, e há alguns dias Norma Andrade, mãe de outra jovem assassinada, sofreu um atentado a tiros e está em condições críticas no hospital”, denunciou. Esses casos revelam que não só persiste a impunidade sobre estes crimes como existe “uma cultura de discriminação que mantém a violência contra as mulheres”, disse Norma. “Hoje as pessoas mais ameaçadas no México são aquelas que denunciam as violações dos direitos humanos cometidas contra mulheres”, assegurou. Envolverde/IPS

Moliehi e seus irmãos sobrevivem sozinhos em uma pequena cabana. Foto: Kristin Palitza/IPS Inter Press Service - Reportagens

Enclave de pobreza, fome e aids

[caption id="attachment_35896" align="alignleft" width="350" caption="Moliehi e seus irmãos sobrevivem sozinhos em uma pequena cabana. Foto: Kristin Palitza/IPS"][/caption] Maseru, Lesoto, 6/12/2011 – As dificuldades econômicas e a epidemia de aids arruinaram o futuro do Lesoto: três em cada cinco crianças deste pequeno reino da África vivem na miséria, e um em cada quatro é órfão. Logo que sai o Sol, Moliehi (nome fictício), de 17 anos, se levanta, varre a terra de sua choça, sai em busca de água e prepara o desjejum. Desperta os pequenos, os alimenta e os manda para a escola. Mas Moliehi não é mãe. Desde que sua mãe morreu, há três anos, se converteu na tutora de seus irmãos menores, de nove e 15 anos. Todos vivem em uma pequena choça de um só cômodo, fabricada com lâminas de folha de flandres. Nela há apenas duas panelas, uma madeira e uma bacia de plástico, amontoadas em uma pequena mesa, enquanto encostadas na parede estão algumas malas onde guardam roupa e cobertas velhas. À noite, os três irmãos são obrigados a dormir no mesmo colchão deteriorado. “Admiro minha mãe. Desempenhar seu papel é uma carga. Meus irmãos esperam de mim que os ajude, mas não temos nada”, disse Moliehi, enquanto seus irmãos se encolhiam ao seu lado um tanto confusos. “No geral, vou de porta em porta pedindo milho e óleo”, contou. Igualmente pobre é o resto da população de Mohasoa, a aldeia onde vive Moliehi, localizada a meia hora de Maseru, capital do Lesoto. “Nove em cada dez famílias aqui estão na pobreza. Quase ninguém tem emprego”, disse o chefe da aldeia, Malipontso Mokasoa. “Desde o começo da crise econômica nosso sofrimento cresceu em um ritmo alarmante”, acrescentou. A situação das crianças do Lesoto é dramática. Neste país de 1,8 milhão de habitantes, cerca de 500 mil dos 825 mil menores vivem com menos de US$ 1,25 por dia e sem abrigo seguro, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Quase 40% das meninas e dos meninos apresentam desnutrição crônica e estão atrofiados. A mortalidade infantil aumentou de forma sustentada na última década. “As pessoas apenas desejam atender as necessidades mais básicas, como comida e roupa. Só alguns podem comer a cada dois dias. Trata-se simplesmente de sobreviver, e não podemos esperar melhoria no curto prazo”, disse Lineo Lephoto, do Departamento de Bem-Estar Social. Lesoto se converteu em um dos piores lugares do mundo para a infância. A razão principal é o devastador impacto da crise econômica global neste país do tamanho da Bélgica, encravado na África do Sul e fortemente dependente da economia de seu grande vizinho. A queda nos preços dos diamantes e a perda de exportações têxteis afetaram os dois principais setores do país, enquanto uma redução de 60% na renda da União Aduaneira da África Austral, causada em grande parte pela crise econômica, secou o principal fluxo de dinheiro desta monarquia constitucional. O crescimento do produto interno bruto foi de apenas 0,9% em 2009, quando em 2006 chegou a 6,5%, segundo o Banco Mundial. Enquanto isso, nas zonas rurais, onde mais de 70% da população do Lesoto possui apenas 9% da terra cultivável, a agricultura de subsistência diminuiu. A alternância de inundações e secas reduziu os campos à sua mínima expressão, arrastando mais de um quarto da população para a insegurança alimentar. O país ficou em 141º lugar entre as 162 nações medidas pelo Índice de Desenvolvimento Humano 2011, atrás de Benin, Iêmen e Bangladesh. Para piorar as coisas, Lesoto é um dos três países do mundo mais afetados pela aids. Uma em cada quatro pessoas da maioria da população basoto (há uma minoria zulu) contraiu o vírus HIV, que deixou órfãs um quarto das crianças. “Lesoto tem uma das maiores proporções de órfãos no mundo”, disse o representante do Unicef nesse país, Ahmed Magan. “A situação é dramática, e neste momento o grau de privações aumenta, em lugar de melhorar”. A tríplice ameaça do HIV, a pobreza e a insegurança alimentar crescem, expondo a infância a abusos, exploração e outras violações de direitos humanos. “Se não conseguirmos reduzir a pobreza nos próximos cinco anos, veremos uma grande queda no desenvolvimento e na sobrevivência das crianças”, alertou Magan. Em uma tentativa de aliviar a pobreza infantil, o Unicef lançou em 2008, com US$ 29,6 milhões dados pela União Europeia, um programa de subsídios para órfãos e crianças em situação vulnerável. O programa é implementado pelo Departamento de Bem-Estar Infantil do Lesoto, que destina US$ 14,8 por mês às famílias mais pobres. Até agora, 10.200 famílias recebem essa ajuda, incluindo 28 mil menores em cinco dos dez distritos do país. Em 2014, quando se esgotarem os fundos, terão sido beneficiados 75 mil crianças (representando um quinto dos menores órfãos e vulneráveis). O governo espera manter o programa por sua própria conta a partir de 2015. Porém, muitos duvidam que este país possa continuar com o programa. “O governo tem um longo caminho pela frente”, reconhece o chefe de políticas sociais do Unicef, Mohammad Farooq. “Trata-se de manter seu gasto social, mas com a insuficiência de renda, vamos ver se poderão sustentá-lo em 2015”, acrescentou. A única forma de conseguir isto é com a ajuda adicional de doadores internacionais, como a União Europeia, que já entrega ao Lesoto US$ 134,7 milhões, afirmou. Para meninas como Moliehi e seus irmãos, a continuidade do programa determinará seu futuro. Embora US$ 14,8 pareçam pouco, lhes permite comprar comida e ir à escola. “O subsídio é o único dinheiro que temos, e mesmo assim é difícil sobreviver”, disse a jovem. Envolverde/IPS


por Kristin Palitza, da IPS
Nalifu Yussif segura cestas bolga na COP 17, que acontece em Durban, África do Sul, de 29 de novembro a 9 de dezembro. Foto: Isaiah Esipisu/IPS Inter Press Service - Reportagens

Mudança climática mata sustento de mulheres

[caption id="attachment_35892" align="alignright" width="295" caption="Nalifu Yussif segura cestas bolga na COP 17, que acontece em Durban, África do Sul, de 29 de novembro a 9 de dezembro. Foto: Isaiah Esipisu/IPS"][/caption] Durban, África do Sul, 6/12/2011 – Talata Nsor, originária da comunidade de Bolgatanga, norte de Gana, passou boa parte de seus 54 anos tecendo cestas típicas da região. Contudo, ultimamente está muito difícil conseguir matéria-prima. Esta atividade foi rentável para Nsor no passado, pois lhe permitiu inclusive pagar a escola dos filhos. Agora, se produz cada vez menos cestas do tipo bolga, famosas na África ocidental e vendidas em mercados da Europa e América, porque o material utilizado, conhecido como erva de elefante, se extingue devido à mudança nas condições climáticas. “Há dez anos caminhava até o pântano mais próximo e cortava a fibra sem custo algum. Agora, preciso ir muito longe ou mesmo chegar até Kumasi, a cerca de 400 quilômetros, para comprá-la”, contou Nsor. A erva de elefante só cresce em pântanos, que agora a população da região utiliza para cultivar e paliar a insegurança alimentar diante da falta de chuvas. “As pessoas preferem transformar os pântanos em hortas diante do fracasso da agricultura dependente da chuva”, disse Nafisatu Yussif, oficial de programa da Abantu, organização que promove políticas com perspectiva de gênero na África. “As chuvas já não são confiáveis e as pessoas precisam cultivar em áreas onde a irrigação seja garantida”, acrescentou. Nafisatu Yussif é uma das muitas representantes de comunidades rurais de todo o mundo que conseguiram chegar até esta cidade sul-africana para fazer ouvir sua voz na 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que começou dia 29 de novembro e terminará no dia 9. “Recebemos diferentes mulheres de diferentes áreas”, disse Samantha Hargreaves, da ActionAid Internacional, uma das organizadoras da Assembleia de Mulheres Rurais, que acontece de forma paralela à COP 17. “Mais de 500 mulheres neste fórum compartilham experiências de diferentes países sobre como seguir em frente e mostrar as melhores práticas. O resultado da assembleia será apresentado ao Grupo Africano de Negociadores como posição comum das representantes dos países mais pobres”, explicou Hargreaves. Segundo as participantes, as mulheres de países pobres enfrentam dificuldades semelhantes. “Em meu país as mulheres trabalham duro na horta, e na hora de colher os homens assumem a responsabilidade de receber o dinheiro. Acabo de saber que o mesmo acontece na África e em outros países asiáticos”, disse María Estela Jocón González, que representa as camponesas de três regiões da Guatemala propensas a inundações, fenômeno que se agravou nos últimos tempos. “Quando há inundações, os poços se enchem de água suja. Segundo nossa cultura, é responsabilidade da mulher garantir água suficiente para beber e outros usos domésticos”, disse González à IPS. Esta ativista pede à comunidade internacional reunida em Durban que garanta a implementação de sistemas para conter as crescentes inundações. “Quero ouvir que os países se comprometem em reduzir as emissões de gases contaminantes. É bom pensar no desenvolvimento, mas não tem sentido sem um meio ambiente são”, acrescentou. Enquanto há inundações na Guatemala, faltam chuvas no sul do Senegal. Faty Khody, da comunidade rural senegalesa de Kaulak, disse à IPS que as chuvas nessa região baixaram de 900 milímetros em 2001 para 300/400 milímetros atualmente. “Costumávamos cultivar verduras para vender no mercado local. Mas já não é possível, a menos que tenhamos irrigação”, afirmou Khody, oficial de promoções da Interpench, uma organização que reúne mais de 7.700 camponesas senegalesas. “O padrão de chuvas mudou, as secas são mais acentuadas e quando chove há inundações, que causam sofrimento na população rural, especialmente mulheres e crianças”, destacou. Com apoio da organização não governamental Horizon 3000, a Interpench lançou o projeto “Uma mulher, uma árvore frutífera”, como forma de adaptação à mudança climática. “Dizemos uma árvore porque é o primeiro passo, entrega-se o almácigo gratuitamente para plantar o primeiro, que recebe o nome de quem planta, como recordação. A ideia é motivar as mulheres a participar, não só plantando uma árvore, mas que esta seja frutífera”, explicou Khody. “Esperamos que os debates na COP 17 concluam com ideias que apoiem iniciativas femininas de adaptação à mudança climática”, insistiu Hargreaves. Entretanto, para que esses projetos tenham sucesso, devem ter por base os sistemas de conhecimento indígenas, ressaltou. “O Grupo Africano de Negociadores não deve sucumbir diante da pressão dos países ricos na COP 17”, afirmou. “A maioria das negociações acontece em salas de reuniões sem envolver as pessoas comuns”, concordou Elizabeth Kakukuru, oficial de programa da Unidade de Gênero da Comunidade de Desenvolvimento da África austral. “No entanto, as recomendações elaboradas devem ser implementadas por camponesas. Chegou a hora de as partes afetadas participarem de forma direta destas importantes negociações”, prosseguiu. No tocante à transferência de tecnologia para adaptação à mudança climática, Kakukuru disse que todos os projetos devem ser apropriados e desenvolvidos em consulta com as comunidades indígenas. Envolverde/IPS


por Isaiah Esipisu, da IPS
“A agricultura se vê impactada pelo aquecimento planetário, mas também é uma solução”, disse o presidente do Fida, Kanayo F. Nwanze. Foto: Busani Bafana/IPS Inter Press Service - Reportagens

Tempo de uma nova revolução verde

[caption id="attachment_35888" align="alignright" width="281" caption="“A agricultura se vê impactada pelo aquecimento planetário, mas também é uma solução”, disse o presidente do Fida, Kanayo F. Nwanze. Foto: Busani Bafana/IPS"][/caption] Durban, África do Sul, 6/12/2011 – Os negociadores da 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática devem aos mais de sete bilhões de habitantes do mundo um acordo útil para a agricultura, o setor mais afetado pela mudança climática, afirma o presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida), Kanayo F. Nwanze. Os efeitos combinados de aumento da população mundial, escassa produtividade e ameaça aos recursos hídricos representam novas pressões sobre a capacidade do setor agrícola para gerar alimentos, dinheiro e formas de sustento na África. Organizações e instituições internacionais apresentaram uma carta aberta à ministra de Agricultura, Silvicultura e Pesca da África do Sul, Tina Joemat-Peterson, pedindo a inclusão de medidas de adaptação para o setor agrícola no texto a ser acordado nesta cidade pela COP 17. Entre os signatários da carta estão Banco Mundial, Grupo Consultivo de Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR) e a Organização Mundial de Agricultores (WFO). O texto afirma que não se deve deixar passar a oportunidade da COP 17 para tratar dos problemas da agricultura, setor repetidamente marginalizado da agenda nos últimos dois encontros. “As regiões mais vulneráveis do mundo, os países em desenvolvimento, são afetados desproporcionalmente pela mudança climática, apesar de contribuírem pouco com emissões de carbono”, diz a carta. “As populações no Sul dependem em grande parte da agricultura para sua subsistência e têm cada vez mais dificuldades para produzir alimento suficiente para suas famílias e para os mercados”, acrescenta. Nwanze disse à IPS que é preciso uma nova revolução agrícola para oferecer soluções inteligentes aos desafios impostos pela mudança climática. IPS: Por que uma nova revolução agora? KANAYO F. NWANZE: A discussão que temos agora é basicamente como conseguir uma agricultura “climaticamente inteligente”, o que na essência significa obter o máximo dos pequenos produtores, que constituem a maior população rural na África e cuja maioria é de mulheres. Devem ter acesso a insumos básicos e serviços financeiros. É necessário responder a todos os temas que têm a ver com o impacto da mudança climática na agricultura. Temos que falar sobre sistemas agrícolas sustentáveis. A revolução verde (período de auge na produção do Sul, aproximadamente entre 1960 e 1990) teve êxito porque se concentrou em mensagens muito claras: maior uso de fertilizantes, mais sementes melhoradas e irrigação. Contudo, no longo prazo, descobrimos que não era sustentável. Portanto, agora temos de buscar enfoques sustentáveis de produção, que não destruam o meio ambiente e estejam disponíveis para um amplo espectro de agricultores na África e em todo o mundo. É necessária uma nova revolução verde para enfrentar o desafio de alimentar mais de nove bilhões de pessoas em 2050. Não existe uma receita mágica para eliminar a fome da noite para o dia. Não creio que as ideias podem alimentar as pessoas. São necessárias ideias para uma nova revolução verde, e a agricultura “climaticamente inteligente” pode proporcioná-las. IPS: A agricultura está ameaçada por muitos fatores. Qual é o primeiro passo para torná-la sustentável? KN: O primeiro passo devemos dar na agenda política. Precisamos de um compromisso no nível mais alto dos governos para que assumam a agricultura como prioridade, e devemos conseguir que apoiem suas promessas com dinheiro. IPS: O senhor expressou preocupação pelo progresso lento das negociações. Quais as suas expectativas? KN: Estamos tentando um tema que transcende ao que chamamos de simples equações. É uma questão que provoca muitas discussões políticas, e, portanto, as pessoas perdem o senso de prioridade. Tudo se torna muito lento. Estamos negociando um tema político, e há muitas coisas em jogo. São temas simples baseados em fatos, e os argumentos também estão baseados em fatos. Porém, há pessoas que ainda negam a mudança climática. Como se pode negociar com alguém que não crê? Este é o problema que temos. Precisamos de uma verdadeira liderança. A África do Sul realiza um trabalho fantástico de incentivo a toda esta discussão sobre colocar a agricultura na agenda. A agricultura sofre o impacto do aquecimento global, mas também é uma solução, pois se encontra na intersecção entre a segurança alimentar e a mudança climática. Assim, não podemos ignorá-la. IPS: O que temos feito bem no desenvolvimento agrícola da África? KN: Há dez anos não se ouvia ninguém falar de agricultura. Mas após os acontecimentos de 2007 e 2008, com o aumento da volatilidade dos preços dos alimentos, agora as pessoas dizem que a agricultura equivale à segurança alimentar, e isto equivale à estabilidade política e à paz mundial. Com esse tipo de vínculo, não se pode ignorar a agricultura, e isto é algo que fazemos bem. Envolverde/IPS


por Busani Bafana, da IPS
Em Durban, crianças apoiam os esforços para a redução de emissões de carbono. Foto: Zukiswa Zimela/IPS Inter Press Service - Reportagens

A agricultura como prêmio de consolação

[caption id="attachment_35720" align="alignleft" width="245" caption="Em Durban, crianças apoiam os esforços para a redução de emissões de carbono. Foto: Zukiswa Zimela/IPS"][/caption] Durban, África do Sul, 5/12/2011 – A sociedade civil alertou em Durban sobre o perigo de se transformar terras africanas destinadas à produção de alimentos em cultivos com vistas a comercializar créditos de carbono. Representantes de organizações não governamentais pediram, no dia 2, à África do Sul, país anfitrião da 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática que não inclua a chamada “agricultura climaticamente inteligente” nas negociações. O presidente sul-africano, Jacob Zuma disse que a agricultura deveria ser parte de um novo tratado climático. Outros funcionários da África do Sul já haviam dito à IPS que queriam incluí-la para que houvesse “fundos específicos e ações específicas” no contexto da Convenção Marco. “Colocar a agricultura em um futuro tratado climático é como um prêmio de consolação para a África, porque os países ricos não puderam acordar objetivos legalmente vinculantes” para a redução na emissão de gases-estufa, disse Teresa Anderson, da Gaia Foundation, uma organização não governamental com sede em Londres. “Este prêmio de consolação é um cálice de veneno. Levará à apropriação de terras e porá os agricultores africanos nas mãos dos inconstantes mercados de carbono”, afirmou à IPS. A agricultura é uma importante fonte de gases-estufa, como carbono e metano, que representam entre 15% e 30% das emissões contaminantes mundiais. Quando se inclui todo o sistema de produção de alimentos, as emissões totais derivadas da agricultura equivalem a quase metade de todas as emissões. Por esses motivos houve esforços prévios para incorporar esta atividade em um novo tratado climático. As mudanças nas práticas agrícolas podem reduzir as emissões em grande proporção. Contudo, a melhor maneira de fazer isso é por meio de regulamentações, não de um tratado climático nem de créditos de carbono, segundo Anderson. “Por que agora os mercados são vistos com a única solução, quando há menos de dez anos nem mesmo estavam na mira?”, perguntou. O Banco Mundial, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e outras entidades são a favor de uma “agricultura climaticamente inteligente”. Esta adota práticas sustentáveis, aumenta a produtividade e a resiliência às mudanças meteorológicas e reduz e/ou elimina os gases-estufa. A sociedade civil objeta este último. “Tudo isto tem a ver com novos mercados de carbono. O Norte ainda não fez os necessários cortes de emissões e quer isto para poder simular que reduz as suas emissões”, disse Helena Paul, da organização ambientalista EcoNexus. Isto representa um profundo perigo para a agricultura, “com um potencial real de que aconteçam mais apropriações e expansão de monoculturas para poder obter créditos”, alertou. Segundo Anderson, os governos africanos veem os US$ 144 bilhões do mercado de carbono europeu e pensam que podem ser uma grande fonte de financiamento. Entretanto, muito menos de 1% terminou em projetos reais, acrescentou. O primeiro projeto para vender créditos de carbono do solo na África está em andamento no Quênia. Financiado pelo Banco Mundial, cerca de 15 mil agricultores de 800 organizações agrícolas mudam suas práticas para sequestrar carbono por um período de 20 anos. Os custos para estabelecer o Projeto de Carbono Agrícola do Quênia, junto com os que implicam medir o carbono e comercializar os créditos, são estimados em mais de US$ 1 trilhão, disse Anne Maina, da filial queniana da African Biodiversity Network. Com os atuais preços do carbono, os agricultores receberão apenas um dólar ao ano por seus esforços, quando lhes foi prometido muito mais, explicou Maina. Somente os donos de grandes áreas podem esperar algum benefício. Os grandes latifundiários, os consultores e outros especialistas serão os que ficarão com a maior fatia, acrescentou à IPS. “A África já sofre uma epidemia de concentração de terras. A corrida pelo controle dos solos para o comércio de carbono só pode piorar isto”, ressaltou Maina. O Projeto de Carbono Agrícola do Quênia promove práticas agrícolas sustentáveis como o agrorreflorestamento, que são boas para a terra e aumentam a produção alimentar, reconheceu Maina. Porém, seria muito melhor financiá-lo com os fundos para a adaptação à mudança climática que os países industrializados prometeram proporcionar. “Os mercados de carbono são altamente voláteis”, disse Steve Suppan, do Institute for Agriculture and Trade Policy, com sede nos Estados Unidos. Em novembro, a tonelada de carbono era cotada a apenas US$ 6, metade de seu preço em janeiro. Em boa parte, isto é consequência da crise financeira europeia. Os preços do carbono simplesmente são muito pouco confiáveis para serem considerados de longo prazo pela maioria dos investidores. Além disso, medir quanto carbono se sequestra é um procedimento extremamente técnico e incerto no longo prazo, por isso investidores com o Banco Mundial reduzem em 60% seu valor. “Os créditos de carbono do solo só gerarão ganhos diminutos para os agricultores, permitindo que os maiores contaminadores continuem contaminando”, advertiu Suppan. O que precisa a agricultura africana são reduções reais das emissões, junto com um substancial financiamento para a adaptação à mudança climática, acrescentou. Nnimmo Bassey, presidente da Amigos da Terra Internacional, disse que “os créditos de carbono do solo são uma falsa solução” para a mudança climática. Bassey reclamou dos países ricos, responsáveis pela crise climática, que reafirmem seus compromissos de estabelecer “reduções legalmente vinculantes das emissões, em linha com a ciência e a igualdade”. “O presidente sul-africano, Jacob Zuma deve apoiar a África e ser intransigente. Precisamos que os países ricos façam cortes profundos, drásticos e vinculantes das emissões, e finanças climáticas reais e públicas, não um mandato para uma nova onda de neocolonialismo financeiro”, por meio de disposições contidas no Fundo Verde para o Clima, afirmou em um comunicado o ativista Booby Peek, do capítulo sul-africano da Amigos da Terra. Envolverde/IPS


por Stephen Leahy, da IPS
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Marcha de Durban pede mudança radical

Durban, África do Sul, 5/12/2011 – Com ruidosos cantos, milhares de pessoas se reuniram no dia 3 nesta cidade e seguiram em direção à sede da cúpula das Nações Unidas sobre mudança climática para pedir “uma imediata e drástica” redução de emissões de carbono destinada a salvar o planeta. No Dia Mundial de Ação, manifestantes de organizações não governamentais nacionais e internacionais e de grupos de trabalhadores, mulheres, jovens, acadêmicos, religiosos e ecologistas uniram-se para fazer os governos do mundo ouvir a demanda de uma ação firme de combate à mudança climática. Em Durban acontece desde o dia 28 de novembro, e termina no dia 9, a 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (CMNUCC). “Pedimos uma mudança de 100%. Hoje nasce um poderoso movimento que desafia as nações ricas do mundo”, afirmou o integrante do comitê organizador do Dia Mundial de Ação, Desmond D’Sa. “Os dirigentes mundiais discutem a sorte de nosso planeta, mas estão longe de conseguir uma solução para a mudança climática”, acrescentou. É hora de os negociadores ouvirem a voz das pessoas comuns, disseram os manifestantes, alguns carregando cartazes onde se lia “Nunca confie na COP 17”, “Unidos contra a mudança climática”, “Justiça climática já” e “Asseguremos a sobrevivência das futuras gerações”. Havia nas ruas o sentimento generalizado de que as pessoas comuns continuam excluídas de debates cruciais sobre assuntos que afetam suas vidas. “Queremos que o 1% que está dentro da Conferência ouça o que têm a dizer os 99% que estão fora”, disse Bobby Peek, um dos organizadores do protesto e diretor da Amigos da Terra África. “Pedimos cortes imediatos e drásticos das emissões nos países ricos, que causaram a mudança climática”, acrescentou. Era palpável o descontentamento pelo lento progresso das negociações na primeira semana da COP 17, misturado com o medo de que o encontro termine sem resultados concretos. Peek disse estar muito decepcionado pelo estado das conversações. “Foi uma semana desastrosa. Não há sinais de progresso em metas” de redução das emissões que causam o aquecimento, acrescentou. O diretor-executivo do Greenpeace, Kumi Naidoo, acusou os Estados Unidos por não ratificarem o Protocolo de Kyoto, único instrumento internacional obrigatório para reduzir a contaminação climática. “Isto não é um ensaio geral. Esta semana de beligerância, rixas e punhaladas pelas costas deve dar lugar a acordos reais sobre o futuro do planeta. os que não estão interessados em salvar vidas, economias e meio ambiente, como os Estados Unidos, devem se afastar e permitir o avanço dos que têm vontade política”, ressaltou Naidoo. Uma ruidosa multidão de manifestantes se dirigiu desde o centro de Durban até a entrada do Centro Internacional de Convenções, onde acontece a COP 17, para entregar à secretária-executiva da CMNUCC, a costarriquenha Christiana Figueres, uma lista com todos os pontos que os governos deveriam conseguir antes de terminar a reunião, reproduzidos a seguir. • Assegurar que o ponto mais alto de emissões mundiais de gases-estufa seja alcançado em 2015; • Prorrogar o Protocolo de Kyoto e garantir que contenha um mandato para estabelecer um amplo instrumento legalmente obrigatório; • Entregar o financiamento necessário para enfrentar a mudança climática; • Estabelecer um contexto de proteção para as florestas dos países em desenvolvimento; • Assegurar a cooperação mundial em matéria de tecnologia e financiamento energético; • Garantir um sistema internacional transparente para medir e fiscalizar os compromissos e as ações nacionais. Os ativistas criticaram as nações ricas e industrializadass por usarem a crise econômica mundial como desculpa para dar prioridade aos interesses nacionais sobre os internacionais. Após uma semana de conversações, segue-se sem saber como serão obtidos os recursos para financiar projetos de mitigação e adaptação, particularmente cruciais para os países pobres. “No momento, não sabemos de onde virá o dinheiro. há um verdadeiro risco de deixarmos Durban com os bolsos vazios. E este fracasso será medido em vidas, economias e habitats”, alertou o coordenador de política climática do Greenpeace, Tove Ryding. “Se os governos não avançam, o acordo final estará desprovido de toda capacidade de proteger o clima”, acrescentou. A marcha do dia 3 interpela especialmente os ministros e chefes de Estado e de governo que começam a chegar a partir de hoje para a COP 17. “Não podemos continuar falando e perdendo tempo. Estamos nos manifestando para demonstrar nossa indignação. Queremos deixar uma mensagem clara aos ministros: não podem continuar colocando pretextos”, disse Harjeet Singh, coordenador da ActionAid International. Envolverde/IPS


por Kristin Palitza, da IPS
Anúncios da reunião da Celac foram colocados em diversos lugares de Caracas. Foto: Edgar Carmona/Governo da Venezuela Inter Press Service - Reportagens

Enfim sós

[caption id="attachment_35714" align="aligncenter" width="500" caption="Anúncios da reunião da Celac foram colocados em diversos lugares de Caracas. Foto: Edgar Carmona/Governo da Venezuela"][/caption] Caracas, Venezuela, 5/12/2011 – Os 33 países da América Latina e do Caribe disporão de um novo fórum político que cobrirá o hemisfério, com exceção de Canadá e Estados Unidos, segundo decisão dos chefes de Estado e de governo reunidos na capital venezuelana. A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) não disporá de um tratado constitutivo, porque não será um órgão com estrutura própria, mas um mecanismo de consulta e concertação, dirigido mediante reuniões anuais de governantes, cujas decisões serão tomadas, ao menos no primeiro ano, por consenso. O novo organismo disporá de uma “cláusula democrática” para favorecer ações coletivas sobre o país cujo governo for vítima de uma alteração da ordem constitucional, enquanto a cooperação regional será impulsionada de acordo com um 20 documentos anexos ao texto central, a Declaração de Caracas. Mandatários como o equatoriano Rafael Correa ou o anfitrião Hugo Chávez propuseram a Celac como mecanismo de solução de conflitos intrarregionais e “substituta da velha e desgastada OEA” (Organização dos Estados Americanos), da qual são parte Estados Unidos e Canadá e Cuba não. Porém, a maioria dos governos não fez referência quanto à Celac assumir as funções da OEA ou contratar com ela, e, por outro lado, defenderam os rascunhos propondo para a nova entidade “o diálogo político com outros atores intergovernamentais, organismos e mecanismos internacionais”. “A Celac terá sentido se buscar prosseguir no esforço positivo do Grupo do Rio (mecanismo de consulta política criado na região há 25 anos), para que América Latina e Caribe conciliem suas diferenças”, disse à IPS o diretor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade Central da Venezuela, Félix Arellano Por outro lado, “se a intenção é entrar em conflito com os Estados Unidos e substituir a OEA, isso não terá êxito, porque terá a oposição de três quartos da região e é o sentido em que cabe esperar que trabalhem governos como os de Brasil, México, Chile ou Costa Rica”, acrescentou Arellano. A mexicana Alicia Bárcena, secretária-executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), considerou que a Celac é “o êxito político mais importante dos últimos anos, pois todos os países da região confluem em um organismo de diálogo, cooperação e integração”. “Durante décadas, a integração regional passou pela via comercial, mas agora estamos encontrando outros caminhos e mecanismos próprios, um pouco ao estilo do que foi feito pela União Europeia”, disse Bárcena em recente encontro com correspondentes estrangeiros. Um tema essencial para calibrar os trabalhos da nascente comunidade, segundo Bárcena será “o do trabalho pela igualdade, pois a América Latina, com políticas sociais muito ativas, reduziu a pobreza em 11 pontos, mas ainda tem 32% (180 milhões) de pobres, e se mantém como a região mais desigual do planeta”. A bateria de documentos adotada pelas autoridades para acompanhar a Declaração de Caracas inclui compromissos para ajudar-se no intercâmbio e na execução dos programas sociais de maior êxito, como o brasileiro Fome Zero. Para acentuar o interesse em que a Celac tenha um rosto mais do que retórico, o encontro de Caracas incluiu uma reunião de ministros da Petrocaribe, mecanismo de cooperação pelo qual a Venezuela fornece até 200 mil barris diários de combustível para uma dezena de países da região caribenha com termos de pagamento privilegiados. Também está prevista uma reunião da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que reúne os 12 Estados do subcontinente e dispõe, ao contrário da Celac, de uma secretaria permanente para conduzir suas atividades. Por outro lado, alguns dizem que América Latina e Caribe continuam elaborando propostas de integração e de organismos regionais sem que se consolidem outras estruturas que vão ficando pelo caminho com o passar dos anos. “Não estou muito convencido de que seja necessária. Embora coloque em contato os países da América Latina e do Caribe para poderem desenvolver projetos conjuntos, é da continuação de um mecanismo de concertação e diálogo como o Grupo do Rio, que com a Celac desaparece”, alertou o chanceler da Costa Rica, Enrique Castillo. Arellano criticou que “nem os velhos nem os novos mecanismos de integração se consolidam. Com a Aladi (Associação Latino-Americana de Integração) se pensou que iríamos para uma zona de livre comércio, e isso não ocorreu, e a Comunidade Andina de Nações (Bolívia, Colômbia, Equador e Peru) está na terapia intensiva. “O Mercado Comum do Sul (Mercosul: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) não consolidou nem a união aduaneira nem a zona de livre comércio. A Comunidade Sul-Americana não prevaleceu e mudou para Unasul, que tampouco consegue se consolidar, e então agora criamos a Celac”, detalhou Arellano. A cúpula de Caracas, que aconteceu nos dias 2 e 3, na cidade militar Fuerte Tiuna, cuja organização custou mais de US$ 20 milhões, é, por outro lado, o primeiro encontro internacional com a presença do presidente Chávez desde que, em junho, teve detectado um câncer não especificado quando divulgado. Chávez, que se submeteu a quatro séries de quimioterapia, mostrou aos seus colegas seu habitual dinamismo físico e retórico, e se congratulou por receber seus pares Dilma Rousseff e Fernando Lugo, do Paraguai, que também sofreram, e parecem ter superado, problemas com câncer. Envolverde/IPS


por Humberto Márquez, da IPS
Manifestantes do Sierra Club declaram o carbono como morto em Durban. Foto: Zukiswa Zimela/IPS Inter Press Service - Reportagens

Fundo climático e Protocolo de Kyoto balançam em Durban

[caption id="attachment_35709" align="alignright" width="300" caption="Manifestantes do Sierra Club declaram o carbono como morto em Durban. Foto: Zukiswa Zimela/IPS"][/caption] Durban, África do Sul, 5/12/2011 – Ao terminar a primeira semana de negociações climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) há sérias dúvidas sobre a adoção do Fundo Verde para o Clima, e parece cada vez mais improvável um tratado vinculante para reduzir emissões contaminantes para suceder o Protocolo de Kyoto. Vários países sul-americanos, Estados Unidos, Arábia Saudita, Egito, Nigéria e Venezuela manifestaram suas reservas sobre o Fundo Verde e expressaram a necessidade de revisar algumas de suas cláusulas. A União Europeia (UE), que continua apoiando o rascunho que daria nascimento ao Fundo, pediu urgência aos países para que não atrapalhem seu avanço, mas até agora não teve êxito. “Deveria ser possível acordar o instrumento tal como consta do projeto. É um bom acordo. E em seu formato atual atrairá financiamento significativo”, disse o negociador da UE Tomasz Chruszczow. “Seria contraproducente embarcar-se em mais debates técnicos”, acrescentou. Organizações não governamentais e ativistas concordam que reabrir o texto em negociação prejudicará seriamente as possibilidades de deixar pronto o Fundo Verde antes do encerramento da 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontece até dia 9, nesta cidade. “Isto significaria que não há nenhum instrumento para canalizar dinheiro. entendemos que algumas partes têm preocupações, mas este texto representa um acordo político finamente equilibrado, e finalizá-lo consumiu meses,” lamentou Tasneem Essop, chefe de estratégias climáticas internacionais no Fundo Mundial para a Natureza. Proposto inicialmente em 2009 em Copenhague, o Fundo Verde para o Clima foi aprovado na COP 16, realizada há um ano em Cancún, com o objetivo de ajudar as nações pobres na mitigação e adaptação à mudança climática. Então, o Norte industrializado se comprometeu a aportar US$ 30 bilhões em 2012 e US$ 100 bilhões anuais até 2020. Agora, espera-se que os delegados de mais de 190 países reunidos em Durban deem por concluído o processo de implantação do Fundo Verde. Em uma tentativa de conseguir consenso, a presidente da COP 17, Maite Nkoana-Mashabane, disse que dialogará com representantes de vários países em “debates transparentes e informais”. Contudo, não existe um processo ou calendário definitivo para essas conversações. Partidários do Fundo mantêm as esperanças enquanto esperam pelo informe de Nkoana-Mashabane. Alguns especialistas sugerem que em lugar de reiniciar as negociações deveria haver um texto adicional ao rascunho do documento que resolva algumas das preocupações mais prementes, enquanto outros assuntos podem ser abordados pela direção do Fundo, uma vez eleita. Um financiamento imediato para a adaptação e mitigação não só ajudará os países e enfrentar a mudança climática como terá forte efeito econômico. O Banco Mundial e o Serviço Geológico dos Estados Unidos estimam que as perdas econômicas mundiais por catástrofes naturais na década de 1990 poderiam ter sido menores em US$ 280 bilhões se tivesse havido investimento de apenas US$ 40 bilhões em prevenção de desastres. No entanto, dois anos depois de se comprometerem a mobilizar recursos financeiros para adaptação e mitigação da mudança climática, os países industrializados ainda têm que determinar de onde virão os fundos públicos prometidos. Por outro lado, focaram em como mobilizar o setor privado. Se o Fundo tiver os cofres vazios, não terá razão de ser, alertou Ilana Solomon, conselheira de políticas no capítulo norte-americano da ActionAid. “Sabemos que estes tempos são duros para a ajuda financeira e que os orçamentos são ajustados”, disse, referindo-se à crise da zona do euro, “mas a verdade é que os países ricos podem dar esse dinheiro”, acrescentou. As dificuldades para garantir o financiamento do Fundo Verde são alarmantes, porque, embora os países acabem fornecendo a totalidade do orçamento, isso não bastaria. A Comissão Europeia e o Banco Mundial estimam que é necessário pelo menos o dobro dessa quantia para a adaptação e mitigação nos países em desenvolvimento. Outros especialistas dizem que o mundo necessitará de US$ 5,7 trilhões até 2035 para abordar os efeitos da mudança climática. “O custo da falta de ação é muito maior do que o da ação”, disse a conselheira de políticas sobre mudança climática da filial australiana da Oxfam Internacional, Kelly Dent. Até agora, os países não acordaram um só mecanismo para atrair fundos públicos. Em meio aos acalorados debates sobre o Fundo Verde, esgotam-se as possibilidades de os países chegarem a um acordo sobre um segundo período de compromissos do Protocolo de Kyoto, que expirará no ano que vem. Além do bloco socialista da UE, nenhuma outra nação industrializada apoia um prolongamento. Estados Unidos, Rússia e Japão expressaram seu desinteresse, enquanto o Canadá provocou protestos públicos esta semana quando se soube que pretende abandonar o Protocolo de Kyoto, provavelmente para evitar multas por não cumprir seus objetivos de redução de emissões. “Não podemos deixar que a medida adotada pelo Canadá nos distraia do progresso muito real que se pode conseguir com a UE e outros, como caminho crucial para um regime legalmente vinculante” para a redução de emissões, advertiu Dent. Inclusive a União Europeia mudou levemente seus passos. Agora quer que os principais emissores mundiais de gases-estufa acordem até 2015 um pacto para ser implantado no máximo em 2020, e em troca oferece ampliar seus objetivos de redução de emissões sob o Protocolo de Kyoto. A UE diz que espera que saiam do ponto morto em que estão as conversações e se encontre um denominador comum com a China e outras economias emergentes. Especialistas em mudança climática acreditam que não se pode esperar até 2020 para fixar objetivos firmes de redução de emissões. “Precisamos de ambição para ampliar os objetivos de redução de emissões a partir de 2012”, destacou Dent. Os países em desenvolvimento – especialmente na África, onde a mudança climática será mais intensamente sentida – apostam que a UE possa convencer outras nações industrializadas a se comprometerem com um segundo período do Protocolo de Kyoto. “Para nós há muito em jogo”, afirmou Raymond Lumbuenamo, coordenador regional para a África central do Fundo Mundial para a Natureza. “Já experimentamos os impactos reais da mudança climática. Somos as vítimas de uma mudança que não causamos. A África não quer ser o cemitério deste tratado”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Kristin Palitza, da IPS
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Virada na Espanha

Barcelona, Espanha, dezembro/2011 – Entre os múltiplos ângulos que as eleições na Espanha merecem, destaca-se sobre todos a espetacular derrota do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), mais do que a clara vitória do Partido Popular (PP). Os socialistas foram sepultados em níveis que não se tem lembrança desde o renascimento da democracia espanhola em 1976, quando tiveram que lutar, quase saindo da clandestinidade, diante da União de Centro Democrático (UCD), a coalizão de centro-direita com restos do franquismo, que também foi inventada e dirigida por Adolfo Suárez. Do partido de Felipe González, que apenas sobreviveu durante os dois mandatos de Rodríguez Zapatero (antes de tudo pelos erros do PP), não resta praticamente mais do que uma recordação. Por que ocorreu este desastre e de quebra a vitória estelar do PP? O PP conquistou todas as cinquenta províncias, menos meia dúzia. Este voto dos cidadãos é o reflexo do castigo infligido por dois motivos principais. O primeiro é a rejeição à social-democracia que não pôde enfrentar a crise generalizada de toda a Europa, paradoxalmente quando na última década havia adotado medidas neoliberais. O segundo é a percepção generalizada de que o PSOE fez uma segunda gestão errônea e tardia para corrigir a catástrofe financeira. Internamente, duvida-se do próprio futuro imediato do Partido, que ficará órfão de liderança e que se verá voltado para uma urgente refundação interna. Para esse projeto terá que lutar também com o contundente efeito dominó que acontece na Europa com a derrota sucessiva de partidos socialistas, trabalhistas e “progressistas”. Desde o Reino Unido, com a deterioração do partido de Blair e o erro de sua “terceira via”, até a defenestração de Papandreu na Grécia, caíram quase todos os governos que são membros da Internacional Socialista, chave da fundação e do desenvolvimento da União Europeia. De uma maioria de esquerda no Conselho e no Parlamento europeus há pouco mais de uma década, hoje restam de pé apenas Dinamarca e a minúscula Eslovênia. Agora, como já estão experimentando as formações de centro-direita no Reino Unido, Alemanha, França e Itália, a tarefa que se espera de Mariano Rajoy é impressionante. A Europa (e o mundo) passou de uma estrutura em que o Estado tinha como função primordial dominar o mercado a ter alguns países dominados pelos mercados, sem que se saiba se existe uma crise no sistema capitalista, ou uma doença inata do capitalismo, enquanto as fórmulas revolucionárias do passado não representam a alternativa. No contexto interno, outros sinais da mudança são intrigantes. Embora se possa dizer que o mapa político pode ter passado de um bipartidarismo para um monopartidarismo em amadurecimento, em algumas comunidades da chamada periferia, o panorama é mais complicado. No novo País Basco que apenas está saindo do desaparecimento da ETA, a última eleição em nível estatal revela a subida da coalizão Amaiur, radicalmente independentista, que engloba setores que até ontem apoiavam as teses criminosas terroristas ou apoiavam a ETA com o silêncio. O aviso que Bildu, sua outra transformação, lançou com sua vitória nas recentes eleições municipais agora foram replicadas por este resultado; se seus votos se unirem ao mais moderado PNV, em eleições estritamente bascas, a independência teria se imposto. O PSOE e o PP, que paradoxalmente agora governam em colaboração na estrutura autônoma, ficariam fora de jogo. Também foram castigados por exercerem o poder. Diferente é o cenário na Catalunha, onde o desenho é mais próximo do tripartidarismo, com três formações hegemônicas (socialistas, populares e os componentes da coalizão democrata-cristã-liberal Convergencia i Unió-CiU). A novidade é que a CiU superou pela primeira vez os socialistas nas eleições gerais. Mas seu apoio eleitoral não é suficiente, unido ao dos independentistas do Esquerra, para formar uma frente que optasse pela separação da Espanha. Com a maioria absoluta do PP evapora a anterior fortaleza da CiU, como a do PNV, já que historicamente negociavam seu apoio parlamentar aos dois grandes partidos órfãos do domínio total no Congresso. Internamente, ao se verem libertos dessa tentação, ficam com plena autonomia para reforçar suas teses “soberanas” e apresentar-se como protetores da independência. É evidente que o tsunami do PP também foi a causa da passagem de votos “naturais” do PSOE para a Izquierda Unida, os comunistas reciclados, que quintuplicaram suas cadeiras desde que nas eleições anteriores nem mesmo puderem contar com um grupo parlamentar próprio. Resulta enigmático saber se no futuro o PSOE vai recuperar esse apoio. Igual pergunta apresenta a oscilação espetacular do milhão de eleitores ao PSOE, que nas duas votações anteriores apoiaram Zapatero e agora deram as costas a Rubalcaba. A crise e o pânico do desemprego os forçaram a mudar com armas e bagagens para apoiar um partido com o qual não comungam ideologicamente. O preocupante é que a melhoria não depende apenas dos esforços dos espanhóis, mas de toda a Europa e com ela de todo o mundo industrializado e financeiramente quebrado. Envolverde/IPS * Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami.


por Joaquín Roy*
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ONU alerta sobre risco de recessão mundial

Nações Unidas, 2/12/2011 – A Organização das Nações Unidas (ONU) reafirmou um temor que assedia as capitais do Ocidente: a crise econômica mundial se aprofunda e a recessão parece inevitável. “A situação é muito desanimadora” e a previsão é que vai piorar, disse aos jornalistas o secretário-geral de Desenvolvimento Econômico no Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais, Jomo Kwame Sundaram. Em seu informe bianual de 40 páginas, intitulado “Situação e perspectivas da economia mundial 2012” (www.un.or/en/development/desa/policy/wesp/index.shtml), divulgado ontem, a ONU retrata um panorama bastante sombrio. A União Europeia e os Estados Unidos constituem as duas maiores economias do mundo e estão “profundamente entrelaçadas”, por isso “seus problemas podem facilmente se retroalimentar e expandir em outra recessão mundial”, alerta o documento. Os desafios mais graves – acrescenta – são a contínua crise de emprego e as más perspectivas em matéria de crescimento econômico, especialmente nos países industrializados. O fato de os dirigentes políticos, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, não conseguirem abordar a crise de desemprego nem impedir uma escalada da dívida soberana e da fragilidade do setor financeiro, representa o risco mais sério para a economia mundial com vistas a 2012 e 2013, afirma o estudo. Entre os principais países em desenvolvimento, espera-se que o crescimento na China e na Índia seja “robusto”. Porém, o produto interno bruto chinês diminuiu, passando de 10,3%, em 2010, para 9,3% este ano, e a projeção é que caia para menos de 9% no período 2012-2013. Quanto à Índia, calcula-se que sua economia crescerá de 7,7% para 7,9% nesse período, o que implicará uma queda em relação aos 8,5% que registrou em 2010. Além disso, o documento afirma que os países em desenvolvimento serão afetados por meio dos canais comerciais e financeiros. “A crise da zona do euro é causa e efeito da desaceleração econômica na Europa”, disse à IPS o diretor da Divisão de Análises e Políticas de Desenvolvimento no Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, Rob Vos. Devido à crise, o déficit fiscal aumentou, o que fez crescer a proporção da dívida pública, acrescentou. As medidas de austeridade fiscal adotadas em resposta à crise de dívida soberana em um contexto de alto desemprego e um setor bancário atolado prejudicam as economias europeias e exacerbam a pressão da dívida soberana, segundo Vos. No mês passado, a produção manufatureira da China caiu pela primeira vez desde 2009. O aumento da produção nos países pobres alcançará 6% este ano, o que já é 1,5% menos do que em 2010, e espera-se uma desaceleração ainda maior no ano que vem, principalmente em consequência da debilidade econômica na Europa e nos Estados Unidos. Os problemas da dívida soberana na Europa, bem como nos Estados Unidos, causaram uma crise financeira mundial caracterizada pela instabilidade dos mercados de valores e das taxas de câmbio, explicou Vos, lembrando que isto exacerbou a volatilidade do fluxo de capitais. A incerteza financeira também afeta os preços das matérias-primas, que baixaram em relação aos valores do começo deste ano, mas que, sobretudo, mostram maior volatilidade, acrescentou. Isto complica o manejo macroeconômico nos países em desenvolvimento e não é propício para os investimentos de longo prazo em seu desenvolvimento econômico. São altos os riscos de maior desaceleração e inclusive de uma recessão mundial, afirmou Vos. Para este especialista, embora alguns países individualmente tenham reduzido seu orçamento de assistência, em termos gerais, a ajuda ao desenvolvimento aumentou no ano passado e, apesar da maior austeridade fiscal, é possível que continue crescendo no período 2011-2013. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
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Sanções econômicas não abatem os iranianos

Teerã, Irã, 2/12/2011 – Enquanto o Irã lida com as sanções internacionais que tentam frear seu programa nuclear, um indicador não oficial que ainda está para ser medido é a grande confiança dos consumidores. Em março, durante seu discurso pelo Ano Novo persa transmitido pela televisão para todo o país, o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, disse que este ano de 1390 era o da “jihad econômica”. E acrescentou que “estas sanções que os inimigos da nação iraniana estão planejando ou implementando buscam desferir um golpe ao progresso de nosso país”. De fato, as sanções, juntamente com um alto desemprego e inflação, bem como com um escândalo bancário generalizado, fazem com que a população esteja indignada e nervosa quanto ao futuro, e os analistas estrangeiros estão convencidos de que a qualquer momento haverá um protesto no Irã. A moeda iraniana, o rial, sofre uma desvalorização histórica em comparação com as principais divisas mundiais, e é provável que nos próximos meses continue em queda livre. Para a maioria dos países, a sucessão de más notícias financeiras seria desastrosa, mas o Irã não é a maioria dos países. Reduzir seus hábitos de consumo é algo que aparentemente nem se propõe aos iranianos, já que o comércio é parte integral de sua identidade e de suas tradições. Um exemplo que pode parecer trivial a um estrangeiro, mas que está profundamente arraigado nesta cultura ancestral, é a importância de presentear. Na maioria dos casos considera-se inaceitável chegar à casa de alguém com as mãos vazias. Daí floriculturas e confeitarias prosperarem enquanto para os dentistas é difícil ganhar a vida. Além disso, enquanto o preço da maioria dos bens e serviços aumentaram mais rapidamente este ano desde a implantação de reformas aos subsídios, o iraniano médio não está nem perto de ir para a cama com fome. O plano do senador norte-americano Mark Kirk para “ferir economicamente o Irã, e seu prognóstico de que sancioná-lo reduziria o rial à sua mínima expressão, parece, neste momento, uma demonstração de pensamento mágico. Para compensar a carestia de bens e serviços antes subsidiados, o governo fez depósitos diretos em dinheiro nas contas bancárias de todo iraniano que se inscreveu no programa. Para Kevan Harris, pesquisador da Universidade Johns Hopkins, que visita o Irã com frequência, estes depósitos mensais “somam fluxos de dinheiro às vidas de todos, não apenas dos ricos”. Isto não só torna muito improvável que ocorram distúrbios por falta de alimentos, como também levou, nos últimos meses, a já conhecida tendência consumista dos iranianos a um grau sem precedentes. Fazendo compras em um dos principais bazares de Teerã, Golnaz, uma contadora de 27 anos, não duvidou em gastar US$ 6 de seu salário mensal equivalente a US$ 500 para comprar menos de 230 gramas de frutas secas. “Este é o preço. Estamos acostumados com as coisas custando mais. É assim para minha geração”, afirmou. Proliferam empreendimentos de venda varejista em centros urbanos, especialmente restaurantes. Para um país que supostamente está à beira da bancarrota, as longas filas diante de muitos locais de venda de comida mostram um cenário muito diferente do que circula nas capitais do Ocidente. Restaurantes com todo tipo de especialidade, desde o sushi japonês até os burritos mexicanos, pululam por toda a capital, e sua clientela não parece muito preocupada em gastar o que resta em seus bolsos apesar do futuro incerto. Nesta terra, onde os bares e os clubes não existem, é comum se pagar US$ 7 por um café com leite, e as lojas que os servem prosperam mais do que nunca. “Há duas coisas com as quais os iranianos não deixarão de gastar. Uma é comida, e a outra são os produtos luxuosos. Novas roupas, novos celulares, novos automóveis, se podem pagar. Pode não ser sábio, mas nos preocupa muito o que os outros pensam a nosso respeito”, disse Shabnam, um jornalista local. Entretanto, um problema cada vez maior é que muitos dos bens que alimentam este auge do consumo não são produzidos no país. A dependência das importações aumenta. A carne nacional, por exemplo, custa quase US$ 20 o quilo, enquanto a congelada e importada do Brasil e do Uruguai está em torno dos US$ 6. Ao contrário do Irã, a Turquia trabalha duramente para desenvolver uma produção interna, provendo simultaneamente sua economia de mercadorias suficientes para atender as necessidades nacionais, além de criar milhões de postos de trabalho nas indústrias exportadoras. Com uma política recíproca que não requer visto para entrar no país vizinho, os consumidores iranianos afluem maciçamente à Turquia para aproveitar os preços menores e as mercadorias que, normalmente, são de melhor qualidade. As exportações turcas também apostam em ficar com uma fatia mais suculenta do mercado iraniano, à custa dos produtores desse país. De modo semelhante, a China se converteu no principal fornecedor de produtos para o Irã. Segundo Harris, “o problema no caso do Irã não é falta de dinheiro, mas muito dinheiro que não está dirigido a esforços produtivos”. Junto com suas exportações, a quantidade de viajantes chineses que chegam ao Irã aumentou drasticamente nos últimos meses. Enquanto boa parte do mundo acordou deixar de fazer negócios com o Irã, Pequim parece ansiosa para preencher esse vazio com o que possa desejar esse mercado voraz. A indústria na qual o Irã tem certo êxito nos últimos tempos é a produção de automóveis. De fato, é o principal produtor e exportador de automóveis na região. Entretanto, esta não é a impressão que se tem ao se dirigir em Teerã, onde disparou o número de carros de luxo estrangeiros, apesar dos altos impostos sobre as importações, que podem passar dos 100%. É comum ver Maseratis, Porsches, BMW e Mercedes Benz circulando pela capital, onde há apenas um ano era difícil encontrar um veículo que não tivesse sido fabricado ou montado no país. Envolverde/IPS


por Análise de Jason Rezaian

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Novo guia sobre aves da Mata Atlântica é lançado no Brasil. O material apresenta 100 espécies de pássaros. Foto: Haroldo Palo Jr

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Filhote de panda brinca com a mãe em centro de reprodução na China. Instituição de pesquisa de Chengdu tenta salvar espécie da extinção.

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Falta de lixo em Oslo, Noruega, pode comprometer geração de eletricidade. Pouca produção de resíduos de outros países pode afetar usinas.

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Derretimento de geleiras não-polares causa 30% da elevação do mar. Dado foi apresentado em estudo na revista ‘Science’.

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Austrália quer proibir fertilização do oceano com sulfato de ferro. Método reduziria acidificação e combateria efeitos da mudança do clima.

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Já pensou em vender ou comprar sobras de comida através da internet? Esta é a ideia da plataforma virtual Shareyourmeal, uma forma interativa de combater o desperdício de alimentos. Saiba mais aqui.

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CET de São Paulo abres inscrições para o curso “Pedalar com Segurança”. Saiba mais.

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Cerca de 62% dos acidentes da exploração de petróleo offshore aconteceram em plataformas com mais de trinta anos. Novo site do Greenpeace vai monitorar ocorrências no pré-sal.

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Unesco critica Austrália por riscos ambientais na Grande Barreira de Coral

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Estudo calcula benefícios de árvores urbanas dos Estados Unidos. Parques absorvem carbono emitido e poupam US$ 1,5 bilhão por ano.