Comunidades mexicanas exigem justiça por contaminação

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Comunidades mexicanas exigem justiça por contaminação


por Emilio Godoy, da IPS


[caption id="attachment_86926" align="alignleft" width="320" caption="Foto: Divulgação/ Internet"][/caption] Cidade do México, México, 15/5/2013 – Fartos dos vazamentos de petróleo em instalações da companhia petrolífera estatal do México, moradores de duas comunidades do Estado de Tabasco irão à justiça em busca de ressarcimento pelos danos causados ao meio ambiente e à agricultura. Moradores de Cunduacán e Huimanguillo, que juntos somam 300 mil pessoas, entrarão em junho com uma ação coletiva contra a empresa Petróleos Mexicanos (Pemex). “Houve muitos problemas. Fizemos exames de solo, sedimentos e água, e em breve receberemos os resultados”, contou à IPS a diretora da não governamental Fronteiras Comuns, Marisa Jacott. Essa organização assessora, junto com a Associação Ecológica São Tomás, a população prejudicada pelos sucessivos vazamentos e explosões e que se dedica essencialmente à agricultura e à pesca. Sua base legal é a Lei de Ações Coletivas, de 2011, que permite aos clientes descontentes com a prestação de bens e serviços e à Procuradoria Federal de Proteção ao Consumidor ir à justiça contra empresas estatais e privadas. Contudo, a lei não contempla a reparação do dano. A indústria de petróleo se instalou na área no começo da década de 1950 e se expandiu a partir dos anos 1970 com complexos petroquímicos, rede de tubulações e instalações de armazenamento, o que gerou um boom econômico, mas que não se traduziu em benefícios para a população local. Ao mesmo tempo, essa expansão deslocou os tradicionais cultivos de banana e a pecuária extensiva. Em 13 dos 17 municípios em que Tabasco se divide há atividade petroleira, com produção diária de 500 mil barris, segundo o Instituto Mexicano do Petróleo. “Há contaminação ambiental, destruição de cultivos, terras que já não são férteis. Isto fez com que não possam colher como antes”, explicou à IPS a ativista Lorena Sánchez, diretora do não governamental Comitê de Direitos Humanos de Tabasco (Codehutab), que recebeu queixas dos habitantes por esses fatos. “Também repercutiu na alimentação e em problemas de saúde, respiratórios, no sangue e na pele”, apontou. O Codehutab apresentou desde 2011 quatro demandas junto à Procuradoria Federal de Proteção ao Meio Ambiente (Profepa), que só derivaram em multas para a Pemex, mas não em indenização para as vítimas nas comunidades. O último caso foi este ano, e se relaciona com a operação de sete queimadores de gás no município de Paraíso, onde a organização fez exame em amostras de sangue de 50 crianças entre sete e 15 anos de idade, 10% dos quais apresentaram alterações cromossômicas vinculadas por epidemiologistas à atividade industrial. A Profepa calcula uma média anual de 20 vazamentos de petróleo em Tabasco. Entre 2008 e 2012, o Ministério de Meio Ambiente registrou 102 locais contaminados por emergências ambientais no país, com responsabilidade da Pemex, sendo três registrados em Tabasco. Além desse território, também Veracruz, Tamaulipas, Hidalgo e Puebla, no leste e sudeste, e suas rotas para a Cidade do México são considerados vulneráveis à atividade petroleira. Esta indústria gera na região metais pesados, ozônio, dióxido de enxofre, óxido de nitrogênio, compostos orgânicos voláteis, como benzeno, sulfeto de hidrogênio, sais, amônia, cádmio e ácidos, todos nocivos ao meio ambiente e à saúde humana, segundo as organizações. Os acadêmicos Manuel Pinkus-Rendón e Alicia Contreras, da Universidade Autônoma de Yucatán, concluíram, em um estudo divulgado no ano passado, que “o sistema socioambiental de Tabasco reflete um potencial de desenvolvimento regional bem reduzido em relação ao que havia há mais de 60 anos, como resultado da deterioração ambiental”. Para a pesquisa Impacto Socioambiental da Indústria Petroleira em Tabasco: O Caso de Chontalpa, os autores ouviram 200 habitantes de quatro comunidades do município de Cárdenas, 65% dos quais expressaram uma percepção negativa da exploração de hidrocarbonos, especialmente da contaminação e destruição que produz. “É um caso que não foi atendido. Queremos que os juízes tenham os elementos para rejeitá-los”, declarou Jacott. Os moradores afetados apresentaram em abril uma queixa junto à estatal mas autônoma Comissão Nacional de Direitos Humanos. Além disso, em 2004, entraram com queixa contra a Pemex na Procuradoria Geral da República, sem que o processo avançasse. As organizações e os moradores, que demoraram dois anos preparando este processo, em seguida prosseguirão para denunciar os danos sofridos no Estado de Veracruz, outro cenário importante das atividades da Pemex. “Queremos que sejam cumpridas as medidas de prevenção. O que a Pemex faz apenas é supostamente reparar os danos, mas não investe na manutenção das tubulações e em vigiar a área”, reclamou Sánchez. As organizações pedem um diagnóstico sobre o estado dos ecossistemas de Tabasco, a difusão de políticas e diretrizes da Pemex para programas de prevenção de vazamentos, contingências ambientais, remediação de locais contaminados e substituição progressiva de hidrocarbonos por energias alternativas, bem como a medição dos principais contaminantes atmosféricos no território. Envolverde/IPS

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Imagem e conhecimento da União Europeia na América

Miami, Estados Unidos, maio/2013 – Eu me pergunto o que pode ser do interesse dos cidadãos latino-americanos com relação aos temas europeus em geral, e qual deveria ser o foco de atenção em assuntos específicos para os consumidores dos meios de comunicação hispânicos nos Estados Unidos. Confesso a complexidade da pergunta geral e me declaro um tanto incompetente para oferecer uma prescrição com alguma base sólida. Este diagnóstico é, de certa forma, uma admissão de fracasso por ter praticado durante mais de quatro décadas essa profissão de fim de semana, colaborando em meios de comunicação em espanhol nos dois continentes e cumprindo as frequentes perguntas desses mesmos veículos. Um princípio da avaliação do conhecimento e da imagem da Europa nesses meios é que não é muito diferente da oferecida pela imprensa, a televisão e o rádio em inglês nos Estados Unidos e pelos próprios latino-americanos do outro lado do rio Grande e Cayo Hueso. Em contraste com o impacto da história europeia nas Américas, nos meios de comunicação hispânicos nos Estados Unidos se observa uma mescla de desinteresse, domínio do estereótipo e umas lacunas verdadeiramente preocupantes de conhecimento básico. Esta percepção é mais aparente quando se trata de comentar sobre a União Europeia (UE) em si, que se confunde com a Europa. Este diagnóstico negativo é levemente corrigido em alguns focos excepcionais. O primeiro é quando a atualidade incide diretamente nas experiências dos consumidores de informação (emigração latino-americana na Europa). O segundo, dependendo da região do território norte-americano, quando os fatos europeus se relacionam diretamente com alguns países concretamente (Cuba em Miami, por exemplo). A terceira causa de certo interesse é quando alguma pauta europeia é vista diretamente ligada a conjunturas comuns nos Estados Unidos (crise financeira , tráfico de drogas). Mas a União Europeia em si é uma desconhecida. Quais são as causas? A resposta reside não em uma culpabilidade da própria UE, mas precisamente pelo próprio cumprimento de sua missão original. A Europa não interessa porque não escandaliza. Dá-se por descontada. Por um lado, além de esporádicas atitudes populistas, a Europa já está despojada do pecado imperialista na América Latina. Praticamente, desde após a independência dos Estados Unidos, a Europa é uma aliada natural (com exceções que confirmam a regra, como o enfrentamento entre Espanha e Cuba). Quando um cachorro morde um homem, não é notícia; quando um homem morde um cão, é notícia, segundo o código do jornalismo. Há tempos que a Europa não morde. Paradoxalmente, os que acusam a UE de ter fracassado e estar perto de seu desaparecimento deveriam admitir que caso morra terá obtido êxito. Cumpriu todas e cada uma das missões impostas democraticamente e por consenso. Primeiramente, cumpriu o mandato de “fazer da guerra algo impensável, e materialmente impossível”, segundo a doutrina de Robert Schuman e Jean Monnet. Em segundo lugar, construiu o maior e mais efetivo mercado comum da história. Conseguiu que hoje (apesar da crise) nunca tantos europeus de três gerações vivam melhor por maior espaço de tempo. Mas não morde, embora a crise do euro ajude um pouco a atrair a atenção. Em terceiro lugar, o interesse em relação à UE se choca com uma desvantagem intrínseca do organismo: é extremamente complicado. Além de se confundir com a Europa (uma realidade histórica e cultural não reduzida à geografia), a União Europeia ainda é um “objeto político não identificado (OPNI)”, segundo feliz metáfora de Jacques Delors, não esclarecida pelas diversas teorias (funcionalismo, intergovernamentalismo, supranacionalismo, realismos). Para profanos e especialistas, a UE é um emaranhado de instituições, legislações, pactos e múltiplos protagonistas, “governo multinível”. Nada tem de estranho que, diante da complicada agenda de uma visita a Bruxelas, Madeleine Albright (secretária de Estado de Bill Clinton e catedrática em relações internacionais) exclamasse com sarcasmo que para entender a UE é preciso ser “francês ou muito inteligente”. Para compreender a UE deve-se ter a paciência asiática, o entusiasmo latino-americano, o pragmatismo norte-americano e uma persistência muito alemã. Deve-se insistir que a UE utilize meios econômicos, mas que seu fim sempre foi político. Deve-se esclarecer que é uma organização voluntária formada por Estados soberanos, que não renunciarão à sua identidade cultural ou política. A UE não é um superEstado em formação. Deve-se admitir que os europeus talvez não saibam quem são e onde termina a Europa, mas sabem perfeitamente quem não são e quem não compartilha de seus valores ou experiências. Deve-se interiorizar que a UE não tenta impor seu modelo de integração nacional, mas procura compartilhá-lo e oferecê-lo para sua adoção, adaptação, correção ou rejeição, segundo os erros cometidos. Deve-se aceitar, enfim, que a UE, reescrevendo Winston Churchill com sua descrição da democracia liberal, é “o pior sistema de governança interestatal, descartados todos os demais”. Envolverde/IPS * Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).


por Joaquín Roy*
Derrocada de prédio, a 24 de abril, matou mais de mil trabalhadores e mostrou miséria dos trabalhadores do setor têxtil no Bangladesh Inter Press Service - Reportagens

Tragédia expõe debilidade de trabalhadoras têxteis de Bangladesh

[caption id="attachment_86780" align="alignleft" width="300" caption="Derrocada de prédio, a 24 de abril, matou mais de mil trabalhadores e mostrou miséria dos trabalhadores do setor têxtil no Bangladesh"][/caption] Daca, Bangladesh, 14/5/2013 – Até um mês atrás, a jovem Shapla era apenas mais uma empregada de uma fábrica da localidade de Savar, nos arredores da capital de Bangladesh. Atualmente, é uma sobrevivente com incapacidade de um dos piores acidentes da indústria têxtil deste país. A queda do grande Rana Plaza, um prédio com cinco fábricas, enterrou, no dia 24 de abril, uma enorme quantidade de trabalhadoras e trabalhadores sob um bloco de concreto e vidro. Havia quase mil mortes registradas, mas as buscas nos escombros prosseguiam. “Fico desesperada pelo futuro”, declarou Shapla, de 18 anos. Um sentimento compartilhado por centenas de mulheres que, como ela, perderam algum membro naquele dia fatídico. Esta jovem mãe se recupera em um hospital de Daca da amputação de suas mãos. É considerada uma das “felizardas” por sobreviver à queda, mas ela resiste em ver um lado bom da tragédia, pois agora seguramente estará impedida de encontrar trabalho. As mulheres, que constituem 80% da força de trabalho da pujante indústria do vestuário deste país, foram as mais afetadas pela tragédia. Também representam 80% das pessoas que morreram ou ficaram feridas no desastre. “Elas têm uma forte desvantagem social e econômica”, apontou Mashud Khatun Shefali, fundadora e diretora do Nari Uddung Kendra (Centro de Iniciativas de Mulheres). Esta organização, dedicada a defender melhores condições de trabalho, ajuda as sobreviventes a superar o trauma do acidente, explicou Shefali. Algumas “ficaram tão mal que dizem que jamais voltarão a trabalhar em uma fábrica. Elas precisam de reabilitação física e psicológica de longo prazo, e que suas famílias e a sociedade as aceitem como pessoas com incapacidades”, destacou. Bangladesh, onde a pobreza afeta 49% de seus 150 milhões de habitantes, desempenha há uma década um papel crucial no comércio internacional, ao oferecer uma vasta mão de obra barata. A indústria têxtil local é a terceira maior do mundo, atrás de China e Vietnã, com US$ 20 bilhões por ano, que representam 80% da entrada de divisas estrangeiras no país. Grandes firmas do Ocidente ou de ricos países asiáticos, como Japão e Coreia do Sul, começaram a mudar seus centros de produção para Bangladesh quando os velhos polos produtivos, como Tailândia, aumentaram os salários. Companhias como Gap, Primark, HMV, Walmart, Sears e American Apparel produzem aqui roupa barata em massa, que depois é vendida aos países importadores. Mais de cinco mil fábricas, com 3,5 milhões de trabalhadores lotando altos prédios em Daca e arredores, funcionam de forma ininterrupta. O quadro das empresas, das grandes e das pequenas, é principalmente de mulheres jovens de zonas rurais que emigram para a cidade esperando obter a capacitação à qual não têm acesso nas regiões agrícolas. Na cidade costumam morar juntas em lugares pequenos e dividir o banheiro e os alimentos. Analfabetas e sem formação, as trabalhadoras têxteis têm poucos meios para conseguir uma renda estável. Sua vulnerabilidade as converte em presas fáceis dos empresários, os quais argumentam que, para continuarem “competitivos” no mercado mundial, devem gastar o menos possível com mão de obra. Shefali contou que as jovens costumam começar como aprendizes e não recebem um salário, mas um pagamento que pode ser de apenas um dólar ao mês. Com o tempo passam a operar máquinas mais complexas e a ganhar um salário regular, disse a ativista. A maioria das mulheres costura, lava e empacota a roupa pelo equivalente a US$ 30 ou US$ 40, trabalhando uma média de dez horas por jornada os sete dias da semana. Já os homens costumam ocupar cargos mais altos, como controle de qualidade ou gerência. O setor do vestuário é o que oferece maior número de emprego e proporciona um salário a milhares de mulheres. Entretanto, nos últimos tempos uma série de tragédias expôs as duras condições de trabalho no setor. Em novembro morreram cerca de cem trabalhadoras no incêndio da fábrica Tazreen Fashion, nos arredores de Daca. As sobreviventes denunciaram que os gerentes as trancaram quando tentaram escapar do fogo. No acidente de 24 de abril, os responsáveis pela fábrica ameaçaram demitir as empregadas que não se apresentassem para trabalhar, apesar da advertência sobre a segurança do prédio de oito andares, que tinha autorização de construção para apenas cinco. Uma semana antes da tragédia, começaram a aparecer grandes rachaduras nos tetos e os engenheiros alertaram que a queda era inevitável. A negligência em matéria de segurança trabalhista é uma das muitas violações de direitos que sofrem as empregadas das fábricas. Às vezes, devem cumprir turno de 14 horas para produzir uma partida que gerará um rápido benefício aos proprietários. Alguns ativistas dizem que, em um país muçulmano com altos índices de pobreza, a indústria têxtil oferece às mulheres uma oportunidade para sair de suas casas e melhorar seu status, pois passam de trabalhadoras do lar para provedoras da família. A professora Sharmin Huq, aposentada pela Universidade de Daca e especialista em limitações físicas, teme que a discriminação social torne mais complicada a vida das mulheres. Também disse à IPS que as generosas doações que chegam de países como Alemanha e Estados Unidos para ajudar os sobreviventes devem ser canalizados para “a grande quantidade de trabalhadoras afetadas e ajudá-las a recomeçarem suas vidas”. O capitalismo selvagem Zahangir Kabir, proprietário da Rahman Apparels, com sede em Daca, reconhece que as condições de trabalho do setor têxtil são muito duras, mas argumentou que os empregadores são submetidos a “uma forte pressão”, e afirmou que pequenas companhias, como a sua, têm a obrigação de cumprir altos padrões comerciais e assumir perdas enormes. Kabir tem duas fábricas, uma que costura e outra que lava jeans. Seu quadro de funcionários com 500 pessoas, na maioria mulheres, produz jaquetas e calças vendidas nos mercados europeus e norte-americanos. Mas os rígidos padrões de qualidade e prazos impostos pelas matrizes do Ocidente são difíceis de serem cumpridos em Bangladesh. “Agitações políticas imprevistas e regulares cortes de eletricidade impedem o cumprimento dos prazos e a entrega de produtos baratos”, explicou Kabir. Os fornecedores de Bangladesh trabalham por uma prometida substanciosa renda, mas também enfrentam grandes riscos no “selvagem mercado capitalista”, afirmou. Envolverde/IPS


por Suvendrini Kakuchi, da IPS
n6 Inter Press Service - Reportagens

A ONU quer ser uma Babel

Nações Unidas, 14/5/2013 – Quando, no final de 1991, candidatou-se para o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o então chanceler egípcio Boutros Boutros-Ghali precisou competir com seu colega do Zimbábue, Bernard Chidzero, com quem mantinha uma longa amizade. No momento mais intenso da campanha, Boutros-Ghali revelou detalhes de um rápido encontro que teve com Chidzero durante uma conferência na África, continente que na época reclamava o posto de máximo chefe da ONU argumentando a rotatividade geográfica. Chidzero, procedente de uma nação de fala inglesa que contava com apoio da Grã-Bretanha e da Comunidade Britânica de Nações (organização de 54 países que compartilham laços históricos com Londres), conversava com Boutros-Ghali em inglês quando, de repente passou a falar em francês. Captando de imediato a mensagem, Boutros-Ghali colocou o braço sobre os ombros de Chidzero e, brincando, lhe disse: “Bernard, se quer a aprovação da França, não só terá que falar francês, mas também inglês com sotaque francês”. A França, membro permanente do Conselho de Segurança, defendia com tanta paixão seu idioma na ONU, que provavelmente teria exercido seu poder de veto contra qualquer candidato que não o falasse. Até hoje, ninguém que pretenda ser secretário-geral da ONU pode ser dar o luxo de não ter um nível aceitável de francês, ou ao menos se comprometer a dominar o idioma. Paris continua considerando o francês “a língua da diplomacia internacional”. Nos últimos 66 anos, os dois idiomas dominantes nas Nações Unidas têm sido o inglês e o francês, embora o fórum reconheça outras quatro línguas oficiais: chinês, árabe, espanhol e russo. Boutros-Ghali, que falava fluentemente tanto inglês quanto árabe e francês, foi secretário-geral entre 1992 e 1996. Na semana passada, o Grupo dos 77 (G77), que reúne 132 países em desenvolvimento, queixou-se de “continuar aprofundando a disparidade no uso dos (seis) idiomas oficiais no site da ONU”. O embaixador de Fiji, Peter Thomson, que preside este grupo, declarou à Comissão de Informação que os esforços do Departamento de Informação Pública (DIP) para melhorar os conteúdos linguísticos no site das Nações Unidas não são suficientes. “O Grupo reitera seu pedido para que os escritórios que fornecem conteúdos à Secretaria da ONU traduzam todos os materiais e bases de dados em inglês para os demais idiomas oficiais, e os deixem disponíveis nos respectivos sites dessas línguas”, acrescentou Thomson. No mês passado, o DPI tomou a iniciativa de traduzir para o espanhol os comunicados de imprensa divulgados durante a reunião da Comissão sobre População e Desenvolvimento. Atualmente, o Departamento de Operações de Manutenção da Paz é o único escritório da ONU cujo site está nos seis idiomas oficiais. Consultado a respeito, o porta-voz do fórum mundial, Farhan Haq, admitiu que os comunicados de imprensa são divulgados somente em francês e inglês. “Porém, temos serviços de rádio em muitos mais idiomas, incluindo os seis oficiais, e traduzimos as mensagens do secretário-geral para muitas línguas”, disse à IPS. Haq destacou que a tradução simultânea de encontros e conferências não é a única instância em que a ONU usa todos os idiomas oficiais. O funcionário destacou que muitos documentos, incluindo informes do secretário-geral, são divulgados nas seis línguas. Consultado sobre os idiomas que fala o atual secretário-geral, o porta-voz disse que Ban Ki-moon fala inglês, francês, chinês, além de sua língua mãe, coreano. “Quando viaja também tenta aproveitar seu conhecimento de outros idiomas”, destacou Haq. A embaixadora de Omã, Lyutha Sultan Al-Mughairy, presidente do Comitê de Informação, disse à IPS que esse órgão pela primeira vez destacou a responsabilidade da Secretaria de promover o multilinguismo em todas as atividades de comunicação e informação das Nações Unidas, “com os recursos existentes e em uma base equitativa”. Mughairy destacou que, no mês passado, lançou um projeto para difundir comunicados de imprensa também em espanhol durante grandes encontros, e afirmou que no site da Missão Integrada Multidimensional de Estabilização em Mali são usados os seis idiomas oficiais. Além disso, com apoio do Programa de Voluntários das Nações Unidas, os capítulos introdutórios do último Anuário da ONU foram traduzidos para as seis línguas. “Portanto, creio que é criativamente possível, e acredito que muitos líderes do DIP desejam fazer o melhor”, ressaltou a embaixadora. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Egípcios fazem fila para adquirir alimentos subsidiados. Foto: Khaled Moussa al-Omrani/IPS Economia

Instabilidade política egípcia reflete na economia

[caption id="attachment_86774" align="alignleft" width="300" caption="Egípcios fazem fila para adquirir alimentos subsidiados. Foto: Khaled Moussa al-Omrani/IPS"][/caption] Cairo, Egito, 14/5/2013 – Independente de quem é o responsável pela atual crise política no Egito, seja o governo islâmico de Mohamad Morsi ou a beligerante oposição secular, especialistas locais estão convencidos de ao menos uma coisa: as duras circunstâncias econômicas não melhorarão sem estabilidade. “A situação econômica no Egito está intrinsecamente ligada à política”, disse à IPS o analista econômico Hamdi Abdel Azim. “A estabilidade econômica não pode ser obtida em meio à turbulência e a incerteza, que caracterizam a cena política egípcia há meses”, acrescentou. Ao assumir a presidência no ano passado, Morsi, primeiro chefe de Estado eleito em eleições livres, herdou grandes desafios de seu antecessor, o deposto Hosni Mubarak (1981-2011). Os altos índices de pobreza e o desemprego crônico, a deterioração dos serviços públicos e da infraestrutura, o crescente déficit orçamentário, a grande dívida externa e as crescentes disparidades entre ricos e pobres são alguns dos problemas que o regime de Mubarak não resolveu em três décadas de governo. Azim citou a “má administração e a corrupção” como as principais razões desses problemas. Porém, a situação econômica do país “se agravou consideravelmente” nos nove meses transcorridos desde que Morsi, da Irmandade Muçulmana, assumiu o governo. Neste período, segundo Azim, a libra egípcia desvalorizou frente ao dólar, enquanto as reservas de divisas caíram consideravelmente. A dívida interna também cresceu para aproximadamente US$ 187 bilhões. “Muitas empresas locais foram obrigadas a fechar, engrossando as filas de desempregados”, disse o analista. O setor turístico, por muito tempo uma das principais fontes de moeda estrangeira, continua arrastando os efeitos acumulados da instabilidade política. Desde maio de 2011, o Egito negocia um crédito de US$ 4,8 bilhões com o Fundo Monetário Internacional. Porém, o empréstimo está condicionado a uma série de difíceis reformas econômicas, incluindo grandes cortes de subsídios e aumento de impostos. A oposição política, agrupada na coalizão Frente de Salvação Nacional (FSN), atribui as dificuldades econômicas ao presidente Morsi. “Morsi e a Irmandade Muçulmana são responsáveis pela deterioração econômica do Egito”, afirmou em abril Amr Hamzawy, ex-parlamentar e membro do FSN. “O governo pressiona por leis econômicas sem consultar outras fontes políticas, enquanto os pobres pagam o preço de seus fracassos”. Alguns setores da oposição limitaram suas demandas a um punhado de mudanças constitucionais, à reorganização do gabinete e à destituição do procurador-geral. Contudo, outros pedem a renúncia de Morsi e a antecipação de eleições gerais. Nos últimos cinco meses, a FSN organizou várias manifestações e marchas, com muitas delas acabando em violência. Já a Irmandade Muçulmana responsabiliza pela crise econômica os setores mais extremistas da oposição, com constantes convocações de paralisações e protestos que só contribuíram para a desestabilização. “A principal causa do agravamento das condições econômicas é a insistência da oposição, especialmente da FSN, em exacerbar a tensão política, convocando manifestações violentas e, assim, desestabilizando o país”, disse à IPS o porta-voz do governante Partido da Liberdade e da Justiça, Murad Ali. “Em suas viagens ao exterior, o presidente Morsi tentou atrair investimentos diretos com a esperança de revitalizar a economia e concretizar as históricas demandas de justiça social”, acrescentou Ali. “Mas estes esforços não tiveram frutos devido à constante instabilidade política interna, que tem sido sistematicamente incitada pela oposição”, ressaltou. Os líderes da indústria alertam que as perspectivas econômicas do país continuarão ruins se a situação política não melhorar. “A falta de solução para a paralisia política poderá derivar na destruição total da indústria turística”, indicou à IPS o diretor da União de Câmaras de Turismo Egípcias, Ilaham al-Zayat. “A queda constante, que o Egito sofre em seus números desde a revolução de 2011, acabará causando o fechamento de empresas locais. Se não houver certa estabilidade política no longo prazo, os números nunca voltarão aos níveis anteriores à revolução”, destacou Ilaham. Com ele concordou o secretário-geral da União de Investidores Árabes, Gamal Eddin Bayoumi. “A deterioração econômica não pode ser contida sem antes se acabar com a incerteza política. Nenhum investidor colocará seu dinheiro em um país que vê como instável ou carente de instituições estatais que possam garantir o futuro de seus investimentos”, ponderou Gamal à IPS. Abdel Azim atribui a atual crise política tanto ao governo quanto à oposição. “A administração de Morsi tomou muitas decisões ruins sem considerar seus efeitos no longo prazo. Os assessores econômicos do presidente não estão qualificados”, opinou. “A oposição, no entanto, não quer aceitar os resultados das primeiras eleições presidenciais democráticas, que levaram Morsi ao poder”, acrescentou. No dia 7, em um esforço para aplacar as críticas, Morsi substituiu nove ministros, incluindo os de assuntos econômicos, como finanças, investimentos, planejamento, cooperação internacional, petróleo e agricultura. Em sua maioria, os novos ministros são membros da Irmandade Muçulmana ou seus simpatizantes. A oposição não viu isto com bons olhos. “Estas mudanças nada significam”, disse Amr Moussa, destacado líder da FSN e presidente do liberal Partido da Conferência Egípcia. “Logo será necessária nova reorganização do gabinete”, afirmou. Por sua vez, Abdel Azim disse que “as mudanças não atendem as demandas da oposição para um governo mais inclusivo. Isto apenas dificultará a solução dos graves problemas econômicos do Egito”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Adam Morrow e Khaled Moussa al-Omrani, da IPS
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O desafio de ser uma mulher maasai

Nações Unidas, 14/5/2013 – A tribo maasai, do Quênia e da Tanzânia, foi durante muito tempo um modelo de cultura tradicional para muitos africanos, e também para ocidentais que realizavam safáris em suas terras de Maasai Mara, Samburu ou Amboseli. Contudo, deixando de lado a familiaridade dos turistas, estes indígenas enfrentam em seu caminho muitos dos obstáculos também enfrentados por outras comunidades marginalizadas de todo o mundo. William Kikanae, líder comunitário de sua aldeia maasai em Maasai Mara, conversou com a IPS em Nova York, durante o lançamento de uma iniciativa da marca espanhola de sapatos Pikolinos, para dar oportunidades econômicas a mulheres das tribos locais. “Primeiro, sei por mim mesmo que as mulheres são a parte mais importante da família”, disse à IPS. Porém, “para o povo maasai as mulheres não são importantes. Elas não têm o mesmo poder que os homens”, observou. Como diretor da organização Adcam para o Quênia, Kikanae trabalha com marcas de outros países, como a Pikolinos, em projetos que permitam às mulheres de sua comunidade ganhar dinheiro. Por meio do Projeto Maasai, as mulheres da tribo bordam sandálias que são enviadas à Espanha para seu acabamento e venda em todo o mundo. Os ganhos retornam à comunidade em forma de projetos de desenvolvimento como escolas, clínicas e moradias. “Antes, os homens da minha comunidade pensavam que eu apoiava as mulheres para estar no poder mais do que elas”, contou Kikanae em relação ao Projeto Maasai. “Não estamos contra ninguém. Agora posso dizer que inclusive nossos políticos estão orgulhosos do projeto”, acrescentou. Uma funcionária do governo e médica da tribo maasai, que pediu para não ser identificada, disse que apoiar as mulheres e impulsioná-las para a primeira linha do desenvolvimento é uma maneira significativa de conseguir mudanças dentro da comunidade. “As mulheres não podem ser donas do gado que criam, mas se forem educadas isto mudará. Nem tudo está perdido para quem não foi à escola. Se seus homens permitirem que comercializem leite ou artesanato, elas poderão gerar renda para suas famílias”, disse a médica à IPS. As comunidades pobres sempre são exploradas e estão escassamente representadas no tocante à ajuda, por isso, quando uma tribo como a maasai se associa a uma organização do exterior, é natural que haja ceticismo. “O problema começa nos intermediários. Estes são homens que se supõem fazem a ligação da comunidade com ‘os que ajudam’. Estas pessoas aproveitarão a oportunidade de explorar a comunidade para atingirem suas próprias ambições, enquanto uma parte muito pequena da ajuda chega às beneficiárias”, advertiu a funcionária. “Como a educação está atrasada, os poucos indivíduos educados usam a ignorância da maioria em benefício próprio. Por isso, em poucas palavras, é possível que o aldeão comum não consiga estabelecer essa diferença”, destacou. As mulheres maasai não costumam negar os problemas que têm pela falta de instrução. Entendem que quanto mais gente educada existir em sua comunidade menos serão vítimas de exploração. Mas os velhos padrões permanecem. Em muitas aldeias africanas, somente se uma menina é considerada “inútil” em sua família (resistindo a se casar jovem, a realizar as tarefas domésticas ou cuidar do jardim) é que acaba enviada para a escola. Isto causa uma discriminação nas oportunidades e faz com que a educação seja inacessível para os que a desejam. Mesmo atualmente, é visível a dicotomia tradição-modernidade. Além disso, o fato de dentro da família não estarem atendidas as necessidades básicas, por exemplo de eletricidade ou transporte para a escola, dificulta muito o desempenho de um estudante da área rural. “Imagine-se tendo de fazer os trabalhos domésticos à luz de fogo ou caminhando longas distâncias e ainda ir à escola”, ponderou a médica. Para alguém de fora da comunidade pode parecer que as mulheres maasai não têm respiro, já que sofrem desde a falta de serviços de saúde – especialmente a materna, o que leva muitas a morrerem ao darem à luz –, até a propagação do HIV/aids, assunto sobre o qual a maioria prefere não falar. “Os homens vão às cidades, vendem vacas ou trabalham, mantêm relações com as mulheres do lugar e trazem o vírus para casa”, apontou a médica. “As mulheres não ouviram falar em preservativos ou de negociar para manter relações sexuais seguras”, ressaltou. Como em outras sociedades do mundo, a propagação do HIV/aids está diretamente vinculada à educação, e, quando meninos e meninas não recebem informação sobre saúde sexual, o ciclo perpétuo da enfermidade continua. A estas preocupações se soma o crescente problema do deslocamento de pessoas. “Os homens vendem vastos setores de Maasialand, às vezes sem as esposas saberem. Isto ocorre desde Kitengela até Namanga, na fronteira. Outras comunidades estão comprando esta terra, e em pouco tempo os maasai entrarão em áreas de acesso muito difícil. Para a funcionária, os líderes atuais têm vista curta para ver que está sendo forjada uma catástrofe". Para facilitar o desenvolvimento dos maasai, “é preciso uma boa liderança que guie este processo, para não haver exploração”, enfatizou. Com educação e uma boa liderança, os obstáculos enfrentados pela tribo são abordados lentamente. Uma a uma, as mulheres maasai têm mais probabilidades de reavaliarem as necessidades de suas famílias e de sua comunidade, ao mesmo tempo em que trabalham juntas com organizações locais e internacionais para conseguir uma mudança, ressaltou a funcionária. Envolverde/IPS


por Joan Erakit, da IPS
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Ação no México contra a BP por vazamento no Golfo

Cidade do México, México, 13/5/2013 – Um grupo de cidadãos mexicanos prepara a primeira ação civil junto a tribunais deste país contra a transnacional British Petroleum (BP), pelo vazamento de petróleo de 2010 no Golfo do México. Os demandantes se baseiam na figura do direito difuso e coletivo, estabelecida na reforma constitucional mexicana de 2011, que propicia aos cidadãos, que se sentem prejudicados direta ou indiretamente por um fato, entrar com ações junto aos tribunais. A denúncia civil inclui “desde danos aos vizinhos, pessoas proprietárias de terrenos habitacionais e comerciais na costa até afetados indiretamente pelos fatos. Por se tratar de direitos difusos, todos podem se considerar prejudicados”, explicou à IPS o advogado Óscar Preciado, da firma Rincón Mayorga Román Illanes Soto e Companhia. “Sem dúvida, abrirá um precedente importante. Existem ações coletivas, mas focadas em questões de consumidores”, não do tipo ambiental, observou Preciado, do escritório que representa os queixosos. No dia 20 de abril de 2010, a plataforma de perfuração Deepwater Horizon, que a BP alugava da suíça TransOcean, explodiu na costa do Estado norte-americano de Louisiana e afundou dois dias depois. No acidente morreram 11 trabalhadores e outros 17 ficaram feridos. Entre o dia da explosão e 15 de julho daquele ano, quando o poço Macondo foi finalmente selado, vazaram quase cinco milhões de barris (de 159 litros) de petróleo, dos quais foram recolhidos apenas 800 mil. O vazamento representa uma ameaça em médio e curto prazos para a área do Golfo que banha a costa dos Estados mexicanos de Tamaulipas, Veracruz e Quintana Roo, incluindo várias espécies de flora e fauna, recursos pesqueiros e locais turísticos, embora se ignore a magnitude final do dano, segundo os especialistas. “Pode-se processar o governo mexicano e a BP. O governo foi omisso neste caso”, disse à IPS o coordenador da organização não governamental Coletivas, René Sánchez. A instituição nasceu em novembro de 2012 para assessorar organizações e indivíduos na apresentação de ações coletivas. Em 2011 entrou em vigor no México a Lei de Ações Coletivas, que permite a clientes descontentes com a prestação de bens e serviços acionar empresas públicas e privadas na Procuradoria Federal de Proteção ao Consumidor. Mas a lei não contempla a reparação do dano. O ecocídio no Golfo do México derivou nos Estados Unidos em um monumental processo legal que aglutina mais de 130 mil demandantes e mais de 500 julgamentos, coligados no chamado multilitígio MDL-2179, a cargo do juiz federal Carl Barbier. Dentro desse macrojulgamento, em janeiro deste ano a BP se declarou culpada em 14 acusações, pelas quais pagará US$ 4,5 bilhões, mas as multas e indenizações podem aumentar conforme avançam as novas fases do complexo processo. No mês seguinte, a suíça TransOcean reconheceu ter violado a Lei de Água Limpa dos Estados Unidos, devendo pagar US$ 1,4 bilhão de multas. Barbier, titular do Tribunal do Distrito Leste de Louisiana, localizado em Nova Orleans, deu prazo até 21 de junho para que os defensores das corporações acusadas apresentem suas conclusões no julgamento iniciado em fevereiro. Em abril, o governo do presidente mexicano Enrique Peña Nieto entrou na justiça norte-americana contra a BP e outras companhias por causa do vazamento, depois que seu antecessor, Felipe Calderón (2006-2012), não se atreveu a fazê-lo nos dois anos anteriores. A esta ação somam-se as que os governos regionais de Tamaulipas, Veracruz e Quintana Roo e pelo menos duas companhias iniciaram em 2010 contra a BP, a TransOcean e outras empresas envolvidas na plataforma, por possíveis danos ao meio ambiente marinho, à costa e aos estuários. A nova demanda do governo será adicionada ao MDL-2179 também nas mãos de Barbier, como ocorreu com as apresentadas em 2010. A filial mexicana da BP não respondeu à consulta da IPS sobre a demanda do governo e a ação coletiva que está sendo preparada. Vários organismos mexicanos gastaram mais de US$ 11 milhões em estudos, diagnósticos, capacitação, perfurações, sobrevoos, campanhas oceanográficas e análises de laboratório, segundo os demandantes de 2010. A escassa investigação sobre os danos na área afetada foi o calcanhar de Aquiles para as organizações ambientalistas na hora de preparar o caso para a demanda junto à justiça mexicana. “Esse é o tema que mais nos limitou. Por se tratar de assunto de interesse geral, no México nunca existiu uma homologação do caso. O Estado mexicano não se mostrou tão participativo”, afirmou Preciado. “Os danos serão refletidos em anos e não serão resolvidos facilmente. Mas não nos assusta enfrentar a BP, pelo contrário, nos motiva”, garantiu o advogado, que prepara outra ação coletiva contra a estatal Petróleos Mexicanos (Pemex), por vazamentos no Estado de Tabasco. Isso representará um desafio para os juízes mexicanos, pouco acostumados a lidar com litígios de cunho ambiental, quando a ação der entrada em um tribunal federal da capital, em data ainda a ser marcada. “Tem a ver com a preparação dos magistrados e o estado da burocracia judicial. Um dos primeiros passos é reconhecer a classe de afetados como tal”, como ocorre no sistema norte-americano, afirmou Sánchez, que também prepara uma ação coletiva pela eventual introdução do cultivo comercial de milho geneticamente modificado. Apesar dos antecedentes da BP pelo desastre de 2010 e pelo vazamento de gás de 2008 no Mar Cáspio, na costa do Azerbaijão, que a empresa escondeu, a Pemex assinou em 2010 um acordo tecnológico com essa transnacional para as operações em águas profundas do lado asteca do Golfo do México. “É uma aberração”, disse o advogado Preciado. Envolverde/IPS


por Emilio Godoy, da IPS
internet Inter Press Service - Reportagens

Internet para escapar do Talibã nas eleições paquistanesas

Peshawar, Paquistão, 13/5/2013 – Se não pode vencê-los, pelos menos inove: essa parece ser a lição aprendida pelo Partido Nacional Awami (PNA), do Paquistão. O PNA buscou ajuda na tecnologia, cansado de estar no extremo receptor de uma interminável onda de ataques suicidas e com explosivos por parte de rebeldes talibãs. Agora utiliza a internet para chegar aos seus eleitores em vários distritos de Jyber Pajtunjwa, sua principal base de apoio. O líder do PNA, Mian Iftikhar Hussain, disse à IPS que era uma grande benção chegar à população pelo programa de videochamadas Skype com vistas à eleição do dia 11. “Graças a isto podemos chegar ao eleitorado sem colocar em perigo nossas vidas”, afirmou. A tecnologia ajuda os membros do partido a protegerem sua integridade física e também a das pessoas que os ouvem. Hussain, ex-ministro de Informação de Jyber Pajtunjwa, perdeu seu único filho, Mian Rashid Hussain, em um ataque terrorista cometido por Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), em outubro de 2010. O PNA, que governa esta província desde 2008, mantém uma firme oposição à ação do ilegal TTP. Por essa posição pagou um preço alto. Cerca de 800 de seus líderes e trabalhadores foram vítimas de ataques do TTP nos últimos cinco anos. E a violência só piorou na campanha eleitoral. O PNA foi seu alvo principal, mas os outros partidos liberais, como o Movimento Muttrahida Qaumi (MQM) e o Partido Popular do Paquistão, também foram vítimas de sua ira. Atentados suicidas e com explosivos contra candidatos e sedes do PNA e do MQM estão na ordem do dia. “Foi o governo provincial do PNA que assumiu as operações militares de maior êxito contra insurgentes no distrito de Swat de Jyber Pajtunjwa”, disse Mohammad Jamil, professor de estudos sobre o Paquistão na Escola Pública Universitária de Peshawar. “O TTP governou Swat entre 2007 e 2009, quando foi desalojado pelo governo liderado pelo PNA”, afirmou. Swat também é o lugar de onde procede a ativista Malala Yousafzai. Em outubro do ano passado esta jovem de 13 anos sobreviveu a um ataque a tiros cometido pelo Talibã pelo fato de defender a educação para as meninas. O PNA foi o único partido que fez “uma campanha aberta e valente” contra o Talibã, destacou Jamil à IPS, o que o converteu no alvo de sua violenta agenda. “O TTP teme a possibilidade de enfrentar uma ação mais severa se o PNA voltar ao poder. Portanto, tenta de tudo para manter esse partido longe das eleições, cimentando o caminho para os partidos que têm uma posição mais branda em relação ao Talibã”, acrescentou. Porém, pode não consegui-lo totalmente, devido à capacidade do PNA de vencer obstáculos. Primeiro, suas mulheres líderes abriram caminho onde figuras mais destacadas não puderam fazer campanha, indo de aldeia em aldeia para pedir a outras mulheres que votassem em seus candidatos e tentando convencer os homens a fazerem o mesmo. Agora incluiu a internet em seu arsenal para afastar os insurgentes e se comunicar com seus partidários. E essa medida foi muito bem recebida pelo público, segundo a dirigente Bushra Gohar, do PNA. “Nossos trabalhadores apreciam a nova medida porque o PNA não poderia colocar suas vidas no fio da navalha realizando reuniões públicas. Pelo Skype podemos comunicar nossa mensagem à população em um clima de paz”, afirmou Gohar à IPS. “Muitos de nossos candidatos queriam estar fisicamente presentes nas reuniões públicas, mas não podiam fazê-lo devido às ameaças dos rebeldes. O uso da internet resolveu nosso problema”, ressaltou. Hussain voltou a usar o Skype na localidade de Taro, a 15 quilômetros de Peshawar, para divulgar sua própria mensagem e a de seu partido. Ali Haider, que organizou o discurso pelo Skype, pontuou que foi um grande sucesso. “Planejamos mais dessas reuniões, nas quais líderes e candidatos do PNA podem se dirigir à população pelo Skype. São muito seguras”, enfatizou. Sanaullah Khan, membro do PNA radicado em Mardan, disse à IPS que “onde há vontade, há um caminho”, e que “ouvimos ansiosos os discursos de nossos líderes via Skype”. O ex-ministro chefe de Jyber Pajtunjwa e líder do PNA, Ameer Haider Jan Hoti, candidatou-se a uma vaga na assembleia nacional pelo seu povoado natal. Após sobreviver a um atentado suicida no dia 15 de fevereiro, em Mardan, ele, como os outros, não podiam fazer campanha eleitoral pessoalmente. A população organiza discursos por Skype para ele também em Mardan. Jan Hoti explicou que também desenvolvem o site do partido e publicam atualizações regulares na rede social Facebook. “A resposta não tem precedentes, porque a maioria de nossos líderes também abriu contas no Twitter para enviar suas mensagens aos trabalhadores”, detalhou. Mohammad Namir, professor em Mardan, esteve entre os que no dia 3 deste mês ouviram o discurso de Jan Hoti via internet. O líder recordou os muitos projetos que seu governo executou nos cinco anos de sua gestão e pediu à população que voltasse a votar nos candidatos do PNA nestas eleições. “Os trabalhadores do partido dizem que o uso da internet os salvou dos ataques. Para as reuniões públicas é preciso haver acordos. Para uma campanha via internet, só o que se exige é um computador portátil”, apontou à IPS. O PNA também usa música para motivar as massas, segundo Mohammad Shoaib, jornalista em Swabi. Os candidatos do partido sobreviveram a três tentativas de ataques terroristas nesse distrito, o quarto mais povoado de Jyber Pajtunjwa. As canções eleitorais do partido melhoraram o estado de ânimo da população. O PNA divulgou um álbum com 11 canções em língua pashtun para a campanha. Interpretadas pelo conhecido canto Gulzar Alam, reforçam os temas da paz, da democracia e do progresso, os mesmos que o partido promete ao eleitorado. “As músicas atraem as pessoas porque falam da proteção do solo pashtun”, explicou Shoaib. Essa população é majoritária na província de Jyber Pajtunjwa. Em cenário eleitoral que os rebeldes banham de sangue, as canções parecem ser mais do que um pequeno consolo. Envolverde/IPS  


por Ashfaq Yusufzai, da IPS
Participantes do Sound Central, festival de música da Ásia central, realizado em Cabul. Foto: Giuliano Battiston/IPS Inter Press Service - Reportagens

Cultura, outra frente de luta aberta no Afeganistão

[caption id="attachment_86651" align="alignleft" width="300" caption="Participantes do Sound Central, festival de música da Ásia central, realizado em Cabul. Foto: Giuliano Battiston/IPS"][/caption] Cabul, Afeganistão, 13/5/2013 – Outro tipo de guerra se desenvolve no Afeganistão, sem derramamento de sangue e mais sutil do que as incursões armadas noturnas ou o explodir das bombas. Trata-se da luta de influências culturais que conta com o patrocínio, entre outras formas de apoio, de espetáculos artísticos. No último verão, quando o Palácio da Rainha de Bagh-e-Babur (o jardim de Babur) abrigou o ramo afegão da Documenta 13 (uma das maiores exposições de arte contemporânea do mundo), muita gente em Cabul se perguntou sobre o papel da arte e da cultura em um país atribulado pela guerra. Concluíram que os produtos artísticos podem ajudar a justificar a ocupação militar ou refletir uma imagem do Afeganistão contrária à caótica e instável realidade. “A cultura se tornou uma ferramenta para incidir na percepção sobre o Afeganistão”, disse à IPS, em julho do ano passado, Aman Mojaddedi, um artista norte-americano de origem afegã. Mojaddedi e a curadora italiana Andrea Viliani foram responsáveis pela seção afegã da Documenta 13. O artista apontou Alemanha, Estados Unidos, França e Grã-Bretanha como países que “investem cada vez mais dinheiro na área cultural”. Segundo o artista, esse apoio tem o “objetivo de demonstrar que a presença internacional no Afeganistão é um sucesso e que os afegãos têm uma vida normal. Sem dúvida, é uma forma de manipulação”. Porém, Zabi Siddiq, um adolescente cuja família é do Vale de Panjshir, não se sente manipulado. “Tenho interesse em novas formas de arte, pois mostram que é possível um futuro melhor, mesmo em um país como o Afeganistão”, disse à IPS. Siddiq é um dos muitos jovens afegãos que participaram do Sound Central, um festival de música moderna da Ásia central, realizado no Centro Cultural Francês de Cabul, de 30 de abril a 4 deste mês. O festival começou há alguns anos, quando Trevis Beard, repórter fotográfico e fundador e principal organizador do Sound Central, e seus amigos “se sentiram insatisfeitos com o panorama musical e cultural” de Cabul. Em 2011, organizamos o primeiro grande encontro de música moderna em Cabul. Durou um dia e se apresentaram oito bandas de rock”, contou à IPS. Desde então a proposta cresceu junto com a quantidade de patrocinadores. O maior e mais generoso é a Agência Suíça para a Cooperação e o Desenvolvimento. Também participam muitas embaixadas e doadores internacionais públicos e alguns poucos privados. A terceira edição do Sound Central contou com várias propostas, desde concertos de rock e heavy metal e atuações de grupos de rap, passando por uma mostra fotográfica, até um espetáculo do Parwaz, um grupo de teatro de marionetes. O público estava composto principalmente por estrangeiros, muitos deles jornalistas, fotógrafos e empregados de organizações não governamentais, e jovens afegãos usando camisetas, calças jeans e calçado esportivo colorido. Em um espaço aberto com uma barraca de campanha violeta havia artistas grafitando. Um deles, Reza Amiri, de 20 anos, começou a fazer grafites há um ano, após participar de um painel na Universidade de Cabul, e se proclamou seguidor de Shamsia Hassani, de 24 anos, aclamada pelos meios internacionais como a primeira realizadora de grafite do Afeganistão. Amiri ama sua nova forma de expressão porque “graças a ela pode tratar temas delicados de forma direta e efetiva”, explicou, mostrando um trabalho no qual se vê o rosto de uma mulher acompanhado do texto “deixe-me respirar”. Amiri disse à IPS que “o trabalho mostra a busca das afegãs por liberdade”. Folad Anzurgar, de 27 anos, se dedicou a um estilo mais ortodoxo. Este pintor a óleo disse à IPS que se baseia nos rostos que expressam a dor da guerra, “a beleza da paz” e “as tradições afegãs”. Coisas “como grafite e rock são para os mais jovens e não podem substituir nossa herança cultural, que tem raízes muito mais profundas”, ressaltou. No Afeganistão, especialmente em zonas rurais onde vive 75% da população, muitos creem que os artistas atuais introduzem valores estrangeiros. De fato, muitas pessoas nunca ouviram rock. Sulyman Qardash é vocalista e líder do grupo de rock Kabul Dreams. “Temos muitos seguidores dentro e fora do país”, disse à IPS. Muitos de seus fãs são de Cabul. O grupo já tocou na Turquia, Índia, Irã e Uzbequistão, mas no Afeganistão nunca se apresentaram fora da capital. “É inegável que com nosso festival introduzimos novos elementos culturais, mas o fazemos sem imposição”, explicou Beard à IPS. “Só oferecemos aos afegãos uma nova plataforma que podem escolher para usar”, acrescentou. No entanto, reconheceu que, em um país assediado pela guerra, esse trabalho tem muitas implicações e inevitavelmente se torna parte da batalha para “ganhar corações e mentes” de afegãos e estrangeiros. “Apesar do dinheiro que recebemos de doadores estrangeiros, estamos totalmente livres de influências políticas”, ressaltou. Mojaddedi se referiu ao assunto da cultura moderna e tradicional de uma forma mais amena, e destacou o enriquecimento mútuo que ocorre nos intercâmbios culturais. “Todas as culturas são híbridas, e isso ocorre em qualquer lugar a todo momento”, afirmou à IPS. “As novas tendências também têm o efeito contrário aqui. Alguns artistas afegãos procuram preservar sua própria cultura específica”, pontuou. O aperta-afrouxa da hibridização são história antiga. Como escreveu Gilles Donrronsoro, conhecido pesquisador e especialista em Afeganistão, tanto os soviéticos, há várias décadas, como o Ocidente, hoje em dia, “tentam impor um modelo social de modernização que não é aceitável para a população local, para as elites urbanizadas”, opinou. Envolverde/IPS


por Giuliano Battiston, da IPS
Venezuelan boy Inter Press Service - Reportagens

Analistas alertam para deterioração da democracia na Venezuela

Caracas, Venezuela, 13/5/2010 – Após a última das 18 eleições na Venezuela em 15 anos, a democracia não prosperou, pelo contrário, se deteriora, se militariza e caminha para formas autoritárias de governo, afirmam analistas antes de completar um mês da eleição de Nicolás Maduro para a presidência do país. A Venezuela “vive uma crise política e o Estado tenta superá-la com mais autoritarismo e mais repressão, ainda que seletiva”, disse à IPS a historiadora Margarita López Maya, diretora do conselho latino-americano de Ciências Sociais. “Não se cria uma situação de ditadura, como as clássicas conhecidas na região, mas paulatinamente diminui a democracia”, acrescentou esta professora titular no Centro de Estudos do Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela. A questão da qualidade democrática ressurgiu tão logo Maduro assumiu o cargo para cumprir o mandato entre 2013 e 2019 para o qual havia sido reeleito em outubro Hugo Chávez, que governou o país de 1999 até sua morte, vítima de câncer, em 5 de março. Seu adversário, Henrique Capriles, líder da heterogênea oposição, pediu uma auditoria integral das eleições, mas o poder eleitoral decidiu realizá-la de forma limitada, após ratificar que Maduro obteve 50,61% dos votos válidos e Capriles 49,12%. A União de Nações Sul-Americanas (Unasul) recomendou, no dia 18 de abril, um dia antes do juramento de Maduro, a realização dessa auditoria para resolver a controvérsia. No dia 2 deste mês, Capriles entrou com recurso de impugnação total das eleições e cinco dias depois com outro, de impugnação parcial, junto ao Supremo Tribunal de Justiça, cujo acatamento a corte deve decidir nos próximos dias. Durante esta segunda semana de maio, dirigentes do governo, começando pelo presidente Maduro, e da oposição viajaram pela América do Sul para exporem seus diferentes pontos de vistas sobre a crise política. O presidente da Assembleia Nacional Legislativa, Diosdado Cabello, um militar da reserva, recusou-se a dar direito de palavra aos deputados de oposição se não declarassem de viva voz que reconheciam Maduro, e destituiu os opositores que dirigiam comissões parlamentares. Na sessão de 23 de abril, da bancada oficialista foi atirado um microfone que machucou o rosto do deputado opositor William Dávila. Sete dias depois, os deputados opositores tocaram cornetas e apitos no plenário para calar a voz dos oficialistas, em protesto por serem impedidos de se pronunciar. Também exibiram um cartaz onde se lia “Golpe no Parlamento”, o que serviu de sinal para alguns deputados oficialistas se atirarem sobre os opositores, e, na confusão, 11 legisladores ficaram feridos, incluindo dois com ossos do rosto quebrados: María Corina Machado e Julio Borges, da bancada oposicionista. Segundo Elías Pino, da Academia da História, uma situação assim não se vivia desde um sangrento ataque ao Congresso por seguidores do presidente José Tadeo Monagas, em 1848. Cabello havia declarado dias antes que o presidente Chávez “era como o muro de contenção das loucuras que às vezes aconteciam” no governante Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), que lidera após a morte de seu líder histórico. Entretanto, foi preso o general da reserva Antonio Rivero, que passou para a oposição depois de servir nos governos de Chávez como diretor de Proteção Civil. Rivero foi acusado de “associação para delinquir”, com base em uma lei antiterrorista sancionada há um ano, depois que um vídeo o mostrou dando instruções a jovens que protestavam nas ruas de Caracas depois da vitória de Maduro. Em várias cidades do interior, houve grandes manifestações, algumas duramente reprimidas pela polícia e pela militarizada Guarda Nacional, com saldo de vários feridos e dezenas de detidos. Pelo menos duas sedes de partidos, do PSUV e da opositora Ação Democrática, foram incendiadas. Em paralelo, o governo denunciou que militantes opositores atacaram em vários Estados do país centros de saúde de “missões” atendidas por médicos cubanos e que dez partidários do PSUV morreram baleados em razão desses ataques, na semana posterior às eleições. A Procuradoria Geral investiga essas mortes. Maduro declarou “heróis da pátria” seus partidários mortos nos protestos dos opositores, e o chanceler Elías Jaua disse que “a burguesia atacou missões diplomáticas e descarregou seu ódio contra o povo”. Governo e dirigentes oficialistas acusaram Capriles de instigar os desmandos, e a ministra de Serviços Penitenciários, Iris Varela, declarou que já tem pronta a cela para o ex-candidato, e também que os parlamentares de oposição “mereciam esses socos”. “ É gravíssimo que as cabeças dos poderes públicos usem essa linguagem, tenham essa conduta e que Maduro não os desautorize. As relações entre Estado e sociedade reguladas pela civilidade, isto é, pelo reconhecimento, pelo respeito ao outro, pelo diálogo para construir consensos, vivem seu crepúsculo”, disse López Maya. Para ela, “a democracia venezuelana morre entre o autoritarismo militar, que se cristaliza, e a anarquia. Um regime ser de direita ou de esquerda é a mesma coisa, um lamentável retrocesso político”. Maduro “demonstrou, no pouco tempo de gestão que tem, uma vocação autoritária”, disse à IPS o coordenador da organização não governamental humanitária Provea, Marino Alvarado. Esta entidade, ao denunciar a repressão das manifestações pós-eleitorais, foi acusada pelo chanceler Jaua e pelo ministro de Informação, Ernesto Villegas, de ser “retaguarda do fascismo”. Outra característica de Maduro é o intenso uso dos termos “fascista” e “fascismo”, que oficialistas e opositores atribuem ao outro lado da luta política. O Fórum pela Vida, uma coalizão de organizações humanitárias, reclamou da conduta dos poderes públicos, condenou a violência no parlamento, pediu o fim da repressão e que sejam abertos espaços de diálogo e respeito entre os contendores políticos. Alvarado também observou “uma redução nos direitos políticos da população quando são cerceados os direitos de representação e palavra de deputados eleitos pelo povo”. Também expressou preocupação por “uma militarização crescente da sociedade e do Estado, continuada por Maduro com a colocação de mais oficiais em cargos de natureza civil e sua ordem de colocar militares para vigiar e patrulhar zonas urbanas”. Para enfrentar um aumento da atividade criminosa, que deixou apenas em Caracas 498 mortos em abril, a partir de hoje, 13 unidades das Forças Armadas se somarão aos policiais civis no patrulhamento de vários setores da capital. A organização Provea destacou “o potencial risco para os direitos humanos” desta iniciativa, pois nos últimos 15 anos em diferentes episódios 315 civis morreram pela ação de efetivos militares. Envolverde/IPS


por Humberto Márquez, da IPS
Yuri Fedotov, diretor-executivo da ONUDD durante visita à favela Pavão-Pavãozinho, no Rio de Janeiro. Foto: Fabíola Ortiz/IPS Inter Press Service - Reportagens

Traficantes trocam crime pela paz no Rio de Janeiro

[caption id="attachment_86532" align="alignleft" width="300" caption="Yuri Fedotov, diretor-executivo da ONUDD durante visita à favela Pavão-Pavãozinho, no Rio de Janeiro. Foto: Fabíola Ortiz/IPS"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 10/5/2013 – Os que desejam abandonar a criminalidade encontram inúmeros obstáculos para deixar no passado um destino de prisão e morte. Contudo, nesta cidade vários projetos começam a abrir-lhes uma porta de saída. Francisco Paulo Monteiro Cejas Rio, conhecido como Tuchinha, chegou à cúpula da hierarquia criminal. Como sabia ler e escrever, estudara cinco séries primárias e era bom de cálculo, ficou encarregado das contas de um dos grandes grupos da cidade. Tuchinha se converteu em figura mítica dentro do crime organizado e, inclusive, da polícia. Chegou a dominar o tráfico de drogas no morro da Mangueira. Metade de sua vida, 25 anos, foi dedicada a atividades ligadas o tráfico. Ganhou dinheiro, mulheres e outras recompensas, mas em sua escalada criminosa pagou um preço caro. No total ficou 21 anos preso, por duas condenações distintas, e tanto ele quanto sua família foram ameaçados de morte. Agora, com 49 anos, se diz arrependido. “Cresci na Mangueira, fui um líder. Tinha dinheiro, mulheres, joias, mas faltava liberdade. Quando saía do bairro tinha que ser escondido ou ir para fora do Rio. Se tivesse tido a oportunidade antes, minha vida teria mudado antes”, contou à IPS. Foi em 5 de agosto de 2011 que deixou totalmente e para sempre o tráfico de drogas, depois de ser convidado pela organização não governamental AfroReggae para ajudar as pessoas a deixarem o crime e dar palestras mostrando como fazer isso. “Cometi muitas maldades e mandei fazer outras tantas. Paguei muito caro, com minha liberdade. Hoje, meu papel é resgatar os que querem deixar o crime, e sou a prova viva de que vale a pena viver em paz”, afirmou Tuchinha. Ele visita prisões para conversar com jovens condenados e inclusive ajuda a mediar conflitos em áreas afetadas pela violência. “Queremos dar a mesma oportunidade a pessoas que querem seguir pelo bom caminho, deixar a criminalidade e poder viver em paz com suas famílias. Muitos estão sem esperança, mas lhes digo que ela existe e está viva”, explicou. Este ex-líder do tráfico defende que sejam anistiados os presos e ex-criminosos, para que tenham oportunidade de começar uma nova vida. Tuchinha acredita que ainda pode terminar seus estudos e que pode convencer jovens que foram ou são traficantes a entrarem no projeto de Empregabilidade do AfroReggae. Essa iniciativa, criada em 2008, já conseguiu empregar mais de 3.100 pessoas. Daniela Pereira da Silva, de 35 anos, esteve presa por três anos e agora é uma das coordenadoras do programa. “Faço parte das estatísticas femininas, em que as mulheres, em sua maioria, caem presas por seu envolvimento amoroso com um traficante”, contou à IPS. O objetivo do projeto é abrir para ex-presos o acesso ao mercado de trabalho, destacou. “A demanda tem sido genial e também inclui moradores das comunidades onde opera o tráfico e parentes de ex-presidiários, para aumentar a renda familiar e evitar que voltem à criminalidade”, ressaltou. Daniela e Tuchinha fazem parte do grupo de ex-traficantes apoiados pelo AfroReggae que se reuniu com o diretor-executivo do Escritório das Nações Unidas Contra a Droga e o Crime (ONUDD), Yuri Fedotov, durante sua primeira visita oficial ao Brasil, entre 7 e 9 deste mês. O encontro, do qual a IPS participou, aconteceu na sede da organização da favela Pavão-Pavãozinho, que fica atrás da praia de Ipanema e já foi pacificada pelas autoridades. A visita de Fedotov à cidade teve por objetivo conhecer os programas sociais e de segurança pública implantados nas favelas. “O projeto de pacificação parece estar funcionando. É a primeira vez que vejo algo parecido em relação a uma política de pacificação e fiquei muito impressionado”, disse o diplomata russo. “Estive há dez anos no Rio e posso sentir mudanças visíveis. Quero expressar minha admiração pelas pessoas que tiveram a coragem de deixar o crime, uma vida ilegal, para viver uma vida legal”, pontuou, ao defender a inclusão social como uma ferramenta de prevenção ao crime. Mangueira e Pavão-Pavãozinho fazem parte das 32 favelas do Rio de Janeiro que estiveram dominadas pelo narcotráfico e que foram pacificadas pelas forças policiais. A meta das autoridades para 2014 é instalar 40 Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). No Rio de Janeiro vivem cerca de seis milhões de pessoas, das quais pelo menos um milhão residem em favelas, algumas ainda dominadas pelos traficantes. “Tivemos uma política focada na repressão, o que gerou mais conflitos e morte. A polícia não agia sobre a causa da violência, mas sobre seus efeitos. As armas nas mãos dos criminosos, no entanto, eram cada vez mais potentes”, disse durante a reunião na Pavão-Pavãozinho o comandante da UPP, major Felipe Magalhães dos Reis. Os custos da “guerra contra as drogas” foram muito grandes e houve muitas perdas humanas, afirmou. Entre 1991 e 2008, a polícia assegura que morreram dois mil agentes e outras dez mil pessoas nos enfrentamentos com as forças da ordem, e que foram apreendidas 170 mil armas. “Não havia saída, até que surgiu a ideia de criar a UPP”, afirmou o major. Para Fedotov, a experiência brasileira pode ser adaptada para outros países. “É um processo desenhado para o Rio, mas alguns de seus elementos servem para outros países, especialmente as ideias de integração social, pacificação e alternativas de vida”, afirmou. O Brasil agora serve apenas como rota dentro do narcotráfico internacional, mas o país se converteu em importante consumidor de drogas. Durante sua visita a Brasília, Fedotov se encontrou com funcionários para discutir a futura cooperação, como as associações regionais e mundiais. “O Brasil é um ator global e estamos interessados em contar com seu apoio e sua participação em temas globais, como a luta contra o crime organizado transnacional e as drogas ilícitas”, afirmou o diretor-executivo do ONUDD. Envolverde/IPS


por Fabíola Ortiz, da IPS

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Países amazônicos criam órgão de defesa e pesquisa para proteger a floresta, que será responsável pela gestão sustentável dos recursos da floresta

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Desmatamento e degradação de florestas na Amazônia atinge área de 175 km² entre março e abril. O levantamento é do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

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O lixo é considerado normalmente um problema. Em Oslo, capital da Noruega, o problema tem sido a falta de lixo. A cidade transforma os resíduos em energia.