Israelenses esquiam perto da guerra civil síria

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Israelenses esquiam perto da guerra civil síria


por Pierre Klochendler, da IPS


[caption id="attachment_77572" align="aligncenter" width="496" caption="Estação de esqui no Monte Hermón, nas Colinas de Golã. Foto: Pierre Klochendler/IPS"][/caption]   Monte Hermón, Colinas de Golã, 14/2/2013 – Ventos indomáveis sopram no Monte Hermón, entre cujas neves imaculadas se divertem israelenses e onde quase não ressoam os ecos da guerra civil em Damasco, a apenas 25 quilômetros de distância. Embora esteja em território internacionalmente reconhecido como sírio, o Hermón é controlado por Israel, que possui aqui seu único centro de esqui. “É a primeira vez que esquio”, contou Ilana Marciano, da cidade de Netanya, no Mediterrâneo, enquanto se esforça para sair debaixo de uma camada de neve de 60 centímetros de espessura. “Surpreendente, simplesmente genial”, afirmou. Neste inverno boreal, o Monte Hermón está coberto de neve, o que o torna uma exótica terra da fantasia para pessoas mais acostumadas a se divertir na praia e sob o Sol. Cerca de dez mil visitantes chegam a este centro de esqui em um dia comum, segundo a gerência do local. Jabel a-Sheikh, como é conhecida em árabe esta cadeia montanhosa, é para os israelenses os “olhos” de seu país. Localizado bem no alto do triângulo fronteiriço entre Israel, Líbano e Síria, o Hermón permite uma visão estratégica de vastos trechos do território, a partir de uma altitude de 2.236 metros. Ali as forças armadas israelenses mantêm vários postos de observação e inteligência. Em um dia claro é possível avistar Damasco. Mais para nordeste, as posições militares sírias dominam o libanês Vale de Beqaa. A 2.814 metros de altitude, acima de uma zona de exclusão entre fortificações israelenses e sírias, fica o “hotel do Hermón”, a base de manutenção da paz da Organização das Nações Unidas (ONU) mais alta do mundo. Israel arrebatou da Síria as Colinas de Golã na Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967. A Síria as reconquistou brevemente seis anos mais tarde, e Israel voltou a ocupá-las imediatamente depois. Durante a invasão israelense, cerca de cem mil sírios drusos fugiram das Colinas de Golã. Agora, junto com 20 mil drusos que permaneceram nas empinadas ladeiras do Hermón, em quatro povoados e aldeias, 18 mil israelenses vivem em 32 assentamentos. Para além da linha de defesa de 80 quilômetros, os campos minados e os postos militares dispersos ao longo da linha de cessar-fogo controlada pela ONU, passando à zona de exclusão entre 0,5 e dez quilômetros de largura, se tornam claramente visíveis as aldeias e fortificações sírias. Em maio de 1974, Israel e Síria assinaram o Acordo de Separação de Forças, que até agora é cautelosamente respeitado pelas duas partes. Durante quase quatro décadas o estratégico território permaneceu congelado, em um statu quo suspenso entre a guerra a e paz, quase como o teleférico que transporta os turistas para cima do Monte. Uma estranha sensação de arraigada inconsciência afeta o Monte Hermón. Não fosse pelo enfrentamento fronteiriço de junho de 2011 – perto do povoado druso de Majdal Shams, no qual 20 manifestantes palestinos e sírios foram alvo de disparos quando tentavam entrar na área controlada por Israel –, ou por uns errantes tiros de morteiro que aterrissaram deste lado da linha de proteção em novembro, quase não se sentiria a sangrenta guerra civil que acontece na vizinha Síria. “Não há tensões. Aqui está tranquilo”, disse Amit Rotem, uma estudante de Jerusalém. “Até que algo acontece, nada acontece. É assim que vejo. Porque estamos acostumados a isto, é assim que vivemos”, acrescentou. No entanto, mais recentemente, em 30 de janeiro, a tensão voltou a aumentar com um ataque aéreo israelense próximo ao centro de investigações militares localizado nos arredores de Damasco, supostamente contra um comboio suspeito de transportar mísseis antiaéreos AS-17 para a milícia xiita Hezbolá no Líbano. Três dias antes, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, havia alertado sobre o destino que poderia ter o arsenal de armas químicas e biológicas da Síria. No fortemente protegido centro de esqui, a diversão continua como de costume. “Este incidente nem mesmo passou pela minha mente. Talvez, seja muito otimista”, disse um esquiador. O gerente do centro de esqui, Shaul Ohana, disse à IPS que “Havez Al Assad (ex-presidente sírio), e seu sucessor, Bashar, nos deram uma tranquilidade prolongada. Espero que a situação não se deteriore mais”. Em 1981, Israel aprovou uma lei que aplica suas “leis, jurisdição e administração” às Colinas de Golã, que anexou de fato ao seu território. Cerca de 10% dos drusos sírios de Golã aceitaram a cidadania israelense, mas a lei nunca foi reconhecida pela comunidade internacional. Na década de 1990, dois primeiros-ministros de Israel, Itzjak Rabin e Ehud Barak, se declararam prontos para devolver o Hermón – e, em termos gerais, as Colinas de Golã – à Síria em troca da paz. “Em retrospectiva, só a ideia de considerar uma retirada daqui é caprichosa. Não há nada que devolver. E, em todo caso, a quem se devolveria Golã?”, pergunta Ohana. Uma lei aprovada em 2010 estipula que a passagem de qualquer território anexado – sejam as Colinas de Golã, incluindo o Monte Hermón, ou a ocupada Jerusalém oriental –, como parte de futuros acordos de paz, exige ou uma supermaioria no parlamento ou um referendo nacional. “O Monte Hermón sempre estará conosco”, é o confiante leitmotiv que se ouve em suas ladeiras. A dois mil metros de altura, a ninguém parece preocupar que a estratégica montanha, sua reserva natural e o centro de esqui de 14 pistas e cinco teleféricos dispostos ao longo de 45 quilômetros de ladeiras, possa algum dia ser devolvida à Síria. Riscos de guerra, possibilidades de paz com a Síria, tudo parece remoto visto do Hermón. Envolverde/IPS

Um Abed planta uma oliveira como símbolo de apoio aos agricultores palestinos. Foto: Eva Bartlett/IPS Inter Press Service - Reportagens

“Plantamos, eles arrasam, voltamos a plantar”

[caption id="attachment_77564" align="aligncenter" width="500" caption="Um Abed planta uma oliveira como símbolo de apoio aos agricultores palestinos. Foto: Eva Bartlett/IPS"][/caption]   Zeitoun, Gaza, 14/2/2013 – Tawfiq Mandil, de 45 anos, é um das centenas de agricultores e ativistas no distrito de Zeitoun, em Gaza, a meio quilômetro da fronteira com Israel, que participam de um novo chamado para boicotar os produtos dos assentamentos judeus. “O exército israelense destruiu minha casa e meus cinco dunams de terras (um dunam equivale a mil metros quadrados) no último dia da ofensiva de 2009, bem como outras 20 casas”, afirmou. Com cartazes onde se lia “Boicote aos produtos agrícolas israelenses” e “Apoiemos os agricultores palestinos”, Mandil e outros se reuniram no dia 9 para plantar oliveiras em terra arrasada por Israel e para renovar o chamado ao boicote a produtos desse país. Mandil afirmou que o boicote é a única esperança de justiça para os produtores palestinos. “Esperamos que isto pressione Israel a deixar de nos atacar e que nos permita usar nossa terra como sempre usamos”, acrescentou. O fato de a mobilização acontecer perto da “zona de amortização” foi significativo. As autoridades israelenses proíbem os palestinos de se aproximarem a menos de 300 metros da fronteira entre Gaza e Israel. Porém, o exército israelense realiza ataques contra palestinos até a dois quilômetros da fronteira, em algumas áreas, afetando dessa forma mais de 35% das terras agrícolas de Gaza. “Ao comercializar com os assentamentos judeus, os Estados não cumprem sua obrigação de cooperar de forma ativa para acabar com o avanço colonial israelense”, declarou o agricultor. “Portanto, se deve considerar uma proibição à comercialização com os assentamentos entre outras opções que terceiros países devem adotar para cumprirem suas obrigações de acordo com a lei internacional”, destacou. A organização de direitos humanos palestina Al Haq divulgou um documento no mês passado condenando o comércio com os assentamentos israelenses. O estudo tem o título de Fazendo um festim com a ocupação: a ilegalidade da produção dos assentamentos e a responsabilidade dos Estados-membros da União Europeia de acordo com o direito internacional. “Embora a União Europeia tenha condenado de forma bastante clara os assentamentos e sua expansão, continua importando o que neles é produzido, e ao fazer isso ajuda a manter sua existência”, disse em um comunicado de imprensa o diretor-geral da Al Haq, Shawan Jabarin. “Mais de 80 palestinos ficaram feridos e pelo menos quatro morreram em ataques israelenses em diversas zonas da fronteira desde o cessar-fogo adotado em novembro de 2012 entre Israel e a resistência palestina”, disse o ativista britânico Adie Mormech, de 35 anos, radicado em Gaza. “Há uma ação simultânea de protesto na Cisjordânia ocupada”, contou. “Estão plantando perto da colônia de Yitzhar, que é famosa por sua violência contra os palestinos. Em todo o mundo, cerca de 30 países realizam ações em solidariedade com os agricultores e pescadores palestinos”. Um Abed, de 65 anos, se mostra desafiador. “Hoje estamos plantando oliveiras. Se Deus quiser, no próximo ano vamos plantar limões, tâmaras e palmeiras. Nós plantamos, eles arrasam, plantamos novamente”, enfatizou. Esta nova campanha é parte de uma onda de iniciativas semelhantes lançadas em Gaza nos últimos anos. Estudantes universitários de Gaza redobraram seu chamado ao boicote em 2012, publicando no site YouTube vídeos pedindo aos simpatizantes da Palestina na comunidade internacional que dessem apoio político, e não apenas assistência econômica ou humanitária. A Campanha Palestina para o Boicote Acadêmico e Cultural Contra Israel (Pacbi) ganhou aos poucos apoio internacional, inclusive de universidades e acadêmicos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. Um crescente número de associações culturais e religiosas, como a quáquer Friends Fiduciary Corporation, estão retirando seus investimentos de empresas que têm lucro ou apoiam a ocupação israelense na Palestina. A Igreja Unida do Canadá apoiou em agosto passado o boicote aos artigos produzidos nos assentamentos. Haidar Eid, professor da Universidade de Al Aqsa, em Gaza, e membro da Pacbi, explicou em que implica a campanha Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). “Chamamos à implantação da Resolução 242 do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que indica uma retirada das forças de ocupação da Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém oriental”, afirmou. “A segunda demanda é a implantação da Resolução 194, para devolver a todos os refugiados palestinos os povoados e as aldeias de onde foram expulsos por razões étnicas em 1948. Queremos igualdade”, ressaltou. A sociedade civil e os estudantes de Gaza estão na vanguarda da campanha BDS, mas também o governo da Faixa, a cargo do Hamás (Movimento de Resistência Islâmica), deu passos importantes para levá-la adiante, destacou o ativista norte-americano Joe Catron. “A campanha contra a Adidas começou em março de 2012, quando essa empresa patrocinava uma maratona em diversas partes de Jerusalém, incluindo algumas internacionalmente conhecidas como ocupadas. O Ministério de Juventude e Esportes de Gaza pediu à Liga Árabe que boicotasse a Adidas em resposta a isto, o que vários países fizeram”, contou à IPS. Em setembro de 2012, o Ministério da Agricultura de Gaza decidiu proibir a entrada na Faixa da maioria das frutas israelenses. Agora “os agricultores palestinos podem cultivar as frutas para nosso consumo”, disse o diretor de Mercado do Ministério, Tahsen Al Saqa. “Devemos apoiar e proteger nossos produtores. Foram economicamente devastados desde 2006 pela proibição israelense de exportarem”, declarou. “O boicote é a chave, e está crescendo. O impulso é tal que não vai parar”, assegurou Adie Mormech. Envolverde/IPS


por Eva Bartlett, da IPS
Mali Inter Press Service - Reportagens

A segurança de Mali chega de fora

[caption id="attachment_77557" align="aligncenter" width="379" caption="Foto: Reprodução/Internet"][/caption] Bamako, Mali, 14/2/2013 – Soldados da Missão Internacional de Apoio a Mali liderada pela África (Afisma) continuam chegando a este país, enquanto o exército local continua envolvido em divisões internas. Soldados de Benim, Costa do Marfim e Senegal, países que representam a Comunidade dos Estados da África Ocidental (Ecowas) na Afisma, chegaram nos últimos dias. Segundo uma fonte próxima ao Ministério da Defesa de Mali, estima-se que antes do final deste mês haverá neste país mais de cinco mil soldados da África ocidental, dos quais cerca da metade já chegou. A localidade de Markala abriga atualmente aproximadamente 600 soldados de Burkina Faso. “Nos sentimos mais seguros desde a chegadas dos soldados burquinenses. Estão instalados na escola militar e não causam problemas a ninguém”, disse à IPS o prefeito de Markala, Demba Diallo. “Dificilmente passa mais de cinco minutos sem que se veja esses soldados patrulhando. Garantem a localidade e áreas vizinhas”, destacou. No povoado próximo de Ségou estão estacionados 250 soldados nigerianos, enquanto as forças de Togo estão em San, um pouco mais ao norte. Os soldados de Níger foram enviados diretamente à base em Gao, uma das maiores cidades do norte de Mali, liberada há alguns dias da ocupação islâmica pelas tropas francesas. A França lançou uma intervenção militar em Mali no dia 11 de janeiro a pedido do presidente interino desse país, Dioncounda Traoré, depois que os grupos muçulmanos radicais avançaram para a localidade de Konna, 60 quilômetros a nordeste de Mopti. Desde abril de 2012, cerca de dois terços do país foram ocupados pelos islâmicos. Depois da vitoriosa intervenção, a França agora prevê retirar suas forças no final de março. Por outro lado, começaram as negociações para colocar as tropas da Ecowas sob o comando da Organização das Nações Unidas (ONU). Contudo, a rede britânica BBC informou que o vice-secretário-geral da ONU, Jan Eliasson, admitiu, no dia 12, que o governo de Mali ainda “vacilava” em permitir a entrada de uma força de paz da ONU. “Entre 65% e 70% dos contingentes da Afisma já estão em Mali”, informou o porta-voz dessa missão, Yao Adjoumani, em entrevista coletiva em Bamako, no dia 6 deste mês. Adjoumani anunciou que as tropas da Guiné haviam cruzado a fronteira de Mali, e acrescentou que a Afisma estará plenamente instalada ainda este mês. Entretanto, negou-se a revelar o número total de soldados, suas posições e o cronograma de deslocamento, argumentando razões de segurança. Por sua vez, altos funcionários governamentais pediram unidade dentro do exército do Mali. No dia 8, Bamako foi sacudida por enfrentamentos entre os Boinas Vermelhas, que apoiam o deposto presidente Amadou Toumani Touré, e os Boinas Verdes, que apoiam os líderes do golpe de março de 2012. Fontes hospitalares informaram que dois adolescentes morreram e 13 pessoas ficaram feridas a tiros em razão desses combates. “Neste momento Mali precisa de um exército unido. Temos que nos concentrar na total libertação do país. Isto alcançado, o exército poderá resolver suas diferenças”, disse à IPS por telefone Mahamane Cissé, alto funcionário em Gao. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) reiniciou a distribuição de comida no norte do país. Essa agência da ONU havia suspendido as entregas no mês passado. “A distribuição de alimentos em localidades do norte, como Timbuktu, Goundam e Niafunké, começou a ser feita de barco”, confirmou à IPS o chefe de comunicações do PMA, Daouda Guirou. A abertura da estrada Sevar-Douentza permitiu a entrega de alimentos em Gao, onde “a distribuição entre os moradores começará em breve”, ressaltou Guirou. Envolverde/IPS


por Soumalia T. Diarra, da IPS
EUA Inter Press Service - Reportagens

Estados Unidos perdem a “paciência estratégica” com a Coreia do Norte

Washington, Estados Unidos, 14/2/2013 – Os últimos testes nucleares realizados pela Coreia do Norte voltaram a colocar em dúvida a eficácia da “paciência estratégica” adotada pelo presidente norte-americano, Barack Obama, em seu primeiro mandato. Após os testes atômicos subterrâneos do dia 12, nos quais Pyongyang teria usado uma força explosiva maior do que nos testes anteriores, de 2006 e 2009, tanto os “falcões” quanto as “pombas”, os setores mais e menos belicistas em Washington, respectivamente, exigem uma mudança de enfoque por parte de Obama. “A explosão nuclear prova que a política norte-americana é um fracasso e que é necessário um novo caminho”, afirmou Michael Auslin, do neoconservador American Enterprise Institute. Auslin pediu maior agressividade para impedir que os norte-coreanos desenvolvam armas de destruição em massa ou tecnologia para mísseis, bem como algum tipo de castigo à China se esta se negar a cooperar. Auslin acrescentou que Washington deve “declarar que a contenção é nossa política, e ameaçar com uma represália esmagadora para acabar com o regime de Kim Jong-un, se a Coreia do Norte usar qualquer de suas armas de destruição em massa contra nós ou nossos aliados”. Por sua vez, Joe Cirincione, presidente do grupo pró-desarmamento Ploughshares Fund, afirmou que Washington deveria manter um diálogo com Pyongyang. “Creio que a política de paciência estratégica, de não falar com eles, fracassou”, apontou. “Na maior parte dos últimos 12 anos, durante os quais a Coreia do Norte realizou quatro testes com mísseis de longo alcance e três ensaios nucleares, não conversamos com eles. Quando o fizemos, não realizaram testes”, ressaltou. Cirincione também disse que “deve haver outra rodada de sanções e maior pressão, mas não esperemos que isto funcione” por si só, disse à IPS. “Após um intervalo decente, os Estados Unidos deveriam aproximar-se da Coreia do Norte em conversações diretas, temos que proporcionar formas de aproximação ou continuarão fazendo isto”, alertou. Os testes norte-coreanos desataram fortes protestos por parte das grandes potências, incluindo a China, o mais próximo aliado de Pyongyang. Obama, de quem se esperava o anúncio de novos planos para reduzir unilateralmente o arsenal nuclear de Washington, durante seu discurso anual do estado da União, no dia 12 à noite, enfatizou que os testes norte-coreanos são “altamente provocativos”, e pediu à comunidade internacional que adote uma “ação firme e crível” a respeito. Por sua vez, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), reunido no mesmo dia, declarou que os testes foram uma “clara ameaça à paz e à segurança internacionais”. “Essas provocações não trarão mais segurança à Coreia do Norte”, advertiu Obama, que depois se comunicou com o presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, para confirmar o compromisso de Washington com Seul em matéria de defesa. “Longe de alcançar sua declarada meta de se converter em uma nação forte e próspera, a Coreia do Norte, pelo contrário, se isola cada vez mais e sua população empobrece, devido aos mal aconselhados esforços por armas de destruição em massa”, destacou Obama. Desde que assumiu o cargo, o presidente norte-americano adotou uma política de “paciência estratégica”, que condicionava qualquer passo substancial para a normalização das relações bilaterais a que Pyongyang suspendesse e eventualmente abandonasse seu programa nuclear. Em fevereiro de 2012, Washington pensou que havia conseguido um grande avanço quando a Coreia do Norte aceitou suspender seus testes com mísseis de longo alcance em troca de 240 mil toneladas de ajuda alimentar norte-americana. Entretanto, poucas semanas depois, a Coreia do Norte anunciou novos planos para lançar um satélite ao espaço. Embora Washington advertisse que isso seria uma violação do acordo, o lançamento aconteceu e, de todo ponto de vista, foi um fracasso e voltou a congelar as relações. Em dezembro de 2012, Pyongyang lançou um novo foguete para colocar em órbita, com sucesso, um satélite de 80 quilos, êxito que causou mais preocupação nos Estados Unidos, pois demonstrou que o regime da Coreia do Norte havia alcançado uma tecnologia mais avançada do que muitos esperavam. Essa ação foi condenada internacionalmente, inclusive pela China, e motivou novas sanções por parte do Conselho de Segurança da ONU. No mês passado, a Coreia do Norte sugeriu que se preparava para realizar novos testes nucleares. Estados Unidos e China, bem como outros membros das Conversações das Seis Partes (Coreia do Sul, Japão e Rússia) advertiram com novas sanções. Mas Pyongyang rechaçou as ofertas e em troca prometeu “impulsionar e fortalecer o poderio militar defensivo, incluindo dissuasivos nucleares”. Diante disto, Washington e seus aliados puniram a Coreia do Norte por seu “mau comportamento”, embora tenham poucas formas de castigar esse país fora da guerra. De fato, a única fonte séria de pressão sobre Pyongyang neste ponto é a China, que fornece combustível e outro tipo de assistência vital ao país. Embora as contínuas provocações norte-coreanas e sua resistência a voltar às Conversações das Seis Partes claramente também estejam acabando com a paciência da China, este país parece mais preocupado pela possibilidade de que, caso interrompa sua ajuda, o regime norte-coreano entre em colapso. “A China está em uma situação muito difícil neste ponto”, ponderou Alan Romberg, especialista em temas de Ásia no norte-americano Stimson Center. “Por um lado, seus históricos cálculos estratégicos continuam sendo os mesmos. A China não quer ver a reunificação da Coreia sob a liderança de Seul, aliado dos Estados Unidos. Não creio que isso tenha mudado”, afirmou. “Por outro lado, se deve destacar a forma como Pequim lidou com isto antes e depois dos testes. Se expressou abertamente contra, e inclusive anunciou publicamente que havia chamado o embaixador norte-coreano” para apresentar-lhe um protesto formal, detalhou Romberg. “Há uma nova liderança na China, e parece que existe um nível de impaciência que não era óbvio antes”, acrescentou. Essa impaciência tem a ver com os crescentes temores de que a Coreia do Norte, caso continue neste caminho, desestabilize toda a região”, pontuou Romberg. “Se a Coreia do Norte continuar realizando testes como estes, iniciará um debate na Coreia do Sul e no Japão quanto a estes países também construírem suas próprias armas atômicas. Se houver uma série regular de testes, a pressão nesses países aumentará”, alertou. Envolverde/IPS * Blog de Jim Lobe - www.lobelog.com/.


por Jim Lobe, da IPS
Em Bangladesh, Amal Chandra Sarker compartilha experiências agrícolas por meio de uma rádio comunitária. Foto: Naimul Haq/IPS Inter Press Service - Reportagens

Rádios comunitárias, democracia e desenvolvimento

[caption id="attachment_77432" align="aligncenter" width="483" caption="Em Bangladesh, Amal Chandra Sarker compartilha experiências agrícolas por meio de uma rádio comunitária. Foto: Naimul Haq/IPS"][/caption]   Nações Unidas, 13/2/2013 – Em 1983, os produtores de rádio popular, alternativa e educativa se reuniram em Montreal, no Canadá, para definir um novo gênero: a rádio comunitária. Esses diálogos levaram à formação da agrupação que agora as reúne no mundo. Este tipo de emissora estende a esfera pública aos cidadãos comuns, reduzindo a distância entre os que falam e os que ouvem, afirma Marcelo Solervicens, secretário-geral da Associação Mundial de Rádios Comunitárias (Amarc). Mediante esta plataforma voltada a proporcionar serviços, a rádio comunitária deu voz forte a uma grande quantidade de pessoas, que o exercem, desde agricultores de aldeias rurais até universitários e sindicalistas. A Organização das Nações Unidas (ONU) e entidades da sociedade civil utilizam a rádio comunitária com fins de desenvolvimento, fornecendo informação aos agricultores que enfrentam a mudança climática, informando as populações particularmente ameaçadas pelo HIV/aids e organizando comunidades livres do cólera no Haiti, detalhou Solervicens. A IPS conversou com Solervicens às vésperas do Dia Mundial da Rádio, celebrado hoje. IPS: Com todas as plataformas de comunicação que existem no mundo atual, o que torna única a rádio e por que ela não perdeu força com o passar do tempo? Marcelo  Solervicens: O elemento principal da rádio é que se trata do meio de comunicação mais acessível. Os cálculos indicam que cerca de 97% das pessoas a utilizam. Embora exista um debate sobre o que acontece em chamar a convergência dos diferentes meios, penso que a rádio se destaca na hora de dar voz. A rádio cria um tipo único de relação entre o orador e quem ouve. Isto é muito importante. IPS: Qual filosofia há por trás da rádio comunitária? Como se diferencia, digamos,  da rádio comercial, ou da pública? MS: A rádio comunitária tem origem na necessidade de as pessoas se expressarem nos âmbitos locais ou mesmo nacionais, mas sob suas próprias perspectivas. Cria um setor específico que é diferente da rádio comercial e da pública, e completa a paisagem saudável de meios de comunicação. Saudável no sentido de que o completa com ideias que procedem das próprias pessoas, de suas expectativas, e isso pode ser diverso, já que responde à diversidade que existe no interior das comunidades. Por trás da rádio comunitária existe a ideia de estender a esfera pública aos cidadãos comuns, para que possam expressar suas opiniões. Nesse aspecto, se torna um meio específico, totalmente diferente dos outros. Penso que este ethos da rádio comunitária é o que faz as pessoas se apaixonarem tanto por ela em todo o mundo, e isto se expande, porque está arraigado na natureza humana, o fator de ser capaz de falar na esfera pública. Desta perspectiva, a rádio comunitária reflete os níveis de democracia em uma comunidade. IPS: Qual o papel da rádio comunitária no desenvolvimento? Como entidades como a ONU usam este tipo de emissora em todos os continentes para promover o desenvolvimento? MS: Há estudos destacando o papel da rádio comunitária na hora de informar, e também de organizar a luta contra o HIV/aids, e isto é reconhecido pela ONU. A Amarc trabalha há muito tempo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para que os produtores locais possam usar a rádio para se informar sobre as crises dos cultivos, a temperatura e as condições meteorológicas, e como enfrentar melhor outros desafios vinculados à mudança climática. Destaco, com a ONU, o impacto da rádio comunitária no manejo da segurança. Tivemos uma experiência produtiva nesse sentido no Haiti, depois do terremoto, no combate ao cólera, fornecendo informação sobre como enfrentar este tipo de problema. Assim, as rádios comunitárias de todo o mundo estão disponíveis quando acontece uma catástrofe, para que a população local seja informada. Se considerarmos o desenvolvimento como um tipo de trabalho complexo e integrado, a rádio comunitária é reconhecida como um componente fundamental para conseguir objetivos de desenvolvimento em cada área, principalmente como uma maneira de transmitir fatos. Há pessoas para as quais é muito difícil enfrentar os desafios do desenvolvimento quando não têm informação. Penso que a rádio comunitária ajuda a mostrar isso. IPS: Falemos sobre a Rede Internacional de Mulheres e a Política de Gênero para a Rádio Comunitária, ambas da Amarc. MS: A Amarc criou, em 1992, a Rede Internacional de Mulheres com o objetivo principal de não só garantir que as mulheres tivessem um lugar na rádio comunitária, como também para desenvolver uma estratégia de programação de gênero para esse tipo de emissora, que contribuísse para eliminar os estereótipos. IPS: Quais desafios existem no mundo que impedem as rádios comunitárias de atingirem todo seu potencial? MS: Há dificuldades práticas e desafios devido à natureza dos meios (como capacitar participantes em rádios comunitárias), mas os desafios mais importantes que analisamos na avaliação mundial que fizemos, em 2006-2007, são os relativos à legislação. Atualmente, a rádio comunitária existe em mais de 120 países, mas seu grau de reconhecimento varia de um lugar para outro. Em alguns, essas emissoras têm de trabalhar com as mesmas legislações que regem as privadas e devem pagar quantias semelhantes às comerciais. Em outros lugares, têm uma sustentabilidade limitada, porque não podem ter publicidade ou desenvolver modelos de economia social, porque isto não é reconhecido em um setor específico da legislação. Envolverde/IPS


por George Gao, da IPS
capa Inter Press Service - Reportagens

Estados Unidos elaboram primeiro plano de adaptação

[caption id="attachment_77427" align="alignleft" width="263" caption="O governo de Obama procura adotar ações contra a mudança climática evitando o Congresso. Foto: Domínio público"][/caption] Washington, Estados Unidos, 13/2/2013 – Pela primeira vez, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) divulgou o rascunho de um plano sobre como adotará seus programas em relação à mudança climática. O projeto poderá preparar o caminho para a adoção de regulamentações sobre emissões de gases-estufa. A EPA tem a missão de supervisionar a saúde da população e dos sistemas naturais dos Estados Unidos, bem com fixar e implantar padrões relacionados com a qualidade do ar e da água, entre outros. Portanto, a agência é uma ferramenta fundamental para que Washington possa adotar regulações relacionadas com a mudança climática evitando o Congresso, que continua dividido e debatendo a responsabilidade humana no aquecimento global. “Estamos felizes porque finalmente o governo desperta diante da crua realidade da mudança climática e está vendo seus impactos”, disse à IPS a especialista em temas ambientais Elizabeth Perera, da organização não governamental Sierra Club. “Quanto mais clara e especificamente se falar sobre esses impactos, mais pressão, acreditamos, haverá sobre o governo para que faça algo. É preciso lembrar que, quando nos referimos à mudança climática, estamos falando de grandes custos em todas as áreas do governo e da economia”, destacou Perera. O rascunho foi elaborado em resposta a uma ordem executiva do presidente Barack Obama, de 2009, pela qual se cobrou de todas as agências do governo que apresentassem planos de adaptação diante de um novo escritório criado na Casa Branca: o Conselho sobre Qualidade Ambiental. Todos os planos apresentados poderão ser analisados e comentados pelo público norte-americano, e se espera que o da EPA seja submetido a um severo escrutínio. Também se prevê que a EPA inclua planos de adaptação em suas operações a partir de 2015. Em suas 55 páginas, o rascunho não é um plano detalhado, sendo mais um marco de ação. No entanto, aponta a fundamental responsabilidade da EPA na elaboração de regulações sobre o clima. Este avanço faz muitos analistas esperarem que o segundo mandato de Obama seja mais agressivo em matéria climática. Em seu segundo discurso de posse, no final de janeiro, Obama surpreendeu muitos dedicando mais tempo à mudança climática do que a qualquer outro tema político, apesar de o fenômeno ter recebido menos atenção durante seu primeiro governo. “Vivemos em um mundo em que o clima está mudando”, reconhece o rascunho em sua primeira linha (em consonância com uma declaração de políticas do governo de 2011). “As mudanças no clima ocorrem desde a formação do planeta. Mas agora os humanos estão influenciando o clima na Terra e causando a mudança de uma forma sem precedentes”, acrescenta o documento. O plano da EPA se foca fundamentalmente, é claro, nos Estados Unidos. Diz que no último meio século as temperaturas médias neste país aumentaram mais de dois graus Fahrenheit, as precipitações cresceram cerca de 5% e o nível do mar subiu 20 centímetros. No entanto, também menciona as consequências do fenômeno em nível global. “Espera-se que todos os países do mundo sintam os efeitos da mudança climática, apesar da variação dos impactos específicos”, diz o rascunho. “Porém, se prevê que os impactos afetarão de forma desproporcional os países em desenvolvimento e os que já estão em perigo”, reconhece o plano. De fato, inclusive as comunidades pobres e marginalizadas dos Estados Unidos estão em risco, alerta a agência, e admite que “os impactos da mudança climática criam temas de justiça ambiental”, pois estes têm sua maior repercussão entre as “minorias e as populações de baixa renda e indígenas”. Cumprindo ordem federal, o rascunho se concentra na adaptação à mudança climática, e não em medidas de combate ou mitigação. No entanto, o documento deixa claro que as novas realidades climáticas, tanto as que estão confirmadas como as que ainda não se mostram claras, serão contempladas em quase todos os processos dentro da EPA, incluindo a elaboração de novas regulamentações. Seguramente, a agência terá um papel central nos planos de Obama para combater a mudança climática de forma mais agressiva em seu segundo mandato. O único esforço legislativo do mandatário a esse respeito, um projeto sobre “comércio de emissões”, não foi aprovado pelo Congresso em 2009. Porém, muitos ambientalistas destacam que houve avanços sem a participação dos congressistas, particularmente quanto aos novos requisitos sobre eficiência em combustíveis adotados pela EPA no ano passado. Devido ao fato de pouco ter mudado na dinâmica do Congresso depois das eleições de novembro (o governante Partido Democrata mantém o controle do Senado e o Republicano domina na Câmara de Representantes), muitos ativistas agora pedem que o presidente apele para sua autoridade executiva no sentido de adotar regras com potencial impacto no longo prazo. Funcionários próximos a Obama também apoiam tais opções. Um deles disse há alguns dias que a administração “continuará buscando ferramentas e ações administrativas que não necessitem passar pelo Congresso”. “Isto é algo que está dentro do âmbito do governo. Há muitos aspectos que podem ser encarados para os quais não se necessita de legislação. Essa dever ser a razão pela qual avançam tão rapidamente neste momento”, observou Elizabeth Perera. Em carta aberta enviada no mês passado a Obama, cerca de 70 grupos ambientalistas pedem que o presidente “use sua autoridade executiva”. “O senhor tem a autoridade sob a atual lei de conseguir as reduções tão necessárias na contaminação de carbono, que está perturbando nosso clima e prejudicando nossa saúde”, diz a carta. Em particular, os signatários exortam o presidente a criar novos padrões de emissões de carbono nas plantas de energia dos Estados Unidos, reduzindo suas emissões de gases-estufa em pelo menos um quarto até 2020. Essa responsabilidade cairá dentro da EPA, que poderá fazer um anúncio a respeito em abril. Contra essa perspectiva, líderes republicanos e alguns empresários já começaram a criar obstáculos. O congressista Ed Whitfield afirmou na semana passada que a EPA é “excessivamente zelosa” e alertou que a agência poderá enfrentar uma “verdadeira batalha”. Envolverde/IPS


por Carey L. Biron, da IPS
Igrejas e santuários são alvos dos terroristas. Foto: Reprodução/Internet Inter Press Service - Reportagens

Cristãos e muçulmanos “vítimas dos terroristas”

[caption id="attachment_77420" align="alignleft" width="300" caption="Igrejas e santuários são alvos dos terroristas. Foto: Reprodução/Internet"][/caption] Mopti, Mali, 13/2/2013 – Na entrada da igreja evangélica de Mopti, no centro de Mali, soldados se postaram ao lado de cada porta, enquanto o pastor Luc Sagara saudava os fiéis que chegavam para a oração dominical. A presença dos soldados foi uma dura lembrança de que, há menos de três semanas, o povoado estava ocupado por extremistas islâmicos que queriam impor a shariá nesta nação do ocidente africano. “Agora nos sentimos seguros. Com a intervenção da França, esperamos que eles não nos ataquem mais”, disse Sagara à IPS. A França iniciou, em 11 de janeiro, sua intervenção militar no Mali, a pedido do presidente interino do país, Dioncounda Traoré, depois que extremistas avançaram sobre a localidade de Konna, 60 quilômetros a nordeste de Mopti. Enquanto os islâmicos ocupavam povoado após povoado, tentando capturar a capital Bamaco, impondo a shariá, e os cristãos e muçulmanos moderados eram perseguidos. Desde abril de 2012, o norte do Mali foi hostilizado por uma coalizão de grupos armados integrados pela Al Qaeda no Magreb Islâmico, o Movimento pela Unidade e a Jihad na África Ocidental, e a organização islâmica Ansar Dine, com raízes entre os tuaregues do sudeste do país. Os rebeldes destruíram santuários e igrejas e impuseram a shariá à força, realizando flagelos em público, execuções e amputações. A organização internacional Human Rights Watch disse que os rebeldes também realizaram saques, bem como o recrutamento de crianças-soldados, e violentaram mulheres e meninas. Segundo o escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, o recente conflito causou o deslocamento de 250 mil pessoas. Mopti foi um dos povoados em que os habitantes do norte buscaram refúgio, até ser também ocupado. Muitos integrantes da minoria cristã, que constitui 5% dos 15,8 milhões de habitantes do país, fugiram de Mopti, e os que ficaram viveram com medo durante a ocupação. Um imã do lugar, Abdoulaye Maiga, contou à IPS que ninguém estava a salvo dos extremistas, independente de sua filiação religiosa. “Todos somos vítimas destes terroristas. Todos somos malineses e todos fugimos juntos”, disse Maiga. Alguns de seus familiares haviam tomado o voo que partia de Gao, a maior cidade do norte do Mali. “Quando minha família chegou aqui, trouxe consigo uma família cristã, e lhes emprestamos algumas de nossas roupas tradicionais, para que os terroristas a deixassem viajar sem problemas”, contou. Em Diabaly, outra localidade central libertada, o pastor Daniel Konaté se preparou para seu primeiro serviço cristão desde que os islâmicos foram vencidos. O grafite em uma parede da igreja dizendo “Alá é o único” e as balas espalhadas pelo chão eram uma lembrança da ocupação islâmica. “Converteram minha igreja em uma base militar”, afirmou Konaté à IPS. Durante a ocupação, ele e sua família fugiram para uma aldeia que fica a 20 quilômetros, voltando somente depois que as forças de Mali e da França repeliram com sucesso os islâmicos em Mopti, no dia 21 de janeiro. Contudo, Konaté ainda se pergunta como os extremistas souberam que este simples edifício era uma igreja, pois nada indicava que se tratava de um templo. “Pensamos que algumas pessoas podem ter falado que isto é uma igreja”, comentou Konaté, enquanto 30 fiéis se reuniam no serviço religioso que começava com o cântico “Não é Deus quem nos trai. São os homens que traem Deus”. Desde que habitantes do lugar reconheceram entre as forças islâmicas dois ex-soldados de alta patente do exército de Mali que costumavam servir em Diabaly, os membros da comunidade acreditam que os combatentes islâmicos contaram com apoio local. Moradores que antes conviviam pacificamente agora suspeitam um do outro. Durante a ocupação do povoado, a pequena casa de quatro dormitórios de Pascal Touré, nos arredores de Diabaly, escondeu 27 refugiados cristãos, que tinham medo de serem perseguidos pelos ocupantes islâmicos. “Parece óbvio que alguns moradores do lugar informaram onde os cristãos estavam. Entre os moradores, todos se conhecem”, explicou à IPS. Mas Touré, um cristão que também ensina catecismo, está convencido de que buscar vingança não é a solução. Os refugiados se foram de sua casa e voltaram para seus lares em Diabaly, “mas a vida no povoado não será a mesma para os cristãos”. Entretanto, alguns aqui ainda lembram de um passado de paz, acreditando com otimismo que a vida voltará a ser como antes do conflito. O muçulmano Bakary Traoré, professor aposentado, é um deles. “Os cristãos foram tomados por alvo. Mas toda Diabaly foi vítima. Os islâmicos não tiveram tempo de impor a shariá, mas se o tivessem feito todos sofreriam. Não tiveram êxito, e agora todos podemos viver em harmonia, como antes, como um só povo”, enfatizou. Envolverde/IPS


por Marc-Andre Boisvert, da IPS
Ruínas de Tikla, na Guatemala: o declínio da civilização maia, aparentemente, se deveu à incursão em uma agricultura ambientalmente insustentável. Foto: cc by 3.0 Inter Press Service - Reportagens

Escassez pauta nova geopolítica dos alimentos

[caption id="attachment_77412" align="aligncenter" width="629" caption="Ruínas de Tikla, na Guatemala: o declínio da civilização maia, aparentemente, se deveu à incursão em uma agricultura ambientalmente insustentável. Foto: cc by 3.0"][/caption]   Washington, Estados Unidos, 13/2/2013 – O mundo transita de uma era de abundância de alimentos para uma de escassez. Na última década, as reservas mundiais de grãos diminuíram um terço. Os preços internacionais dos alimentos cresceram mais que o dobro, disparando uma febre pela terra e dando lugar a uma nova geopolítica alimentar. Os alimentos são o novo petróleo. A terra é o novo ouro. Esta nova era se caracteriza pela carestia dos alimentos e pela propagação da fome. Do lado da demanda, o aumento demográfico, uma crescente prosperidade e a conversão de alimentos em combustível para automóveis se combinam para elevar o consumo a um grau sem precedentes. Do lado da oferta, a extrema erosão do solo, o aumento da escassez hídrica e temperaturas cada vez mais altas fazem com que seja mais difícil expandir a produção. A menos que se possa reverter essas tendências, os preços dos alimentos continuarão subindo e a fome continuará se espalhando, derrubando o atual sistema social. É possível reverter essas tendências a tempo? Ou os alimentos são o elo frágil da civilização do começo do século 21, em boa parte como o foi em civilizações anteriores, cujos vestígios arqueológicos agora são estudados? Essa redução no fornecimento de alimentos no mundo contrasta drasticamente com a segunda metade do século 20, quando os problemas dominantes na agricultura eram a superprodução, os enormes excedentes de grãos e o acesso aos mercados por parte dos exportadores desses produtos. Nesse tempo, o mundo tinha duas reservas estratégicas: grandes sobras de grãos (com uma quantidade no lixo ao começar a nova colheita) e ampla superfície de terras de cultivo não utilizadas, no contexto de programas agrícolas norte-americanos para evitar superprodução. Quando as colheitas mundiais eram boas, os Estados Unidos faziam com que mais terras estivessem ociosas. Quando eram inferiores ao esperado, voltava a colocar as terras para produzirem. A capacidade de produção excessiva foi usada para manter a estabilidade nos mercados mundiais de grãos. As grandes reservas de grãos amortizavam a escassez de cultivos no planeta. Quando a monção não chegou à Índia em 1965, por exemplo, os Estados Unidos enviaram um quinto de sua colheita de trigo para esse país, para evitar uma fome de potencial catastrófico. E graças às abundantes reservas, isto teve pouco impacto sobre o preço mundial dos grãos. Ao começar este período de abundância alimentar, o mundo tinha 2,5 bilhões de pessoas. Atualmente tem sete bilhões. Entre 1950 e 2000, houve ocasionais altas no preço dos grãos, devido a eventos como uma seca severa na Rússia ou uma intensa onda de calor no Meio-Oeste norte-americano. Mas seus efeitos sobre o preço tiveram vida curta. No prazo de um ano as coisas voltaram à normalidade. A combinação de reservas abundantes e terras de cultivo ociosas converteu esse período em um dos quais houve maior segurança alimentar na história. Contudo, isso não duraria. Em 1986, o constante aumento da demanda mundial de grãos e o custo orçamentário inaceitavelmente alto levaram à eliminação do programa norte-americano de reservas de terras agrícolas. Atualmente, os Estados Unidos têm algumas terras ociosas no contexto de seu Programa de Reserva para a Conservação, mas são solos muito suscetíveis à erosão. Acabaram-se os dias em que havia terras com potencial produtivo prontas para serem cultivadas rapidamente em caso de necessidade. Agora o mundo vive com o olhar voltado apenas para o ano seguinte, sempre esperando produzir o suficiente para cobrir o aumento da demanda. Os agricultores de todas as partes realizam enormes esforços para acompanhar esse acelerado crescimento da demanda, mas têm dificuldades para consegui-lo. A escassez de alimentos conspirou contra civilizações anteriores. As dos sumérios e maias foram apenas duas das muitas cujo declínio, aparentemente, se deveu à incursão por um caminho agrícola que era ambientalmente insustentável. No caso dos sumérios, o aumento da salinidade do solo em consequência de um defeito em seu sistema de irrigação, que a não ser por isso estava bem planejado, acabou devastando seu sistema alimentar e, por fim, sua civilização. Quanto aos maias, a erosão do solo foi uma das chaves de seu desmoronamento, como o foi para tantas outras civilizações antigas. A nossa também está nesse caminho. Mas, ao contrário dos sumérios, o que a agricultura moderna sofre é o aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera. E, como os maias, também está manejando mal a terra e gerando perdas sem precedentes de solo a partir da erosão. Atualmente, também enfrentamos tendências mais novas, como o esgotamento dos aquíferos, a paralisação dos rendimentos dos grãos nos países mais avançados do ponto de vista agrícola e o aumento da temperatura. Neste contexto, não surpreende que a Organização das Nações Unidas (ONU) informe que agora os preços dos alimentos duplicaram em relação ao período 2002-2004. Para a maioria dos cidadãos dos Estados Unidos, que gasta, em média, 9% de sua renda em alimentos, este não é o maior problema. Mas, para os consumidores que gastam entre 50% e 70% de sua renda com comida, duplicar os preços é um assunto muito sério. Estreitamente ligada à redução das reservas de grãos e ao aumento do preço dos alimentos está a propagação da fome. Nas últimas décadas do século passado, o número de famintos no mundo caiu, chegando a 792 milhões em 1997. Depois começou a aumentar, chegando a um bilhão. Lamentavelmente, se as coisas continuam sendo feitas como de costume, as filas dos famintos continuarão crescendo. O resultado é que para os agricultores do mundo está ficando cada vez mais difícil ajustar a produção à crescente demanda por grãos. As existências mundiais de grãos diminuíram há uma década e não foi possível recompô-las. Se isso não for feito, a previsão é que, com a próxima má colheita, os alimentos encareçam, a fome se intensifique e se propaguem os distúrbios vinculados à alimentação. O mundo está entrando em uma era de escassez alimentar crônica, que leva a uma intensa competição pelo controle da terra e dos recursos hídricos. Em outras palavras, está começando uma nova geopolítica dos alimentos. Envolverde/IPS * Lester Brown preside o Earth Policy Institute e é autor de Full Planet, Empty Plates: The New Geopolitics of Food Scarcity (Planeta Cheio, Pratos Vazios: a Nova Geopolítica da Escassez Alimentar), W.W. Norton: Outubro de 2012.


por Lester R. Brown*
Dilma Educação

Energia regula destino político da presidente Dilma Rousseff

[caption id="attachment_77280" align="aligncenter" width="500" caption="Construção da hidrelétrica de Santo Antônio, na Amazônia, uma das megacentrais com que o Brasil busca atender sua voracidade energética. Foto: Mario Osava /IPS"][/caption]   Rio de Janeiro, Brasil, 8/2/2013 – Corrigir a anomalia de uma eletricidade caríssima, apesar de gerada pela fonte mais barata, a hidráulica, é o novo desafio da presidente Dilma Rousseff, cuja carreira política decolou precisamente por sua elogiada gestão do setor energético. A conjuntura é adversa. A escassez de chuvas em 2012 aumentou o custo da geração elétrica, ao forçar no último trimestre a ativação das usinas térmicas de petróleo que complementam o aporte das centrais hidrelétricas durante as secas. Ainda assim, o governo cumpriu sua promessa de reduzir o preço da eletricidade, um dos mais altos do mundo. Dilma anunciou, no dia 23 de janeiro, redução de 18% para o consumo residencial e de até 32% para o industrial. “O governo quer revogar a lei da oferta e da procura por decreto”, com o contrassenso de reduzir tarifas e assim estimular o consumo, quando há escassez de energia, disse à IPS o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires. No futuro terão que voltar a subir porque as centrais térmicas “cobrarão sua conta” ao operar mais tempo devido à previsível insuficiência de chuvas para encher as represas durante o verão, acrescentou o economista. Pires considera que a energia é cara no Brasil por falta de estímulos à oferta e à competição no setor, além de “práticas monopólicas” e de elevados impostos. Por razões opostas, Roberto D’Araújo, diretor do Ilumina Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético, acrescentou outras críticas. O governo “está desmantelando o sistema elétrico brasileiro ao usar as empresas estatais” para atender demandas dos industriais de São Paulo, disse à IPS. D’Araújo calcula que a estatal Furnas, onde foi chefe do Departamento de Estudos Energéticos, perderá 60% de sua renda ao cumprir as medidas governamentais, e não será a mais afetada. As empresas de eletricidade sob controle do Estado operam em nível nacional, como Furnas, ou regional, e todas têm participação minoritária privada, por isso a maioria é cotada na bolsa de valores. O alívio nas contas de luz provém de subsídios e de empresas estatais que operam velhas centrais hidrelétricas com concessões que caducariam entre 2015 e 2017. O governo propôs prorrogá-las em troca de indenizações e redução tarifária de mais de 90% em alguns casos. Algumas destas empresas, situadas em Estados governados pela oposição, rechaçaram a medida, mas, por serem dependentes do poder central, tiveram que acatá-la e ver desmoronar sua cotação na bolsa e sua capacidade de investimento. Furnas, que fornece 10% da eletricidade do país, vê agravar sua situação. Possui 1.700 funcionários com idade para se aposentarem este ano, e terá que promover demissões para adaptar-se à redução tarifária. Com isso estará se privado de “inteligência, de gente com experiência”, lamentou D’Araújo, um defensor da energia como serviço público em um “monopólio natural” no Brasil, pelo predomínio das hidrelétricas. Os preços da eletricidade “duplicaram desde 1995”, quando começou a privatização do setor e a implantação do “modelo de mercado”, disse o engenheiro. Os protestos de movimentos sociais não sensibilizaram o governo até que os industriais se mobilizassem reclamando energia mais barata para recuperar competitividade e superar a “desindustrialização” do país. Antes da redução de janeiro, a indústria denunciava que um megawatt/hora custava US$ 165, enquanto o custo médio de seus maiores sócios comerciais é de US$ 108. As tarifas residenciais são imensamente variadas, mas em um bairro de classe média do Rio de Janeiro, por exemplo, o custo do quilowatt/hora era de US$ 0,24 em dezembro. “É positivo baixar o custo da energia”, mas não com subsídios que transferem recursos de contribuintes para consumidores em “uma transfusão de sangue que não tira o paciente da UTI”, advertiu Pires, se referindo ao risco de apagões e ao uso de tarifas elétricas para conter uma inflação que há anos supera a meta anual de 4,5%. O governo atua do mesmo modo com os combustíveis, cujos preços ao consumidor são contidos desde 2005 por meio da Petrobras, que vende internamente produtos a preços inferiores aos que paga para importá-los. Esse subsídio custaria US$ 2 bilhões mensais, segundo analistas. No dia 30 de janeiro, a gasolina aumentou 6,6% e o diesel 5,4%. A alta foi permitida pelo governo porque seu impacto inflacionário será neutralizado pela baixa da eletricidade, mas não elimina as perdas da Petrobras, cujo lucro líquido caiu 36% no ano passado, em relação a 2011. É outro enredo que desafia a fama de excelente gestora de Dilma na área energética, que impulsionou sua ascensão política até a Presidência. Dilma se destacou como secretária de Energia do Rio Grande do Sul, Estado iluminado e alheio à crise que levou ao racionamento elétrico nacional entre junho de 2001 e fevereiro de 2002. Esse foi o trampolim para sua nomeação como ministra das Minas e Energia em 2003, e da Casa Civil da Presidência em 2005. Este último posto a preparou como candidata à sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2001). Como ministra comandou a reforma do sistema elétrico em 2004 para melhorar a segurança e o planejamento do setor. O “trauma” do desabastecimento de 2001 alimenta o temor de uma nova crise, mas a situação mudou com investimentos em todo o sistema, antes inexistentes, disse Emilio La Rovere, professor de pós-graduação em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foram construídas muitas centrais térmicas para o fornecer energia quando a estiagem reduzir a geração hidrelétrica, explicou, embora tenha sido descartada a segurança absoluta, porque “o risco zero custa caríssimo”, acrescentou. O planejamento do governo é “correto”, mas há falhas na execução, reconheceu La Rovere, diante dos grandes atrasos na construção de vários projetos. Há, por exemplo, plantas eólicas que não operam por falta de linhas de transmissão para aproveitar sua energia. A polêmica sobre os preços da eletricidade é “uma disputa entre capitalistas”, disse Gilberto Cervinski, um dos coordenadores do Movimento de Afetados pelas Represas. Essa batalha, disse à IPS, é entre as empresas elétricas, cujo lucro se multiplicou depois da privatização, e dos industriais, que agora ganharam com a redução na tarifa. O movimento, que estima em mais de um milhão os afetados nos últimos 30 anos, apoia a redução no preço, mas pede maior barateamento na conta de luz das famílias brasileiras, reduzindo os ganhos das empresas distribuidoras e não apenas das geradoras, como acontece agora. Além disso, é injusto privilegiar o setor industrial, com uma redução de 30%, que já paga menos pela energia elétrica, enquanto reduz em apenas 18% a tarifa residencial, opinou Cervinski. Ele também se preocupa com a saúde financeira das companhias estatais pela redução excessiva de suas tarifas, e afirmou que estas deveria ser o dobro dos menos de US$ 5 por quilowatt/hora fixados pelo governo. Envolverde/IPS


por Mario Osava, da IPS
capa Inter Press Service - Reportagens

Bem-vindo apoio masculino contra a mutilação feminina no Quênia

[caption id="attachment_77270" align="alignleft" width="354" caption="Nimo Omar, de 17 anos, se salvou do “corte” aos seis anos graças à intervenção de seu irmão mais velho. Foto: Miriam Gathigah/IPS"][/caption] Nairóbi, Quênia, 8/2/2013 – Para a comunidade samburu, no norte do Quênia, já foi terrível o fato de Julius Lekupe não conceber um varão, mas pior foi sua filha mais velha se negar a ser “cortada”. As “mulheres são como uma propriedade por aqui. As circuncidamos e as casamos até com dez anos”, disse Lekupe à IPS. Ele sabia que era questão de tempo antes que sua filha de 16 anos tivesse que se submeter a esse ritual contra sua vontade. A mutilação genital feminina (MGF) implica a extirpação total ou parcial dos órgãos sexuais externos da mulher sem justificativa médica e por motivos culturais. “Ela implorou para apoiá-la e protegê-la. Foi uma decisão difícil, mas concordei. A enviei a Nairóbi para viver com um amigo”, contou Lekupe. Ele pertence a um grupo cada vez maior de homens de diferentes grupos étnicos que praticam essa mutilação e que começaram a se opor ao agora ilegal procedimento neste país da África oriental. O parlamento adotou em 2010 a lei de Proibição da Mutilação Genital Feminina, que prevê sete anos de prisão para os infratores e até multa de US$ 5,8 mil, uma quantia enorme neste país onde o salário mensal médio é de US$ 250. A combinação desta lei e da mudança de atitude na comunidade parece dar resultados. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Fundo de População das Nação Unidas (UNFPA) divulgaram, no dia 6, dados atuais que mostram uma redução na prevalência da MGF no continente, e em especial nas gerações mais jovens de meninas. As agências destacaram o Quênia como um exemplo de redução drástica na região, e disseram que “as mulheres entre 45 e 49 anos têm três vezes mais possibilidades de terem sido cortadas do que as da faixa etária de 15 a 19 anos”, diz o comunicado. “Este avanço mostra que é possível acabar com a MGF”, disse o diretor executivo do Unicef, Anthony Lake. “Podemos e devemos acabar com ela para ajudar milhões de meninas e mulheres a terem uma vida mais sadia”, destacou. Cada vez mais homens assumem um papel ativo na promoção dessa mudança cultural, diz o informe do UNFPA de 2012 Acelerando a Mudança. Além de pais como Lekupe, que desejam proteger suas filhas, os jovens no Quênia expressam publicamente seu desejo de casar com mulheres não circundadas, segundo o informe. Uma mudança significativa em um país onde há comunidades nas quais a ablação continua sendo um requisito para o casamento. Além disso, cerca de 20 líderes muçulmanos declararam publicamente uma luta contra este procedimento em 2011, segundo o UNFPA. “Nos enganaram para crermos que a MGF é uma prática do profeta Maomé e que seus seguidores devem respeitá-la”, disse a esta agência Abdi Omar, pai de uma filha na localidade de Garissa. “No entanto, em todo o norte do Quênia há líderes muçulmanos que nos dizem que não é assim. Por que vou apoiá-la se não é uma prática do profeta?”, perguntou. Segundo Ibrahim Shabo, ativista contra a MGF na localidade de Isiolo, a postura dos líderes muçulmanos é determinante para incidir na população somaliana assentada no Quênia, entre a qual a prevalência desta prática é de 98%. Em Isiolo, 285 quilômetros ao norte de Nairóbi, há uma comunidade pastoril conhecida por seu consistente uso da ablação. Em Kapenguria, no Vale do Rift, o conselho local de anciões uniu-se em 2011 ao coro de vozes contra a MGF, mediante uma declaração convocando para o abandono desta prática. “Esta é uma comunidade conhecida pelas suas formas extremamente brutais de fazer a MGF”, disse à IPS o líder comunitário Philipo Lotimari. Ele explicou que esses métodos incluem abrir a vagina da menina com um chifre de vaca na primeira vez que mantém relações sexuais após a ablação. A posição do conselho, integrado apenas por homens, conseguiu uma mudança de atitude, ao passar a “mensagem coletiva de que aprova o casamento com uma menina não circundada”, disse Lotimari. Suas irmãs menores não foram mutiladas porque ele queria que estudassem e não se casassem, explicou. Porém, nem todos os homens têm motivos altruístas para serem contra a ablação. Omar, o pai residente em Garissa, disse que os jovens da região são contra porque sentem que também são “vítimas” dessa prática. “Se costuram muito apertado a vagina não dá para penetrar nem desfrutar do sexo. Os casamentos terminam por isso”, explicou. O médico Salim Ali, especializado em saúde reprodutiva, do norte do Quênia, disse à IPS que “as relações sexuais com mulheres mutiladas são incômodas e elas o fazem por dever. Raramente têm um orgasmo e o sexo se torna entediante. As que não foram cortadas têm sexo mais seguidamente e desfrutam dele”. Há outros casos em que os homens, cujas esposas sofreram complicações no parto, são obrigados a pagar operações de emergência para salvá-las e os bebês, disse à IPS a ativista Grace Gakii, que trabalhou em comunidades que praticam a ablação como a masái e a pokot. “Precisam vender seu gado para conseguir dinheiro para a cirurgia. É um problema, apesar do apego que sentem pela prática”, acrescentou. Embora nem todos os homens contra à mutilação feminina sejam aliados das mulheres, seu apoio é fundamental para acelerar a erradicação desta prática. “Se mais conselhos de anciãos e jovens continuarem demonstrando seu apoio a uma sociedade sem MGF, o Quênia avançará para a tolerância zero a esse respeito”, acrescentou Gakii. Envolverde/IPS


por Miriam Gathigah, da IPS
As altas temperaturas fazem com que o Oceano Ártico, que costumava estar congelado na maior parte do ano, agora seja um canal de navegação aberto mais da metade do tempo. Foto: Domínio público Inter Press Service - Reportagens

Ambientalistas criticam plano sobre vazamentos no Ártico

[caption id="attachment_77265" align="aligncenter" width="540" caption="As altas temperaturas fazem com que o Oceano Ártico, que costumava estar congelado na maior parte do ano, agora seja um canal de navegação aberto mais da metade do tempo. Foto: Domínio público"][/caption]   Washington, Estados Unidos, 8/2/2013 – Ambientalistas alertaram sobre a fragilidade de um plano inadequado para proteger o Oceano Ártico de vazamentos de petróleo, após a reunião mantida na Suécia pelos ministros de Meio Ambiente dos países com territórios na área. Segundo a organização ambientalista Greenpeace, uma cópia que vazou do documento sugere que os oito membros do Conselho do Ártico não chegaram a um acordo no dia 4 sobre os detalhes técnicos necessários para enfrentar um vazamento de grande magnitude. Isso apesar de terem aberto a porta para mais perfurações e explorações petroleiras na região. “Não estamos impressionados pelo que vimos nesse documento totalmente inadequado”, disse à IPS um membro do Greenpeace em Washington, Ben Ayliffe. “Não há nada para preparar os governos em caso de desastre nem para proteger o Ártico”, acrescentou. Segundo o Portal do Sistema das Nações Unidas para o Clima, o gelo do Ártico atingiu em 2012 seu menor nível registrado. O degelo, que os dados científicos atribuem à mudança climática acelerada pelas atividades humanas, criou uma virtual febre do ouro na região. As elevadas temperaturas fazem com que o Ártico, que costumava estar congelado a maior parte do ano, agora seja um canal de navegação aberto durante mais da metade do tempo. A consequência foi uma debandada para reclamar direitos sobre seu território, que segundo estimativas da organização norte-americana Geological Survey, contém 22% dos recursos energéticos do mundo ainda não descobertos. Segundo o biólogo Richard Steiner, especialista do Alasca em vazamentos de petróleo, 46 navios mercantes navegaram no último verão boreal pelo que agora se conhece como a Rota do Mar do Norte, dez vezes mais do que há apenas dois anos. “Houve um aumento impressionante da navegação no Oceano Ártico, especialmente com produtos petroleiros muito perigosos”, disse à IPS. Steiner também ressaltou que um aumento das perfurações na região exige leis severas. No entanto, o acordo do Conselho Ártico carece de padrões de rendimento técnico, mecanismos de controle e pautas operacionais. “Seguem adiante com o desenvolvimento de perfurações e a navegação sem as salvaguardas apropriadas. É realmente trágico. Temo que esperam um grande vazamento para implantarem sistemas adequados”, lamentou. Steiner acrescentou que isso foi o que aconteceu no caso Exxon Valdez, em que um petroleiro encalhou no Alasca em 1989. “Temo que isto também aconteça no Ártico. Apesar das lições aprendidas, muito pouco mudou em matéria de políticas de prevenção”, afirmou. O Conselho do Ártico, criado em 1996, é integrado por países com territórios nessa área: Canadá, Dinamarca (pela Groenlândia), Estados Unidos (pelo Alasca), Finlândia, Islândia, Noruega, Rússia e Suécia. O novo tratado sobre vazamentos será assinado por seus membros em maio, quando se converterá no segundo acordo selado pela organização intergovernamental desde que o acordo de busca e resgate foi subscrito em 2011. Entretanto, Ayliffe diz que o documento não atende de forma adequada as questões complexas que implica um possível vazamento na região. “É um pesadelo. As dificuldades técnicas de responder a um desastre que ocorra sob uma geleira a uma milha de profundidade tornam impossível uma operação como a que a multinacional British Petroleum teve que fazer no Golfo do México”, advertiu. Apesar das garantias oferecidas pelo Conselho do Ártico, de que o acordo incluiria medidas de proteção ambiental específicas, como estratégias de prevenção e de recuperação após um vazamento, Ayliffe apontou que o acordo “não detalha uma resposta essencial, métodos para tapar um buraco ou limpar animais e habitats prejudicados. Por outro lado, se baseia em declarações vagas sobre as medidas que deverão tomar as nações da área com os recursos disponíveis”, acrescentou. O documento tem uma redação ambígua sobre os vazamentos, só pede aos países que tomem “medidas adequadas” para evitar o problema, sem indicações específicas nem requisitos. Também carece de pautas sobre a responsabilidade das companhias petroleiras em caso de desastre e de instruções sobre como gerir de forma adequada um vazamento. “Nenhuma petroleira jamais testou sua capacidade de resposta a um vazamento nas geleiras, e o acordo não tem nada sobre como as companhias vão deter ou limpar um desastre como o de Deepwater Horizon”, disse Ayliffe. Ele se referia à torre de perfuração da firma suíça Transocean Ltd que alugava à BP e que explodiu e pegou fogo em 20 de abril de 2010 no Golfo do México diante da costa do Estado norte-americano de Lousiana, afundando dois dias depois. Durante três meses vazaram quase cinco milhões de barris (de 159 litros). “Temos esperanças de que devido ao mal-estar gerado por este documento haja tempo antes de maio para preencher algumas lacunas”, acrescentou Ayliffe. Envolverde/IPS


por Joe Hitchon, da IPS

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Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

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