Escasseiam alimentos e dinheiro no norte de Mali

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Escasseiam alimentos e dinheiro no norte de Mali


por Emmanuel Haddad, da IPS


[caption id="attachment_77006" align="aligncenter" width="495" caption="Civis em Niono, norte de Mali, fogem com seus pertences. Foto: Marc-André Boisvert/IPS"][/caption]   Niamey, Níger, 6/2/2013 – Organizações não governamentais pedem ajuda alimentar, combustível e até dinheiro vivo para o norte de Mali, enquanto aumenta a necessidade de uma intervenção humanitária na área, após a operação militar nas cidades de Gao e Tombuctu. “Desde 2012, os malineses sofrem uma crise tripla: a seca e a má colheita, depois a política, e, por fim, um conflito aberto iniciado quando grupos islâmicos assumiram o controle do norte do país”, disse Kristalina Georgieva, comissária europeia de Cooperação Internacional, Ajuda Humanitária e Resposta às Crises, ao visitar Bamako, no dia 22 de janeiro. A Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia (UE), anunciou que destinará US$ 27 milhões em ajuda humanitária de emergência para esse país da África ocidental. É urgente a ajuda econômica, pois os moradores de Gao e Tombuctu, as duas maiores cidades do atribulado norte de Mali, têm dificuldades para conseguir alimentos, afirmam organizações que trabalham na área, contatadas de Niamey, capital de Níger. “Com o avanço das forças francesas e malinesas sobre os combatentes islâmicos, muitos dos fornecedores de alimentos e combustível fugiram da região, especialmente de Gao”, informou no dia 4 a organização humanitária Oxfam Internacional. “Não há fornecimento de alimentos em Gao há duas semanas”, disse Lucile Grosjean, porta-voz da organização Ação Contra a Fome. Desde abril de 2012, o norte de Mali se viu assediado por uma coalizão de grupos armados integrados por Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI), Movimento pela Unidade e a Jihad na África Ocidental (Mujao) e Ansar Dine, organização islâmica de tuaregues. “Devido à ocupação de jihadistas, os agricultores não receberam o habitual apoio do Ministério da Agricultura para melhorar a produção de arroz nas margens do Rio Níger”, contou Grosjean. “Assim, a colheita foi muito menor do que no ano passado”, acrescentou. Além disso, “muitos mercados fecharam devido às dificuldades nas comunicações com Argélia e Níger (ao norte e ao leste de Mali) e os preços não são bons”, ressaltou Grosjean. Somando-se a isso, uma quadrilha de ladrões de animais faz com que a população local tema por seu gado, afirmou. Os saques agravam o sentimento de insegurança que ainda domina Gao e as populações rurais ao redor, que sofreram o embate da ocupação das forças do Mujao. Desde que os insurgentes abandonaram a área, após a operação das forças francesas, os estabelecimentos comerciais foram saqueados e seus proprietários, árabes e tuaregues, fecharam as portas e esconderam as mercadorias, esperando que a situação melhore. Isto piora a escassez de alimentos. “Os produtos aumentaram, em geral, 30% e o combustível 66%”, detalhou Grosjean, acrescentando que, embora haja fornecimento, não há dinheiro em Gao para comprar. “Após o fechamento dos bancos, os comerciantes foram a Bamako buscar dinheiro para o norte, mas desde que começou o bombardeio ficamos sem nada”, disse a porta-voz da Ação Contra a Fome. Em Tombuctu, a situação humanitária é menos alarmante, mas há grande temor por represálias. Ali também os comércios árabes e tuaregues foram saqueados no dia 29 de janeiro, após a chegada das forças francesas e malinesas. A França pediu o rápido envio de observadores internacionais para evitar que as tensões interétnicas semeiem o caos no norte de Mali. Porém, a prioridade é restabelecer o acesso aos cuidados médicos no norte de Mali. “Estamos esperando um ou dois dias para abrir o centro de saúde de Gao, pois prevemos um grande fluxo de pacientes”, afirmou Grosjean. A ajuda ao Mali, especialmente da UE, foi suspensa em março de 2012, quando o exército derrubou o governo civil eleito nas urnas. Depois do começo da (até agora) bem-sucedida intervenção francesa, vários governos, incluídos os do bloco europeu, prometeram US$ 450 milhões para Mali, bem como recursos humanos para apoiar o treinamento dos soldados do exército. O Grupo de Apoio e Acompanhamento da situação em Mali, que inclui dirigentes políticos e organizações internacionais, se reuniu ontem em Bruxelas para analisar o processo político do país, com vistas à realização de eleições democráticas. Envolverde/IPS

Universitários japoneses avaliam a devastação causada pelo tsunami em Minamisanriku antes de começarem o trabalho. Foto: Daan Bauwens/IPS Inter Press Service - Reportagens

Jovens apresentam novas ideias para a reconstrução do Japão

[caption id="attachment_77002" align="aligncenter" width="489" caption="Universitários japoneses avaliam a devastação causada pelo tsunami em Minamisanriku antes de começarem o trabalho. Foto: Daan Bauwens/IPS"][/caption]   Tóquio, Japão, 6/2/2013 – Os fundos para a reconstrução das zonas afetadas pelo terremoto e posterior tsunami de 2011 começam a minguar no Japão, e em muitas áreas do nordeste as obras nem mesmo começaram. Porém, cada vez mais jovens chegam ali com novas ideias para a recuperação. Às seis horas da manhã estaciona um ônibus na planície desértica onde ficava o povoado costeiro de Minamisanriku. Hoje, não fossem dois marcos de metal do que foram grandes edificações, não restam rastros da presença humana na área. Vinte estudantes de Tóquio descem do veículo e visitam a área. Uma hora depois se unem a outro grupo de voluntários e começam a cavar a terra gelada para retirar os escombros que a gigante onda de barro deixou há dois anos. Entre eles está Akinori Fujisawa, vice-presidente do projeto Assistência da Universidade de Tóquio (UT Aid), que nos finais de semana reúne estudantes voluntários de todo o país nas zonas afetadas. “Logo depois do tsunami, os japoneses queriam vir para cá (Minamisanriku) como voluntários. Mas muitos não puderam”, contou Fujisawa à IPS durante a visita à região. “Os estudantes tinham tempo, mas não tinham dinheiro, enquanto os trabalhadores tinham dinheiro, mas não tempo. E foi assim que começamos: conseguimos fundos de pessoas e empresas e passamos a organizar viagens nos finais de semana”, explicou. E não são apenas estudantes. “A gente vem aqui todos os finais de semana com amigos”, contou Machiko Ogata, uma japonesa de 30 anos. “Nos reunimos em Tóquio e viajamos para cá. Todos nos conhecemos nestes locais. É um acontecimento social”, acrescentou. No entanto, este tipo de iniciativa tem os dias contados. “Não será necessário mais de gente cavando”, disse Fujisawa à IPS. “Gostaríamos de iniciar novos projetos, como tentar melhorar as condições de estudo das crianças da área, porque a maioria delas faz seus deveres na rua. Porém, não podemos fazer muito com o orçamento atual”, ponderou. “E cada vez fica mais e mais difícil reunir fundos. As pessoas, equivocadamente, acreditam que a reconstrução está terminada. Claramente, se pode ver que não é assim. Mas, não podemos fazer muito a respeito. Em dois meses nossa organização deixará de funcionar”, lamentou. As iniciativas voluntárias como a UT Aid deixarão a região, mas aparecem cada vez mais grupos de jovens profissionais, organizações não governamentais e empreendimentos sociais inovadores. A Entrepreneurial Training for Innovative Communities (Capacitação Empresarial para Comunidades Inovadoras – Etic), baseada em Tóquio, é um centro de formação para jovens empresários que querem iniciar uma empresa social. Após a catástrofe de 2001, a organização começou um programa para capacitar e enviar pessoas para as áreas afetadas, e assim colaborar com a reconstrução. “Já enviamos mais de 135 pessoas para essa região”, disse Yoshi Koumei Ishikawa, gerente da divisão de pesquisa da Etic. “A maioria está na faixa dos 20 a 30 anos, e quase todos renunciaram aos seus empregos em grandes companhias do Japão para criar seu próprio projeto social”, afirmou. Além disso, diretores de prósperas ONGs japonesas decidiram se instalar na devastada região de Tohoku, no norte da principal ilha do Japão, Katariba, encabeçados por Kumi Imamura, de 33 anos, já construiu três escolas para mais de 300 crianças, como maneira de compensar a falta de espaço nos abrigos temporários para as vítimas do tsunami. “Porém, o mais importante é que os residentes da área atuam como professores e logo assumirão a organização do programa”, destacou Retz Fujisawa, de 37 anos, coordenador de quase todas as instituições que trabalham na zona. “A primeira etapa de alívio terminou. Agora pretendemos estimular a autorreconstrução, os moradores de Tohoku precisam assumir a liderança”, explicou. Com a Tohoku Earthquake Consulting Team, com sede em Tóquio, Fujisawa guia os esforços de reconstrução das ONGs. Também integra o governamental Conselho de Reconstrução Educativa e a Agência de Reconstrução, onde defende um enfoque inovador na matéria. “A região de Tohoku está devastada, o dano é enorme”, declarou à IPS. “Contudo, mesmo sem o tsunami, já caminhava para uma catástrofe. Tinha uma situação econômica muito má, especialmente devido ao envelhecimento da sociedade e à emigração de jovens para Tóquio”, detalhou Fujisawa. “Se vamos reconstruir a região, devemos aproveitar esta oportunidade para fazê-lo de forma que não volte a ocorrer, e fazer todo o possível para criar um novo estilo de vida”, opinou. Fujisawa considera Tohoku como um teste para o resto da Ásia. “Sofremos porque todos os recursos, o capital e a educação estão concentrados nas grandes cidades, e o resto fica esquecido. Agora temos a oportunidade de reorganizar toda a região e distribuir recursos”, enfatizou. E acrescentou que além de um teste, também é um exemplo perfeito de que seu país muda rapidamente. “Esta é a primeira vez que o diretor de uma ONG é convidado a trabalhar com o governo. E também a primeira vez que as ideias surgem dos jovens que estão no último elo da cadeia de decisões”, disse Fujisawa à IPS. “Há tantas mulheres dirigindo projetos quanto homens em Tohoku. A maioria na faixa dos 20 a 30 anos, que renunciaram aos seus empregos para virem para cá”, insistiu Fujisawa. “Há uma razão fundamental para isso: estamos todos ligados pelas redes sociais, a informação é compartilhada e não mais retida. Os jovens podem começar a agir por conta própria. Isto nunca havia acontecido no Japão”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Daan Bauwens, da IPS
Mahmoud Ahmadinejad Inter Press Service - Reportagens

Denúncia de corrupção eleva tensões internas no Irã

[caption id="attachment_76877" align="alignleft" width="231" caption="Mahmoud Ahmadinejad"][/caption] Doha, Catar, 5/2/2013 – O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, acusou de corrupção o irmão do chefe do parlamento, aprofundando as diferenças entre duas das figuras políticas mais importantes desse país, quando faltam pouco mais de quatro meses para as eleições presidenciais de 14 de junho. O mandatário e seu gabinete estavam no parlamento, no dia 3, para assistir o julgamento político do ministro do Trabalho, Abdolreza Sheijoleslami, quando Ahmadinejad apresentou sua acusação contra Fazel Lariyani, irmão do presidente do Poder Legislativo, Ali Lariyani. Ahmadinejad difundiu uma gravação inaudível na qual supostamente Fazel afirma que usou da influência de sua família para obter benefícios econômicos. Os dois irmãos desmentiram a denúncia. “Nosso problema é que o presidente não observa as regras mínimas de uma conduta apropriada”, declarou Ali Lariyani ao criticar aos comentários do mandatário como completamente fora de lugar no processo contra Sheijoleslami. “De fato, é melhor que você tenha reproduzido essa gravação hoje, para que o povo entenda melhor seu caráter”, acrescentou. A jornalista da rede de televisão árabe Al Jazeera, Soraya Lennie, informou, de Teerã, que “a maior parte das reações foi negativa e crítica em relação a Ahmadinejad. Um parlamentar afirmou que o presidente não está agindo de acordo com seu cargo”. Na sessão do dia 3, Ali Lariyani disse ao mandatário que o parlamento não é o local adequado para debater sobre corrupção e que deveria dirigir suas acusações às autoridades pertinentes. Também negou um pedido de Ahmadinejad para voltar a fazer uso da palavra. O presidente afirmou que a gravação registrando uma conversa entre Saeed Mortazavi, um homem de seu círculo, e Fazel Lariyani, mostra este último garantindo que pode usar a influência de seu irmão para vencer obstáculos em troca de participar de determinados negócios. Os Lariyani formam uma das famílias políticas mais poderosas e influentes do Irã. Sadeq, irmão de Fazel e Ali, encabeça o Poder Judiciário. Fazel afirmou à agência de notícias iraniana Fars que apresentará uma denúncia judicial contra Ahmadinejad e Mortazavi, por “divulgarem mentiras e alterarem a opinião pública. Este foi um ato de conspiração e hipócrita. Não sou a primeira pessoa atacada por estes indivíduos mafiosos”, ressaltou. Envolverde/IPS * Publicado sob acordo com a Al Jazeera.


por Correspondentes da IPS
LA HABANA-FIDEL EJERCE SU DERECHO AL VOTO EN LAS ELECCIONES A DI Inter Press Service - Reportagens

Fidel Castro apoia processo de mudanças com votação em Cuba

[caption id="attachment_76870" align="alignleft" width="332" caption="O ex-presidente de Cuba, Fidel Castro, votando no dia 3. Foto: Marcelino Vázquez Hernández/AIN"][/caption] Havana, Cuba, 5/2/2013 – Milhões de pessoas participaram em Cuba, no dia 3, das eleições gerais, que tiveram como maior surpresa o reaparecimento em público do ex-presidente Fidel Castro, em um gesto interpretado como reafirmação de seu apoio ao governo de seu irmão Raúl Castro. “Nada é por acaso. Fidel está ratificando que apoia o processo de atualização do modelo econômico e as transformações que dele derivam”, disse à IPS um analista que pediu para não ser identificado. Fidel votou e conversou com a imprensa cubana em seu colégio eleitoral, no município Plaza de La Habana. Para o ex-governante, “é um dever atualizar o modelo socialista cubano, modernizá-lo, mas sem cometer erros”. Também comentou o estado de saúde do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que se recupera em Cuba de uma complexa cirurgia, garantindo que acompanha sua evolução todos os dias, e que ele “está muito melhor”. O histórico líder cubano ficou gravemente doente em 2006, e em 2008, após renunciar aos seus cargos, a Assembleia Nacional (parlamento unicameral) elegeu Raúl Castro como presidente do Conselho de Estado, integrado por 31 membros e que, segundo a Constituição, “ostenta a suprema representação do Estado cubano”. Desde então, a cadeira do ex-governante nas sessões parlamentares permanece vazia. As eleições do dia 3 foram convocadas para renovar as assembleias provinciais e o parlamento, e entre os candidatos estava o ex-mandatário. “Fidel já é deputado”, disse a fonte, sem mais comentários. No peculiar sistema eleitoral cubano, metade dos 612 candidatos para ocupar igual número de cadeiras legislativas é escolhida em assembleias municipais eleitas em eleições realizadas em novembro do ano anterior. A outra metade é proposta por uma comissão de candidaturas integrada por organizações de massas. O voto é direto e secreto, e os eleitores podem votar em um, em vários ou todos os candidatos de sua circunscrição, a divisão territorial do município e base do sistema eleitoral cubano. A única propaganda eleitoral permitida no país é a publicação das biografias dos candidatos. Críticos do sistema político de Cuba reclamam que, para o modelo eleitoral ser válido, deve-se permitir candidatos da oposição para que os eleitores tenham alternativas. Porém, meios oficiais defendem que o modelo existente é mais democrático, pela maciça participação da população e pela qualidade dos candidatos. A lista dos 612 candidatos representa uma renovação de 67% do atual corpo legislativo. A idade média dos candidatos é de 48 anos, quase 49% são mulheres, 37% são afro-cubanos ou mestiços, e cerca de 83% têm estudos superiores. As autoridades tentam promover uma participação mais ativa da juventude nestas e em outras instâncias de governo. Meios de comunicação oficiais ressaltaram que 53 candidatos são menores de 35 anos e muitas mesas eleitorais estiveram sob cuidados de gente muito jovem. “Isso evidencia a disposição das novas gerações para participar do governo”, disse à IPS o universitário Alejandro Domínguez, de 20 anos. Contudo, “a decisão de ser deputado pode mudar sua vida. Muitos jovens não veem a política como uma carreira ou um caminho a seguir. Não está nas expectativas da juventude”, afirmou. Entre as grandes ausências na lista de candidatos, se destaca a de Ricardo Alarcón, que desde 1993 foi presidente da Assembleia Nacional, e as de Roberto Fernández Retamar, presidente da Casa das Américas, e Marcia Cobas, vice-ministra da Saúde, responsável pela exportação de serviços médicos. Por outro lado, estrearam com deputados Ricardo Cabrisas, vice-presidente do governo responsável pelo comércio exterior, a diretora do Centro Nacional de Educação Sexual, Mariela Castro Espín, filha de Raúl Castro, e o chanceler Bruno Rodríguez. O chefe da diplomacia obteve, em dezembro de 2012, outra importante promoção, quando ingressou no Escritório Político do governante Partido Comunista de Cuba (PCC), o único permitido em Cuba. Pela legislação eleitoral, a nova Assembleia Nacional deve se reunir no prazo de 45 dias após as eleições e escolher os 31 membros do Conselho de Estado, incluído seu presidente, para um mandato de cinco anos. E se dá como certa a reeleição de Raúl Castro. Porém, este seria seu último período presidencial, caso seja referendado constitucionalmente o acordo do Sexto Congresso do PCC, de abril de 2011, quando ficou estabelecida a limitação do desempenho em cargos públicos do Estado em dois mandatos consecutivos de cinco anos. O próprio Raúl Castro deixou entrever, no começo de 2012, no encerramento da Conferência Nacional do PCC, que essa e outras decisões do Congresso poderiam começar a ser aplicadas paulatinamente sem esperar pela reforma constitucional. Também previu mudanças nos estatutos e em outros documentos reitores do PCC. Raúl Castro por várias vezes expressou sua preocupação pelo déficit de pessoas com preparação suficiente para assumir as complexas funções de direção de um partido, do Estado e do governo. Trata-se de uma tarefa de “importância estratégica para a Revolução”, afirmou. Sobre isso, Miguel Díaz-Canel, vice-presidente do conselho de ministros e titular de Educação Superior, destacou que a atualização do modelo econômico entra este ano em uma fase de mudanças mais complexas, o que exige parlamentares preparados para poderem participar ativa e responsavelmente desse processo. Envolverde/IPS * Com colaboração de Ivet González (Havana).


por Patricia Grogg, da IPS
Plantação de arroz. Foto: Reprodução Inter Press Service - Reportagens

Agricultura nativa da Índia ganha status

[caption id="attachment_76862" align="alignleft" width="300" caption="Plantação de arroz. Foto: Reprodução"][/caption] Koraput, Índia, 5/2/2013 – Na última temporada de monções, Sunadhar Ramaparia plantou variedades autóctones de arroz, milho e oleaginosas em sua área nas terras altas do Estado indiano de Orissa e suportou as inclemências do clima. Depois vieram as chuvas e ficou 23 dias sem trabalhar. Com o calor abrasador, até os brotos de arroz híbrido dos agricultores das terras baixas queimaram. Mas Ramaparia, um homem de 65 anos da tribo bhumia, colheu tudo o que plantou. O desmatamento e a mudança climática estão provocando chuvas erráticas, que reduzem os corpos de água e degradam o solo na localidade de Ramaparia em Tentulipar, na região dos Ghats orientais, província de Koraput, em Orissa. Muitos agricultores correm risco de passar fome. Contudo, a tribo bhumia recorre à sabedoria de seu sistema agrícola de três mil anos de antiguidade para garantir alimentos de qualidade o ano todo. Estes nativos usam sementes originárias dos Ghats orientais, uma cadeia montanhosa descontínua de grande diversidade biológica, que corre paralela à Baía de Bengala no leste da Índia, com cerca de 900 metros de altitude. O sistema agrícola dos bhumias se adaptou ao terreno áspero, se tornou resiliente às mudanças ambientais e desenvolveu um mecanismo natural de controle de pragas. Os agricultores semeiam variedades resistentes nas terras altas, e aquelas que exigem mais água, nas de média e baixa altitude. O governo lhes ofereceu arroz híbrido, com rendimentos entre 3,7 e 4,8 toneladas por hectare, enquanto as sementes tradicionais rendem entre 2,4 e 3,3 toneladas. Porém, Ramaparia e sua família de 20 membros não têm intenções de abandonar o sistema ancestral. “O arroz do governo não tem gosto nem aroma, e exige um cuidado muito caro (pesticidas e fertilizantes químicos), e deixa doente quem o come”, afirmou Ramaparia à IPS. “Toda uma vida comendo nossos grãos faz com que uma pessoa idosa como eu esteja forte; desafio qualquer jovem a lutar comigo”, disse, divertido, enquanto olhava as pessoas reunidas ao seu redor. Segundo a Pesquisa Nacional da Índia, sobre a qual se baseia a Política Nacional para os Agricultores (de 2007) e os programas agrícolas do 11º Programa Quinquenal, 69% dos 1,2 bilhão de habitantes deste país vivem em zonas rurais. As comunidades tribais constituem 10% da população rural, e destas 8% recorrem a métodos agrícolas tradicionais. Além disso, 46% dos agricultores utilizam as sementes híbridas oferecidas pelo Estado e 47% usam as conservadas de suas próprias colheitas. “O cultivo múltiplo, no qual se mesclam seis produtos diferentes, oferece uma dieta variável”, disse à IPS o pai da Revolução Verde na Índia, Saujanendra Swain, cientista principal e presidente emérito da Fundação de Pesquisa M. S. Swaminathan, com sede na cidade de Jeypore, a mais importante de Koraput. “São produzidos mais alimentos em uma terra limitada e com menor trabalho, e a colheita escalonada reduz em grande parte o risco de perder tudo, porque os diferentes cultivos amadurecem em momentos distintos”, ressaltou. Um estudo da Fundação Swaminathan, realizado em sete aldeias tribais em 2009, concluiu que 80% dos entrevistados preferiam combinar cultivos de milho e legumes resistentes que prometiam alto grau de segurança alimentar. A colheita começa em setembro, com a maturação do primeiro milho de dedo (ou milho africano), e termina em janeiro, com a do guandu ou feijão de pau. Não é necessário trabalho intensivo. No começo da temporada de monções são plantadas as sementes em sulcos pouco fundos que são cobertas com esterco de vaca e deixadas para que se desenvolvam sozinhas. Nas parcelas, as mulheres são as que sustentam essa prática. Segundo Chandra Pradhani, agricultor de 46 anos da aldeia de Nuaguda, as três palavras-chave que definem o sistema agrícola tradicional são: orgânico, reciclável e sustentável. O cultivo para alimento e combustível é feito em seu ambiente natural, sem insumos artificiais e depois é colhido à mão. Os desperdícios agrícolas são usados para tratar os cultivos e controlar as pragas, e as sementes são conservadas em bancos genéticos para a próxima geração. Enquanto caem as chuvas de monções, em julho e agosto (os mais pobres quanto à disponibilidade de alimentos), os agricultores colhem “verduras e cogumelos” na floresta, disse à IPS a camponesa Gari Mathabaria enquanto prepara arroz inflado que depois troca no mercado semanal por uma medida de arroz com casca. “Frutas e bagas da estação fazem parte da nossa deita, embora sua quantidade diminua com a redução das florestas”, lamentou. Os legumes, que são uma pequena porção na mesa local, são cultivados para a venda. As verduras são plantadas nas hortas familiares, onde os feijões são o sustento de muitas comunidades agrícolas. Estas práticas não têm motivo para serem excluídas dos Ghats orientais. Segundo a Pesquisa Nacional da Índia, 60% dos 140 milhões de hectares cultivados são regados com chuva, por isso esses métodos ou outros semelhantes podem ser ampliados. Os Ghats orientais têm uma longa história de zona de grande biodiversidade. Numerosas variedades de arroz se originaram no Vale de Jeypore, em Koraput, há cerca de três mil anos. No entanto, a interferência humana neste delicado ecossistema e a industrialização da agricultura destruíram grande parte dessa riqueza biológica. Uma pesquisa feita em 1950, pelo Instituto Central de Pesquisas do Arroz, constatou 1.750 variedades locais. Em 1990, apenas 40 anos depois, a Fundação de Pesquisa M. S. Swaminathan registrou apenas 324. “Uma estimativa informada é que, talvez, haja cem variedades disponíveis”, destacou Swain. A Fundação também registrou oito espécies de milhos menores, nove de legumes, cinco de oleaginosas, três de plantas fibrosas e sete de verduras. Entretanto, os especialistas temem que essas variedades desapareçam. “Há apenas 15 anos, registramos 25 variedades de feijões locais, chamados simba, e hoje são apenas quatro”, pontuou Swain. Entretanto, a situação poderia melhorar. Em janeiro a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) concedeu ao método agrícola tradicional de Koraput o status de Sistema Engenhoso do Patrimônio Agrícola Mundial (Sipam). Este status permite aos agricultores receberem ajuda para manter e adaptar suas práticas ancestrais à mudança climática e à contínua redução dos preços para garantir a segurança alimentar sem sucumbir às técnicas modernas. “Os sistemas de Koraput são sustentáveis no que diz respeito ao meio ambiente e climaticamente inteligentes. Sua importância aumentará com as alterações meteorológicas mais frequentes. Por isto, é bom que a FAO os tenha reconhecido como Sipam”, opinou Swain. Os festivais agrícolas são um meio único para promover a preservação de sementes. Chandrama Bhumia, de 41 anos, possui meio hectare, mas nunca passou fome. “Em abril temos o Bali Yatra (festival da areia). As famílias recolhem a camada superior do solo arenoso das margens do rio em recipientes de folhas onde plantam sementes selecionadas que serão utilizadas em junho”, explicou Bhumia. Nove dias depois, quase dez mil pessoas se reúnem com suas sementes germinadas e o “dasari”, homem de medicina, avalia o estado dos brotos, descartando ou aprovando seu posterior cultivo. A feira permite trocar sementes com os que ficaram com brotos descartados. Envolverde/IPS


por Manipadma Jena, da IPS
Automóveis queimados e tanques do exército abandonados são testemunhas dos combates em Diabali, centro de Mali. Foto: Marc-André Boisvert/IPS Inter Press Service - Reportagens

Jihadistas abandonam o norte de Mali, mas o medo permanece

[caption id="attachment_76857" align="aligncenter" width="520" caption="Automóveis queimados e tanques do exército abandonados são testemunhas dos combates em Diabali, centro de Mali. Foto: Marc-André Boisvert/IPS"][/caption]   Diabali, Mali, 5/2/2013 – “Sabemos que estão perto. Não nos sentimos seguros”, disse Alassane Traoré olhando o caminho pelo qual um grupo de rebeldes islâmicos entrou nesta cidade do centro de Mali há duas semanas. Diabali fica 250 quilômetros a nordeste de Bamako, capital do país. Traoré, ele próprio muçulmano e muezim, encarregado de chamar a oração e recitá-la na mesquita local, ficou nervoso quando viu a fila de caminhonetes com jihadistas da rede extremista Al Qaeda circulando pela cidade no dia 14 de janeiro, tanto que decidiu colocar sua mulher e filhos em local seguro. “Eram violentos e destruíram tudo, podem voltar a qualquer momento”, disse Traoré à IPS diante de sua modesta mesquita pintada de azul. “Os vimos aspirar um pó branco. Não são bons muçulmanos”, acrescentou. No ano passado, quase dois terços deste país da África ocidental foi ocupado por uma coalizão de grupos armados, integrada por Al Qaeda no Magreb Islâmico (Aqim), Movimento pela Unidade, e Jihad e Ansar Dine, uma organização islâmica de tuaregues. Estes são um povo nômade amazigh, que ocupa partes de Mali e Níger. Os islâmicos radicais, que defendem a imposição da shariá (lei islâmica), assumiram o controle de Diabali durante uma semana, até que forças da França e o exército de Mali conseguiram expulsá-los no dia 21 de janeiro. Precisamente, a tomada de Diabali pelos insurgentes motivou a intervenção francesa, solicitada pelo presidente interino, Dioncounda Traoré, que acabou expulsando os combatentes islâmicos de três importantes cidades do norte do país. Dois automóveis queimados e tanques do exército abandonados lembram aos visitantes os violentes enfrentamentos na pequena cidade rodeada por arrozais. Bandeiras francesas ondeiam em estabelecimentos comerciais e motocicletas, colocadas pela população local, convencida de que os 2,5 mil soldados da França a salvou de um regime islâmico. Os rebeldes armados, apesar de analfabetos, “estavam melhor treinados e equipados do que o exército de Mali”, disse à IPS o soldado da reserva Diakaridia Doumbia, atual conselheiro desta localidade. “Disseram que estavam contra o governo, não contra a população. Mas não acreditamos”, disse à IPS o prefeito de Diabali, Oumar Diakité. “Ouvimos sobre a shariá no norte, sobre amputação e açoites. Muita gente fugiu sabendo o que aconteceria, apesar de os terroristas tentarem enganá-los se fazendo simpáticos”, destacou. As forças especiais francesas seguiram para o norte, e a vida aqui parece que voltou ao normal. Nos arredores foi estabelecida uma pequena guarnição de soldados de Mali à espera de aproximadamente 4,5 mil soldados africanos, que serão enviados a este país nas próximas semanas. Um pouco mais ao norte, os residentes de Dogofiri não compartilham do entusiasmo dos moradores de Diabali. As pessoas olham para baixo e se recusam a falar com estrangeiros. “Sabemos que os terroristas ainda estão escondidos no mato. Podem voltar a qualquer momento e aplicar represálias”, disse à IPS o comerciante Ousmane Diarra. Os poucos postos de controle no caminho poeirento, sob a guarda de dois ou três soldados do exército com sandálias de plástico, não dão garantias à população local. “O exército de Mali não conseguiu deter o avanço islâmico, fugiu. E, apesar dos ataques, a segurança não foi reforçada”, disse à IPS um morador do lugar que não quis se identificar. “Pode acontecer novamente a qualquer momento”, destacou. Além disso, muita gente também teme o exército regular. “Soldados bateram em um idoso. Também executaram um homem em plena luz do dia. Disseram que colaborava com os islâmicos”, contou à IPS outro morador de Dogofiri. Nesta localidade os tuaregues e os árabes, que se destacam por sua pele mais clara, costumam vender seus produtos no mercado local, mas se foram depois disso. “Há ansiedade. As pessoas temem o exército”, declarou uma fonte. No dia 1º, a organização Human Rights Watch, com sede em Nova York, acusou o exército de Mali, responsável pela queda do governo em março de 2012, de executar 13 islâmicos em plena luz do dia. Em setembro, a poucos quilômetros de Diabali, o exército de Mali executou 16 pregadores muçulmanos desarmados que cruzavam a fronteira para a Mauritânia. A Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH), com sede na França, registrou pelo menos 11 execuções extrajudiciais em janeiro por parte do exército. “Não é uma questão racial”, disse Diakité. “A primeira pessoa assassinada em Diabali pelos islâmicos foi um tuaregue. Sabemos quem é bom e quem é mau. Em Mali, todos temos familiares de outras raças. Inclusive tuaregues. Há delinquentes e há maleses. Mali é um país multicultural e vivemos todos juntos”, ressaltou o prefeito. Contudo, há outras suspeitas que mantêm a cidade em estado de alerta e desejosa de que se faça justiça. Desde que a população local viu entre as forças islâmicas dois militares de alta patente do exército de Mali que costumavam servir em Diabali, a comunidade acredita que os rebeldes tenham apoio local. “As pessoas querem vingança, especialmente os jovens”, disse Doumbia. “Identificamos colaboradores que passaram informação aos terroristas, os consideramos traidores”, enfatizou. Uma vez que a situação se acalme, “vou denunciá-los e haverá justiça”, assegurou. “Enquanto isso, somos um país em guerra”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Marc-Andre Boisvert, da IPS
A bomba atômica, lançada pelos Estados Unidos em 1945 sobre Hiroxima, matou 145 mil pessoas e deixou várias centenas de milhares com lesões e doenças graves nas seis décadas seguintes. Foto: Ican Ambiente

A urgência do desarmamento nuclear à flor da pele

[caption id="attachment_76712" align="aligncenter" width="500" caption="A bomba atômica, lançada pelos Estados Unidos em 1945 sobre Hiroxima, matou 145 mil pessoas e deixou várias centenas de milhares com lesões e doenças graves nas seis décadas seguintes. Foto: Ican"][/caption]   Istambul, Turquia, 4/1/2013 – A Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares adotou uma nova estratégia para atrair a participação ativa de cidadãos e dirigentes políticos na busca de uma proibição mundial das ogivas letais. O perfil da estratégia foi destacado em uma reunião dos responsáveis pela campanha, conhecida como Ican, na cidade turca de Istambul, onde se indicou que a proposta é contribuir para sensibilizar a opinião pública e as autoridades sobre as consequências das detonações atômicas. A Ican, uma coalizão de 286 organizações não governamentais de 68 países que trabalham pelo fim do arsenal nuclear no planeta, se comprometeu a ir além da retórica e convida os governos sensíveis ao tema a adotarem medidas concretas. Para isto, prepara um fórum internacional da sociedade civil para os dias 2 e 3 de março em Oslo, que será seguido por uma conferência de especialistas sobre a ameaça nuclear militar, organizada pelo governo da Noruega com apoio de outras 16 nações. “Funcionários governamentais de países com armas atômicas nos dizem constantemente que não é possível cumprir o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TPN) em termos práticos”, disse à IPS a coordenadora da Ican para Europa, Oriente Médio e África, Arielle Denis, na entrevista coletiva, no dia 26 de janeiro, em Istambul. “Nossa postura é que há antecedentes de tratados internacionais que levaram à proibição de outras armas letais. Se a comunidade mundial conseguiu proibir as minas terrestres e as bombas de fragmentação, também poderá fazer o mesmo com as armas nucleares”, destacou. A coalizão de organizações afirma que qualquer país, mesmo os que têm armas atômicas, pode ser alvo de um ataque nuclear no novo contexto geopolítico, que incentiva a proliferação dos chamados Estados desobedientes e de organizações terroristas. “Embora não tenham sido utilizadas bombas atômicas desde 1945, o ciberterrorismo torna realista a explosão de uma ogiva nuclear”, alertou Denis. O principal aspecto da estratégia é a questão humanitária de uma detonação nuclear, ainda que uma única. A Ican publicou um informe em 2012 sobre os danos imediatos e de longo prazo nas populações locais. As ondas de uma explosão que se deslocam por centenas de quilômetros em uma hora são letais para quem está próximo da detonação, e costumam se transformar em vapor devido à intensa pressão e ao calor. Mais distante, as vítimas sofrem falta de oxigênio e o excesso de monóxido de carbono, danos pulmonares e auditivos e hemorragias internas. Entretanto, as consequências da radiação são sentidas a distâncias ainda maiores. Isto afeta a maioria dos órgãos do corpo com consequências que duram décadas e com alterações genéticas para as vítimas e seus descendentes. Essa análise coincide com estudos feitos pelo governo dos Estados Unidos e por instituições de pesquisa durante as décadas de 1970 e a última. Em caso de um ataque nuclear envolvendo três mísseis de potência média contra uma base de mísseis balísticos intercontinentais no “cinturão agrícola” dos Estados Unidos, que inclui a região centro-norte, foi calculado que poderia haver entre 7,5 e 15 milhões de mortos e entre dez e 20 milhões de feridos graves. O aspecto humanitário da população sobrevivente seria praticamente impossível de manejar, pois a radioatividade existente obrigaria a reassentar cerca de 40 milhões de pessoas o mais longe possível, o que exigiria desde várias semanas até anos. O cinturão agrícola dos Estados Unidos é uma zona rural. A Europa tem o triplo da densidade populacional dos Estados Unidos, e uma detonação nuclear nesse continente teria um impacto humanitário mais catastrófico. A Ican se baseia no TPN, assinado em 1º de julho de 1968 em Nova York e gradualmente ratificado por 189 Estados, entre os quais não estão Índia, Paquistão e nem Israel. Sua validade foi ampliada por tempo indefinido em maio de 1995. Os países signatários estão divididos por Estados nucleares e não nucleares. O primeiro grupo é integrado por China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia, os mesmos membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). O artigo VI do TPN incentiva as partes a realizarem “negociações de boa fé sobre medidas efetivas relacionadas ao fim da corrida armamentista nuclear o quanto antes e o desarmamento nuclear”, e “sobre um tratado de desarmamento geral e completo sob um rígido e efetivo controle internacional”. “O desarmamento deve ser geral e completo”, argumentou Denis. “Nos anos 1990 houve certa ambiguidade no TPN sobre isso, mas ficou esclarecido pelo direito internacional, e todos os Estados signatários devem começar negociações para desmantelar suas armas nucleares”, acrescentou. Os Estados Unidos sempre interpretaram que esse artigo não era obrigatório para as partes. Mas o Tribunal Internacional de Justiça declarou, no dia 8 de julho de 1996, que “existe uma obrigação de buscar de boa fé e conseguir negociações que levem a um desarmamento nuclear em todos os seus aspectos, sob um rígido e efetivo controle internacional”. A falta de uma clara vontade dos Estados nucleares em se sentarem à mesa de negociações incentivou organizações da sociedade civil, que formam a Ican, a conscientizar cidadãos e dirigentes políticos do mundo sobre a ameaça de manter arsenais atômicos. A quantidade de ogivas nucleares caiu de forma drástica após o fim da Guerra Fria, no começo da década de 1990, passando de 60 mil para 19 mil, mas a Ican se preocupa com as contínuas melhorias tecnológicas dessas armas. O gasto nuclear de Washington chegou a US$ 61,3 bilhões em 2011, 10% mais do que no ano anterior. Os nove países que se sabe – ou suspeita-se – terem armamento nuclear aumentaram em 15% seu gasto no mesmo período, chegando a US$ 105 bilhões. Desde 1958, Israel adotou uma política de não confirmação e nem de negação sobre seu arsenal nuclear. “O nível de gasto é um forte indício de que os países com armas atômicas não têm intenção de se desfazerem delas no curto prazo”, alertou Denis. “Os governos desses Estados dizem que desmantelarão seus arsenais quando os outros fizerem o mesmo. É um círculo vicioso sem fim”, lamentou. Envolverde/IPS


por Jacques Couvas, da IPS
Cidadãos descontentes com a lentidão das mudanças protestam na Libéria, enquanto a presidente Ellen Johnson Sirleaf oferece seu discurso sobre o estado da nação. Foto: Wade C. L. Williams Inter Press Service - Reportagens

Limpeza de casas para reunião de alto nível da ONU

[caption id="attachment_76730" align="aligncenter" width="447" caption="Cidadãos descontentes com a lentidão das mudanças protestam na Libéria, enquanto a presidente Ellen Johnson Sirleaf oferece seu discurso sobre o estado da nação. Foto: Wade C. L. Williams"][/caption]   Monróvia, Libéria, 4/1/2013 – Fatu Nernee vasculha entre os escombros de sua casa, destruída por tratores da firma Monrovia City Corporation da Libéria, em busca de algo para guardar como recordação do lugar que foi seu lar por 20 anos. Narnee e muitas outras pessoas perderam suas moradias devido ao trabalho de limpeza realizado pelas autoridades por ocasião da reunião do Grupo de Alto Nível (GAN) da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a Agenda de Desenvolvimento Depois de 2015, encerrada no dia 2. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, designou a presidente anfitriã, Ellen Johnson Sirleaf, seu colega da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, e o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, presidentes do GAN para assessorá-lo sobre a agenda a seguir quando vencer o prazo de cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). A reunião da Monróvia foi a terceira de um total de quatro. A primeira foi em setembro do ano passado em Nova York. O GAN estudará formas de construir e sustentar um amplo consenso político em torno de três temas: crescimento econômico, igualdade social e sustentabilidade ambiental. A demolição de casas ocorreu porque Sirleaf escolheu como sede da reunião o hotel Royal Grand, de categoria cinco estrelas, pertencente ao empresário libanês Ezzat Eid. A prefeita de Monróvia, Mary Borh, defendeu as demolições. “Queremos que esta cidade seja a mais verde e limpa da África ocidental”, afirmou em entrevista coletiva. Entretanto, Nernee, as outras pessoas prejudicadas e os donos de estabelecimentos comerciais demolidos na Rua 24, a cerca de dez quarteirões do hotel, questionam o governo por destruir suas casas e complicar suas vidas. “Destruíram minha casa. A polícia deteve meu irmão e o levaram para a delegacia. Não é fácil encontrar um lugar para alugar nesta cidade. Isto deixou muitas pessoas sem ter onde morar. Tínhamos nossas coisas em casa quando a derrubaram”, contou Nernee à IPS. A reunião do GAN aconteceu em um país que encarna os desafios do desenvolvimento. A infraestrutura e as instituições políticas da Libéria foram destruídas em duas guerras civis, de 1989 a 1996 e de 1999 a 2003, consideradas as mais sangrentas da África. Com 4,2 milhões de habitantes, a Libéria ainda está em suas primeiras etapas de reconstrução e a falta de eletricidade e energia baratas continua sendo um problema. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) estima que 85% da população economicamente ativa do país está sem emprego. Por sua vez, o Escritório de Estatísticas informa que 77,9% dos que trabalham o fazem de forma autônoma ou de maneira temporária, a maioria não qualificada. Sirleaf destaca os avanços consideráveis obtidos por seu governo desde que assumiu em 2006. A ONU indicou que a quantidade de mulheres que morrem por complicações derivadas da gravidez e do parto caiu pela metade em 20 anos. No entanto, a Libéria continua com uma das maiores taxas de mortalidade do mundo, com 994 falecimentos para cada cem mil nascidos vivos. “A Libéria é outra vez considerada por muitos uma verdadeira amiga, uma boa vizinha na região, uma contribuinte confiável para a paz e a segurança internacional e um melhor destino para os investimentos. Atualmente, nossa república está mais segura, forte e melhor”, afirmou Sirleaf aos legisladores, no dia 28 de janeiro, em seu discurso sobre o estado da nação. “Informamos aos visitantes que não está tudo bem na Libéria. Este governo deixou muitas pessoas sem lar e sem trabalho”, disse Julius T. Dweh Jessen III, um dos participantes da manifestação contra a lentidão dos avanços, enquanto a presidente fazia seu discurso. Ma Mary Frederick, de 74 anos, cujo marido morreu na guerra civil, permaneceu de pé sob o Sol abrasador segurando um cartaz em protesto pelo pagamento dos benefícios militares de seu falecido marido. “Vi uma votação, vi a segunda e não veja nada do governo”, afirmou Frederick, se referindo às duas eleições democráticas que houve no país desde que Sirleaf se converteu na primeira presidente do pós-guerra em 2006. “Todos os dias protestamos sob o Sol e apanhamos da polícia. Não tenho nada, e meus netos não podem ir à escola”, lamentou. “Ficamos sentados em casa sem nada bom para comer e eles pioraram tudo derrubando a casa em que vivíamos. Agora dormimos ao relento”, denunciou. As imagens contrastantes da reunião de governantes, em um hotel cinco estrelas no centro de Monróvia, enquanto a poucos quarteirões a população local protestava pela demolição de suas casas, deixam dúvidas sobre os objetivos e a substância do encontro, e as implicações que terá para este país, disse à IPS o estudante Janjay Gbarkpe. Porém, nem todos concordam a respeito. O economista liberiano Sam Jackson disse à IPS que a reunião do GAN é uma oportunidade para que a Libéria destaque os progressos obtidos após a guerra e forje a agenda de desenvolvimento. “A Libéria é um país de pós-guerra, e como tal os desafios em matéria de desenvolvimento são enormes”, observou Jackson. “É importante para a paz e a segurança fazer parte da nova agenda global, e depois de dez anos de paz e segurança na Libéria é possível ver o que se pode conseguir. Desejamos que a paz e a segurança sejam a base da transformação econômica do mundo”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Wade C. L. Williams, da IPS
corda Inter Press Service - Reportagens

Desenvolvimento de municípios cubanos na corda bamba

[caption id="attachment_76720" align="aligncenter" width="500" caption="Ricardo Berriz aposta em construir a felicidade local em harmonia com a natureza. Foto: Ivet González/IPS"][/caption]   Havana, Cuba, 4/1/2013 – Cada um dos 168 municípios de Cuba enfrenta o desafio de criar uma estratégia própria de desenvolvimento que, além de avanços econômicos e sociais, minimize o impacto de fenômenos meteorológicos extremos e outros problemas causados pelo aquecimento global. “Não se pode empreender um processo de atualização do modelo sem considerar o estado variável do clima e a redução de riscos”, e isso será mais efetivo se nascer do pensamento coletivo e das capacidades de cada comunidade nesta ilha do Caribe, explicou à IPS o pesquisador Ricardo Berriz, do estatal Centro de Estudos de Desenvolvimento Local (Cedel). Segundo este especialista e educador em temas ambientais, de 57 anos, a reforma em andamento objetiva empoderar legal, econômica e operacionalmente os governos municipais, um projeto que “abre uma janela de desafios e oportunidades” em matéria de progresso, mitigação e adaptação à mudança climática. Berriz, também participante de iniciativas regionais a respeito, conversou com a IPS sobre as transformações do cenário local, suas potencialidades e dificuldades do ponto de vista ambiental, do cidadão e econômico. IPS: Quais brechas as mudanças econômicas e sociais abrem para o desenvolvimento local? RICARDO BERRIZ: A atualização do modelo socioeconômico cubano oferece mais oportunidades, pois propôs o empoderamento local e cidadão e tudo indica que continuará. Hoje existem processos em marcha que descentralizam, concedem maiores capacidades de decisão aos municípios para produzir seu ordenamento. Agora lhes proporciona a possibilidade de decidir como projetar seu crescimento e cada um tem que acordar uma estratégia para minimizar danos ocasionados por desastres. Se uma região utiliza seu potencial econômico, sem considerar a redução de riscos, pode comprometer o esforço de muitos anos. Este projeto começa agora e pouco a pouco ganhará o contexto legal, a institucionalidade, os desenhos e modos de participação mais adequados. Terá característica nacional, mas cada localidade apresentará suas diferenças segundo sua cultura, geografia, setores de produção, etc. IPS: Quais os riscos gerais que enfrentam quando incidem suas características? RB: Em geral, o desenvolvimento municipal corre risco pelo aumento do nível do mar e pela ocorrência de eventos meteorológicos extremos, como tempestades, ventos e secas mais severas, provocadas pelo aquecimento global. Outra consequência são os impactos na saúde humana pelo surgimento de doenças desconhecidas e à virulência e maior incidência na população de algumas enfermidades controladas no passado. Por ser uma ilha, Cuba tem muitos municípios costeiros, também expostos a outros problemas ambientais, como a degradação de seus litorais e a perda de mangues. No prazo de 50 a cem anos haverá áreas próximas ao mar perdendo importantes extensões de terra, hoje destinadas à produção ou à moradia. Também os municípios montanhosos apresentam ecossistemas vulneráveis à degradação dos solos, que se intensifica pelas inclinações e desmatamento. Neles incide o fator demográfico, como a baixa densidade demográfica, com tendência à diminuição. Outros municípios possuem áreas com biodiversidade única, necessitadas de proteção especial. Naqueles com grandes conglomerados urbanos, eventos como os furacões causam grandes complicações. A maioria dos distritos cubanos conta com grande produção agrícola, e por isso devem salvaguardar esse vulnerável setor de atividade. IPS: Que base têm agora os governos locais para criarem estratégias de desenvolvimento sustentável no contexto da mudança climática? RB: Em boa parte dos municípios existe um Centro de Gestão para a Redução de Risco, dotado de capital humano e pouco a pouco incorporará capacidade tecnológica, para gerar informação e identificar saberes e conhecimentos. Com isso, os municípios tomam decisões de curto, médio e longo prazos. Por exemplo, apresentaram planos sobre inundação de seus territórios, que até há pouco tempo não existiam. Foram incorporados os sistemas de alerta a esta escala, inclusive nos conselhos populares (estruturas de governo em nível de bairros e pequenas localidades) que os exigiram, devido à ocorrência de eventos locais severos. A preparação para enfrentar a mudança climática é de vários anos, com um trabalho muito intenso nas últimas duas décadas. Cuba tem um sistema de defesa civil muito eficiente e articulado, que vincula todas as autoridades e os setores da população. Contudo, estão mudando os conceitos. Já não se trata apenas de responder ao desastre, mas de reduzir paulatinamente as vulnerabilidades para diminuir os riscos que hoje enfrentam, desde os sistemas produtivos até naturais e a saúde humana. Também devem ser desenhados e levar em conta os cenários futuros. IPS: Quais os obstáculos a serem vencidos? RB: O Cedel agora mesmo acompanha 20 municípios, muito diferentes entre si, com preparação técnica para que apresentem suas estratégias de desenvolvimento. De forma geral, embora não seja igual em todos os casos, não contam com capacidades necessárias para avançar de maneira autônoma. Estes distritos enfrentam dificuldades de organização e financeiras, que as autoridades pretendem mudar com o reordenamento territorial e ambiental do lugar. Tampouco sabem como calcular a viabilidade econômica, ambiental e sociocultural de seus projetos para que sejam sustentáveis. Isto é, sobretudo, um grande desafio educacional. É necessário fomentar uma cultura de prevenção e adaptação diante da mudança climática. Cada governo local está obrigado a cumprir a Estratégia Ambiental Nacional. Porém, após as mudanças de mandato, a prioridade dada aos assuntos ambientais pode variar. É a sociedade a encarregada de exigir a manutenção dessa preocupação. IPS: Existe uma sociedade consciente disso? RB: Ainda não existe essa sociedade, embora não seja uma realidade absoluta. Temos muito pela frente em matéria de cultura legal e participação cidadã, apesar de termos avançado. É preciso apresentar este assunto a cada ano. As novas gerações o concebem de maneira diferente, as mulheres, os homens, as pessoas das cidades e os camponeses... Entretanto, o processo está andando. O papel do Cedel é colaborar para que transcorra em um período razoável. Envolverde/IPS


por Ivet González, da IPS
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Fórum Social Mundial entre críticas, uma tragédia e a Primavera Árabe

[caption id="attachment_76707" align="aligncenter" width="500" caption="Um dos debates do Fórum Social Temático, realizado em Porto Alegre no final de janeiro. Foto: Clarinha Glock/IPS"][/caption]   Porto Alegre, Brasil, 4/1/2013 – A tragédia da discoteca Kiss desviou a atenção dos participantes do Fórum Social Temático (FST), realizado entre 26 e 31 de janeiro em Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul, que ficou famosa por abrigar as primeiras edições do Fórum Social Mundial (FSM). Na madrugada do dia 27 de janeiro, o público local e mundial se comoveu pela morte de centenas de jovens asfixiados no incêndio da discoteca, na cidade de Santa Maria, a 292 quilômetros de Porto Alegre. No dia 1º, havia confirmação de 236 mortes, enquanto dezenas de jovens permaneciam em estado grave. As causas apontadas para o incêndio foram negligência e uma série de erros e irregularidades cometidas pelos proprietários da Kiss e pela banda que se apresentava no momento da tragédia. Imediatamente, o comitê organizador do FST cancelou as atividades culturais previstas, e decidiu manter os encontros para debater o tema geral deste ano: Democracia, Cidades, Desenvolvimento Sustentável e Trabalho Decente. O FSM é o maior âmbito de debate de uma miríade de grupos e organizações da sociedade civil organizada, cujo denominador comum é a crítica ao rumo da globalização capitalista. Dias antes do início do FST, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Marcha Mundial das Mulheres anunciaram que não participariam dos debates em protesto pelo que qualificaram de “institucionalização” do Fórum por parte da prefeitura de Porto Alegre, que aprovou uma lei prevendo a realização anual do FSM. Outra crítica é pela participação de entidades de “direita”, como empresários e representantes de grupos religiosos. Por essas críticas, pelo cancelamento dos espetáculos ou pela comoção causada pelas mortes em Santa Maria, o certo é que não foi alcançada a expectativa de que o FST reunisse 40 mil pessoas. Segundo Cícero Pereira da Silva, delegado da União Geral dos Trabalhadores e um dos coordenadores do grupo que debateu sobre o mundo do trabalho, 15 mil pessoas se inscreveram, incluindo visitantes de países vizinhos, da Europa e dos Estados Unidos. O documento final do FST – a Carta de Porto Alegre, divulgada no dia 31 de janeiro – se divide em dois temas. As propostas apresentadas serão entregues no mês que vem à Comissão Internacional do FSM, que se reunirá na Tunísia. “Sobre o mundo do trabalho, decidiu-se promover uma luta intransigente pelos direitos humanos e pela qualidade de vida nas grandes cidades”, disse Cícero à IPS. “Mantivemos uma forte discussão sobre trabalho decente, que sempre foi um dos temas gerais da Organização Internacional do Trabalho, e nos focamos muito na tragédia de Santa Maria. Culpamos o poder público por não fiscalizar”, acrescentou. Em matéria de saúde, o Movimento Saúde + 10 (composto por diversas entidades de profissionais da medicina, universitários, sindicatos e grupos religiosos) propôs coletar 1,5 milhão de assinaturas para apoiar a apresentação de um projeto lei que obrigue a destinação de 10% do orçamento federal à atenção sanitária. A Carta de Porto Alegre também destaca a necessidade de uma nova ética, de educação e preservação de técnicas tradicionais de produção. O grupo que debateu sobre o mundo da igualdade racial condenou a intolerância religiosa, a violência contra as mulheres e a ausência de programas municipais para ampliar a participação da população afrodescendente. José Antônio dos Santos da Silva, coordenador do Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial do Rio Grande do Sul, somou-se ao luto geral pelos mortos na discoteca e recordou que são elevados os números de jovens negros assassinados diariamente neste país de quase 200 milhões de habitantes. Contudo, a imprensa não denuncia esses fatos, ressaltou. “É preocupante a falta de oportunidades de trabalho para os jovens negros e sua cooptação pelo tráfico de drogas. Isto fortalece nossa briga por uma política de cotas na educação pública”, disse José Antônio à IPS. “Os índices de violência mostram que em cada dez jovens mortos sete são negros, e 90% deles vivem nas periferias” das cidades, pontuou. Simultaneamente ao FST, ativistas sociais se reuniram na cidade de São Paulo nos Diálogos Rumo ao Fórum Social Mundial, organizados pelo Grupo de Apoio e Reflexão sobre o Processo do FSM. Por sua vez, Messaoud Romdhani, um dos organizadores do FSM na Tunísia, se mostrou otimista apesar das incertezas e tensões que vive seu país, berço dos movimentos populares e democratizadores que há dois anos sacudiram o Oriente Médio e o norte da África e que a imprensa batizou de Primavera Árabe. Messaoud, professor de inglês de 56 anos e ativista pelos direitos humanos, espera que o FSM intensifique o intercâmbio entre a população e os movimentos sociais de seu país com organizações internacionais de ampla experiência. “Queremos mostrar a situação da Tunísia e esperamos ajuda para superar este momento de transição que é muito difícil, porque o governo até agora não mostrou interesse em implantar uma democracia e garantir os direitos humanos”, disse o ativista à IPS. Após o levante que derrubou o ditador Zine El Abidine Ben Ali, em janeiro de 2011, a Tunísia embarcou em uma série de reformas que incluíram a eleição de uma Assembleia Constituinte e a formação de um governo provisório, no qual o partido islâmico moderado Ennahda é maioria. No entanto, Messaoud afirmou que “persiste a prática do antigo regime, com ameaças do partido religioso que domina o governo”, e que teme uma virada para o islamismo extremo. Neste aspecto, é mantida a luta pela igualdade de gênero e a liberdade de expressão. “O FSM nos ajudará a atrair a atenção para a Tunísia e fornecerá combustível e solidariedade para estas lutas”, destacou. Segundo ele, as autoridades de seu país não apresentam restrições à organização do FSM, “talvez porque desejem mostrar à mídia internacional que o governo atua corretamente”. A Primavera Árabe, caracterizada por uma série de manifestações por mais liberdade, dignidade e igualdade, ativou um sonho, observou Messaoud. “Nos, que lutávamos por isso há tanto tempo, nos demos conta de que é mais fácil derrubar um ditador do que implantar uma democracia. A democracia exige mais tempo para superar anos de opressão, interesses petroleiros e a intolerância”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Clarinha Glock, da IPS
As bicicletas ajudam a aumentar as exportações do Camboja, mas à custa do salário dos trabalhadores. Foto: Michelle Tolson/IPS Inter Press Service - Reportagens

Onde andar de bicicleta é melhor do que fabricá-las

[caption id="attachment_76666" align="aligncenter" width="530" caption="As bicicletas ajudam a aumentar as exportações do Camboja, mas à custa do salário dos trabalhadores. Foto: Michelle Tolson/IPS"][/caption]   Phnom Penh, Camboja, 1/2/2013 – Uma revista especializada em negócios do Camboja destacou o crescimento imprevisto do setor “máquinas e equipamento de transporte” e especulou sobre a “incidência das bicicletas” no fenômeno. Mas este avanço econômico se baseia em trabalhadores com salários irrisórios. Quando o país ficou entre os dez maiores exportadores de bicicletas para a União Europeia (UE) em 2012, a Associação Europeia de Fabricantes de Bicicletas (EBMA) começou a investigar como ocorreu esta mudança no mercado do bloco. Em 2011, o Camboja vendeu 366 mil bicicletas para a UE e “na primeira metade de 2012 quase triplicou essa quantidade”, informou Bibeeu.com. a EBMA descobriu que alguns fabricantes de bicicletas haviam deslocado sua produção da Tailândia e da China para o Camboja por questões de custos. Estima-se que essa iniciativa permitiu que economizassem 14% em impostos. Existe um programa favorável para países menos adiantados (PMA) sob o Programa Generalizado de Preferências (GSP), conhecido como o acordo Tudo Menos Armas (EBA), que permite que os 48 países considerados menos adiantados exportem seus produtos livres de impostos para a UE desde que não sejam armas e munições. Lançado no começo de 2011, o EBA permitiu um aumento de 53% nas vendas aos países europeus nesse ano e converteu o Camboja no segundo exportador da UE depois dos Estados Unidos, segundo a imprensa especializada. O aumento de custos na China e na Tailândia foi atribuído em parte ao aumento salarial. O salário mínimo passou neste segundo país para 300 baht (cerca de US$ 10) por dia, e no primeiro para US$ 400 por mês. Muito mais do que no Camboja, onde é de US$ 61 mensais. A empresa Strongman e A & J, que figura como filial da Atlantic Cycle Company, abriu sua fábrica no Camboja em 2005. Um site do governo que informa sobre os investimentos neste país mostra três instalações manufatureiras na “zona de Tai Seng”, na província de Svay Reing (A & L, Atlantic Cycle Co. e Smart Tech) e uma quarta, BestWay Industry, na “zona de Manhattan”. A Zona Econômica Especial oferece vantagens aos investidores, um tapete vermelho com impostos e salários baixos, facilidades para os negócios e uma população “jovem e educada”, segundo informe da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid). O documento diz que há 1.500 trabalhadores no setor de bicicletas. O salário mínimo que figura desde 2008 é de US$ 60 ao mês ou US$ 0,33 por hora, sendo necessário trabalhar seis dias por semana para chegar aos US$ 60. Isto mostra que em quatro anos não houve aumentos. Com os baixos salários, os trabalhadores se organizam para fazer um fundo comum e compartilhar a comida, segundo Srun Srorn, ativista e consultor, que explicou como se ajeitam para viver com renda inferior a dois dólares por dia. “Em geral, quatro amigos entram com US$ 0,12 para poderem comer”, contou. Há fábricas que incluem um valor para alimentação com o salário. os trabalhadores têm curtos períodos de descanso e compram comida em pequenos postos do lado de fora das fábricas. Outras incluem um valor para transporte. Não há um sistema público no Camboja, por isso os trabalhadores são obrigados a pagar mototáxi, que custa entre US$ 0,50 e US$ 1 cada viagem. Em meados de dezembro, cerca de mil trabalhadores de uma fábrica da Smart Tech em Svay Rieng fizeram uma greve pedindo aumento salarial. Dois meses antes, houve outra paralisação em A & J. Moeun Tola, advogado do programa trabalhista do Centro Comunitário de Educação Legal, disse que os trabalhadores não estavam filiados a nenhum sindicato e que organizaram a greve sozinhos. “Não tiveram assessoria, mas vamos oferecer-lhes assistência legal”, disse à IPS. Better Factoris (Melhores Fábricas), um programa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) foi criado para ajudar os trabalhadores, mas agora só ajuda os do setor de vestimenta, segundo uma fonte olvida pela IPS. Nhanh Kosol contou à IPS alguns detalhes da mobilização dos trabalhadores e disse que seu salário continua sendo de US$ 61, mas os empregadores aceitaram pagar subsídio de US$ 13 por transporte ao mês, além de horas extras, que podem ser de dois a cinco por dia, segundo a fábrica. Em caso de cinco horas, são pagos mais US$ 3. Kosol pensou que trabalhar em uma fábrica de bicicletas não “era tão ruim porque pelo menos tinha um emprego”, contou. “Alguns dias as condições de trabalho são boas, em outros são ruins, mas o salário na basta para viver e tudo aumenta”, acrescentou. Nos dois anos em que está nesse emprego os funcionários já fizeram duas ou três greves, “pode ajudar, mas não muito”, lamentou. Bike EU situa o preço da unidade importada do Camboja em 200 euros (US$ 269). Os Estados Unidos também registraram aumento nas importações de bicicletas cambojanas, segundo estatísticas de comércio exterior. Em 2009, as importações no item “brinquedos, jogos e artigos esportivos e bicicletas” chegou a US$ 2,06 milhões. No ano seguinte triplicou para US$ 6,8 milhões e em 2011 chegou a US$ 10,3 milhões. Consultado sobre quanto pensa que custam as bicicletas que ajuda fabricar, Kosol disse que entre US$ 1,4 mil e US$ 3 mil. O valor menor representa cerca de 25 vezes seu salário mensal. Envolverde/IPS


por Michelle Tolson, da IPS

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Cerca de 62% dos acidentes da exploração de petróleo offshore aconteceram em plataformas com mais de trinta anos. Novo site do Greenpeace vai monitorar ocorrências no pré-sal.