As mulheres são as mais afetadas pelas medidas de austeridade

Economia

As mulheres são as mais afetadas pelas medidas de austeridade


por Thalif Deen, da IPS


[caption id="attachment_89747" align="alignleft" width="226" caption="“A crise e as medidas de austeridade tiveram um impacto negativo na mão de obra feminina”, afirmou John Hendra. Foto: UN Photo/Paulo Filgueiras"][/caption] Nações Unidas, 11/6/2013 – A propagada crise financeira na Europa e seu negativo impacto no Sul em desenvolvimento deram lugar a uma onda de severas medidas de austeridade. As principais vítimas? As mulheres. Pelo menos nove países europeus – Bélgica, Eslováquia, Espanha, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Portugal e Romênia – estão reduzindo ou eliminando subsídios. As medidas também incluem a redução ou limitação dos salários estatais, aumento dos impostos sobre consumo e reformas das aposentadorias, da assistência social, do sistema sanitário e do mercado de trabalho. “Não há nenhuma dúvida de que os mais pobres e vulneráveis, cuja maioria é de mulheres, são os mais afetados pela austeridade”, disse à IPS o subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), John Hendra. Isto ocorre tanto em países em desenvolvimento como nos industrializados, destacou Hendra, que também é subdiretor-executivo para Políticas e Programas da ONU Mulheres. As famílias mais pobres e vulneráveis já estão se ajustando às sucessivas crises há muitos anos, com aumento nos preços dos alimentos e combustíveis, e, portanto, sua capacidade de resistência hoje é limitada, afirmou Hendra em entrevista à IPS. Hendra também foi representante do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) em vários países, entre eles Letônia, Tanzânia e Vietnã. Em agosto de 2012, segundo as últimas estatísticas, o desemprego entre as mulheres era maior do que entre os homens em dez países da União Europeia: Eslováquia, Eslovênia, Espanha, França, Grécia, Itália, Luxemburgo, Malta, Polônia e República Checa. Na Espanha e na Grécia, mais de um quarto da mão de obra feminina estava sem emprego no ano passado. Além disso, a brecha salarial entre homens e mulheres aumentou em vários países, particularmente na Bulgária, Letônia e Romênia. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a proporção de mulheres em empregos vulneráveis é maior do que a dos homens em todo o mundo, e em algumas regiões de maneira significativa. No norte da África, por exemplo, 55% das mulheres, contra 32% dos homens, têm empregos vulneráveis. No Oriente Médio, a proporção chega a 42%, contra 27% para os homens, e na África subsaariana é de 85% contra 70%. IPS: A crise financeira, propagada tanto no Norte industrial quanto no Sul em desenvolvimento, pode afetar alguns dos êxitos alcançados pelas mulheres na última década? JOHN HENDRA: Acredito que sim. Por exemplo, a crise e as medidas de austeridade tiveram um impacto negativo sobre a mão de obra feminina. Na Europa, esta diminuiu. A taxa de desemprego é maior entre as mulheres do que entre os homens em muitos países, e a brecha salarial também aumentou. Em países em desenvolvimento a crise e as medidas de austeridade levaram muitas mulheres para o trabalho informal e vulnerável. Como as mulheres, em geral, são empregadas com contratos frágeis e não permanentes, são mais vulneráveis a serem demitidas em tempos de recessão. Elas sofreram uma perda desproporcional de empregos durante a crise financeira asiática (1997-1998) e na crise mundial de 2008-2009. As medidas de austeridade também tiveram impacto negativo no progresso para uma distribuição mais equitativa das tarefas de cuidados. Os cortes nos serviços públicos de saúde e cuidados derivaram em uma nova privatização e em um regresso às regras de gênero tradicionais. IPS: E quanto é severo este revés para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) referentes a empoderamento de gênero, saúde materna e mortalidade infantil? JH: Há um risco real de que a austeridade reduza o progresso para os ODM. Como disse há pouco a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos, as medidas provavelmente frearão o crescimento e a redução da pobreza, exacerbando as desigualdades. Segundo o Overseas Development Institute e a Plan International, a queda de 1% no produto interno bruto aumenta a mortalidade infantil para 7,4 mortes para cada mil meninas nascidas vivas, contra 1,5 mortes para cada mil meninos nascidos vivos. As taxas de conclusão do curso primário caem durante a época de recessão. Entre as meninas esse índice chega a 29% contra 22% dos meninos. Nas crises econômicas mais mulheres dão à luz em casa no Sul em desenvolvimento, e sua situação nutricional e o número de exames médicos pré e pós-natal diminui. Isto afeta significativamente o êxito do Objetivos do Milênio. A agenda de desenvolvimento da ONU para depois de 2015 pode ajudar a tratar a desigualdade, melhorar o respeito aos direitos humanos e garantir que todos os países se comprometam com a sustentabilidade, a igualdade e a erradicação da pobreza. O mais importante é assegurar que a igualdade de gênero seja central em uma nova agenda de desenvolvimento, e que inclua uma meta específica sobre o tema e o integre em todas as outras metas e outros objetivos. Também é fundamental seguir de perto o atual modelo de crescimento e as políticas de austeridade. Creio que nas últimas semanas foi alcançado um ponto de quebra no debate sobre as medidas de austeridade, quando o Fundo Monetário Internacional admitiu que o impacto recessivo destas foi mais grave do que se previa, e que foram identificados erros na informação e nas análises sobre a dívida pública nas quais se apoiaram essas medidas. Envolverde/IPS

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A expansão monetária do G4 impacta os países emergentes

Nova Délhi, Índia, junho/2013 – A economia mundial transborda de liquidez após as sucessivas manobras de expansão monetária adotadas nos últimos anos pelas quatro economias mais avançadas – Estados Unidos, União Europeia, Japão e Grã-Bretanha –, o Grupo dos Quatro (G4). Quando a política de taxas de juros em nível zero não basta para estimular suas economias, os bancos centrais destes países compram ativos em grande escala, como títulos de dívida ou obrigações hipotecárias garantidas, a fim de injetar liquidez no sistema bancário. O objetivo é estender créditos para empresas e indústrias, e incentivar o consumo. Imediatamente depois da crise financeira e econômica mundial de 2008, diante do risco de colapso financeiro, tanto as economias avançadas como as emergentes adotaram políticas de estímulo para reavivar a demanda, sustentar o intercâmbio comercial e combater a paralisia. Durante a fase recessiva de 2008-2009, a expansão monetária desempenhou um papel importante no manejo da crise, ajudando economias avançadas e emergentes por igual. Entretanto, embora as economias emergentes tenham contornado a crise e retomado o crescimento, o G4 continua paralisado, com seus mercados deprimidos e elevado desemprego. Esta situação os levou a persistir com doses ainda maiores de expansão monetária, com o objetivo de reanimar a circulação do crédito e incentivar a demanda. Antes da crise, os bônus do Tesouro dos Estados Unidos somava entre US$ 700 bilhões e US$ 800 bilhões. Atualmente chegam a mais de US$ 2 trilhões. Mediante a terceira rodada de expansão monetária, iniciada em setembro de 2012, o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos se comprometeu a adquirir US$ 40 bilhões mensais de obrigações hipotecárias garantidas, enquanto o desemprego se mantiver acima de 6,5%. O Banco Central Europeu injetou US$ 637 bilhões para dar liquidez à zona do euro, e a expansão monetária na Grã-Bretanha é calculada em US$ 572 bilhões. Recentemente, o Banco do Japão iniciou uma manobra expansiva de US$ 1,4 trilhão ao longo de dois anos, para superar a depressiva deflação atual e alcançar a meta de 2% de inflação. Nestes anos, o balanço dos bancos centrais do G4 aumentaram, de 11% a 12% do produto interno bruto desses países para o atual nível sem precedentes de 23%. Em valores monetários, passou-se de US$ 3,5 trilhões, em 2007, para US$ 9 trilhões atuais. Como a taxa de juros no G4 está em nível zero e, não obstante, suas economias permanecerem paralisadas, é inevitável que ingentes capitais fluam do grupo para economias emergentes ou em desenvolvimento, em busca de retornos mais altos. Estima-se que cerca de 40% do aumento da base monetária dos Estados Unidos na primeira fase de expansão monetária seguiram esse caminho, enquanto na segunda fase o fluxo é estimado em aproximadamente um terço. Estes ingentes deslocamentos de capitais têm um impacto importante sobre as economias emergentes e em desenvolvimento. As corporações que têm acesso a crédito de baixo custo estão contraindo elevado endividamento e aumentando sua exposição em moedas estrangeiras. Desta forma, resultam cada vez mais vulneráveis diante de futuros aumentos das taxas de juros e das paridades cambiais nos países desenvolvidos. Por outro lado, a forte entrada de capitais especulativos nos países emergentes valoriza suas divisas, expande o crédito e causa pressões inflacionárias. Estes capitais são em grande parte propensos a movimentos repentinos em busca de maiores rendimentos, e sua volatilidade implica um alto risco para as economias receptoras. A política monetária não convencional do G4 é criticada pelas nações emergentes, incluído o grupo Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A magnitude da expansão monetária do G4 tem consequências sobre a economia global, já que suas moedas – que não são totalmente conversíveis – constituem os pilares do sistema financeiro mundial. O dólar norte-americano é a principal moeda de reserva mundial e, junto com o euro, a libra britânica e o iene japonês, integra a cesta de divisas que o Fundo Monetário Internacional (FMI) utiliza para a cotação de sua própria “moeda sintética”, os Direitos Especiais de Giro. Isto explica o papel determinante das moedas do G4 no mercado financeiro mundial e o impacto das expansões monetárias sobre as economias de nosso mundo globalizado e interconectado. Portanto, é necessário que o G4 atue com grande responsabilidade e trabalhe em conjunto com as economias emergentes para minimizar os efeitos adversos de suas políticas de expansão. Seria particularmente importante forjar um consenso sobre a prevenção da potencial crise financeira e as alterações que pode infligir às economias em desenvolvimento uma vez que cessem as expansões monetárias e aumentem as taxas de juros no G4. A retirada repentina de maciços fluxos de capitais é um cenário previsível que é preciso antecipar e controlar. A crise financeira asiática de 1997-1998 foi disparada, em parte, por uma precedente versão de expansão monetária empreendida pelo Japão após o estouro da bolha imobiliária e da bolsa de valores no começo da década de 1990. Também nessa ocasião, a enorme injeção de empréstimos a juros baixos provocou uma bolha financeira, pressões inflacionárias e instabilidade monetária nas economias asiáticas. Uma crise maior e mais profunda pode afetar as economias emergentes e em desenvolvimento se os sintomas de risco, que já são evidentes, não forem enfrentados com políticas coordenadas. O Grupo dos 20 deve considerar esta problemática como uma prioridade de sua agenda. * Shyam Saran, ex-secretário de Relações Exteriores da Índia, é presidente do Research and Information Systems for Developing Countries (RIS) e membro do Centre for Policy Research em Nova Délhi.


por Shyam Saran*
Cada vez é mais difícil dar atendimento médico na Síria. Na foto, um hospital de campanha. Foto: FreedomHouse/CC by 2.0 Inter Press Service - Reportagens

Acampamento palestino na Síria assediado e com má saúde

[caption id="attachment_89768" align="aligncenter" width="500" caption="Cada vez é mais difícil dar atendimento médico na Síria. Na foto, um hospital de campanha. Foto: FreedomHouse/CC by 2.0"][/caption]   Beirute, Líbano, 11/6/2013 – Eram nove horas da manhã quando explodiu uma bomba diante da casa de Hella al-Abtah, no acampamento de refugiados palestinos de Yarmuk, na capital da Síria. Gravemente ferida na cabeça, a menina, de nove anos, foi levada com urgência por seu pai ao Hospital Palestina. Os médicos conseguiram estabilizar Hella, mas não por muito tempo. A falta de suprimentos e os frequentes apagões os impediram de completar os procedimentos de rotina. Finalmente, ela morreu, somando mais uma vítima em razão dos deficientes serviços de saúde no sitiado Yarmuk, onde vivem 125 mil pessoas. Antes do início da revolta síria, em março de 2011, Yarmuk era o maior acampamento de refugiados palestinos nesse país e o mais movimentado de Damasco, com um dos mercados mais populosos da cidade. Depois se converteu em um campo de batalha em que todos os dias explodem bombas. Até 2012, os acampamentos palestinos permaneceram fora do conflito na Síria, mas agora muitos estão totalmente envolvidos nos combates. Depois que os combatentes rebeldes se instalaram de forma permanente em Yarmuk, o exército sírio sitiou o acampamento e não deixa entrar medicamentos e nenhum suprimento. O castigo coletivo imposto à população do acampamento, bem como o ataque direto contra pessoas ou organização humanitárias, prejudicou gravemente a disponibilidade de serviços médicos. O único lugar em que os residentes de Yarmuk ainda podem receber cuidados médicos é no Hospital Palestina da Meia-Lua Vermelha. Os outros dois grandes hospitais foram bombardeados e destruídos por aviões de combate e artilharia, e grande parte de seu pessoal abandonou o acampamento nos últimos quatro meses. A Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos (UNRWA), a principal organização que oferece serviços como educação e saúde, retirou quase a totalidade de seu pessoal desse lugar, devido à deterioração da segurança. Isso deixou a população local com poucos serviços essenciais de saúde. Médicos, enfermeiras e residentes atendem pacientes no Hospital Palestina apesar dos riscos, mas o bloqueio ao acampamento impossibilita seu trabalho por problemas que vão desde cortes de energia até a falta de sangue e de suprimentos básicos. “Às vezes é impossível atender os pacientes por carecermos dos serviços mais elementares”, afirmou Abdullah Hariri, médico do hospital. Além disso, os centros de saúde que ficam em zonas controladas pelos rebeldes, como o Hospital Palestina, são alvo de ataques com bombas. “Por causa dos apagões no acampamento, temos que usar geradores elétricos. Mas estes precisam de combustível, e o regime bloqueia sua entrada”, contou Hussam al-Hariri, também médico do Hospital Palestina. “Temos que comprar combustível a preços exorbitantes, mesmo dizendo que não temos posição política”, destacou. Além disso, as forças de segurança ameaçaram e intimidaram pessoal médico em inúmeras ocasiões para que abandonem a missão humanitária. Os combatentes da oposição tampouco são inocentes, pois abusaram, ameaçaram e extorquiram os profissionais do acampamento, roubaram recursos e combustível do hospital, e até abriram fogo contra o prédio. “Um vez vieram para que entregássemos uma enfermeira, afirmando que ela era colaboradora”, contou um médico do hospital que pediu para ser identificado pelo seu apelido, Abu Hakam. “É uma acusação repugnante quando ela, como nós, escolheu ficar e servir a comunidade”, enfatizou. Quando o pessoal do hospital protestou e proibiu a entrada dos rebeldes, estes ameaçaram as pessoas com armas, abriram caminho e sequestraram a enfermeira. Embora a tenham libertado após extensos interrogatórios, esse tipo de incidente aumenta a vulnerabilidade dos profissionais que continuam trabalhando em Yarmuk. Yarmuk se converteu em abrigo de refugiados civis e de combatentes da oposição procedentes dos subúrbios e do campo ao sul de Damasco. O que resta do maltratado serviço médico deve atender a esse grupo de pessoas, além dos palestinos que se negaram a partir. Mesmo reduzida a um funcionamento básico, a infraestrutura médica do acampamento continua sendo fundamental para os residentes e os refugiados, porque não têm muito mais a escolher. Envolverde/IPS


por Mutawalli Abou Nasser, da IPS
Kaita (D) é um dos milhares de menores que acabam vivendo nas ruas em Serra Leoa. Foto: Tommy Trenchard/IPS Inter Press Service - Reportagens

Tráfico de pessoas em Serra Leoa deixa menores na rua

[caption id="attachment_89763" align="aligncenter" width="529" caption="Kaita (D) é um dos milhares de menores que acabam vivendo nas ruas em Serra Leoa. Foto: Tommy Trenchard/IPS"][/caption]   Freetown, Serra Leoa, 11/6/2013 – Em uma esquina do centro da capital de Serra Leoa, Kaita, de 12 anos, está sentado com um amigo sobre uma cerca de aço observando os faróis dos motociclistas. Ele é um dos milhares de meninos e meninas deste país que ficaram sem lar depois que seus pais os entregaram a conhecidos sob a promessa de lhes dar educação. Passa da meia-noite e se vê formas humanas imóveis enroladas nas portas das casas ou estendidas nas calçadas. Para Kaita, estas ruas são seu lar, e tem sido assim há seis anos. “Alguns (traficantes de crianças) são familiares, outros são amigos ou mesmo estranhos. Vão aos povoados e pedem aos pais que lhes entreguem seus filhos, prometendo que terão melhor educação na cidade”, contou à IPS a subdiretora de assuntos de infância do Ministério de Bem-Estar Social, Gênero e Assuntos da Infância, Joice Kamara. Até o ano passado, ela coordenava a equipe de trabalho do governo em matéria de tráfico de pessoas. Apesar dos significativos êxitos obtidos desde que, em 2002, terminaram 11 anos de guerra civil, esta nação da África ocidental continua sendo uma das menos desenvolvidas do mundo, onde numerosas famílias rurais simplesmente não podem cuidar nem educar os filhos. “Lamentavelmente, depois que os levam para as cidades, em lugar de cumprirem sua promessa, os fazem trabalhar, e algumas dessas crianças são obrigadas a se converterem em escravos sexuais ou são usadas em rituais”, detalhou Kamara. Kaita estava sob os cuidados do tio, mas este em lugar de enviá-lo à escola não cuidou dele, negou comida, até que, por fim, fugiu. “Faz frio”, disse sobre sua vida na rua. “Só o que tenho para comer são restos”, acrescentou. Lothar Wagner, diretor da organização não governamental Don Bosco Fambul, disse à IPS que “a razão pela qual estão na rua é o tráfico de pessoas. Depois de certo grau de maus-tratos, muitos sentem que não têm outra alternativa”, pontuou o responsável pela organização dedicada à atenção de meninos e meninas de rua. Uma pesquisa de 2010 mostra que cerca de 2.500 meninas e meninos dormem todas as noites nas ruas em Freetown, embora outras estimativas indiquem um número maior. Mohammad tem 14 anos e há dois vive na rua. Seus únicos pertences são uma camiseta e um calção de futebol desgastado do clube inglês Chelsea, um papelão e um cesto de vime para recolher lixo, o que lhe permite ganhar algum dinheiro para comprar comida. Todas as crianças entrevistadas pela IPS disseram que têm medo de abuso, diante do qual são vulneráveis. Os crimes contra menores em situação de rua raramente são investigados e se presume que costumam ser cometidos pelos próprios policiais. “Os policiais não protegem as crianças. Eles as exploram”, denunciou Wagner. O informe médico sobre um menino de rua detido, que denunciou que apanhou de policiais quando estava preso, detalha uma série de ferimentos em um braço, ao que parece causados por paus e fio elétrico. “É totalmente falso”, afirmou à IPS por telefone uma fonte policial. “É uma tentativa deliberada de manchar a reputação da polícia de Serra Leoa. A delegacia, em geral, não tem eletricidade, assim, com poderíamos lhe aplicar choques?”, questionou. Poucas organizações não governamentais trabalham para reduzir a prevalência do tráfico de pessoas em Serra Leoa, e para reunir as vítimas com suas famílias. A Faith Alliance Against Slavery and Trafficking (Faast – Aliança de Fé Contra a Escravidão e o Tráfico) ajuda a conscientizar sobre o problema e a integrar o tema nos programas de capacitação de policiais. “Todos os recrutas deveriam aprender o que é o tráfico e como enfrentá-lo”, disse Janet Nickel, diretora do capítulo local da Faast, organização que mantém um abrigo para crianças vítimas de tráfico. A Don Bosco Fambul também criou vários abrigos e programas para menores sem lar. “A proteção da infância simplesmente não é uma prioridade do governo”, argumentou Wagner, acrescentando que não tem nem a capacidade nem os fundos para isso. Porém, Kamara, do Ministério de Bem-Estar Social, Gênero e Assuntos da Infância, não concorda e destaca os êxitos do governo nessa área, como os 13 condenados desde 2005 por tráfico de pessoas. Foram sentenciados a 22 anos de prisão. “O governo realmente ajuda e se esforça muito para erradicar o tráfico de pessoas em Serra Leoa”, assegurou. Um informe de 2012 do Departamento de Estado norte-americano afirma que o governo de Serra Leoa faz tudo o que pode, mas não basta para cobrir suas responsabilidades para deter este flagelo. Envolverde/IPS


por Tommy Trenchard, da IPS
Contêineres coletivos de compostagem na localidade francesa de Besançon. Foto Jean-Charles Sexe/Ville de Besançon Inter Press Service - Reportagens

Meio ambiente é assunto de todos em Besançon

[caption id="attachment_89757" align="alignleft" width="300" caption="Contêineres coletivos de compostagem na localidade francesa de Besançon. Foto Jean-Charles Sexe/Ville de Besançon"][/caption] Besançon, França, 11/6/2013 – Christina E. é uma mãe de três filhos que vive em um edifício de apartamentos localizado em um luxuoso bairro da capital da França. Como prepara refeições todos os dias, gostaria de contar com um lugar junto à sua lixeira para poder colocar os resíduos biodegradáveis. “Me sentia mal cada vez que tinha de jogar fora cascas de legumes ou frutas ou outra matéria orgânica. Cresci vendo minha família usar um monte de compostagem (adubo orgânico) e, se soubesse de algum recipiente coletivo em Paris, definitivamente o utilizaria”, contou à IPS. Se Christina vivesse em Besançon, uma pitoresca cidade do leste da França, poderia se desfazer de seu lixo orgânico em um recipiente fornecido pela cidade e, inclusive, poderia “recuperar” a compostagem para adubar as plantas de sua sacada. Também poderia conseguir um frango para comer as migalhas. Localizada a 325 quilômetros de Paris, Besançon é conhecida como a “campeã” da economia de energia na França. A região alardeia sua deslumbrante cidadela no alto de uma colina, que na verdade é um sítio do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Também tem a maior quantidade de moradias sociais das cidades do país. Deste modo, faz esforços notáveis para envolver os moradores em suas ações ambientais, e planeja reduzir o consumo de energia e as emissões de carbono em 20% até 2020, o que também é um objetivo da União Europeia. “Desde o início realizamos uma grande campanha de conscientização para as pessoas entenderem todos os passos que estamos dando. É um esforço participativo. Os cidadãos estão totalmente envolvidos e compreendem o objetivo de reduzir em 20% o consumo de energia”, afirmou Nicolas Guillemet, vice-presidente da grande Besançon, encarregado do desenvolvimento sustentável e da qualidade de vida. Além de fornecer vasos para compostagem para prédios residenciais e casas particulares com jardins, a cidade também coleta esse adubo orgânico e o usa nos parques públicos e em outros espaços verdes. Os habitantes empreendedores também podem aceitar um frango que ajude a consumir os resíduos orgânicos. Mas este apoio é apenas uma pequena parte dos esforços ambientais que assume esta localidade de 180 mil habitantes. Como a prioridade local é reduzir a energia e os gases-estufa, todos têm um papel a cumprir, explicou Guillemet. A cada ano a localidade “segue” uma centena de famílias, estudando diariamente como se locomovem, como é a calefação em suas casas e outros hábitos. A pesquisa busca mostrar às pessoas como podem mudar suas ações para usar menos energia, detalhou à IPS. Ao fim do estudo, as conclusões são divulgadas ao público, para que outros possam conseguir mudanças semelhantes de conduta, ressaltou. Se as cenouras não conseguem atrair os moradores, sempre restará o pau, e a cidade adotará medidas mais duras para motivá-los. Por exemplo, o lixo doméstico paga imposto segundo seu peso: quanto menos lixo a pessoa produz, menos paga. Estas medidas causaram redução de 15% no lixo coletado para incineração, segundo o escritório do prefeito, o socialista Jean-Louis Fousseret. Ele é parte das forças motoras por trás das muitas mudanças que a cidade experimenta, mas suas políticas não estão isentas de controvérsias. Dirigentes políticos da oposição criticam Fousseret por incorrer em gastos excessivos. Um novo funicular, por exemplo, que se prevê estará terminado no próximo ano, custa 250 milhões de euros (quase US$ 329 milhões) e causou muito inconvenientes à população nos últimos meses. E mudar o sistema de iluminação pública para utilizar lâmpadas de LED (de baixo consumo) custa um milhão de euros (mais de US$ 1,3 milhão) ao ano, segundo funcionários do governo. No entanto, a economia estimada é de cinco milhões de euros (US$ 6,6 milhões) por ano. “É fácil responder aos críticos que dizem que estamos gastando muito porque, sim, é muito dinheiro investido inicialmente”, declarou Guillemet à IPS. “Porém, depois existe uma grande economia. Criar o funicular, por exemplo, custa milhões, mas durará 50 anos ou mais. O mesmo com a economia em matéria de energia”, prosseguiu. Guillemet ressaltou que “o desenvolvimento sustentável tem a ver com visão de longo prazo. Investimos hoje, mas é para amanhã ou depois de amanhã”. Os funcionários de Besançon dizem ter se inspirado na Alemanha e na Suíça, que “estão muito avançadas em relação à França” em termos de políticas energéticas sustentáveis. A cidade está perto das fronteiras com esses países, e com o passar dos anos desenvolveu fortes alianças ecológicas. Com ajuda alemã e suíça, Besançon se converteu em um modelo para outras localidades francesas, afirmam os funcionários municipais. Em 2011, a cidade recebeu a edição “de ouro” do prêmio europeu de energia Cit’ergie por seus êxitos “exemplares” quanto à ação climática e energética. Foi a primeira localidade da França a receber essa honra. Contudo, apesar dos avanços de Besançon, alguns especialistas temem que a cidade ainda enfrente uma árdua batalha para reduzir em 20% o consumo de energia nos próximos sete anos. “Não creio que conseguiremos isso se não adotarmos medidas mais inovadoras”, opinou Benoit Cypriani, representante do partido ecologista Groupe Europe-Écologie Les Verts. “Definitivamente, pode-se conseguir no setor público, mas as coisas serão mais difíceis no privado, onde é necessário renovar as casas para serem mais eficientes em matéria de energia, por exemplo”, disse à IPS. Cypriani espera que o funicular tenha um efeito sobre o aumento de 2% no transporte experimentado pela localidade, que envolve majoritariamente automóveis. Também espera que o governo nacional dê passos para reduzir o uso de eletricidade, o que terá um efeito sobre Besançon. A França é líder europeia em termos de consumo elétrico para calefação doméstica, mas Cypriani acredita que se deveria promover mais o uso de lenha, já que contamina menos. No manual de prioridades de Besançon, depois da redução do consumo de energia deve se seguir a produção de energia no plano local. “Queremos ser autossuficientes no território, e isso significa energia renovável”, afirmou Guillemet à IPS. Atualmente a cidade investe em painéis fotovoltaicos e em ajudar os moradores que querem instalar tanto esses quanto os térmicos em suas propriedades, acrescentou. Os funcionários municipais identificaram uma área que destinarão à geração de energia eólica e, em quatro anos, implementarão um plano para isso. A água também é explorada como fonte energética, já que a cidade fica em uma curva do rio Doubs e há planos para continuar usando lenha para calefação comunitária alimentada com este elemento. Envolverde/IPS


por A. D. McKenzie, da IPS
O atentado contra um edifício da ONU em Abuja, capital da Nigéria, deixou 23 mortos  e 81 feridos no dia 26 de agosto de 2011. Foto: Chris Ewokor/IPS Inter Press Service - Reportagens

Toque de recolher atemoriza civis do norte da Nigéria

[caption id="attachment_89594" align="aligncenter" width="529" caption="O atentado contra um edifício da ONU em Abuja, capital da Nigéria, deixou 23 mortos e 81 feridos no dia 26 de agosto de 2011. Foto: Chris Ewokor/IPS"][/caption]   Lagos, Nigéria, 10/6/2013 – Os habitantes dos três Estados do norte da Nigéria onde vigora o toque de recolher vivem atemorizados pelas invasões casa por casa que fazem os militares em busca de terroristas, bem como pelo aumento de preços. A Força-Tarefa conjunta opera nos Estados de Borno, Yobe e Adamawa, desde que o presidente Goodluck Jonathan os colocou em estado de emergência no dia 14 de maio. A medida foi tomada devido à presença de organizações terroristas, entre elas a Boko Haram, de tendência islâmica, que invadiram algumas cidades da região, onde em seguida retiraram bandeiras nacionais e içaram as suas. A subdiretora de programa para a África da Anistia Internacional, Lucy Freeman, disse à IPS que, além do medo dos ataques da Boko Haram, a população dos Estados afetados sofre violações de direitos humanos por parte das forças de segurança, que estão ali para lhes dar proteção. “Nas últimas semanas, residentes de Borno disseram à Anistia que aumentaram as detenções em massa na cidade de Maiduguri. Muita gente abandonou suas casas e algumas áreas se converteram em ‘povoados fantasmas’. As escolas públicas fecharam porque os pais têm muito medo de mandar seus filhos estudarem”, contou Freeman. A Boko Haram (“educação ocidental é pecado”, em árabe) luta por um Estado independente no norte da Nigéria, onde imporia a shariá (lei islâmica). Segundo informe da organização Human Rights Watch, de 2012, o grupo matou quase três mil pessoas desde 2009. O último ataque foi no dia 7 de maio, na cidade de Bama, e deixou 55 mortos. Freeman também denunciou que as investigações da Anistia mostram que os presos não têm acesso ao mundo exterior, não têm contato com advogados, familiares, nem tribunais, e carecem de proteção legal. “Os suspeitos ou acusados de integrar a Boko Haram não costumam receber explicações do motivo de serem detidos, suas famílias ignoram seus paradeiros e, em geral, não têm direito de falar com um advogado”, afirmou Freeman. “Os detidos sob a acusação de integrar a Boko Haram, responsabilizados por algum delito ou que foram levados a um tribunal desde 2009, em pouquíssimos casos tiveram um processo judicial. A maioria permanece na prisão esperando julgamento”, ressaltou. Ali Sani fugiu de sua casa em Mubi, uma das maiores cidades do Estado de Adamawa, e agora vive em Kano, a maior do norte da Nigéria. Sani, que se mantém informada sobre o que ocorre em sua cidade, disse à IPS que o toque de recolher, que vigora desde o anoitecer até o amanhecer, prejudica seriamente a atividade comercial. “Um amigo, que veio de Mubi no final de semana, me contou que não havia combates lá, mas que o toque de recolher afeta o comércio e a liberdade de movimento. É impossível se comunicar porque os telefones foram cortados. Os agricultores não podem plantar porque têm medo e os preços dispararam”, detalhou Sani. O presidente justificou a medida como necessária, por causa da última onda de atividades terroristas, que aumentava os desafios em matéria de segurança no norte nigeriano. Além dos ataques de maio, um atentado suicida cometido em março custou a vida de 41 pessoas, enquanto no mês seguinte um confronto entre combatentes da Boko Haram e o exército deixou 187 mortos e 77 feridos. Um editor do Estado de Kaduna, que pediu para ser identificado como Rahman, disse à IPS que desde a declaração do estado de emergência foram cortadas as comunicações com Borno, Yobe e Adamawa. “Creio que é uma medida deliberada para bloquear as comunicações entre os membros da Boko Haram e impedir que usem celulares para detonar bombas”, afirmou. “Mas também afetou os usuários civis inocentes, que não podem receber, nem fazer, um telefonema de parentes ou amigos”, explicou à IPS. Fredrick Fasehun, fundador da Oodua Peoples’ Congress (OPC), no sudoeste da Nigéria, afirmou à IPS que as operações militares na região afetada eram enormes no contexto de um estado de emergência. A OPC é uma organização nacionalista armada do povo yoruba. “Quando se declara o estado de emergência em uma região, as forças armadas têm o dever de manter a lei e a ordem, e sabe-se que os soldados o fazem pela força”, pontuou, em Lagos. Como fundador da OPC, Fasehun esteve detido várias vezes por liderar um grupo armado ilegal. Segundo o dirigente, devem ser feitos interrogatórios adequados e libertar quem nada tem a ver com a insurgência. Além disso, opinou que os implicados em combates devem ser levados a um tribunal da jurisdição competente. O advogado e ativista pelos direitos humanos Femi Falana disse à imprensa em Lagos que é a favor do estado de emergência nos três Estados onde foi decretado. Contudo, destacou que, diante dos incessantes ataques terroristas, sequestros, roubos a mão armada e crimes violentos no país, o governo deve deixar de falar que existe segurança pessoal e da propriedade no país. Além disso, exortou Jonathan a agir dentro da Constituição e não dissolver as estruturas democráticas nos Estados afetados pelo estado de emergência. Envolverde/IPS


por Toye Olori, da IPS
Majda el-Batsch no terraço de sua casa, de onde se pode ver a Cúpula da Rocha. Foto: Pierre Klochendler/IPS Inter Press Service - Reportagens

A marca indelével da Guerra dos Seis Dias

[caption id="attachment_89586" align="aligncenter" width="500" caption="Majda el-Batsch no terraço de sua casa, de onde se pode ver a Cúpula da Rocha. Foto: Pierre Klochendler/IPS"][/caption]   Jerusalém, Israel, 10/6/2013 – Majda El Batsch tinha oito anos em junho de 1967 quando ficou sabendo da Guerra dos Seis Dias. “Não sabia o que significava guerra”, recordou. Mais de quatro décadas depois, esta palestina, agora jornalista, ainda tenta decifrar o significado do conflito. O israelense Yaki Chetz tem 68 anos, mas de certa forma continua sendo aquele paraquedista que lutou na guerra. O veterano realiza diante da IPS uma demonstração de uma situação de combate corpo a corpo. Chetz e Batsch não se conhecem. O primeiro lutou na guerra, enquanto a segunda cresceu com ela. Ambos são claros exemplos de como o conflito bélico deixou marcas indeléveis em israelenses, palestinos e inclusive em outros povos da região. No dia 5 de junho de 1967 Israel lançou uma guerra preventiva contra exércitos árabes que haviam se reunido em suas fronteiras. Em apenas seis dias os israelenses tomaram Jerusalém oriental, Cisjordânia, Faixa de Gaza (se retirou unilateralmente deste último território em 2005), o Deserto do Sinai (que devolveu ao Egito pelo acordo de paz de 1979) e as Montanhas de Golã, na Síria. “Nós ouvíamos o rádio. Os homens pintavam as janelas e as mulheres faziam pão”, contou Batsch. Do terraço da casa de sua família, no bairro muçulmano da amurada Velha Cidade, se tem uma vista panorâmica, que revela o intrincado do conflito. Desse ponto pode-se ver inúmeras bandeiras israelenses, a mesquita de Al Aqsa, sagrada para os muçulmanos, a Cúpula da Rocha, local venerado por seguidores de Maomé e por judeus, e o Muro das Lamentações, vestígio do antigo Templo de Jerusalém. Batsch não pode escapar nem de sua história nem de suas lembranças. Ainda mantém vivas na memória várias passagens engraçadas, como aquele esperançoso boato que percorreu a Cidade Velha no começo da guerra. “O exército do Iraque chegou para nos salvar”, diziam na época, equivocados, os palestinos. Chetz é mais frio. “As pessoas religiosas têm sentimentos por Jerusalém, mas, para nós, os soldados, é apenas uma cidade fronteiriça”, afirmou. [caption id="attachment_89587" align="alignleft" width="271" caption="O veterano de guerra israelense Yaki Chetz lembra bem da guerra de 1967. Foto: Pierre Klochendler/IPS"][/caption] Depois da guerra de independência de Israel, em 1948, Jerusalém oriental foi conquistada e anexada pelo Reino Hachemita da Jordânia. O nascente Estado judeu estabeleceu sua capital no setor ocidental da cidade, situação que se manteve por duas décadas. Contudo, em 6 de junho de 1967, um batalhão de paraquedistas israelenses recebeu a missão de tomar o controle de uma pequena colina estratégica que dominava a terra de ninguém que dividia Jerusalém em duas. “A missão era a Colina da Munição, não Jerusalém, nem a Cidade Velha”, destacou Chetz. Após cinco horas de combate corpo a corpo, 105 jordanianos e 35 israelenses estavam mortos, 18 deles do grupo de Chetz. “Tinha muito medo”, reconheceu. “Eu pensei: me restam apenas cinco metros para me salvar. Era pura sobrevivência. Morreram tantos soldados, tantos amigos. Me sentia desesperado. Não pensava em Jerusalém”, detalhou. Como um dos últimos sobreviventes do batalhão, Chetz se converteu em um herói acidental da batalha que selou o destino de Jerusalém. Quando os paraquedistas entraram na Cidade Velha, as defesas jordanianas de Jerusalém oriental já estavam vulneráveis, e por isso houve poucos combates. “Entramos sem dar um único tiro”, recordou. Os palestinos estavam tão confiantes na vitória, que a derrota foi um duro golpe. “Lembro que minha irmã mais velha me dizia ter visto um soldado israelense, e os vizinhos a acusavam de mentir”, contou Batsch. Os palestinos “haviam escutado o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser preparando-os para uma vitória. Não podiam aceitar ser derrotados duas vezes: a catástrofe de 1948 e novamente em 1967”, acrescentou. Por outro lado, a certeza da derrota era tão grande entre os israelenses que o triunfo militar causou uma euforia nacional, exceto em muitos soldados. “Fomos rezar no Muro das Lamentações, mas, na verdade, me sentia muito mal”, disse Chetz. “As pessoas estavam impactadas. Os israelenses estavam ébrios da vitória, exibindo seus tanques e aviões”, pontuou Batsch. Duas gerações mais tarde, crianças israelenses de sétimo grau cantam um hino patriótico que glorifica a abnegação de Chetz e seus camaradas, enquanto o antigo campo de batalha na Colina da Munição se converteu em santuário visitado por estudantes e recrutas. Chetz detém um grupo de soldados e lhes pergunta: “O que significa Jerusalém para vocês?”, e eles respondem em uníssono: “Alabada seas, Jerusalém, capital de Israel por toda uma eternidade. Nós, povo de Israel, te honramos”. Chetz concluiu que “eles lutarão por Jerusalém”. Chetz e Batsch têm vidas e expectativas diferentes, mas com alguns pontos em comum. “Os judeus podem celebrar suas tradições, mas nós, cristãos e muçulmanos, temos que pedir permissão para irmos aos nossos lugares de oração. Essa é a lógica da ocupação”, lamentou Batsch. Nem Chetz nem Batsch são religiosos praticantes, mas provavelmente coincidam em que o conflito palestino-israelense por Jerusalém seja essencialmente nacionalista. Ambos desejam que a chamada solução dos dois Estados acabe com o conflito. Os dois querem a paz. Porém, as diferenças não desaparecem. Chetz destaca que “há três mil anos de história” vinculados ao Muro das Lamentações, enquanto Batsch tem outra visão. “Para mim não importa a história nem a mitologia. Não se trata de quem viveu primeiro aqui, mas se posso viver com meus direitos em meu próprio Estado soberano”, enfatizou. Por sua vez, Chetz disse que “hoje, Jerusalém está unida e anexada, e essa é uma realidade”. E Batsch afirmou: “Os israelenses devem aprender com a história. Nenhum poder que domina outro dura para sempre”. Envolverde/IPS


por Pierre Klochendler, da IPS
Keddy Olanya, uma das poucas mulheres do norte de Uganda que dirige bodaboda. Foto: Amy Fallon/IPS Inter Press Service - Reportagens

Ugandesas contra os estereótipos de gênero

[caption id="attachment_89581" align="aligncenter" width="505" caption="Keddy Olanya, uma das poucas mulheres do norte de Uganda que dirige bodaboda. Foto: Amy Fallon/IPS"][/caption]   Gulu, Uganda, 10/6/2013 – Tudo é curvas e voltas para a ugandense Keddy Olanya, de 32 anos, casada e mãe de três filhos. Ela é uma das poucas mulheres motoristas que dirigem nas ruas cheias de buracos uma bodaboda, ou serviço de táxi com motocicleta. Olanya, que vive em Gulu, norte de Uganda, foi professora durante um ano na aldeia de Lukome, na mesma região. Até que, em 2008, se deu conta de que poderia ganhar mais dinheiro com um segundo emprego, dirigindo um desses veículos nos finais de semana e feriados escolares. Muitos homens ganham a vida com essa ocupação. Mas em Gulu há apenas uma outra mulher que trabalha como motorista, contou Olanya à IPS. Como mulher em um setor dominado por homens, seu gênero pode jogar a favor, mas também contra. “Na realidade, uma mulher que dirige um bodaboda pode ganhar mais do que um homem” que faça o mesmo, admitiu Olanya. Ela garante que chega a ganhar o equivalente a US$ 138 mensais dando aulas, enquanto consegue até US$ 19 por dia como motorista. “Na maioria dos casos os clientes confiam mais nas mulheres que dirigem bodaboda do que em homens, pela maneira como o fazem. Nós não vamos com tanta depressa”, explicou. Não se sabe a quantidade exata de pessoas que manejam estes veículos no país, embora se diga que só em Kampala há cerca de 145 mil, segundo um informe publicado na edição digital do jornal local Red Pepper. Esta nação do leste africano é mencionada como dona de uma “economia do bodaboda”, apesar de ser difícil ter acesso a estatísticas a respeito. Segundo um projeto financiado em 2002 pelo Departamento de Desenvolvimento Internacional da Grã-Bretanha e realizado pelo assessor em temas de transporte John Howe, intitulado Boda Boda – Uganda’s Rural and Urban Low-Capacity Transport Services, cerca de 1,6 milhão de ugandenses, ou 7% da população, dependem desta indústria para ganhar a vida, ainda que parcialmente. O sustento de outras cem mil pessoas também depende dos serviços de conserto e manutenção destes veículos, acrescentou. São esperados os olhares e comentários de alguns homens condutores quando Olanya está nas ruas, ou no ponto onde espera pelos clientes. “Às vezes podem apenas dizer que este é um trabalho adequado para mulheres solteiras, que sou muito delicada para isto, que vou muito devagar”, detalhou. Por outro lado, é comum enfrentar as habituais tentativas de violar a relação entre cliente e motorista. Quando transporta homens, alguns chegam a fazer propostas sexuais, contou Olanya. Outros lhe oferecem mais dinheiro do que o valor da viagem, e em relação a isso “é preciso ter princípios”, afirmou. Após passar anos lidando com estudantes rebeldes, ela diz saber como agir para os clientes não a molestarem. “Só preciso falar suavemente, para marcar terreno”, pontuou. Algumas mulheres “me admiram. Mas outras dizem que é melhor eu procurar outras opções, como ter uma empresa”, comentou Olanya, que gostaria de incentivar as pessoas a fazerem qualquer tipo de trabalho com o qual possam ganhar a vida, independente de gênero. ‘“Atualmente estamos passando para um mundo de igualdade”, ressaltou. Ela é parte de uma tendência crescente entre professores e outros profissionais, que buscam um segundo emprego como motoristas para poderem chegar ao fim do mês. Wilfred, um policial de 35 anos, de Kampala, trabalhou durante seis meses como condutor, em horários de tempo parcial, cinco dias por semana, “para sobreviver”. “Muitos policiais fazem isso”, acrescentou Wilfred, que disse ganhar US$ 125 mensais com seu trabalho em tempo integral. “Isto é necessário porque o salário que recebemos é insuficiente”, destacou. Segundo disse à IPS, normalmente ganha cerca de US$ 7 diários transportando passageiros. Flavia Nuwabine, de 23 anos, que vive em Kyebando, em Kampala, dirige um bodaboda há dois anos. Ela não conhece outras mulheres que façam o mesmo na capital, e conta que recorreu a essa atividade depois de estudar hotelaria e descobrir que trabalhando nessa área ganharia apenas US$ 38 por mês. Agora, transporta passageiros e encomendas. Vai carregada com sabões e papel A4 para impressoras. Com eles atravessa a cidade para fazer a entrega a uma empresa local. Em um dia ganha, em média, US$ 11, contou. Nuwabine admitiu que gostaria de trabalhar naquilo para o qual estudou, mas disse estar feliz por poder ganhar mais. Envolverde/IPS


por Amy Fallon, da IPS
Estima-se que metade dos produtos frescos em Papua Nova Guiné é perdida entre a colheita e a comercialização. Foto: Catherine Wilson/IPS Ambiente

Guerra ao desperdício de alimentos

[caption id="attachment_89577" align="aligncenter" width="529" caption="Estima-se que metade dos produtos frescos em Papua Nova Guiné é perdida entre a colheita e a comercialização. Foto: Catherine Wilson/IPS"][/caption]   Washington, Estados Unidos, 10/6/2013 – Um quarto de todas as calorias derivadas de alimentos cultivados para consumo humano se perde ou se desperdiça, seja de forma proposital ou não, segundo novas estimativas. Agora que a carestia dos alimentos é considerada algo normal, embora a demanda por estes produtos em todo o mundo continue aumentando rapidamente, em Washington ativistas e especialistas em desenvolvimento pedem uma ação nacional e internacional concertada de uma maneira sem precedentes. “O mundo enfrentou um fracasso análogo da eficiência nos anos 1970 com a energia”, diz um documento de trabalho elaborado em conjunto pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e o WRI, uma organização dedicada ao meio ambiente e ao desenvolvimento com sede em Washington. O estudo mostra que a combinação de preços recordes e demanda crescente de petróleo fez com que o mundo travasse uma guerra pela eficiência energética, e que algo semelhante ocorrerá com os alimentos. Também estima que a quantidade de terra usada para cultivar estes alimentos que são desperdiçados equivale à superfície do México e consome 28 milhões de toneladas de fertilizantes. Porém, os motivos deste desperdício de recursos são muito diversos, e vão desde a ineficiência no armazenamento nas propriedades rurais e durante o transporte para os mercados, até a confusão dos consumidores sobre o que fazer com os alimentos considerados “velhos”. As novas conclusões coincidem com a divulgação de estatísticas surpreendentes sobre o alcance da fome no mundo. Segundo uma série de estudos divulgados no dia 6, na revista médica britânica The Lancet, a desnutrição responde por cerca de 45% de todas as mortes de menores de cinco anos, muito mais do que a proporção de aproximadamente um terço que se acreditava antes. “Em boa parte, o alcance deste desperdício de alimentos é um fracasso da tecnologia. Por exemplo, na África há agricultores que ainda não têm eletricidade para armazenagem a frio”, disse à IPS Craig Hanson, coautor do documento de trabalho do WRI. “Por um lado, podemos dizer que há muitas maneiras de baixar custos em que os doadores podem ajudar. Porém, também temos que reconhecer que a pesquisa agrícola sobre assuntos posteriores à colheita é diminuta, de apenas 5% dos investimentos totais. Esse é um grande desequilíbrio”, acrescentou. Hanson disse que embora os doadores e filantropos possam duplicar esse número, chegando a apenas 10% de todos os investimentos agrícolas, “se obterá um ganho enorme nas calorias disponíveis para a população”. Em vista disso, os níveis de desperdício de alimentos parecem ser amplamente semelhantes entre os países industrializados e os que estão em desenvolvimento. Cerca de 56% do desperdício total ocorre nas nações ricas e aproximadamente 44% nos países pobres. Na verdade, a Ásia meridional e do sudeste respondem por quase um quarto de todo o desperdício mundial de alimentos, enquanto os países da parte industrial do continente são responsáveis por outros 28%. De todo modo, esses números escondem discrepâncias muito maiores por pessoa, particularmente em relação à América do Norte. O governo dos Estados Unidos, por exemplo, estima que o país só desperdiça cerca de 40% de seu fornecimento de alimentos. A maioria das regiões do mundo desperdiça entre 400 mil (Ásia meridional e sudeste asiático) e 750 mil calorias (Europa) por pessoa a cada dia, segundo o novo estudo. Entretanto, na América do Norte esse número dispara para mais de 1,5 milhão, com base em estatísticas de 2011. Segundo os atuais padrões internacionais, um adulto ativo necessita de 2.200 a três mil calorias diárias. “As grandes deficiências sugerem grandes oportunidades de economia”, afirma o documento. “Reduzir a perda e o desperdício de alimentos pode ser uma das principais estratégias mundiais para conseguir um futuro alimentar sustentável”. Naturalmente, o fantasma que paira sobre este assunto são os cerca de dez bilhões de habitantes que o planeta terá até 2050, e os 60% a mais de calorias que se estima serão necessárias para alimentá-los, tomando por base os níveis de 2006. A simples redução pela metade do atual desperdício de alimentos até 2050 permitirá evitar cerca de 22% dessa escassez projetada, segundo o estudo. De todo modo, a culpa parece recair sobre produtores, transportadores e consumidores, responsabilizados por 35% de todo o desperdício de alimentos. Para especialistas, estas características abrem importantes oportunidades para realizar campanhas dirigidas às mulheres, que em todo o mundo são as principais responsáveis pela tomada de decisões relativas à agricultura e à família. “As mulheres produzem, processam, cozinham e distribuem alimentos, por isso ajudá-las a encontrar maneiras de reduzir o desperdício e a perda de alimentos no campo, no armazenamento, no plano do consumidor e em casa é fundamental”, disse Danielle Nierenberg, cofundadora do grupo de especialistas Food Tank, à IPS. “Quanto mais acesso elas tiverem a recursos, educação e infraestrutura, mais poderão prevenir perdas e desperdícios, o que não beneficiará apenas suas famílias, mas também sua renda e o meio ambiente”, afirmou. Nos Estados Unidos, o desperdício de alimentos aumentou 50% nas quatro últimas décadas. No dia 4, as principais agências de meio ambiente e agricultura do país anunciaram uma importante iniciativa que busca educar consumidores e empresas sobre a escala que alcança o problema do desperdício de alimentos em seu território. A União Europeia foi mais longe, fixando o objetivo de reduzir esse desperdício pela metade até 2020, o que é muito otimista (falta cada país do bloco calcular como implantá-lo) mas, segundo Hanson, as empresas europeias expressaram um significativo entusiasmo a respeito. “As metas conseguem coisas surpreendentes”, observou Hanson. “A atual conscientização é o primeiro passo. Penso que ainda devemos chegar a que uma grande quantidade de pessoas se deem conta de que temos um problema real. Porém, o próximo passo terá de ser fixar uma meta, que, mesmo sendo voluntária, não deixa de ser um bom começo”, opinou. Com a recente publicação de um informe por parte de um painel designado pela Organização das Nações Unidas (ONU), os debates sobre a próxima fase dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio agora ganham uma forma concreta. Uma das metas propostas no documento incluirá reduzir “a perda e o desperdício pós-colheita” em certa porcentagem, que ainda deve ser acordada. Hanson sugeriu 50% para esse objetivo. Hanson e seus colegas também pediram um protocolo internacional que ofereça uma metodologia padrão para que países e empresas de todo o mundo determinem quanto alimento desperdiçam e aonde. “Creio firmemente na ideia de que o que se pode medir pode ser abordado”, argumentou. “Com a perda e o desperdício de alimentos agora tem que ocorrer o mesmo que vimos em relação à mudança climática e às emissões contaminantes há uma década. Não começaremos a manejar isto enquanto não soubermos o quanto e onde estamos perdendo”, ressaltou . Envolverde/IPS


por Carey L. Biron, da IPS
Não são apenas as riquezas minerais da África que estão sujeitas a abusos, mas também sua vida silvestre. Pela sede de marfim, os elefantes são mortos em todo o continente, inclusive em parques nacionais. Foto: Nalisha Adams/IPS Ambiente

A matança de elefantes está matando o futuro da África

[caption id="attachment_89567" align="aligncenter" width="529" caption="Não são apenas as riquezas minerais da África que estão sujeitas a abusos, mas também sua vida silvestre. Pela sede de marfim, os elefantes são mortos em todo o continente, inclusive em parques nacionais. Foto: Nalisha Adams/IPS"][/caption]   Bonn, Alemanha, junho/2013 – Conflitos armados na África, outro golpe de Estado, intervenção de forças militares estrangeiras e novos informes sobre crianças-soldado na frente de batalha, enquanto os mais pobres dos pobres perdem o pouco que têm, e a riqueza de um país não é investida no indispensável desenvolvimento social e econômico, mas financia a morte e a destruição. É uma história muito familiar, que traz à memória o filme Diamantes de Sangue, de Edward Zwick, que narra a história da guerra civil em Serra Leoa, financiada pelo tráfico ilegal de pedras preciosas. Neste caso, não se trata de riqueza mineral, mas do saque da fauna africana. Não são “diamantes sangrentos”, mas “marfins sangrentos”. O sangue derramado é o dos elefantes africanos, em rápida diminuição. Em fevereiro de 2012, cerca de 200 elefantes foram abatidos por caçadores ilegais no Parque Nacional de Bouba N’Djida, em Camarões, para retirada de suas valiosas presas. Incidentes semelhantes também foram registrados no Chade, na República Centro-Africana, e em outros países africanos. A última informação conhecida é o extermínio, em abril, de 26 elefantes no Parque Nacional de Dzanga-Ndoki, na República Centro-Africana, apontado pela Organização das Nações Unidas das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como um dos bens do patrimônio cultural e natural do planeta. Estes crimes contra a natureza são cometidos com frequência pelas mesmas redes criminosas que traficam armas, drogas e pessoas, e representam uma grave ameaça contra a segurança, a estabilidade política, a economia, os recursos naturais e o patrimônio cultural de numerosos países. O problema reside na insuficiência de recursos e de capacidade dos órgãos encarregados da preservação do meio ambiente e da fauna e da flora silvestres. A Sociedade para a Conservação da Vida Silvestre estima que, apenas no Gabão, foram mortos cerca de 11 mil elefantes desde 2004, mas ao menos nesse país os líderes políticos tentam enfrentar a caça ilegal. O governo do presidente Ali Bongo Ondimba mandou queimar publicamente o marfim apreendido, imitando um ato semelhante ocorrido há alguns anos no Quênia. A comunidade internacional também pode atuar. Irina Bokova, diretora-geral da Unesco solicitou aos governos da República Centro-Africana, de Camarões e da República do Congo que colaborem na luta contra a caça ilegal na região. Os governos signatários da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres, reunidos em Bangcoc no começo deste ano, afirmaram a intenção de atuar com firmeza e notificaram oito governos (de países fornecedores e consumidores) para tomarem as medidas necessárias para erradicar o comércio ilegal de produtos de marfim. Por outro lado, a Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS) tem o mandato de conservar este tipo de fauna em risco de extinção, como os elefantes. A maior parte dos Estados onde vivem as duas espécies de elefantes africanos aderiram à CMS e estão, portanto, obrigados a velar pela conservação destes animais e pela preservação de seu habitat. Se a população de elefantes africanos desta região fosse incluída no Apêndice I da CMS, todos os Estados da área estariam obrigados a garantir uma rígida proteção das espécies ameaçadas em seus respectivos territórios, incluindo a proibição de capturá-las. A CMS também ajustou um acordo sobre os elefantes na África ocidental que poderia servir como marco institucional para toda a região. Como veículo para fomentar a cooperação internacional no contexto das Nações Unidas, a CMS está disposta a responder aos chamados dos governos membros para passar à ação. Ainda não é tarde demais. Mas, logo será. Envolverde/IPS * Bradnee Chambers é secretário-executivo da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres.


por Bradnee Chambers*
Musah Razark Adams (D) mostra o estilingue que usa para espantar pássaros que se aproximam do arrozal. Ele e seu irmão Seidu (E) trabalham para poder pagar seus materiais escolares. Foto: Albert Oppong-Ansah/IPS Educação

Sonhos de educação se desfazem por causa do trabalho infantil em Gana

[caption id="attachment_89372" align="aligncenter" width="529" caption="Musah Razark Adams (D) mostra o estilingue que usa para espantar pássaros que se aproximam do arrozal. Ele e seu irmão Seidu (E) trabalham para poder pagar seus materiais escolares. Foto: Albert Oppong-Ansah/IPS"][/caption]   Wuba, Gana, 7/5/2013 – É um dia útil, mas Musah Razark Adams, de 13 anos, que cursa a quinta série na localidade de Wuba, em Gana, está parado em um arrozal segurando um estilingue, pronto para atirar pedras contra os pássaros. Trabalha das 7h às 18h espantando aves e recebe US$ 10 por mês, além de uma saca de 25 quilos de arroz ou milho, para cada meio hectare de terra que protege. Adams e outros estudantes participam da árdua tarefa popularmente conhecida no norte de Gana como “longe”, que busca impedir que os pássaros se alimentem das plantações de arroz, o que costumam fazer no horário de aula. Em termos gerais, a escola é gratuita nesta nação da África ocidental, embora cada uma cobre seus próprios custos adicionais. E as crianças, ironicamente, trabalham com “longe” para pagar os gastos extras, como as cotas da Associação de Pais e Mestres e para comprar material de estudo. “Quando as aulas começaram este ano, pedi ao meu pai dinheiro para comprar o material, e ele disse que eu fizesse como os outros. Disse que não tinha dinheiro. Por isso tenho que espantar pássaros porque toda a produção da nossa terra foi vendida para poder alimentar nossa família”, explicou Adams à IPS. O jovem sonha poder ganhar dinheiro suficiente para comprar sapatos e satisfazer suas necessidades educacionais básicas: uniforme escolar, livros e lápis. Mas agora seu sonho parece muito difícil de alcançar, já que não tem o equivalente a US$ 30 para concretizá-lo. O “longe” é uma prática cultural comum em várias regiões de Gana, onde os meninos deixam de ir à escola durante pelo menos um mês, de abril a maio, e novamente de agosto a setembro. O pai de Adams, Iddrisu, de 45 anos, tem mais cinco filhos e disse à IPS que não tem condições econômicas para mantê-los, por isso trabalham com “longe”. O irmão de Adams, Seidu, de 15 anos, também espanta pássaros. “Embora sinta vergonha de obrigar as crianças a participarem do “longe”, não tenho alternativa para conseguir dinheiro a fim de mantê-los”, contou o pai. Robert Owusu, produtor de arroz de Nyanpkala, na Região Norte, disse à IPS que, “se não há pessoas para cuidar da plantação ao longo do dia, os pássaros comem todo o arrozal”. O produtor acrescentou que “atualmente não temos outro método para espantar aves, apesar de sabermos que está em jogo a educação dos meninos”, lembrando que os adultos não são empregados para esse trabalho por serem muito caros. Embora os pais não considerem que estão infringindo a lei, esta prática é uma das muitas instâncias de trabalho infantil no norte de Gana. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) define trabalho infantil como todo aquele que “priva as crianças de sua infância, seu potencial e sua dignidade, e que é prejudicial para seu desenvolvimento físico e psicológico”. Isto inclui as tarefas que interferem em sua educação. Nos últimos anos o Departamento de Bem-Estar Social, o Departamento de Infância e a OIT iniciaram medidas para reduzir o trabalho infantil neste país, mas afirmam que estas estratégias esbarram na pobreza que há em muitas comunidades. Sanday Iddrisu, diretor interino do Departamento de Infância da Região Norte, afirmou à IPS que a Lei de Infância de Gana diz que nenhum menor deve ser privado de acesso à educação, e proíbe que pais e outros indivíduos submetam uma criança à exploração do trabalho. “Basicamente, tanto as regulações internacionais como as nacionais estão contra as práticas que expõem as crianças a esta forma de trabalho e que as impedem de ter uma educação”, como os demais, acrescentou. Segundo o diretor, muitas das campanhas nas quais embarcaram seu departamento e o de Bem-Estar Social resultaram inúteis, porque os pais dos meninos que trabalham costumam usar a pobreza como desculpa, afirmando que não podem atender as necessidades de seus filhos sem que eles tenham um emprego. Embora exista um Plano Nacional de Ação para a Eliminação do Trabalho Infantil em Gana, um estudo da Unidade de Proteção Infantil do Departamento de Trabalho afirma que a nação fez pouco para erradicar esta prática. Cerca de 1,27 milhão de meninos e meninas entre cinco e 17 anos neste país de 25 milhões de habitantes participam de atividades classificadas como trabalho infantil, disse à IPS Emmanuel Otoo, representante da OIT em Gana. “Devemos voltar nosso olhar e nossos recursos para a implantação dos detalhes das muitas convenções e leis locais e internacionais que Gana ratificou, incluindo os convênios da OIT, a Carta da União Africana sobre os Direitos e o Bem-Estar da Criança, a Constituição de Gana e a Lei de Infância de Gana de 1998”, acrescentou Otoo. Naa Alhassan Issahaku Amadu, encarregado de população da Região Norte, afirmou que o trabalho infantil afeta o crescimento e o desenvolvimento intelectual, social e físico dos menores. “As crianças necessitam de seis horas universalmente aceitas de contato professor-aluno. E se não vão à aula por causa do “longe” perderão tudo o que lhes foi ensinado”, explicou à IPS. O diretor da escola onde Adams estuda, Abdul-Salam Hamza Fataw, afirma que os meninos que se dedicam a espantar pássaros não conseguem acompanhar o curso lógico das lições. E acrescentou que, no período abril-maio do “longe”, uma sala de 50 alunos fica com apenas oito. Umal Mohammad Farhim, supervisor do Serviço de Educação de Gana na Região Norte, declarou à IPS que meninos e meninas têm direito a receber educação. “Estatísticas da Escola Primária de Wuba, por exemplo, mostram que no ano passado menos de 40% dos estudantes passaram nos exames de fim de período”, afirmou. Um relatório formal será enviado ao escritório principal do Serviço de Educação em Tamale, a capital da Região Norte, se um enfoque de mudança de comportamento para o próximo ano letivo não conseguir abordar o problema. Porém, Afua Ayisibea Ohene-Ampofo, gerente de projeto do escritório do norte do Centro Internacional para o Desenvolvimento de Fertilizantes, que se dedica à segurança alimentar, disse à IPS que não é possível acabar com esta prática devido à sua dimensão cultural. Para ela, o problema do trabalho infantil está estreitamente vinculado a tradições que não veem nenhum conflito em incentivar as crianças a trabalharem para cobrirem suas necessidades. Ohene-Ampofo, que trabalha em vários projetos na região há dez anos, pontuou que a pobreza que faz as famílias obrigarem seus filhos a continuarem o círculo vicioso do “longe” poderia diminuir se os pais tivessem uma formação alternativa como padeiros, desenhistas de moda, apicultores ou fabricantes de sabão. Até lá, Adams terá que continuar trabalhando. “Meu sonho de ser professor pode se transformar em cacos se não me mantiver a mim mesmo desta maneira. Realizar este trabalho faz com que me sinta mal, mas tenho que fazê-lo para garantir meu futuro. Não tenho opção”, afirmou o garoto. Envolverde/IPS


por Albert Oppong-Ansah, da IPS

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Puxado pela queda significativa no desmatamento na região amazônica, o Brasil conseguiu reduzir em 38,4% a emissão de gases do efeito estufa entre 2005 e 2010, segundo estimativa do governo federal.

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O prefeito de SP, Fernando Haddad decretou uma lei que obriga as novas edificações da cidade a oferecerem vagas para bicicletas. Os espaços deverão ter, no mínimo, 1,8 metros de comprimento para cada bike.