Brasil começa a enfrentar os fantasmas da ditadura

Inter Press Service - Reportagens

Brasil começa a enfrentar os fantasmas da ditadura


por Clarinha Glock, da IPS


Porto Alegre, Brasil, 29/1/2013 – Às oito horas do dia 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog se apresentou no Destacamento de Operações e Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de São Paulo, um dos centros de detenção e tortura da última ditadura. Na época, Herzog era do Departamento de Telejornalismo da TV Cultura e havia sido chamado para “prestar declaração” sobre a acusação de pertencer ao Partido Comunista. A fotografia de seu corpo enforcado em uma simulação de suicídio, divulgada pouco depois, se converteu no símbolo de uma farsa. Denunciada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, a morte de Vlado, como era chamado, gerou protestos e deu lugar ao movimento popular que contribuiu essencialmente para derrubar a ditadura, que se estendeu de 1964 a 1985. Mais de 37 anos depois, o assassinato de Herzog poderá abrir uma nova porta para revelar o acontecido nesse longo período ditatorial. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos aceitou o caso e decidiu investigar a responsabilidade do Estado brasileiro, por entender que o Brasil não ativou os mecanismos judiciais correspondentes para esclarecer o crime e punir seus responsáveis. Este órgão apresentará um informe com recomendações ao governo de Dilma Rousseff e, caso não sejam cumpridas, o caso será levado ao Tribunal Interamericano de Direitos Humanos. Os dois órgãos fazem parte do sistema da Organização dos Estados Americanos. Em 2010, o Brasil foi condenado por esse mesmo tribunal continental por não esclarecer nem determinar as responsabilidades penais e as sanções correspondentes por “detenção arbitrária, tortura e desaparecimento forçado de 70 pessoas durante a ditadura, entre membros do Partido Comunista e camponeses da região”, envolvidas na Guerrilha do Araguaia, que atuaram entre 1972 e 1974 na região de Marabá, no Pará. As tentativas de levar à justiça os torturadores do período militar no Brasil se deparam com a Lei 6.683, de 1979, que anistiou todos os envolvidos em crimes políticos e contra os direitos humanos cometidos entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, em plena ditadura. Ainda assim, o governo de Dilma conseguiu um grande avanço com a aprovação da Lei 12.528, de 2011, que criou a Comissão Nacional da Verdade, com o objetivo de investigar os casos de desaparecidos políticos durante a ditadura. Esta lei foi promulgada em 2012 e a Comissão tem dois anos para concluir seu trabalho. Segundo o documento Direito à Memória e à Verdade, elaborado pelo governo, pelo menos 150 opositores ainda estão desaparecidos após serem presos ou sequestrados por agentes da repressão na ditadura. Os familiares buscam os corpos ou qualquer informação sobre o destino de seus entes queridos. A cada dia, surgem no país novas comissões, com representantes estaduais, de estudantes e de trabalhadores. “Todo ato de verdade e justiça, que as novas gerações organizam para o conhecimento e a luta pelos direitos humanos no Brasil, significa derrotar uma vez mais a ditadura e o Estado de exceção”, afirmou a ministra Maria do Rosário Nunes, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, no lançamento, no dia 19, da Comissão da Verdade dos Jornalistas. “O Brasil chega com um pouco de atraso ao debate das comissões da verdade para recuperar a memória e conseguir justiça em relação aos mortos e desaparecidos durante a ditadura, em comparação com outros países, como Uruguai e Argentina”, afirmou a secretária-geral da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), Beth Costa. “Contudo, a FIJ e as federações Nacional e Latino-Americana de Jornalistas dão as boas-vindas à decisão firme do governo brasileiro”, acrescentou. Beth reconheceu as dificuldades do governo para enfrentar as resistências históricas, que datam do período de redemocratização do país. “Durante anos houve resistência por parte do setor militar, que ainda desempenha um papel de impacto devido à representação que têm no parlamento os partidos conservadores, muitos dos quais apoiaram o regime militar”, observou. Os integrantes da Comissão Nacional da Verdade têm o desafio de preencher as lacunas de informação sobre os desaparecimentos e assassinatos, bem como de documentos dos arquivos que foram colocados à disposição para a investigação, apesar de Dilma ter assinado a Lei de Acesso à Informação junto com este corpo especializado. “No total, 25 profissionais da comunicação foram mortos durante a ditadura” disse à IPS Audálio Dantas, que presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e liderou os protestos para desmascarar a farsa do suicídio de Vlado. Audálio Dantas, hoje presidente da Comissão Nacional de Memória, Justiça e Verdade dos Jornalistas Brasileiros, constatou faltas importantes na documentação ao coletar dados para seu livro As Duas Guerras de Vlado Herzog, publicado em 2012 pela Editora Civilização Brasileira. Além disso, para ter acesso ao material disponível sobre o caso Herzog, lhe pediram uma cópia da certidão de óbito. “A exigência era, além de absurda, uma falta de respeito com a memória de Vlado. Cumpri-la significaria aceitar como verdadeiro o laudo necrológico que o médico Harry Shibata, colaborador do DOI-Codi, assinou sem ver o corpo, declarando a morte como suicídio”, escreveu Audálio em seu livro. “Finalmente, a Comissão da Verdade conseguiu que fosse retificado o documento”, disse à IPS. Agora a morte de Herzog é indicada como consequência de “lesões e maus-tratos sofridos nas dependências do Segundo Exército de São Paulo (DOI-Codi)”. Beth Costa considera que a recuperação da história dos jornalistas desaparecidos durante a ditadura será fundamental para a memória e a redemocratização das instituições, especialmente neste momento em que o país figura na lista dos que apresentam um grande número de profissionais da imprensa assassinados no exercício da profissão. O direito à liberdade de informar e de ser informado está em perigo novamente. Isto ficou claro quando os jornalistas André Caramante, da Folha de S. Paulo, e Mauri Konig, da Gazeta do Povo, do Paraná, tiveram que abandonar o país devido a ameaças de morte que receberam após denunciarem as polícias de seus respectivos Estados. Audálio Dantas recordou que, além de garantir a proteção dos profissionais da comunicação em seu trabalho, os governos devem enfrentar os grupos de extermínio dentro das polícias, resquício dos tempos da ditadura. “É uma vergonha que nós, que lutamos contra a repressão política, não sejamos capazes de lutar contra a repressão que ocorre diariamente nas periferias das grandes cidades e dentro das delegacias de polícia”, enfatizou o jornalista. Segundo Audálio, “os governos têm medo de enfrentar essa questão, talvez porque a maioria da classe média e da elite considere que se deve prender e matar sem julgamento. É a situação mais vergonhosa que o país vive hoje”. Envolverde/IPS

Foto: Stephanie D’Ornelas/ hypescience Inter Press Service - Reportagens

Multiuso para aviões teledirigidos

[caption id="attachment_76156" align="alignleft" width="318" caption="Modelo de avião não tripulado. Foto: Stephanie D’Ornelas/ hypescience"][/caption] Nações Unidas, 29/1/2013 – Em uma área descampada de Prospect Park, no bairro nova-iorquino do Brooklyn, um norte-americano pilota o controle remoto de um avião de brinquedo, fazendo o número oito no ar para alegria de seu cão labrador. Mais ao norte, do outro lado do East River, delegados da Organização das Nações Unidas (ONU) debatem sobre uma proposta mais inquietante: usar estes aparelhos com fins de vigilância na República Democrática do Congo. A plataforma tecnológica destes aviões não tripulados pode realizar uma variedade de funções, dependendo de quem os maneja. Podem ser usados tanto para obter dados sobre furacões, distribuir ajuda humanitária em áreas de conflito, combater incêndios e traçar mapas de territórios com fins de conservação, quanto coletar dados de inteligência e até lançar mísseis ar-terra. Ryan Calo, professor-adjunto na Escola de Leis da Universidade de Washington, disse à IPS que os assuntos de privacidade que rodeiam o uso dos veículos aéreos não tripulados também limitam o potencial construtivo desta tecnologia. “Nos Estados Unidos é um princípio central o governo não invadir a privacidade das pessoas”, disse Allie Bohm, a estrategista política da organização American Civil Liberties Union (Aclu). “Os aviões não tripulados dedicados à vigilância certamente possuem a capacidade tecnológica para coletar sub-repticiamente informação sobre todos nós, mesmo se não formos suspeitos de um crime”, destacou Bohm à IPS. Segundo a especialista, os tribunais norte-americanos debatem atualmente sobre a constitucionalidade da tecnologia dos aviões teledirigidos, já que não há leis vinculantes para seu uso. “Nossas leis sobre privacidade não são suficientemente fortes para garantir que esta nova tecnologia seja usada de maneira consistente com nossos valores democráticos”, advertiu Bohm. Entretanto, “o Congresso exige que em 2014 a Administração Federal de Aviação abra espaço aéreo interno para os aviões não tripulados”, acrescentou Bhom, lembrando que o Departamento de Segurança Interna já iniciou programas internos destas aeronaves, por exemplo, em Oklahoma. Os aviões não tripulados provocaram uma controvérsia adicional no dia 24 na ONU, quando Ben Emmerson, relator especial sobre Antiterrorismo e Direitos Humanos, lançou uma investigação sobre o impacto civil que cerca os ataques seletivos realizados por essas naves, como os efetuados pelo governo de Barack Obama no Oriente Médio. “O aumento exponencial no uso da tecnologia dos veículos aéreos teledirigidos representa um desafio real para o contexto do direito internacional estabelecido”, opinou Emmerson em uma entrevista coletiva realizada em Londres. “Agora a comunidade internacional deveria estar com sua atenção voltada para os padrões aplicáveis a este desenvolvimento tecnológico, na legalidade de seu uso e nos padrões e salvaguardas que deveriam ser aplicadas ao mesmo”, acrescentou. “O fato é que esta tecnologia chegou para ficar, e seu uso em cenários de conflito é uma realidade com a qual o mundo deve lidar”, ressaltou. Calo, especialista em temas sobre robótica e privacidade, prevê que as reações viscerais das pessoas em resposta aos aviões teledirigidos dedicados à vigilância levarão o governo a reexaminar se são adequadas as leis de privacidade nos Estados Unidos. O problema com essas aeronaves “é que são mais baratas do que as outras formas de vigilância aérea, que depende de aviões e helicópteros que custam caro comprar, manter e operar. Cada vez que a vigilância se torna mais barata ou simples, tem mais a ver com a tecnologia utilizada”, explicou. O temor e a ansiedade frequentemente se originam na crença de que alguém é observado ou controlado, afirma Calo em seu ensaio The Boundaries of Privacy Harm (As fronteiras do dano à privacidade). “Alguns estudos sugerem, entre outras coisas, que as pessoas se sentem incomodadas ao comprar certos produtos quando há uma câmera presente”, disse à IPS. “Às vezes, quando as pessoas são observadas, são menos criativas e têm problemas para realizar tarefas complexas”, acrescentou. A ONU não foi a primeira a pensar em veículos aéreos não tripulados sobre a República Democrática do Congo. Os biólogos Lian Pin Koh e Serge Wich, cofundadores da conservationdrones.org, fazem voar naves desse tipo, mas de baixo custo, sobre uma variedade de países para coletar dados com fins de pesquisa e conservação. Em dezembro de 2012, sua equipe explorou o potencial dos aviões não tripulados para detectar caçadores ilegais no Parque Nacional de Odzala, nesse país, como parte de uma iniciativa do capítulo holandês do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), disse à IPS Koh, que é professor-adjunto de ecologia aplicada e conservação na ETH Zürich. “Atualmente estamos trabalhando com outros pesquisadores para desenvolver um sistema telemétrico de longa distância, de vídeo e controle sobre o avião. Isto o tornará muito mais útil para detectar caçadores ilegais e permitirá uma reação mais rápida”, acrescento Wich, professor de biologia de primatas na Universidade John Moores, em Liverpool, Inglaterra. “Não tínhamos experiência de pessoas disparando da terra, mas quando voa a 150 metros de altura é bastante pequeno e difícil de ser visto, e provavelmente de receber os disparos de um rifle AK-47. Mas nenhum desses projetos está em uma etapa que possamos determinar seu êxito. Isto levará certo tempo”, afirmou Wich. Ao falar no Simpósio Fuller 2012 sobre Crimes de Conservação, em Washington, Koh disse: “Uma das preocupações sobre as quais Serge e eu estamos falando é o que acontecerá se estes aviões de baixo custo caírem em mãos erradas. Poderá ocorrer de serem usados por caçadores ilegais na busca de uma biodiversidade valiosa, para que depois cheguem logo”, acrescentando que “os governos terão que começar a elaborar legislações sobre quem tem permissão e quem não tem para fazer voar essas aeronaves, e sob quais condições”. André-Michel Essoungou, funcionário de relações públicas da ONU, disse à IPS que, se o fórum mundial usar estes veículos aéreos não tripulados para realizar testes na República Democrática do Congo, serão respeitados os procedimentos e as consultas habituais com os órgãos legislativos. “Em última instância, o uso desses aparelhos somente seria feito em plena cooperação com o governo desse país. E para introduzi-los necessitaríamos do apoio dos Estados-membros para equipar a missão”, acrescentou. Envolverde/IPS


por George Gao, da IPS
O presidente chileno, Sebastián Piñera, tendo ao lado Herman Van Rompuy (E) e José Durão Barroso. Foto: Marianela Jarroud/IPS Economia

América Latina se fortalece diante da Europa

[caption id="attachment_76149" align="aligncenter" width="500" caption="O presidente chileno, Sebastián Piñera, tendo ao lado Herman Van Rompuy (E) e José Durão Barroso. Foto: Marianela Jarroud/IPS"][/caption]   Santiago, Chile, 29/1/2013 – Os países da América Latina e do Caribe conseguiram fortalecer sua posição diante da Europa, ao chegarem a convênios que protegem seus recursos naturais dos investimentos estrangeiros e condenarem o bloqueio comercial dos Estados Unidos contra Cuba, na cúpula conjunta realizada na capital chilena. Os 33 governantes e altos representantes da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) conseguiram modificar a seu favor os artigos mais importantes, que estabelecem o contexto jurídico para os investimentos estrangeiros na região, contidos na Declaração de Santiago, assinada no dia 27 com os 27 Estados-membros da União Europeia (UE). “O tema da segurança jurídica é a principal divergência com o bloco europeu, mas não porque os países da região não queiram outorgá-las, mas porque cada um tem os próprios ponto de vista e processo adotado”, disse à IPS a ministra de Comunicações da Bolívia, Amanda Dávila. “Os países da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) expressaram sua opinião sobre a soberania e sua legítima posição para adotarem suas próprias políticas, e que não concordam com posições e compromissos a respeito de posturas que venham de outros blocos”, acrescentou a ministra. Dávila afirmou que na declaração final da Cúpula Celac-UE “é dado um grande passo, um êxito importante”, porque avança em “assentar a soberania como fez a região da América Latina em relação às Ilhas Malvinas, a Cuba e à demanda marítima”. A referência da ministra à exigência da Alba – formada por Antiga e Barbuda, Bolívia, Cuba, Dominica, Equador, Nicarágua, São Vicente e Granadinas, e Venezuela – é pela inclusão da reclamação de soberania da Argentina sobre o arquipélago localizado ao sul do Oceano Atlântico em poder da Grã-Bretanha, do bloco norte-americano contra Cuba e a petição de La Paz por uma saída soberana para o Oceano Pacífico. Por fim, a Declaração de Santiago estabelece “a importância de proporcionar segurança jurídica para os operadores econômicos” e compromete “um ambiente de negócios favorável para os investidores”. Dávila afirmou que os investidores devem atuar “reconhecendo o direito dos países de estabelecer regulações para cumprimento de seus objetivos de política nacional em conformidade com seus compromissos e obrigações internacionais”. Em coincidência, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o brasileiro Graziano da Silva, disse à IPS que o mundo está acostumado “a tratar o investimento a partir de uma dimensão privada da vontade de quem o faz, supondo que sempre o país que recebe os capitais tem de estar sujeito à vontade do outro. Mas isso mudou”. E a ministra Dávila acrescentou que “é preciso conseguir um grande acordo sobre o tema para garantir que os investimentos sejam responsáveis e, portanto, sejam respeitados”. Segundo dados oficiais, o comércio entre os países da Celac e a UE registraram um crescimento médio anual de 13% entre 2002 e 2011, chegando a US$ 276 bilhões em 2011, e expansão de 23,9% no ano passado, em relação ao anterior. Quanto ao movimento de capitais entre as duas regiões, o Fundo Monetário Internacional indica que o estoque de Investimento Estrangeiro Direto (IED) da UE na Celac chegou a US$ 613 bilhões em 2011, representando 47% da recebida pela região e 5% do total colocado pelos membros da UE no mundo. O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, recordou em entrevista coletiva que este bloco continua sendo o principal investidor na América Latina e no Caribe, e também criticou a “tendência de dar demasiada atenção a incidentes ou medidas específicas”, em referência às expropriações realizadas nos últimos anos na Argentina, Bolívia e Venezuela. Apesar do êxito impulsionado pelos representantes da Alba liderados pela Venezuela, a declaração final da Cúpula de Santiago também estabelece um compromisso para “evitar o protecionismo em todas as suas formas”, para “favorecer um sistema de comércio multilateral aberto”. Nessa linha, Rompuy disse que “esperam ansiosos” pelo acordo com o Mercosul, formado por Argentina, Brasil, Paraguai (suspenso), Uruguai e Venezuela. Estas negociações, que estão paralisadas há anos, pareciam estar longe de recomeçarem após a imposição de medidas protecionistas por parte de Argentina e Brasil como forma de defesa diante da crise econômico-financeira que afeta o Norte industrial, em particular a UE. Porém, Rompuy se mostrou otimista em voltar à mesa de negociações bilaterais. No mesmo sentido se pronunciou a chefe de governo da Alemanha, Angela Merkel, que pediu para que se destrave o acordo, após reclamar o fim do protecionismo. Na Cúpula Celac-UE, que marcou sua próxima edição para 2015 em Bruxelas, também foram anunciados acordos de livre comércio entre Europa, Peru e Colômbia, e entre o próprio organismo regional e a América Central. Nessa linha, Graziano destacou que um acordo UE-Mercosul “nos permitirá integrar mais as economias, tanto a parte agrícola, quanto a de serviços e a industrial”. Também expressou seu desejo de “progresso e superação das barreiras que ainda separam essa oferta de um acordo real e efetivo”. A Declaração de Santiago, de 14 páginas, também apresenta acordos em mais de 40 pontos, que incluem seu compromisso com o multilateralismo, respeito aos povos originários, igualdade de gênero, direitos humanos e rechaço ao terrorismo. Os governos das duas regiões também se comprometeram em alcançar “um desenvolvimento sustentável, econômico, social e ambiental”, e expressaram sua preocupação pela crise econômica global e também “pelo fato de a recuperação continuar sendo muito lenta”. Em outro trecho, os signatários rechaçam “firmemente todas as medidas coercitivas de caráter unilateral com efeito extraterritorial que são contrárias ao direito internacional e às normas comumente adotadas de livre comércio”. No documento final da Cúpula de Santiago, os signatários assinalam que este tipo de prática representa uma grave ameaça ao multilateralismo. E afirmam que, “neste contexto e com referência à resolução da Assembleia Geral da ONU, reafirmamos nossas posições bem conhecidas sobre a aplicação das disposições extraterritoriais da lei Helms-Burton”. A referência é à lei norte-americana que aprofundou o bloqueio contra Cuba, que assumirá a presidência temporária da Celac. Para o chileno Guillermo Holzmann, especialista em política, embora a Celac não tenha chegado à cúpula com uma voz única, pois há posições dentro da região que são muito divergentes, se constituiu em uma só organização que tem hoje “um espaço de consolidação relevante”. Nessa linha, afirmou à IPS que a região se fortalece porque é parte da solução para a crise econômica que a Europa atravessa, mas já não como parte “de uma relação de dependência”. Envolverde/IPS


por Marianela Jarroud, da IPS
Soldados de Mali aprendem logística com as Forças Especiais do exército dos Estados Unidos. Foto: US Army Africa/CC-BY-2.0 Inter Press Service - Reportagens

Soldados chadianos se unem à batalha pelo norte de Mali

[caption id="attachment_76093" align="aligncenter" width="468" caption="Soldados de Mali aprendem logística com as Forças Especiais do exército dos Estados Unidos. Foto: US Army Africa/CC-BY-2.0"][/caption] Niamey, Níger, 28/1/2013 - Um contingente militar do Chade partiu da capital de Níger para se unir às forças de outros países africanos e francesas, que lutam contra grupos islâmicos armados que dominam o norte de Mali. Na área operam grupos armados da Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQIM), do Movimento pela Unidade, da Jihade na África Ocidental e Ansar Dine. “Neste momento o exército do Chade é o melhor da África”, disse um entusiasta Boubacar Tidjani, jovem do Níger estudante de relações internacionais, ao anunciar a chegada, no dia 18, das tropas desse país a Niamey, capital de Níger. “É simples: eles sempre conheceram a guerra, e mais, estão orgulhosos. Admiro-os por isso”, afirmou. O governo do Chade enviará um total de dois mil soldados para apoiar as tropas francesas e do Mali que lutam contra grupos insurgentes no norte deste país, e se prevê que mais soldados da Comunidade Econômica de Estados da África Ocidental se unirão à operação. A participação de soldados chadianos, que partiram no dia 22 de Niamey, despertou esperanças de que a crise no Mali chegue rapidamente ao fim. “Se os islâmicos do norte de Mali são fanáticos, em poucos dias encontrarão no deserto outros ainda mais loucos do que eles”, disse um dos soldados do contingente do Chade à Rádio France Internacional. O exército chadiano tem experiência em combates em clima desértico, sufocando numerosas rebeliões internas em um entorno árido idêntico ao do norte do Mali. O Chade também travou e ganhou uma guerra de fronteira com a Líbia entre 1983 e 1987. Suas forças, de um total de 30 mil homens, participam regularmente na luta contra insurgência nos países vizinhos. A última intervenção foi em dezembro de 2012, em apoio ao governo da República Centro-Africana contra os rebeldes de uma coalizão conhecida como Seleka. As forças armadas do Chade também poderiam fornecer poderio aéreo, com seis caça-bombardeiros Sukhoi e vários helicópteros Mi-17 e Mi-24. Durante uma entrevista coletiva, no dia 19, em Niamey, dada pela organização não governamental Alternativa Níger para falar sobre as consequências regionais da intervenção militar no norte de Mali, seu secretário-geral, Moussa Tchangari, lembrou a possibilidade de ser aberta uma segunda frente no norte de Níger, para cercar os grupos extremistas com os exércitos de França e Mali. Ao se dirigir aos presentes durante a coletiva, o pesquisador Olivier de Sardan, do Laboratório para os Estudos e a Pesquisa sobre Dinâmica Social e Desenvolvimento Local, com sede em Niamey, explicou que o norte de Mali e o norte de Níger são contíguos, o que gera o temor de que o próximo objetivo desses grupos seja este último país. Especialistas afirmam que o exército de Níger não tem a mesma efetividade que o do Chade, apesar de sua frequente participação em operações contra insurgentes em sua fronteira com o Mali. Níger espera fornecer apenas 500 soldados à Missão Internacional em Mali. Segundo analistas, o reforço dado pelo Chade é bem-vindo. Contudo, duas preocupações pairam sobre a participação desse país. A primeira se vincula às acusações de abusos contra civis por parte dos soldados. A organização Human Rights Watch colheu depoimentos sobre esses ataques cometidos durante a intervenção do Chade na República Centro-africana em 2008. A segunda tem a ver com as possíveis repercussões para o próprio Chade. Em diálogo com a Deutsche Welle Radio, da Alemanha, a especialista em política Helga Dickow, do Instituto Arnold Bergstraesser, de Friburgo, disse que o “Boko Haram já ameaçou diretamente o presidente Idriss Déby com a desestabilização do Chade caso enviasse tropas ao Mali”. Boko Haram é o grupo extremista islâmico atualmente ativo no norte da Nigéria e que tem vínculos com a AQIM. Envolverde/IPS  


por Emmanuel Haddad, da IPS
Pessoas sem teto compartilham experiências perto de um albergue em Málaga, Espanha. Foto: Inés Benítez/IPS Inter Press Service - Reportagens

Viver ao relento já não é exceção na Espanha

[caption id="attachment_76089" align="alignleft" width="300" caption="Pessoas sem teto compartilham experiências perto de um albergue em Málaga, Espanha. Foto: Inés Benítez/IPS"][/caption] Málaga, Espanha, 28/1/2013 – “Durmo ali”, diz Fernando, apontando para um lugar encharcado debaixo de uma ponte próxima. Português, de 62 anos, está há 15 na Espanha e é parte do crescente coletivo de pessoas sem teto neste país castigado por uma inclemente crise econômica e financeira. Em 2008, havia 11.844 pessoas que careciam de moradia na Espanha e, em 2012, esse número subiu para 22.238, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), que considera as que são usuárias de centros assistenciais de alojamento, por isso não se descarta que o número seja maior. Fernando*, com barba longa, caminha devagar arrastando um carrinho vermelho que guarda duas cartas de vinho e uma garrafa de água quase vazia. Não quer viver em um albergue embora tenha problema nas pernas e faça frio. Divorciado e com filhos maiores de idade, pede esmola aos clientes de dois grandes centros comerciais desta cidade, onde as histórias se repetem, como nos demais centros urbanos da Espanha. A maioria procura em algum momento um albergue ou restaurante social, mas há uma pequena porcentagem que escolhe ficar ao relento e não aceita ajuda, explica a assistente social Toñi Martín, membro da equipe da Unidade de Rua, um serviço municipal que atende na via pública pessoas sem teto. Os motivos pelos quais acabam na rua são inúmeros. Cerca de 45% citam a perda do emprego, enquanto 26% dizem que não conseguem mais pagar para morar, 20,9% se refere à separação do casal e 12,1% afirmam que foram despejados, segundo a pesquisa divulgada em dezembro pelo INE. “A crise não afetou as pessoas sem teto, mas derrubou os que estavam na corda bamba”, disse à IPS a diretora do Centro de Acolhida Municipal, Rosa Martínez. São as pessoas que antes podiam resistir que viram se romper sua rede de apoio familiar pelos embates da crise. Martínez, que dirige esse centro de 108 lugares, conta que nos últimos anos cresceu o número de sem-teto e seu perfil mudou. “Agora se vê famílias inteiras, gente que não pode pagar aluguel”, afirmou. “Nota-se um aumento de famílias, em sua maioria monoparentais (mães e filhos) que pedem algum tipo de ajuda de nossa rede”, revela um informe da Porta Única, instituição pública que coordena em Málaga a atenção às pessoas sem teto por meio de uma diversificada rede de abrigos. O desemprego na Espanha afeta 25,02% da população economicamente ativa e a metade de seus jovens, e este mês organismos internacionais prognosticaram que em 2013 o país terá uma situação econômica ainda pior do que no ano passado. Para enfrentar a crise, o governo do direitista Mariano Rajoy aplicou duros cortes orçamentários, mas é difícil desenhar um retrato nacional de como estes repercutem nos serviços assistenciais para pessoas sem teto. Como a execução dos fundos ocorre por meio de convênios com as diferentes municipalidades do país, em alguns lugares “existe o compromisso firme das administrações e em outros há dificuldades”, explicaram à IPS fontes da Cáritas, entidade da Igreja Católica referência na atenção à população socialmente excluída. “Em Málaga não haverá redução de fundos este ano”, afirma Martínez. O INE indica que quase 46% dos sem-teto são estrangeiros, como Hans, um alemão corpulento que balbucia algumas palavras em espanhol. Também é o caso de um latino-americano que prefere não dar seu nome e procura enterrar um histórico de álcool e acusação de maus tratos à sua companheira que o lançaram, aos 51 anos, no albergue onde dorme. E isto apesar de ter diploma universitário e ter exercido sua profissão por algum tempo. Dados do INE também mostram que 11,8% das pessoas sem teto têm estudo superior e 60,3% possuem o ensino secundário. Muitos estrangeiros sem ter onde morar, sobretudo originários do Marrocos, retornam aos seus países devido à precária situação trabalhista, disse à IPS a trabalhadora social Paula de Santos, do Centro de Acolhida Municipal. “Não encontram trabalho como antes na coleta de azeitona e morango”, explicou. Uma boa porcentagem é de pessoas com problemas de drogas e álcool, mas também há outras sem vícios, desempregados por longo tempo, que não encontram trabalho e esgotaram os auxílios-desemprego, conta Martín enquanto percorre as ruas com um furgãozinho branco. Com ela, diz Pepe, seu motorista, buscam e atendem os que chamam carinhosamente de “nossas crianças”. Foi Martín que convenceu Dolores, de 61 anos, a ir ao centro de acolhida onde atualmente dorme e faz três refeições por dia. Assim, deixou para trás seu companheiro que a maltratava e com o qual compartilhava o vício do álcool. “Me banho sozinha, apoiando na torneira porque fico tonta”, contou, orgulhosa, à IPS, com um sorriso que ilumina seu rosto marcado pelas rugas. Dos sem-teto, 32%  perderam sua casa em 2012, enquanto 44,5% estavam há mais de três sem ter onde morar, segundo o INE. “Há pessoas que fazem do viver na rua uma situação crônica, vão subsistindo e têm dificuldade para mudar a forma de vida”, disse Martínez. Sobre estas pessoas, Martín ressaltou que “tentamos, ao menos, que mantenham um mínimo de higiene”. Os que perderam seus tetos mais recentemente são os que mais usam os serviços assistenciais, disse a funcionária. Jesús cumpriu uma condenação de dez anos e contou à IPS, diante do albergue onde dorme, que está na rua desde que ficou em liberdade, dia 27 de dezembro. O caráter itinerante destas pessoas também joga contra elas porque ter um domicílio é um requisito para receber algumas ajudas. “Em certas ocasiões, desejamos que seu domicílio seja a sede do centro de acolhida”, enfatizou Santos. Envolverde/IPS * Várias fontes desta reportagem falaram à IPS omitindo seus sobrenomes.


por Inés Benítez, da IPS
Protesto contra a usina de Koodankulam. Foto: K.S.Harikrishnan/IPS Ambiente

Os polêmicos esforços nucleares da Índia

[caption id="attachment_76085" align="aligncenter" width="473" caption="Protesto contra a usina de Koodankulam. Foto: K.S.Harikrishnan/IPS"][/caption] Nova Délhi, Índia, 28/1/2013 – Quando a Índia ingressou na indústria mundial da energia nuclear, há cinco anos, muitos acreditaram que este país encontraria rapidamente o caminho para acabar com sua dependência do cobre e de outros combustíveis fósseis. Afinal, a Índia já tinha em funcionamento 19 reatores atômicos que geravam cerca de quatro mil megawatts (MW) de energia, embora essa atividade desafiasse um embargo internacional liderado pelos Estados Unidos, imposto depois que Nova Délhi realizou um teste nuclear em 1974. A negativa da Índia em assinar o Tratado sobre Não Proliferação das Armas Nucleares (TNP), assinado por 189 nações desde 1968, também contribuiu para seu isolamento. Foi necessária uma isenção especial do Grupo de Fornecedores Nucleares, de 47 membros, para que Nova Délhi pudesse participar do comércio nuclear internacional. Com o levantamento dos embargos, o governo indiano projetou uma série de “parques nucleares”, que serão construídos por investidores estrangeiros ao longo de sua costa peninsular, o que acrescentará 40 gigawatts de energia até 2020. O governo avança com o projeto apesar da resistência de agricultores e pescadores – que temem pelo seu sustento e forma de vida pelo fato de a zona ser vulnerável a movimentos sísmicos – que contam com um recurso legal contra os planos nucleares apresentado por intelectuais à Suprema Corte. “Havia poucas dúvidas de que o plano de construir numerosas usinas atômicas ao longo da costa teria problemas”, disse o cientista M. V. Ramana, do Programa sobre Ciência e Segurança Global, da norte-americana Universidade de Princeton. “Devido aos crescentes conflitos sobre os recursos naturais, a oposição às novas usinas nucleares apenas se intensificarão no futuro. A escassez de água, por exemplo, ficará cada vez mais severa ao longo do ano”, explicou Ramana à IPS por e-mail. “Os pescadores já veem seu sustento ameaçado por diversos problemas. Os efluentes das plantas industriais e de energia lançados no mar é um deles”, afirmou. Intensos protestos acontecem em Jaitapur, no Estado de Maharashtra, onde a empresa francesa Areva S/A constrói um parque nuclear com capacidade de gerar 9.900 megawatts, e também em Koodankulam, no Estado de Tamil Nadu, onde está quase concluída uma usina atômica russa. Ramana pontuou que o deslocamento de pessoas é outro problema. “O tratamento oferecido aos afetados por instalações nucleares é menos do que satisfatório”, afirmou. “Para começar, os planejadores devem se dar conta de que o país tem de escolher entre suas ambições e a democracia”, acrescentou. “Os intensos e prolongados protestos em Koodankulam e Jaitapur são um sinal de que todas as outras opções para se fazer ouvir estão bloqueadas”, ressaltou. Vinod Kumar Gaur, um dos principais especialistas em sismologia do país e professor no famoso Instituto Indiano de Astrofísica, na cidade de Bangalore, afirmou que os estudos de risco em Jaitapur estão terrivelmente equivocados. Segundo Gaur, é significativo que a localização do complexo nuclear de Jaitapur, construído para ser o maior do mundo, esteja a apenas 110 quilômetros da represa de Koyna, que sofreu graves rachaduras após ser afetada, em 1967, por um terremoto de magnitude 6,4 na Escala Richter. Também é importante assinalar, destacou Gaur, que em 1524 um grande tsunami atingiu a costa ocidental da Índia, cem quilômetros ao norte de Jaitapur. A possibilidade de ocorrer outro não foi considerada nos atuais estudos. O especialista disse à IPS que “a confirmação ou refutação por meio de pesquisas científicas é fundamental para determinar a segurança sísmica da usina de Jaitapur, e o último terremoto no Japão demonstrou que é relevante considerar todas as possibilidades quando se trata de projetar uma usina de energia nuclear”. E acrescentou que “igualmente importante é que os resultados das pesquisas científicas sejam divulgados, para desta forma dissipar os temores das pessoas”. Ramana afirmou que é hora de o hermético Departamento de Energia Atômica participar de um honesto e transparente debate sobre seus planos, em particular com as pessoas que vivem perto dos locais escolhidos para os projetos. Esse organismo “tem de abandonar posições cientificamente indefensáveis, como suas afirmações de que seus reatores são 100% seguros e de que a probabilidade de um acidente nuclear é zero”, ressaltou. “Instalar um reator afetará o meio ambiente, devido à expulsão de contaminantes radioativos e água quente”, alertou Ramana, lembrando que, se “os moradores se negam terminantemente a ter uma usina nuclear em meio a eles, o Departamento deve cancelar a construção das usinas”. O Departamento evitou participar das consultas públicas exigidas pelo Movimento Popular Contra a Energia Nuclear, que lidera a resistência em Koodankulam. “Realizar debates públicos se tornou ainda mais importante depois de Fukushima”, enfatizou S. O. Udayakumar, líder dessa organização desde 1988. O acidente nessa central nuclear japonesa “ajudou as pessoas a entenderem melhor os perigos”, disse à IPS. “Considerando que a sociedade civil pediu insistentemente um debate público, o primeiro-ministro deve dar um passo e realizar consultas em todo o país sobre a importância de uma opção energética tão perigosa e cara”, opinou, por sua vez, Karuna Raina, ativista do Greenpeace na Índia. Envolverde/IPS  


por Ranjit Devraj, da IPS
Ex-combatentes angolanos em um curso de pedreiro do Programa Acreditar, da Odebrecht, em Luanda. Foto: Mario Osava /IPS Ambiente

A diplomacia da construção de Angola e Brasil

[caption id="attachment_76081" align="aligncenter" width="500" caption="Ex-combatentes angolanos em um curso de pedreiro do Programa Acreditar, da Odebrecht, em Luanda. Foto: Mario Osava /IPS"][/caption]   Luanda, Angola, 28/1/2013 – O Brasil fez das grandes obras de infraestrutura um caminho próprio para a expansão internacional de sua economia e de sua influência, com forte incidência no desenvolvimento de países pequenos, mas também com riscos. Em Angola, onde mais sobressai o papel das construtoras brasileiras, existem os riscos econômicos de um país jovem, dependente de exportações petrolíferas e com alta corrupção, em um ambiente sem fronteiras entre interesses públicos e privados. A Companhia Bioenergética de Angola (Biocom) é um exemplo. Para o projeto, destinado a atender o consumo nacional de açúcar, etanol e eletricidade, que manejará 32 mil hectares de cana, o grupo brasileiro Odebrecht se associou com a Sonangol, estatal petroleira angolana, e com a empresa Damer. A Damer foi criada às vésperas da constituição da Biocom, em 2007, pelo então presidente da Sonangol, Manuel Domingos Vicente, e por dois generais, Manuel Helder Vieira Dias, chefe da Casa Militar da Presidência, e Leopoldino Fragoso, seu principal conselheiro. Vicente, agora vice-presidente do país, tem com esses dois generais investimentos em diversos setores, do petróleo ao ramo imobiliário. São os exemplos mais visíveis da incubadora de empresários emanada do Estado e da consequente criação de uma “burguesia nacional”. Em Angola quase tudo depende do governo. A terra é propriedade do Estado e qualquer empreendimento começa por uma concessão oficial do terreno ou local. A Sonangol é sócia de inúmeras empresas, onde investe seus elevados ganhos obtidos com petróleo. Nepotismo e favoritismo são evidentes, mas a sociedade, escassamente organizada, pouco reage. “Inclusive Deus, ao buscar um salvador da humanidade, escolheu seu próprio filho”, diz uma anedota popular a respeito das fortunas de governantes, militares e seus familiares. O jornalista Rafael Marques de Moraes, líder de um grupo anticorrupção, publica denúncias graves no site www.makaangola.org, muitas documentadas, mas até agora sem provocar escândalos demolidores, como ocorreria em outros países. Nesse terreno movediço se insere a Odebrecht, com relações privilegiadas com o governo por executar obras estratégicas, muito demandadas pela população, nas áreas viária, de eletricidade e de água. Há 28 anos no país, também é uma grande investidora, nos setores mais variados e com lucros milionários, cujo valor não é público. O presidente do Conselho de Administração do conglomerado brasileiro de construção e outros negócios, Emilio Odebrecht, visita Luanda todos os anos para reuniões com José Eduardo dos Santos, presidente angolano desde 1979. O grupo multiplicou sua visibilidade por operar a rede de supermercados Nosso Super, presente em todas as províncias, o Belas Shopping, joia comercial de Luanda, e participar da reestruturação da capital com reformas de bairros lotados, abertura de avenidas e saneamento básico. Seu peso na construção se multiplica pela disposição de empregar e capacitar mão de obra local. É sua estratégia nos quatro continentes em que opera, mas ganha maior relevância em Angola, onde a escassez de trabalhadores qualificados trava o desenvolvimento, apesar do auge do petróleo. A Odebrecht é atualmente a maior empregadora privada do país, com cerca de 20 mil funcionários diretos, 93% angolanos. A central hidrelétrica de Capanda, sua primeira obra no país, “foi a escola de uma elite” de técnicos, agora em importantes cargos no governo e em empresas, disse Justino Amaro, o primeiro angolano que chegou a gerente na direção central da Odebrecht Angola. O agora responsável de Relações Internacionais quase abandonou a empresa, quando chegou à selva de Capanda, onde aceitou trabalhar em 1989, abandonando as comodidades de Luanda e assumindo os perigos da longa guerra civil (1975-2002), que por várias vezes interrompeu a construção e a prolongou por 17 anos. Seu chefe o convenceu a ficar, por causa das possibilidades de subir dentro da empresa. Pôde seguir seus estudos de economia à distância e fazer cursos no Brasil, em uma apoiada dedicação que impulsionou sua carreira. A capacitação de trabalhadores é essencial nos projetos da Odebrecht, e até meados do ano passado 79 mil angolanos se beneficiaram do processo. Estudantes universitários selecionados recebem treinamento especial, como possíveis dirigentes futuros da empresa. O grupo também oferece formação profissional às populações vizinhas aos seus grandes projetos, preparando jovens para trabalhos em construção, sem necessariamente contratá-los. Para isto, criou o Programa Acreditar, que já formou cerca de três mil trabalhadores em suas três unidades em Angola. José Simão, de 54 anos, tem sete filhos de seu casamento e mais seis em distantes províncias, onde participou da guerra. “A vida era combater e fazer filhos”, ironizou. Em outubro se formou como pedreiro no Acreditar de Luanda, com três salas de aula, laboratório e biblioteca no Zango, um bairro do Programa de Realojamento de Populações, iniciativa governamental executada pela Odebrecht para reassentar famílias deslocadas pela urbanização ou vulnerabilidade de sua moradia anterior. Simão já construía casas por conta própria, mas no curso adquiriu novas técnicas. “Em 18 dias se aprende muito, não só sobre a profissão, mas de saúde, meio ambiente e segurança do trabalho”, ressaltou. Agora pede um emprego ao governo. “Servimos por longo tempo ao Estado como combatentes”, acrescentou, coincidindo com seus colegas, dezenas de soldados desmobilizados que o Acreditar acolhe para melhorar sua reinserção profissional. Essa e outras ações de responsabilidade social, como levar água, escolas, luz e esportes a comunidades pobres, acentuam a imagem de cooperação para o desenvolvimento passada pela atividade construtora. Isto tem especial valor neste país ainda em construção, 37 anos depois de sua independência, e em reconstrução pós-guerra. Contudo, Angola foi, sobretudo, um grande negócio e impulsionou a conversão da Odebrecht em uma das maiores empresas brasileiras e a mais internacionalizada. Uma queixa comum entre angolanos bem informados é o alto custo de suas obras. Outras construtoras brasileiras, com Andrade Gutierrez, Camargo Correa e Queiroz Galvão, também aproveitam o grande mercado angolano. Essa ampla presença não é uma operação claramente privada. Seus grandes projetos contam com créditos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, que financia a exportação de insumos e serviços necessários às obras de empresas brasileiras. Isso contribuiu para colocar Angola, em 2008, como principal importador africano de produtos brasileiros, superando África do Sul e Nigéria, com populações e economias muito maiores. Mas, em 2010, essas compras caíram pela metade, se recuperando um pouco nos anos seguintes. São riscos de operar em uma economia dependente dos altos e baixos do preço do petróleo e com elevados custos de vida e de produção pela bonança energética. Sua moeda tende a sobrevalorizar e isto encarece os produtos nacionais e barateia os importados. O governo angolano fomenta a produção nacional para substituir as importações, que dominam o mercado interno. A Biocom é parte desse esforço, como a Zona Econômica Especial, onde haverá 73 indústrias a 30 quilômetros de Luanda e cuja infraestrutura inicial foi construída pela Odebrecht. Porém, uma abertura do mercado pode inviabilizar muitos empreendimentos agrícolas e industriais. Por isso, Angola ignora o livre comércio proposto pela Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, que integra junto com outros 13 países. O risco é de mudança na política econômica e também do poder, especialmente para projetos vinculados a governantes cujas decisões podem ser questionadas no futuro. Nada parece ameaçar a estabilidade do regime de 33 anos de Santos, mas projetos industriais como o da Biocom são de longuíssimo prazo. Envolverde/IPS


por Mario Osava, da IPS
Aisha, de 21 anos, segura seu filho enquanto relata como foi vítima de tráfico. Foto: Rebecca Murray/IPS Inter Press Service - Reportagens

Compradas, vendidas e abusadas no Iêmen

[caption id="attachment_75892" align="aligncenter" width="500" caption="Aisha, de 21 anos, segura seu filho enquanto relata como foi vítima de tráfico. Foto: Rebecca Murray/IPS"][/caption]   Aden, Iêmen, 24/1/2013 – Aisha, de 21 anos, segura firme seus dois filhos enquanto conta sua história de horror. Ela cresceu em Mogadíscio, capital da Somália, onde se apaixonou e, há quatro anos, teve um filho sem ter se casado. Quando sua família a ameaçou de morte por ter destruído sua “honra”, fugiu. A jovem animou-se a fazer uma perigosa viagem com contrabandistas, pelo Oceano Índico até o Iêmen, para o que acreditava que seria uma vida melhor. No entanto, agora Aisha e outras quatro mulheres ocupam ilegalmente uma moradia em um assentamento de Basateen, na cidade portuária de Aden. Todos os dias pede esmola, e, frequentemente, se prostituem por dois dólares. Depois dividem o pouco que ganharam com sua proxeneta. “Só quero ir para um lugar mais seguro para meus filhos. Em outro país”, suspira Aisha. As redes internacionais de tráfico humano se expandem no Iêmen, e com a pobreza como fator crucial, as mulheres exploradas sexualmente são as vítimas mais vulneráveis. Embora o futuro de Aisha possa parecer sombrio, seu destino é melhor do que o de uma jovem etíope de 17 anos, que morreu abandonada em um hospital de Haradh, na fronteira entre Iêmen e Arábia Saudita. Comprada e vendida dentro da rede de tráfico que opera em todo o Iêmen, foi violentada e surrada reiteradamente, até que morreu. Agora está enterrada longe de seu lar e o traficante que a assassinou está livre. “Entre 2011 e 2012 houve aumento significativo no tráfico de pessoas, bem como nos casos informados de violência e abusos cometidos contra recém-chegadas”, disse Edward Leposky, do escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Em 2011, esta agência registrou 103 mil novas chegadas ao Iêmen. Trata-se do maior fluxo de entrada registrado desde que se começou a documentar estatísticas, há seis anos, e Leposky suspeita que em 2012 houve um aumento. Acredita-se que os números reais são muito superiores. As mulheres que emigram, principalmente etíopes e somalianas, frequentemente fogem da pobreza e da violência reinantes em seus países de origem. Pagam centenas de dólares para chegar a pontos de trânsito em Djibuti ou Puntlandia (autoproclamado Estado autônomo da Somália), e também para serem levadas ao Iêmen em perigosas embarcações lotadas, cujos trajetos podem durar entre um e três dias. Seu objetivo é chegar aos Estados do Golfo, como a Arábia Saudita, para ali poderem trabalhar. Mas no caminho costumam ser violentadas por gangues, asfixiadas pela lotação ou jogadas ao mar por contrabandistas, além de serem feitas reféns por traficantes ao chegarem a solo iemenita. “A maior parte do tráfico que vemos aqui é o de quem chega do Chifre da África para a Arábia Saudita”, disse Eman Mashour, integrante da equipe antitráfico da Organização Internacional para as Migrações (OIM) no Iêmen. “Existe uma rede. As mulheres podem ser severamente exploradas pelos traficantes. Elas nos contaram que ao longo do caminho mantinham relações sexuais com os contrabandistas”, afirmou a especialista. A confirmação está nas sombrias conclusões do estudo Escolhas desesperadas, divulgado em outubro pelo Conselho Dinamarquês para os Refugiados e pela Secretaria Regional de Migrações Mistas. “As redes criminosas se estendem por Etiópia, Iêmen, Djibuti e Arábia Saudita. Parece altamente provável que esses grupos tenham contatos em outros países”, afirma o documento. Cidadãs locais são vítimas do tráfico Entretanto, nem todas as vítimas do tráfico sexual no Iêmen são imigrantes. Os breves casamentos entre moças iemenitas e visitantes dos Estados do Golfo (prática conhecida como turismo sexual) são o resultado da pobreza entre grandes famílias iemenitas, principalmente nas áreas rurais. “Adolescentes de 15 anos são objeto de comércio sexual em hotéis e clubes, nas localidades de Sanaa, Aden e Taiz”, diz o informe de 2012 sobre tráfico do Departamento de Estado norte-americano. “A maioria dos turistas que buscam sexo com meninas e meninos no Iêmen procede da Arábia Saudita, e uma quantidade menor possivelmente chegue de outras nações da região. As jovens iemenitas que se casam com turistas sauditas não se dão conta da natureza temporária e exploradora destes acordos, e algumas são submetidas ao tráfico sexual ou abandonadas nas ruas da Arábia Saudita”, acrescenta o estudo. Leila, uma vítima de outro tipo de tráfico sexual, tinha 15 anos quando finalmente conseguiu se esconder no refúgio secreto de uma mulher, em um tranquilo bairro de Sanaa. Leila, que apanhava de sua família, havia fugido de casa dois anos antes e vivia nas ruas. Logo uma mulher mais velha a recolheu e a levou para um bordel. Ali, para fazer com que ficassem, as garotas eram fotografadas mantendo relações sexuais e chantageadas, eram drogadas e obrigadas a atender clientes à noite. A mulher ficava com o dinheiro que recebiam. Leila e a mulher que trabalhava como sua proxeneta foram presas quando a jovem estava para ser traficada para a Arábia Saudita. Leila passou dois anos na prisão por seu “crime”. Sua família a repudiou, acusando-a de destruir sua honra, e seu irmão a ameaçou de morte. Quando o pessoal da União de Mulheres Iemenitas visitou a prisão, Leila soube que existia o pequeno refúgio de mulheres, uma raridade no Iêmen, e foi um de seus primeiros casos. Com ajuda psicológica e trabalhos práticos os dias foram passando, e ficou no abrigo até que o pessoal resolveu a disputa familiar. O Código Penal do Iêmen prevê dez anos de prisão para quem participa da compra ou venda de seres humanos. Embora reconheça a atual crise política no país, o informe do Departamento de Estado ressalta que em 2012 faltaram esforços governamentais para enfrentar o tráfico. “O governo do Iêmen não foi capaz de fornecer dados sobre a aplicação da lei para contribuir com este informe, e tampouco instituiu procedimentos formais para identificar e proteger as vítimas de tráfico ou para adotar medidas a fim de abordar o tráfico com fins de exploração sexual comercial”, diz o documento. Nicoletta Giordano, diretora das atividades da OIM no Iêmen, alertou para a inatividade. “Há um florescente negócio de contrabando e tráfico. É um negócio internacional. Muitos países ocidentais se centram nos assuntos da pirataria, e a atenção que se deveria dedicar ao contrabando e ao tráfico ficam pelo caminho”, ressaltou. Seria de interesse para todos os países envolvidos adotar um enfoque mais integral sobre o manejo de fronteiras, para dar assistência e proteção a quem necessita e para enfrentar quem possa representar uma ameaça, acrescentou Giordano. Envolverde/IPS * Os nomes das vítimas de tráfico sexual são fictícios.


por Rebecca Murray, da IPS
Modelo de avião não tripulado. Foto: Divulgação Inter Press Service - Reportagens

Cresce polêmica nos Estados Unidos sobre ataques com aviões não tripulados

[caption id="attachment_75880" align="alignleft" width="327" caption="Modelo de avião não tripulado. Foto: Divulgação"][/caption] Washington, Estados Unidos, 24/1/2013 – O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, inicia seu segundo mandato sem ter conseguido dar respostas ao crescente debate público e dentro do próprio governo sobre sua arma preferida contra o terrorismo: os aviões não tripulados. Durante meses, altos funcionários do governo discutem sobre os termos de um “manual” para os ataques com aviões não tripulados contra suspeitos de terrorismo no Paquistão e em outros países, incluindo regras detalhadas sobre os que devem ser incluídos nas “listas de morte”, sob quais circunstâncias podem ser assassinados e qual agência estará encarregada de fazê-lo. Também se discute se o governo deve ou não, ou até que ponto, tornar públicas essas regras e explicar suas justificativas legais. O debate pode ser crucial para as intenções de Obama de reduzir a presença militar norte-americana no Oriente Médio. O mandatário deseja retirar tropas da região, mas mantendo uma estratégia que possa destruir a rede islâmica radical Al Qaeda e as organizações a ela filiadas. Nos últimos quatro anos. os ataques com aviões não tripulados tiveram um papel predominante nessa estratégia. A Agência Central de Inteligência (CIA), que administra o programa de aviões não tripulados no Paquistão e compartilha a responsabilidade com o Pentágono sobre seu uso no Iêmen, exige maior liberdade para realizar os ataques. Mas o funcionário nomeado por Obama para dirigir a CIA, John Brennan, é partidário de se adotar regras mais severas, moderar os ataques e mostrar maior transparência. Segundo o jornal The Washington Post informou no dia 21, a polêmica estaria chegando ao fim com uma série de compromissos do governo que, entre outras coisas, permitira à CIA continuar com seu programa no Paquistão por mais um ano ou dois sob as regras atuais. Isto cobre o período em que Washington espera reduzir o número de seus soldados no Afeganistão, dos atuais 66 mil para dez mil, ou menos. Micah Zenko, membro do independente Conselho de Relações Exteriores (CFR) e destacado crítico do uso de aviões não tripulados, disse que o Paquistão foi excluído de forma antecipada do “manual”. Acrescentou que “se os Estados Unidos decidem não aplicar o manual no Paquistão, então essencialmente carece de significado, porque 85% dos assassinatos seletivos realizados fora do campo de batalha desde os atentados de 11 de setembro de 2011 ocorreram nesse país”. Zenko é autor do informe Reformando as políticas dos Estados Unidos sobre ataques com aviões não tripulados, que marca em grande parte o atual debate. “A vasta maioria dos assassinatos seletivos e os ataques com aviões não tripulados não estarão contemplados no manual”, afirmou em uma teleconferência de imprensa organizada pelo CFR no dia 22. Desde os atentados de 11 de setembro em Nova York e Washington, as forças dos Estados Unidos realizaram 425 ataques seletivos, praticamente todos com aviões não tripulados, em pelo menos três países: Paquistão, Iêmen e Somália. Estima-se que no total foram assassinadas três mil pessoas (mais do que nos atentados nessas duas cidades), e ainda é alvo de intenso debate até que ponto essas vítimas eram integrantes ou tinham vínculos com organizações terroristas. O uso de aviões não tripulados gera polêmica também por marcar um retrocesso em relação à política contra os assassinatos seletivos adotada por governos anteriores, desde que estes foram denunciados pela primeira vez na década de 1970. O operador de um avião não tripulado senta-se diante de uma tela de vídeo em uma instalação segura nos Estados Unidos, até 13 mil quilômetros de distância de seu alvo. Particularmente controversos são os chamados “ataques especiais”. Antes os aviões não tripulados assassinavam somente suspeitos de terrorismo identificados e incluídos nas “listas de morte” elaboradas por diversas agências dos Estados Unidos, mas os “ataques especiais” são realizados contra pessoas cuja identidade exata é desconhecida. Para o ex-diretor nacional de inteligência dos Estados Unidos, Dennis Blair, a distância entre o operador do avião e seu objetivo não é em si mesmo polêmica. Na teleconferência de imprensa do CFR, afirmou que os aviões não tripulados devem ser considerados como “franco-atiradores de longa distância, em um sentido militar”. Também defendeu os “ataques especiais”, embora dependendo de circunstâncias específicas. “Se estamos lutando no Afeganistão, por exemplo, e sabemos que ao longo da fronteira com o Paquistão há grupos do movimento islâmico Talibã que se reúnem e treinam, creio que podemos autorizar que tanto franco-atiradores como aviões não tripulados disparem contra homens armados que vemos subindo em caminhonetes e se dirigindo à fronteira afegã”, explicou. Ao mesmo tempo, porém, expressou fortes reservas sobre vários aspectos da atual política, sobretudo quanto à participação da CIA que, devido à sua natureza encoberta, impede que fale abertamente de suas operações. “Creio firmemente que uma grande parte do uso de aviões não tripulados deveria acontecer sob comando militar”, ressaltou Envolverde/IPS * O blog de Jim Lobe sobre política externa dos Estados Unidos pode ser lido em www.lobelog.com.


por Jim Lobe, da IPS
As leis palestinas ainda contemplam redução de sentenças para assassinatos de mulheres por questões de “honra”. Foto: Jillian Kestler-D’Amours/IPS Inter Press Service - Reportagens

Leis ainda amparam assassinatos de mulheres na Palestina

[caption id="attachment_75874" align="aligncenter" width="500" caption="As leis palestinas ainda contemplam redução de sentenças para assassinatos de mulheres por questões de “honra”. Foto: Jillian Kestler-D’Amours/IPS"][/caption]   Ramalá, Palestina, 24/1/2013 – “Antes de ser assassinada, tampouco vivia. Contaremos sua história, começando por seu homicídio até seu nascimento”. Assim começa uma nova canção da banda de hip hop palestina DAM, que busca chamar a atenção para o persistente problema dos “assassinatos de honra”. O vídeo que acompanha a música mostra uma jovem de rosto inexpressivo sobre uma cama. De repente seu corpo se eleva e uma bala entra em sua fronte. Seu próprio irmão apertou o gatilho. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, em todo o planeta, cerca de cinco mil mulheres e meninas são assassinadas e abusadas por anos por parentes homens, como castigo por um comportamento que, segundo estes, manchou a reputação da família. Entre 2007 e 2010, foram registrados os “assassinatos de honra” de 29 mulheres na Cisjordânia. É um número relativamente pequeno comparado com outros lugares, mas suficiente para causar preocupação. Acredita-se que, na realidade, os números desse tipo de crime seja maior, mas o Ministério do Interior palestino se nega a divulgar mais dados. A Cisjordânia tem quatro milhões de habitantes e Gaza 1,5 milhão. “Treze mulheres palestinas foram assassinadas nos territórios em 2012, pelos assim chamados homicídios de honra”, disse Soraida Hussein, do Comitê Técnico de Assuntos de Mulheres, grupo assessor do Conselho Legislativo Palestino, formado pouco antes dos Acordos de Paz de Oslo, de 1993. “A maioria desses assassinatos nada teve a ver com proteger a honra das famílias. Foram cometidos por diversas razões criminais. Em geral, as mulheres são assassinadas durante disputas familiares ou financeiras, e depois os homens dizem que foi em defesa da honra, para terem as penas reduzidas”, afirmou. A lei palestina na Cisjordânia é baseada no Código Penal Jordaniano, dos artigos 97 ao 100, que reduz as condenações por qualquer assassinato cometido em “estado de ira”. Já a lei em Gaza se baseia no Código Penal Egípcio, que também diminui as sentenças de homens considerados culpados pela morte de familiares mulheres em chamados casos passionais, sobretudo quando argumentam que o fizeram em honra da família. Segundo o Centro de Mulheres para Ajuda Legal e Aconselhamento, em Ramalá, apenas uma minoria de homens que cometem estes crimes é condenada e, em geral, as sentenças são de poucos meses. Em 2006, a Autoridade Nacional Palestina (ANP), que controla a Cisjordânia, assinou a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (Cedaw). Hassan al-Ouri, porta-voz do presidente palestino Mahmoud Abbas, afirmou há alguns dias que a ANP apoia os esforços para acabar com a discriminação contra as mulheres sempre e quando não se violar a shariá (lei islâmica). Hussein disse que essa declaração é absurda. “Em nenhuma parte do Alcorão diz que o assassinato de alguém está justificado com base na discriminação sexual ou ira. Nossa organização tem o apoio de líderes religiosos de diversos setores que condenam os assassinatos e, de fato, pedem penas mais severas para os responsáveis”, destacou Hassan. Contrariamente à crença popular, as leis sobre crimes passionais foram herdadas das diversas potências ocupantes, como turcos, franceses e britânicos, assegurou Hassan. Os comentários do porta-voz de Abbas foram feitos após confirmar que a ANP não tem intenções de proibir abertamente os “assassinatos de honra”, apesar das promessas feitas pelo presidente no ano passado. Nessa ocasião Abbas assegurou que suspenderia a lei 340, que contempla o perdão a um assassino se este cometeu o crime ao encontrar sua esposa com outro homem. A promessa foi transmitida pela televisão depois da indignação popular gerada pelo brutal assassinato de uma jovem no sul da Cisjordânia. Em maio de 2011, Aya Baradiya, de Hebron, foi espancada e estrangulada por membros de sua própria família, que a acusaram de estar se socializando com homens. Seu corpo foi encontrado em um poço. Muitos consideraram que as promessas de Abbas tiveram o único propósito de fazer o caso cair no esquecimento. O artigo 340 nunca foi invocado em um tribunal palestino desde sua sanção em 1960. Entretanto, as leis inspiradas nos códigos egípcio e palestino, que permitem a redução da pena em “assassinatos de honra”, permanecem intocadas. “A questão dos direitos das mulheres é usada como um futebol político. As promessas de mudanças feitas pelos que estão no poder são resultado da pressão pública, mas o assunto é ignorado quando as forças conservadoras se colocam de pé”, explicou Hussein à IPS. “Além disso, a ANP só assinou a Cedaw porque não tem peso legal, já que a Palestina na época não era considerada oficialmente um Estado. Nossos líderes estão afastados da maioria dos palestinos, que se opõem a esses homicídios”, acrescentou. Hussein destacou que a ocupação israelense afetou ainda mais o tecido social palestino. “As pessoas tentam alimentar suas famílias em uma economia decrépita. Os palestinos são assassinados de forma indiscriminada por Israel quase em ritmo diário. Por isso, às vezes, os direitos das mulheres ficam em segundo lugar na mente das pessoas”, ponderou. “É preciso mudar as leis, bem como os programas escolares e a atitude da mídia, pois todos reforçam a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens’, ressaltou Hussein. Envolverde/IPS


por Mel Frykberg, da IPS
Apenas 12% das senegalesas usam anticoncepcionais. Foto: karah24 /CC-BY-ND-2.0 Inter Press Service - Reportagens

Senegal tenta pôr freio ao “baby boom”

[caption id="attachment_75770" align="aligncenter" width="488" caption="Apenas 12% das senegalesas usam anticoncepcionais. Foto: karah24 /CC-BY-ND-2.0"][/caption]   Dacar, Senegal, 23/1/2013 – Uma mãe de 25 anos, originária da província senegalesa de Tambacounda, acredita que os anticoncepcionais prejudicam o útero e causam problemas à saúde no longo prazo, como aumento da pressão arterial e enxaquecas crônicas. “Foi isso que ouvi de algumas mulheres em um ônibus”, disse à IPS esta mãe de cinco filhos, que mora em Dacar desde que se divorciou. Tinha 16 anos quando foi obrigada a se casar com seu primo de 35, que bateu nela e a ameaçou apenas por ter sugerido o uso de anticoncepcionais. “Me bateu e jurou que me mataria se voltasse a falar disso. Então, continuei tendo filhos”, contou. Devido a ideias equivocadas sobre planejamento familiar, dogmas religiosos e falta de serviços de saúde reprodutiva, milhares de mulheres por todo o Senegal sofrem. Ter filhos é um sinal de riqueza neste país da África ocidental com 12 milhões de habitantes, um conceito que incentivou o baby boom (auge da natalidade), afirmam especialistas. “Esta antiga crença implica que ter mais filhos significa mais mão de obra para trabalhar na terra, ou a possibilidade de ver seu filho conseguir ser um homem rico, ministro ou presidente da república”, disse à IPS a conselheira matrimonial Fatoumata Sow. “Enquanto isso, muitas filhas trazem para seus pais dinheiro ou gado como dote quando se casam”, acrescentou Swo. “Desde que as mulheres se casam, começam a ter filhos”, contou, ela mesma mãe de nove. “Embora esteja usando o Senegal como caso de estudo, esta é uma tendência em toda a África ocidental”, acrescentou, explicando que o planejamento familiar é um tabu em muitas partes da região, sobretudo em comunidades rurais onde o analfabetismo é grande e os serviços de planejamento familiar não existem. “A falta de políticas efetivas sobre planejamento familiar e a ideia de que os filhos são símbolos de riqueza prejudicam seriamente a fábrica social do Senegal”, disse à IPS um médico de um dos hospitais públicos do país, que não quis se identificar por medo de represálias das autoridades. “Pergunto a cada mulher grávida que consulto se alguma vez usou anticoncepcional, e a resposta que recebo sempre é que não”, afirmou. Só 12% das senegalesas usam anticoncepcionais, segundo a ministra da Saúde e Ação Social, Awa Marie Coll-Seck, em uma conferência em Londres no ano passado. Coll-Seck, que confessou que a taxa de uso de anticoncepcionais em seu país é uma das menores do mundo, afirmou que o governo tenta fazer com que aumente dos 12% atuais para 27% até 2015. Isto significa conseguir aumento de cinco pontos percentuais ao ano. “É possível”, disse, otimista, a ministra à imprensa em Dacar. Em um esforço para criar consciência e romper os estereótipos, o governo lançou no ano passado um plano de ação nacional pelo planejamento familiar. A iniciativa chega no tempo certo. Segundo a ministra, uma em cada duas mulheres deseja ter mais tempo entre uma gravidez e outra, mas não tem acesso a métodos seguros para fazer isso. A campanha também terá o objetivo de sensibilizar os homens sobre a importância do planejamento familiar como assunto do casal, e não apenas das mulheres. O governo traçou a meta de assistir 350 mil mulheres nos próximos três anos, e para isso dividiu a campanha em três fases, segundo o diretor nacional de Saúde Reprodutiva e Sobrevivência Infantil, Bocar Mamadou Daff. A primeira é gerar consciência por intermédio de meios de comunicação de massa, com mensagens a setores específicos da população e integrando líderes políticos para que apoiem publicamente o planejamento familiar. A segunda implica a criação de um sistema de distribuição de anticoncepcionais nas comunidades, integrando também o setor privado, disse Daff. E a terceira etapa consiste em verificar e garantir que os métodos de planejamento familiar sejam acessíveis a todas as pessoas que necessitam. Segundo Sow, um melhor planejamento familiar também pode ajudar o governo a resolver problemas relacionados, com os quais luta há muitos anos, como desnutrição e falta de moradias. Em dezembro, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) informou ter proporcionado tratamento vital a mais de 850 mil meninas e meninos severamente desnutridos na região do Sahel, zona afetada por uma grave fome desde 2012. O Senegal apresenta uma das taxas mais altas de desnutrição aguda do mundo. Na província de Matam chega a 19%, segundo o Programa Mundial de Alimentos. “Onde há muitas crianças para alimentar, o chefe de família deve ter muito dinheiro para atendê-los, de outra forma ficarão doentes pela fome e morrerão, ou acabarão nas ruas pedindo esmolas”, advertiu Sow. Porém, nem todos aprovam a nova campanha do governo. Muitos líderes muçulmanos conservadores como Al-Hajj Ibrahima Dieng acreditam que são práticas “anti-islâmicas”. Dienge declarou que “é Alá que nos dá filhos, e cabe a ele prover tudo o que necessitam para permitir que cresçam fortes e saudáveis”, disse à IPS este religioso, pai de 15 filhos. “Quer que seja diferente? Juro por Alá que nunca serei parte desse absurdo”, acrescentou. Outros, como o respeitado imã Mbara Segnane, estão muito preocupados com o baby boom. Este religioso afirmou em 2012 que o governo deveria resolver o problema. Inclusive sugeriu que as autoridades impusessem um limite de filhos por família. No entanto, alguns especialistas, como Sow, acreditam que a mudança só se conseguirá paulatinamente. “Penso que como sociedade ainda não estamos prontos para uma evolução assim. As tradições e crenças culturais afetaram tanto nossa mentalidade e nos lavaram o cérebro de tal forma que estamos cegos. Mas, ainda há esperança”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Issa Sikiti da Silva, da IPS

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