Sanções do Ocidente atentam contra a saúde dos iranianos

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Sanções do Ocidente atentam contra a saúde dos iranianos


por Jasmin Ramsey, da IPS


[caption id="attachment_89240" align="alignleft" width="300" caption="Siamak Namazi. Foto: Cortesia do entrevistado"][/caption] Washington, Estados Unidos, 6/6/2013 – O governo do Irã compartilha a responsabilidade pela escassez de suprimentos médicos em seu território, mas as sanções impostas pelo Ocidente são as principais causas do problema, que em alguns casos tem consequências devastadoras, segundo Siamak Namazi, assessor empresarial radicado em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O comércio humanitário pode estar isento de sanções, mas isso não basta quando está estrangulada a válvula bancária necessária para realizar as transações, acrescentou Namazi. A IPS conversou em Washington com o assessor, que já foi membro do Wilson Center, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais e da Fundação Nacional para a Democracia, todos dos Estados Unidos. IPS: Você é autor de um documento político publicado pelo Wilson Center no qual, essencialmente, culpa as sanções do Ocidente pela escassez de suprimentos médicos no Irã. Como chegou a esta conclusão? Siamak Namazi: Concluímos que o governo iraniano merece duras críticas pelo mau manejo que fez da crise, pela má destinação dos escassos recursos de divisas e por não atacar as práticas corruptas. Mas a principal causa são as sanções que regulam as transações financeiras com o Irã. Isto é, apesar de Teerã poder e dever tomar mais medidas para melhorar a situação, não pode resolver este problema sozinho. Enquanto as sanções se tornam cada vez mais severas, é provável que as coisas piorem, a menos que sejam eliminadas as barreiras ao comércio humanitário. Minha equipe e eu chegamos a estas conclusões após entrevistarmos altos funcionários, fornecedores farmacêuticos, especificamente empresas europeias e norte-americanas em Dubai, bem como importadores e distribuidores privados de medicamentos em Teerã. Também falamos com vários bancos internacionais. Nenhum de nós teve a mínima participação financeira no negócio farmacêutico, e todos trabalhamos pro bono. IPS: Em que se baseia para fazer estas afirmações, dadas as isenções humanitárias ao regime de sanções, que permitem a chegada de alimentos e remédios? SN: O Congresso dos Estados Unidos merece honras por aprovar uma lei que deixa extremamente claro que o comércio humanitário de alimentos, produtos agrícolas, medicamentos e suprimentos médicos estão fora da longa lista de sanções contra o Irã. Esta lei é o motivo pelo qual os laboratórios do Ocidente podem fazer negócios com o Irã. Sinceramente aplaudo este gesto. Lamentavelmente, o que vemos é um caso que os advogados chamam de “frustração de propósito”. Teoricamente, o Irã pode comprar remédios ocidentais, mas na prática é extremamente difícil pagar os produtos necessários para salvar vidas. Apesar da posição do Congresso, várias ordens executivas restringindo as transações financeiras com o Irã seguem em vigor, o que torna totalmente impossível implantar essa isenção. As sanções também limitam o acesso do Irã a moedas fortes. As vendas do petróleo iraniano estão seriamente restringidas e se converteram efetivamente em uma troca virtual com o país comprador, principalmente China e Índia. IPS: Nem todos os bancos iranianos estão na lista negra dos Estados Unidos. Há várias entidades de crédito internacionais, pequenas e grandes, que poderiam realizar transações humanitárias. Por que o Irã não pode usar estes canais para importar os medicamentos de que precisa? SN: Os bancos iranianos não relacionados são pequenos e carecem da infraestrutura internacional necessária para enviar dinheiro de Teerã para as contas da maioria dos bancos estrangeiros. Dependem de bancos intermediários para processar tais transações. Lamentavelmente, é muito difícil, quando não impossível, estes bancos iranianos encontrarem essas contrapartes, mesmo quando tentam facilitar o comércio humanitário totalmente legal. No final, o Irã precisa passar por muitos processos e participa de um constante jogo de gato e rato, tentando encontrar criativamente uma via para pagar seus fornecedores ocidentais de medicamentos. Isto não só aumenta os custos dos remédios para os iranianos, como também causa importantes demoras. Enquanto isso, as prateleiras das farmácias se esvaziam de medicamentos vitais e os pacientes sofrem. IPS: Por que o Irã não pode comprar os remédios que precisa da China, Índia ou Japão, pois vende petróleo para esses países? SN: O Irã já aumentou suas compras de remédios e suprimentos médicos de todos os países que você citou. Porém, como disse antes, devido à natureza altamente regulada e patenteada do negócio farmacêutico, os remédios vitais frequentemente são insubstituíveis. Mesmo havendo um medicamento alternativo elaborado por chineses, indianos ou japoneses, existe uma barreira adicional. Os remédios precisam ser registrados antes de ser permitida sua importação. Assim como os Estados Unidos têm a Administração de Medicamentos e Alimentos (FDA), o Irã, como a maioria dos países, possui um órgão equivalente que deve aprovar o medicamento. A molécula específica tem de ser registrada antes de ser minuciosamente testada. No Irã esse processo demora um tempo excessivo e, sem dúvida, deveria ser melhorado, embora nos últimos tempos tenham sido dados passos para agilizá-lo criando exceções. O Ministério da Saúde às vezes permite que um remédio, aprovado para venda em outro país, também seja importado e vendido no Irã. Mas esse processo apressado tem importantes consequências em termos de efeitos secundários. Há, inclusive, notícias na imprensa sobre mortes ocorridas quando foram importados medicamentos inferiores ao padrão. Para ser honesto, não entendo a lógica dos que promovem esta solução. Argumentam que as isenções humanitárias existentes são suficientes e afirmam que toda escassez de remédios no Irã é consequência do mau gerenciamento por parte de Teerã. Inclusive ouvi acusações de que o Irã está criando intencionalmente essa escassez para gerar indignação pública contra os Estados Unidos. Mas se eles afirmam que o regime de sanções está bem da forma como está, então como é possível tentarem promover a substituição da China e da Índia? Além de negar aos pacientes iranianos seu direito de receber o melhor tratamento existente, por acaso não estão também rechaçando o direito dos laboratórios norte-americanos realizarem um negócio perfeitamente legítimo? IPS: Existe uma solução para tudo isso? SN: Totalmente, e a detalhei em meu editorial no International Herald Tribune e também no informe do Wilson Center. Simplesmente não tem sentido dizer que o comércio está restrito. No caso dos medicamentos a solução é, possivelmente, mais simples do que no de outras mercadorias humanitárias. Com menos de cem empresas norte-americanas e europeias que possuem as patentes dos remédios mais avançados dos quais se necessita, podemos criar isenções limitadas, mas nada ambíguas, às restrições bancárias, permitindo essencialmente a estas empresas venderem medicamentos ao Irã sem enfraquecer o regime de sanções em geral. Para abordar a escassez de divisas fortes se deveria permitir ao Irã converter alguns de seus atuais bens em bancos chineses, indianos e outros do mundo em moedas fortes com o fim exclusivo de comprar suprimentos médicos. Alternativamente, os Estados Unidos poderiam revisar sua decisão sobre o assunto e permitir que as empresas europeias que devem milhares de milhões de dólares ao Irã saldem suas dívidas pagando a um laboratório em nome do Irã. Aos dirigentes políticos dos Estados Unidos se recorda que os remédios estão altamente subsidiados no Irã. Os importados recebem destinações de moedas fortes a preços muito subsidiados e novamente são apoiados mediante empresas de seguro que são propriedade do governo. Isso significa que, definitivamente, o governo iraniano ganha muito menos riales para cada dólar que destina a um importador de medicamentos do que o que ganha vendendo sua moeda forte a importadores da maioria dos outros produtos. Envolverde/IPS

Foto: Divulgação/ Internet Inter Press Service - Colunistas

Um congresso para liberar o mundo da pena de morte

[caption id="attachment_89032" align="alignleft" width="270" caption="Foto: Divulgação/ Internet"][/caption] Barcelona, Espanha, junho/2013 - Entre os dias 12 e 15 de junho acontecerá em Madri o V Congresso Mundial Contra a Pena de Morte, que reunirá uma seleção internacional de especialistas, ganhadores de prêmios Nobel da Paz e representantes de instituições internacionais e não governamentais especializadas no tema. Participarão vários milhares de pessoas, entre as quais testemunhas, ex-condenados e familiares de sentenciados à pena capital, procedentes de aproximadamente 90 países. Este grande acontecimento tem cada vez maior visibilidade no calendário dos direitos humanos e uma influência maior na política internacional. Serão apresentados os dados atuais da longa e dura batalha contra a pena de morte no mundo. Em linhas gerais, é claro que estamos nos encaminhando para um mundo livre da pena de morte. Em dezembro passado, uma maioria de países votou a favor da resolução da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) que promove a suspensão da pena de morte. Essa foi a quarta votação na ONU desde 2007, e a cada vez aumenta o número de nações que apoiam a moratória. Este poderoso sinal político e diplomático está acompanhado de fatos positivos. É cada vez maior o número de países que consideram que a pena capital é indevida e errônea, tanto humana quanto juridicamente. Segundo a ONU, cerca de 150 países já aboliram a pena de morte de sua legislação ou na prática, o que constitui um grande avanço, já que, na década de 1970, apenas 16 haviam tomado essa atitude. O repúdio às execuções pelo Estado em todas as regiões, culturas e religiões ganhou força ao ficar evidente, de maneira progressiva, que esta horrenda prática é cruel, irrevogável e uma violação do direito à vida. E que não tem nenhum efeito de dissuasão no grau de criminalidade. Bem ao contrário, incita à violência. Uma das regiões que será objeto de particular atenção é a que compreende o Oriente Médio e o norte da África, onde – em contraste com a África subsaariana e com independência dos progressos alcançados graças à lúcida e perseverante ação de cidadãos comprometidos –, são múltiplos os desafios que ainda devem ser enfrentados. A Anistia Internacional indica que no Iraque foram executadas 129 pessoas no ano passado e que o Irã vem em segundo lugar, depois da China, no número de execuções, enquanto o Iêmen continua horrorizando a opinião pública ao executar pessoas que supostamente cometeram crimes quando eram menores de idade. A Arábia Saudita, onde a decapitação mediante espada é o método mais normal de execução, continua aplicando a pena capital a pessoas acusadas de crimes sem homicídio, como adultério, roubo, tráfico de drogas e feitiçaria. Argélia, Jordânia, Kuwait, Líbano e Marrocos impuseram condenações à morte em 2012, enquanto, felizmente, continuaram se negando a realizar as execuções. É de se desejar que logo o Egito comunique com maior transparência as práticas neste campo. Na Tunísia, onde começou a Primavera Árabe, os sinais são mistos: no ano passado, o presidente interino comutou para prisão perpétua as sentenças de 122 pessoas que, segundo o governo, estavam no corredor da morte. Pela primeira vez, esse país votou a favor do chamado das Nações Unidas pela moratória. Entretanto, em 2011 voltou a impor a pena de morte. Isso não significa que os desafios estejam circunscritos ao Oriente Médio e norte da África. A China executa mais pessoas do que o resto do mundo em seu conjunto. A Bielorússia continua sendo, de maneira obstinada, o único país que executa pessoas na Europa, onde a pena capital é taxativamente excluída no Artigo 2º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia: “Direito à vida. 1. Toda pessoa tem direito à vida. 2. Ninguém poderá ser condenado à pena de morte e nem executado”. Nos Estados Unidos continua diminuindo o número de Estados que praticam a pena capital, com a recente adesão de Maryland. A América Latina – outra lição que o Sul dá em pouco tempo – está livre em sua integridade. Os dois únicos países onde ainda não figura da legislação embora não se pratique execuções há vários anos, Cuba e Guatemala, renovaram há pouco sua decisão de não realizar execuções e já não possuem presos no “corredor da morte”. Apesar dos maus exemplos dados há pouco tempo por Japão, Indonésia e Índia, ao voltarem a executar pessoas após vários anos sem fazê-lo, devemos ver que, em seu conjunto, a situação está mudando de tal forma que a cada ano nos aproximamos mais rapidamente do momento em que a pena de morte se transformará em lembrança. Na Espanha acontecerá o Congresso Mundial Contra a Pena de Morte, organizado pela associação francesa Ensemble Contre la Peine de Mort (Juntos Contra a Pena de Morte), com patrocínio dos governos de França, Noruega, Suíça e do país anfitrião, em colaboração com a Coalizão Mundial Contra a Pena de Morte. O Congresso será uma grande oportunidade para que os Estados adotem uma posição firme contra esta forma de violação dos direitos humanos, marcará pautas para orientar os membros da sociedade civil internacional – políticos, juristas, especialistas – na elaboração de estratégias para conseguir a abolição da pena de morte em escala mundial. Também enviará uma clara mensagem ao mundo: este grande objetivo é não apenas conceitual e eticamente essencial, mas politicamente possível. Envolverde/IPS * Federico Mayor Zaragoza é presidente da Comissão Internacional Contra a Pena de Morte. 


por Federico Mayor Zaragoza*
Turquia Inter Press Service - Reportagens

Funcionários públicos turcos em greve contra a repressão

Doha, Catar, 5/6/2013 – Milhares de funcionários da administração pública da Turquia aderiram ontem aos protestos que sacodem esse país há cinco dias, e se declararam em greve por dois dias em repúdio à dura repressão desencadeada pelo governo. A Confederação de Sindicatos Públicos, que reúne cerca de 240 mil trabalhadores distribuídos em 11 filiais, convocou a greve em resposta ao “terrorismo de Estado contra manifestantes em todo o país”. No comunicado também afirma que o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan “mostrou sua animosidade contra a democracia”. A jornalista Rawya Rageh, da rede de televisão árabe Al Jazeera, informou de Ancara, capital turca, que a greve de dois dias é significativa. “Os grevistas procuram mandar uma mensagem de que não se trata apenas de jovens nas ruas, nem de um parque ou reclamações individuais, mas de algo maior”, acrescentou. Mas o êxito da medida ainda está por se ver, acrescentou, lembrando que “os sindicatos são muito fortes na Turquia. Será uma prova para demonstrar que podem cumprir o que disseram”. A convocação para a greve ocorreu cinco dias depois de começarem as manifestações maciças contra o governo de Erdogan, de tendência islâmica, reprimidas fortemente pelas forças de segurança. Nesse espaço de tempo já morreram pelo menos dois homens. O primeiro faleceu no dia 3, atropelado em Istambul. O segundo morreu durante manifestação na cidade de Antioquia, perto da fronteira com a Síria. Segundo o canal de televisão NTV, trata-se de Abdullah Comert, de 22 anos, que na noite do dia 3 teria recebido um disparo na cabeça. Porém, as autoridades afirmam que Comert sofreu um golpe e negam que tenha sido ferido à bala. As redes sociais ficaram inundadas de denúncias e vídeos mostrando a repressão da polícia. A Fundação de Direitos Humanos da Turquia informou que pelo menos mil manifestantes sofreram “maus tratos e torturas” em mãos das forças de segurança. Ontem o vice-primeiro-ministro, Bulent Arinc, pediu desculpas aos manifestantes feridos nos choques com a polícia e se comprometeu a falar com os organizadores do protesto original que querem salvar o parque Gezi de Istambul. No dia 28 de maio, houve uma concentração nesse local para evitar o corte de árvores para dar lugar a um centro comercial. No entanto, com o passar dos dias o protesto cresceu e se voltou contra o governo, que respondeu com violência. Este é o maior desafio que o governo enfrenta desde que assumiu em 2002, mas não impediu Erdogan de continuar com sua viagem pelo Magreb. No dia 3, viajou ao Marrocos, onde insistiu em afirmar que a situação em seu país voltava à calma. O primeiro-ministro também rechaçou a ideia de uma “Primavera Turca”, como disseram algumas pessoas que o acusam de tentar impor reformas religiosas em um Estado laico. Também chamou os manifestantes de “vândalos”, antes de recordar que foi eleito democraticamente. Erdogan atribuiu as manifestações a “extremistas”, “dissidentes” e ao opositor Partido Republicano do Povo. “A situação volta à calma. Quando regressar, os problemas serão resolvidos. O Partido Republicano do Povo e outros dissidentes colocaram as mãos nestes incidentes”, afirmou em Rabat, capital do Marrocos. O analista turco Fadi Hakura, do grupo de estudos Chatham House, com sede em Londres, disse à Al Jazeera que “o primeiro-ministro adotou um enfoque realmente desafiador e de confrontação em relação aos manifestantes de Istambul e outras cidades. Já os acusou de serem extremistas e também insinuou que há um vínculo entre manifestantes e conspiradores estrangeiros”, afirmou. Envolverde/IPS


por Correspondentes da AJ
“O deserto é o lugar natural para o beduíno”, afirma Jahalin. Foto: Lucy Westcott/IPS Inter Press Service - Reportagens

“Israel trata os beduínos como pessoas em uma caixa”

[caption id="attachment_89048" align="aligncenter" width="529" caption="“O deserto é o lugar natural para o beduíno”, afirma Jahalin. Foto: Lucy Westcott/IPS"][/caption]   Nações Unidas, 5/6/2013 – Durante milhares de anos, os beduínos habitaram zonas desérticas que agora pertencem a Israel. Contudo, nas seis últimas décadas foram paulatinamente deslocados pelos assentamentos judeus. Eid Jahalin, de 49 anos, vive no deserto perto de Jerusalém, e é um dos ativistas que lutam pelos direitos dos beduínos e para que o Estado de Israel os reconheça como um povo indígena. Jahalin afirmou que Israel só quer “terra sem gente”, e alertou que o vasto conhecimento tradicional dos beduínos, mantido por séculos e crucial para enfrentar o impacto da mudança climática, está em risco. A IPS conversou com o ativista em sua primeira visita à sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. IPS: Qual o último ocorrido em relação ao governo de Israel e o deslocamento dos beduínos? EID JAHALIN: O governo de Israel continua com as mesmas propostas, o mesmo projeto, e trabalha mais rápido. Não há nenhum tipo de pressão sobre Israel e ninguém deterá seus planos. Há poucos dias houve certa resistência ao plano (de recolocação dos beduínos). Os colonos opinaram sobre a criação de uma cidade beduína em Nuweimeh, disseram que não queriam dar “um prêmio” aos beduínos depois que o secretário de Estado norte-americano, John Kerr, visitou Israel e declarou que deveriam ser suspensos os planos de construção de assentamentos. O ministro da Defesa israelense, Moshe Ya-alon, é novo e disse que estudaria o plano. Creio que o governo e os colonos trabalham juntos, são sócios. Quando há pressão e o governo está patinando, este dá lugar aos colonos, e então diz que a culpa é deles. O que não pode fazer, os colonos fazem. IPS: Por quanto tempo esta situação vai durar? EJ: Vem ocorrendo desde 1967. Entre esse ano e 1978, era apenas assunto do exército, que chegava a um lugar e o declarava zona militar. Depois dava a terra aos colonos. A partir de 1978, instalou-se o caos. Os últimos grandes deslocamentos aconteceram em 1997 e 1998. Quase duas mil pessoas foram mobilizadas. As famílias foram instaladas em contêineres perto de um lixão. Até hoje há pessoas que não têm dinheiro e continuam vivendo ali, em habitáculos de folha de flandres. IPS: Qual é a situação dos beduínos hoje? EJ: Um dos mais graves problemas é que muitas crianças, algumas de oito anos ou ainda menores, sofrem doenças por terem nascido perto do lixão, enfermidades que nem mesmo são reconhecidas pelo Hadassha, principal hospital israelense em Jerusalém. Há uma família completa, pai, mãe e três filhos, que tem uma doença que ninguém sabe qual é. Os hospitais dizem que é a primeira vez que a veem. IPS: Com é seu contato com as autoridades israelenses? EJ: Se o governo israelense apenas deixasse os beduínos em paz... Proibiu o acesso de toda comunidade à estrada que leva até a escola. É assim que ajudam? O governo não nos permite acesso aos mananciais de água, e se um beduíno sai para o deserto, é levado à justiça e colocado na prisão com multa de mil a dois mil shekels. O deserto é o lugar natural para o beduíno, mas o governo não permite. Confina os beduínos como se fossem pessoas dentro de uma caixa. Se o governo de Israel diz que está ajudando os povos indígenas, gostaria que me dessem um exemplo. IPS: Que tipo de conhecimento específico sobre a vida no deserto os beduínos têm e que poderia ficar perdido? EJ: Há um mês, por exemplo, fui ao vale do Jordão, em Jericó, e todos se queixavam do calor incomum. Quando voltei, ninguém da minha família se queixava porque, como beduínos, estamos acostumados e sabemos quando nos expor ao Sol e quando ficar à sombra, quando o deserto é perigoso e quando não é. Em Nova York não sei exatamente onde estou, mas se me encontro no deserto sei tudo. O clima está mudando, temos que pensar para frente e considerar o que deve ser feito. Como vivo no deserto, é fácil para mim enfrentar as mudanças, ao contrário de quem está nas cidades ou aldeias. O planeta é uma pequena bola. Se alguém cria um problema ou danifica algo de um lado, isso será sentido em outro, por isso temos que protegê-lo. IPS: Nesta sua primeira visita à ONU, o que deseja que a comunidade internacional aprenda sobre a situação do povo beduíno? EJ: Espero que aprenda muito. Queremos acender uma luz vermelha sobre a situação dos beduínos, sobre o que estão passando, e sobre a situação da mudança climática. Venho aqui para alertar o mundo sobre isso. Envolverde/IPS


por Lucy Westcott, da IPS
Especialistas alertam que a mudança climática é responsável pelo derretimento das geleiras do Himalaia. Foto: Amantha Perera/IPS Inter Press Service - Reportagens

O Himalaia está mudando… para pior

[caption id="attachment_89045" align="aligncenter" width="529" caption="Especialistas alertam que a mudança climática é responsável pelo derretimento das geleiras do Himalaia. Foto: Amantha Perera/IPS"][/caption]   Jhirpu Phulpingkatt, Nepal, 5/6/2013 – Os habitantes de Jhirpu Phulpingkatt, aldeia localizada ao pé do Himalaia, a cerca de 110 quilômetros da capital Katmandu, estão em alerta vermelho. Enquanto os impactos da mudança climática maltratam as montanhas que se erguem sobre eles, estes aldeões das ribeiras do rio Bhote Koshi vivem com medo ao som das mensagens de texto, que podem trazer avisos para evacuação. Seu medo tem fundamento. Uma pesquisa feita por especialistas da Universidade de Milão, na Itália, mostra que a neve do Monte Everest, na Cordilheira do Himalaia, diminuiu 180 metros nos últimos 50 anos, enquanto as geleiras perderam 13% de seu tamanho. Na última semana de maio, todos os olhares se centraram no Everest, que, com 8.848 quilômetros de altitude, é a montanha mais alta do mundo, na fronteira entre China e Nepal. Isso porque no dia 30 completaram-se 60 anos da primeira vez que foi escalado. E esta ocasião foi motivo de celebração e também de pânico, quando foi possível ver que, debaixo das camadas geladas que se desfaziam, surgiam rochas, chamando a atenção diante das rápidas mudanças que afetam esta majestosa cadeia montanhosa. Sudeep Thakuri, que liderou a equipe de pesquisadores, disse à IPS que, provavelmente, o derretimento contínuo e cada vez maior se deve ao aumento das temperaturas, que este ano estão 0,6 grau mais altas do que nos anos anteriores. Juntos, os dois fenômenos levaram à proliferação de enormes lagos de glaciais – gelo derretido e contido por diques naturais de pedra, lama e escombros – que podem ser sinônimo de desastre para quem vive nas partes rochosas abaixo. Avalanches, erosão, forte pressão da água e inclusive tempestades de neve podem causar transbordamento desses lagos, “liberando milhões de metros cúbicos de água em poucas horas, o que provocaria inundações catastróficas corrente abaixo”, afirma um estudo da Germanwatch, uma organização não governamental dedicada ao desenvolvimento sustentável. Esses transbordamentos são comuns: no último século, os cientistas registraram pelo menos 50 incidentes deste tipo. Um dos mais devastadores ocorreu quando o lago glacial Sangwang Cho, no Tibete, transbordou em 1954, inundando as cidades de Gyangze (120 quilômetros corrente abaixo) e Xigaze (a 20 quilômetros de distância). Agora, especialistas alertam que os lagos estão enchendo mais rápido do que nunca e que novos estão surgindo a um ritmo alarmante. “Se o aquecimento global continuar, tal como se prevê, é provável que haja aceleração da redução da espessura das geleiras”, disse à IPS Pradeep Mool, coordenador de programa no Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Regiões Montanhosas (Icimod), em Katmandu. “O perigo que representam as inundações derivadas de transbordamento de lagos glaciais aumentará”, advertiu. Pesquisas realizadas pelo Icimod mostram que na zona de Hindu Kush do Himalaia há cerca de 20 mil lagos glaciais, que se estendem do Afeganistão, no ocidente, até a Birmânia, no leste. A bacia do rio Dudh Kosi, no leste do Nepal, abriga 278 geleiras, sendo que algumas estão diminuindo ao ritmo de 74 metros por ano. Mool explicou à IPS que agora a região tem 34 lagos, incluídas 24 formações recentes, dez delas qualificadas como potencialmente perigosas, e alertou que os terremotos também representam uma séria ameaça. “A região de Hindu Kush no Himalaia é de extrema instabilidade sísmica. Os terremotos podem atuar como importantes disparadores de transbordamento de lagos glaciais”, ressaltou. Nos últimos 500 anos houve pelo menos um transbordamento na região de Seti Khola causado por atividade sísmica, lembrou Mool. Esse fato produziu um acúmulo de escombros de 50 metros de altura na região de Pokhara. Segundo Thakuri, o futuro bem-estar das geleiras depende amplamente do clima. São necessárias pesquisas científicas muito mais concretas para determinar possíveis resultados, acrescentou. Mas os que vivem nas ladeiras do Himalaia, como os moradores de Jhirpu Phulpingkatt, afirmam que já há evidências suficientes dos possíveis desastres que virão. As empinadas ladeiras das montanhas nesta aldeia, majoritariamente cobertas por exuberante vegetação, se veem frequentemente alteradas por profundos afundamentos causados por deslizamentos de terra que ocorrem após chuvas fortes. Na pequena central elétrica que fica bem ao lado do rio Bhote Koshi os funcionários dependem de um sistema de alerta para avisar os moradores do lugar quando tiverem de fugir dos transbordamentos. Porém, o gerente da usina, Janak Raj Pant, disse à IPS que o alerta daria apenas uma “janela” de fuga de seis a dez minutos, e que se estenderia somente até a fronteira nepalesa, que fica a dez quilômetros da central. Porém, muitos dos lagos glaciais que podem ter impacto sobre esta e outras aldeias ficam no Tibete, controlado pela China, e onde o sistema de alerta não chega. Mool afirmou à IPS que é necessário urgentemente melhor controle dos lagos e dos níveis de suas águas. O cientista apontou alguns exemplos isolados de implantação de vias de saída nos diques naturais de alguns lagos glaciais no Nepal e no Butão, para dar vazão ao excesso de água, mas disse que é preciso que tais ações preventivas sejam mais uniformes. Também existe um imperativo econômico para tomar medidas, pelo menos no vale do rio Bhote Koshi, onde as autoridades nepalesas planejam construir pelo menos quatro novas hidrelétricas. Envolverde/IPS


por Amantha Perera, da IPS
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Luta por aumento do salário mínimo federal nos Estados Unidos

Atlanta, Estados Unidos, 5/6/2013 – Em seu discurso sobre o Estado da União, no começo do ano, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu que fosse aumentado o salário mínimo nacional, que o Congresso mantém inalterado desde 2007, apesar de várias tentativas. No Senado tramita um projeto deste tipo que tem melhores possibilidades do que os anteriores de ser aprovado, graças à maioria do governante Partido Democrático. É que o chamado projeto de lei do Salário Mínimo Justo de 2013 foi apresentado pelo senador democrata Tom Harkin, do Estado de Iowa, e conta com 29 patrocinadores. Também há uma iniciativa semelhante na Câmara de Representantes, apresentada por George Miller, do Estado da Califórnia e também democrata, que tem 140 assinaturas. No dia 15 de março, a maioria dos representantes considerou um aumento mínimo de forma indireta, por meio de uma moção para agregá-lo a outra norma sobre o desenvolvimento da força de trabalho. Contudo, fracassou ao receber 184 votos a favor e 233 contra. Nenhum republicano a apoiou. “Sabemos que nossa economia fica mais forte quando recompensamos um trabalho diário honesto com um salário honesto. Entretanto, atualmente um trabalhador de tempo integral que ganha o salário mínimo recebe apenas US$ 14,5 mil por ano”, afirmou Obama, no dia 12 de fevereiro. “Mesmo com isenções fiscais, uma família com dois filhos que recebe essa quantia vive na pobreza”, acrescentou. “Declaremos esta noite que na nação mais rica da Terra ninguém que trabalhe tempo integral viva na pobreza e aumentemos o salário mínimo federal para US$ 9 a hora. Deveríamos poder conseguir isso”, ressaltou Obama. “Quando ouvi isso quase me atirei sobre a televisão e lhe dei um beijo”, disse a reverenda Harriet Bradley, do capítulo de Atlanta da organização 9to5. “Dizia a verdade”, acrescentou. Bradley trabalha como enfermeira em domicílio para pessoas filiadas à Medicare. Recebe um reembolso de US$ 2 por hora para transporte, mas não tem assistência médica ou outro benefício. Vive em um hotel onde paga por semana, porque sai mais barato do que um apartamento pequeno. Consultada sobre como faz para sobreviver, respondeu: “O Senhor Jesus Cristo me ajuda todos os dias”. O último aumento do salário mínimo federal aconteceu em 2009, correspondente ao reajuste concedido pelo Congresso em 2007. O atual salário mínimo federal é de US$ 7,25 a hora. O valor real do salário mínimo federal é na atualidade 31% menor do que em seu máximo de 1968, apesar de a produtividade ter crescido. Se tivesse aumentado de acordo com a inflação desde 1960, hoje estaria em mais de US$ 10 por hora. Entretanto, se tivesse aumentado segundo o crescimento da produtividade dos trabalhadores, estaria em US$ 22 a hora. Como o salário mínimo está abaixo da linha de pobreza, muitos trabalhadores são obrigados a recorrer a programas de ajuda social para moradia e cupões de alimentos, entre outros. O Comitê de Saúde, Educação, Trabalho e Pensão (Help, em inglês) solicitou, no dia 14 de maio, que os futuros reajustes estejam vinculados à inflação, um marco na história deste país. Apenas três senadores participaram da sessão do comitê: os democratas Harkin e Elizabeth Warren, de Massachusetts, junto com o republicano Lamar Alexander, do Tenessee. Harkin é um grande defensor da classe trabalhadora, e vai se aposentar ao fim de seu atual mandato. Mas uma de suas maiores prioridades antes de se afastar é conseguir a aprovação de um aumento do salário mínimo federal. Na mesma sessão, Warren foi muito dura com dois pequenos empresários que argumentaram que forçá-los a aumentar o salário os obrigaria a demitir funcionários. Dos 50 Estados deste país, 19 têm salários mínimos maiores que o federal e em dez deles estão atados ao índice de inflação. Na sessão do Comitê, Arindrajit Dube, professor de economia da Universidade de Massachusetts, afirmou que nos Estados com salários mínimos mais altos foram perdidos poucos, ou quase nenhum, postos de trabalho. Aumentar o salário mínimo é “importante porque a desigualdade nos Estados Unidos aumenta há décadas, e os que estão nos cargos mais altos levam a recompensa pela maior produtividade da economia”, destacou Roger Hickey, um dos diretores da organização Campaign for America’s Future. “Um aumento do salário-base, que não ocorre há muitos anos, não beneficiaria apenas as famílias que sofrem para colocar comida na mesa, mas também seria bom para o crescimento econômico se mais pessoas com baixos salários tivessem um aumento”, acrescentou. “Haverá maior demanda na economia para produtos e serviços que as corporações oferecem, e teríamos maior crescimento, portanto, mais emprego. Todo mundo ganharia”, insistiu Hickey. “Considero que a questão do salário mínimo será examinada antes do debate sobre o projeto de lei de imigração e, com sorte, acabará aprovado. No entanto, se os republicanos o frearem ou rejeitarem, será, sem dúvida, um assunto eleitoral”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Matthew Charles Cardinale, da IPS
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A ONU deve “desvalorizar” as armas nucleares

Nações Unidas, 4/6/2013 – Há poucas possibilidades, ou nenhuma, de as potências nucleares se comprometerem a se desfazerem gradualmente de seus perigosos arsenais na reunião de alto nível prevista para setembro na Organização das Nações Unidas (ONU). No começo deste ano, oito países (China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Índia, Israel, Paquistão, Rússia) possuíam aproximadamente 4.400 armas nucleares operacionais, segundo o último anuário do Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (Sipri), divulgado ontem. Cerca de duas mil destas estavam em alerta máximo operacional, segundo o Sipri. Jonathan Granoff, presidente do Global Security Institute e professor-adjunto de direito internacional na Escola de Leis da Universidade de Widener, nos Estados Unidos, afirmou à IPS que “o que se necessita para compensar a lentidão no controle de armas e do desarmamento é um maior perfil político”. Por exemplo, explicou, seria bom que certos líderes dissessem na Assembleia Geral da ONU: “Meu país é um dos 114 em uma zona livre de armas atômicas. Queremos ajudar as nações que dependem delas para sua segurança a obterem os benefícios” de liberar o mundo desses explosivos. O informe do Sipri destaca a necessidade de serem cumpridos os compromissos assumidos solenemente no ano passado na Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) para acelerar o desarmamento. As promessas devem ser respeitadas, ressaltou Granoff. Segundo o Sipri, se forem contadas as ogivas, o número total de armas atômicas desses oito países superaria os 17 mil, contra 19 mil no começo de 2012. A redução se deve principalmente ao fato de Estados Unidos e Rússia reduzirem seus inventários de determinados explosivos, cumprindo com o Tratado sobre Ulteriores Reduções e Limitações das Armas Estratégicas Ofensivas, e se desfizeram de outros já obsoletos. Ao mesmo tempo, destaca o Sipri, os cinco países reconhecidos como nucleares no TNP (China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Rússia) estão instalando novos sistemas de lançamento ou anunciaram planos de fazê-lo, o que indicaria que têm intenção de manter seus arsenais de forma indefinida. Destes, apenas a China parece estar aumentando o número de seus explosivos. Dos países que não aprovaram o TNP, Índia e Paquistão estão aumentando seu arsenal e fortalecendo seus sistemas de lançamento. “Uma vez mais, há pouca esperança de que os Estados possuidores de armas nucleares mostrem genuína disposição de renunciar aos seus arsenais”, afirma o Sipri. “Os programas de modernização de longo prazo, que estão em marcha nessas nações, sugerem que as armas atômicas ainda são uma marca de status e poder internacional”, observou Shannon Kile, pesquisador principal do Projeto sobre Controle de Armas Nucleares, Desarmamentos e Não Proliferação, do Sipri. O pesquisador destacou à IPS que, à luz das atuais tendências, não se pode esperar razoavelmente que a próxima reunião de alto nível na ONU sobre desarmamento tenha algum resultado tangível. No entanto, disse que a Assembleia Geral pode ter um papel positivo fortalecendo as normas existentes e os compromissos políticos. Isto implica, primeiro e antes de tudo, manter a pressão política sobre os Estados que possuem armas atômicas para que reduzam o papel e a relevância destes artefatos em suas estratégias de segurança nacional. Isto pode ser feito, por exemplo, convencendo esses governos a adotarem compromissos explícitos de não serem os primeiros a usar as bombas nucleares em caso de conflito e de não lançá-las contra países que não as possuem. No longo prazo, prosseguiu Kile, a Assembleia Geral pode contribuir para “desvalorizar” o peso das armas nucleares na geopolítica internacional e deslegitimar sua posse. “Isto certamente será parte de um processo de longo alcance, que exigirá considerável paciência e persistência diplomática, mas não se deve minimizar sua importância”, pontuou. Por sua vez, Granoff afirmou que foi formado um grupo de trabalho em Genebra que apresentará recomendações à reunião de alto nível sobre desarmamento. A Noruega acaba de ser sede de uma grande conferência internacional na qual foram feitas advertências sobre as horríveis consequências humanitárias das armas atômicas, contou Granoff. “Chama a atenção o fato de o P5 (China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia) não ter participado dessas atividades. Nossa tarefa é colaborar para que o assunto da abolição das armas nucleares suba na agenda política, e que esses países cooperem no desarmamento”, enfatizou. Sobre a ausência da Coreia do Norte na lista de países nucleares do Sipri, Kile explicou que ainda “não se sabe” com certeza se esse país asiático “produziu armas atômicas operacionais”. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Uma seleção dos produtos que constam dos cupons alimentares. Foto: Miss Karen/cc by 2.0 Economia

Cortes fiscais nos Estados Unidos apontam para os mais pobres

[caption id="attachment_88899" align="alignleft" width="225" caption="Uma seleção dos produtos que constam dos cupons alimentares. Foto: Miss Karen/cc by 2.0"][/caption] Atlanta, Estados Unidos, 4/6/2013 – O Congresso dos Estados Unidos está prestes a realizar cortes de milhares de milhões de dólares no Programa de Assistência Nutricional Complementar (SNAP), comumente conhecido por seus cupons de alimentos, que atende milhões de pobres e indigentes. A redução aconteceria em novembro, quando expiram os que foram incluídos, em versão ampliada, na Lei de Recuperação e Reinvestimento de 2009, o pacote de estímulo federal. O corte ficará entre US$ 8 e US$ 25 por mês por pessoa, dependendo do tamanho da família que integrar. O benefício médio já é tão baixo que chega a US$ 1,46 por refeição por pessoa. Mas isso não é suficiente para o atual Congresso, que busca espremer ainda mais o dinheiro do programa de emergência alimentar. Grupos como os Democratas Progressistas dos Estados Unidos fizeram circular pela internet uma petição contrária à redução. “Há uma luta para acabar com os direitos de ajuda social e, se isso ocorrer, independente da fórmula a ser usada, as pessoas serão prejudicadas”, disse à IPS Joyce Dorsey, primeira vice-presidente da Associação Nacional de Ação Comunitária. “Ainda é difícil encontrar emprego ou, quem tem, não recebe um salário que permita a uma pessoa manter um nível de vida adequado, então, naturalmente, precisa de assistência”, detalhou. Atualmente, 47,5 milhões de pessoas recebem ajuda alimentar de emergência por meio do SNAP, segundo os dados mais recentes do Departamento de Agricultura, o equivalente a mais de 15% dos habitantes dos Estados Unidos. O debate se centra na Lei de Reforma Agrícola, Alimentos e Empregos de 2013, conhecida como Lei Agrícola, que o Congresso volta a aprovar a cada cinco anos para fixar as políticas nacionais em matéria de agricultura, nutrição, conservação e silvicultura. O Comitê de Agricultura da Câmara de Representantes, liderado pelo opositor Partido Republicano, aprovou, em 15 de maio, cortes de quase US$ 21 bilhões no SNAP. A mudança de requisitos para se candidatar a receber a ajuda que consta do projeto implicará uma perda de benefícios para quase dois milhões de pessoas, entre elas meninas e meninos. Trata-se de pessoas que hoje podem solicitar cupões de alimentação porque sua renda líquida está abaixo da linha de pobreza, embora tenham bens ou renda bruta que os coloque acima do umbral para se candidatar ao SNAP. Atualmente as leis federais permitem que estas pessoas tenham acesso ao SNAP se estiverem aptas para se beneficiar de outro programa estatal, a Ajuda Temporária para Famílias Necessitadas. Segundo o Centro sobre Prioridades Orçamentárias e Políticas, haverá impacto em muitas famílias de baixa renda dos Estados Unidos que possuem um automóvel modesto. Isto também pode incluir famílias trabalhadoras com altos custos em matéria de cuidado com crianças ou idosos, com elevadas despesas médicas. O projeto da Câmara de Representantes também elimina os pagamentos de incentivos do SNAP a Estados que melhoraram a precisão nos pagamentos e na entrega de serviços, e reduz os fundos dedicados a educar sobre nutrição. Também restringe uma opção que permite aos Estados aprovarem famílias para se beneficiarem do programa se estas já se qualificam para receber ajuda em matéria de calefação por serem de baixa renda, algo que também faz a versão do Senado sobre a Lei Agrícola. No dia 14 de maio, o Comitê de Agricultura do Senado, liderado pelos Democratas, aprovou em uma audiência cortes para o SNAP de US$ 4,1 bilhões. “Isto freia os pagamentos excedentes para um pequeno número de pessoas no programa, que podem reclamar uma cobertura para calefação que não têm, ou ajuda alimentar, para receber benefícios” que estão acima do previsto, disse Cullin Schwarz, porta-voz da senadora democrata Debbie Stabenow, presidente do comitê. Schwarz afirmou à IPS que os Estados estão usando táticas administrativas, como qualificar pessoas para pagamentos em separado de ajuda energética de menos de US$ 10 anuais, supostamente com o único propósito de aumentar suas chances de se candidatarem aos cupons de alimentos. “Quinze Estados fornecem uma soma muito pequena de ajuda para calefação em casa, de apenas US$ 1 por ano, o que não ajuda realmente ninguém a pagar por esse serviço”, ressaltou. Caso seja aprovado o projeto do Senado, o Escritório de Orçamento do Congresso estima que 500 mil pessoas receberão, em média, US$ 90 a menos. Porém, o escritório de Stabenow insiste que este não é um corte na estrutura de benefícios. “Obterão exatamente o que se supunha que teriam no programa baseado em seus gastos reais”, afirmou o porta-voz. Diante da pergunta sobre o que pensa das negociações entre as duas casas do Legislativo, Schwarz respondeu: “Se os republicanos podem apresentar maneiras adicionais de reduzir o gasto que não reduzam os benefícios padrões ou prejudiquem as famílias verdadeiramente necessitadas, estamos abertos a discuti-las”. A senadora democrata Kirsten Gillibrand propôs uma emenda para retirar os cortes no SNAP da Lei Agrícola, e compensar os custos limitando os reembolsos por seguros de cultivos aos provedores. “As famílias que vivem na pobreza, nossas crianças, nossos veteranos, nossos idosos, parte de nosso pessoal ativo, sofrerão se reduzirmos os cupons de alimentos. Creio que não devemos equilibrar a dívida ou o déficit sobre as costas destes norte-americanos que trabalham duro e que simplesmente têm fome”, declarou Gillibrand durante a audiência. A emenda foi rejeitada. Mais da metade dos democratas se uniu a quase todos os republicanos para vetá-la. Entretanto, uma emenda proposta pelo senador republicano David Vitter para que violadores, pedófilos e assassinos não possam ser beneficiados pelo SNAP foi aprovada por unanimidade. Envolverde/IPS


por Matthew Charles Cardinale, da IPS
Estudantes em Quibdó, capital de Chocó, um dos departamentos onde aumenta o deslocamento. Foto: Jesús Abad Colorado/IPS Inter Press Service - Reportagens

Deslocamentos não param na Colômbia

[caption id="attachment_88895" align="aligncenter" width="529" caption="Estudantes em Quibdó, capital de Chocó, um dos departamentos onde aumenta o deslocamento. Foto: Jesús Abad Colorado/IPS"][/caption]   Bogotá, Colômbia, 4/6/2013 – Os municípios colombianos da costa do Oceano Pacífico estão na mira de traficantes de drogas e de armas, que levam ao deslocamento forçado na região, afirma um informe apresentado no dia 31 de maio, pela não governamental Consultoria para os Direitos Humanos e o Deslocamento (Codhes). Um dos fatores que disparam o número de pessoas que abandonam suas casas está “nas disputas e estratégias de consolidação de domínios territoriais por parte dos atores armados”, assegurou o diretor da Codhes, Marco Romero. Nessa região, o fenômeno “está condicionado pela localização geográfica, com um histórico de abandono estatal que favorece o comércio da droga, ao qual se soma o plano do governo conhecido como “locomotiva mineira”, que aumentou a produção desde 2009, e, com ela, a ambição dos atores armados”, acrescentou o ativista. Este país vive em guerra interna desde o começo da década de 1960. Atualmente, o governo de Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), negociam uma agenda de paz em Havana. Entretanto, na Colômbia atuam diversos grupos armados, como máfias do narcotráfico e milícias paramilitares de extrema direita. O informe da Codhes – a fonte não governamental mais respeitada quanto a estatísticas sobre este fenômeno – indica que, no ano passado, 92.596 pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas e lugares de origem em toda a região do Pacífico, o que equivale a 36% do total de refugiados em todo o país. Desde 1999 se deslocaram no Pacífico 863.334 pessoas, segundo a Codhes, que também indica que 2012 foi o pior ano nessa região e marcou uma alta de quase 22% em relação a 2011. No âmbito nacional, foram registrados no ano passado 256.590 casos, isto é, 2.556 a menos do que em 2011, quando as vítimas somaram 259.146. Porém, aumentaram os casos de deslocamento maciço, um fenômeno que sofreu aumento de 98% em relação a 2011. “Considera-se deslocamento maciço quando um único episódio de violência provoca a migração de pelo menos dez famílias ou 50 pessoas”, explicou à IPS a pesquisadora Paola Hurtado, da Codehs. Na região do Pacífico esta modalidade registrou alta de 45% nos últimos dois anos. As populações mais afetadas são afrocolombianas (51.938) e indígenas (18.154), que se concentram nos departamentos que têm litoral no Oceano Pacífico: Nariño, Cauca, Valle do Cauca e Chocó. “O caso dos afrodescendentes é dramático”, disse na apresentação do informe Ariel Palacios, da não governamental Conferência Nacional de Organizações Afrocolombianas. “As políticas estatais de proteção não são efetivas e o racismo nas cidades é nefasto. Por isso a maioria tenta se assentar em populações pequenas para reduzir a gravidade da situação”, detalhou. Outra novidade é o deslocamento intraurbano, dentro das cidades ou de uma para outra, à qual a Codhes dedica boa parte de seu informe e que atribui a disputas entre grupos criminosos pelo controle do tráfico varejista de drogas. Romero disse que “embora pareça paradoxal, em meio ao conflito e à crise humanitária, o país caminha em busca de soluções de paz e de reparação das vítimas, com a Lei 1.448 e os diálogos de paz que realizada. Ele se referia à Lei de Vítimas e Restituição de Terras, cuja aplicação começou em 2012 para responder ao principal fenômeno da guerra, que é a contraface do deslocamento: a apropriação agrária ilegal. Essa lei “é positiva porque reconhece as vítimas como tais, aceitando que, se o Estado não pôde protegê-las, deve fazê-lo agora”, disse à IPS o coordenador de pesquisas da Codhes, Gabriel Rojas. “Também é positiva porque lhes garante recursos econômicos”, equivalentes a cerca de US$ 30 milhões, acrescentou. “No entanto, sabemos, e o ministro da Agricultura que deixa o cargo, Juan Camilo Restrepo, concordou: existem graves problemas de organizações e registro, o que dificulta os processos e em alguns casos revitimiza as pessoas, porque lhes provoca ansiedade saber que existe uma lei que as protege e, no entanto, em um ano e meio não conseguiu uma implantação adequada”, observou. A Colômbia é um dos países com maior deslocamento interno no mundo. As estimativas oficiais e não governamentais se aproximaram e se situam em cerca de cinco milhões de pessoas desde a década de 1980. A tal ponto chegou a situação que, em 1998, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados abriu um escritório permanente em Bogotá. A IPS solicitou a opinião e dados da governamental Unidade para a Atenção e a Reparação Integral das Vítimas, mas só conseguiu a promessa de resposta, “que não é imediata”, com o requisito de enviar uma solicitação por e-mail. “O desconhecimento de dados oficiais se converte em um problema. O último conhecido girava em torno de 90 mil afetados pelo deslocamento forçado em 2012, mas é um número incerto”, enfatizou Rojas. Envolverde/IPS


por Helda Martínez, da IPS
A ameaça de uma tempestade é motivo de preocupação para muitos cingaleses. Foto: Amantha Perera/IPS Inter Press Service - Reportagens

Para o Sri Lanka, vale mais prevenir desastres do que curar seus efeitos

[caption id="attachment_88892" align="aligncenter" width="529" caption="A ameaça de uma tempestade é motivo de preocupação para muitos cingaleses. Foto: Amantha Perera/IPS"][/caption]   Colombo, Sri Lanka, 4/6/2013 – A chegada da monção ao Sri Lanka é sempre um evento muito esperado. Há algo estranhamente cativante nessas cenas de grandes nuvens, chuvas intensas e árvores sacudidas que seduz até os mais indiferentes. Essas chuvas agora chegam a Sri Lanka geralmente em curtas rajadas, que duram cerca de 15 minutos, acompanhadas de trovões. O dia pode estar sereno e ensolarado e no minuto seguinte fortes ventos agitarem perigosamente as palmeiras e desabar uma tempestade. As rajadas de chuva são comuns nas planícies ocidentais. Contudo, quando a tempestade dura mais tempo, a beleza do fenômeno desaparece e surge o medo. As cidades e aldeias inundam, as ruas ficam debaixo de água e milhares de pessoas ficam nas sacadas das casas, às vezes por vários dias. Esta nação insular da Ásia meridional já enfrentou este cenário no começo do ano, quando o ciclone Mahasen atingiu sua costa leste, deixando oito mortos e mais de cem mil desabrigados e mais de duas mil infraestruturas destruídas. Ninguém esquece o tsunami de dezembro de 2004, que causou 35 mil mortes e cerca de um milhão de desabrigados. Esta tragédia obrigou o governo a adotar um sistema de alerta e programas de mitigação de desastres. “Estamos acostumados às monções e agora aos ciclones. Estamos melhor preparados do que antes”, disse à IPS o subdiretor do Centro de Manejo de Desastres, Sarath Lal Kumara. O Centro foi criado em agosto de 2005 como ponto modal para as operações do Conselho Nacional para Manejo de Desastres, que depois se converteu no Ministério de Manejo de Desastres e Direitos Humanos. Cada uma das mais de 300 divisões administrativas do Sri Lanka tem seu próprio comitê de manejo de desastres, com orçamento para emergências. Os fundos são fornecidos pelo governo central. Por sua vez, o Centro tem suas próprias unidades em cada um dos 25 distritos das nove províncias do país, com atividades também coordenadas a partir da capital, e cada uma conta com um chefe. “Têm sua base nas regiões para poder tomar decisões rápidas”, detalhou Kumara. As unidades também recebem recursos para disparar alertas e coordenar tarefas iniciais de resgate e ajuda, acrescentou. Outras organizações não governamentais também atualizaram suas próprias ferramentas de alerta. A Sociedade da Cruz Vermelha do Sri Lanka, por exemplo, tem unidades de manejo de desastres em cada distrito, e sistematicamente mobiliza voluntários em esforços de alerta e ajuda. O pessoal e os voluntários participam regularmente de cursos de preparação diante de desastres, que foram especialmente úteis quando o ciclone atingiu o país. “Creio que estamos em melhor condição para enfrentar os desastres naturais”, afirmou à IPS Bob McKerrow, chefe de uma delegação da Federação Internacional de Sociedades da Cruz Vermelha e da Meia Lua Vermelha (IFRC). Especialistas alertam que toda a região da Ásia meridional sofrerá eventos climáticos extremos e, portanto, deve estar preparada. Mais de 25 milhões de pessoas tiveram que abandonar a região entre 2011 e 2012 por causa de desastres naturais, segundo o Centro de Vigilância do Deslocamento Interno, com sede em Genebra. Milhões de pessoas estão em situação de risco na Ásia meridional diante de eventos climáticos extremos, disse à IPS o diretor da divisão de gênero, redução de pobreza e desenvolvimento social do Banco Asiático de Desenvolvimento, Bart Édes. “Além de serem vulneráveis a ciclones, inundações e secas, os que vivem na costa da Ásia meridional enfrentam um paulatino aumento do nível do mar”, alertou Édes. Diante de um desastre, que às vezes afeta milhões de pessoas, os já limitados serviços de água, saúde, educação e infraestrutura podem sofrer um colapso, acrescentou. “O deslocamento ambiental está exacerbando a tendência à urbanização que se constata em toda a Ásia meridional. No entanto, a infraestrutura física e social de muitas cidades já está no limite de sua capacidade”, explicou à IPS. Como resultado, as migrações relacionadas com o clima estão se convertendo em um importante tema na região, ressaltou. Um estudo sobre o impacto das inundações que afligiram o Sri Lanka entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013, elaborado em conjunto pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) e os ministérios de Manejo de Desastres e de Desenvolvimento Econômico, oferece um resumo do grau dos danos que um desastre pode provocar. O estudo indica que mais de meio milhão de pessoas em todo o país foram afetadas. E estas pessoas sofreram duplamente: 67% das vítimas ouvidas disseram que também sofreram com a seca de dez meses que antecedeu a inundação. Uma avaliação feita pela IFRC em novembro do ano passado calculou em mais de 1,2 milhão o número de cingaleses afetados pela seca. O informe do PMA também concluiu que 37% das famílias entrevistadas sofriam insegurança alimentar severa, enquanto 44% estavam à beira da insegurança alimentar. Além disso, a maioria dos afetados pela seca e pelas inundações trabalhava na agricultura ou tinha empregos casuais. “A perda dos meios de sustento, a extrema pobreza e a destruição de cultivos são os principais fatores da insegurança alimentar entre as famílias”, diz o informe. O estudo também indica que mais de 67% dos afetados pelas inundações viviam abaixo da linha de pobreza. Segundo Kumara, essas vítimas estavam sendo levadas para as cidades, sobretudo quando as colheitas ficavam perdidas. “Não podemos deter os eventos naturais e nem alterá-los. O que podemos fazer é nos preparar para o pior”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Amantha Perera, da IPS
Turbinas em WindWatt Nevis Limited. Foto: Desmond Brown/IPS Ambiente

Energia eólica decola na ilha caribenha de Nevis

[caption id="attachment_88753" align="aligncenter" width="529" caption="Turbinas em WindWatt Nevis Limited. Foto: Desmond Brown/IPS"][/caption]   Charlestown, São Cristóvão e Nevis, 3/6/2013 – Esta pequena ilha, uma das duas que formam a Federação de São Cristóvão e Nevis, encabeça as iniciativas em matéria de energia limpa e redução de custos na região. Mas Nevis, com 12 mil habitantes, tem dificuldades para promover seu modelo nos demais países insulares. Esta ilha, de 13 quilômetros de comprimento, lançou em 2010 a primeira fazenda eólica da Organização de Estados do Caribe Oriental, com a promessa de criar emprego local, oferecer uma fonte confiável de energia e eletricidade barata e de reduzir o uso do petróleo importado. “Creio que o óleo combustível usado pela Companhia Elétrica de Nevis (Nevlec) custa nesta região entre US$ 32 e US$ 33 por quilowatt”, disse Dexter Bowrin, diretor da WindWatt Nevis Limited, à IPS. “Vendemos a energia por menos da metade desse valor, por isso deveria significar um economia considerável para os consumidores”, acrescentou. A produtora de energia WindWatt Wind Farm é uma empresa de risco compartilhado de empresas canadenses e locais, que começou suas operações em 2010. A companhia assegurou contrato de 25 anos com a estatal Nevlec para produzir e vender energia. Utiliza oito turbinas eólicas para alcançar uma capacidade máxima de 2,2 megawatts, que representam cerca de 20% das necessidades energéticas desta pequena ilha caribenha. “Gostaríamos de crescer, mas não está aberta a possibilidade. Fomos a várias ilhas, a que fica próximo, São Cristóvão, e até Santa Lucía e San Vicente para vender a ideia, mas não é fácil”, contou Bowrin. “Em Santa Lucía há problemas de espaço. A maior parte das terras é privada. São negociações entre governo e proprietários. Nós apenas fornecemos a tecnologia”, explicou. É comum pensar que construindo uma fazenda eólica se obtém importantes ganhos, mas “não funciona dessa forma”, ponderou Bowrin, dizendo que na vizinha São Cristóvão, a maior das duas ilhas desta federação, não há nada feito. “Há competidores e não podemos instalar uma fazenda eólica”, detalhou. A energia eólica não decolou tão rápido no Caribe, embora a maioria dos países da região tenha demonstrado interesse ou investido na alternativa solar. O Suriname anunciou, no começo de maio, investimento em energia solar para levar eletricidade às comunidades mais afastadas. Gunzi, uma aldeia selvagem da zona alta do rio Suriname, será a sede de um projeto-piloto. A companhia de energias alternativas WTEC, dos Estados Unidos, cuida da execução do projeto junto com o Ministério de Recursos Naturais, a companhia nacional de eletricidade EBS, e a Universidade Anton de Kom, do Suriname. Mais de três quartos da superfície deste país estão cobertos por densa selva, e a maioria dos habitantes do país vive na capital, Paramaribo. Numerosos povoados dispersos e escassamente habitados do interior não estão ligados à rede elétrica da EBS e usam barulhentos geradores movidos a óleo combustível que só funcionam à noite. O governo abandonou em abril uma proposta para construir uma hidrelétrica no interior do país. O diretor da WTEC, Brian Singh, disse que a energia solar é uma alternativa rentável, pois o Suriname tem muito sol e o preço dos painéis solares cai em todo o mundo, e também anunciou que a empresa doaria uma planta de US$ 75 mil para instalação em Gunzi. Estudantes universitários supervisionarão a iniciativa durante um ano, e as conclusões servirão para aperfeiçoar seu uso e executar projetos em outros povoados. O coordenador de meio ambiente John Goesdchakl declarou que o governo realiza uma profunda pesquisa para encontrar a conjunção ideal de alternativas para fornecer energia. O critério é a acessibilidade, rentabilidade e menor impacto ambiental. Bowrin disse à IPS que os diretores da WindWatt Nevis Limited também se preocupam com várias questões ambientais, e que antes do início das operações foi feita uma avaliação de impacto para determinar o nível de ruído e outras possíveis consequências. “Não colocamos apenas turbinas. Deixamos uma pegada ambiental muito pequena. Com as oito turbinas que instalamos, usamos menos de um hectare, e assim temos a flexibilidade e a capacidade de também ter vacas e outros animais de pastagem na área”, acrescentou Bowrin. “Outro assunto importante é que as pessoas costumam dizer que as turbinas machucam ou matam as aves migratórias. Não tivemos essa experiência aqui e não conheço nenhum lugar onde isso tenha acontecido”, afirmou. Consciente da temporada anual de furacões, que vai de junho a novembro, Bowrin explicou que as turbinas com um sistema de duas folhas são muito pequenas e desligam em apenas 40 minutos. “Vigiamos o clima diariamente, por isso em caso de furacão poderemos desligar as turbinas em duas horas e facilmente voltaremos a religá-las”, ressaltou. “O governo de Nevis mostrou seu compromisso com o uso de energias renováveis e sustentáveis ao investir de forma contínua na alternativa geotérmica e eólica”, disse à IPS o primeiro-ministro, Vance Amory. “Também agregaremos no futuro não muito longe a energia solar para reduzir nossa dependência dos combustíveis fósseis para a geração elétrica”, acrescentou. Com sua fazenda eólica e uma série de projetos de painéis solares, bem como outro geotérmico que está previsto, São Cristóvão e Nevis é uma das pioneiras em matéria de energias verdes da região. O projeto geotérmico demorou, mas o primeiro-ministro desta federação, Denzil Douglas, informou que a previsão é contar com eletricidade gerada a partir desta alternativa no prazo de dois anos. Envolverde/IPS


por Desmond Brown, da IPS

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