Japão: O dragão adormecido

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Japão: O dragão adormecido


por Roberto Savio*


Tóquio, Japão, outubro/2010 – Na década de 1980, o Japão era o dragão do mundo. Toda nova tecnologia – automóveis, aparelhos, câmeras, equipamento médico e novos sistemas de gestão – provinha do Japão. Depois o país começou a diminuir o ritmo, até adormecer. No entanto, seus níveis de produção e reservas financeiras eram suficientemente altos para que a queda não afetasse muito o cidadão médio. Apesar de a Sony ser substituída pela Apple e agora a China ter a imagem do dragão, após ultrapassá-lo como a segunda economia mundial, a qualidade de vida dos habitantes do Japão supera a de quase todos os demais países. Mas agora se começa a tomar consciência de que os êxitos sociais podem ser afetados se a economia não cresce. A taxa de desemprego é inferior a 5%, uma magnitude irrisória na Europa, mas sem precedentes neste país. No passado, as corporações empresariais asseguravam aos seus dependentes um emprego por toda a vida. Mas, já não é assim, o trabalho não está mais garantido e tampouco os jovens conseguem um emprego imediatamente após se formarem na escola ou na universidade. O Japão continua sendo um modelo de ruas imaculadas, ordem, disciplina e de um forte senso cívico, onde a combinação de xintoísmo (baseado na natureza), budismo (baseado nos êxitos individuais) e confucionismo (baseado nos êxitos sociais) criou um raro equilíbrio entre natureza, ser humano e sociedade. A história milenar desta nação, ao longo de uma linha ininterrupta de imperadores, pode explicar as diferenças profundas com a China, que foi para o Japão o que a Grécia foi para Roma. Contudo, a modernização começa em 1853, como reação à intervenção da frota norte-americana sob o comando do almirante Matthew Perry, em 1853. Depois da vitoriosa guerra contra a Rússia, em 1904, que colocou o Japão em pé de igualdade com as grandes potências, os círculos militares se impuseram e desencadearam uma série de conflitos regionais, que só terminaram com a derrota na Segunda Guerra Mundial. Por pressão do general Douglas McArthur, que comandou por quase todo o período as forças aliadas que ocuparam o Japão entre 1945 e 1952, foi introduzido o sistema democrático. Porém, o Partido Liberal Democrático (PLD), que governou o país praticamente sem interrupção desde o pós-guerra, cada vez mais se converteu em uma máquina política autorreferencial, enquanto os demais partidos não puderam apresentar alternativas dinâmicas. Hoje em dia, o que é novo e perturbador é uma onda nacionalista que criou um conflito com a China, absolutamente desnecessário sobre as pequenas ilhas Senkaku (ou Diayu, para a China). Três cidades importantes – Tóquio, Nagoya e Osaka – são governadas por líderes nacionalistas, o prefeito de Osaka organiza um novo partido nacionalista e o líder do PLD, Shinzo Abe, é um nacionalista duro. Porém, há uma clara e crescente desconexão entre os políticos e os cidadãos. Embora esta seja uma tendência global, no Japão se destaca. Os japoneses estão habituados a conviver com terremotos e tsunamis. O extraordinário esforço de reconstrução da cidade de Kobe, demolida em 1995 por um grande terremoto que causou 5.100 mortes, foi aclamado pelo mundo como exemplo de resiliência e solidariedade social. Entretanto, o terremoto de março de 2011 e o consequente tsunami criaram um desafio sem precedentes. Mais de 650 quilômetros de costa no nordeste do país foram devastados e cerca de 20 mil pessoas morreram. O custo estimado dos danos chega a US$ 200 bilhões, mas ainda não está claro quanto custará a reconstrução. Basta dizer que, somente a remoção e reciclagem de seis milhões de toneladas no distrito de Ishinomaki, um dos muitos da costa, é estimado em US$ 244 bilhões. A decadência das instituições políticas é paralela a um acelerado envelhecimento da população e a certo desânimo do setor privado. Assim, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, percorre a sociedade japonesa um sentido de insegurança sobre o presente e de incerteza quanto ao futuro. É particularmente grave que o número de beneficiários da assistência social governamental tenha chegado a 2,1 milhões em junho passado, um recorde para este país de 128 milhões de habitantes. Esta situação causa uma forte impressão, porque revela uma ameaçadora tendência. Por outro lado, a mobilização da sociedade civil e o voluntariado estão aumentando. No entanto, talvez, as reações mais notáveis sejam observadas nas mulheres, que se mostram cada vez mais independentes, já não veem o casamento como necessário e não consideram o homem como seu destino primário. Uma reação extrema se nota em muitas jovens que se vestem e atuam de maneira extravagante e provocadora, em aberto desafio ao tradicionalismo japonês. É difícil discernir se estas novas forças poderão bastar para equilibrar a queda das instituições políticas e o envelhecimento do setor privado, mas esta é a esperança mais consistente à qual o Japão de hoje pode se aferrar.  Envolverde/IPS * Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e editor do Other News.

Em 2011, 300 mil mulheres, quase todas em países pobres, morreram por complicações na gravidez e no parto. Foto: Patrick Burnett/IPS Inter Press Service - Reportagens

Mau uso de medicamentos contra mortes maternas

[caption id="attachment_69481" align="aligncenter" width="487" caption="Em 2011, 300 mil mulheres, quase todas em países pobres, morreram por complicações na gravidez e no parto. Foto: Patrick Burnett/IPS"][/caption]   Washington, Estados Unidos, 31/10/20121 – Na maioria dos países em desenvolvimento, onde uma mulher dá à luz é um fator que ainda determina se viverá ou morrerá, apesar da disponibilidade de medicamentos novos, baratos e eficazes. A maioria dos casos das mulheres que morrem por complicações no parto em países pobres ocorre simplesmente porque se ignora que necessitam de medicamentos, segundo a Path, uma organização internacional sem fins lucrativos centrada na saúde mundial. “Sabemos que os remédios para a saúde materna são seguros, efetivos e essenciais para manter sãs as mulheres durante a gravidez e o parto. Também sabemos que, com frequência, estes medicamentos não chegam às mulheres nem a centros comunitários de saúde”, disse à IPS a autora principal de um novo informe da Path, Kristy Kane. “O que não sabemos é o número exato de mulheres para as quais não estão disponíveis esses remédios essenciais, isto é, mulheres com uma necessidade não atendida”, acrescentou. Esta falta de dados leva a uma escassez de financiamento potencialmente significativa. Simplesmente se desconhece quanto dinheiro é gasto pelos países afetados e, portanto, quanto mais se precisa. “É muito difícil fazer campanha para que haja mais contribuições quando quase não se tem dados sobre quanto, quando, onde, o quão corretamente são usados esses remédios e segundo quais padrões”, disse Kane. No ano passado, 300 mil mulheres, quase todas de países em desenvolvimento, morreram por complicações relacionadas com a gravidez e o parto. As causas mais comuns são as hemorragias pós-parto, a pré-eclampsia, e a hipertensão durante a gestação. As complicações no parto quase não existem no mundo industrializado devido a remédios efetivos e a centros de saúde de alta qualidade. Porém, como estas clínicas raramente estão disponíveis em muitos países em desenvolvimento, foram implementados outros meios médicos para abordar esta necessidade. Durante anos, a oxitocina e o sulfato de magnésio foram usados como substâncias principais para tratar as complicações. Mas, ambos requerem temperaturas específicas para seu armazenamento, bem como profissionais formados para administrá-los, o que os torna inacessíveis e mesmo, às vezes, contraproducentes. Também existe a possibilidade de ninguém presente na hora do parto ter sido capacitado sobre como tratar corretamente a mãe. O misoprostol, comumente usado para tratar úlceras estomacais, foi apresentado nos últimos tempos como uma solução. Tem o potencial de chegar às mulheres cujas necessidades atualmente não são atendidas devido à falta de capacidade de armazenamento ou de profissionais médicos formados. “O misoprostol demonstrou ser efetivo e seguro, sua temperatura é estável e não é preciso nenhum treinamento especial”, disse à IPS o diretor de comunicações e desenvolvimento da Family Care International, Adam Deixel. “Isto significa que pode ser usado quando as mulheres dão à luz em suas casas ou em centros rurais de saúde, ou em lugares em que não é confiável a eletricidade com fins de armazenamento”, explicou Deixel. Este medicamento é distribuído em forma de comprimido na dose correta necessária quando está para ocorrer uma hemorragia pós-parto. “Nos próximos anos poderão ser salvas seis milhões de vidas com estes novos produtos”, disse Jagdish Upadhyay, do Fundo de População das Nações Unidas. “Conhecemos o problema e a solução; só precisamos trabalhar mais arduamente”, afirmou à IPS. Entretanto, o misoprostol também é responsável por muitas complicações. Embora haja instruções na bula que acompanha o medicamento, nem sempre estão escritas nos idiomas locais e supõem que a usuária saiba ler. Como ocorre com qualquer remédio novo, a comunidade médica é reticente em generalizar seu uso sem uma vigilância adequada. Também preocupa que as mulheres vejam estes comprimidos como uma solução para salvar vidas em casa e não busquem cuidados médicos apropriados para as complicações em seus partos. “A solução clara de longo prazo é que todas as mulheres tenham acesso a melhores cuidados, a pessoal médico capacitado e a centros de alta qualidade. Mas, não podemos simplesmente destroçar as vidas dessas mulheres porque, justo agora, esses centros não estão ali. Esta é uma opção que pode salvar vidas agora mesmo”, destacou Deixel. O misoprostol é facilmente manufaturado, e países em desenvolvimento, como Gana, possuem empresas que o fabricam localmente. Isto o torna barato de transportar e vender. No entanto, frequentemente seus padrões não cumprem as regulamentações internacionais. “Estes remédios são baratos, mas costumam ser de má qualidade”, afirmou Kennedy Chibwe, da Convenção de Farmacopeias dos Estados Unidos, a jornalistas reunidos na semana passada em Washington. “Precisamos de produtos de qualidade e manter o mesmo padrão para países ricos e pobres. Simplesmente não há desculpas para morrer por culpa de medicamentos de má qualidade”, ressaltou. Há esperanças de que estes remédios logo cheguem a todas que necessitam. “Vimos os incríveis êxitos aos quais se pode chegar quando há apoio público e vontade política para salvar vidas como as de milhões de pessoas que recebem medicamentos em consequência do ativismo contra o HIV/aids”, observou Kane à IPS. “Não vemos a mesma quantidade de indignação e mobilização pela morte materna”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Sarah McHaney, da IPS
Em vermelho, o trajeto que teria o canal interoceânico da Nicarágua; em verde, a localização atual do Canal do Panamá. Foto: Jonadab CC BY-SA 3.0 Inter Press Service - Reportagens

China chega à América Central com satélites e megaobras

[caption id="attachment_69474" align="aligncenter" width="500" caption="Em vermelho, o trajeto que teria o canal interoceânico da Nicarágua; em verde, a localização atual do Canal do Panamá. Foto: Jonadab CC BY-SA 3.0"][/caption]   Cidade da Guatemala, Guatemala, 31/10/2012 – De satélites a canais interoceânicos, os investimentos mais inovadores, ou mais faraônicos, na América Central procedem da China, com a qual, entretanto, seis dos sete países do istmo não têm relações diplomáticas. Pequim sustenta uma expansão comercial e industrial avassaladora na região, que esta não consegue capitalizar para ampliar suas vendas para o gigantesco mercado asiático. “Os interesses chineses aumentaram, e, como toda potência, é mais o que querem colocar do que o que querem comprar”, disse à IPS o cooperativista Jesús Garza, da Associação de Organizações Não Governamentais de Honduras, que promove o desenvolvimento empresarial sustentável, entre outras ações. Por exemplo, no leste hondurenho, a empresa chinesa de capital estatal Sinohydro constrói a central hidrelétrica Patuca III, com capacidade para gerar 104 megawatts, ao custo de US$ 350 milhões. Além disso, o presidente hondurenho, Porfirio Lobo, se reuniu em setembro com executivos do Banco de Desenvolvimento da China para explorar outros investimentos em energia e comunicações. Mas a presença chinesa se mostra muito mais ambiciosa na Nicarágua. O presidente Daniel Ortega assinou, no mês passado, um memorando de entendimento com a recém-criada HK Nicarágua Canal Development Investment Co., com sede em Hong Kong e presidida por um magnata das telecomunicações, para financiar e construir uma passagem interoceânica entre o Mar do Caribe e o Oceano Atlântico, sonho há tempos acariciado por Manágua. Estimativas nicaraguenses indicam que a obra custará US$ 30 bilhões e demorará dez anos. A HK Nicarágua, encabeçada por Wang Jing, presidente da empresa de telecomunicações Xinwei, deverá desenvolver um canal úmido para a passagem de navios de grande porte e uma ferrovia de carga, construir um porto de águas profundas em Monkey Point, no Caribe, e remodelar o porto de Corinto, no Pacífico. Manágua também negocia com a China Great Wall Industry Corporation o desenvolvimento e a compra do Nicasat-1, satélite de terceira geração avaliado em US$ 300 milhões, que oferecerá a partir de 2016 modernos serviços de telecomunicações, internet e televisão digital para a Nicarágua e a região. O acordo poderia se concretizar ainda este ano em Pequim entre o Instituto Nicaraguense de Telecomunicações e a Great Wall Industry, que fabrica satélites para vários países da América Latina, África e Ásia. Em El Salvador, Costa Rica e Guatemala, os investimentos chineses incluem energia solar, indústria petroleira e telecomunicações, entre outros setores, por intermédio de empresas como Huawei, Suzhou Guoxin Group e National Petroleum Corporation. Apesar do efeito econômico positivo que podem ter estes investimentos, Garza alertou que se deve conhecer “sob quais condições ocorre, se respeita os direitos trabalhistas e as normas ambientais, e é aí onde pode haver impactos negativos”. Em Honduras, por exemplo, a não governamental Associação Patuca denunciou irregularidades na licença que declarou “ambientalmente viável” a central Patuca III, emitida em 2011 pelo Ministério de Recursos Naturais e Meio Ambiente. Por outro lado, o istmo não tem condições competitivas para vender seus produtos à China. A assimetria de população é apenas o aspecto mais evidente: aqui vivem 42 milhões de pessoas; lá, mais de 1,3 bilhão. A produção centro-americana é majoritariamente agrícola. “Porém, não é rentável para a China comprar feijão ou frutas aqui por causa da distância e dos custos” que esta impõe para volumes relativamente pequenos, pontuou Garza. A América Central tampouco conseguiu a unificação aduaneira, que lhe permitiria uma tarifa única, regulamentos e legislação comuns em matéria comercial, aduaneira e sanitária, facilitando o comércio exterior e a competitividade, segundo a Secrearia de Integração Econômica Centro-Americana (Sieca). A região elevou suas vendas para o mercado asiático, mas a balança comercial continua sendo amplamente negativa. Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua – cinco dos sete países centro-americanos – em 2004 vendiam para a China US$ 196 milhões. E, entre janeiro e maio deste ano, suas exportações para esse mercado chegaram a US$ 219 milhões, segundo a Sieca. Contudo, nesses mesmos meses, os cinco países importaram US$ 1,435 bilhão da China. “Comercialmente, não se pode negar a China”, disse à IPS o economista Paulo de León, da consultoria Central American Business Intelligence, com sede na Guatemala. Embora o benefício regional “não seja tão evidente quanto no Chile, por exemplo, que é quem produz mais cobre no mundo e tem na China sua principal compradora”. Pelas distâncias e pelos fretes, não convém à China comprar produtos básicos na América Central porque “o custo seria muito alto”, acrescentou León. Em sua opinião, a região deve se focar no mais próximo mercado norte-americano. “É preciso olhar mais para os Estados Unidos. Temos um mercado grande a uma hora e meia de avião; também temos México e Colômbia, com os quais mantemos tratados de livre comércio”, afirmou. Por outro lado, a China pode se beneficiar com investimentos na região, que “tem grandes necessidades em matéria energética para as quais, por exemplo, a Guatemala, não tem dinheiro”, acrescentou. O istmo também se sente constrangido por privilegiar os vínculos com Taiwan, território que Pequim considera uma província rebelde. Mas, na Costa Rica, único país centro-americano que tem relações diplomáticas com Pequim, as coisas não são diferentes. Na agroindústria “falamos de café, açúcar e algum outro produto agrícola”, na Costa Rica “não temos um grande impacto comercial” derivado do estabelecimento desses vínculos formais em 2007, disse à IPS o cooperativista Gilbert Ramírez. De fato, San José e Pequim assinaram em 2010 um tratado de livre comércio. “Conversamos com empresas chinesas para vender café e açúcar, e em nível de microcréditos ou crédito para consolidar nosso modelo por meio da promotora de exportações da Costa Rica, mas depois de certo tempo não concretizamos nenhum projeto, explicou Ramírez. Ele também acredita que o mercado norte-americano continua sendo mais atraente porque “está mais perto e nos entende melhor”, destacou, referindo-se às barreiras culturais existentes entre esta região e o Oriente. Entretanto, a América Central continua buscando oportunidades comerciais na China. O empresário Pedro Barnoya, da Câmara de Cooperação e Comércio China-Guatemala, disse à IPS que, no dia 19 deste mês, foi inaugurado um escritório comercial na cidade de Xangai, polo econômico e financeiro e maior porto do mundo por volume de mercadorias, “para buscar e encontrar compradores para os produtos que necessitam”. Além disso, “se trabalha com o Conselho Chinês para o Fomento do Comércio Internacional e com instituições privadas para criar um comitê de negociação permanente” com a região detalhou Barnoya. Uma delegação guatemalteca esteve nos dias 17 e 18 deste mês na VI Cúpula Empresarial China-América Latina e Caribe, na cidade de Hangzhou. Apesar de tudo, o “mais importante é ir ao continente, porque é lá que está o poder aquisitivo”, concluiu. Envolverde/IPS


por Danilo Valladares, da IPS
O antigo provérbio “a natureza é um grande nivelador” já não vigora para os mais pobres em países como Sri Lanka. Foto: Amantha Perera/IPS Inter Press Service - Reportagens

Clima extremo atinge com tudo pobres do Sri Lanka

[caption id="attachment_69468" align="aligncenter" width="456" caption="O antigo provérbio “a natureza é um grande nivelador” já não vigora para os mais pobres em países como Sri Lanka. Foto: Amantha Perera/IPS"][/caption]   Pansalgolla, Sri Lanka, 31/10/2012 – A antiga afirmação “a natureza é um grande nivelador” não se aplica mais a países como o Sri Lanka, onde as pessoas mais pobres ficam com a pior parte dos eventos climáticos extremos. O agricultor Gamhevage Dayananda, da aldeia de Pansalgolla, no distrito de Polonnaruwa, norte do país, é um reflexo desta realidade, ao sofrer períodos de seca e de inundações, alternadamente. As inesperadas chuvas de fevereiro de 2011 obrigaram os engenheiros a abrir as comportas de grandes tanques de irrigação, que alagaram hectare após hectare de terras cultiváveis, entre elas a modesta parcela de Dayananda, que perdeu toda sua plantação de arroz, o que não é pouco para sua família de quatro membros que dependem desse cultivo para viver. E este ano lhe coube sofrer outra crise, quando a seca destruiu suas plantações e o deixou a ponto de aumentar mais sua dívida. “Em uma estação só chove, na outra há muito sol. Não há um ponto médio, só extremos”, afirmou. É pouco provável que mude a tendência de eventos climáticos extremos que se alternam ano após ano, segundo W. L. Sumathipala, ex-chefe da unidade de mudança climática do Ministério do Meio Ambiente. O Sri Lanka sofre as consequências da mudança climática, afirmou. O informe anual 2011 do Fundo Central de Resposta a Emergências, da Organização das Nações Unidas (ONU), diz que “as emergências climáticas, como as vinculadas a secas, inundações e tempestades, expõem as pessoas mais pobres e vulneráveis a perigos que têm consequências duradouras para sua saúde, seu meio de vida e seu bem-estar, já que são as que têm menos capacidade para lidar, e mitigar, com os efeitos dos desastres naturais. Cerca de 8,9% dos 21 milhões de pessoas que vivem neste Estado insular da Ásia meridional são pobres. “Os pobres de zonas urbanas têm mais probabilidades de serem afetados pelas mudanças do clima”, opinou Abha Joshi-Ghani, diretora da unidade de governo local e desenvolvimento urbano do Banco Mundial. “São os mais vulneráveis porque vivem em áreas sensíveis, em zonas precárias onde ninguém mais se instalaria”, afirmou. A organização humanitária Homeless International, com sede na Grã-Bretanha, estima que 12% dos três milhões de pessoas que vivem nas cidades do Sri Lanka residem em assentamentos precários. O secretário de Defesa e Desenvolvimento Urbano, Gotabaya Rajapaksa, disse que a maioria das pessoas que vivem nos assentamentos de Colombo reside em “terras estatais”, e acrescentou que “muitas vivem em reservas ao lado de lagos, canais e vias férreas”. A maior ameaça para elas são as rápidas inundações. Desde 2007, a capital e outras áreas do oeste ficaram submersas mais de 20 vezes. Algumas áreas alagaram após apenas 30 minutos de fortes chuvas, como ocorreu na terceira semana de outubro. O problema pode, em parte, ser atribuído à comprometida capacidade do sistema de drenagem. Mas as precipitações cada vez mais fortes pioraram a situação, especialmente porque não parece que a tendência vá se reverter. Na Segunda Comunicação sobre Mudança Climática de 2012, o Ministério do Meio Ambiente disse que a capital Colombo e o resto das planícies ocidentais só podem esperar por dias mais úmidos, com períodos de chuvas intensas. Por outro lado, os produtores da arroz provavelmente sofrerão períodos de seca nos próximos tempos. Segundo o Ministério, as terras cultiváveis em partes das províncias Norte e Leste, incluída Polonnaruwa, não só receberão menos das chuvas necessárias como também sofreram temperaturas mais elevadas. O Banco Central estima que uma alta de 0,5 grau na temperatura reduziria a produção de arroz em 5%. Por isso, não surpreende que o informe do Banco de Desenvolvimento Asiático de 2011 qualifique a mudança climática como a “maior ameaça à segurança alimentar”. O especialista em desenvolvimento sustentável, Riza Yehiya, também alertou que as “variações na segurança alimentar ocasionadas pela mudança climática serão acompanhadas de instabilidade energética, o maior requisito da sociedade moderna”, junto com alimentos e água. “Os efeitos combinados deste trio, água, alimento e insegurança energética, farão com que os setores mais pobres da sociedade se tornem extremamente vulneráveis, a menos que a segurança social se fortaleça para eles no contexto do programa de mitigação da mudança climática”, acrescentou o especialista. Os produtores de Palonnaruwa protestaram em setembro depois que os engenheiros deixaram de fornecer água por causa da seca. Os camponeses disseram que mais de 16 mil hectares de arrozais que dependem dos tanques de irrigação de Parakarama Samudarya estavam a ponto de secar totalmente. Após sofrerem, no começo de 2011, inundações que destruíram 16 mil hectares de arrozais e cerca de 10% das primeiras colheitas, os agricultores do norte e do centro sofrem outro flagelo. A severa seca dos primeiros nove meses deste ano afetou 1,3 milhão de pessoas, segundo uma rápida avaliação do Programa Mundial de Alimentos (PMA). Os especialistas estimam que cerca de 29% da colheita prevista de 1,1 milhão de toneladas se perderão, enquanto 76 mil hectares, ou 19% dos cultivos, já foram destruídos. “As conclusões preliminares indicam um substancial impacto no modo de vida de um amplo espectro da população, bem como a deterioração da segurança alimentar”, segundo a Atualização em Segurança Alimentar Global do PMA, apresentada este mês. O economista Muttukrishna Sarvananthan acredita que o desemprego poderá afetar 20% da população economicamente ativa em algumas partes da província Norte, embora não haja dados oficiais que o confirmem. Envolverde/IPS * Este artigo foi produzido no contexto da série em inglês Climate Change: A Reporting Lens from Asia, da IPS Ásia Pacífico.


por Amantha Perera, da IPS
ODM Inter Press Service - Reportagens

Começa na ONU debate sobre novas metas de desenvolvimento

[caption id="attachment_69464" align="alignleft" width="234" caption="Uma mãe indígena e seu filho em Chihuahua, México. A ONU discute novas metas de desenvolvimento que também incluam seus direitos. Foto: Mauricio Ramos/IPS"][/caption] Nações Unidas, 31/10/2012 – Aproxima-se o vencimento do prazo para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), em 2015, e a Organização das Nações Unidas (ONU) se prepara para assumir outro plano de ação de longo prazo: as Metas de Desenvolvimento Sustentável (MDS). Mas já são notórias as diferenças de enfoque. Propostas em junho, na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), as MDS são uma lista de intenções que sucederão os ODM, adotados pela Assembleia Geral da ONU em 2000. A Assembleia Geral, de 193 membros, recebeu o mandato de designar um grupo de trabalho formado por cerca de 30 países, que terão a tarefa de articular a lista de novas metas. As recomendações feitas por esse grupo serão eventualmente integradas às conclusões de um painel de alto nível, encabeçado pelo presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, e integrado também pela presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, e pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron. O painel tem programada uma reunião em Londres para 1º de novembro, que será seguida por um diálogo com a sociedade civil no dia seguinte. Este último encontro será transmitido ao vivo pela internet no site www.worldwewant2015.org. Meena Raman, assessora legal da Rede do Terceiro Mundo e que participou da Rio+20, disse à IPS que qualquer nova agenda para depois de 2015 deve se basear em uma análise dos fatores que estão prejudicando ou ameaçando o desenvolvimento dos países do sul. “Apenas ter uma série de metas e objetivos, como foi o caso do enfoque inicial dos ODM, é claramente inadequado”, afirmou. Os ODM são: combater a pobreza extrema e a fome; conseguir educação primária universal; promover a igualdade de gênero e potencializar as mulheres; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde materna; combater o HIV/aids, a malária e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental e fomentar uma aliança global para o desenvolvimento. Porém, a maioria das nações em desenvolvimento não alcançará vários, ou a maioria, destes objetivos até 2015. Segundo Raman, alguns dos fatores que afetam o desenvolvimento do Sul são o sistema financeiro internacional, instável e especulativo, e o injusto regime comercial mundial. Também apontou a injustiça dos mecanismos para resolução de disputas entre investidores e o Estado, que permitem que empresas internacionais processem governos quando estes simplesmente estão protegendo interesses públicos. Além disso, as leis sobre direitos de propriedade intelectual muitas vezes prejudicam a transferência de tecnologia e elevam os custos de artigos essenciais, acrescentou Raman. “Tudo isso agravado pela crise econômica mundial, que afeta as perspectivas de desenvolvimento”, destacou. Consultado sobre se as MDS serão diferentes dos ODM por uma concentração maior no desenvolvimento sustentável, como seu nome implica, ou se manterão um amplo alcance, o diretor do World Resources Institute, Manish Bapna, respondeu à IPS que há dois enfoques a respeito. E afirmou que, definitivamente, ambos convergirão em um contexto que incorporará a sustentabilidade, sem perder a importância de reduzir a pobreza global e melhorar o bem-estar humano. As propostas sobre a mesa são incrivelmente diversas, e incluem temas como biodiversidade, oceanos, cidades sustentáveis e mudanças nos padrões de consumo, bem como sugestões de metas parecidas com os ODM, focadas em pobreza, saúde, educação e gênero, explicou Bapna. Há muitos grupos da sociedade civil que pedem a inclusão de outros temas particulares, como paz, setor privado e direitos climáticos. Para Bapna, “o desafio será estabelecer metas que sejam em menor número, mais concentradas e mais simples”. Por sua vez, Raman afirmou que “as MDS devem cobrir os três pilares (econômico, social e ambiental) de uma forma equilibrada, e não se concentrar em um só. É importante que haja um enfoque global na definição das metas, e não apenas estabelecer quais são, mas também como implementá-las”. A ativista acrescentou que a elaboração das metas deveria estar guiada pelo documento final da Rio+20, e que qualquer defeito neste deveria ser corrigido no processo. “É necessário que a produção econômica nos países em desenvolvimento seja aprovada e não prejudicada por fatores globais como finanças, comércio injusto e os rígidos regimes de propriedade intelectual”, observou. A renda e o emprego, complementados com boas políticas sociais, devem estar no centro das políticas de desenvolvimento, segundo Raman. “As metas e os objetivos não podem ser suficientes por si sós”, ressaltou. Por outro lado, destacou a importância da contribuição da sociedade civil, também recomendada pelo documento final da Rio+20. “Isto deve ser cumprido, e deverão existir esforços especiais para garantir a participação da sociedade civil de países em desenvolvimento”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Thalif Deen, da IPS
Na França, 70% das 20 mil trabalhadoras sexuais existentes são imigrantes. Foto: A.D. McKenzie/IPS Inter Press Service - Reportagens

Imigrantes prisioneiras do comércio sexual europeu

[caption id="attachment_69421" align="alignleft" width="300" caption="Na França, 70% das 20 mil trabalhadoras sexuais existentes são imigrantes. Foto: A.D. McKenzie/IPS"][/caption] Paris, França, 30/20/2012 – A polícia francesa desbaratou uma rede de tráfico de pessoas que obrigava jovens imigrantes a se prostituírem. O caso lançou luz sobre um flagelo já considerado como uma forma de “escravidão moderna”. Após a operação realizada em setembro, a polícia informou que a rede traficava jovens nigerianas que trazia para a França da Itália, e as obrigava a se prostituírem, com o argumento de que dessa forma pagariam os milhares de euros que deviam aos que as trouxeram para a Europa. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que há 1,5 milhão de vítimas de tráfico humano nos países da União Europeia (UE) e em outros igualmente ricos. O total mundial de vítimas deste tráfico chega a 21 milhões. Segundo organizações da sociedade civil, a quantidade de pessoas nessa situação aumenta devido à crise econômica global atual e aos conflitos em diferentes partes do mundo. O Lobby Europeu de Mulheres (LEF, sigla em francês), com sede em Bruxelas, lançou uma grande campanha contra o tráfico humano por ocasião dos Jogos Olímpicos realizados em Londres, nos meses de julho e agosto. Também pediu aos membros do Parlamento Europeu que condenassem a prostituição. “Milhares de adolescentes e mulheres jovens estão em perigo de serem traficadas e exploradas sexualmente para atender a demanda de prostituição”, como ocorreu este ano com os Jogos de Londres e o campeonato de futebol da Europa, realizado na Polônia e na Ucrânia, afirmou o LEF. “Entre as muitas formas de violência contra as mulheres, a prostituição continua sendo uma área crucial, na qual seus direitos são violados de forma generalizada”, declarou à IPS a coordenadora de projetos e encarregada de políticas do LEF, Pierrette Pape. A organização lançou a campanha “Juntos por uma Europa Livre de Prostituição” pela primeira vez em 2010. Ao reunir uma grande quantidade de associações de mulheres, recebeu contribuições e apoio de vários grupos que participarão da conferência continental sobre prostituição que o LEF realizará no dia 4 de dezembro em Bruxelas. “A prostituição constitui uma violação fundamental dos direitos humanos das mulheres e é uma forma de violência masculina”, disse Anna Hedh, europarlamentar sueca que apoia a campanha do LEF. “Além disso, também é um elemento importante da escravidão moderna na Europa, o tráfico humano. Se conseguirmos uma sociedade livre de prostituição e de exploração sexual de mulheres e meninas, também ficaremos livres de uma grande parte do tráfico humano na UE”, acrescentou. Nusha Yonkova, coordenadora contra o tráfico humano do Conselho para Imigrantes da Irlanda, grupo associado ao LEF, disse à IPS que as imigrantes que se envolvem com o comércio sexual sofrem múltiplos problemas. Ela explicou que as dificuldades incluem a “insegurança por seu status legal, pois podem estar violando leis nacionais, além das vinculadas à prostituição, criminalização por parte do Estado, isolamento e falta de amizades, desorientação pelo contínuo movimento entre bordeis de diferentes cidades, vulnerabilidade à extorsão e à chantagem. Sem esquecer a fragilidade “diante do controle dos proxenetas e da falta de assistência médica”, salvo por algumas clínicas para doenças sexualmente transmissíveis, prosseguiu Yonkova. Tampouco podem “se integrar de forma efetiva” ao mercado de trabalho, segundo o LEF. “Vai além de encontrar emprego, tem a ver com conseguir um trabalho que utilize e valorize suas qualificações e capacidades”, explica. As mulheres “costumam encontrar trabalho em áreas tradicionalmente consideradas femininas, que implicam muitas horas por um salário baixo e correm o risco de sofrer graves formas de exploração, especialmente se realizam tarefas domésticas”, diz o LEF. Na União Europeia, muitas pessoas, mulheres e homens imigrantes não têm permissão de trabalho por carecerem de status legal de solicitantes de asilo, de acompanhante de seu cônjuge ou de não ter documentos. “Longos períodos sem direito a trabalhar, como ocorre com os solicitantes de asilo, é um enorme obstáculo para sua futura integração no mercado profissional”, acrescentou. Na Irlanda, país de emigração por várias gerações, as imigrantes estão em situação “muito precária”, segundo Yonkova. “A autorização de trabalho é cara e quase impossível de obter porque os cidadãos que não são da UE não têm direito a aspirar a quase nenhum tipo de emprego”, afirmou Yonkova. Segundo ela, na prostituição, “as mulheres tentam manter o status de estudantes na Irlanda, mas também é difícil porque os cursos são caros e a renovação exige o comparecimento, que elas não podem comprovar”. Assim, “se convertem em presa dos ‘assessores de imigração’, que tentam conseguir-lhes credenciais e certificados universitários falsos”, acrescentou. “Estimamos que mil mulheres trabalhem na indústria do sexo diariamente na Irlanda”, afirmou o Conselho para Imigrantes. Contudo, a organização não pode dizer “quantas decidem se prostituir, quantas são obrigadas por terceiros, são chantageadas ou ameaçadas e nem quantas são menores”, o que é muito comum, acrescentou. “Queremos assinalar que as organizações irlandesas de ajuda aos imigrantes não aceitam a prostituição como forma de sustento”, pontuou Yonkova. “Deploramos quem defende o direito de as imigrantes pobres se venderem para ganhar a vida, sem oferecer-lhes nenhuma possibilidade real de emprego. É um enfoque intrinsecamente racista”, ressaltou. As imigrantes envolvidas no comércio sexual europeu têm diferentes origens. Na Irlanda, procedem da América Latina e dos “países mais pobres do leste europeu”, como Romênia, mas também da Nigéria, segundo o Conselho para Imigrantes. Na Bélgica, as procedem principalmente de Albânia, Bulgária e Romênia. Entretanto, também há as de “Hungria, Itália e Grécia, o que mostra como o sistema explora as mais vulneráveis”, afirmou a organização. Itália e Grécia são países afundados em graves crises econômicas e com medidas de austeridade sem precedentes. Na França, cerca de 70% das 20 mil mulheres que, se estima, trabalham na prostituição são estrangeiras e originárias de países da Europa central e oriental, bem como da África subsaariana. Neste país, a prostituição não é ilegal, mas ser proxeneta ou proprietário de bordel é. Numerosos legisladores franceses tentam proibir a prostituição, medida rejeitada pelas próprias trabalhadoras sexuais. Em julho, ativistas e trabalhadoras sexuais protestaram nas ruas de Paris e de outras cidades francesas, contra a proposta da ministra dos Direitos das Mulheres, Najat Vallaud-Belkacem, de penalizar quem fosse descoberto solicitando prostitutas nas ruas. Alegam que criminalizar a prostituição só fará condená-las ao ostracismo, além de tirar seu sustento. Envolverde/IPS


por A. D. McKenzie, da IPS
n3 Inter Press Service - Reportagens

Uruguai dá lições ao mundo na produção de arroz

Punta del Este, Uruguai, 30/10/2012 – O Uruguai está no topo das notícias sobre inovação agrária esta semana, por ser a sede da Segunda Conferência Mundial sobre Pesquisa Agrícola para o Desenvolvimento (GCARD 2), que começou ontem e terminará no dia 1º de novembro, nesta cidade. Destacados pesquisadores e organizações de todo o mundo se reúnem para desenhar ações colaborativas, fortalecer as capacidades e estimular a inovação no desenvolvimento agrícola. Com especial atenção à associação, serão planejadas ações conjuntas para uma agenda prospectiva, que examine as tendências previstas, as necessidades futuras e as soluções sustentáveis, para definir quais devem ser as medidas e prioridades da agricultura da atualidade. Além de ser anfitrião deste importante encontro internacional, o Uruguai tem outro papel fundamental a desempenhar como modelo emergente e fonte de lições e estratégias agrícolas de sucesso. A evolução de sua produção de arroz é um exemplo. O setor arrozeiro uruguaio é tão único quanto surpreendente, e, de fato, ostenta a terceira taxa de produção mais alta no mundo, com média de oito toneladas por hectare de arrozal seco. E continua florescendo. Sem subsídios especiais nem proteção do governo, oferece preços justos aos agricultores e resiste à feroz competição de outros grandes produtores, como Estados Unidos, Argentina e Tailândia. O setor também é ambientalmente sustentável, já que adota práticas de gestão agrícola destinada a reduzir suas pegadas de carbono e hídrica. Qual o segredo do sucesso do arrozeiro no Uruguai, e o que se pode aprender com ele? Para começar, foca em um mercado exportador de alto valor. São aplicados rígidos padrões de produção e beneficiamento para garantir uma qualidade uniforme. A quantidade de produtores é relativamente pequena, menos de 600, e suas terras são grandes, com média de 300 hectares em planícies. O sistema se baseia em uma cadeia de valor curta e muito interativa. Os agricultores estão vinculados diretamente com os proprietários dos moinhos, que atuam como exportadores. Os dois grupos também têm estreitas relações com o Instituto Nacional de Pesquisa Agropecuária (Inia). As regras sobre os padrões de qualidade para o arroz estão bem definidas. Agrônomos associados com os donos de moinho e representantes do Inia visitam frequentemente as plantações, dão conselhos e informação sobre os últimos avanços, mas também recebem dados dos produtores sobre suas necessidades de insumos e pesquisa. Os agricultores também se beneficiam de outras características especiais do sistema. Para se protegerem de eventuais danos causados por granizo, existe um seguro coletivo. E os moinhos emprestam aos produtores até 70% do crédito que necessitam para adquirir equipamentos. Os agricultores e donos de moinho assinam um contrato de produção a cada ano, que inclui um acordo privado de preços. Por sua vez, os moleiros trabalham estreitamente com os comerciantes internacionais, evitando intermediários, e colaboram com os especialistas do Inia fornecendo informações sobre a demanda ou indicando outras necessidades de pesquisa. A transparência e a integração do modelo uruguaio fomentam a estabilidade e reduzem a incerteza, assegurando a sustentabilidade econômica e a competitividade em um ambiente hostil. Além disso, a gestão dos cultivos e as práticas de rotação favorecem um alto rendimento e a sustentabilidade ambiental. Aqui também há importantes exemplos para o resto do mundo. O progresso substancial da produção de arroz no Uruguai é resultado de uma combinação de melhorias na semeadura, nas sementes, no uso de fertilizantes, na gestão da água e no controle de pragas. São usadas sementes certificadas de variedades melhoradas e minimiza-se a lavragem para reduzir as emissões de carbono armazenado no solo, que chega à atmosfera contribuindo para os gases-estufa. A disponibilidade de água é um fator limitante para a expansão da produção e, portanto, os agricultores constroem represas para capturar o excedente das chuvas. Atualmente, mais de 50% dos arrozais uruguaios são irrigados graças a estas represas. O tempo de semeadura é cuidadosamente calculado para maximizar a exposição ao Sol quando as plantas estão florescendo e minimizar o dano do frio quando estas se reproduzem. As práticas de manejo do solo incluem a rotação regular. Depois de dois anos de cultivo de arroz, planta-se pastagens por três anos. Isto também ajuda a reduzir as emissões de carbono e a devolver fertilidade à terra. É possível aplicar o modelo uruguaio em outro lugar? Elementos como sua integração, padrões de qualidade, transparência e manejo de cultivos podem ser exemplos úteis para serem replicados em diferentes setores de produção. O modelo também pode ser aplicado em países específicos. Algumas áreas do delta do Rio Mekong, no Vietnã, têm grande potencial, pois ali há apoio do governo para desenvolver um setor arrozeiro de alta qualidade para mercados de classe média. O tamanho deste tipo de mercado nos países em desenvolvimento crescerá mais do que o dobro nesta década, particularmente na Ásia. Isto poderia ser um bom presságio para desenvolver setores de arroz de alta qualidade em países onde esse produto é muito importante. A GCARD 2 fornece uma rica plataforma para considerar as lições e os modelos do setor arrozeiro uruguaio. Junto a representantes do setor agrícola nacional uruguaio, haverá sócios internacionais, como o Fundo Latino-Americano para Arroz de Irrigação, a Global Rice Science Partnership e o Centro Internacional de Agricultura Tropical, que colaboram no desenvolvimento de variedades melhoradas e em práticas de gestão que ajudaram a impulsionar o êxito uruguaio. Envolverde/IPS * Gonzalo Zorrilla é engenheiro agrônomo e diretor executivo do Fundo Latino-Americano para Arroz de Irrigação.


por Gonzalo Zorrilla*
Savabieasfahani pesquisou nas cidades de Faluja e Basra. Foto: Cortesia de Mozhgan Savabieasfahani Inter Press Service - Reportagens

Epidemia de defeitos congênitos no Iraque após a guerra

[caption id="attachment_69415" align="alignright" width="266" caption="Savabieasfahani pesquisou nas cidades de Faluja e Basra. Foto: Cortesia de Mozhgan Savabieasfahani"][/caption] Nações Unidas, 30/10/1012 – Um novo estudo confirma o que muitos médicos do Iraque estão dizendo há anos: há uma virtual epidemia de raros defeitos congênitos nas cidades que sofreram bombardeios e disparos de artilharia em ofensivas lideradas pelos Estados Unidos. Os locais mais afetados parecem ser a cidade de Faluja, no centro do país, que sofreu uma forte ofensiva em 2004, e Basra, ao sul, em abril de 2003. Os registros mostram que o número de defeitos observados pelo pessoal médico do Hospital e Maternidade Basra nos recém-nascidos mais do que dobrou entre 2003 e 2009. Entre 2007 e 2010, em Faluja, mais da metade das crianças nasceram com algum problema congênito, contra menos de 2% em 2000. Mozhgan Savabieasfahani é a autora principal do último estudo publicado pelo Bulletin of Environmental Contamination and Toxicology (Boletim de Contaminação Ambiental) intitulado Metal Contamination and the Epidemic of Congenital Birth Defects in Iraqui Cities (Contaminação com metal e a epidemia de defeitos congênitos em cidades iraquianas). O exame de amostras de cabelos de 56 famílias de Faluja revelou contaminação com dois metais conhecidos por sua neurotoxidade: chumbo e mercúrio. Savabieasfahani, toxicologista ambiental da Escola de Saúde Pública da norte-americana Universidade de Michigan, conversou com a IPS sobre a crise sanitária iraquiana e as consequências de longo prazo pela exposição a metais liberados pelas bombas e munições. IPS: A senhora se concentrou em Faluja e Basra. Há algum indício de que este problema possa estar afetando outras cidades também? MOZHGAN SAVABIEASFAHANI: Há um estudo feito em outra cidade e creio que apresenta aspectos semelhantes. Acredito que é possível que qualquer outro lugar tenha sido afetado. Em alguns locais são registradas situações parecidas, mas não há publicações que indiquem isso. IPS: Seu estudo encontrou sérias deformações em crianças em 2010. Por quanto tempo continuarão sendo sentidos na saúde os efeitos da guerra? MS: Falando como toxicologista ambiental, creio que enquanto não se limpar o meio ambiente, enquanto a fonte desta contaminação pública não for encontrada, e enquanto a população estiver diariamente exposta a ela, o problema persistirá. E podemos ver que, na verdade, está se agravando. Penso que o melhor passo a ser dado agora é ampliar o alcance dos estudos ambientais: analisar a água, o ar, os alimentos, o solo, tudo o que esteja em contato com as pessoas, analisar tudo isto para detectar a presença de metais tóxicos e outras substâncias que estão no meio ambiente. E, uma vez encontrada a fonte, então poderemos erradicá-la. Se não fizermos isto, o problema continuará, porque as pessoas estão expostas. IPS: Que tipo de munição é responsável por esta classe de contaminação em grande escala? MS: Fazemos referência a um par de documentos militares dos Estados Unidos e a metais indicados neles. As munições para armas pequenas incluem vários metais. Porém, pode ser de tudo, desde as bombas lançadas do ar até as disparadas por tanques ou mesmo as balas. Todas possuem metais semelhantes, incluindo mercúrio e chumbo, que encontramos nos corpos das pessoas que vivem em Faluja e Basra. IPS: A senhora colabora com os pesquisadores da Organização Mundial da Saúde (OMS) que realizam um estudo semelhante, cujas conclusões serão apresentadas no próximo mês? MS: Não, não mantive contato com a OMS, nem com nenhuma outra organização. Simplesmente trabalhamos com um grupo de cientistas. IPS: A senhora sabe de alguma reação formal à sua pesquisa, seja do governo do Iraque, dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha? MS: Houve alguma. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos respondeu ao informe dizendo que não sabe de nenhum estudo oficial que indique algum problema em Basra ou Fajula. Mas isto é só o que consigo lembrar. IPS: Como o sistema de atenção médica iraquiana enfrenta uma emergência como esta? E como é possível dar atenção médica e adotar medidas contra a contaminação nos lugares afetados? MS: Sei que os hospitais nas duas cidades que estudei estão sobrecarregados, mas enquanto houver preocupação haverá formas de ajudá-los. Precisamos organizar os médicos, os cientistas e profissionais nesta área para fazer a limpeza. Organizá-los, levá-los a essas duas cidades e iniciar o trabalho. No entanto, tudo isso exige apoio financeiro e de outro tipo. O apoio político e o financeiro ajudarão para que isso aconteça. Envolverde/IPS


por Julia Kallas, da IPS
Furacão Sandy visto do espaço. Foto: NOAA Inter Press Service - Reportagens

Olá, sou Sandy

[caption id="attachment_69400" align="aligncenter" width="500" caption="Furacão Sandy visto do espaço. Foto: NOAA"][/caption]   Uxbridge, Canadá, 30/10/20121 – Olá, aqui é o furacão Sandy. As pessoas me chamam de “Frankentormenta”, “supertormenta”, e inclusive de “bomba meteorológica”. A verdade é que não pretendo prejudicar ninguém. Mas uma umidade atmosférica e um calor oceânico sem precedentes me deram um poder incontrolável. Lamento dizer que tenho tanta potência eólica que estou colocando o mar dentro de suas salas ao longo de toda a costa leste dos Estados Unidos, no Oceano Atlântico. O mar é como uma saladeira cheia de água e inclinada de tal modo que esta só pode derramar. Meus ventos chegam a 150 quilômetros por hora. Perderão velocidade na medida em que adentrarem na terra, mas até então terão empurrado tanta água sobre a costa que haverá inundações por toda parte e durante toda a noite de ontem para hoje. Inundações causadas por tantas ondas recordes já ocorreram em várias áreas de Nova Jersey. E continuarão assim nesse Estado e em seu vizinho Nova York. Provavelmente cause danos de milhares de milhões de dólares em Washington, Nova York, Boston e outras partes do nordeste dos Estados Unidos. E seguramente matarei várias pessoas. Já o fiz. Cerca de 60 perderam a vida quando passei por Jamaica, Cuba e Haiti há alguns dias. Sou uma força da natureza, mas é importante entenderem que isto não é minha culpa. Nasci apenas no dia 22 deste mês nas águas quentes do sudoeste do Mar do Caribe, como um conjunto de tempestades elétricas e chuva, o que vocês chamam de depressão tropical, primeiro estágio na formação de um furacão. Uma das raridades do meu nascimento foi que aconteceu bem no final da temporada de furacões. Mas isto acontece cada vez com maior frequência, na medida em que o clima esquenta e grandes partes do oceano conservam o calor por mais tempo. O ar e a água estão mais quentes porque agora a atmosfera tem centenas de milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) procedentes da queima de carvão, petróleo e gás, bem como do desmatamento, da agricultura e das indústrias. Vocês sabem que o CO2 é como uma cobertura que mantém o planeta temperado, retendo parte do calor provocado pelos raios solares. Mas essas centenas de milhões de CO2 que vocês, humanos, lançam na atmosfera fazem com que esta cobertura seja cada vez mais grossa e capture mais calor do Sol. Esta quantidade extraordinária de energia calorífica presa equivale à explosão de 400 mil bombas atômicas, como a lançada sobre Hiroshima, a cada dia, 365 dias por ano. A maior parte desse calor extra foi para os oceanos. Por isso as temperaturas terrestres aumentaram, em média, apenas oito décimos de grau desde a era pré-industrial. Os mares estão mais e mais quentes, levando suas águas a se expandirem, como a onda formada quando o leite ferve. Esta é uma razão para a elevação do nível do mar; a outra é o derretimento das geleiras e dos gelos polares. O ar mais quente também pode carregar mais umidade. As medições realizadas mostram que agora há entre 4% e 6% mais vapor de água no ar, por isso as precipitações são mais intensas. Nasci na água a uma temperatura não inferior a 28 graus. Para crescer forte, preciso de água temperada e ar bem carregado de umidade. Havia abundância de ambos na semana passada, e na noite do dia 22 a velocidade dos meus ventos era suficientemente forte para ser batizada de tempestade tropical. No dia 24 estava mais poderosa e me deram o nome de furacão Sandy, o décimo da temporada. Este ano já aconteceram 18 tempestades tropicais, por isso 2012 pode se converter no terceiro ano de maior atividade ciclônica da história. Nós, furacões, vivemos sobre a água quente e o ar úmido. Por isto, perdi potência quando passei pelas montanhas e colinas da Jamaica e de Cuba. Mas a extensa área de águas incomumente quentes, que se estendem da Flórida até o norte da costa leste dos Estados Unidos, me forneceram a energia para continuar existindo e crescer em poder e tamanho. De fato, sou tão grande que poderia ser o maior registrado até agora. Isto tampouco deve surpreender. O calor crescente retido na cobertura de CO2 é o combustível das tempestades e da crescente umidade para chuvas mais copiosas e mais inundações do que no passado. E a elevação do nível do mar significa que as ondas serão mais destrutivas. Durante milhões de anos, nós, furacões e tufões, fomos a forma que a Terra encontrava para redistribuir o calor. Imaginem que somos como gigantescas válvulas de pressão. Quando o calor atmosférico aumenta, como agora, ninguém deve se assustar por sermos maiores e mais potentes. Já disse que sou uma força da natureza. Muitos dirão que sou um ato de Deus. Contudo, agora sabemos que isso não é verdade, certo? Ontem pela manhã virei rumo norte-noroeste e estou a cerca de 400 quilômetros a sudeste de Nova York. Já devo ser a tempestade de maior tamanho, com uma extensão total de aproximadamente 3.200 quilômetros. Queria permanecer sobre o mar aberto, mas uma grande coluna de ar frio e alta pressão sobre a região dos Grandes Lagos me colocaram neste rumo. A iminente colisão entre esse frio e o ar muito quente e úmido me tornará mais forte e perigoso. É impossível dizer com certeza se o derretimento do gelo marinho do Ártico, que este ano atingiu um recorde histórico, tem alguma responsabilidade nisto. Sei que a maior parte do gelo do Ártico derreteu em 2012. O gelo reflete a energia solar, mas o oceano escuro a absorve. Para que o Ártico volte a congelar, deve livrar-se do calor, lançando-o na atmosfera. Agora, precisamente ali, há quantidades recordes de energia calorífica saindo do mar e entrando no ar. Isto vem acontecendo a cada outono boreal nos últimos anos. Novamente, não devem se surpreender pelo fato de a liberação de todo esse calor extraordinário alterar os padrões meteorológicos. A corrente em jorro, os ventos oeste-leste que atuam como fronteira entre o frio ártico e as latitudes médias mais temperadas, está perdendo força, movendo-se mais para o norte e tornando-se mais errante. Outro fator que me impulsiona para dentro do território dos Estados Unidos é uma maciça cúpula de alta pressão localizada no sudoeste da Groenlândia. Sem esse bloco de alta pressão, possivelmente tivesse resistido ao empuxe do sistema de baixa pressão e permanecido no mar. Esse sistema de alta pressão está parado ali há duas semanas; os bichos raros da meteorologia o chamam de “evento de obstrução”. Já produziu uma extensão recorde de altas temperaturas e um degelo também recorde na Groenlândia. Sim, estou usando muito a palavra “recorde”. É porque o clima enveredou por um terreno desconhecido. O calor e a seca sem precedentes do recém-terminado verão boreal nos Estados Unidos são apenas um exemplo. E as coisas continuarão mudando. As tempestades poderão ser cada vez maiores e poderemos aparecer com maior frequência ou nos apresentar em lugares em que não íamos antes. Não há como saber. De uma coisa podem estar certos: o clima dos últimos 20 séculos já não existe. Sou parte da nova normalidade. Envolverde/IPS * Fala o furacão Sandy – Blog em inglês.


por Stephen Leahy, da IPS
Antigo Museu do Índio. Foto: Norbert Suchanek Brasil

O futebol derruba museu indígena

[caption id="attachment_69306" align="alignright" width="300" caption="Antigo Museu do Índio. Foto: Norbert Suchanek"][/caption] Rio de Janeiro, Brasil, 29/10/2012 – Entre o musgo e as raízes, que avançam sobre as ruínas do ex-Museu do Índio, ainda é possível “ouvir” as vozes de tribos em extinção no Brasil, que tentam guardar a memória de sua cultura. Contudo, o golpe fatal de picareta da remodelação do estádio do Maracanã não respeitará nem esse espaço “sagrado”. “É como se matassem uma parte de nós, como se estivéssemos perdendo um pedaço, porque neste lugar nossos antepassados deixaram sua memória, sua luta”, lamenta Garapira Pataxó, da etnia pataxó, em entrevista à IPS, depois que o governo do Estado do Rio de Janeiro confirmou a decisão de demolir o lugar. As autoridades alegam que é necessário para a construção de espaços de “circulação e mobilidade” ao redor do Estádio Jornalista Mário Filho, onde, em 2014, pela segunda vez na história, será jogada uma final de copa do mundo. O prédio, construído há 147 anos, foi desde 1953 a primeira sede do Museu do Índio, criado pelo antropólogo Darcy Ribeiro (1992-1997), até que, em 1978, passou a ocupar um antigo casarão no bairro de Botafogo. Também abrigou em sua origem o Serviço de Proteção ao Índio, que mais tarde passou a ser a atual Fundação Nacional do Índio (Funai). Abandonado desde então e em avançado estado de deterioração, o edifício foi ocupado em 2006 por cerca de 20 indígenas de diferentes etnias, como “símbolo de resistência cultural”, recorda o líder indígena Doitiró Tukano, do povo amazônico tukano. “Estamos presentes aqui para mostrar o que temos de diferente em nossa cultura, porque não é cópia, mas própria. Hoje, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, há 305 grupos indígenas com 186 línguas diferentes no Brasil, e é isso o que queremos mostrar. Esta é nossa resistência”, explicou Tukano à IPS. Uma das versões, ainda não confirmada, é que será construído um centro comercial e esportivo e um estacionamento no antigo museu, vizinho ao histórico estádio, onde o Brasil perdeu a final do Mundial de 1950 para o Uruguai. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, atribuiu a necessidade demolir o Museu do Índio a uma exigência da Fifa, mas a entidade negou. Renato Cosentino, porta-voz do Comitê Popular do Mundial de Futebol 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016, comentou a contradição. “Muitas vezes é usada a desculpa do esporte para desalojar pessoas de áreas de alto valor imobiliário”, disse à IPS, referindo-se ao Rio de Janeiro e às outras 11 cidades que serão sede da Copa. Foram desalojadas cerca de 170 mil pessoas em todo o país, e cerca de 30 mil no Rio de Janeiro, que também receberá as Olimpíadas de 2016. Precisamente, duas das favelas onde isso aconteceu são vizinhas do Maracanã, um “símbolo de todo o processo de violação de direitos que estamos vivendo no Brasil”, afirmou o representante do Comitê, que reúne pessoas prejudicadas pelos megaencontros esportivos. “É uma grande tristeza ver que nosso sonho acaba. É uma referência que gostaríamos de guardar para as futuras gerações”, disse o líder Tukano, após explicar que não é “contra a alegria do povo brasileiro pelo futebol. Mas, para nós, o Mundial não traz nada. Claro que dará benefícios às grandes empresas patrocinadoras”. O grupo indígena se prepara para “resistir” à demolição de seu espaço, enquanto a defensoria pública prepara sua contraofensiva judicial, alegando o valor patrimonial histórico do prédio. Na área que rodeia o edifício em ruínas, os indígenas construíram casas, com materiais básicos como adobe, para viverem, e assim recriaram o que chamaram de Aldeia Maracanã, onde reproduzem seus costumes em meio a uma cidade que avança sobre eles. Entre escadas enferrujadas e raízes se entrelaçando com paredes destruídas, os indígenas organizam atividades culturais como danças, cerimônias, exposições fotográficas, rituais e até desfiles de roupa ancestral. Antes de ser confirmada a demolição, no lugar era preparado um ritual de “metamorfose de menina para mulher”, para a qual viriam adolescentes de várias aldeias do interior do país. “Veja como o índio gosta de comer mandioca”, brinca Afonso Chamakiri, da etnia apuriná do Amazonas, enquanto almoça com sua nova família pescado na brasa e farinha de mandioca. A história deste indígena apuriná é muito particular. Chegou ao Rio de Janeiro com o sonho de ser ator. “Minha mãe veio uma vez para a cidade e voltou para casa impressionada por uma caixa onde havia gente que falava”, conta à IPS se referindo à “descoberta” da televisão por sua mãe no dia em que saiu pela primeira vez de sua aldeia amazônica. Chamakiri concretizou seu sonho e participou de vários filmes. O último foi Vermelho Brasil, coprodução do Brasil com França e Canadá. Sobre o muro levantado pela construtora responsável pela reforma do Maracanã, alguns operários espiam a cerimônia dos indígenas ao receber a IPS, pedindo aos seus ancestrais que iluminem o governo a respeito de seu “espaço sagrado”. Chamakiri afirma que “não temos nada contra eles. Muitos são índios como nós. Outros negros, povo como nós”. Chamakiri gosta de contar uma história que poucos recordam sobre a origem do nome que primeiro batizou um rio e depois o bairro carioca e, em seguida, popularizou o estádio. Maracanã é uma ave da região que ainda “vem comer o fruto dessa árvore”, afirma, apontando para uma das muitas espécies que se mantêm milagrosamente em pé em meio à urbanização. O pássaro sobreviveu à civilização, mas o “antigo povo indígena maracanã, que dominava este território já está extinto”, contou Chamakiri. Por isso, para ele é tão importante manter o centro cultural, que “representa o registro de todas as culturas ancestrais que começaram aqui e que foram destruídas neste espaço. Queremos que se converta em um espaço indígena sagrado”. Envolverde/IPS  


por Fabiana Frayssinet, da IPS
obama Inter Press Service - Reportagens

O Alcorão pode desequilibrar as urnas

[caption id="attachment_69302" align="alignright" width="193" caption="A maioria dos muçulmanos norte-americanos votaria em Obama. Foto: Pete Souza/Casa Branca"][/caption] Washington, Estados Unidos, 29/10/2012 – Os muçulmanos dos Estados Unidos podem ter um papel inesperadamente decisivo nas eleições deste país, marcadas para o dia 6. Uma pesquisa de intenção de voto diz que 68% dos entrevistados membros dessa coletividade se manifestaram a favor da reeleição de Barack Obama, do Partido Democrata, e apenas 7% disseram votar em Mitt Romney, do opositor Partido Republicano. Nessa pesquisa, baseada em entrevistas com 500 eleitores muçulmanos, o que mais surpreendeu foi que 25% disseram que ainda não se decidiram. As dezenas de milhares de indecisos estão desproporcionalmente concentrados em três dos chamados “Estados pêndulos”: Flórida, Ohio e Virgínia, onde a competição é renhida e as eleições podem ser definidas. E, por isso, foi para onde os candidatos se dirigiram nas duas últimas semanas de campanha. “O voto muçulmano poderia ser decisivo em vários Estados competitivos”, disse Naeem Baig, a presidente do Grupo de Tarefas Muçulmano-Norte-Americano sobre Direitos Civis e Eleições, que copatrocinou a pesquisa, realizada nas duas primeiras semanas deste mês e divulgada no dia 24. Grandes maiorias de entrevistados disseram que os Estados Unidos deveriam apoiar os rebeldes na Síria (68%) e que Washington fez o correto ao intervir na Líbia no ano passado, junto com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (76%). Os entrevistados se dividiram em partes bem parelhas quando perguntados se Washington deu suficiente apoio aos levantes no Oriente Médio e no norte da África, conhecidos como Primavera Árabe. O número exato de muçulmanos nos Estados Unidos e quantos deles votam é assunto de considerável debate. Os cientistas nesse país não estão autorizados a perguntar aos cidadãos a qual religião pertencem. O conselho sobre Relações Norte-Americano-Islâmicas (Cair), outro copatrocinador do estudo, estima que os muçulmanos neste país somem entre seis milhões e sete milhões, mais ou menos a mesma quantidade que os membros da comunidade judia. O Centro de Pesquisas Pew, por outro lado, estimou, no ano passado, o número total de muçulmanos norte-americanos em 2,75 milhões, dos quais um milhão são crianças e, portanto, não votam. Concluiu também que mais de 60% dos norte-americanos que abraçavam a religião islâmica eram imigrantes, e, destes, mais de 70% cidadãos legais. A maioria dos muçulmanos nativos tem ascendência africana, e, junto com árabes, iranianos e sul-asiáticos representam cerca de 80% da população maometana dos Estados Unidos. O Cair estima que o número total de muçulmanos registrados para votar é de, pelo menos, um milhão. Ohio, segundo esta instituição, tem cerca de 50 mil seguidores do Islã habilitados para votar, Virgínia 60 mil e Flórida entre 70 mil e 80 mil. Historicamente, os muçulmanos norte-americanos se dividiam em partes iguais em seu comportamento eleitoral. Contudo, nas eleições de 2000, 72% votaram em George W. Bush (2001-2009), sobretudo porque durante a campanha manteve longos contatos com organizações islâmicas. Além disso, em um debate crucial com seu adversário, Al Gore, Bush se expressou contra o uso de evidência secreta em audiências de deportação e rejeitou o uso de critérios raciais na elaboração dos perfis policiais. Quatro organizações islâmicas apoiaram sua candidatura. No entanto, desiludidos pela dura resposta após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, em Nova York e Washington, que incluiu a detenção de centenas de seguidores do Islã, a aprovação da severa Lei Patriota e a guerra contra o Iraque, os muçulmanos abandonaram Bush. Nas eleições de 2004, 93% dos maometanos votaram no então candidato democrata, John Kerry, 5% no independente Ralph Nader e apenas 1% em Bush, segundo pesquisas do momento. O giro para o Partido Democrata continuou em 2008, quando quase 90% dos eleitores muçulmanos escolheram Obama, e apenas 2% seu rival republicano, o senador John McCain. Entretanto, não está claro se Obama será capaz de reter esse apoio, segundo o diretor executivo do Cair, Nihad Awad, para quem os muçulmanos estão em parte decepcionados com o presidente por não ter cumprido plenamente algumas de suas promessas de campanha, como, por exemplo, eliminar algumas disposições da Lei Patriota e fechar a prisão na base militar de Guantânamo, em Cuba. Além disso, como o público em geral, os muçulmanos também estão decepcionados pelo desempenho do presidente em temas como economia e emprego. Também o uso de aviões não tripulados para atacar supostos membros da Al Qaeda no Paquistão “não cai bem na comunidade” islâmica, afirmou o presidente do comitê de assuntos públicos da Sociedade Muçulmana Norte-Americana, Oussama Jammal. Por outro lado, revelações de uma “vigilância sem precedentes” nas mesquitas do país e o uso de agentes provocadores por parte do FBI também minaram a confiança da comunidade maometana em Obama, explicou Baig. A pesquisa feita este mês também concluiu que 91% dos consultados pensam em votar nas próximas eleições. Nas últimas, de 2008, apenas 57% dos muçulmanos registrados votaram. Envolverde/IPS * O blog de Jim Lobe sobre política externa pode ser lido em www.lobelog.com


por Jim Lobe, da IPS

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sustentabilidade

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Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

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Cerca de 62% dos acidentes da exploração de petróleo offshore aconteceram em plataformas com mais de trinta anos. Novo site do Greenpeace vai monitorar ocorrências no pré-sal.