Trinta anos após a descoberta da Aids, cientistas falam de erradicação

Saúde

Trinta anos após a descoberta da Aids, cientistas falam de erradicação


por Redação da Agência Frace Press


[caption id="attachment_87941" align="alignleft" width="300" caption="Paciente soropositivo consulta uma médica durante exames de rotina em hospital de Bangalore, Índia. Foto: Manjunath Kiran/ AFP"][/caption] Para cientistas reunidos em um colóquio sobre o HIV, em Paris, uma vacina preventiva poderá estar disponível dentro de sete anos ou menos. Paris (AFP) - Trinta anos depois da identificação do vírus HIV por uma equipe do Instituto Pasteur, de Paris, os grandes nomes das pesquisas sobre a Aids, reunidos a partir desta terça-feira 21 em um colóquio internacional, abordam abertamente a questão da futura erradicação da doença. O tema deste simpósio, co-organizado pelo Instituto Pasteur, não é contar a história da descoberta do vírus pela equipe chefiada pelo doutor Luc Montagnier, mas detalhar os desafios no futuro: vacinas, tratamentos precoces, compreensão dos casos de remissão de longo prazo, etc.. "Talvez sejamos um pouco loucos, mas esperamos ter uma vacina preventiva dentro de três, quatro, cinco, seis ou sete anos", declarou à AFP o cientista americano Robert Gallo, especialista em virologia que confirmou em 1984 a descoberta feita pelo professor Montagnier. "Nós fizemos enormes avanços a respeito dos anticorpos que atacam as proteínas do invólucro externo do vírus (...). Nós realmente fizemos um avanço neste campo que renova as esperanças", explicou. No entanto, as pesquisas para o desenvolvimento de uma vacina se revelaram até o momento frustrantes. "Temos esbarrado e continuamos a esbarrar em muitas dificuldades científicas mas, historicamente, a obstinação e a inovação científica compensam", afirmou o respeitado virologista americano Anthony Fauci. "Nós continuamos a fazer avanços sobre o conhecimento dos anticorpos capazes de neutralizar o HIV e seu potencial para o desenvolvimento de uma vacina", destacou o doutor Fauci, que chefia o Instituto Nacional de Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, uma referência na luta contra a Aids. Co-descobridor do HIV em 1983, a virologista francesa Françoise Barré-Sinoussi, do Instituto Pasteur, admite os "muitos revezes" nas pesquisas sobre as vacinas, mas afirma que eles permitem aprender. Um outro eixo de pesquisa se articula em torno dos casos raros de "remissões persistentes à suspensão do tratamento", informou, em alusão aos casos de 14 pacientes descritos no estudo francês Visconti, que mais de sete anos após a suspensão de qualquer tratamento com antirretrovirais conseguem "controlar sua infecção". Jean-François Delfraissy, diretor da Agência Nacional de Pesquisa sobre a Aids da França (ANRS) considerou por sua vez que "o divisor de águas para a erradicação" do vírus da Aids "é agora". "As grandes agências de pesquisa (...) estão no topo e têm as primeiras pistas, em particular na França" com os casos "um pouco excepcionais" destes pacientes "tratados muito cedo" após a infecção e que atualmente conseguem viver sem o tratamento, comentou em declarações à France Info. "Nós estamos em um tipo de remissão da doença viral como falamos da remissão do câncer. É uma lanterna que nos ilumina para saber aonde ir em termos de pesquisa", explicou. O colóquio "30 anos de ciência do HIV, imagine o futuro", realizado no Instituto Pasteur de Paris, vai dedicar uma sessão às diferentes linhas de pesquisa para "controlar e tratar o HIV", enquanto até agora os tratamentos com antirretrovirais permitem baixar a carga viral até deixar o vírus quase indetectável, sem se livrar dele. Há um outro projeto de pesquisa, também promissor e sem dúvida mais imediato, para simplificar, aliviar os tratamentos e reduzir os efeitos colaterais, sobretudo com moléculas de ação prolongada, com as quais uma única dose por semana seria suficiente para o tratamento da infecção. Por fim, vários estudos estão em curso sobre as classes de medicamentos totalmente diferentes dos antirretrovirais, "que se aproximam dos anticancerígenos" e que atacam os invólucros dos vírus, afirmou Delfraissy à AFP. * Publicado originalmente na Agência Frace Press e retirado do site Carta Capital.

Gafanhotos vermelhos à venda no mercado Benito Járez da capital de Oaxaca, México. Foto: Nsaum75 CC BY-SA 3.0 Inter Press Service - Reportagens

Insetos entre a moda gastronômica e a fome

[caption id="attachment_87853" align="aligncenter" width="507" caption="Gafanhotos vermelhos à venda no mercado Benito Járez da capital de Oaxaca, México. Foto: Nsaum75 CC BY-SA 3.0"][/caption]   Cidade do México, México, 23/5/2013 – A última proposta da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), de considerar os insetos como parte do cardápio para combater a fome, repercute com especial ênfase na Colômbia e no México, dois países com tradição de entomofagia e grande diversidade biológica. No México há mais de 300 espécies comestíveis destes invertebrados, segundo um estudo publicado este mês pelo Departamento de Entomologia da holandesa Universidade de Wageningen e pela FAO. Porém, pesquisas nacionais apontam mais de 500 espécies no centro, sul e sudeste deste país megabiodiverso e com persistente pobreza que afeta 47% de seus habitantes. “Os insetos são uma fonte viável e econômica de alimento de qualidade que poderia, inclusive, ser melhor do que alimentos industrializados consumidos atualmente”, disse à IPS a pesquisadora Julieta Ramos-Elorduy, do Instituto de Biologia da Universidade Nacional Autônoma do México. Para esta especialista, o México “está preparado para um consumo maciço, mas é preciso educar as pessoas sobre técnicas e formas de comercializá-los. Não há preocupação em protegê-los. Não há medidas oficiais”, disse a pesquisadora, que desde a década de 1970 estuda os benefícios destes bichos de idade milenar e que encontrou 549 espécies comestíveis. A questão ganha dimensões ambientais, especialmente no Dia Internacional da Diversidade Biológica, comemorado ontem. A ingestão de insetos, ou entomofagia, é uma tradição indígena no México, conforme consta do Código Florentino, escrito por frei Bernardino de Sahagún (1499-1590), que chegou a descobrir o consumo de 96 espécies. Alguns insetos têm até três vezes mais proteínas do que um quilo de carne e apresentam uma concentração de nutrientes superada apenas pelo pescado, segundo a Comissão Nacional para o Conhecimento e Uso da Biodiversidade. O cardápio mexicano de insetos é composto por percevejos, mariposas, escaravelhos, borboletas, larvas de formigas e moscas, abelhas, vespas e gafanhotos, presentes em quase todo o território. São preparados fritos, assados ou em diferentes tipos de molhos. Nas últimas décadas, vários destes manjares saltaram das cozinhas de famílias rurais e pobres para as mesas de restaurantes da moda. Na cidade de Mitla, perto do sítio arqueológico zapoteco do Estado de Oaxaca, uma pequena empresa usa as mariposas (Hypopta agavis) da planta agave para elaborar um sal picante que acompanha o mescal, bebida alcoólica destilada desse mesmo vegetal. “Nos baseamos em uma receita caseira. A moagem é feita à mão e usamos uma misturadora manual. Também empacotamos à mão”, disse à IPS a gerente comercial da firma Gran Mitla, Diana Coronal, que produz 300 quilos desse sal por mês. Um quilo exige 300 gramas de mariposas moídas, outros 300 de chili seco e 400 gramas de sal. As mariposas, recolhidas entre agosto e outubro, são congeladas para abastecer a produção, pois entre novembro e maio está proibida sua coleta em todo o país. A publicação da FAO indica que mais de 1.900 espécies fazem parte de dietas tradicionais de pelo menos dois bilhões de pessoas em todo o mundo. Os preferidos são escaravelhos, lagartas, vespas, formigas, gafanhotos e grilos. A coleta e criação de insetos podem gerar empregos e renda e têm potencial industrial, segundo os autores do estudo. “Isso pode ser conseguido se os insetos forem cultivados e comercializados em grandes quantidades. Mas os produtores devem ser conscientes de que estão perdendo recursos”, disse Ramos-Elorduy, que pesquisa a produtividade de espécies de insetos do milho e da abóbora e formas para aumentá-la. “A técnica de coleta é a mesma em todas as partes, mas não há legislação sobre técnicas adequadas. As pessoas as desconhecem. Além disso, paga-se muito pouco”, lamentou a pesquisadora. Em um estudo, Ramos-Elorduy, Andrés Juárez e José Manuel Pino alertam que “este valioso recurso gastronômico, devido a diversos problemas ambientais e socioeconômicos, corre o risco de desaparecer”. O trabalho, publicado em dezembro, conclui que “o impacto ambiental, a mudança cultural e o uso da terra fazem com que o consumo de insetos diminua, principalmente entre os grupos de jovens”. A gerente Coronal concorda que devem ser adotadas normas para proteger estas espécies. “São necessárias regulamentações sobre coleta e comercialização. É parte da gastronomia mexicana e é preciso cuidar desse recurso”, afirmou. Por esse motivo, muitos coletores evitam falar sobre como e onde pegam insetos. O documento da FAO recomenda infraestrutura automatizada e marcos regulatórios para uma produção estável, confiável e segura. Além disso, insiste na possibilidade de que a biomassa de insetos seja usada como matéria-prima da alimentação animal. Na Colômbia, um manjar que pode ser comprado facilmente é a crocante formiga saúva cabeça de vidro (Atta laevigata), tostada e salgada. A origem deste e de outros pratos também é indígena. Contudo, “entrar na floresta para grandes coletas de insetos é muito delicado, porque estes ficam em áreas de vida silvestre”, afirmou à IPS o biólogo colombiano e planejador regional, Jaime Bernal Hadad. A Colômbia tem uma pobreza que afeta 32,7% da população e é o segundo país mais megabiodiverso do mundo, depois do Brasil. “Nos ecossistemas tropicais, embora haja grande diversidade de espécies, a quantidade por espécie é pouca. Com grandes coletas pode-se extinguir espécies ou gerar desequilíbrio ambiental”, alertou Hadad. “Os besouros nas árvores caídas das florestas contribuem para sua decomposição e para o equilíbrio dessas matas. As vespas e abelhas têm um papel importante na polinização”, explicou Hadad. E, “embora haja grupos indígenas que consomem esses insetos, que são apetitosos, são grupos minoritários que não chegam a causar problema”, acrescentou Hadad. Para o biólogo, criar insetos “é uma opção interessante, mas entram em jogo outros fatores, como a questão cultural de aceitação e consumo. Naturalmente que na Europa pode ser considerado exótico, mas, se falarmos de populações marginalizadas na América Latina, a questão é diferente e até surpreendente”. Na luta contra a fome “não se pode descartar questões mais estruturais”, alertou Hadad. E, além disso, “vale a pena perguntar se a proposta poderia ser controlada ou se será outro meio de impactar a conservação, desta vez não pela pecuária ou pela madeira, mas pelos insetos”, argumentou. “Assim, continuaremos reproduzindo a destruição dos sistemas naturais, sem soluções reais”, ressaltou. Envolverde/IPS * Com a colaboração de Helda Martínez (Bogotá).


por Emilio Godoy, da IPS
medicina Saúde

Brasil discute na OMS a contratação de médicos estrangeiros para trabalhar no interior do país

Brasília – O Brasil vai sediar, no fim deste ano, uma conferência da Organização Mundial da Saúde (OMS) para discutir a formação de profissionais da área, sobretudo médicos. Serão definidos pelos países critérios para ampliação e distribuição de vagas de especialistas e a criação de mecanismos de cooperação internacional para ajudar as nações com baixas proporções de médicos por habitantes a equilibrar a disponibilidade dos profissionais. De acordo com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a escolha do Brasil para receber o encontro, que ocorrerá no Recife (PE), foi acertada durante a 66ª Assembleia Mundial de Saúde, que vai até a próxima terça-feira (28), em Genebra. “O Brasil foi escolhido por ter pautado a discussão sobre este tema [atração de médicos estrangeiros ao país] na política internacional de saúde”, disse ontem (22), ao participar do lançamento da campanha de doação de leite, em parceria com o Programa Ibero-Americano de Bancos de Leite Humano. Ao enfatizar que o governo continua estudando trazer médicos de outros países para preencher vagas em regiões com carência desses profissionais, Padilha informou ter retornado nesta quarta-feira ao Brasil a equipe do ministério que participou das reuniões, em Genebra, sobre políticas de atração e fixação de médicos estrangeiros em países como o Canadá, a Espanha, Portugal e a Inglaterra. “Vamos ouvir detalhes não só sobre possíveis acordos bilaterais com Espanha e Portugal, mas também sobre como países como Austrália, Canadá e Inglaterra fazem para atrair médicos estrangeiros”, disse. Entre os possíveis acordos bilaterais que o Brasil avalia, está o que prevê intercâmbio para especialização de médicos em universidades de países europeus. “O Brasil precisa dar mais oportunidade para os médicos fazerem especialização nas áreas que mais precisamos. No caso dos anestesiologistas, por exemplo, são formados atualmente no Brasil quase 600 por ano para uma população de 200 milhões de habitantes. A Inglaterra forma 3.200 profissionais para uma população de 60 milhões de habitantes”, disse. Padilha ressaltou o caráter transitório de todas as medidas em análise pelo governo. “O estruturante é criar mais vagas de medicina no interior, abrir mais vagas nos cursos de medicina que permitam a entrada de filhos de trabalhadores e criar mais hospitais com programas de residência. Só que [o processo] pode demorar e intercâmbios podem dar oportunidades para médicos brasileiros ampliarem sua formação como especialistas mais rapidamente”, disse. O debate acerca da falta de médicos nas regiões brasileiras mais carentes tem gerado polêmica. No início do mês, o governo anunciou a intenção de contratar 6 mil médicos de Cuba, além de profissionais de Portugal e da Espanha para trabalhar na atenção primária à saúde nestas regiões. O governo considera que a deficiência desses profissionais é um dos nós mais críticos para garantir a saúde para toda a população brasileira. O tema já foi objeto de discussão no Congresso Nacional e é alvo de críticas de diversas entidades representativas da classe, como o Conselho Federal de Medicina, que questiona a qualidade dos médicos estrangeiros e põe em dúvida a eficácia da medida que consideram representar uma pseudoassistência à população. Dados do Ministério da Saúde mostram que no Brasil existe 1,8 médico para cada mil habitantes. Na Argentina, a proporção é 3,2 médicos para mil habitantes e, em países como Espanha e Portugal, essa relação é 4 médicos. No início do ano, os prefeitos que assumiram os mandatos apresentaram ao governo federal uma série de demandas na área de saúde. Entre os pontos destacados estava a dificuldade de atrair médicos para as áreas mais carentes, para as periferias das cidades e para o interior. * Edição Beto Coura. ** Publicado originalmente no site Agência Brasil. 


por Thais Leitão, da Agência Brasil
tratamentocancer Saúde

Entra em vigor lei que estabelece prazo para início de tratamento de câncer pelo SUS

Brasília – A partir de hoje (23), pacientes com câncer deverão iniciar o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) até 60 dias após o registro da doença no prontuário médico. A determinação consta da Lei 12.732/12, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff em novembro do ano passado, que entra em vigor nesta quinta-feira Para ajudar estados e municípios a gerir os serviços oncológicos da rede pública, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou, há uma semana, a criação do Sistema de Informação do Câncer (Siscan). O software, disponibilizado gratuitamente para as secretarias de Saúde, vai reunir o histórico do paciente e do tratamento. A previsão do governo é que, a partir de agosto, todos os registros de novos casos de câncer no país sejam feitos pelo Siscan. Na ocasião, o ministro alertou que estados e municípios que não implantarem o sistema até o fim do ano terão suspensos os repasses feitos para atendimento oncológico. Com o objetivo de acompanhar o processo de implantação do Siscan e a execução de planos regionais de oncologia, uma comissão de monitoramento, de caráter permanente, visitará hospitais que atendem pelo SUS. O grupo vai avaliar as condições de funcionamento e a capacidade de oferecer atendimento oncológico com agilidade. Ontem (22), o diretor-geral do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), Paulo Hoff, elogiou a nova regra, mas cobrou recursos para o cumprimento da lei. De acordo com o médico, que também é professor de oncologia e radiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, nas instituições que tratam o câncer pelo SUS no estado o tempo médio entre o diagnóstico e o início do tratamento é 22 dias, abaixo do exigido pela lei. Ele disse, no entanto, que há casos em que, dependendo da localização do paciente e do tipo de tumor, o prazo pode passar de três meses. Dados do Ministério da Saúde mostram que o SUS conta atualmente com 277 serviços habilitados em oncologia, sendo 134 no Sudeste, 63 no Sul; 48 no Nordeste, 20 no Centro-Oeste e 12 no Norte. As unidades oferecem radioterapia, quimioterapia e cirurgia oncológica. Atualmente, 78% dos pacientes com câncer em estágio inicial recebem tratamento em até 60 dias. Desses, 52% conseguem ser atendidos em 15 dias. Entre os pacientes com câncer em estágio avançado, 79% recebem tratamento em até 60 dias. Chega a 44% os que conseguem ser atendidos em 15 dias. A estimativa do ministério é que o país registre este ano 518 mil novos casos de câncer. A previsão é que 60.180 homens tenham câncer de próstata e 52,6 mil mulheres sejam diagnosticadas com câncer de mama. Depois das doenças cardiovasculares, o câncer é a doença que mais mata no país. Em 2010, 179 mil pessoas morreram em decorrência da doença. O câncer dos brônquios e do pulmão foi o tipo que mais matou (21.779), seguido do câncer do estômago (13.402), de próstata (12.778), de mama (12.853) e de cólon (8.385). * Edição: Graça Adjuto. ** Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Thais Leitão, da Agência Brasil
Cuba Saúde

Médicos cubanos no Brasil?

O Conselho Federal de Medicina (CFM) está indignado frente ao anúncio da presidente Dilma de que o governo trará 6.000 médicos de Cuba, e outros tantos de Portugal e Espanha, para atuarem em municípios carentes de profissionais da saúde. Por que aqui a grita se restringe aos médicos cubanos? Detalhe: 40% dos médicos do Reino Unido são estrangeiros.  Também em Portugal e Espanha há, como em qualquer país, médicos de nível técnico sofrível. A Espanha dispõe do 7º melhor sistema de saúde do mundo, e Portugal, o 12º. Em terras lusitanas, 10% dos médicos são estrangeiros, inclusive cubanos, importados desde 2009. Submetidos a exames, a maioria obteve aprovação, o que levou o governo português a renovar a parceria em 2012. Ninguém é contra o CFM submeter médicos cubanos a exames (Revalida), como deve ocorrer com os brasileiros, muitos formados por faculdades particulares que funcionam como verdadeiras máquinas de caça-níqueis. O CFM reclama da suposta validação automática dos diplomas dos médicos cubanos. Em nenhum momento isso foi defendido pelo governo. O ministro Padilha, da Saúde, deixou claro que pretende seguir critérios de qualidade e responsabilidade profissionais. A opinião do CFM importa menos que a dos habitantes do interior e das periferias de nosso país que tanto necessitam de cuidados médicos. Estudos do próprio CFM, em parceria com o Conselho Regional de Medicina de São Paulo, sobre a "demografia médica no Brasil”, demonstram que, em 2011, o Brasil dispunha de 1,8 médico para cada 1.000 habitantes. Temos de esperar até 2021 para que o índice chegue a 2,5/1.000. Segundo projeções, só em 2050 teremos 4,3/1.000. Hoje, Cuba dispõe de 6,4 médicos por cada 1.000 habitantes. Em 2005, a Argentina contava com mais de 3/1.000, índice que o Brasil só alcançará em 2031. Dos 372 mil médicos registrados no Brasil em 2011, 209 mil se concentravam nas regiões Sul e Sudeste, e pouco mais de 15 mil na região Norte. O governo federal se empenha em melhorar essa distribuição de profissionais da saúde através do Provab (Programa de Valorização do Profissional de Atenção Básica), oferecendo salário inicial de R$ 8 mil e pontos de progressão na carreira, para incentivá-los a prestar serviços de atenção primária à população de 1.407 municípios brasileiros. Mais de 4 mil médicos já aderiram. O senador Cristovam Buarque propõe que médicos formados em universidades públicas, pagas com o seu, o meu, o nosso dinheiro, trabalhem dois anos em áreas carentes para que seus registros profissionais sejam reconhecidos. Se a medicina cubana é de má qualidade, como se explica a saúde daquela população apresentar, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), índices bem melhores que os do Brasil e comparáveis aos dos EUA? O Brasil, antes de reclamar de medidas que beneficiam a população mais pobre, deveria se olhar no espelho. No ranking da OMS (dados de 2011), o melhor sistema de saúde do mundo é o da França. Os EUA ocupam o 37º lugar. Cuba, o 39º. O Brasil, o 125º lugar! Se não chegam médicos cubanos, o que dizer à população desassistida de nossas periferias e do interior? Que suporte as dores? Que morra de enfermidades facilmente tratáveis? Que peça a Deus o milagre da cura? Cuba, especialista em medicina preventiva, exporta médicos para 70 países. Graças a essa solidariedade, a população do Haiti teve amenizado o sofrimento causado pelo terremoto de 2010. Enquanto o Brasil enviou tropas, Cuba remeteu médicos treinados para atuar em condições precárias e situações de emergência. Médico cubano não virá para o Brasil para emitir laudos de ressonância magnética ou atuar em medicina nuclear. Virá tratar de verminose e malária, diarreia e desidratação, reduzindo as mortalidades infantil e materna, aplicando vacinas, ensinando medidas preventivas, como cuidados de higiene. O prestigioso New England Journal of Medicine, na edição de 24 de janeiro deste ano, elogiou a medicina cubana, que alcança as maiores taxas de vacinação do mundo, "porque o sistema não foi projetado para a escolha do consumidor ou iniciativas individuais”. Em outras palavras, não é o mercado que manda, é o direito do cidadão. Por que o CFM nunca reclamou do excelente serviço prestado no Brasil pela Pastoral da Criança, embora ela disponha de poucos recursos e improvise a formação de mães que atendem à infância? A resposta é simples: é bom para uma medicina cada vez mais mercantilizada, voltada mais ao lucro que à saúde, contar com o trabalho altruísta da Pastoral da Criança. O temor é encarar a competência de médicos estrangeiros. Quem dera que, um dia, o Brasil possa expor em suas cidades este outdoor que vi nas ruas de Havana: "A cada ano, 80 mil crianças do mundo morrem de doenças facilmente tratáveis. Nenhuma delas é cubana”. * Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Frei Betto*
Mais de 99% do nosso código genético é microbiano. Foto: Reprodução/NYT Saúde

Você é apenas 10% humano

[caption id="attachment_87874" align="alignleft" width="341" caption="Mais de 99% do nosso código genético é microbiano. Foto: Reprodução/NYT"][/caption] Para cada célula humana intrínseca ao nosso corpo existem cerca de 10 micróbios, que desempenham papel fundamental na saúde. O sequenciamento do microbioma humano deu origem à ideia de que indivíduos não são apenas uma coleção de genes humanos, mas um superorganismo com centenas de espécies de micróbios, que desempenham um papel fundamental na saúde humana. Mais de 100 trilhões de bactérias vivem na superfície da pele, na língua e principalmente nas dobras do intestino, lar da maior contingência de bactérias essenciais à vida. Os micróbios de cada indivíduo pesam entre 0,5 e um quilo, formando um território vastamente desconhecido que os cientistas só agora começaram a mapear. Chegou o momento de pensar em si mesmo na segunda pessoa do plural. Em números absolutos, os micróbios e seus genes nos dominam. Cada indivíduo é apenas 10% humano. Para cada célula humana intrínseca ao nosso corpo existem cerca de 10 micróbios residentes – incluindo alguns aproveitadores inofensivos, espécies benéficas e, em apenas um pequeno número de casos, agentes patogênicos. Na medida em que seres humanos são uma coleção de informações genéticas, mais de 99% do nosso “código” é microbiano. E parece cada vez mais provável que este “segundo genoma”, como às vezes é chamado, exerce uma influência tão grande ou possivelmente maior sobre a nossa saúde do que os genes que herdamos de nossos pais. Mas, enquanto seus genes herdados são mais ou menos fixos, pode ser possível remodelar ou até mesmo cultivar o segundo genoma. Justin Sonnenburg, um microbiólogo da Universidade de Stanford, sugere que as pessoas fariam bem em pensar no corpo humano como “uma embarcação elaborada e otimizada para o crescimento e a disseminação dos nossos habitantes microbianos”. Esta nova forma de pensar sobre nós mesmos tem grandes implicações para a saúde humana e microbiana, que são indissociáveis. Distúrbios em nosso ecossistema interno — uma perda de diversidade microbiana, por exemplo, ou a proliferação de tipos “errados” de micróbios — podem nos predispor à obesidade e uma série de doenças crônicas, bem como algumas infecções. O pobre microbioma ‘ocidentalizado’ Cientistas descobriram há alguns anos que ratos obesos transplantados com as bactérias intestinais de ratos magros perdem peso, e vice-versa (Eles ainda não sabem o porquê). Um experimento semelhante foi realizado recentemente em humanos por pesquisadores da Holanda: quando o conteúdo da microbiota de um doador magro foi transferido para as entranhas de pacientes com síndrome metabólica, os pesquisadores descobriram melhorias notáveis ​​na sensibilidade dos receptores de insulina, um importante marcador da saúde metabólica. De alguma forma, micróbios do intestino influenciaram o metabolismo dos pacientes. Nossos micróbios residentes também parecem desempenhar um papel fundamental na formação e manutenção do nosso sistema imunológico, ajudando-o a distinguir com precisão entre células amigas e inimigas. Alguns pesquisadores acreditam que o aumento alarmante de doenças autoimunes no Ocidente pode estar associado a uma ruptura no relacionamento entre nossos corpos e seus micróbios. Tal mudança de paradigma chega em boa hora porque a civilização humana passou a maior parte do último século fazendo o possível para destruir a microbiota e suas bactérias com uma dieta especialmente prejudicial ao bem-estar. Pesquisadores agora fazem referência ao “pobre microbioma ocidentalizado” e questionam se chegou o momento de embarcar em um projeto de “restauração da ecologia” do intestino humano. * Publicado originalmente no jornal The New York Times e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação do The New York Times
Estudo buscou identificar formas de prevenção de queixas de dor em músicos. Foto: Marcos Santos / USP Imagens Saúde

Modo de ensinar música ajuda a evitar tensão muscular

[caption id="attachment_87966" align="alignleft" width="230" caption="Estudo buscou identificar formas de prevenção de queixas de dor em músicos. Foto: Marcos Santos / USP Imagens"][/caption] O modo com que os professores de música ensinam os alunos a tocar instrumentos pode ser uma forma de prevenir problemas musculares causados pela atividade. Em pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, a fisioterapeuta e ergonomista Flora Vezzá entrevistou professores e verificou que eles procuram ensinar os movimentos de forma a evitar tensões do corpo que prejudiquem os instrumentistas e a qualidade do som produzido pelos instrumentos. O estudo recomenda maior troca de experiências entre os professores e um diálogo com os profissionais de saúde para aprimorar a prevenção das tensões junto aos músicos. A fisioterapeuta procurou identificar formas de prevenção de queixas de dor no sistema músculo-esquelético em músicos profissionais. “Durante o estudo foram acompanhadas as aulas de instrumentos de alunos que estão aprendendo a tocar, além da realização de entrevistas com 20 professores”. As aulas foram acompanhadas na Escola de Música do Estado de São Paulo – Tom Jobim, uma das mais tradicionais do País, ligada à Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Os professores entrevistados davam lições de instrumentos de cordas orquestrais (viola, violino, violoncelo e contrabaixo acústico). “Os professores foram perguntados sobre os instrumentos, como eram tocados e de que maneira isso era ensinado, a fim de descobrir os ‘truques’ para enfrentar cada instrumento”, conta Flora. “Embora o aprendizado do movimento seja formal, não há uma formação específica para se ensinar a tocar. A técnica de ensino é aprendida na prática”. De acordo com a fisioterapeuta, várias características do trabalho dos professores ajudam os alunos a desenvolver suas habilidades com os instrumentos, mantendo atenção aos parâmetros de saúde. “Em primeiro lugar, os alunos são ensinados a ter uma postura adequada, de modo que possam se posicionar de uma forma que exija menos esforço”, afirma. “Particularmente no caso dos instrumentos de corda, se o músico estiver tenso, essa tensão irá se revelar no som produzido, que será prejudicado”. Movimentos passo a passo Os professores procuram fazer com que os alunos estudem passo a passo os movimentos, aumentando de forma gradativa o nível de complexidade. “Conforme a movimentação, o corpo reage de formas diferentes, influenciando na tensão muscular”, diz Flora. “Essa aprendizagem ajuda o aluno a evitar problemas corporais decorrentes da repetição de movimentos”. Para dar aos alunos a ideia dos movimentos, os professores se valem de metáforas. “Eles não se limitam a dizer ‘abaixa’, ‘levanta’, procurando criar imagens mentais que criem um contexto do movimento, como fazer comparações com a movimentação dos animais”, conta a fisioterapeuta. “Isso ajuda os alunos a controlarem as tensões”. Flora ressalta que a prevenção não se limita apenas à atitude de tocar de forma menos agressiva para o corpo. “Além da técnica, existem aspectos profissionais e o meio da música clássica é muito exigente no que diz respeito a qualidade e existem poucos espaços com vínculo estável, o que obriga os músicos a realizarem muitos trabalhos diferentes”, aponta. “Dessa forma, conhecer estes aspectos da profissão e criar formas coletivas de enfrentá-los pode ser uma forma adicional de prevenir as tensões e problemas dolorosos”. A fisioterapeuta recomeda uma maior troca de experiências entre os professores de música, de modo a criar um espaço de discussão e formalização dos saberes de ofício sobre os aspectos que podem evitar o surgimento de problemas musculares nos instrumentistas. “Se possível, esse debate deve ser acompanhado por um profissional de saúde, não para simplesmente falar de doença, mas para avaliar a atividade de tocar um instrumento musical e contribuir para o desenvolvimento de formas de atuar que não sejam agressivas”. A pesquisa é descrita em tese de doutorado apresentada na FSP no dia 25 de abril. O estudo foi orientado pela professora Isabel Maria Teixeira Bicudo Pereira. * Publicado originalmente no site Agência USP.


por Júlio Bernardes, da Agência USP
Foto: Reprodução/ Internet Inter Press Service - Reportagens

Imigrantes ilegais com a saúde à deriva na Espanha

[caption id="attachment_87861" align="alignleft" width="265" caption="Foto: Reprodução/ Internet"][/caption] Málaga, Espanha, 23/5/2013 – A morte por tuberculose de um jovem senegalês após uma suposta falta de atendimento médico reavivou na Espanha a rejeição de organizações sociais à lei promovida no ano passado pelo governo, que exclui do sistema público de saúde a maioria dos imigrantes em situação irregular. “Há casos de grávidas e menores de idade estrangeiros sem a documentação necessária que encontram dificuldades para serem atendidos em hospitais e centros de saúde. São muitas incidências”, disse à IPS a presidente da organização não governamental Andaluzia Acolhe, Sylvia Koniecki. O decreto-lei de 20 de abril de 2012 do governo do direitista Partido Popular estabelece que, independente de sua situação legal ou não no país, as mulheres estrangeiras têm direito à assistência pública de saúde durante a gravidez, o parto e pós-parto. Segundo o texto, os estrangeiros ilegais menores de 18 anos receberão assistência médica gratuita “nas mesmas condições que os espanhóis”, e, acima dessa idade, devem ser atendidos os casos de “urgência, doença grave ou acidente”. A maioria dos imigrantes irregulares tem, assim, limitado acesso aos centros de saúde. Podem contratar um seguro público pelo equivalente a US$ 913 ao ano, sem incluir remédios, mas a um custo que em geral não podem pagar, segundo várias organizações. O senegalês ilegal Alpha Pam, de 28 anos, morreu no dia 21 de abril no hospital de Inca de Mallorca, nas Ilhas Baleares, vítima de tuberculose que não foi diagnosticada a tempo. Sua família denunciou falta de assistência, enquanto as autoridades dizem que ele foi devidamente assistido. Porém, o diretor do hospital, Fernando Navarro, foi afastado no dia seguinte. O caso foi denunciado no dia 17 deste mês na Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia, pela Esquerda Unida, a coalizão liderada pelo Partido Comunista. O governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy, embarcado em uma política de cortes fiscais e direitos trabalhistas, calculou uma economia equivalente a US$ 645 milhões com a retirada, a partir de setembro do ano passado, de 873 mil cartões de saúde de imigrantes irregulares, segundo o Programa Nacional de Reformas 2013. “Não haverá tal economia”, considerou Gabriel Ruiz, encarregado do programa de imigrantes da organização não governamental Médicos do Mundo na cidade de Málaga, porque, com a exclusão do atendimento médico primário, aumentará o número de usuários nos serviços de urgências, “que são mais caros”, explicou. Ruiz disse à IPS que a população imigrante está, em geral, em situação de exclusão social, e por isso é mais vulnerável a doenças derivadas do amontoamento de gente ou da alimentação deficiente. “Ao afastá-la do sistema de saúde pública, colocamos em risco sua saúde e também a do resto da sociedade por possível propagação de enfermidades”, ressaltou. O governo justifica a reforma afirmando que o sistema de saúde era uma “peneira” para a imigração irregular. Mas um relatório de 2012 da Fundação Ecologia e Desenvolvimento (Ecodes) conclui que os que mais usam o sistema de saúde pública são os próprios espanhóis. Nas sedes das organizações Médicos do Mundo e Málaga Acolhe chegam estrangeiros com boletos de pagamento de atendimento de urgência, o que contraria o estipulado no decreto-lei. “Chegam desesperados com as contas exorbitantes que acumulam juros por não terem sido pagas”, contou Ruiz. O governo da Comunidade Autônoma das Ilhas Baleares, também nas mãos do PP, informou, no dia 8, que cancelará todas as contas que foram emitidas ilegalmente e devolverá o dinheiro cobrado nos serviços de urgências dos imigrantes. É que cada uma das 17 comunidades autônomas espanholas aplica o decreto de forma diferente. Andaluzia, Catalunha, Astúrias, País Basco e Ilhas Canárias se negaram a aplicá-lo. Entidades sociais de Andaluzia chamam a atenção para os muitos casos que recebem e solucionam, em sua maior parte agindo como intermediárias das autoridades. Segundo Ruiz, “faltam diretrizes claras do governo local para os dispositivos sanitários e, em apenas uma semana, tivemos dois ou três casos de imigrantes ilegais que tiveram negado o atendimento primário ou foram enviados para outros órgãos do Instituto Nacional de Assistência Social, quando é o próprio centro de saúde que deve cuidar da cobertura sanitária”. A Delegação Provincial de Saúde de Málaga reconhece que há incidentes, que já existiam antes do decreto-lei, mas que são “casos isolados” que a instituição tenta “resolver na medida do possível”, declarou à IPS uma porta-voz desse órgão público. “Não deveríamos ter nem um só caso. Faltam instruções precisas da administração autônoma para os hospitais e centros de saúde”, afirmou o diretor da Málaga Acolhe, Alejandro Cortina. Um estudo desta entidade, de 2012, encontrou 42 casos em 20 centros de saúde de seis províncias de Andaluzia que afetaram 69 imigrantes, 77% deles em situação irregular. Destes, 38% dos afetados tiveram negada a expedição do cartão de saúde, para 23% foi negada a consulta médica primária e outros 23% receberam conta pelos serviços prestados. Entre os afetados havia oito menores de idade e três mulheres grávidas. Ruiz acredita que estes casos são a ponta do iceberg da crise social e que o número de imigrantes irregulares com problemas de atendimento e cobranças indevidas é muito maior. Percorrendo centros de atendimento primário de saúde em Málaga, funcionários confirmaram à IPS uma queda notável no número de imigrantes ilegais que procuram assistência, o que atribuíram à falta de informação entre os usuários a respeito da continuidade da assistência em Andaluzia apesar do decreto-lei. Contudo, houve casos de recepcionistas se negarem a dar o atendimento. O informe da Málaga Acolhe conclui que a maioria das incidências no atendimento sanitário a imigrantes ilegais ocorrem com o pessoal que atende o público nos centros de saúde. Envolverde/IPS


por Inés Benítez, da IPS
Personalização de próteses pode melhorar auto-estima de amputados. Fotos: Divulgação Saúde

Próteses personalizadas podem aumentar a autoestima de amputados

[caption id="attachment_87945" align="aligncenter" width="450" caption="Personalização de próteses pode melhorar auto-estima de amputados. Fotos: Divulgação"][/caption]   Perder um membro do corpo pode ser um evento angustiante para os pacientes, o que afeta a imagem corporal e, portanto, a autoestima. Um projeto do Reino Unido intitulado Alternative Limb quer ajudar amputados a se adaptarem com as próteses, e até mesmo, se sentirem elegantes com elas, por meio da personalização. O projeto fundado por Sophie de Oliveira Barata, graduada da Universidade de Artes de Londres, especializada em efeitos especiais para cinema e televisão, permite que os pacientes de amputação personalizem as próteses convencionais de forma criativa. Eles podem criar seus próprios membros sob medida, transmitindo aspectos de sua personalidade e, ao mesmo tempo, ajudando-os a permanecer na moda. Peças criativas já foram confeccionadas como, por exemplo, uma “perna stereo” que possui alto-falantes embutidos, uma opção legal para quem gosta de música. Já para um ex-soldado a escolha foi de um design anatômico modular, e para uma jovem mãe, uma prótese cheia de flores. O estúdio também produz membros de aparência realista para aqueles que querem reconstruir sua aparência anterior. Os interessados podem acessar o site do projeto e preencher um formulário, no qual podem encontrar a média de valores que deseja investir. Eles variam de 3 mil a 15 mil libras, o equivalente a cerca de R$ 9 mil a R$ 40 mil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem 466.937 mil brasileiros sem um membro ou parte dele. Os dados são referentes ao Censo 2000 e envolvem amputados e pessoas que já nasceram sem um membro. Na sua opinião, os governos deveriam subsidiar o financiamento de próteses como a do projeto Alternative Limb ou similares para melhorar a qualidade de vida das pessoas amputadas? * Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação do EcoD
Foto: Reprodução/ Internet Saúde

Combate à fome: o desafio de equacionar problemas estruturais

[caption id="attachment_87958" align="alignleft" width="284" caption="Foto: Reprodução/ Internet"][/caption] “Com o Papa Francisco, é possível que se revertam as opções predominantes na vida eclesial nas últimas décadas. Num mundo torturado pela fome, a maré ‘não está pra peixe’. Quem tem ouvidos, ouça!”, declara bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias e São João de Meriti. “De 32 milhões de brasileiros, ainda subsistem 16 milhões em estado de insegurança alimentar e nutricional; mas a presunção nos leva a acreditar que em menos de duas décadas resolvemos uma calamidade que perdura desde 1500”, afirma Dom Mauro Morelli, bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias e São João de Meriti, que há anos dedica-se a solucionar os problemas da fome e da miséria no Brasil. Um dos críticos do Programa Fome Zero, no governo Lula, Morelli afirma que “a visão triunfalista impede dizer que não fizemos o mais importante. Patinamos em medidas assistenciais, exigência do direito lesado, negado ou periclitante, mas que, por natureza, não se destinam a equacionar problemas estruturais”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele assinala que o mapa da fome cobre “toda a superfície do planeta e não será resolvido pela economia de mercado”. Cita como exemplo a proposta da Cúpula da Alimentação, convocada pela ONU, a qual tinha o objetivo de reduzir pela metade o número de famintos no mundo até 2015. “Tudo o que foi feito não atinge o objetivo proposto, ou seja, quatrocentos milhões, uma vez que estamos chegando a 2015 com mais de 1 bilhão de seres humanos sofrendo os horrores da fome não atendida”, lamenta. Mauro Morelli (foto abaixo) foi o fundador do Instituto Harpia Harpyia e um dos fundadores do Movimento pela Ética na Política. Fortaleceu a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Esteve à frente da criação do conceito de segurança alimentar como combate à fome e foi um dos articuladores do programa Mutirão de Combate à Desnutrição Materno-Infantil. Foi membro do Comitê Permanente de Nutrição da ONU, e atualmente é presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas Gerais – CONSEA/MG. [caption id="attachment_87959" align="alignright" width="200" caption="Foto: www.revistaopiniao.com"][/caption] Confira a entrevista: IHU On-Line – A partir do trabalho que desenvolveu de combate à miséria e à fome, como avalia essa questão no país? Considerando o tempo que o senhor atua a favor dessa causa, que balanço faz da questão? Dom Mauro Morelli – A fome em si é coisa boa. Um sintoma ou alerta emitido pelo cérebro para chamar atenção para a necessidade de alimentar e nutrir o organismo, pois a vida é um processo permanente de alimentação. Alimento é Vida. Problema sério é ser privado do direito ao acesso e gozo do alimento. Mais do que um problema, trata-se de ser vítima de crime hediondo e grave pecado. A questão não é acabar com a fome, mas garantir acesso e gozo ao alimento que sacia e nutre. A Força da Vida vem da luz, do oxigênio, da água, das carícias da brisa e da ternura do amor. Leite materno, arroz e feijão, legumes e frutas, peixes e carnes são indispensáveis nas etapas de nosso desenvolvimento e formação. Alimentação saudável, adequada e solidária é imprescindível desde a gestação até o encerramento do ciclo histórico de nossa existência. Em nosso DNA estão registradas certezas e angústias da importância prioritária do alimento e da nutrição na história da humanidade. As civilizações e a rica diversidade cultural entre os povos atestam a centralidade do alimento e da nutrição para a realização das pessoas, das famílias e nações. Alimento e nutrição são exigências inegociáveis da nossa vida no planeta, portanto direito humano básico e determinante para tudo o mais. A garantia do alimento fundamenta a própria paz. Alimentar o corpo, a alma e o espírito é questão de cidadania planetária e razão primeira do progresso e do desenvolvimento. IHU On-Line – Como se constitui hoje o mapa da fome no Brasil? Em que regiões do país a fome ainda continua sendo um problema central? Dom Mauro Morelli – O Mapa da Fome cobre toda a superfície do planeta e não será resolvido pela economia de mercado; ao contrário, ele é cada vez mais agravado pela degradação ambiental e exclusão social, pela instabilidade do emprego e migração forçada a que famílias e povos estão submetidos, submissão que se dá por um modelo de desenvolvimento que suga as riquezas da terra e as energias de quem trabalha e, ao mesmo tempo, que cultiva o desperdício e concentra bens e riquezas. Em 1996, em Roma, a Cúpula da Alimentação, convocada pela ONU, marcou data e definiu compromisso para o enfrentamento do problema da fome no mundo. “Tudo faremos para reduzir pela metade o número de famintos no mundo até 2015”. Em verdade tudo o que foi feito não atinge o objetivo proposto, ou seja, quatrocentos milhões, uma vez que estamos chegando a 2015 com mais de 1 bilhão de seres humanos sofrendo os horrores da fome não atendida. É impossível sonhar com a paz enquanto uma só criança definhar e morrer de fome (Isaías, 65). Entre nós, muito foi feito; de 32 milhões de seres humanos, ainda subsistem 16 milhões em estado de insegurança alimentar e nutricional. Mas a presunção nos leva a acreditar que em menos de duas décadas resolveremos uma calamidade que perdura desde 1500. Mais grave ainda é a visão triunfalista que impede dizer que não fizemos o mais importante. Patinamos em medidas assistenciais, exigência do direito lesado, negado ou periclitante, mas que, por natureza, não se destinam a equacionar problemas estruturais. A obesidade em números alarmantes é a outra face da realidade nutricional resultante do assistencialismo com suas migalhas e da falta de educação alimentar e nutricional que nos motive a comer e beber como opção pela vida. Não nos esqueçamos, além do mais, que “o veneno está à mesa”, dada a qualidade dos alimentos produzidos e comercializados visando o lucro. A Profecia dos Caranguejos Deve ser atribuído a Josué de Castro o mérito de termos atingido elevado grau de consciência sobre as causas e males da fome. Por seu testemunho e obra, pode ser denominado e honrado como o grande Profeta da Vida no século XX. Nos mangues do Capibaribe, e não na Sorbonne, ele entendeu a fome. “Um dos fatores mais constantes, o desequilíbrio econômico, com as desigualdades sociais que dele nascem”. “A fome sempre existiu perto da riqueza e da abundância. O que é novo no mundo é a consciência que os povos famintos têm da realidade social e da sua condição e a impaciência que experimentam para se libertar da fome e de suas misérias”. Na obra Geopolítica da Fome (1946), afirma com indignação: “Nenhuma calamidade é capaz de desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana como a fome”. IHU On-Line – Em que consiste uma política pública comprometida em acabar com a fome no mundo? Dom Mauro Morelli – Na Carta Encíclica Caridade na Verdade (n. 27), Bento XVI louva a “quem se consagra a trabalhar para erradicação da miséria e dos males da fome, pois contribui para a preservação do planeta e a paz mundial”. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, em sua 40ª Assembleia Geral (2002), assumiu o compromisso de promover um Mutirão Nacional à luz de “Exigências Evangélicas e Éticas para a Superação da Miséria e da Fome” (Doc. 69). Observo que, no número 66, não deixa dúvida que “um dos primeiros sinais de efetiva evangelização, no início deste milênio, será a eliminação da fome decorrente da miséria, em nosso país”. No número 65 recomendava acompanhar a continuidade da Cúpula Mundial da Alimentação! Com o Papa Francisco é possível que se revertam as opções predominantes na vida eclesial nas últimas décadas. Num mundo torturado pela fome, a maré “não está prá peixe”. Quem tem ouvidos, ouça! Cabe à família, à sociedade com todas suas instituições, e aos governos, em todos os níveis e áreas de abrangência, zelar, promover e garantir o acesso e gozo do alimento e da nutrição a cada criança que nasce neste planeta. Devemos combater a concentração de riqueza e sua filha primogênita, a miséria. Integrados na cadeia alimentar, que constitui a riqueza e a originalidade do planeta em que fomos dados à luz, cabe-nos zelar e cuidar das fontes da vida e de sua sociobiodiversidade. É tarefa urgente fazer surgir e/ou fortalecer sociedades democráticas que garantam e promovam o bem comum e direito humano básico, assegurando a cada um o acesso ao alimento e à nutrição para uma vida saudável e participativa. Além disso, é tarefa urgente promover o desenvolvimento local, integrado e sustentável que defenda, preserve, recupere e conserve o meio ambiente para a atual e para as futuras gerações. Pode ser um bom começo planejar o desenvolvimento de baixo para cima, em cada microbacia, à luz do binômio indissolúvel Educação e Nutrição, para atingir os objetivos da Lei n. 11.957, com novas disposições sobre alimentação escolar. * Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Redação do IHU On-Line
Dos 19.427 indivíduos entrevistados, 7.111 (35,9%) não receberam gratuitamente os medicamentos receitados em atendimentos no SUS. Foto: http://www.abimip.org.br/ Saúde

Estudo indica diminuição das desigualdades no acesso a medicamentos no SUS

[caption id="attachment_87159" align="alignleft" width="300" caption="Dos 19.427 indivíduos entrevistados, 7.111 (35,9%) não receberam gratuitamente os medicamentos receitados em atendimentos no SUS. Foto: http://www.abimip.org.br/"][/caption] Mesmo assim, mais da metade da população brasileira não tem acesso gratuito aos remédios de que necessita. A oferta de medicamentos de forma equânime, contínua e em quantidade adequada às necessidades da população continua sendo um desafio a ser superado pelo Sistema Público de Saúde (SUS). Em estudo publicado na revista Cadernos de Saúde Pública, pesquisadores das universidades federais de Santa Catarina (UFSC) e de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, e da Australian Research Center for Population Oral Health, na Austrália, avaliaram a prevalência e os fatores associados ao acesso a medicamentos no SUS por usuários que tiveram prescrição médica ou odontológica no próprio sistema público. Eles verificaram que, dos 19.427 indivíduos entrevistados, 7.111 (35,9%) não receberam os medicamentos receitados – a Região Norte foi a que teve a menor taxa no acesso (37,2%) –, enquanto 3.615 (18,7%) tiveram acesso a apenas parte dos fármacos de que precisavam. Dos 10.726 indivíduos que não tiveram acesso total aos remédios prescritos, 78,1% recorreram ao setor privado, enquanto 8,8% ficaram sem os medicamentos por não terem dinheiro para comprá-los. Em contrapartida, uma quantidade significativa de entrevistados – 45,3% do total – recebeu os remédios gratuitamente na rede pública, sendo maior a prevalência de acesso entre os moradores da Região Sul (56%), de cor de pele preta (20%) e parda (12%), de baixa renda (59%) e menos escolarizada (65%), além daqueles com domicílio cadastrado na Estratégia Saúde da Família (24%). De acordo com a farmacêutica Alexandra Crispim Boing, da UFSC e pesquisadora responsável pelo estudo, não há dúvidas de que o acesso a medicamentos de forma gratuita é maior entre a população de menor renda, por estar relacionado à sua maior dependência em relação ao SUS. “Para essas pessoas, o sistema público ainda é a principal alternativa para viabilizar o tratamento”, destacou. Na sua avaliação, o problema principal está na disponibilidade de medicamentos e não na falta de informação. “Se os indivíduos recebessem seus medicamentos assim que saíssem do consultório não teríamos problemas de acesso”, disse. A pesquisadora ressaltou que nos casos de fármacos que precisam ser obtidos por meio de algum programa governamental, como os medicamentos de alto custo, os pacientes têm necessariamente de ser orientados pelos profissionais de saúde. Também a Estratégia Saúde da Família – programa lançado pelo Ministério da Saúde em 1994 com objetivo de fortalecer a atenção básica à saúde – tem grande potencial na promoção do uso racional de medicamentos, segundo a pesquisadora. “É preciso fazer com que os pacientes recebam os remédios apropriados à sua condição clínica, sim, mas em doses adequadas às suas necessidades individuais, por um período de tempo adequado e ao menor custo possível para si e para a comunidade”, explicou. Apesar das diferenças regionais e dos avanços na política farmacêutica no país, ainda são necessárias melhorias em relação à promoção do uso racional, além da participação da equipe multiprofissional e do farmacêutico. Atualmente, os medicamentos representam a maior parte dos gastos privados em saúde no Brasil, sobretudo entre os mais pobres. “O comprometimento de renda com medicamentos, especialmente os não programados, pode levar famílias a riscos de saúde ainda maiores, como a redução da compra de alimentos”, disse a pesquisadora. Artigo científico BOING, Alexandra Crispim et al. Acesso a medicamentos no setor público: análise de usuários do Sistema Único de Saúde no Brasil. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 29, n. 4, abr. 2013. * Publicado originalmente no site Pesquisa Fapesp.


por Rodrigo de Oliveira Andrade*

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