Dieta: nas menores embalagens estão os maiores perigos

Dieta

Dieta: nas menores embalagens estão os maiores perigos


por Enio Rodrigo, do O que eu tenho


Seguindo a lógica de que os melhores perfumes estão nos menores frascos, os alimentos mais saborosos deveriam vir nos menores bocados. Em parte esse pensamento está correto: as pessoas valorizam mais chocolates e doces em embalagens diminutas. A parte ruim é que desta forma elas consomem mais e, como consequência, elevam seu consumo calórico.Essa é a conclusão de um artigo que procurou saber menos sobre os hábitos nutricionais e mais dos padrões de consumo de doces em geral. Publicado no Journal of Marketing, o estudo feito por Jennifer Argo, observou que – para alegria dos fabricantes – doces com porções menores, embrulhados separadamente e em conjuntos pequenos (como aqueles encontrados em caixas de bombom) são vistos com mais desejo do que os mesmos produtos em tamanhos maiores ou ensacados em conjuntos grandes, por exemplo.Isso quer dizer, sugere a pesquisa, que meia dúzia de brigadeiros em uma bela caixinha parece ser mais saboroso do que um “brigadeirão” na prateleita da padaria ou de uma bandeja de brigadeiros com uma centena de docinhos. A combinação de tamanhos pequenos e porções sensivelmente “finitas” (que você sabe que vai acabar rapidamente) é a pior possível para aqueles em dieta ou que querem controlar o próprio peso.Autoestima e autoenganoAlém disso, diz Argo, os níveis de autoestima influenciam o modo como as pessoas consomem estes doces apresentados de forma mais “luxuosa e exclusiva”. “Pessoas com a autoestima elevada tiveram um consumo maior desses alimentos na maioria das situações. Entretanto, quando as embalagens tinham informações afirmando que os doces eram versões menos calóricas do produto, por exemplo, esse consumo era muito maior”, aponta a pesquisadora.A visibilidade do produto também influenciava esses dois tipos de consumidores: embalagens sem o produto à mostra eram mais consumidos por pessoas com maior nível de autoestima – que na pesquisa eram pessoas com maior poder aquisitivo e melhor resolvidos com sua aparência e peso – e as embalagens com os produtos visíveis eram mais desejados pelos consumidores com menores níveis de autoestima.“Esse segundo grupo tendia a desconfiar mais dos produtos oferecidos em embalagens fechadas. Mas eram convencidos facilmente quando viam o produto e quando eles eram acompanhados de determinadas afirmações sobre seus benefícios”, diz Argo. A estratégia das empresas, claro, é fazer o consumidor pagar mais por embalagens mais “exclusivas”, mas de quebra este tipo de mecanismo de venda também eleva o risco de consumo calórico exagerado.“Todo esse processo que observamos está no nível cognitivo. As pessoas nem sempre pensam no que estão comprando e parecem deixar de pensar na quantidade do que estão comendo quando há poucas unidades de um alimento”, finaliza a autora.* Publicado originalmente no site O que eu tenho.

gemeas_fotos Comportamento

O que fazer para respeitar a identidade de filhos gêmeos?

Roupas iguais, brinquedos compartilhados, frequentar a mesma escola. A vida de gêmeos não é fácil. Sempre estão defronte a um espelho vivo, um outro que é idêntico a si, mas que não é igual. O outro tem vontade própria.Apesar de compartilharem cargas genéticas iguais e muitas vezes terem mais que semelhanças físicas (trejeitos e reações podem ser similares), o toque final na personalidade de todas as pessoas é ambiental. E, dia a dia, o ambiente impõe novas adaptações e novas respostas. Em pouco tempo as diferenças aparecem e igual mesmo, só na aparência.“Por um lado dá para entender os pais que fazem os filhos gêmeos usarem roupas iguais ou compartilhar os mesmo objetos e brinquedos. É uma questão prática: evita brigas na hora de escolher a camiseta, diminui os custos e como são da mesma idade, os brinquedos indicados são basicamente os mesmos”, explica Sylvia van Enck, psicóloga clínica especialista em Terapia Familiar. “Mas promover diferenciações e os limites de espaço de cada um é importantíssimo para essas crianças, principalmente com o passar dos anos”, diz.Para a psicóloga, a primeira coisa que os pais devem se policiar é em não promover comparações. “Já basta eles se enxergarem, o tempo todo, um no outro. O ideal é valorizar as diferenças como algo positivo e não fazer comparações o tempo todo”, alerta a especialista. Gêmeos podem ter gostos diferentes, reagir diferentemente: um irmão pode gostar de matemática, outro preferir geografia, por exemplo.Separados na escolaPor isso mesmo o ideal é que gêmeos não estudem na mesma classe. Isto amplia as possibilidades de compor uma identidade própria. “E assim como a cumplicidade latente que a relação entre irmãos gêmeos, as brigas e discussões também são mais intensas. Estar na mesma classe poderia ser nocivo”, afirma Sylvia.As brigas, diz a especialista, muitas vezes se dão para definir os limites do outro. A não concordância com determinada postura do outro pode ser violenta. “É também uma forma de mostrar para os pais que eles, os irmãos, não querem ser tratados iguais. Isto sem contar questões relativas a ciúmes, cobrança de atenção ou disputa por algo com o irmão”, completa.“Não sou meu irmão”A psicóloga cita um exemplo de irmãos que, por uma imposição da escola, foram obrigadas a trocar de classe entre si. “Ambos se viram na situação de serem cobrados da competência alheia. E um deles sentiu claramente a antipatia que alguns colegas de classe nutriam pelo irmão”, lembra Sylvia. A situação causa estranheza e um baque na autoimagem: quem as pessoas acham que você é? A troca de classes foi temporária, mas o sentimento ficou vívido.Para lidar com todas essas situações a psicóloga sugere que os pais sempre enfatizem diferenças mínimas desde cedo:• Alterar cores de roupas, ou detalhes e acessórios que as crianças escolham.• Tentar observar os gostos particulares, como preferência por um ou outro esporte (ser irmão não significa ser uma dupla ou um time).• Passar um tempo com os filhos (ou filhas) em separado, para que ambos se sintam atendidos em sua necessidade por atenção.• Evitar deixar as pessoas ao redor chamarem ambos pelo coletivo “os gêmeos”: o nome (e a identidade) de cada um deve ser sempre valorizado.• Definir espaços (como lados do quarto) e brinquedos diferentes, até mesmo propondo divisões físicas nos armários e etiquetagem de alguns brinquedos ou objetos.• Acompanhar o progresso escolar como quem acompanha duas pessoas diferentes: as notas não precisam ser iguais, as matérias do gosto de cada um também não.* Publicado originalmente no site O que eu tenho.


por Enio Rodrigo, do O que eu tenho
como-ter-um-parto-sem-dor Artigo

Parto sem medo

No palco, duas figuras centrais em total sinergia. Os flashes são insistentes e a plateia assiste ao espetáculo que emociona até mesmo os mais céticos: o encontro entre mãe e filho, que, mesmo juntos desde o momento da concepção, jamais se viram e nunca se tocaram. O nascimento é um marco na vida de ambos e estudos comprovam que a nossa capacidade de amar se relaciona com a percepção de mundo que temos ao nascer. E você sabe o porquê?Durante a gestação, a mulher opta pelo tipo de parto que trará seu filho ao mundo, mas muitas delas não são conscientes desta escolha. O fazem por medo, pressão e até por ignorarem os benefícios do trabalho de parto no nascimento da criança. Dados do Ministério da Saúde apontam que, em 2010, o Brasil registrou mais cesarianas do que partos normais. Enquanto em 2009 o país alcançava uma proporção de 50% de partos cesáreos, em apenas um ano, a taxa subiu para 52%. Na rede privada, o índice de partos cesáreos chega a 82% e na rede pública, 37%.O que muita gente desconhece são as vantagens que um parto normal pode trazer ao bebê e à mãe. Estudos comprovam que as chamadas cesáreas eletivas são as que representam maior risco. Nesse tipo de parto, a mãe agenda o dia do nascimento e o bebê nasce sem que ela entre em trabalho de parto, o que pode causar problemas de saúde, principalmente respiratórios, na criança. No decorrer da história, o processo fisiológico do parto natural sempre foi visto como dolorido e sofrível, fazendo com que a mulher tivesse uma visão distorcida em relação ao nascimento. Mas afinal, dá para reverter este quadro?Embora todos saibam que a fisiologia do parto envolve uma experiência corporal intensa, é possível encará-la com prazer e alegria, desfazendo-se de mitos que deixam a cabeça da mulher em polvorosa. Claro que não é de uma hora para outra que a mulher vai deixar de ter medos, afinal, tratando-se do desconhecido, é natural que todo o processo faça com que ela se sinta amedrontada, mas tudo fica bem mais difícil se a mulher não se informa e acata tudo o que ouve por aí.Para começar, a ocitocina, hormônio que estimula as contrações do útero durante o parto e a expulsão ¬ está presente na lactação, é responsável pelo ato sexual e é um dos grandes responsáveis pela sensação de emoção que a mamãe sente ao pensar no seu bebê. Ela também auxilia na maturação pulmonar, grande conjunto químico de hormônios que produzem o leite.Aquelas contrações que na hora parecem indesejáveis, estão só preparando o corpo para uma série de transformações que não culminam com o nascimento. Muitos hormônios liberados pela mãe e bebê durante o parto estão fortemente presentes na primeira hora de vida posterior ao nascimento, quando a mãe e filho se reconhecem, formando uma sinestesia perfeita, cada qual embebido em fluidos naturais que excitam sua capacidade de amar. Isso mesmo: o "hormônio do amor" é até absorvido pelo bebê por meio da amamentação.Portanto, quando for parar para pensar no tipo de parto, lembre-se de que é possível vivenciar este momento pelas vias naturais, permitindo que o corpo trabalhe da forma que a natureza o programou: certamente, uma sucessão de acontecimentos culminará na melhora da relação afetiva entre mãe e filho. Mas estes só acontecerão se a mãe estiver consciente de sua responsabilidade em todas estas ações. Pense nisso!* Alberto Jorge Guimarães é ginecologista e obstetra pela Faculdade de Medicina em Teresópolis (RJ) e mestre pela Escola Paulista de Medicina, da Unifesp, e defensor dos conceitos de Parto Humanizado.** Publicado originalmente no site Saúde em Pauta.


por Alberto Jorge Guimarães*
O conteúdo do EcoDesenvolvimento.org está sob Licença Creative Commons. Para o uso dessas informações é preciso citar a fonte e o link ativo do Portal EcoD. http://www.ecodesenvolvimento.org.br/posts/2012/abril/falta-de-exercicios-afeta-equilibrio-agilidade-e#ixzz1t47yqB97  Condições de uso do conteúdo  Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives  Segundo a pesquisa, uma caminhada diária de 30 minutos ou até mesmo a utilização de escadas no lugar do elevador aumenta a qualidade de vida. Foto: Prefeitura de Olinda Saúde

Falta de exercícios afeta equilíbrio, agilidade e reflexo das mulheres na terceira idade

[caption id="attachment_50186" align="alignleft" width="300" caption="Segundo a pesquisa, uma caminhada diária de 30 minutos ou até mesmo a utilização de escadas no lugar do elevador aumenta a qualidade de vida. Foto: Prefeitura de Olinda"][/caption]A falta de exercícios físicos afeta o equilíbrio, a agilidade e o reflexo das mulheres com mais de 70 anos. Isso é o que apontou um estudo inédito da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, feito em parceria com o Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs), divulgado na segunda-feira, 9 de abril.Segundo Sandra Matsudo, coordenadora da pesquisa, o resultado do estudo demonstrou que as mulheres sedentárias apresentam mais dificuldades de executar atividades simples e correm mais risco de adquirir doenças. A prática de atividades físicas, tais como uma caminhada diária de 30 minutos ou até mesmo a utilização de escadas no lugar do elevador, aumenta a qualidade de vida, reforçou a pesquisadora.O estudo acompanhou cerca de 300 mulheres, com mais de 50 anos, todas sedentárias. Elas foram divididas em dois grupos: um que reunia mulheres entre 50 e 59 anos de idade e outro, mulheres com 70 anos ou mais. Estas mulheres foram submetidas a vários testes físicos, que demonstraram, por exemplo, que a falta de exercícios afeta principalmente o equilíbrio.Ao serem submetidas a um teste de equilíbrio com duração de 30 segundos, as participantes que tinham entre 50 e 59 anos conseguiram manter-se equilibradas por 24 segundos. As entrevistadas que tinham mais de 70 anos, participantes do mesmo teste, mantiveram o equilíbrio por cerca de 13,40 segundos, uma queda de 78,8% na capacidade de equilíbrio.O estudo mostrou também que o sedentarismo na terceira idade compromete a agilidade. Ao participarem de um exercício de locomoção, que exigia caminhar por um curto trajeto, as entrevistadas entre 50 e 59 anos fizeram o percurso em 2,5 segundos. Já as mulheres com idade superior a 70 anos fizeram o mesmo percurso em 3,11 segundos, o que apontou mais dificuldade no ato de caminhar.Outro aspecto que fica comprometido é o reflexo. Quando expostas a um exercício que previa levantar e sentar numa cadeira repetidamente, durante 30 segundos, as mulheres com idade entre 50 e 59 anos fizeram uma média de 19,35 repetições. As mulheres com mais de 70 anos fizeram 17,36 repetições, em média.Ao comparar o desempenho dos dois grupos, o estudo também apontou perda de força e de massa muscular. O índice de massa corpórea (IMC), por exemplo, apresentou queda de 5,47%. Já um teste de impulsão para constatar a força dos membros inferiores apontou queda de 28,43%.Com informações da Agência Brasil.* Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação da EcoD
Menopausa Doenças

Mulheres após a menopausa são mais propensas à osteoporose

Terapia hormonal pode evitar e reduzir as fraturas.A chegada da menopausa traz uma série de alterações no organismo da mulher, por exemplo, a diminuição da produção de estrogênios. A terapia de reposição hormonal vem ocupando um papel primordial na prevenção e tratamento da osteoporose, permitindo uma melhor qualidade de vida.Sempre é levantada a questão de como fortalecer e manter os ossos saudáveis após a menopausa. Problema de saúde pública no mundo, a osteoporose é uma das mais importantes doenças associadas ao envelhecimento. "A doença é caracterizada pela diminuição progressiva da massa e resistência óssea, deixando seu portador mais suscetível ao desenvolvimento de fraturas", diz o doutor Lucien Henri, reumatologista do Hospital Samaritano de São Paulo.Com objetivo dos estrogênios atuarem na conservação óssea e reduzir as fraturas, o doutor Lucien Henri, explica que, percebidas irregularidades durante o ciclo menstrual, este procedimento pode ser iniciado para a prevenção. “A terapia de reposição hormonal pode ser usada, mas com acompanhamento ginecológico pelos riscos de cânceres em mama e no endométrio”, conclui o médico.Mais comum em mulheres acima de 65 anos e pessoas que tenham fatores de riscos, tais como a menopausa precoce, baixo Índice de Massa Corpórea (IMC), diabéticos e tabagistas, a doença é de evolução lenta e tratável, segundo o especialista, a patologia é assintomática. "A osteoporose não demonstra sintomas. Muitas vezes, é descoberta quando já há fratura", completa o médico.Qualquer osso pode ser acometido, mas os principais são a coluna, o fêmur e os punhos. As mulheres são mais propensas, pois seus ossos, para se manterem íntegros, necessitam dos estrogênios. "Nos Estados Unidos, estima-se que 30% das mulheres vão ter osteoporose na pós-menopausa", ressalta o reumatologista, acrescentando que no Brasil não há dados estatísticos de quantos casos são diagnosticados.Outros fatores como a ingestão de alimentos ricos em cálcio, tais como o leite e seus derivados, e minimizar o consumo de carnes vermelhas, de refrigerantes e sal, são importantes para evitar prejuízos futuros.* Publicado originalmente no site Saúde em Pauta.


por Redação do Saúde em Pauta
uploads_874928151 Crack

Estudo vincula novos casos de tuberculose a dependência de crack

Pacientes tratados em hospital especializado responderam questionário que apontou indícios de uso da droga no dia a dia.Levantamento feito pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo no Hospital Leonor Mendes de Barros, unidade conveniada ao SUS (Sistema Único de Saúde) especializada em tratamento de tuberculose no município paulista de Campos do Jordão, interior paulista, mostrou que todos os pacientes atendidos no local tinham histórico de uso de crack.Orientados pela equipe de Saúde Mental da Secretaria, profissionais do hospital fizeram uma pesquisa por amostragem com 30 dos cem pacientes internados e para isso aplicou um questionário com perguntas sobre hábitos e sintomas ligados ao uso da droga. Em todos os casos, o perfil dos pacientes indicou problemas com a dependência química.Anteriormente, o hospital já havia feito outra pesquisa sobre os pacientes, porém com base em relatórios internos. A direção solicitou na ocasião que os funcionários observassem e relatassem todos os casos de pacientes suspeitos de envolvimento com o uso da droga, seja por sintomas de abstinência ou por fugas temporárias da unidade. De acordo com os relatórios apresentados, todos os pacientes apresentavam comportamento considerado suspeito.Segundo o coordenador Saúde Mental da Secretaria, Sérgio Tamai, o levantamento expõe uma nova e preocupante realidade ligada às consequências indiretas que o crack traz aos usuários. Segundo ele, o dependente químico da droga é mais suscetível à tuberculose porque se alimenta mal, tem hábitos pouco saudáveis, mora em ambientes insalubres e não dá continuidade ao tratamento, que é extremamente frágil e necessita de regularidade por envolver o uso de antibióticos."A dependência ao crack expõe o usuário a outras doenças graves, que podem matá-lo", diz Tamai.Ele afirma ainda que há uma grande preocupação com este público porque as constantes interrupções nos tratamentos de tuberculose podem expor futuramente outros pacientes com baixa imunidade, como transplantados, a gerações de bactérias superresistentes. Apesar do aperfeiçoamento no tratamento, a tuberculose ressurgiu com força nos anos 1980 em razão da baixa imunidade dos pacientes com HIV, e agora ganha novo fôlego entre os dependentes químicos.Segundo Tamai, o levantamento junto aos pacientes servirá como uma importante base para um novo projeto da Secretaria que prevê a implantação de um núcleo de atendimento multidisciplinar no Hospital Leonor Mendes de Barros. Além de tratar a tuberculose, o Hospital passará a oferecer também o acompanhamento de profissionais voltados ao tratamento contra a dependência química, como psicólogos e assistentes sociais.** Publicado originalmente no site da  Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e retirado do Saúde em Pauta.


por Redação da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo
201007270539190000006712 Saúde Mental

Estudo relaciona abusos na infância e esquizofrenia

Uma pesquisa publicada recentemente no periódico Schizophrenia Bulletin aponta que abusos sexuais, físicos e emocionais, assim como o bullying sofrido na escola e a negligência por parte dos pais durante a fase de desenvolvimento infantil aumentam em até três vezes o risco do desenvolvimento da esquizofrenia e eventos psicóticos na idade adulta.O estudo, noticiado pelo jornal The Guardian, chegou a essa conclusão após analisar os dados de mais de 80 mil pessoas no Reino Unido e compará-los com os resultados de testes feitos com indivíduos que não sofreram qualquer tipo de abuso físico ou psicológico na infância.De acordo com o jornal inglês, os resultados se somam aos de diversas outras pesquisas que relacionam maus-tratos e abusos na infância com o aparecimento ou o aumento do risco para diversos transtornos mentais, incluindo depressão, transtornos de personalidade e ansiedade.O responsável pelo estudo, Richard Bentall, pesquisador da Universidade de Liverpool, demonstrou que, no caso do desenvolvimento de psicose, esses riscos – quando comparados a crianças com uma infância saudável – são até 50% maiores. No caso da esquizofrenia (transtorno que atinge entre 1% e 3% da população mundial), estes riscos são até três vezes maior.Metanálise de mais de 30 anos de estudosOs resultados da equipe de Bentall vieram de uma metanálise – revisão de diversos outros estudos anteriores – de 36 pesquisas sobre maus-tratos infantis (incluindo abusos sexuais, físicos, emocionais, impacto da morte dos pais, bullying e negligência por parte dos pais) realizados nos últimos 30 anos.Crianças que sofreram mais de um tipo de abuso tinham o risco aumentado ainda mais. De acordo com o pesquisador, pessoas que tiveram traumas intensos e de diversos tipos durante suas vidas, apontaram os estudos, tiveram os riscos aumentados em até 50 vezes para psicose na idade adulta.“Não há fatores genéticos que possam ser tão devastadores, em termos de efeitos na saúde mental, quanto esses que obervamos e os efeitos foram observados em diversos estudos diferentes, então é um problema bastante claro”, afirma Bentall.Os mecanismos por trás da relação entre maus-tratos infantis e esquizofrenia, entretanto, ainda não são claros. Uma hipótese, apontada por pesquisadores da Universidade de Harvard, indica mudanças na estrutura cerebral.“É possível que essas mudanças no cérebro observada nos pacientes possa ser resultado de suas experiências de vida”, indica Bentall. “Mas ainda não sabemos se este é o caso.”“Estas conclusões trágicas podem nos ajudar a desenvolver novas soluções (para esses transtornos mentais). Se entendermos como estas adversidades enfrentadas na infância influenciam o risco para trantornos psicóticos, nós renovaremos as esperanças para o desenvolvimento de intervenções visando à prevenção e ao tratamento destes transtornos mentais”, aponta Andrea Danese, pesquisadora do Instituto de Psicologia da Universidade de Liverpool, o mesmo de Bentall.* Publicado originalmente no site O que eu tenho.


por Enio Rodrigo, do O que eu tenho
Cada vez mais líderes latino-americanos pedem a regularização das drogas. Foto: Torben Bjørn Hansen/Flickr Entrevista

Modelo repressivo de combates às drogas se esgotou, diz presidente da Fiocruz

[caption id="attachment_50162" align="alignleft" width="300" caption="Cada vez mais líderes latino-americanos pedem a regularização das drogas. Foto: Torben Bjørn Hansen/Flickr"][/caption]Diversos líderes da América Latina têm se unido para propor a descriminalização das drogas como uma política global e opção alternativa ao modelo repressivo apoiado pelas Nações Unidas.O exemplo mais recente é o do presidente da Guatemala, Otto Pérez Molina. Ele defendeu um novo caminho em artigo no diário britânico The Guardian por acreditar que os mercados globais destas substâncias não podem ser erradicados.Segundo ele, a sociedade não acredita que o álcool ou o tabaco possam ser retirados de circulação, “mas de alguma forma supomos ser uma medida correta no caso das drogas”. Molina lembra que a repressão não diminuiu o consumo – e cita o fato de a produção ter evoluído e o tráfico, se espalhado.Em entrevista a CartaCapital, Paulo Gadelha, presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia (CBDD), diz acreditar que o atual posicionamento dos políticos latino-americanos sobre o tema tem origem na constatação de que a guerra às drogas é ineficaz, além de gerar problemas paralelos.“Há um aumento impressionante de pessoas em prisão em vários países, inclusive nos Estados Unidos, por causa das drogas. Lá os volumes de recursos para o sistema prisional estão se tornando superiores aos de educação. E isso ocorre por não se reconhecer as distinções fundamentais entre o circuito do tráfico e o consumidor”, diz o médico e doutor em saúde pública.Segundo o presidente da Fiocruz, figuras relevantes na política de guerra às drogas de Bolívia, Inglaterra e Estados Unidos estão “revendo radicalmente a estratégia e reconhecendo o seu fracasso”. “É um novo momento de possibilidade de revisão de uma medida comprovadamente incorreta. Insistir nesse processo levará apenas a mais distorções e não atacará as causas do problema."Gadelha ainda destaca que a CBDD defende apenas a descriminalização do usuário, com o uso das drogas ainda proibido, e o debate aberto no Brasil. “Na saúde pública, entendemos que a maneira de se preparar as pessoas não é pela repressão, porque ninguém em sã consciência imagina a existência de um mundo sem drogas, o que inclui remédios.”Leia abaixo a íntegra da entrevista.CartaCapital – O presidente Molina, da Guatemala, defendeu abertamente uma política global de regulamentação das drogas, pois os mercados globais destas substâncias não poderiam ser erradicados. Como o senhor analisa esse cenário?Paulo Gadelha – Atualmente existe muito mais vocalização e reconhecimento de que a guerra às drogas mostrou-se ineficaz. Todos os indicadores do mercado de drogas, o processo de violência e formas diferentes como se deu em espaços nacionais – na América Latina, em grande parte, associada à violência e controle de territórios –, durante esse período tiveram números crescentes do volume de droga consumida e comercializada. Há também um aumento impressionante de pessoas em prisão em vários países, inclusive nos Estados Unidos, por causa das drogas. Lá os volumes de recursos para o sistema prisional estão se tornando superiores aos de educação e outros sistemas sociais. E isto ocorre por não se reconhecer as distinções fundamentais entre o circuito do tráfico e o consumidor. A repressão deveria ser substituída pelo entendimento de que esta é uma questão de saúde pública e tem que ser tratada sem estigmatização.A discussão precisa ser acompanhada de evidências científicas e estudos que possam demonstrar as bases desse tipo de política e o posicionamento da sociedade em relação às drogas ilícitas de forma tão diferente às lícitas (caso do álcool, tabaco e psicotrópicos), que também possuem um nível de impacto na saúde e gestão pública. Há uma quantidade imensa de produtos considerados legais capazes de gerar danos significativos à saúde pública e a maneira como se enfrenta esses problemas é muito distinta. Em um caso, se cria um tabu que marginaliza os necessitados de tratamento e os impede de chegar às estruturas que venham a ser disponibilizadas pelo Estado, porque a criminalização e o estigma têm um efeito nos dependentes de drogas e também atinge a estrutura e os profissionais de saúde, que muitas vezes veem essas pessoas como marginais.CartaCapital – A regulamentação defendida pelo presidente da Guatemala é uma saída a ser considerada?PG – É preciso tratar de modo diferente as drogas com efeitos e repercussão distintas. Não se pode lidar da mesma forma com a maconha e o crack. A maconha é uma das drogas mais vendidas e consumidas e gera aumento de população carcerária porque não existe regulamentação para colocar em prática o que é definido por lei: a não criminalização de usuários. Esse processo significa regular a quantidade de droga permitida por usuário e o que qualifica tráfico. A posição consensual na Comissão é fazer a despenalização do usuário, ainda a considerar o uso destas substâncias proibido. Isto significa penas mais administrativas ou formas de serem induzidos a tratamento e acompanhamento. Por uma série de situações conjunturais do Brasil e da forma como se debate timidamente o assunto, defendemos primeiro que haja um debate aberto assim como ocorreu com a aids e o tabaco. Quando os casos de aids se tornaram um problema de saúde pública, o Brasil tratou o tema com toda a sociedade e não apenas junto ao público alvo da doença. Com isso veio a defesa do uso da camisinha e as políticas de redução de danos para usuários de drogas injetáveis.CartaCapital – Segundo Molina, a sociedade não acredita ser possível extinguir álcool e tabaco, que são nocivos à saúde, mas supõe que esta política se aplique às drogas. Como o senhor analisa esta visão social tão distinta para problemas clinicamente semelhantes?PG – O primeiro passo é se discutir o problema no âmbito das políticas públicas, sociedade e grupos jovens. Na saúde pública, o fundamental é que as pessoas desenvolvam capacidades de lidar com qualquer risco. Isto é feito com informação e promoção da saúde nos grupos sociais em que se sentem apoiados. Os riscos são de natureza muito distinta, envolvem alimentação, bebida, etc. A pessoa precisa desenvolver a capacidade de lidar com os riscos e ter flexibilidade e saber quando aquilo pode se tornar ingovernável em sua saúde. Mas para isso é preciso abrir uma discussão mais ampla. Na saúde pública entendemos que a maneira de se preparar as pessoas não é pela repressão, porque ninguém em sã consciência imagina a existência de um mundo sem drogas, o que inclui remédios. A regulação, a maneira de lidar com o comércio e produção deve ser diferente para cada droga, mas não se pode criminalizar o usuário, porque ele é vítima.CartaCapital – O senhor acredita que os países estão dispostos a analisar o tema deixando de lado visões ideológicas?PG – Ao longo dos trabalhos da comissão, tivemos pessoas que desempenharam papel relevante na guerra às drogas, responsáveis por essa política na Bolívia, Inglaterra e Estados Unidos, que mesmo tendo acreditado nesse processo em um devido momento, estão revendo radicalmente a estratégia e reconhecendo seu fracasso. Temos manifestações de países não produtores e não grandes consumidores, mas onde as drogas representam problemas significativos, e também a fala de países que sofreram de forma intensa as consequências do processo do tráfico no âmbito social, a pedir que essa política (de repressão) mude. É um novo momento de possibilidade de revisão de uma medida comprovadamente incorreta. Insistir nesse processo levará apenas a mais distorções e não atacará as causas do problema.CartaCapital – Como o senhor analisa a movimentação de importantes líderes internacionais em favor de uma revisão da política de repressão às drogas?PG – Essas manifestações são fundamentais, pois muito do enfrentamento desse tema exige um posicionamento global. Os países estão comprometidos com convenções internacionais ainda sob a visão da guerra às drogas, e elas geram obrigações e muitas vezes inibem reformas nacionais. O sistema de circulação e produção de drogas também não é restrito a um Estado, tem um circuito internacional. O avanço deste processo de descriminalização e separação do usuário e traficante, como em Portugal, mostrou resultados positivos. A comparabilidade de mais países aderindo a isso pode ajudar no debate nacional.CartaCapital – Como o senhor enxerga o posicionamento com maior intensidade de líderes da América Latina?PG – Há também iniciativas importantes em outras partes do mundo. Apesar de esta manifestação estar ainda no âmbito da América Latina, está tendo ressonância em muitas questões dentro dos Estados Unidos, onde vários Estados estão discutindo e revendo essas políticas, como também no âmbito da ONU. Figuras importantes estão colocando essa pauta como agenda necessária a ser enfrentada em nível internacional e na ONU. Os países latino-americanos foram objeto de experimento da guerra às drogas de maneira intensa e com uma política externa definida pela ONU e patrocinada pelos Estados Unidos. O combate se deu nestes países com a expectativa de que o problema poderia ser resolvido pela violência. O resultado final foi tão frustrante que levou esses países a reverem suas posições. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Gabriel Bonis, da Carta Capital
Mutante. O gene precisa sofrer uma modificação para que resulte no aumento do cérebro. Foto: Istockphoto Artigo

Inteligência é genética?

[caption id="attachment_50154" align="alignleft" width="300" caption="Mutante. O gene precisa sofrer uma modificação para que resulte no aumento do cérebro. Foto: Istockphoto"][/caption]Muitos estudos científicos tentam descobrir como e por que alguns são mais inteligentes que outros. Sem dúvida, inteligência que pode ser resumida simploriamente na capacidade de resolver problemas é constitucional, isto é, nasce com o indivíduo e com o tempo a experiência e o conhecimento aprimoram as soluções. Mas se nascemos com nossa inteligência determinada ela é necessariamente herdada?A variabilidade de níveis de inteligência é tão grande que fica claro que dezenas ou centenas de genes interferem em nosso cociente de inteligência, o que torna difícil para os cientistas comprovar a teoria de que um determinado gene contribui para melhorar nosso QI. Cientistas norte-americanos e ingleses concluíram o maior estudo genético na busca de um gene específico que poderia interferir na inteligência humana. Mais de 200 pesquisadores compararam a existência de uma mutação, isto é, uma mudança no código de um gene, o HMGA2, em mais de 21 mil indivíduos e comparam com o tamanho de partes do cérebro de cada um deles.A descoberta foi que se esse gene, que antes era associado apenas à altura humana, sofrer uma modificação em seu DNA com a troca de uma molécula, e a timina ser substituída pela citosina, o cérebro do mutante sortudo será 3 centímetros cúbicos maior, e o resultado no teste de QI é que essas pessoas ganham, em média, 1,29 ponto a mais. Se ambos os pais possuem a mutação, o efeito no filho é aditivo com um aumento de 2,6 pontos no QI.Esse resultado parece pouco expressivo porque a mudança foi pequena e os pesquisadores não conseguiram demonstrar se existe uma área específica que cresce mais que as outras, mas é o primeiro estudo que associa diretamente um único gene à inteligência humana.E a escolha política também é genética? O Laboratório de Fisiologia Política da Universidade de Nebraska-Lincoln, coordenado por um cientista político, John Hib-bing, afirma, com uma série de estudos, que pelo menos ela é constitucional, isto é, nosso cérebro já nasce formado para nos tornarmos liberais ou conservadores.De acordo com seus estudos, liberais e conservadores apresentam reações diferentes em situações que exigem respostas básicas e primitivas do ser humano, por exemplo, conservadores pró-militares apresentam reflexos mais rápidos quando são assustados com barulhos repentinos, e quando expostos a imagens ameaçadoras têm resposta de adrenalina mais intensa e olham mais rápido e por mais tempo essas imagens. Conservadores são mais organizados nos locais onde vivem, enquanto os liberais são mais tolerantes à bagunça.O laboratório insiste também em encontrar diferenças anatômicas nos cérebros dos dois espécimes. Em um estudo ficou demonstrado que conservadores possuem a amígdala direita maior. A amígdala é uma região profunda do cérebro e está relacionada às reações de medo e ameaça. Em contrapartida, os liberais possuem mais células no córtex do giro cingulado, que é responsável pela percepção do erro repetitivo e correção do comportamento para evitá-lo.Segundo o cientista, as escolhas políticas são feitas muito mais por características de personalidade já adquiridas ao nascimento do que da reflexão de ideias, experiência e aprendizado. O doutor Hibbing acredita que conservadores nascem menos tolerantes a mudanças, mas são melhores líderes, trabalhadores e mais leais, enquanto que liberais são receptivos às novas experiências, adaptativos a mudanças, lidam melhor com incertezas e são bem mais flexíveis e têm apetite pela vida.É só olharmos para os lados ou para o espelho que ficará claro que essas características não são binárias, e portanto não podemos colocar todos os humanos em apenas dois grupos de escolhas políticas, mas o que o autor tem como objetivo é pregar a tolerância de todos os lados, já que o discurso não muda a anatomia.* Rogério Tuma é médico neurologista.** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Rogério Tuma*
Marcelo da Silveira Campos. Crack

“A Cracolândia muito além do crack”: profissionais debaterão ação deflagrada em São Paulo

[caption id="attachment_50141" align="alignleft" width="200" caption="Marcelo da Silveira Campos."][/caption]Profissionais da área acadêmica, da saúde e do direito realizam, de 28 a 30 de maio, na Faculdade de Saúde Pública da USP, em São Paulo (SP), o seminário A Cracolândia muito além do crack, a respeito das implicações e das consequências da Operação Centro Legal da Polícia Militar, deflagrada no dia 3 de janeiro, início desse ano, na região conhecida como Cracolândia, localizada no centro da cidade de São Paulo, que teve – segundo o governo – como objetivo acabar com o problema que já existia há cerca de 20 anos no local: o consumo e a venda de crack.Como o próprio nome sugere, o evento quer propor uma discussão mais aprofundada sobre o tema, como a atenção do Estado aos/as usuários/as de drogas no país, questões sociais que estão enraizadas no problema, criminalização social, saúde pública, entre outros, que foram claramente desprezados no episódio e que para várias organizações merecem questionamentos e posicionamentos mais próximos da realidade brasileira.O Seminário contará com mesas temáticas e uma mesa plenária, reunindo grupos de trabalho na presença de expositores e mediadores para debater os seguintes assuntos: Políticas públicas de atenção ao grupo de drogas; Segurança pública e insegurança social; Economia e Direito: quem ganha e quem perde? e Avaliação da Operação na Cracolândia: interesse em disputa.Um dos participantes do evento é Marcelo da Silveira Campos, doutorando e pesquisador da USP, com o tema de doutorado desenvolvido no Impacto da Lei de Drogas no Sistema de Justiça em São Paulo e sociólogo do Projeto Justiça Criminal e da Pastoral Carcerária Nacional.Em entrevista à Adital, ele falou sobre alguns pontos que, com certeza, serão pautados no Seminário. "A política em relação ao consumo de drogas no Brasil tem priorizado o aspecto da criminalização, da prisão de usuários que, inclusive, não está estabelecida na Nova Lei de Drogas em detrimento de políticas sociais, sobretudo políticas de saúde e de redução de danos para o usuário”, afirmou.O seminário A Cracolândia muito além do crack é aberto a todos/as que tenham interesse no tema.Veja a programação completa.Adital – Como se avaliam as políticas públicas de atenção ao usuário de drogas no país?Marcelo da Silveira Campos – A primeira constatação que algumas pesquisas importantes vêm mostrando se refere à questão da indistinção, da confusão que tem havido entre o usuário e traficante. Creio que este é o primeiro ponto para nós pensarmos essa questão. Essa confusão tem trazido, sobretudo, como efeito da Nova Lei de Drogas, a lei 11.343, o encarceramento em massa de usuários e pequenos traficantes.Desse ponto de vista, a política em relação ao consumo de drogas no Brasil tem priorizado o aspecto da criminalização, da prisão de usuários que, inclusive, não está estabelecida na Nova Lei de Drogas em detrimento de políticas sociais, sobretudo políticas de saúde e de redução de danos para o usuário.Adital – Há campanhas de sensibilização e prevenção ao uso de drogas e, especificamente, para o crack?Marcelo da Silveira Campos – O que eu sei do plano governamental que aconteceu em relação ao usuário de crack, do governo federal, é que, a princípio, focava a política de saúde e do tratamento. Não conheço iniciativas ao longo do Brasil, de sucesso, em relação ao usuário de crack. Esse plano de internação do governo federal, a gente tem que enfatizar, embora o plano continue com uma linguagem militarizada.No caso do crack, o que a gente sabe é que os modelos de sucesso em relação ao usuário do crack têm como prioridade o tratamento ambulatorial na rua e não a internação, muito menos a internação compulsória, que é o que acontece no caso do Rio de Janeiro (RJ). Essas duas questões nós sabemos que não funcionam. O que é dito como sucesso, uma experiência que é bem-sucedida, é o tratamento ambulatorial na rua. Porque esse tratamento deveria envolver diferentes atores de política pública, social e de saúde, no auxílio de assistente social, psicólogo, sociólogo, médicos, para a recuperação desse usuário.Adital – Como você interpreta a ação deflagrada na região da Cracolândia? Você acha que ela foi abusiva?Marcelo da Silveira Campos – A ação foi extremamente abusiva do ponto de vista de que ela priorizou uma ação da Polícia Militar e, novamente, não uma ação de política pública, social e de saúde. Então, essa militarização de um problema de saúde pública, a perspectiva e os dados que saíam em relação à incriminação, que é a prisão na Cracolândia, se referem a um tratamento militar de um problema de saúde pública. Isto não é um tratamento de polícia, seria um tratamento desses outros atores como dito antes e, em destaque, política de saúde e social.Adital – Há dados recentes de prisões realizadas no país? O que eles significam?Marcelo da Silveira Campos – Tenho dados de São Paulo (SP). Em 31/12/2010 nós tínhamos 170.829 pessoas presas. Em 31/12/2011, nós tínhamos 180.333 pessoas presas. Quer dizer, o crescimento no ano de 2011, de pessoas presas, foi de 9.504. Isto resulta numa média mensal de 792 pessoas presas e uma média diária de 26,4 prisões. Para se ter uma ideia do impacto no encarceramento e de como está sendo tratado esse usuário de crack, em 27/2/2012, quer dizer, em dois meses decorridos desse ano, nós tínhamos 185.872 pessoas encarceradas. Isto significa, em 2012, o crescimento em dois meses, lembrando que a ação da Cracolândia começou no dia 3 de janeiro de 2012 e, tivemos até o final de fevereiro e início de março, 5.539 novas prisões, o que dá uma média diária de 95,5 pessoas presas.Acredito que isso quer dizer alguma coisa, isso significa a prisão desses usuários na Cracolândia. Desse ponto de vista, a ação foi completamente desastrosa. Isto é uma consequência, mas pode-se falar em outras, de que o usuário de crack não tendo o seu problema e sua saúde respeitados, não tendo um mero espalhamento por outras áreas da cidade, então ele não é efetivamente tratado, mas deslocado, e isso é uma resposta muito midiática.Adital – O que pode e deve ser feito para alterar essa realidade da Cracolândia e da redução do consumo de drogas no Brasil?Marcelo da Silveira Campos – A primeira coisa que deve ser feita para mudar essa realidade é compreender que uma política de redução de consumo não pode estar separada de uma política que é relacionada a esse uso do encarceramento. Então, nós temos que pensar em modelos como os de Portugal, que estão muito bem-sucedidos, ou seja, pensar em maneiras de tratar o usuário de forma diferenciada. Penso que isto é o mais importante.(Nós) temos que tratar essa questão como problema de política de saúde e olhar para experiências bem-sucedidas e pensar seriamente essas questões, nessas experiências, debater esse processo de descriminalização de drogas para pensar na realidade brasileira, que certamente não é igual a outras experiências, mas que ainda tem muito a aprender e colocar esse plano do usuário unido a políticas de saúde, que foi a ideia inicial da Nova Lei de Drogas, referente ao novo Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (Sisnad). Mas a consequência dela, por não distinguir usuário e traficante e por continuar criminalizando o usuário, apesar de ser despenalizado, é criminalizado, e isso acarretou essas consequências.* Publicado originalmente no site Adital.


por Redação da Adital
1334975786_g Agrotóxicos

Agrotóxicos: um mercado bilionário e cada vez mais concentrado

Seminário realizado na Anvisa mostra o processo de concentração da produção e comercialização de insumos agrícolas. Pesquisador alerta para risco à soberania nacional.O mercado mundial de agrotóxicos movimentou US$ 51,2 bilhões em 2010. E o brasileiro US$ 7,3 bilhões. As seis maiores empresas – Basf, Bayer, Dow, Dupont, Monsanto e Syngenta – controlam hoje 66% do mercado mundial. E, no Brasil, as dez maiores empresas foram responsáveis por 75% da venda nacional de agrotóxicos na última safra. As gigantes do setor estão comprando as empresas menores, tanto de agrotóxicos, quanto de sementes, formando monopólios e oligopólios. Os dados foram apresentados no 2º Seminário Mercado de Agrotóxicos e Regulação, realizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no dia 11 de abril, com a palestra do professor da Universidade Federal do Paraná, Victor Pelaez.Segundo o pesquisador, que também é coordenador do Observatório da Indústria de Agrotóxicos, a tendência é de que as grandes empresas continuem adquirindo as pequenas. "Existe um ciclo vicioso porque para baixar os preços é preciso produzir em escala maior, e, portanto, as menores empresas não têm condição de se manterem no mercado com os preços menores. Por isto, cada vez o mercado se concentra mais", explica.Victor avalia que, se por um lado esse processo de concentração representa um risco para as condições de concorrência do mercado e ainda evidencia o poder econômico e político das empresas, por outro revela também uma resposta da indústria a uma maior exigência das agências reguladoras quanto à segurança na produção e comercialização de venenos. "A trajetória tecnológica nesse ramo de atividade tem evoluído no sentido de buscar moléculas que tenham um bom desempenho agronômico, também combinado com um menor impacto ambiental e à saúde, com substâncias menos tóxicas. Os organismos regulatórios tendem a ser mais exigentes à medida que se desenvolvem novos métodos de análise, inclusive exigindo que alguns produtos sejam eliminados do mercado. Quem tem condição de atender a essas exigências regulatórias são essas grandes empresas. Isto está provocando uma tendência a maior concentração", observa.Para Pelaez, apesar de haver essa evidência positiva de um maior controle das agências reguladoras, o quadro é preocupante, pois as empresas passam a controlar cada vez mais também os alimentos que as pessoas vão consumir. "Essa dependência de um número muito pequeno de empresas que produzem sementes e todos os insumos é extremamente arriscado para a soberania de qualquer país, não só do Brasil. Essas empresas controlam também o comércio internacional de grãos e definem em primeira instância as políticas agrícolas e alimentares de grande parte do planeta", alerta.O professor mostrou durante a apresentação que quase todas as grandes corporações do ramo de agrotóxicos adquiriram empresas de sementes nos últimos anos. E aquelas que não participam desse esquema acabam ficando de fora do mercado. "Ao vender para o agricultor, a empresa faz o pacote com a semente e o agrotóxico junto, com uma série de facilidades. Isto dá uma competitividade fantástica às empresas que conseguem ter esse portfólio de produtos. É o que chamamos de economia de escopo. Elas podem dar um desconto grande num produto e ganhar dinheiro em outro produto, e com isso vai faltando espaço e recursos para as empresas que não tiverem essa estratégia", detalha.Dificuldade de informaçõesNo final do ano passado, a Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados aprovou um relatório sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. O texto aborda inúmeras evidências dos malefícios desses venenos e da falta de controle na utilização dos produtos. Dentre as inúmeras recomendações do documento, está a necessidade de melhoria das informações repassadas pelas empresas aos órgãos de fiscalização.O tema também apareceu no seminário. De acordo com Pelaez, os dados informados pelo setor regulado à Anvisa, ao Ministério da Agricultura e ao Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), responsáveis pela fiscalização dos agrotóxicos, são divergentes. "As empresas não têm um controle muito rígido no atendimento dessa demanda. E, por outro lado, é uma demanda que exige muita atenção e cuidado na leitura do manual de preenchimento dos formulários online e também um esforço e trabalho criterioso no preenchimento das informações. O que percebemos em grande parte é uma desatenção e uma falta de cuidado nesse sentido. E os sistemas têm alguns critérios diferentes que fazem com que a empresa não consiga aportar exatamente os mesmos dados", avalia o professor.O pesquisador acrescenta que tanto as empresas, quanto os órgãos públicos deveriam se esforçar para aprender a usar os sistemas e para aprimorá-los. Ele reforça que o ideal é que existisse um único sistema de informações sobre a produção, comercialização e utilização de agrotóxicos. "O Ministério do Meio Ambiente não disponibiliza os dados. Portanto, se os órgãos não conseguem ter acesso aos dados uns dos outros, fica difícil. A Anvisa se viu obrigada a criar um terceiro sistema de coleta de dados, mas o racional seria um único sistema", opina.ControleAlém das dificuldades no acesso às informações sobre o mercado de agrotóxicos, outro problema é a falta de estrutura dos órgãos de fiscalização brasileiros. Enquanto nos Estados Unidos a Agência de Proteção Ambiental (EPA) tem 850 técnicos, a Anvisa tem 26 e, somados os profissionais do Ibama e do Ministério da Agricultura, não chega a 50 o número de técnicos responsáveis por essa fiscalização. "É absurda a diferença considerando que nós temos um mercado que é 10% maior do que o mercado norte-americano", comenta Victor.Outra diferença do Brasil em relação aos Estados Unidos são os valores pagos pelo registro e reavaliação dos agrotóxicos. No Brasil, o custo para registro varia entre US$ 50 e US$ 1 mil. Já nos Estados Unidos, esse valor chega a custar US$ 630 mil. A reavaliação e a manutenção anual não são cobradas no Brasil e nos Estados Unidos as empresas precisam pagar US$ 150 mil em caso de reavaliação e de US$ 100 a US$ 425 para manutenção anual.Segundo Pelaez, são esses montantes que arcam com a estrutura de funcionamento da fiscalização nos Estados Unidos. "Nos Estados Unidos, conseguiram fazer com que a indústria arque com esse valor que gira em torno de US$ 14 milhões. Estes recursos são destinados para financiar programas de treinamento de agricultores e uma política mais consistente de redução do risco da utilização dos agrotóxicos. Para ter mais celeridade, maior segurança e melhor qualidade no processo, alguém tem que pagar por isso, e aqui no Brasil é a sociedade que paga. As empresas são, inclusive, isentas de IPI e têm isenção de até 60% de ICMS", aponta.Representantes das empresas presentes no seminário criticaram a demora da Anvisa em conceder registros de novos produtos, o que, segundo o presidente da Agência, José Agenor da Silva, de fato é uma realidade, devido, entre outros motivos, à falta de estrutura da Agência. Por outro lado, José Agenor e Pelaez comentaram que muitas vezes as empresas conseguem o registro, mas não concretizam a fabricação do produto, o que torna a reclamação contraditória. De acordo com os dados apresentados no seminário, metade dos produtos com registro no Brasil não chegam às mãos dos agricultores. Além disso, 24% das empresas instaladas no Brasil não produziram nem comercializaram nenhum produto durante a última safra. "As empresas estão sempre desqualificando o trabalho da Anvisa porque ela não consegue cumprir as demandas de registro. Dizem que, ao não cumprir essa demanda, está sendo contra a agricultura nacional. Mas aí mostramos que não é bem assim, porque uma quantidade de produtos é aprovada e não é comercializada, porque não há recursos para isso", observa o professor.Pelaez defende a existência de critérios de prioridade para concessão de registros. Ele explica que a fila hoje é por ordem de chegada, o que ignora uma série de procedimentos fundamentais em um processo regulatório. Segundo o pesquisador, a Anvisa já divulgou essa proposta de elaboração de critérios para a fila de registro e recebeu resposta favorável de alguns setores do empresariado. "Estabelecendo prioridades podemos começar a pensar onde há um gargalo e se há possibilidade de incluir produtos menos tóxicos", detalha.Agricultores à mercê das empresasOs dados sobre o mercado mundial de agrotóxicos apresentados no seminário revelam que esse comércio e o modelo de agricultura que o sustenta não mostram sinais de enfraquecimento. De 2000 a 2010, este mercado cresceu 190% no Brasil e 93% no mundo. Durante a última safra (segundo semestre de 2010 e primeiro de 2011), foram produzidos 833 mil toneladas de produtos em 96 empresas analisadas, do total de 130 cadastradas no país. A América Latina detém 22% do mercado mundial de agrotóxicos, sendo que o Brasil, sozinho, é responsável por uma fatia de 19%.Para Pelaez, é fundamental discutir qual modelo de agricultura o país quer manter. "Esse modelo de agricultura não esteve aí sempre, não é a ordem natural das coisas como tentam colocar como sendo inevitável e irreversível. Pelo contrário, são escolhas econômicas e políticas que vão acontecendo ao longo do tempo. E lógico, depois de algumas décadas, passa a ser o modelo dominante", diz.O professor caracteriza o modelo hegemônico na agricultura mundial como altamente excludente e dependente de subsídios do poder público. "Tentativas de implantação desse modelo agrícola na África, em alguns países que não tinham recursos financeiros para subsidiar, fracassaram. A indústria de sementes, agrotóxicos e fertilizantes na verdade é subsidiada pelas populações em geral, dado o custo elevadíssimo", explica.Embora o quadro de concentração das empresas de agrotóxicos e sementes tenda a se intensificar na avaliação do pesquisador, as contradições dessa estratégia e os prejuízos para os próprios agricultores e para o país também estão se tornando cada vez mais evidentes. Pelaez dá o exemplo da empresa Monsanto, que aumentou recentemente em cinco vezes o preço da semente resistente ao agrotóxico glifosato, ambos – agrotóxico e semente – produzidos pela empresa. "Essa era a crônica da morte anunciada. Essa combinação que a Monsanto faz do glifosato com a semente resistente ao glifosato possibilita esse aumento de preços fantástico. Agricultores gaúchos, que sempre foram extremamente favoráveis à difusão da soja transgênica resistente ao glifosato, entraram com uma liminar contra o pagamento desses royalties. Isto é surpreendente porque eles sempre foram os grandes aliados desse modelo e agora estão sendo vítimas do que sempre defenderam. Isto mostra como o risco está presente", alerta.* Raquel Júnia é da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz)** Publicado originalmente no site EcoAgência.


por Raquel Júnia*

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