Artigo por Marco Antônio Arruda* A memória ultrarrápida retém a informação por frações de segundo a minutos. É aquele prazo suficiente para desligarmos o celular e anotarmos o número de telefone que acabaram de nos passar.A memória de curto prazo é mais duradoura e tem outras características que equivalem, grosseiramente, à memória operacional dos computadores ou memória RAM (memória de acesso aleatório, em inglês). Ela “gerencia a realidade”, mantém sob controle uma série de informações ao mesmo tempo em que processa outras, por isso é também conhecida como memória de trabalho.A memória de longo prazo, por sua vez, resulta da formação de engramas ou traços duradouros da informação, sob forma eletroquímica e genética, que ficam armazenados nas células nervosas por dias, meses ou décadas. Ela pode ser expressa verbalmente ao recordar um fato (o nome da capital do Amapá) ou um evento (a viagem que fiz a Macapá), ou não verbalmente, como a memória utilizada para executar atos como andar de bicicleta ou tocar um instrumento (procedimentos e habilidades), salivar quando me lembro do bife a milanesa da tia Dina (condicionamentos) ou me lembrar de Albert Einstein quando vejo alguém com a língua de fora (memória priming, adquirida e evocada por meio de dicas).Após codificar, armazenar e recuperar as informações, o cérebro se ocupa de esquecê-las, respeitando, naturalmente, o seu grau de importância para a nossa sobrevivência. Este é um processo fundamental que garante espaço na “prateleira”, para que novas e mais importantes informações sejam estocadas.Quando não descarta de vez a informação residente na memória de longo prazo, ele, sabiamente, a retoca, com o ônus da perda de fidelidade.Dessa forma, podemos inferir que o cérebro nos dá apenas uma visão aproximada da realidade, “pano para manga” em discussões filosóficas, jurídicas e existenciais.* Marco Antônio Arruda é médico neurologista e membro da Academia Brasileira de Neurologia.** Publicado originalmente no site Saúde em Pauta.