Automóveis e televisores trazem risco maior de infarto

Dia-a-dia

Automóveis e televisores trazem risco maior de infarto


por Redação Agência Fapesp


Agência Fapesp – Uma pesquisa internacional concluiu que a atividade física, seja durante o trabalho ou em momentos de lazer, reduz significativamente os riscos de infarto em países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Em países emergentes e nos mais pobres a posse tanto de automóvel e de aparelho de televisão se mostrou relacionada ao maior risco de desenvolver problemas cardíacos. Os resultados são do estudo Interheart, que avaliou mais de 20 mil pessoas em 262 localidades em 52 países nas Américas, Ásia, Europa, Oriente Médio, África e Oceania. Na América do Sul, participaram pessoas de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Guatemala e México. As conclusões foram publicadas nesta quarta-feira (11/01) no European Heart Journal. “Poucos estudos até agora focaram nos diferentes aspectos da atividade física tanto durante o trabalho como nos momentos de lazer em relação ao risco de ataques cardíacos”, disse Claes Held, do Hospital Universitário de Uppsala, na Suécia, um dos autores do estudo. “Os resultados indicam que a atividade física leve ou moderada durante o trabalho, ou em qualquer nível durante os períodos de lazer, reduzem os riscos de infarto, independentemente de outros fatores de risco tradicionais, em homens e mulheres de todas as idades, na maior parte das regiões do mundo e em países com diferentes rendas per capita”, disse. Os cientistas compararam os hábitos de 10.043 pessoas que tiveram infarto com os de 14.217 outros que não experimentaram o problema. Os resultados do estudo levaram em consideração diversos fatores que podem contribuir com aumento nos riscos de desenvolver problemas cardiovasculares, como idade, renda, consumo de bebida alcoólica e dieta. O estudo verificou que pessoas cujos trabalhos envolvem a realização de atividades físicas leves ou moderadas apresentaram risco de 11% a 22% menor de ter um infarto em comparação com aqueles cujas ocupações são eminentemente sedentárias. Entretanto, a atividade física pesada durante o trabalho não apresentou menor risco. Durante os momentos de lazer, o risco de infarto se mostrou menor para todos os níveis de exercício quando comparados com o sedentarismo, reduzindo de 13% (para atividades físicas leves) a 24% (para atividades moderadas ou intensas). De acordo com o estudo, qualquer atividade física é melhor do que sua ausência. Mesmo aqueles que se exercitavam nos momentos de lazer muito menos do que o indicado apresentaram menor risco de desenvolver infarto do que os totalmente sedentários. Pessoas que tinham tanto automóvel como televisor em casa apresentaram um risco 27% maior de ter infarto do que aqueles que não possuíam nenhum dos bens. O estudo observou que menos pessoas praticavam atividades físicas em momentos de lazer em países mais pobres do que nos mais ricos. “Isto pode ser explicado em parte por diferenças em educação e em outros fatores socioeconômicos ou culturais”, disseram os autores. “Manter-se em forma durante a vida é uma das formas mais simples, baratas e eficientes de evitar problemas coronários”, concluíram. * O artigo Physical activity levels, ownership of goods promoting sedentary behaviour and risk of myocardial infarction: results of the Interheart study (doi:10.1093/eurheartj/ehr432), de Claes Held e outros, pode ser lido por assinantes do European Heart Journal em http://eurheartj.oxfordjournals.org. ** Publicado originalmente no site Agência Fapesp.

Laços podem afetar maneira como a criança vai lidar com estresse no futuro. Foto: Reprodução/LA Times. Obesidade

Laço entre mãe e criança pode afetar obesidade no futuro

[caption id="attachment_39701" align="alignleft" width="270" caption="Laços podem afetar maneira como a criança vai lidar com estresse no futuro. Foto: Reprodução/LA Times"][/caption] Estudo envolveu 977 crianças de 15, 24 e 36 meses que foram depois acompanhadas aos 15 anos. A qualidade da relação da mãe com seu filho pequeno pode afetar o peso da criança na adolescência, descobriu um estudo. O artigo foi baseado na observação de como mães interagiam com seus filhos quando eles tinham 15, 24 e 36 meses de idade, e no acompanhamento dessas crianças quando elas fizeram 15 anos para medir os níveis de obesidade. O estudo contou com a participação de 977 crianças. Os pesquisadores se concentraram em dois aspectos do relacionamento: ligação de segurança, ou o quão consciente a criança é de que sua mãe é a base de segurança e uma presença reconfortante em horas de estresse, e sensibilidade maternal, ou a consciência da mãe sobre o estado emocional da criança e sua habilidade de reconfortar e animar. A qualidade dos relacionamentos foi avaliada em uma escala de seis pontos, com pontuações de três ou mais indicando um relacionamento emocional de muito baixa qualidade. Em geral, quanto pior relacionamento entre mãe e criança, maiores as chances de que ela seja obesa aos 15 anos. Entre as crianças, 24,7% tinham uma relação adversa com suas mães, pontuando três ou mais. Ter baixa sensitividade maternal, ligação insegura e os dois juntos foram vinculados a maiores chances de ser obeso na adolescência. Especificamente, a prevalência de obesidade em adolescentes foi de 26,1% entre aqueles com pontuação três ou mais, 15% entre aqueles com pontuação dois, 12,1% entre aqueles com pontuação um e 13% entre os com pontuação zero. Quando os pesquisadores controlaram por peso no nascimento e gênero, eles descobriram que a probabilidade de se tornar obeso na adolescência era 2,45 vezes maior para aqueles que tiveram as piores relações com suas mães, comparados àqueles com as melhores relações. Pesquisadores disseram acreditar que bons ou maus laços de relacionamentos cedo podem afetar como a criança reage a estresse, como comendo demais ou tendo péssima qualidade de sono. “Cuidados atenciosos aumentam a probabilidade de a criança ter um padrão seguro de afeto e desenvolver uma resposta saudável ao estresse”, disse a principal autora Sarah Anderson da Ohio State University em um comunicado à imprensa. “Uma resposta ao estresse bem regulada pode influenciar o quão bem crianças dormem e se elas vão comer em reposta ao estresse emocional – dois fatores que afetam a probabilidade de obesidade.” Anderson, professora de epidemiologia, não chegou a culpar completamente as mães por terem um efeito sobre o peso dos seus filhos. “É possível”, ela disse, “que a obesidade infantil possa ser influenciada por intervenções que tentam melhorar laços entre mães e crianças ao invés de focada apenas na ingestão de comida pelas crianças e atividade”. * O estudo foi publicado na edição de janeiro de 2012 do jornal Pediatrics. ** Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Jeannine Stein, do Los Angeles Times
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Famílias gastam mais que o governo com saúde, indica IBGE

Rio de Janeiro - Embora os gastos do governo com bens e serviços de saúde tenham aumentado em ritmo mais intenso entre 2007 e 2009, as famílias continuam contabilizando despesas mais elevadas nesse setor. Entre os dois anos, as famílias brasileiras responderam, em média, por mais da metade (56,3%) desses gastos, o que representou cerca de 4,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em todo o período. Já os gastos da administração pública aumentaram sua participação no PIB de 3,5% para 3,8% entre os dois anos. Os dados fazem parte da pesquisa Conta Satélite de Saúde, divulgada hoje (18) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento traz informações sobre a produção, o consumo e o comércio exterior de bens e serviços relacionados à saúde, além de dados relacionados ao trabalho e à renda nas atividades que geram esses produtos. De acordo com o estudo, as famílias gastaram, em 2009, R$ 157,1 bilhões em bens e serviços de saúde, enquanto a administração pública desembolsou R$ 123,6 bilhões com o mesmo setor. Já as instituições sem fins lucrativos a serviço das famílias gastaram R$ 2,9 bilhões (0,1% do PIB). Dessa forma, o consumo de bens e serviços de saúde naquele ano representou 8,8% do PIB total do país, alcançando R$ 283,6 bilhões. Em 2009, as principais despesas de consumo final das famílias foram com outros serviços relacionados com atenção à saúde, como consultas médicas e odontológicas, exames laboratoriais (36,3% do total) e com medicamentos para uso humano (35,8%). No caso da administração pública, 66,4% do total foi gasto com saúde pública. As despesas em unidades privadas contratadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) responderam por 10,8% e os medicamentos para distribuição gratuita representaram 5,1% dos gastos. * Edição: Lílian Beraldo. ** Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Thais Leitão, da Agência Brasil
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A demora no SUS virou notícia

Se as próteses estrangeiras não estivessem no noticiário, a imprensa nacional jamais contaria aos leitores que as filas para reconstrução de mama no SUS obrigam as pacientes a uma espera de muitos anos. A notícia está no Estado de S. Paulo (14/1), na matéria “Fila para cirurgias de reconstrução preocupa pacientes”. “A aposentada Loeny Menezes da Rosa, de 61 anos, esperou cinco anos na fila para conseguir fazer a cirurgia de reconstrução da mama pelo SUS. Ela descobriu o câncer em 2001 e só conseguiu reconstruir a mama em 2006. ‘O médico disse que se eu quisesse colocar silicone na hora, teria de pagar à parte. Naquela época eu não tinha como pagar, por isso decidi esperar. Entrei na fila de novo e só fui chamada em 2006’.” Afirma o jornal: “O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que 52 mil mulheres serão diagnosticadas com câncer de mama em 2012. E a Sociedade Brasileira de Mastologia estima que ao menos 20 mil delas precisarão fazer uma cirurgia de retirada das mamas, sendo que apenas cerca de 10% delas sairão do centro cirúrgico com a mama já reconstruída. Para Luciana Holtz, psico-oncologista e presidente do Oncoguia, o governo precisa deixar claro como vai organizar as filas das mulheres que precisam fazer mastectomia, das mulheres que precisam fazer a reconstrução e das que possuem próteses da PIP ou Rofil com problemas. Ela diz: ‘Nós entendemos que o centro cirúrgico é um só. E existem centenas de mulheres com câncer esperando de três a seis meses só para fazer a mastectomia. Para fazer a reconstrução, demora uns dois anos. Qual a urgência de trocar a prótese dessas outras mulheres? A fila será única ou separada?’” A maratona de cirurgias As perguntas da oncologista sugerem uma excelente pauta para os jornais, que por anos a fio desconheceram mais essa omissão do SUS, ou porque assuntos desse tipo só viram notícia quando envolvem escândalos, ou porque os jornalistas não têm tempo para insistir em assuntos árduos. A confirmação da falta de tempo ou interesse pode ser verificada na mesma matéria do jornal, quando informa que “o Ministério da Saúde diz que não tem como informar quantas mulheres estão na fila de espera nem quanto tempo está demorando a cirurgia porque o gerenciamento das filas é descentralizado e é feito por cada estado e município”. O Ministério pode até ter tentado encerrar o assunto com essa declaração, mas se o jornalista tivesse dado uma rápida pesquisada na internet, teria descoberto que cerca de duas mil mulheres esperam pelo procedimento. Foi o que mostrou, no ano passado, o jornal Correio Braziliense (31/3/11): “Às 7h de ontem, foi dada a largada para a maratona de cirurgias de reconstrução de mama que operaram 61 mulheres em 12 horas, número quase equivalente às 70 feitas ao longo de 2010. É a primeira vez que um mutirão como este é realizado no Brasil. Para garantir o sucesso nos atendimentos, o reforço veio de 17 médicos de fora do Distrito Federal. A experiência pretende ser piloto de um projeto que prevê iniciativa parecida em âmbito nacional, prevista para março de 2012 – serão beneficiadas cerca de duas mil mulheres que estão na fila do Sistema Único de Saúde (SUS). Por isso, os bons resultados de ontem serão encaminhados para análise da presidente Dilma Rousseff.” Um sério trabalho de reportagem Resta ver se a imprensa vai continuar atenta ao assunto ou vai deixar cair no esquecimento. Como disse à Folha de S.Paulo (14/1) o cirurgião plástico Alexandre Mendonça Munhoz, do Hospital Sírio-Libanês, o problema provável é a sobrecarga do SUS: “O sistema não teria condições de atender ao aumento da demanda para cirurgia. Imagine se metade das pacientes tiverem de ser operadas nos próximos cinco anos, serão seis mil pacientes a mais para um sistema que já está sobrecarregado”. Segundo o médico, somente no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, mais de 200 pacientes aguardam por cirurgia reparadora. Será que as mulheres que continuam na fila do SUS, agora acompanhadas pelas novas pacientes, vão merecer da mídia a atenção que merecem? Ou vamos ter que esperar uma nova atitude da presidência para que o assunto volte a ocupar espaço nos jornais? Seria interessante, ao menos uma vez, ver a imprensa engajada num sério trabalho de reportagem para contar aos brasileiros como anda, afinal de contas, o Sistema Único de Saúde. Nesta e em todas as outras áreas que atende ou deveria atender. * Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.


por Ligia Martins de Almeida, do Observatório da Imprensa
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Verão, prática esportiva e cuidados com o coração

No começo do ano, é comum se pensar em adotar hábitos de vida mais saudáveis. E nestes planos não pode faltar o objetivo de iniciar alguma atividade física, seja a caminhada, entrar para uma academia ou mesmo iniciar um esporte coletivo. Mas é também nesta época que os cuidados com a saúde devem ser redobrados. Além de ter certeza de que o corpo está pronto para o exercício, um check-up pode evitar muitos problemas, principalmente com o coração. “Uma avaliação clínica completa – consulta médica e exames complementares, quando necessários – pode definir o perfil de risco cardiovascular de cada pessoa. Verificar a pressão arterial, os níveis de colesterol e de açúcar periodicamente são medidas importantes de prevenção, e exames como o eletrocardiograma, teste ergométrico e ecocardiograma podem ser úteis para avaliar o ritmo cardíaco, a capacidade física e a estrutura do coração”, diz o cardiologista Pedro Henrique Reis. Pessoas acima de 45 anos ou que tenham fatores de risco, como histórico de doença coronariana na família, colesterol e triglicerídeos elevados, diabetes, hipertensão, tabagismo e sedentarismo, devem fazer essa avaliação anualmente. Para quem está fora deste perfil e tem mais de 30 anos, sugere-se realizar o check-up uma vez a cada dois anos. Verão exige mais cuidados O médico pode ajudar a definir a modalidade esportiva mais indicada e o melhor horário para o exercício. No verão brasileiro, de altas temperaturas, o corpo sofre maior desgaste. “Nem todos os esportes podem ser praticados por pessoas com doenças cardiovasculares, em razão da intensidade do esforço. O limite para a atividade física pode ser definido por testes específicos para adequar a prescrição do exercício para cada indivíduo”, reforça o médico. Dicas para quem quer começar a atividade física regular O fisiologista Rafael Macedo lista pequenas dicas de saúde que podem garantir mais segurança para quem pretende iniciar no esporte. • Realizar consulta médica para obter atestado de liberação para a realização de exercícios; • Utilizar calçados – tênis – confortáveis e roupas leves que permitam a transpiração; • Manter adequada hidratação durante a prática do exercício físico; • Evitar exposição ao Sol em horários inadequados; • Usar o filtro solar em atividade ao ar livre, mesmo em dias nublados; • Procurar um professor de educação física para orientar a forma correta de execução de movimentos, além da intensidade, preferencialmente prescritos de forma individualizada; • Buscar realizar exercícios de maior afinidade, para motivar a adesão à prática. * Publicado originalmente no site O que eu tenho.


por Redação O que eu tenho
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Células-tronco sofrem mudanças cromossômicas depois de longo tempo em cultura

[caption id="attachment_39725" align="alignleft" width="300" caption="Segundo Daley, a reprogramação de células somáticas pode ajudar a recuperar tecidos danificados do corpo. Foto: Bryan Jones/Flickr"][/caption] Agência Fapesp – Quando são mantidas por longo tempo em cultura, as células-tronco embrionárias humanas apresentam alterações cromossômicas que podem comprometer as condições ideais para aplicações terapêuticas, de acordo com um amplo estudo internacional realizado com participação brasileira. A pesquisa, que foi capa da edição de dezembro da revista Nature Biotechnology, analisou 125 linhagens de células-tronco embrionárias humanas e 11 linhagens de células-tronco pluripotentes induzidas. O objetivo era identificar possíveis mudanças genéticas em culturas in vitro ao longo do tempo. O trabalho foi coordenado pela International Stem Cell Initiative (Isci), que envolve 38 laboratórios de todo o mundo, incluindo o Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE), do Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP), coordenado por Lygia da Veiga Pereira. O grupo do LaNCE obteve, em 2008, a primeira linhagem de células-tronco desenvolvida na América Latina, a BR-1, cujas amostras foram agora utilizadas no estudo da Isci. Além de Pereira, o estudo teve a participação de sua orientanda Ana Fraga, que cursa doutorado no IB-USP com Bolsa da Fapesp. Segundo Fraga, a maior parte das linhagens permanecia normal por algum tempo, em relação ao cariótipo, o conjunto de cromossomos. Mas, ao longo de um período de seis meses em cultura, as células apresentaram uma tendência progressiva a adquirir modificações, afetando os cromossomos 1, 12, 17 e 20. “Nem todos os genes envolvidos nessas alterações cromossômicas são conhecidos. Mas sabemos que o cromossomo 20, por exemplo, tem um gene importante relacionado à morte celular. Será preciso testar, a partir de agora, até que ponto esTas modificações poderiam gerar efeitos colaterais em aplicações terapêuticas”, disse à Agência Fapesp. De acordo com a pesquisadora, já se sabia que as células cultivadas apresentam alguma instabilidade, passível de comprometer sua aplicação em terapias. Mas, pela primeira vez, as mudanças cromossômicas em células mantidas em cultura por longo tempo foram confirmadas por um estudo robusto. “A vantagem deste estudo é que ele reuniu análises de mais de uma centena de linhagens de células-tronco embrionárias provenientes de diferentes origens étnicas. E tudo isto foi realizado de forma muito rigorosa, sob os mesmos parâmetros, no mesmo laboratório, com os mesmos protocolos de pesquisa e mesma metodologia”, disse. Fraga explica que o DNA extraído de células das linhagens das várias partes do mundo, incluindo a BR-1, foi enviado para análises epigenéticas em Cingapura. Um lote de células congeladas seguiu para o Reino Unido, para a realização de análises citogenéticas. Existe a possibilidade de que as alterações sejam selecionadas pelas atuais condições de cultivo das células. “Esta hipótese será testada em estudos futuros. As modificações, no entanto, não significam necessariamente que o cultivo inviabilize as aplicações terapêuticas das linhagens”, disse. Aplicação e efeitos Ao cultivar células-tronco embrionárias humanas, os cientistas “imitam” a metodologia utilizada para a análise de linhagens de células de camundongos. O que os estudos mais recentes estão mostrando, segundo Fraga, é que as células humanas não se comportam exatamente como as células murinas. “Quando fazemos um modelo animal, as variações podem não fazer tanta diferença para o experimento. Mas em células humanas precisamos nos aproximar o máximo possível das condições in vivo, pois os resultados serão aplicados em terapias”, disse. “Por isso, há uma preocupação com as alterações que observamos, mas acho que os resultados não são alarmantes, nem significam que a aplicação terapêutica dessas células terá de fato efeitos colaterais. Apenas confirmamos que é preciso aprofundar os estudos sobre soluções ideais para o cultivo de células-tronco embrionárias”, completou. * O artigo Screening ethnically diverse human embryonic stem cells identifies a chromosome 20 minimal amplicon conferring growth advantage, de Lygia Pereira, Ana Fraga e outros, pode ser lido por assinantes da Nature Biotechnology em www.nature.com/nbt/journal/v29/n12/full/nbt.2051.html. ** Publicado originalmente no site Agência Fapesp.


por Fábio de Castro, da Agência Fapesp
Se cada brasileiro ingerir somente 3 gramas de sal por dia, haveria uma redução de 35 mil AVCs por ano no País. Foto: Olga Vlahou Alimentação

Por um ano menos salgado

[caption id="attachment_39704" align="alignleft" width="211" caption="Se cada brasileiro ingerir somente três gramas de sal por dia, haveria uma redução de 35 mil AVCs por ano no país. Foto: Olga Vlahou"][/caption] A revista Lancet Neurology publicou uma revisão, em sua primeira edição deste ano, dos avanços médicos para evitar o acidente vascular cerebral (AVC), também conhecido como derrame. O estudo feito pelo doutor Graeme Hankey, da Austrália, avaliou 185 pesquisas sobre dieta e AVC e tirou suas próprias conclusões. Toda a evolução da civilização nas últimas décadas, facilitando a nossa vida, reduzindo nosso esforço físico e aumentando excessivamente a oferta de alimentos, aumentou vertiginosamente a incidência de doenças, sobretudo de alguns tipos de cânceres, diabetes e doenças vasculares. O AVC encaixa-se no último grupo, pois é a interrupção do fluxo sanguíneo para alguma área do cérebro, o chamado AVC isquêmico, ou o extravasamento de sangue no cérebro, conhecido como AVC hemorrágico. Trata-se da quarta maior causa de morte e a principal de sequelas no mundo. A notícia alarmante é que enquanto a incidência de AVC nos países desenvolvidos nos últimos 40 anos se reduziu pela metade, principalmente pela mudança de hábitos e controle dos fatores de risco como hipertensão, hipercolesterolêmica e tabagismo, nos países com baixa renda per capita, como o Brasil, a incidência de AVC dobrou no mesmo período. As taxas são diretamente proporcionais aos índices de obesidade, diabetes, tudo isso proveniente do consumo exagerado de calorias e sal que a urbanização do mundo provocou. A principal causa do AVC é a aterosclerose, que é o acúmulo de gordura nas artérias, associada aos fatores que aumentam o risco: a hipertensão arterial, o sedentarismo, o diabetes, o tabagismo e a obesidade. Se mudássemos nossos hábitos, rejeitando algumas das benesses da Revolução Industrial, viveríamos muito mais e melhor. Uma das mudanças cruciais seria comer menos sal. Um estudo publicado na revista New England Journal, em 2010, mostrou que se reduzíssemos a ingesta de sal para no máximo três gramas ao dia, conseguiríamos uma redução de até 35 mil AVCs por ano no Brasil, além de evitarmos 45 mil mortes por doenças cardiovasculares. Pouparia aos cofres públicos alguns bilhões de reais todo ano. Muito pouca comida faz mal, filhos de mães mal nutridas durante a gravidez e crianças subnutridas têm alto risco de sofrer AVC quando chegarem à idade adulta, mas o excesso também é perigoso. A energia acumulada transforma-se em glicose e gordura que circulam no sangue e se acumulam nos vasos, aumentando o risco de rompê-los ou obstruí-los. No mundo de hoje, perto de dois bilhões de pessoas estão na faixa de desnutridos e outro 1,5 bilhão está acima do peso. Ambas as situações, por diferentes motivos, são fatores de risco. Com essa revisão aprendemos que as vitaminas A e B, o cálcio e as substâncias antioxidantes não nos protegem do AVC. Alguns estudos ainda estão em progresso para validarem o papel protetor da vitamina E, do ômega-3 e da vitamina D. Uma dieta com cinco gramas de sal aumenta o risco de AVC em 23% e uma dieta com pelo menos um grama de potássio diária, reduz o risco de AVC em 11%. A gordura é a vilã para doenças coronarianas, mas não existem estudos que confirmem o mesmo papel com as artérias cerebrais. Mas ao menos sugerem que as gorduras trans e saturadas são perigosas, enquanto as poli-insaturadas e ômega-3 podem ajudar. Alimentos ricos em açúcar livre, isto é, refrigerantes e doces, aumentam o risco de AVC. Peixes, se consumidos diariamente, reduzem o risco em 6%. Proteínas magras e frutas também reduzem o risco de AVC. Grãos integrais, se consumidos em alta quantidade, diminuem o risco em 20%. Leite desnatado e até três xícaras de café ou de chá ao dia podem diminuir o risco em 17%, o consumo diário de chocolate igualmente nos protege contra o AVC. O tipo de dieta interfere pouco. A dieta do Mediterrâneo é a única que comprovadamente nos protege contra o AVC. A dieta vegetariana, a dieta sem produto animal algum e a japonesa não reduzem o risco de AVC, em geral, pois parecem diminuir o AVC isquêmico, mas aumentam o AVC hemorrágico. Enfim, o fundamental é reduzir drasticamente as calorias que consumimos, cozinhar sem sal e depois colocar uma pitada no prato, tirar o açúcar livre e a gordura animal, e usar o padrão de dieta do Mediterrâneo que é rico em verduras, legumes, frutas e grãos integrais e usa a proteína do peixe. Apenas repor vitaminas que faltam, principalmente o folato e a vitamina D, comer alimentos ricos em potássio e beber vinho tinto com muita moderação, três taças na semana. O resto é perfumaria. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Rogério Tuma, da Carta Capital
adesivo nicotina Tabagismo

Chicletes e adesivos de nicotina são ineficazes no combate ao tabagismo

Os chicletes e adesivos de nicotina que milhões de fumantes usam para ajudar a combater o vício não têm nenhum benefício duradouro e, em alguns casos, o tiro ainda pode sair pela culatra. As informações são do mais rigoroso estudo de longo prazo já realizado sobre a terapia de reposição de nicotina. Em estudos médicos, os produtos têm se revelado eficazes, tornando mais fácil para as pessoas parar de fumar, pelo menos a curto prazo. Os resultados mais animadores foram a base para as diretrizes federais em vários países recomendarem os produtos para auxiliar no abandono do tabagismo. Mas, nas pesquisas recentes, os fumantes que usaram os produtos sem receita, como parte de um programa ou por conta própria, relataram pouco benefício. O novo estudo acompanhou um grupo de fumantes para ver se os produtos de reposição de nicotina afetam suas chances de largar o hábito ao logo do tempo. Não. Mesmo quando eles recebem aconselhamento sobre a reposição de nicotina. O estudo, publicado segunda-feira, 9, no jornal especializado Tobacco Control, incluiu cerca de 800 pessoas que estão tentando parar de fumar durante um período de vários anos. É provável que esta pesquisa inflame um longo debate sobre o valor das alternativas da nicotina. O negócio lucrativo dos chicletes e adesivos O mercado dos produtos de reposição de nicotina decolou nos últimos anos, faturando U$ 800 milhões em 2007, contra U$ 129 milhões em 1991. Em 1997, os produtos foram aprovados para serem vendidos sem receitas em muitos estados norte-americanos, e planos de saúde no país cobrem pelo menos um deles. “Estávamos esperando um resultado diferente”, disse o coautor do estudo e diretor do Centro Global de Controle do Tabagismo de Harvard, Dr. Gregory Connolly. “Investimos nesse programa de tratamentos por anos”, disse. Médicos que tratam fumantes disseram que as conclusões do estudo não foram inesperadas, dada a forma ocasional como muitos fumantes usam os produtos. “A adesão do paciente é uma questão muito importante”, disse o Dr. Richard Hurt, diretor do Centro de Dependência da Nicotina da Clínica Mayo, que não esteve envolvido no estudo. Hurt afirmou que os produtos de nicotina, como chicletes e adesivos, são “absolutamente essenciais, mas que suas combinações e doses para o tratamento adequado são necessidades individuais de cada paciente”. Os produtos têm sido controversos desde 2002, quando pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego, informaram, a partir de uma ampla pesquisa, que eles não pareciam oferecer nenhum benefício. O estudo não acompanhou as pessoas por um longo tempo. Um programa realizado pelo governo, que incluiu a reposição de nicotina como parte de diretrizes federais causou polêmica, porque membros do governo responsáveis pelo programa teriam recebido dinheiro dos fabricantes dos produtos. “Alguns estudos questionaram estes tratamentos, mas a maior parte deles endossou o seu uso”, disse o diretor da Universidade de Wisconsin, do Centro de Pesquisa e Intervenção do Tabaco, Dr. Michael Fiore. O médico também é o presidente do programa que estabeleceu as diretrizes federais e que foram acusados de receber pagamentos dos fabricantes de medicamentos. “Há milhões de fumantes desesperados para parar por aí e seria uma tragédia se eles se sentissem enganados por causa de um estudo que estabelece que o tratamento é ineficaz”, afirmou. Em um estudo antigo, realizado em Massachusetts, pesquisadores acompanharam uma amostra representativa de 1.916 adultos, incluindo 787 pessoas que disseram que tinham parado de fumar recentemente. Eles entrevistaram cada participante três vezes, uma vez a cada dois anos durante a década de 2000, pedindo para os fumantes e ex-fumantes falarem sobre o uso da goma de mascar, adesivos e outros produtos, durante seus períodos sem fumar e suas recaídas. Segundo o estudo, cerca de um terço das pessoas que tentaram parar de fumar tiveram uma recaída.O uso de produtos de substituição não fez diferença, usados pelo período de dois meses como o recomendado, ou com a orientação de um psicólogo. Em um subgrupo de fumantes pesados – definidos como aqueles que fumam seu primeiro cigarro dentro de meia hora depois de acordar – que usaram os produtos de substituição sem orientação, a propensão à recaída foi duas vezes maior em fumantes pesados que não usaram os produtos. Os pesquisadores afirmam que, embora os produtos de reposição de nicotina ajudem as pessoas a parar de fumar, eles não são suficientes para prevenir recaídas a longo prazo. A motivação dos pacientes é muito importante, assim como os seus ambientes sociais, apoio dos amigos e familiares e regras estabelecidas em local de trabalho, campanhas na mídia, aumento de impostos sobre o tabaco e endurecimento das leis de fumo. * Publicado originalmente no site The New York Times e retirado do Opinião e Notícia.


por Benedict Carey, do The New York Times
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Dieta de baixa carga glicêmica reduz riscos doenças crônicas em pessoas com sobrepeso ou obesas

Pessoas com sobrepeso ou obesas que seguem uma dieta rica em fibras e com menos carboidratos diminuem a presença de marcadores de inflamações relacionadas a diversos tipos de cânceres e doenças cardiovasculares, afirma estudo norte-americano. O estudo, realizado por pesquisadores do Centro Fred Hutchinson de Pesquisas em Câncer, nos Estados Unidos, envolveu 80 pessoas adultas – metade delas com sobrepeso ou obesas. Durante 28 dias, todos os participantes alternaram entre uma dieta com alta carga glicêmica ou uma com baixa carga glicêmica. A escolha da alimentação para cada pessoa foi feita aleatoriamente pelos autores do estudo. Uma alimentação com alta carga glicêmica aumenta rapidamente os níveis de açúcar no sangue. Carboidratos processados, como açúcar branco, frutas em calda enlatadas e farinha branca, por exemplo, têm elevada carga glicêmica. Certos tipos de amido, como os presentes na batata e pão branco provocam alterações glicêmicas maiores e mais rápidas do que até mesmo o açúcar. Já as fibras, como pães integrais, cereais e legumes, possuem baixa carga glicêmica. De acordo com os resultados, divulgados no periódico The Journal of Nutrition, os adultos com sobrepeso ou obesidade que seguiram a dieta com baixa carga glicêmica e rica em fibras apresentaram uma redução de cerca de 22% na presença da proteína C-reativa (CRP), que é um marcador biológico de atividade inflamatória no organismo. Além disso, esse grupo também aumentou em 5% os níveis sanguíneos da adiponectina, um hormônio fundamental na prevenção de cânceres como o de mama, de diabetes tipo 2, de doenças hepáticas e endurecimento das artérias. “Reduzir fatores inflamatórios é importante para diminuir uma ampla gama de riscos à saúde. Mostrar que uma dieta de baixa carga glicêmica pode melhorar a saúde é importante para todas as pessoas que estão com sobrepeso ou obesas”, afirma Marian Neuhouser, principal autora do estudo. Segundo Neuhouser, mudar os hábitos alimentares não é algo fácil de se fazer. Mas, sempre que possível, uma pessoa deve escolher carboidratos que são menos propensos a aumentar a glicose no sangue, como feijão, soja, lentilha, leite e frutas como maçãs, laranjas e peras. A pesquisadora também recomenda evitar alimentos altamente processados e com grande quantidade de açúcar e farinha brancos, além de bebidas adoçadas com açúcar e cereais matinais. * Publicado originalmente no site O que eu tenho.


por Marina Teles, do O que eu tenho
Saude-Publica-Brasil Entrevista

Pesquisa em saúde

Apesar da melhora nos últimos anos, o Brasil ainda tem um longo caminho a seguir para ser competitivo. A pesquisa biomédica passou do amadorismo e voluntarismo à seriedade e ao profissionalismo necessários para projetar o Brasil no cenário mundial. Nenhum país que pretende ser potência mundial pode deixar de criar e ampliar seu parque científico. As pesquisas, em geral, e a biomédica, em particular, vêm se beneficiando da estabilidade econômica dos últimos 15 anos, além da criação dos Fundos Setoriais de Ciência e Tecnologia e da consolidação do financiamento estadual pelas fundações de apoio às pesquisas estaduais, a exemplo da Fapesp. Mas ainda falta muito. “Nos últimos oito anos, o volume de recursos do Ministério da Saúde vem aumentando progressivamente, aproxima-se dos R$ 200 milhões ao ano, e influencia setores da pesquisa específicos e complementares àqueles que recebem o apoio tradicional das agências de fomento”, afirma José Eduardo Krieger, professor de Cardiopneumologia e diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração da USP. CartaCapital: Que tipo de projetos o Ministério da Saúde apoia atualmente? José Eduardo Krieger: Projetos interdisciplinares de inovação em saúde, como a pesquisa em células-tronco, e de transferência de tecnologia para o sistema de saúde, como os estudos da hipertensão arterial. CC: O que falta para a ampliação desses e de outros projetos científicos? JEK: Infraestrutura adequada, formação e capacitação de redes envolvendo os hospitais universitários e acesso a equipamentos sofisticados como, por exemplo, sequenciadores de DNA de última geração, áreas que têm sido alvo de investimento por parte do Ministério da Saúde. CC: Essa infraestrutura é exclusiva das instituições públicas? JEK: Não. Essas medidas devem envolver a iniciativa privada, que é parte do complexo industrial da saúde e requer o funcionamento do sistema para desenvolver e testar novos agentes diagnósticos e terapêuticos. À medida que o sistema se moderniza, aumenta a articulação entre governo, academia e iniciativa privada. CC: O que falta para maior avanço na pesquisa biomédica? JEK: O conjunto de medidas apontadas acima e o aumento dos recursos são positivos, mas evidenciaram as amarras do sistema. Nas universidades, o financiamento dirigido diretamente ao pesquisador gerou enormes dificuldades. A Fapesp, que desembolsa somas vultosas para financiar pesquisa, já sinalizou às universidades paulistas que elas devem prover maior apoio na gestão de projetos para que o foco do pesquisador seja a pesquisa, e não processos de compras e prestação de contas. CC: A velocidade de aquisição e atualização da infraestrutura de pesquisa no Brasil é adequada? JEK: Somos reféns de uma estrutura de importação/exportação de bens e serviços não concebida para atender às necessidades de pesquisa. A competitividade não depende apenas de se chegar a um certo ponto, mas de quão rápido se chega lá. Compatibilizar a função de vários órgãos ligados a diferentes ministérios e as demandas da pesquisa é fundamental. CC: Isso é possível? JEK: Sim. Experiências recentes com participação de representantes do Ministério da Saúde, da academia, da Anvisa e da Receita Federal mostram que é possível simplificar os processos sem comprometer o papel dos diferentes órgãos. CC: Como a pesquisa médica é vista no Brasil, em relação aos países desenvolvidos? JEK: A pesquisa clínica, indispensável para o desenvolvimento de novas intervenções diagnósticas e terapêuticas, não é percebida como de interesse público, prejudicando a competitividade do país. A criação de marcos legais e instrumentos para que o Estado exerça o seu papel regulador é fundamental. CC: Como está a nossa legislação? JEK: A lei que orienta a pesquisa animal, Lei Arouca, foi recentemente aprovada, criando o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal. Mas a pesquisa clínica ainda aguarda regulamentação da lei que orienta suas atividades. A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) ocupa-se, principalmente, com os aspectos éticos das pesquisas que envolvem humanos. A regulamentação da lei ligando a Conep diretamente ao Ministério da Saúde permitiria ampliar as atribuições da entidade para observar, além dos aspectos éticos, os aspectos científicos importantes para o desenvolvimento das atividades, contribuindo para aumentar a competitividade do país nesse setor. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Riad Younes, da Carta Capital
celulastronco Entrevista

“Células-tronco podem elevar muito a expectativa de vida”

Poucas horas após receber um importante prêmio da Sociedade Americana de Hematologia, no início de dezembro, em San Diego, Estados Unidos, George Q. Daley aceita receber a reportagem de CartaCapital no Centro de Convenções local. Com um jeito tímido, um dos mais respeitados especialistas em células-tronco do mundo, inicia a conversa com o repórter: “Eu trabalhei com uma médica brasileira muito competente. Os brasileiros têm ótimos pesquisadores”, diz. Internacionalmente reconhecido por estudos sobre leucemia mielóide crônica e descobertas que mudaram o paradigma dos tratamentos com células-tronco, Daley dirige o programa de transplantes de células-tronco do Hospital Infantil de Boston e leciona na prestigiada Faculdade de Medicina de Harvard. O médico e pesquisador destacou que apesar da grande expectativa do mundo científico, os tratamentos com células-tronco apresentam resultados concretos apenas contra doenças sanguíneas. “Esses procedimentos possibilitaram a cura de condições antes fatais, como alguns tipos de leucemia e linfomas. Mas isso não significa que sejam seguros.” Segundo Daley, além das doenças sanguíneas, os tratamentos com essa técnica são altamente experimentais e devem levar décadas para chegar ao mercado. O especialista destaca, porém, que as terapias gênicas, nas quais mutações são realizadas nas células dos pacientes para curar doenças ou recuperar tecidos, podem ser o futuro da medicina. “Podemos levar todo o próximo século para dominar essas técnicas, que trarão escolhas difíceis em seu uso, pois podem estender consideravelmente a expectativa de vida dos pacientes.” Na entrevista, Daley ainda comenta a ética envolvida na utilização em testes de células embrionárias, consideradas seres vivos pela Igreja Católica, e aborda uma forma revolucionária de criar células-tronco a partir da pele. Veja a íntegra abaixo. CartaCapital - Um tratamento com células-tronco pode ser considerado seguro? George Q. Daley - As células-tronco vêm sendo usadas em tratamentos de doenças sanguíneas há cerca de 50 anos. Inclusive, evoluiu para o tratamento padrão de condições antes fatais, como alguns tipos de leucemia e linfomas. Há um pequeno número de doenças genéticas no sangue que podem ser tratadas com transplantes de medula, mas por ser tratamento padrão não quer dizer que é seguro. É um procedimento muito tóxico e usado em situações nas quais as doenças subjacentes são terríveis, fatais ou debilitantes. Fora do sangue, há relativamente poucos tratamentos baseados em células-tronco. Temos alguns relativos à pele e desordens na córnea, mas todos ainda recentes. Há diversos testes clínicos ativos, mas é muito importante deixar claro aos potenciais pacientes que estes testes são altamente experimentais. As pessoas não devem aderir a esses tratamentos achando que eles vão funcionar. Há evidências bem fracas, exceto nos casos sanguíneos, de que o tratamento com células-tronco possa funcionar. CartaCapital - Além do sangue, mesmo com o cenário descrito acima pelo senhor, há algum teste promissor para o tratamento de doenças graves? GQD - No sangue estamos muito confortáveis, pois entendemos os mecanismos, a biologia, a extensão dos pacientes que podem ou não ser tratados. Sobre qualquer outro tipo de doença, no momento, é pura especulação. Há muita agitação, modelos animais sendo tratados, mas não significa que estamos prontos para levar isso aos pacientes. Se pensarmos em condições, como a doença de Parkinson, há razoáveis modelos animais que refletem similaridades com a doença humana, e têm havido abordagens baseadas em células-tronco para tratar esses animais. Precisamos, porém, de mais avanços técnicos e maior compreensão da segurança para fazer terapias reais. E este é um caminho longo e demorado. CartaCapital - Entre os testes com mutação genética mais comentado,s está a reprogramação de células somáticas. Como essa técnica funciona? GQD - A reprogramação de células somáticas ainda é um pouco de jogo de sorte, temos pouca noção de como funciona. Começamos inserindo quatro genes, os fatores de transcrição, em células especializadas da pele, por exemplo. Estes genes são proteínas que se ligam ao DNA e podem ligar ou desligar certos genes na célula. Quando adicionamos esses fatores de reprogramação a uma célula da pele, eles encontram todos os genes normais e os desligam. Depois, localizam todos os genes embrionários e os ligam. Então, a célula inteira essencialmente se reorienta e muta para uma célula-tronco, virtualmente indistinguível de uma célula-tronco embrionária. Demos apenas o primeiro passo no caminho do entendimento, mas para mais avanços ainda será necessário considerável esforço da ciência. CartaCapital - Essas células já fazem parte de algum teste clínico? GQD - Ainda não. Os mais recentes testes clínicos aprovados nos Estados Unidos usam células-tronco embrionárias. Há um estudo em lesão da medula espinhal, no qual foram utilizados os produtos de células embrionárias humanas, além de testes com o mesmo tipo de células em pequenos grupos para tratar pacientes com problemas na retina. Esperamos que no futuro haja uma técnica capaz de usar as próprias células do paciente e aproveitar as vantagens da compatibilidade e da ausência de rejeição no organismo. CartaCapital - Como a reprogramação de células somáticas poderia ser usada para curar doenças? GQD - Somos uma população em envelhecimento e quando ficamos velhos, nossos tecidos falham. O coração, pele, fígado e cérebro falham e os remédios não tratam isso. O que estamos imaginando na verdade é que, se há doenças especificamente ligadas à perda de um certo tecido, seria possível tratar a doença substituindo o tecido danificado. O exemplo frequentemente mencionado é a doença de Parkinson, que de maneira simplista é a perda de um produtor específico de dopamina responsável pela produção de neorônios. Sabemos, por meio de testes em animais e alguns poucos em humanos, que ao susbtituir células produtoras de dopamina, é possível haver uma melhora na condição do paciente. Um outro caso semelhante é a diabetes, especialmente a juvenil, que é autoimune pela destruição de células do pâncreas. Quando essas crianças vão ao hospital já não possuem mais células do órgão, então não vão se regenerar sozinhas. Sabemos, porém, que podemos transplantar as células produtoras de insulina. Também é possível realizar um transplante de pâncreas, mas isso não suprirá todas as necessidades. Então, uma das grandes expectativas com as células-tronco embrionárias é a capacidade de se transformarem em um suprimento infinito de produção de insulina. Além disso, há uma gama de doenças nas quais esperamos substituir células danificadas como terapia. Funciona em ratos, mas não foi testado em humanos. CartaCapital - O senhor acredita que esse é o futuro da medicina? Vamos abandonar os medicamentos e usar apenas terapias gênicas? GQD - Creio que jamais vamos abandonar os medicamentos, mas levamos uma grande parte do Século 20 para realmente entendermos como fazer remédios a partir de químicos. Essa revolução quase dobrou a nossa expectativa de vida, mas conforme enfrentamos novos desafios de debilidade e perdas de tecido, creio que vamos ter terapias celulares. Podemos levar todo o próximo século para atingi-las e também devem surgir diversos tópicos problemáticos. Esses tratamentos podem levar a considerável extensão da vida e podem envolver escolhas difíceis de como vamos empregá-los. Contudo, no enfoque do tratamento de doenças pediátricas, no qual precisamos ajudar crianças a preservar suas funções e terem uma vida longa, creio que seja uma alternativa valiosa. CartaCapital - Quanto tempo separa a teoria da aplicação na vida real? GQD - Se olharmos para algumas das mais importantes descobertas em biotecnologia dos últimos 50 anos, veremos, entre outras, a recombinação do DNA e os anticorpos monoclonais. Agora pensamos em células-tronco, mas em cada caso de descobertas passadas houve testes clínicos prévios bem-sucedidos. As tecnologias, no entanto, se espalharam 20 anos depois. A fase clínica pode levar dez anos, mas os benefícios aos pacientes costumam aparecer 20 ou 25 anos mais a frente. Os anticorpos monoclonais, por exemplo, entraram em cena em 1975. Foi, porém, entre 1995 e 2000 que tiveram impacto em massa nos pacientes. Creio que o mesmo deve acontecer com as terapias baseadas em células-tronco. Em 30 anos, veremos o real impacto delas. CartaCapital - No Brasil, um país majoritariamente católico, a igreja vê as células embrionárias como seres vivos. Como o senhor enxerga esse tipo de conflito? GQD - Nos Estados Unidos, há muitas contradições sobre o uso de embriões em pesquisas. E células-tronco embrionárias vêm de embriões. A descoberta da reprogramação de células somáticas, que nos permite transformar virtualmente uma célula da pele em uma célula embrionária, calou parte deste debate. Porque agora temos um equivalente a uma célula pluripotente, uma célula que pode virar qualquer tecido. Mas, como cientista, isto não é uma resposta para todas as necessidades de experimentação. Células embrionárias ainda são o padrão de ouro das células pluripotentes. Ainda estamos aprendendo sobre esses novos tipos celulares reprogramáveis, que podem um dia se provar mais versáteis e valiosos. Contudo, ainda vamos precisar de células embrionárias para responder certas perguntas, mas a verdade é que crianças e pacientes vivos são diferentes de células cultivadas em um prato de petri. Cientificamente, o que acontece nos primeiros dias é apenas divisão celular. Não é vida. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Gabriel Bonis, da Carta Capital

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