Como produzir arroz com baixo consumo de água

Sociedade

Como produzir arroz com baixo consumo de água


por José Tadeu Arantes*


[caption id="attachment_86253" align="alignleft" width="320" caption="Irrigação por aspersão, associada à chuva, eleva a produtividade dos cultivares de sequeiro a níveis semelhantes aos dos plantios alagados, indica pesquisa realizada na Unesp de Botucatu. Foto: Divulgação/ Internet"][/caption] Agência Fapesp – Uma pesquisa brasileira sobre o cultivo de arroz em condições não alagadas, com o fornecimento de água pelas chuvas e complementado por sistema de irrigação por aspersão nos períodos secos, vem despertando forte interesse internacional. O estudo, coordenado por Carlos Alexandre Costa Crusciol, professor titular da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, e realizado com apoio da Fapesp foi publicado recentemente pelo periódico Agronomy Journal, com expressiva repercussão, principalmente na Ásia. O motivo é fácil de entender: o cultivo de arroz pelo sistema tradicional de irrigação por inundação (no qual os cultivares recebem uma lâmina de água de cerca de 7 a 10 centímetros por até 120 dias) consome de 24% a 30% de toda a água doce disponível no mundo. E a água doce tornou-se um dos recursos mais preciosos do planeta, disputado não apenas pelos diferentes países, mas também no interior de cada país, entre o campo e as cidades, entre as atividades produtivas e o consumo individual, entre a agropecuária e a indústria. “Nossa pesquisa mostrou que é possível alcançar um nível de produtividade elevado, com grande economia de água”, disse Crusciol à Agência Fapesp. O cultivo de arroz em condições aeróbicas do solo, isto é, em chão firme (os termos técnicos para esse tipo de cultura são “arroz de sequeiro” ou “arroz de terras altas”), não constitui novidade no Brasil. Isso tem sido feito há muito tempo, principalmente na região do Cerrado. O fato novo, resultante da pesquisa, foi alcançar um alto patamar de produtividade graças à complementação hídrica mediante a irrigação por aspersão. “Sem a complementação hídrica, a média de produtividade é aproximadamente 2.700 quilos por hectare, enquanto que no cultivo inundado é possível chegar em média a 7.000 kg/ha. Com a complementação hídrica à cultura, temos obtido produtividades de até 6.000 kg/ha, gastando muito menos água”, afirmou o pesquisador. Para ter ideia do impacto que essa inovação tecnológica pode vir a ter na produção agrícola, basta considerar que, atualmente, 65% dos arrozais brasileiros utilizam o sistema de sequeiro ou terras altas. Mas, dependendo unicamente das chuvas para a hidratação, respondem por apenas 35% do arroz produzido. “A explicação para essa baixa produtividade é que o arroz, domesticado em ambientes inundados, apresenta baixa tolerância à falta d’água, principalmente no período de pré-floração e de floração. Se ocorre um veranico (isto é, uma sucessão de dias quentes e secos) nessa fase crítica, o resultado para a safra é desastroso. Mas complementando o fornecimento de água proveniente das chuvas com a irrigação por aspersão é possível descartar o risco decorrente da instabilidade climática e praticamente dobrar a produtividade média”, resumiu Crusciol. No experimento conduzido por ele, a irrigação por aspersão respondeu por apenas 8,7% da água fornecida aos cultivares durante o primeiro ano, sendo o restante originário das chuvas. E o aumento de produtividade foi de 54,4%. No ano seguinte, a irrigação por aspersão forneceu 14,5% da água, obtendo-se um incremento de 48,1%. “Como se percebe imediatamente pelos números, a técnica proporciona aumento expressivo de produtividade, chegando a níveis compatíveis com os do sistema de irrigação por inundação (arroz nos ambientes alagados), porém esse aumento não é proporcional à quantidade de água fornecida por irrigação”, comentou o pesquisador. Além da irrigação complementar, um fator adicional que contribuiu para o êxito do experimento foi a alta qualidade do arroz brasileiro, resultante de várias décadas de melhoramento por seleção genética – inicialmente promovida pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e, depois, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “Temos um dos melhores materiais do planeta, cultivares que já possuem boa tolerância a curtos períodos de estresse hídrico (deficiência de água)”, informou Crusciol. “Por muitos anos, a rizicultura foi a primeira prática nas áreas de expansão agrícola, abrindo caminho para outras atividades produtivas.” É claro que a irrigação por aspersão implica custos com a aquisição dos equipamentos (pivô central, aspersores etc.) e com o consumo de energia elétrica (para o bombeamento da água). E o arroz é um produto muito barato, cujo preço, por impactar fortemente a cesta básica, merece atenção especial do governo, que o controla mediante mecanismos reguladores. Esse binômio – custo mais alto para produzir e preço baixo do produto final – tende a intimidar os agricultores. A solução, segundo Crusciol, é alternar a rizicultura com outros cultivos agrícolas, como grãos (feijão, soja, milho doce), fibras (algodão) ou hortaliças (batata, tomate, pimentão etc.), com maior valor agregado, otimizando o uso dos equipamentos e obtendo vantagens adicionais com a rotatividade das culturas, que interrompe o ciclo de pragas e doenças que afetam essas outras culturas, principalmente no período chuvoso (no qual o arroz é cultivado). O arroz de sequeiro ou arroz de terras altas, com o fornecimento de água exclusivamente por meio das chuvas, vem sendo extensamente cultivado por pequenos agricultores nas regiões mais pobres do mundo – na Ásia, na África e na América Latina. O grande crescimento dessa alternativa, comparativamente à do plantio inundado, muito mais produtivo, não é uma escolha livre dos agricultores, motivada por considerações ecológicas relativas ao bom uso da água, mas uma imposição até certo ponto brutal do próprio desenvolvimento econômico dessas áreas. Na China e na Índia, respectivamente o primeiro e o segundo colocado no ranking dos principais países produtores, a rizicultura tem sido empurrada para ambientes aerados (chão seco), devido à intensa disputa pelos recursos hídricos, cada vez mais absorvidos pelo acelerado crescimento urbano e industrial. Nesse contexto, a inovação tecnológica constituída pela irrigação por aspersão dos cultivares de sequeiro poderá ter importante repercussão não apenas econômica, mas também social. Não espanta que os especialistas chineses tenham ficado tão interessados na pesquisa brasileira. Deve-se ressaltar que a divulgação de resultados referentes a essa linha de pesquisa vinha sendo feita desde o início dos anos 2000. Porém, veiculada em revistas brasileiras, escritas em português, era praticamente desconhecida fora do país. A publicação no Agronomy Journal a inseriu no âmbito internacional. * Publicado originalmente no site Agência Fapesp.  

Ricardo Voltolini Sociedade

Da visão de risco para a de oportunidade

[caption id="attachment_86239" align="alignleft" width="200" caption="Ricardo Voltolini"][/caption] Ao receber a incumbência de escrever este artigo, assomou, viva e clara, a imagem de uma das minhas primeiras intervenções como consultor de sustentabilidade. Já se vão 12 anos. À época, o termo utilizado para designar a atividade era responsabilidade social. E os líderes de empresas não faziam nenhuma questão de esconder que achavam o tema um assunto menor e sem qualquer conexão com os negócios. Um deles, presidente de uma corporação multinacional, interrompeu uma palestra que eu ministrava para a alta diretoria e me propôs, um tanto irritado, o que ele definiu como um desafio: “Convença-me de que isso faz bem para o meu negócio ou não temos por que seguir a conversa!” No início dos anos 2000, ainda se gastava muita energia para explicar os “porquês”. Líderes precisavam ser convencidos. Hoje, vive-se a era dos “comos”. A maioria das empresas realmente sérias já compreende – embora nem sempre consiga medir precisamente – boa parte dos ganhos decorrentes da sustentabilidade. O que mudou em pouco mais de uma década? Cresceu a consciência de que o quadro de esgotamento de recursos naturais e de aquecimento global afeta a perenidade dos negócios. Mas mudou também, ainda que de modo não uniforme, a noção que tratava sustentabilidade como um pedágio contra riscos – em seu lugar emergiu uma outra, baseada na ideia de que, bem cuidado, o conceito representa um vetor de oportunidades. Pesquisa divulgada em fevereiro último pelo Boston Consulting Group, junto com a MIT Sloan Management Review, confirma essa nova mentalidade. Cerca de 40% dos 2,6 mil executivos entrevistados admitem que a sustentabilidade melhora a reputação da marca e 29% que ela infuencia a inovação de produtos. Ainda segundo o estudo, denominado The Innovation Bottom Line, para 26% dos gestores o conceito favorece a percepção de boa gestão; para 22% reduz custos de energia; e também para 22% aumenta a competitividade. Informação relevante para o que pretende discutir este artigo: metade das empresas mudou o seu modelo de negócios em resposta a oportunidades socioambientais, 20% a mais do que na edição do mesmo estudo em 2012. São cada vez mais claras, portanto, as evidências de que sustentabilidade gera dividendos econômico-financeiros. Um dos primeiros autores a tratar dos ganhos da sustentabilidade foi Bob Willard, no livro The Sustainability Advantage (New Society Publishers, 2002) Socorri-me dele, algumas vezes, para persuadir os resistentes. Em entrevista à Ideia Sustentável, em 2008, Willard deu números à tal “vantagem.” Em sua opinião, uma grande empresa que investe em sustentabilidade pode obter 33% de ganhos financeiros no curto e médio prazos a partir do aumento da produtividade, das facilidades de financiamento, das receitas e do valor de mercado, da atração e retenção de talentos e da redução de custos de produção, de despesas em sites comerciais e de riscos. Para pequenas e médias empresas, os ganhos chegam a até 68%. Pode-se contestar um ou outro ponto, conforme o enfoque da análise, mas até os mais céticos tendem a concordar com as conclusões de Willard. Afinal, os relatórios de sustentabilidade estão aí para ratificar o que há muito já se sabe. Itens como redução do uso de energia, insumos e materiais apresentam resultados tangíveis para o caixa. E embora não se disponha de estudos conclusivos sobre reputação, atração e retenção de talentos, profissionais de Comunicação e Recursos Humanos não têm dúvidas de que empresas preocupadas com sustentabilidade são melhor vistas pela sociedade, pelos jovens profissionais e pelos colaboradores, entre outras razões porque são percebidas como mais conectivas, sólidas e prósperas. Claro é que a mudança na direção de um modelo mais sustentável implica, para alguns segmentos, custos iniciais com equipamentos e novas tecnologias. Serão mais competitivas, no entanto, as empresas que tratarem esses custos como investimento em inovação e não despesas operacionais. * Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Sustentável e diretor da consultoria Ideia Sustentável. ** Publicado originalmente no site Ideia Sustentável.


por Ricardo Voltolini*
economia Sociedade

A crise mundial é tão política quanto econômica, diz Lula

[caption id="attachment_86174" align="alignleft" width="300" caption="O ex-presidente Lula acompanha as palestras do Fórum de Economia promovido por CartaCapital. Foto: Marcos Mendez"][/caption] Em entrevista a CartaCapital, o ex-presidente diz que a Europa está carente de lideranças e tem terceirizado as decisões. "Isso é grave". O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira 7, em São Paulo, que a crise econômica mundial poderia ter sido evitada por decisões políticas. “A crise é grande e tem um componente político tão forte quanto econômico. O problema agora é que a Europa está carente de liderança política e tem terceirizado as decisões, o que é muito grave”, afirmou Lula ao deixar o Fórum de Economia organizado por CartaCapital. Para o ex-presidente, o Brasil continua em boa posição em relação a outros países para enfrentar as adversidades da crise. “Os americanos estão se recuperando lentamente, a China não caiu como alguns imaginavam que ia cair. O Brasil é um dos países mais bem colocados hoje." E completou: “Eu digo sempre que mesmo se a gente for totalmente incapaz e fazer as coisas erradas, ainda assim o Brasil vai dar certo, porque o potencial aqui é muito grande.” Lula assistiu às apresentações do Fórum no período da manhã e elogiou o debate entre o economista Dani Rodrik, titular de Política Econômica Internacional da Universidade Harvard (EUA), e os colunista da CartaCapital Luiz Gonzaga Belluzzo e Antonio Delfim Netto. “Esse debate vai esclarecer muito mais gente.” * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Samantha Maia, da Carta Capital
Deforested Area in the Amazon Sociedade

Montanha russa do desmatamento

[caption id="attachment_86223" align="aligncenter" width="500" caption="Nos meses de março e abril de 2013, Mato Grosso liderou a lista do desmatamento na Amazônia, enquanto o Pará estava coberto por nuvens. Foto: Karla Gachet / Panos / Greenpeace"][/caption]   Na coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira para apresentar os dados do desmatamento na Amazônia para março e abril, o governo voltou a se dizer confiante de que o Brasil vai zerar a tendência de aumento da destruição florestal até julho deste ano. No entanto, no acumulado de agosto de 2012 a abril de 2013, o que vemos é um aumento de 15% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Os índices do DETER, o sistema de detecção que indica a tendência do desmatamento no país, mostraram que as áreas de alerta de desmatamento e degradação somaram mais 175 quilômetros quadrados – área equivalente a 25 mil campos de futebol de floresta – somente nos últimos dois meses. Da área total apresentada para os últimos dois meses, 147,07 quilômetros quadrados foram detectados apenas no mês de abril, sendo a sua maioria (62,53 quilômetros quadrados) no Mato Grosso, Estado que lidera a lista dos maiores desmatadores. Logo atrás vem Rondônia, com 48,41 quilômetros quadrados. Entre novembro e abril, época de chuvas na Amazônia, a observação por satélites se torna mais difícil devido à intensidade de nuvens. Por isso, os alertas podem ficar menos visíveis. O Pará foi um exemplo disso. Considerado um dos que mais desmatam, o Estado não pôde ser analisado, pois apresentou 88% de cobertura de nuvens. De fato, esse número já foi mais expressivo em períodos anteriores, mesmo assim, continua demonstrando uma tendência de aumento. A pergunta é: por que será que voltou a crescer, depois da medição do menor índice histórico, no último mês de dezembro? A resposta está aparente aos olhos de quem quiser ver: o conjunto de ações que o governo federal tem bancado mostra de forma clara o modelo de desenvolvimento escolhido para o país, que ainda aceita o desmatamento. “O governo tem colecionado uma série de atitudes que passam o recado, para quem desmata a floresta, de que essa é uma prática aceitável”, afirmou Kenzo Jucá, da Campanha Amazônia do Greenpeace. Para ele, a posição que o governo federal tem tomado quanto à maior riqueza do país não deve ser aceita pela sociedade brasileira, verdadeira herdeira desse patrimônio florestal. “Temos um pacote contra as florestas que pode nos fazer perder a guerra contra o desmatamento: a aprovação do novo Código Florestal deixou de punir os criminosos ambientais, os poderes do Ibama foram enfraquecidos (por meio da Lei Complementar 140), Unidades de Conservação tiveram seus limites reduzidos e, não bastasse tudo isso, as Terras Indígenas estão sob forte ameaça da bancada ruralista no Congresso. E o governo assiste a isso tudo sem se pronunciar, sem frear todos esses retrocessos. Não podemos compactuar com isso.” De acordo com o Ibama, foram embargados 213 mil hectares de áreas desmatadas ilegalmente e arrecadados R$ 1,6 bilhão em multas de agosto de 2012 a abril de 2013. “Com esse valor, o governo já poderia ter investido em tecnologia para otimizar a produção em áreas já abertas. Não precisamos mais desmatar para produzir alimento. Se o governo não faz o que esperamos dele, então a sociedade precisa agir. A hora de zerar o desmatamento é agora”, frisou Kenzo Jucá. * Publicado originalmente no site Greenpeace. 


por Nathália Clark, do Greenpeace
aprendiz Sociedade

A diminuição da maioridade penal e a Lei do Aprendiz

A lei insere os jovens no mercado de trabalho, tirando-os da rua e da criminalidade, auxilia na vida financeira deles e beneficia sua escolaridade. Os recentes casos de violência praticados por jovens causaram legítima indignação da população e recrudesceram as pressões pela diminuição da maioridade penal para 16 anos. É pelo fato de serem “de menor” que muitos jovens são cooptados por criminosos, livram-se da responsabilidade jurídica pelos atos praticados e continuam na vida do crime. Será que reduzir a maioridade penal atrairia esses jovens para outro tipo de vida? Ou o crime arrebanharia adolescentes e crianças que estivessem fora do limite estabelecido? Na verdade, em minha opinião, as instituições e a sociedade civil – nós, para ser direto – estamos travando uma queda de braço com as organizações criminosas e estamos perdendo a batalha. Reverter essa tendência é não só dever de toda a sociedade, mas a tarefa prioritária de todos os governos. O crime oferece a esse jovem o primeiro emprego, o primeiro salário, a sensação de pertencimento, a noção de valores (ainda que errados) e a esperança que a escola, a família, a empresa e a sociedade em geral já não conseguem dar. Se não, vejamos: após 23 anos de aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), tramitam no Congresso Nacional aproximadamente 30 propostas de lei e emendas constitucionais sugerindo a redução da maioridade penal. Os projetos de lei retornam com forte apelo social para discussão no Parlamento especialmente quando algum ato infracional cometido por adolescente ganha repercussão nacional, destacado, sobretudo, pela grande mídia. Muita gente pensa que a violência no Brasil é fruto de impunidade, ou seja, de ter poucos criminosos cumprindo pena por seus atos ilícitos. Mas isso não é verdade. Segundo avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil é um dos três países em todo o mundo com maior aumento da população carcerária nos últimos vinte anos. É por isso que as delegacias e presídios estão superlotados, funcionando mais como “depósito” de pessoas do que como as instituições de reinserção na sociedade que deveriam ser. Segundo dados divulgados no final do ano passado pelo Ministério da Justiça, o número total de presos em penitenciárias e delegacias brasileiras subiu de 514.582, em dezembro de 2011, para 549.577, em julho 2012. Ressalte-se que a maioria dos que ali se encontram são jovens entre 16 e 29 anos. Se o aumento do número de jovens encarcerados no nosso país reduzisse os índices de violência, o Brasil deveria figurar como um dos países menos violentos do mundo. No entanto, não é o que se vê. Segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o Brasil tem hoje cerca de 20 mil adolescentes recolhidos em unidades de internação e delegacias especializadas. Tantos aprisionamentos não têm evitado a reincidência nem tornado os encarcerados pessoas melhores, tendo em vista as condições indignas e desumanas de sobrevivência nas unidades prisionais. As prisões lotadas tampouco diminuíram a violência. Entre 1980 e 2010, observou-se um aumento de 346% do número de mortes de crianças e adolescentes no país, segundo o Mapa da Violência 2012. Alguém já parou para medir o impacto desses números sobre o futuro do país? Temos mais centenas de milhares de potenciais profissionais de grande capacitação perdidos entre o trabalho infantil e a criminalidade. É preciso comprovar aos jovens que, embora o trabalho legal ofereça uma remuneração bem menor do que no tráfico, por exemplo, ele é muito mais seguro. Estamos precisando de políticas inovadoras em geração de renda e trabalho, segurança, saúde, educação e cultura para tornar o mundo “dentro da lei” mais atrativo para os jovens do que o crime. A inovação também se aplica àqueles que já cometeram infrações e aos adultos. A realidade pode ser outra. Podemos mudar se conseguirmos que esses jovens não entrem para o crime. Estou me referindo à Lei do Aprendiz, por meio da qual as empresas podem dar sua decisiva contribuição para mudar o cenário. Contribuição das empresas A Lei do Aprendiz foi criada há 12 anos para facilitar a entrada de jovens no mercado de trabalho e consiste em exigir que médias e grandes empresas preencham pelo menos 5% do seu quadro de funcionários com jovens aprendizes com idade entre 14 e 24 anos para ocupar vagas que não exigem formação técnica ou superior. Para concorrer a elas, esses jovens devem estar cursando ou já terem concluído o ensino médio. O aprendiz tem direito a registro em carteira de trabalho, 13º salário, fundo de garantia, INSS, vale-transporte, férias e jornada de trabalho de 6 horas. Mas essa lei ainda apresenta resultados abaixo do esperado. No ano passado, foi beneficiada menos da metade do total de aprendizes esperado pelo Ministério do Trabalho. A expectativa era de que 800 mil jovens fossem beneficiados pela lei, mas, na prática, eles somaram menos de 300 mil. Pela mudança na Lei do Aprendiz introduzida em novembro de 2012, o jovem deve cumprir 80 horas sequenciais de estudo nas entidades qualificadoras antes de iniciar suas atividades na empresa. Já vimos que a lei traz benefícios para a educação desses jovens e os insere no mercado de trabalho, tirando-os da rua e da criminalidade. Além disso, auxilia na vida financeira deles e traz benefícios até para a escolaridade, já que é exigido que frequentem ou que já tenham concluído o ensino médio. A Lei do Aprendiz abre caminho para a capacitação e um futuro melhor para mais de 2 milhões de jovens brasileiros. Se forem contratados como aprendizes, eles serão, sem dúvida, os profissionais que vão garantir a competitividade dos negócios e das empresas. Então porque não atentar em cumprir a lei? A equação é simples. A aplicação da lei, também. É preciso conscientizar-se de que investir nesses jovens é garantir a continuidade da empresa, pois deles sairão líderes e talentos de que qualquer negócio precisa para prosperar. * Sérgio Mindlin é presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos. ** Publicado originalmente no site Instituto Ethos.


por Sérgio Mindlin*
Parte da ilustração do sinal de Maria Bonita, esposa do ícone nordestino Lampião. Fotos: Marcos Santos USP/Imagens Sociedade

Estudo inédito registra sinais de Libras típicos do Nordeste

[caption id="attachment_86214" align="alignleft" width="230" caption="Parte da ilustração do sinal de Maria Bonita, esposa do ícone nordestino Lampião. Fotos: Marcos Santos USP/Imagens"][/caption] A língua de sinais praticada no Nordeste brasileiro, assim como na língua falada, tem particularidades e expressões regionais que agora estão devidamente catalogadas. Em pesquisa inédita realizada no Instituto de Psicologia (IP) da USP, a especialista em Libras Janice Temoteo percorreu os nove estados nordestinos e documentou mais de 4.200 sinais originais. “Trata-se da região com o maior índice de surdos proporcional à população do Brasil”, conta a pesquisadora. O estudo também traz uma inovação metodológica, com a produção de vídeos que facilitaram a catalogação dos novos sinais. A tese Lexicografia da língua de sinais brasileira do nordeste, além de representar uma grande contribuição na divulgação dos sinais em âmbito nacional, possui um grande potencial de integração a partir de elementos próprios da cultura regional nordestina. O estudo foi desenvolvido no Laboratório de Neurolinguística Cognitiva Experimental (Lance), do IP, sob orientação do professor Fernando Capovilla. A pesquisa seguiu o padrão de registro dos sinais do “Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira” (Deit-Libras), cuja autoria é do próprio Capovilla e da professora Walkiria Duarte Raphael, também do IP. A obra teve sua primeira versão lançada em 2001, e em 2009 ganhou uma extensão com maior número de sinais, chamando-se “Novo Deit-Libras”. Como um dicionário de língua oral, as obras Deit-Libras contém verbetes de “A a Z”, com o significado de cada expressão, além de apresentarem explicações e ilustrações de como cada um dos sinais deve ser realizado. Não se trata, portanto, apenas de um manual, mas uma obra de referência para todos aqueles que se comunicam em Libras. Verbetes Nordestinos O projeto original do Dicionário foi desenvolvido a partir do contato com os próprios surdos. Consultados pelos professores, eles indicavam quais eram os sinais para cada uma das palavras ou expressões. Por uma questão de logística, a primeira versão da obra, desenvolvida no Lance, valeu-se apenas da colaboração de surdos da região de São Paulo, mais acessíveis aos pesquisadores da USP. “Como cearense, nordestina, apesar de admirar muito a qualidade do Deit-Libras, senti falta da representação do Nordeste no livro”, explica Janice. A especialista procurou então, com orientação do professor Capovilla, documentar e criar verbetes próprios do Nordeste brasileiro, como “Farol da Barra” (na Bahia) e “Baião de Dois”, entre outros. Para tanto, contou com a cooperação de 32 surdos espalhados em 15 cidades dos nove estados da região. Ao todo foram captados mais de 10 mil sinais do Nordeste, mas apenas 4.287 sinais foram registrados como exclusivos da região. Todo o trabalho foi divido segundo 25 categorias semânticas determinadas por Janice, como “Culinária”, “Cultura Nordestina”, ou “Religião”. A partir destas categorias eram reunidos surdos mais familiarizados com certos universos, de maneira a extrair fielmente, da própria experiência de cada um deles, os sinais de cada uma das expressões regionais. [caption id="attachment_86215" align="aligncenter" width="505" caption="Registros facilitam divulgação nacional da cultura e ambiente cotidiano próprio dos surdos nordestinos, como o Instituto Cearense de Educação para Surdos (ICES)"][/caption]   Inovação Metodológica A cada encontro com os surdos que participaram do estudo como representantes de seu estado, Janice filmava as listas de palavras para a coleta dos sinais. Divididas em categorias pré-determinadas, as gravações geraram 39 DVDs. “Além de representarem um importante documento da construção da obra, os vídeos garantiram maior exatidão a catalogação dos sinais”, conta a especialista. Isso porque, depois de prontos, todos os DVDs gravados eram submetidos a uma espécie de comissão, formada por “juízes” surdos, que confirmavam ou não a correspondência entre os sinais e os seus significados, e se era mesmo de uso comum entre os surdos da região. Para que um sinal fosse registrado, deveria passar primeiro pelo crivo da comunidade surda local. Integração O trabalho de “Lexicografia” (estudo e produção de dicionários) dos sinais de Libras próprios do Nordeste conduzido por Janice tem ainda uma importância pontual. Estatísticas do IBGE apontam que a região é, proporcionalmente, líder na incidência de casos perda auditiva no Brasil, com números em torno de 6% da população total, acima da média nacional. A especialista ressalta ainda outra importante contribuição da pesquisa, a possibilidade de integração. “Os verbetes contêm informações sobre coisas muito específicas de cada um dos estados participantes, como pontos turísticos e culinária regional”, explica Janice. E conclui: “Não é só uma questão de criar uma referência, mas também de promover a integração e divulgar a cultura nordestina, o universo dos surdos da região, para todo o País.” * Publicado originalmente no site Agência USP. 


por Igor Truz, da Agência USP
Livro do nikkei Alexandre Kishimoto trata da importância histórica das salas de cinema da Liberdade para a comunidade japonesa e para os cineastas brasileiros, nas décadas de 1950 e 1960. Foto: Divulgação Sociedade

São Paulo, capital do cinema japonês

[caption id="attachment_86246" align="alignleft" width="200" caption="Livro do nikkei Alexandre Kishimoto trata da importância histórica das salas de cinema da Liberdade para a comunidade japonesa e para os cineastas brasileiros, nas décadas de 1950 e 1960. Foto: Divulgação"][/caption] Agência Fapesp – O bairro japonês de São Paulo – Liberdade – tem sua origem estreitamente associada ao cinema japonês e ao surgimento das salas de exibição de filmes na região – que apresentavam produções tão diversas quanto histórias de samurai e da Yakuza (a máfia japonesa), passando por melodramas e obras intimistas, consideradas cults por cinéfilos e cineastas brasileiros. Até meados do século passado, a população imigrante e seus descendentes nikkeis haviam formado o primeiro “bairro japonês” do centro, ao redor da rua Conde de Sarzedas, e distribuíam-se por vários bairros da cidade, como Pinheiros, Campo Limpo, Itaquera e Jabaquara. A ordem para que os japoneses deixassem suas casas, durante a Segunda Guerra Mundial, no entanto, dispersou a população desse primeiro bairro oriental. Esses imigrantes foram perseguidos e cerceados durante o conflito mundial, por causa do alinhamento do Japão com a Alemanha e os demais países do Eixo. O livro do antropólogo Alexandre Kishimoto Cinema Japonês na Liberdade conta agora os detalhes dessa história. “A inauguração em julho de 1953 do cine Niterói, na rua Galvão Bueno, uma sala de 1.200 lugares, foi responsável pela formação de todo um comércio japonês na região, que amadureceu com o surgimento, nos anos seguintes, de outras salas, como os cines Tokyo, Nippon e Joia, nas imediações, dando origem ao que hoje conhecemos como Liberdade”, afirmou Kishimoto, pós-graduado pela Universidade de São Paulo (USP). O livro foi lançado em março pela Editora Estação Liberdade, com apoio da Fapesp e da Fundação Japão. Desenvolvido originalmente como tese de mestrado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), a obra do nikkei Kishimoto trata da história dessas salas de cinema na Liberdade, de sua importância para a comunidade japonesa e seus descendentes e para o público de cinema, críticos e cineastas brasileiros, como Walter Hugo Khouri (1929-2003), Carlos Reichenbach (1945-2012), Roberto Santos (1928-1987) e João Batista de Andrade, entre outros. “Eu tinha essa memória de quando era criança, de ser levado por meus pais a algumas dessas sessões nos cinemas da Liberdade, em companhia dos meus avós, isso já na década de 1980”, disse o autor. Ele contou que teve a ideia da tese em 2003, ao participar de um trabalho de organização de videotecas de filmes brasileiros em escolas públicas da zona leste de São Paulo. “Para obter os filmes que rodariam nas videotecas tive de conversar com cineastas como Carlos Reichenbach, diretor de Alma Corsária, e João Batista de Andrade, de O homem que virou suco, e soube que eram assíduos frequentadores daquelas salas na Liberdade, entre 1950 e 1960. Foi aí que percebi como esses cinemas foram importantes não apenas para o público japonês, mas também para os cineastas, críticos e cinéfilos da cidade de São Paulo.” Diversidade garantida A capital paulistana era na época a cidade ocidental que recebia a filmografia japonesa mais diversificada para exibição. O cinema japonês passou a ser conhecido no Ocidente depois da premiação de Rashomon, do cineasta Akira Kurosawa, com o Leão de Ouro, no Festival de Veneza, em 1951, e as metrópoles ocidentais começaram a se interessar pela exibição de filmes japoneses. Mas à maioria das cidades chegavam os filmes de samurai ou de época, além das obras premiadas nos festivais internacionais, conta Kishimoto, no livro. Em São Paulo, a história foi completamente diferente. Por ter uma concentração muito grande de moradores japoneses e seus descendentes, desde os anos 1930 e 1940 eram comuns as sessões de cinema japonês nos bairros onde residiam e em locais do centro da cidade, como os cines Theatro São Paulo, o cine Odeon e o cine São Francisco. Com a abertura do cine Niterói, Tokyo, entre outros, na região da Liberdade e o sucesso das sessões de cinema japonês, os estúdios cinematográficos das companhias japonesas abriram escritórios na cidade. “Por essas características, São Paulo recebia uma produção muito maior, menos filtrada e, portanto, mais diversificada do que as obras enviadas às demais metrópoles ocidentais”, disse Kishimoto, lembrando que não levou muito tempo para que essas empresas japonesas transformassem essas salas de cinema em exibidoras exclusivas de suas produções. Inicialmente frequentadas por japoneses e seus descendentes, elas foram, aos poucos, atraindo cinéfilos, cineastas não nikkeis e críticos, como Paulo Emilio Salles Gomes e Rubens Biáfora, que ao descobrirem tal diversidade passaram a escrever sobre esses filmes nos jornais. Kishimoto afirmou que já existiam estudos sobre o cinema japonês quando definiu sua pesquisa de mestrado, mas eles eram restritos. Focalizavam a importância dessas salas para o público japonês ou tratavam da relação do público não nikkei, de cineastas, críticos e cinéfilos brasileiros com a produção cinematográfica. “O meu desafio foi buscar uma perspectiva que integrasse esses dois públicos e suas experiências.” Em seu livro, Kishimoto contempla desde o trabalho dos projecionistas ambulantes, que no final dos anos 1920 já percorriam as cidades do interior do Estado mais povoadas pela colônia para apresentar as sessões de cinema – num período marcado pela atuação dos pioneiros da exibição Masaichi Saito e Kimiyasu Hirata –, até as salas de cinema da Liberdade, cuja programação repercutiu na produção dos cineastas brasileiros. “Essa influência foi marcante e pode ser observada em obras como A hora e a vez de Augusto Matraga, do Roberto Santos, inspirado em filmes de samurai de Masaki Kobayashi e Keisuke Kinoshita, como Murmúrios do rio Fuefuki .” O papel do cinema japonês em São Paulo na pacificação da própria colônia também é abordado no livro, tendo como pano de fundo o contexto político do pós-guerra e o conflito entre derrotistas e vitoristas, uma vez que parte dos imigrantes não acreditava que o Japão havia perdido a guerra (os vitoristas) e combatiam os que aceitavam a derrota (os derrotistas). “Essa divisão entre os imigrantes japoneses e descendentes no Brasil durou quase dez anos e a hipótese que defendo no livro é a de como essas salas (paralelamente a outros episódios) contribuíram para a pacificação desses dois grupos.” Cinema Japonês na Liberdade Autor: Alexandre Kishimoto Lançamento: março de 2013 Preço: R$ 48,00 Páginas: 304 * Publicado originalmente no site Agência Fapesp.


por Silvia Campolim, da Agência Fapesp
politicamentecorreto Sociedade

“Heteronomia e autonomia são indivisíveis”

É verdade que o peso do “politicamente correto” tende a fazer do homem moderno, que se crê “autoconstruído”, um robô dócil para a publicidade e a opinião comum, constata o filósofo francês Paul Valadier. Cada um, agindo de acordo com a sua própria lei irá conduzir a um universo de mônadas independentes ou mesmo a uma anarquia ‘inconvivível’. Essa é uma tendência muito forte das sociedades modernas: pressionar a todos para que vivam por si, que cuidem apenas de seus interesses próprios sem muito se importar com o seu outro e, mais ainda, com qualquer coisa semelhante ao ‘bem comum’”, pondera Paul. E acrescenta: “a compreensão da autonomia não fará o menor sentido sem estar relacionada a uma heteronomia”. Em seu ponto de vista, ambas são indivisíveis: “a ilusão moderna consiste em crer que nós alcançamos espontaneamente uma autonomia ou que podemos ser ‘maduros’ sem ter passado pelas diversas etapas da vida, ou ainda que a maturidade (intelectual, moral, espiritual) é uma conquista própria e permanente, alienada de um processo constante que a atualiza sem cessar”. O lugar da religião no contexto da autonomia em nosso tempo é difícil de situar, porém Valadier reitera a importância do Cristianismo e suas características de liberdade e esperança. Paul Valadier (foto) é professor emérito de filosofia moral e política nas Faculdades Jesuítas de Paris (Centre Sèvres). É licenciado em Filosofia pela Sorbonne, mestre e doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon. Foi redator da revista Études e é autor de uma vasta bibliografia. Escreveu, entre outros, Nietzsche et la critique du christianisme (Paris: Cerf, 1974); Essais sur la modernité, Nietzsche, l’athée de rigueur (Paris: DDB, 1989); La part des choses. Compromis et intransigeance (Paris: Lethielleux – Groupe DDB, 2010) e Elogio da consciência (São Leopoldo: Unisinos, 2001). Confira a entrevista: IHU On-Line – Qual é a origem do conceito autonomia? Paul Valadier – A origem do conceito de autonomia é difícil de precisar. Tal conceito não teve, sem dúvida, muito sentido para o pensamento grego antigo. Se pudéssemos falar desse pensamento no singular, veríamos que o homem encontra o seu senso inserido dentro de um cosmos ordenado, ou dentro de uma cidade que lhe forneceu as boas maneiras e as regras de sua relação com o mundo (Aristóteles). Ele encontra, portanto, a sua identidade como ser humano “conformado” à natureza e às leis da cidade. Sem dúvida foi a introdução do monoteísmo, com o conceito de um Deus soberano, que deu ao homem a sua liberdade mediante uma lei divina. O Deus da Bíblia, criador e providente, convida a sua criatura, feita à sua imagem, a ser livre e saber gerenciar um universo ordenado e perfeito. Podemos ver isso claramente no primeiro capítulo do Gênesis . O Criador deu ao homem a sua própria liberdade e as palavras (ou “comandos”) sem os quais ele só conheceria o caos e a morte. A lei é, portanto, ordenada para a liberdade: ela não o submete propriamente, mas sim o salva de sua perdição. Ora, a partir da renascença europeia, a autonomia é cada vez mais reivindicada: estamos falando da razão científica e, em particular, no que diz respeito à fé, mas também a autonomia do homem em relação a Deus, o que conduziu às várias formas de ateísmo que se desenvolveram a partir do século XVIII. Era uma razão que acreditava que a autonomia do homem estava ameaçada pela lei de Deus e que por isso ela deveria se emancipar disso. IHU On-Line – O que é autonomia no século XXI? Quais são os maiores desafios para se realizar essa autonomia? Paul Valadier – Hoje, uma total autonomia no sentido de que o homem seria absolutamente soberano de si, independente e seguidor de suas próprias leis, é pouco concebível. Isso se dá a partir de um estranho retorno de certas coisas. As ciências, primeiramente desenvolvidas sobre a ideia da autonomia da razão e de seus campos específicos, atuam paradoxalmente de forma a colocar determinações que, parecem em um primeiro olhar, contrariar a ideia de autonomia e liberdade. E se há poucas pessoas que sustentem um total determinismo que será, em si, contraditório em relação à pesquisa científica a qual supõe tentativas para examinar e “dominar a natureza”, o desafio se encontra na relação teórica e prática entre determinismo e liberdade. Sabemos bem que as ciências, sobretudo as neurociências ou a biologia, que tanto aumentam as esperanças no tratamento de doenças e enfermidades diversas, provocam, por outro lado, grandes interrogações: por acaso elas não estabeleceriam uma total dependência dos homens em relação ao maquinário empregado (p. ex. os computadores) ou aos especialistas que os projetam?Não estaríamos nos arriscando em ir rumo a uma humanidade vivendo em ritmos diferenciados, com uma minoria dotada de grandes poderes e uma multidão controlada em maior ou menor grau? Isso é o que prevê, com uma serenidade aparente e um realismo assustador, um filósofo como Peter Sloterdijk em Regras para um Parque Humano (1999). IHU On-Line – Quais são as relações entre autonomia e relativismo? Paul Valadier – Se entendermos “autonomia” de forma fiel à etimologia grega, ou seja, como aptidão de estabelecer a própria lei, não depender de poderes exteriores e impor as suas próprias regras, podemos perceber de forma clara o risco imanente do relativismo. Nesse sentido, não seríamos de certa forma induzidos a considerarmo-nos como soberanos todo-poderosos que levam em conta tão somente seus próprios sonhos, desejos e caprichos? Cada um, agindo de acordo com a sua própria lei, irá conduzir a um universo de mônadas independentes ou mesmo a uma anarquia ‘inconvivível’. Essa é uma tendência muito forte das sociedades modernas: pressionar a todos para que vivam por si, que cuidem apenas de seus interesses próprios sem muito se importar com o seu outro e, mais ainda, com qualquer coisa semelhante ao “bem comum”. “Superar-se a si mesmo”, como ordenava o Zaratrusta de Nietzsche, aparece, portanto, como um programa incoerente e que a multidão ridiculariza em praça pública, como é mostrado no início desse grande poema. Não mais se superar, mas “abster-se de si mesmo” sem querer, “se perder”, isso que, segundo os Evangelhos, é portanto a condição para “se ganhar” ou para “ganhar a sua vida” (dar- lhe sentido). IHU On-Line – Como as pessoas podem realizar sua autonomia tendo em consideração a situação relativística atual? Paul Valadier – Não seria em vão pensar em nossas vidas em termos de uma autonomia, pois nós somos chamados à liberdade, e não à escravidão de opiniões, de determinismos diversos, ou para a indolência moral ou intelectual. Mas, a compreensão da autonomia não fará o menor sentido sem estar relacionada a uma heteronomia. Para crescer e chegar até a maturidade do adulto, toda criança deve se apoiar nas normas e tradições recebidas, e não mediante a uma língua que, por acaso, ele próprio invente, mas a uma língua que ele deve se apropriar a fim de se constituir. Heteronomia e autonomia são indivisíveis; a ilusão moderna consiste em crer que nós alcançamos espontaneamente uma autonomia ou que podemos ser “maduros” sem ter passado pelas diversas etapas da vida, ou ainda que a maturidade (intelectual, moral, espiritual) é uma conquista própria e permanente, alienada de um processo constante que a atualiza sem cessar. Um adulto não é aquele ou aquela que não deve parar de tomar para si a sua vida? Uma liberdade não é uma tarefa (Kant dirá um dever) que nós temos que desejar constantemente e fazê-la nascer dentro de nós? É verdade que o peso do “politicamente correto” extingue esse ideal. E tende a fazer do homem moderno, que se crê “autoconstruído”, um robô dócil para a publicidade e a opinião comum. A indolência intelectual consiste em crer que a liberdade é uma qualidade perene uma vez adquirida, ou ainda, que nós nascemos livres (segundo a fórmula ilusória da declaração dos direitos do homem de 1788), enquanto que ela é um ato que se renova permanentemente no seio de todas as relações sociais vividas. Livres não é o que somos, mas o que nos tornamos. IHU On-Line – Tomando em consideração o capitalismo globalizado e a destacada influência da economia sobre a política e sobre outros campos sociais, é possível falar em autonomia e liberdade hoje? Por quê? Paul Valadier – O que se acabou de dizer é verdadeiro em todas as situações. Uma liberdade pura não existe: ela é sempre condicionada por um contexto social, econômico, político, internacional, etc. Isso vale tanto para pessoas como para nações e nenhum país hoje é totalmente independente dos outros dentro do contexto da globalização. Também preciso exorcizar os fantasmas de um “império” capitalista (Antonio Negri e Hardt no livro Império; cf. também outras obras desses mesmos autores) que encerra a multidão (multitude) dentro de malhas invisíveis e opressivas. Esses fantasmas dificilmente são ultrapassados, eles se sustentam mais por um infantilismo ou por um esquerdismo extremado do que por uma justa apreciação das coisas. É dentro desses quadros de um capitalismo mundializado, mas não unificado, que as nações podem ter um rosto próprio, portanto, uma identidade. Com efeito, o Brasil não é a China que também não é o Canadá, nem Angola. As particularidades regionais e culturais estão longe de serem uniformes: é o traço sempre fecundo e tenaz da especificidade que confere a liberdade aos povos. Ceder à inclinação de um determinismo total seria como abdicar de nossas liberdades pessoais e coletivas em prol de um mito desmobilizador. IHU On-Line – Quais são os maiores desafios para a religião nesse contexto? Paul Valadier – É certo que dentro desse contexto, a religião não perde o seu lugar, mesmo que esse seja difícil de situar. O cristianismo, em particular, é uma religião de liberdade e esperança; ele convoca os homens a assumir a sua humanidade dentro de sua finitude, mais precisamente, no fato de se querer livres em observância aos desígnios do Criador ao qual nos entregamos e que nos chama a ser a providência do homem, de acordo com a bela fórmula de São Tomás de Aquino, uma imagem do Deus providente. Isso nos estimula, portanto, a não trilhar o caminho do abandono que nos rebaixaria de homens livres a escravos, algo que Santo Agostinho alerta de forma vigorosa os discípulos do Cristo. Podemos, com efeito, nos incluirmos como escravos, nos submeter às leis da servidão ou, ao contrário, nos “edificarmos”, no sentido mais nobre dessa palavra. Crescer em liberdade com todos e por todos, carregando os fardos uns dos outros como demanda o apóstolo em sua epístola aos Gálatas (6,2). * Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Márcia Junges, do IHU On-Line
Mídia e conservadores reabrem debate oportunista e vazio, com objetivos eleitoreiros. Esquerda precisa preparar-se para propor segurança cidadã. Foto: Carlos Bassan Sociedade

Para além da maioridade penal

[caption id="attachment_86181" align="alignleft" width="300" caption="Mídia e conservadores reabrem debate oportunista e vazio, com objetivos eleitoreiros. Esquerda precisa preparar-se para propor segurança cidadã. Foto: Carlos Bassan"][/caption] Uma dentista assassinada por bandidos que atearam fogo em seu corpo por ter somente 30 reais em sua conta bancária; um garoto assassinado com um tiro a queima roupa na cabeça por não entregar sua mochila. A crueldade dos crimes praticados por menores de idade chama a atenção midiática nesses dois casos. Somados a isso, os índices divulgados na semana passada só vêm comprovar o que a percepção da população já havia expressado: o aumento significativo da criminalidade em São Paulo, principalmente de assassinatos e latrocínios. Voltou à tona uma discussão – casuística e rasa – sobre a maioridade (ou menor idade) penal. Com 18 anos uma pessoa está perdida o suficiente para ingressar no sistema penitenciário brasileiro? As casas de menores são instituições que não recuperam nem geram outras oportunidades para jovens infratores. Fato. Mas, os criminosos e assassinos menores de idade são minorias e casos à parte – tratar o todo pela exceção não resolve, só piora o problema. Falar, portanto, de redução da maioridade penal sem discutir recuperação penitenciária, ou as causas que levam às praticas do menor infrator, ou medidas como aumento das penalidades para quem usa menores como cúmplices é um debate viciado e oportunista. Ainda mais quando se explora meia dúzia de casos expostos pela mídia. Em vez de aceitar esta armadilha, é mais útil examinar a consequência direta do debate sobre a violência em São Paulo: as eleições. Já sabemos que o desgaste natural, a falta de opções de renovação em seu partido e as ultimas derrotas políticas colocaram o governador Geraldo Alckmin na berlinda. Mas enganam-se aqueles que defendem que as eleições são apenas propaganda e popularidade, desprovidas de conteúdo político. Alguns temas que tomam a agenda de campanha são muito importantes para a ascensão ou queda dos candidatos. E a crescente violência urbana no Estado tornou-se o calcanhar de Aquiles do governo que já foi cobrado a dar uma resposta urgente aos eleitores. A segurança pública será certamente o tema mais explorado do debate paulista do próximo ano e neste ponto há de se destacar que as esquerdas patinam. São Paulo é um caso especial de conservadorismo e desenvolvimento que tem uma dinâmica única eleitoral. Os eleitores paulistas vivem uma polarização própria: os tradicionalistas que querem manter a ordem e o progresso e os inovadores que defendem políticas liberais. Vai-se do “rouba mais faz” à defesa consequente dos direitos humanos – sendo que, no interior do estado, as forças conservadoras são muito presentes. Conformou-se um colégio eleitoral que majoritariamente apoiou o “estupra, mas não mata”, ratificou a frase “bandido bom é bandido morto” e aceita as recentes declarações do próprio governador em exercício sobre uma ação criminosa da polícia: “esta vivo quem não reagiu”. O mais dramático é que as esquerdas não têm uma plataforma clara sobre o tema específico da segurança pública. Não há uma proposta na agenda para além da ausência de propostas. Desde a ditadura militar – quando se denunciava o uso do tema segurança pública para perseguir, prender e torturar –, a oposição de esquerda, não demonstra preocupação com as instituições policiais. Além disso, a ideia de uma ruptura da ordem, presente em várias concepções de esquerda, tem levado a não considerar essas instituições como legítimas. Oposições ao exército e às forças da ordem reforçam a noção de que essas instituições são repressivas e opressivas, o que leva muitos militantes a desconsiderar a esfera da segurança pública. Na base do silêncio e da resignação, frustrou-se a possibilidade de construir uma proposta de segurança cidadã, baseada nos direitos humanos. Isso impede o diálogo com parte importante das frações médias da sociedade paulista. A ideia vulgar, hoje predominante, é que só os “humanos direitos” merecem direitos humanos. Ou seja, tais direitos não se aplicam aos criminosos. Promove-se um escândalo de capa de revista quando um cidadão de classe média sofre violações físicas, mas não são dignas de nota as torturas e violações de direitos praticadas constantemente em delegacias de polícia e presídios. Parece haver carta branca contra aqueles que são indiciados como criminosos. Nesse ambiente, as esquerdas tendem a se opor às instituições policiais e a despreza a necessidades de reformar e reorganizar o sistema com base nos direitos humanos. Isso pode servir ao próprio governador, que procura identificar-se com os pontos de vistas conservadores – e majoritários – sobre o tema. Sem uma plataforma séria, que responda às ondas crescentes de criminalidade urbana com propostas práticas e efetivas de redução da violência, as esquerdas vão perder espaço. Sem um sistema policial com respeito aos direitos humanos, formação de policiais com capacidade de fazer cumprir os direitos cidadãos e possibilidade de cumprir sua missão e garantir a segurança da população, as esquerdas desperdiçarão a oportunidade de renovar sua própria relação com instituições políticas que serviram a ditadura em outra época, mas hoje devem servir a sociedade democrática de direito baseada na cidadania. * Luís Fernando Vitagliano é cientista político e professor. ** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Luís Fernando Vitagliano*
Imagem do "Postais da Periferia" criado pelo Mídia Periférica. Foto: Divulgação Sociedade

“Sai do emprego para seguir uma ideologia que é a minha”

Diante das imagens de violência e miséria que retratam a periferia, os amigos Enderson Araújo, Ana Paula Almeida e Liege Viegas, moradores do bairro Sussuarana, em Salvador (BA), resolveram se juntar para mostrar que há um outro lado da história que precisa ser contado. Os três fundaram o Grupo de Comunicadores Jovens Mídia Periférica para mostrar as coisas boas do lugar onde moravam, durante o curso de Direito à Comunicação e Produção de Vídeo, ministrado pelo IME (Instituto de Mídia Étnica) e realizado pelo UNFPA (Fundo de Populações das Nações Unidas). Criaram projetos como os "Postais da Periferia", com fotografias de locais agradáveis da comunidade, e começaram a postar nas redes sociais para elevar a autoestima dos moradores. O objetivo era contrapor a imagem negativa que prevalecia nos noticiários sobre o bairro. [caption id="attachment_86275" align="alignleft" width="300" caption="Imagem do "Postais da Periferia" criado pelo Mídia Periférica. Foto: Divulgação"][/caption] Foi desse primeiro movimento que surgiu um espaço na rádio comunitária de Sussuarana para transmitir o programa de hip-hop Radiação Favela, que agora já conta com transmissão on-line. O grupo conseguiu também apoio para a criação de um canal via internet onde produzem quatro programas: Conversa de Quilombo, Multicultural, Love Periferia e Informe Periférico. E não pararam por aí. Os jovens repassam seus conhecimentos por meio de oficinas que realizam em outras comunidades, escrevem matérias para a revista "Viração" e já foram tema de reportagens na Holanda e na Índia. "Depois do Mídia Periférica, viajei, conheci pessoas, sai do emprego para seguir uma ideologia que é a minha", conta Enderson Araújo, 21, co-fundador do projeto. "Hoje digo que ele é tudo que eu tenho. É um legado que vai ficar e será lembrado por muitos. Depois de mim virão outros, que vão pegar o conceito e tocar para frente." Até a abertura da Copa do Mundo, o Imagina na Copa vai contar 75 histórias de jovens que estão transformando o Brasil para melhor. Os vídeos serão publicados no site www.imaginanacopa.com.br no site do Prêmio Empreendedor Social. * Publicado originalmente no site Prêmio Empreendedor Social/ Folha de S. Paulo.


por Redação do Prêmio Empreendedor Social
Margaret Inter Press Service - Colunistas

Agora, somos todos thatcheristas

Roma, Itália, abril/2013 – A avalanche de artigos lamentando a morte da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher publicados depois de seu falecimento, no dia 8, é um bom indicador de como todos nos convertemos em thatcheristas, sem nos darmos conta. Somente aqueles que já não gozam seus anos de juventude percebem o quanto sua obra de governo mudou o mundo e a política, a tal ponto que seria correto chamá-la de uma “grande revolucionária”. Para apreciar a dimensão da mudança, recordemos que, imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial, outros dois grandes acontecimentos tiveram lugar: o fim do colonialismo e a emergência do Terceiro Mundo, e a formação de um poderoso bloco socialista, encabeçado pela União Soviética, mas com rebentos na África, América Latina e Ásia, como, por exemplo, Angola, Cuba e China. Os dois acontecimentos tiveram um efeito instrutivo nos setores políticos e filosóficos identificados com o capitalismo, conduziram à era da social-democracia e inspiraram o desígnio de estabelecer uma ordem internacional baseada na cooperação e na justiça social. Isso fez com que, em 1974, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovasse por unanimidade um plano de ação para um novo sistema de relações internacionais que permitiria aos países subdesenvolvidos regular e controlar as atividades das corporações multinacionais, adotaria medidas para reduzir a brecha entre Norte e Sul, e outras disposições que hoje seriam consideradas fantasiosas. Propiciava-se a cooperação internacional como fundamento das relações entre os Estados e foi convocada a cúpula Norte-Sul, realizada em Cancún, em 1981. Thatcher assumiu o poder em 1979, e em Cancún conheceu Ronald Reagan, eleito presidente dos Estados Unidos alguns meses antes da cúpula. Foi a primeira prova internacional para Reagan, que evitou com desagrado qualquer diálogo sobre cooperação internacional. Instigado e apoiado por Thatcher, simplesmente disse que os Estados Unidos haviam se convertido em um grande país não graças à ajuda, mas mediante o esforço de milhares de indivíduos que construíram suas ferrovias, fábricas e escritórios. Afirmou que Washington não contrairia acordos internacionais por considerá-los contrários aos seus interesses e apresentou a fórmula “comércio em lugar de ajuda”. A partir desse momento, a “revolução de Reagan” mudou o mundo. Marginalizou-se a ONU e travou-se uma implacável campanha contra o conceito da sociedade e do Estado. Thatcher declarou gloriosamente: “A chamada sociedade não existe. Existem homens e mulheres de forma individual, e existem as famílias”. Reagan se especializou em dar respostas simples a questões complexas. A contaminação? “As árvores contaminam, não as fábricas”. Thatcher proclamou: “Nos vangloriemos de nossa desigualdade”. Catalogava Nelson Mandela como “terrorista”, e mais adiante elogiaria o ditador Augusto Pinochet como “defensor da democracia”. Pouco a pouco, os dois partidos conservadores, o Republicano norte-americano e o Conservador britânico, sofreram uma metamorfose antropológica. Deixaram para trás o “conservadorismo compassivo” e se arrebataram com uma ideologia que exaltava a riqueza, a aceitação da injustiça como um fato da vida, a demonização do Estado e a divinização do mercado, e a convicção de que a assistência social, os sindicatos e demais instrumentos de igualdade eram improdutivos e desnecessários. Reagan demitiu os controladores aéreos. Thatcher desmantelou os sindicatos de mineiros do carvão e proclamou: “Marks e Spenser (a rede de supermercados) derrotou Marx e Engels”. Reagan deixou os Estados Unidos com um pesado déficit e uma crescente desigualdade. Quanto Thatcher chegou ao governo o nível de pobreza marcava 9%, quando o deixou havia aumentado para 24%. Thatcher e Reagan abriram o caminho para a legitimação dos aspectos menos sociais dos indivíduos e da política: o egoísmo, a ostentação do poder e o status, e a crença de que os que mais ganham são os melhores. O diretor-executivo do JP Morgan, Jamie Dimon, calou a boca de um acionista em um debate dizendo-lhe: “Tenho a razão porque sou mais rico do que você”. Esse tipo de cultura, desconhecida antes de Thatcher e Reagan, engendrou os Madoff, os Berlusconi e os Murdoch de nossos dias. Com o passar do tempo, a maré subiu até causar a perda de identidade da esquerda, neutralizada pela prolongada campanha para um capitalismo desbocado como a única solução. Thatcher lutou eficazmente para que a Grã-Bretanha obtivesse privilégios especiais na Comunidade Econômica Europeia, plantando as sementes que colheram os céticos do euro, que agora condicionam o governo de David Cameron. Seus sucessores John Major e Tony Blair, e o próprio Cameron, empreenderam ações desde a guerra no Iraque até a extrema austeridade atual, que não seriam imagináveis sem o legado de Thatcher. O sonho de uma Europa unida está em sério perigo. Não há solidariedade entre Europa do Norte e Europa do Sul. Os interesses nacionais estão se impondo sobre os comunitários, tal como está ocorrendo no plano mundial. O fato é que não há valores comuns capazes de consolidar a cooperação internacional. Atualmente não dispomos de governo internacional, no sentido real da palavra. A ONU foi confinada aos temas do desenvolvimento. O mundo não é capaz nem mesmo de tomar medidas concretas para enfrentar a mudança climática, que constitui uma ameaça real para a humanidade. Pelo contrário, muitas companhias esperam com entusiasmo o degelo do Ártico, pelas perspectivas que se abririam para o tráfego e a exploração de minérios e hidrocarbonos. As finanças estão fora de controle e a desigualdade é escandalosa. Em 2012, o capital apropriado pelos cem indivíduos mais ricos do mundo cresceu US$ 240 bilhões, uma soma que bastaria para resolver os problemas da pobreza global. Porém, não se ouve uma só voz pedindo a redistribuição desse descomunal lucro. Como essas cem pessoas já são enormemente ricas, não sofreriam muito se pagassem um imposto de 75% sobre o lucro. A tentativa de aplicar esta ideia equitativa na França converteu o presidente François Hollande em objeto de escárnio. O desastre financeiro afundou mais de cem milhões de pessoas na pobreza. E, segundo a Eurostat, o desemprego entre os jovens europeus chegou a 22,4% no ano passado. Por que tudo isto é tolerado, por que não há uma verdadeira reação? Porque todos nos tornamos thatcheristas. Envolverde/IPS * Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Preess Service) e editor do Other News.


por Roberto Savio*

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