Lei das carroças: Os catadores e a exclusão

Entrevista

Lei das carroças: Os catadores e a exclusão


por Redação do IHU On-line


“Não estamos tirando os carroceiros e carrinheiros da cidade para mostrar que aqui eles não existem”, diz o vice-prefeito de Porto Alegre. Cinco anos após a promulgação da lei n. 10.531, que através de um programa de redução gradativa está retirando os carroceiros e carrinheiros das ruas de Porto Alegre, o autor da legislação, Sebastião Melo (PMDB), reitera que a “a lei não visa tirar na ‘marra’ os carroceiros e carrinheiros e, sim, fazer uma transposição. Reconhecemos que se trata de uma questão social”. Segundo ele, o projeto “está na fase de cadastramento final dos carroceiros”, e até o final de 2015 eles deixarão de circular na região central da cidade. Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, o vice-prefeito da capital gaúcha ressalta que “os empresários deveriam dar sua contrapartida social. Por que os shoppings não investem na própria triagem do lixo em vez de vendê-lo? O Sindilojas da cidade também pode dar um destino final para o lixo. Essas são contribuições que eles podem fazer”. E dispara: “Governar uma cidade é algo complexo, depende dos gestores. É uma área que realmente pode dar um passo adiante. As pessoas querem a cidade limpa, mas colocam garrafas e sujeira nas praças, toco de cigarro na rua, e a culpa é sempre do governo. Não é; a culpa é nossa mesmo”. Sebastião Melo é vice-prefeito de Porto Alegre. Confira a entrevista. IHU On-Line – Como está a retirada das carroças nas ruas de Porto Alegre? Quanto o projeto avançou nestes anos e quanto falta para a retirada total? Sebastião Melo – O projeto está na fase de cadastramento final dos carroceiros, fase que deve ser encerrada em setembro. Já aconteceram cursos de capacitação para vários carroceiros, e muitos deles já não utilizam mais as carroças nem os carrinhos. O BNDES assinou conosco um convenio no final de 2012, referente ao primeiro aporte para o fundo criado para a inclusão social de carroceiros, no valor de 4,5 milhões. Teremos também uma bolsa qualificação, ou seja, no período em que o carroceiro não trabalhar (meio turno), receberá um valor determinado e uma bolsa qualificação. Além disso, muito deles já estão incluídos no Programa Bolsa Família. Isso permitirá que eles passem por um processo de formação. Pretendemos que até o final de 2015 não tenham mais carroceiros e carrinheiros circulando em Porto Alegre. Gradativamente, até primeiro de setembro deste ano, os carroceiros deixarão de circular na zona central, porque a OAS Empreendimentos construirá uma central de triagem para atender os carroceiros e carrinheiros das ilhas. A lei não visa tirar na “marra” os carroceiros e carrinheiros e, sim, fazer uma transposição. Reconhecemos que se trata de uma questão social, sabemos que essas pessoas dependem dessa laboração e não podemos retirá-las do trânsito sem dar uma “porta de saída”. Veja o caso em que o governo tirou os camelôs do centro de Porto Alegre, mas construiu o camelódromo. A questão dos carroceiros segue a orientação de um governo que tem preocupação. IHU On-Line – Existe algum programa de substituição de renda dessas pessoas e quantas foram beneficiadas? Sebastião Melo – Os programas de capacitação são vários. Se o cidadão quer continuar trabalhando com a questão do lixo, existem 18 galpões de reciclagem e a central de triagem na capital. Mas ele também pode ter um emprego formal e, de acordo com a sua vontade, o governo oferece um leque de opções. IHU On-Line – O que está sendo feito com os animais que são retirados de circulação? Qual estimativa de animais que deixaram de ser usados para essa atividade econômica? Sebastião Melo – Quando o carroceiro devolve a carroça, os cavalos não são sacrificados. Trabalhamos em três frentes, com a ajuda da Brigada Militar, de donos de sítios em Porto Alegre, e do Exército; todos têm condições de acolher esses animais. Trata-se de um processo de governança transversal em parceria com a Braskem e outros grupos econômicos e movimentos sociais. IHU On-Line – Há algum subsídio da prefeitura no sentido de oportunizar a criação de novos postos de trabalho para esse público para além das obras da Copa do Mundo? Como ficarão esses trabalhadores até 2014? Sebastião Melo – Gostaria de ressaltar que as pessoas não deixarão de trabalhar com suas carroças e carrinhos por causa da Copa de 2014. Esse é um projeto de lei de 2005, e até 2008 o Brasil ainda não sabia se sediaria a Copa do Mundo. Não estamos tirando os carroceiros e carrinheiros da cidade para mostrar que aqui eles não existem. Agora, se essas pessoas serão capacitadas para trabalhar na Copa do Mundo, isso é o mercado quem irá estabelecer. IHU On-Line – A principal tese que sustenta o projeto é a de que os carroceiros e carrinheiros atrapalham o trânsito da cidade. Medidas de incentivo ao transporte individual, como redução do IPI, resultam em milhares de veículos nas ruas. Retirar os carroceiros de circulação sob esse pretexto não seria uma medida classista, já que o número de carroças é praticamente insignificante em comparação ao número de carros? Sebastião Melo – As pessoas que elaboraram esse projeto nunca tiveram esse preconceito. Esse projeto de lei não foi pensado por causa do trânsito. De fato, a carroça acaba concorrendo com o carro, mas o problema de trânsito no Brasil está relacionado à política equivocada de não apostar no transporte coletivo e incentivar o uso de automóvel. Quer dizer, o governo federal, por um lado, isenta o IPI e, por outro, dá dinheiro para investir em infraestrutura nas cidades. O projeto de retirada das carroças é uma questão social e, em segundo lugar, é uma questão que visa solucionar o mau trato aos animais. IHU On-Line – Os catadores, carroceiros e carrinheiros exercem um papel ecológico importante à medida que recolhem diariamente centenas de quilos de material reciclável. Quem fará esse papel e como será exercido o trabalho? Sebastião Melo – Reconheço o papel importante desses atores sociais. Mas, hoje, o Departamento Municipal de Limpeza Urbana – DMLU recolhe o lixo de duas a três vezes por semana nos 83 bairros de Porto Alegre. Portanto, ele dá conta de recolher o lixo. Porto Alegre tem a coleta regular do lixo orgânico, a coleta regular do lixo reciclável e as coletas especiais para restaurantes, por exemplo. O DMLU presta um serviço para a cidade e cobra por isso. O problema é que quando o caminhão do DMLU chega em algumas casas, o carroceiro já passou na frente, porque ele é mais ágil nisso, e sabe os dias e horários em que passam os caminhões. Mas das 100 toneladas que chegam aos galpões de reciclagem, só saem 50 toneladas, porque 50 são rejeito. Muitas vezes o carroceiro faz a separação do lixo na porta da casa do cidadão, tirando aquilo que lhe interessa e espalhado o resto. Se tem garrafa pet misturada com jornal, ele pega a garrafa pet e deixa o jornal. Isso é a vida real. Então, estamos dizendo que o DMLU tem condições de recolher o lixo, porque se gasta muito dinheiro com isso. Se o atual carroceiro tem muito a contribuir com a cidade, se ele quiser continuar trabalhando com o lixo, terá oportunidade de trabalhar nos galpões e nos locais de triagem, e não mais buscando lixo na porta de cada um de nós. IHU On-Line – Discutiu-se a possibilidade de carrinhos elétricos para catadores. Há alguma possibilidade de viabilizar esse projeto? Sebastião Melo – Na prática esse projeto nunca aconteceu. Poderemos chegar a esse ponto, mas isso depende de orçamento, porque jamais um carroceiro ou um carrinheiro terá dinheiro para comprar um carrinho elétrico. O governo pode se organizar através de cooperativas até chegar a esse ponto. Por outro lado, os empresários deveriam dar sua contrapartida social. Por que os shoppings não investem na própria triagem do lixo em vez de vendê-lo? O Sindilojas da cidade também pode dar um destino final para o lixo. Essas são contribuições que eles podem fazer. Governar uma cidade é algo complexo, depende dos gestores. É uma área que realmente pode dar um passo adiante. As pessoas querem a cidade limpa, mas colocam garrafas e sujeira nas praças, toco de cigarro na rua, e a culpa é sempre do governo. Não é. A culpa é nossa mesmo. IHU On-Line – Quais são as possibilidades de melhora na qualidade de vida desse público que migrará da coleta de materiais reciclados e como está a infraestrutura dos locais onde vivem? Sebastião Melo – As pessoas que catam lixo na cidade de Porto Alegre são excluídas da sociedade. O Brasil tem de dar um salto enorme e não é à toa que tem 40 mil famílias dependendo do Programa Bolsa Família em Porto Alegre. Não estou falando do Nordeste, estou falando de Porto Alegre. Como é a infraestrutura da residência dessas pessoas? Muitas das vilas populares não têm regularização fundiária, têm esgoto a céu aberto, são zonas de alagamento. A questão de infraestrutura é um desafio permanente dos governos, porque os serviços públicos chegaram apenas a algumas regiões. Temos de dar um enorme salto de reurbanização, porque a reurbanização ou urbanização não é necessária apenas para legalizar o imóvel do cidadão, mas para ter praças de esportes, colégios, creches, ruas. * Publicado originalmente no site IHU On-line.

Foto: Reprodução/Internet Sociedade

Não a melhor do mundo, mas sim a melhor para o mundo

[caption id="attachment_80109" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Reprodução/Internet"][/caption] As mais importantes certificações socioambientais existentes até hoje concentram-se em produtos ou em procedimentos produtivos. No caso do Forest Stewardship Council (o FSC, bastante conhecido no Brasil), por exemplo, o que se assegura é que a madeira ou a celulose foram produzidas em condições que não ferem o meio ambiente e respeitam a dignidade dos trabalhadores do setor. Um selo orgânico garante que não foram usados fertilizantes químicos ou agrotóxicos no cultivo dos produtos. O "fair trade" (comércio justo) assegura boas condições de trabalho e termos de troca que, mais do que reflexos da oferta e da demanda, embutem a preocupação explícita de que uma parte significativa dos lucros da cadeia em questão vá aos que se encontram na base de sua pirâmide social. Além destes selos, existem também organizações globais (como o Global Reporting Initiative), que auxiliam as empresas a elaborar relatórios voluntários pelos quais seus acionistas e os principais atores que com elas se relacionam possam conhecer seu desempenho socioambiental. É um fascinante processo evolutivo que já se encontra em sua quarta geração e que inclui um exame cada vez mais aprofundado de diferentes dimensões da atividade das empresas que dele participam. Nenhuma dessas iniciativas, entretanto, tem objetivo tão ambicioso como o daquela que se formou nos Estados Unidos em 2006 e que hoje existe em 24 países, abrangendo 60 setores econômicos e mais de 700 empresas: Benefit Corporation é um movimento empresarial que se define explicitamente pela missão de usar o poder dos negócios para resolver problemas socioambientais. Esse movimento ganhou tal força que acabou por gerar uma legislação específica que prevê direitos e obrigações para empresas que assumam os compromissos de uma Benefit Corporation. Não se trata apenas de atestar a qualidade de um produto ou de um processo produtivo, o que, sem dúvida é muito importante. Tampouco se trata de relatar os avanços graduais feitos por grandes organizações no que refere à emissão de gases de efeito estufa ou ao uso de água. O que marca o sistema Benefit Corporation não é, tampouco, algum atributo técnico ou científico que tenha revolucionado os próprios parâmetros de avaliação do comportamento empresarial. O segredo da Benefit Corporation é que, embora se trate de um compromisso voluntário, uma vez assumido, ele passa a ter força legal, como explica Maria Emilia Corra, empresária chilena, neste vídeo em espanhol. A empresa se compromete a ser avaliada por um corpo independente que verifica se, de fato, ela tem um impacto material e significativo naquilo que se propõe a fazer. E este compromisso torna-se uma obrigação jurídica. Se, por exemplo, a empresa Benefit Corporation passar por uma situação difícil em que ela queira adiar o cumprimento de seus compromissos socioambientais para preservar sua rentabilidade, sua direção pode ser processada e punida formalmente por descumprimento de cláusulas contratuais tão poderosas quanto a própria geração de lucros. O Chile já está discutindo uma legislação em que esse tipo de empresa possa enquadrar-se. E certamente essa discussão também terá lugar no Brasil, onde já existe aquilo que nos países de língua espanhola vem sendo chamado de "empresas B". A que está agora articulando a montagem do sistema no Brasil é o CDI, empresa voltada para a inclusão digital e cujo site vale a pena ser visitado. Guayaki, por exemplo, é uma empresa que atua no mercado norte-americano de refrigerantes e que tem como objetivo não apenas remunerar os acionistas, sem provocar destruição ou respeitando as leis, mas, mais que isso, regenerar a Mata Atlântica e valorizar o trabalho dos agricultores que cultivam a erva-mate. Seu site mostra o avanço já obtido nessas duas direções. Uma empresa chilena de construção fez da reinserção social de presidiários comuns uma das bases de sua atuação, com resultados impressionantes. O mecanismo lembra a iniciativa do navegador mitológico Ulisses que, ávido para escutar o canto das sereias, mas sabedor de que tal melodia, fatalmente, atraía o ouvinte para o fundo do mar, cria um ardiloso artifício: tapa o ouvido de todos os membros da tripulação e amarra-se a um mastro do navio. Assim pode deleitar-se com o que ouve e, ao mesmo tempo, quando implora desesperado a seus companheiros que o deixem partir, seduzido pelo som encantador das sereias, estes não têm como cumprir suas ordens. Ao se tornar uma Benefit Corporation, a empresa faz mais do que certificar um aspecto de suas atividades ou relatar o quanto evoluiu em suas práticas: ela assume um compromisso com parâmetros de desempenho que envolvem sua governança e sua transparência, a relação com seus empregados, com fornecedores, com clientes, com entidades beneficientes, com o território em que se situam, além de uma série de parâmetros ambientais. O importante é que a decisão de adotar esses compromissos com força legal acaba por nortear o próprio processo de inovação da empresa em direção a práticas socioambientalmente sustentáveis. Nos Estados Unidos, em que as leis referentes à relação entre empresas e acionistas são estaduais, 11 Estados já possuem legislação prevendo esta forma de organização empresarial e espera-se que, ainda neste semestre, Delaware (onde se concentra grande número de corporações norte-americanas) também passe a permitir este tipo de firma Um novo modelo de organização empresarial está surgindo e seu lema é muito emblemático: não se trata de ser a melhor do mundo, mas de ser a melhor para o mundo. Isso significa algo decisivo para o empreendedorismo que é uma redefinição do próprio sentido do êxito nas sociedades e nas economias contemporâneas. Quando as empresas B se difundirem largamente, a separação entre empreendedorismo social e empreendedorismo privado vai soar como o resquício de uma era em que ainda havia hostilidade entre o mundo da economia e as aspirações da sociedade. * Ricardo Abramovay é professor titular da FEA e do IRI-USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp, e autor deMuito Além da Economia Verde, lançado na Rio+20 pela Editora Planeta Sustentável. ** Publicado originalmente no site Prêmio Empreendedor Social/Folha de S.Paulo.


por Ricardo Abramovay*
Foto: eco4u.wordpress.com Sociedade

A economia é um subsistema do meio ambiente

[caption id="attachment_80122" align="aligncenter" width="451" caption="Foto: eco4u.wordpress.com"][/caption]   Definitivamente, a economia neoclássica têm sérias dificuldades em aceitar o fato de que a economia é apenas um subsistema do meio ambiente. Centrados numa visão míope do diagrama do fluxo circular (empresas fornecendo bens e serviços às famílias dada as condições do mercado de fatores de produção) que é de natureza hermeticamente fechada, isolada e restrita, os economistas tradicionais não enxergam (ou não querem enxergar) a completa inter-relação existente entre a economia e a natureza. Diante disso, passam por cima das questões ambientais, pois entendem que a economia é soberana e superior a tudo. Para os "tradicionais”, as questões de ordem ambiental não passam de meros setores pertencentes à macroeconomia, como são os casos da pesca, da agropecuária, das florestas, entre tantos outros. Para esses não há limites e obstáculos ditados pelo ambiente e a expansão da atividade produtiva pode ocorrer sem maiores transtornos. Pensando assim, os economistas tradicionais ignoram o que realmente se sucede em termos reais de movimentação dentro de um sistema econômico: entra (materiais) e sai (resíduos); entra matéria e energia, sai ejetada poluição (lixo); logo, a economia não pode ser vista como um sistema fechado. Ao contrário: a economia nada mais é que um sistema aberto dentro de um amplo sistema (o ambiente) que tem a finitude como sua maior característica. Nesse ponto, convém chamar a atenção para o desenho aqui apresentado: fluxos de entrada (materiais e energia) e de saída (produtos e resíduos ejetados) precisam ser considerados em sua essência, e não relegados ao descaso como é comum pela visão econômica tradicional. A economia necessita (e sempre precisará) da natureza, e não o contrário. Nas palavras de Clóvis Cavalcanti, "não existe sociedade (e economia) sem sistema ecológico, mas pode haver meio ambiente sem sociedade (e economia)”. É totalmente equivocado pensar a atividade econômica de forma ermitã. A economia é apenas uma parte de um todo; o todo é o meio ambiente. Nessa linha sistemática de defesa em torno do meio ambiente, quando se aponta dedo em riste sobre a atividade econômica, pontuando a exploração de recursos em favor de um crescimento antieconômico, é forçoso aventar que o "tipo de economia” que pretendemos, capaz de assegurar a capacidade de progresso à geração futura, não está fazendo o jogo do antiprogresso, do antidesenvolvimento, da antievolução. Para termos progresso, desenvolvimento e evolução, de fato e de direito, é necessário entender que há limites biofísicos, e esses obrigatoriamente devem ser respeitados. Por isso, não há como escapar da seguinte premissa: crescer significa usar o meio ambiente, e mais crescimento significa menos meio ambiente, pois como aponta Herman Daly, a biosfera é finita, não cresce, é fechada (com exceção do constante afluxo de energia solar) e obrigada a funcionar de acordo com as leis da termodinâmica. Também por isso e para isso, cabe destacar que qualquer subsistema, como a economia, em algum momento deve necessariamente parar de crescer e adaptar-se a uma taxa de equilíbrio natural. Funda-se nesse argumento um fato imperioso: parar de crescer não significa parar de se desenvolver. É perfeitamente possível prosperar sem crescer. Prosperidade é sinônimo de bem-estar para todos. Logo, não pode haver prosperidade em ambientes que são constantemente expostos à degradação, reduzidos a poluição como objeto final, afetando a qualidade de vida das pessoas. Com isso, é urgentemente necessário trocar a busca incessante do crescimento (expansão quantitativa) pelo desenvolvimento (melhoria qualitativa). No linguajar dos economistas-ecológicos crescimento econômico vai até certo ponto, ultrapassado esse ponto não há melhorias, mas sim perdas significativas começando pela qualidade do ar que respiramos e pela completa destruição do espaço natural, afetando sobremaneira a qualidade de vida nas cidades, tornando-as insustentáveis. * Marcus Eduardo de Oliveira é economista, professor e especialista em Política Internacional pela Universidad de La Habana – Cuba. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Marcus Eduardo de Oliveira*
Ampliação do atendimento e melhora da qualidade do Ensino Infantil são os principais desafios da primeira meta do novo Plano Nacional de Educação. Foto: Veronica Manevy Sociedade

A favor da infância

[caption id="attachment_80126" align="aligncenter" width="525" caption="Ampliação do atendimento e melhora da qualidade do Ensino Infantil são os principais desafios da primeira meta do novo Plano Nacional de Educação. Foto: Veronica Manevy"][/caption]   A meta para a educação infantil do próximo decênio é universalizar o atendimento às crianças de 4 a 5 anos e garantir que metade dos brasileiros de 0 a 3 anos tenha uma vaga em creches até 2020. Diante do atual cenário – 81% da população de 4 e 5 anos é atendida e 18% de 0 a 3 anos – é um passo importante na democratização do acesso a essa modalidade de ensino historicamente negligenciada. No entanto, o sucesso para cumprir uma das 20 metas do novo Plano Nacional de Educação (PNE), em tramitação no Senado Federal, dependerá de fatores complexos, como formação de professores, investimento em novas estruturas e mudanças de paradigma, a começar pela prioridade dedicada à educação de crianças de 0 a 5 anos. É notável que a educação dessas crianças ganhou posição de destaque: antes tida como um espaço de assistencialismo, hoje a educação infantil é caracterizada como uma etapa importante para o desenvolvimento da criança. Isso ocorreu devido a dois fatores principais: a alteração nos modelos de família e do papel da mulher e a ampliação nos estudos com foco na educação infantil no Brasil e no exterior. “As pesquisas mostram que, ao contrário do que se imaginava, estar em uma escola coletiva, com bons profissionais e recursos ajuda na aprendizagem e no desenvolvimento da criança”, afirma Bianca Correa, professora do curso de Pedagogia da USP-Ribeirão Preto e pesquisadora das questões relacionadas à gestão escolar. De 2011 a 2012, o aumento de matrícula em creche e na pré-escola foi de 4,5%. A estimativa do MEC é que o déficit de creches e pré-escolas é de 19.766. Até 2014, o governo federal se propôs a construir 6 mil unidades, em parceria com os municípios – até o momento, foram entregues 760 unidades, outras 562 estão em execução, 602 em licitação e 1.391 em planejamento. Em investimento, a educação infantil ainda é a que menos recebe recursos em comparação com outras modalidades. No entanto, cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que o investimento federal na educação infantil saltou de 256 milhões de reais para cerca de 1 bilhão de reais entre 2011 e 2012. Outro fator explica o déficit de atendimento e a baixa qualidade encontrada em algumas localidades. “A sociedade brasileira discrimina e não trata a criança pequena como cidadã”, opina Fúlvia Rosemberg, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e coordenadora do Núcleo de Estudos de Relações de Gênero, Raça e Idade. A extensão demográfica da área rural e a dispersão da população do campo também ajudam a explicar as baixas taxas de atendimento. Segundo Fúlvia, a população menos atendida pelo sistema educacional brasileiro é a de 0 a 2 anos de idade. No entanto, região, renda familiar, educação familiar, escolaridade e trabalho da mãe, além de etnia e localização da residência são variáveis que influenciam no acesso. As maiores desigualdades acontecem segundo a localização, renda e etnia. Segundo o Unicef, na faixa etária de 0 a 3 anos, nas áreas urbanas, 20,2% das crianças frequentam creches. O número na zona rural é de 8,8%. Nas famílias mais pobres, 11,8% estão matriculadas na Educação Infantil, enquanto entre os mais ricos a taxa é de 34,9%. O porcentual de matrículas entre crianças brancas é de 19,9% e entre as negras, 16,6%. Entre 4 e 6 anos, a desigualdade não é diferente. Entre os mais ricos, a frequência chega a 93,6%, nos mais pobres é de 75,2%. Ainda na pré-escola, o contraste se mantém entre campo (73,1%) e cidade (83,1%) e entre brancos (82,6%) e negros (80%). De acordo com Bianca Correa, a discrepância de frequência entre as faixas etárias pode ser explicada, em partes, pelo custo do atendimento. “Quanto menor a criança, maior o custo de manutenção. São menos alunos por professor e também precisa ter lactário, lavanderia, pessoas que cuidem especificamente da alimentação e uma série de exigências para um atendimento minimamente humano que encarecem muito a manutenção.” Qualidade, ainda um desafio Shirlei Aparecida do Carmo seguiu os passos da mãe na carreira docente. Moradora do Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, começou a lecionar na Educação Infantil aos 19 anos. Logo depois, ingressou no Ensino Superior e se formou em Pedagogia. Hoje, Shirlei trabalha nas Emeis Chácara Sonho Azul e Vila Remo, próximas à divisa de São Paulo com Itapecerica da Serra. Há 13 anos na carreira, a professora afirma que as políticas públicas passaram a valorizar o caráter educacional dessa etapa de ensino, mas que a população ainda tende a enxergar a Educação Infantil como um espaço assistencialista. “Há uma crescente caracterização da Educação Infantil por parte dos pais como um depósito”, diz. Para Bianca Correa, esse tipo de olhar ainda é muito presente: “Sempre existiu e ainda existe uma ideia de que aquele serviço oferecido é uma dádiva do poder público e não um direito da família”. A visão da especialista reflete a trajetória da Educação Infantil no Brasil. Embora os primeiros estabelecimentos do gênero tenham sido criados no País no fim do século XIX, a passagem da creche e da pré-escola da assistência social para a educação é recente, feita de forma gradual e, muitas vezes, parcial. Os primeiros passos datam do início da década de 1970, catalizados principalmente pela urbanização, pelo ingresso das mulheres no mercado de trabalho e pelas mudanças na configuração das famílias. Esses movimentos levaram a um aumento da demanda por vagas em estabelecimentos de ensino para as crianças. Movimentos a favor dos direitos da criança e do acesso à educação desde os primeiros anos de vida, estabelecidos em documentos como a Declaração dos Direitos da Criança (1959), também contribuíram para essa mudança. A repercussão acabou refletindo na Constituição Federal de 1988, que estabeleceu as creches como um direito das crianças e um dever do Estado. Em 1996, o artigo 29 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional incluiu efetivamente a Educação Infantil como primeira etapa da Educação Básica, estabelecendo como finalidade o desenvolvimento desenvolvimento integral (físico, psicológico, intelectual e social) da criança até os 5 anos de idade. A oferta de ensino em creches ou pré-escolas foi separada por critério etário: até os 3 anos na creche e até os 5 na pré-escola. Assim, de forma gradual, a creche e a pré-escola começaram a se desvencilhar da esfera da assistência social e passaram para a educação. Tal transição, porém, não aconteceu de maneira uniforme em todo o País. Embora a maioria dos municípios tenha feito a passagem no âmbito legal, em muitos casos a visão a respeito dessa faixa etária não mudou. “Em alguns lugares, os professores se recusam a realizar determinadas tarefas que eles consideram assistenciais. O problema é que, nessa faixa etária, não é possível distinguir o que é cuidado e o que é educação”, analisa Bianca. Ao mesmo tempo, é justamente no momento do cuidado que uma boa formação faz diferença. “Um profissional que sabe das questões do desenvolvimento da criança pode promover uma situação muito mais significativa do que uma troca mecânica de fralda”, opina. Há 15 anos na Educação Infantil, Renata Barbosa, 39 anos, acredita que a visão a respeito dessa etapa de ensino mudou nos últimos anos. “Antes a nossa postura era mais automática. Agora prestamos mais atenção à questão da construção da identidade da criança”, conta a professora da Emei Coronel Walfrido de Carvalho. Para a educadora, ambas as esferas – o cuidado e a educação – são complementares. “A família quer, em primeiro lugar, o cuidado das crianças com afetividade, mas eles também querem que seus filhos aprendam.” Uma das mais antigas instituições do gênero na região, a Walfrido de Carvalho, localizada no bairro do Tremembé, na zona norte de São Paulo, enfrenta desafios que retratam os problemas das escolas das grandes cidades, como o grande número de alunos, a complexidade geográfica da região e a falta de tempo para a qualificação continuada dos professores. Os 538 alunos são divididos em oito salas, em dois turnos diferentes. Organizados em mesas com quatro cadeiras cada sala comporta perto de 35 crianças de 4 a 5 anos. “O grande desafio é não massificar o atendimento”, afirma Márcia Madeira Barrozo, diretora da escola. Para ela, diante do número elevado de alunos, o mais importante é procurar trabalhar e respeitar a individualidade de cada um. “Os professores aprendem o nome, os hábitos e a história das crianças”, exemplifica. Tanto Renata quanto outras professoras e gestoras da unidade de ensino reconhecem avanços, mas afirmam que a realidade ainda está longe do ideal. Para elas, além da questão do grande número de crianças por sala, a falta de bons profissionais de áreas como Educação Física ou Música são entraves à qualidade do atendimento. De acordo com pesquisa da Fundação Carlos Chagas em parceria com o MEC, 30,4% das pré-escolas das principais capitais brasileiras não possuem níveis adequados de qualidade. Entre as creches, o número chega a 49,5%. Apenas 1% das instituições que atendem crianças de 0 a 3 anos registrou níveis considerados bons. O estudo levou em consideração elementos como espaço e mobiliário, rotinas de cuidado pessoal, atividades, interação entre alunos e professores e equipe pedagógica. Os melhores resultados foram alcançados pelas unidades que atendem exclusivamente crianças da Educação Infantil, possuem melhor infraestrutura e contam com maior número de equipamentos e recursos complementares. Outra preocupação é a qualificação dos professores. Maria Letícia do Nascimento, da Faculdade de Educação da USP, comenta que é comum a figura dos auxiliares, pessoas sem formação que lidam diretamente com as crianças e bebês. A formação de nível médio ainda é aceita na Educação Infantil, embora a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional recomende a formação em nível superior desde 1996. Para a professora, a alternativa do magistério em nível médio já deveria ter sido superada. E mesmo a formação superior não contempla as especificidades das pré-escolas e creches. “Os cursos de pedagogia, em geral, dedicam pouca ou nenhuma atenção à formação de professores de Educação Infantil, privilegiando a formação para o Ensino Fundamental ou propondo uma formação mista”, afirma. Segundo pesquisa da Fundação Carlos Chagas, menos de 5% do conteúdo dos cursos de pedagogia se referem à educação infantil. Seja na qualidade, seja na quantidade, o desafio proposto pelo PNE para o Ensino Infantil permanece grande. “Considerando o tamanho do País e as desigualdades regionais, para que algumas regiões alcancem o 100% vai ser um enorme desafio. Acho que é possível, mas o que está claro nas pesquisas de financiamento, é que os municípios sozinhos não terão condição de cumprir o que a legislação determina. O fato é que o governo federal precisa participar de modo mais incisivo”, afirma Bianca. * Tory Oliveira faz jornalismo na Cásper Líbero e é repórter das revistas Carta na Escola e Carta Fundamental. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Isabela Morais e Tory Oliveira*
Marina Silva. Foto: Talita Oliveira/Flickr Sociedade

Se nos deixam falar

[caption id="attachment_80130" align="alignleft" width="300" caption="Marina Silva. Foto: Talita Oliveira/Flickr"][/caption] Dois dias em Santiago, no Chile, para debater possibilidades de avanço da democracia, e me deparo com memórias remotas e recentes de nossa sofrida América Latina. Talvez a experiência dos chilenos seja mais traumática, é difícil avaliar, mas, no vigor de sua juventude, vejo a mesma superação de velhos paradigmas que ocorrem em outros países. Essa é, afinal, a novidade que está sendo pouco considerada no debate político, atualizado pela morte de Hugo Chávez. Mais que vencer discussões, interessa solidarizar-se com o povo venezuelano na busca de novos caminhos. Hoje, ainda vigoram antigas polaridades e uma nomenclatura do século passado: populismo, neoliberalismo, estatização, privatização, caudilhismo... Esses termos expressam realidades e significados ainda presentes em nossos sistemas políticos, como feridas abertas ou cicatrizes recentes. Mas a superação das fragilidades de nossa democracia, sua inserção definitiva na cultura, sua universalização, não acontecerá só com a derrota de um dos polos em disputa, a eleição de um novo líder ou a ascensão de um partido. Ela será, sobretudo, obra da sociedade, fruto cultivado de sua determinação. Conversei com líderes estudantis que agitaram o Chile e trouxeram à política latino-americana algum alento contra a estagnação. Também me reuni com um coletivo de jovens do Techo ("Um teto para meu país"), organização que tem incríveis resultados práticos na superação da miséria em vários países. Um grupo que desenvolve o mesmo projeto em São Paulo participou da reunião e me fez perguntas por vídeo. As fronteiras, definitivamente, não são mais as mesmas e esses jovens mostram que seus sonhos de democracia são bem maiores que as nossas urnas. As novas experiências políticas não são só virtuais, espalham-se no tecido social e geram mutações reais. Também não cabem num recorte setorial: são econômicas e culturais, sociais e políticas, ambientais e éticas. Os jovens do Techo começaram construindo casas e logo viram que era necessário trabalhar com educação, saúde, informática, tudo. Muitos projetos que vemos no Brasil começam com arte, esporte ou uma ação social e logo diversificam suas ações. Atuam tanto na comunidade quanto na esfera institucional, sempre dando visibilidade e fazendo contatos nas redes virtuais. É nessa nova superfície que se inscrevem os projetos identitários contemporâneos, a democracia emergente, em que a sustentabilidade política do futuro se assenta. Seu debate, amplo e profundo, supera os limites do modelo representativo atual para se dar em novos termos e novas linguagens, que só podem ser percebidos por uma escuta mais atenta. E o mais, quem viver, ouvirá. * Marina Silva é ambientalista, ex-senadora, ex-ministra do Meio Ambiente e ex-candidata à Presidência da República em 2010. ** Publicado originalmente no site Folha de S. Paulo.


por Marina Silva*
Ciclistas organizaram protestos na Av. Paulista. Foto: Aline Cavalcante Sociedade

Um braço arrancado é mais do que apenas um braço arrancado

[caption id="attachment_80145" align="alignleft" width="300" caption="Ciclistas organizaram protestos na Av. Paulista. Foto: Aline Cavalcante"][/caption] São Paulo é uma não-cidade. Não pelo atropelamento na avenida Paulista de um jovem, morador do Jardim Pantanal, bairro pobre do extremo Leste da capital, que costumava ir para o trabalho de bicicleta. Não por outro jovem que saiu de uma balada no Itaim Bibi, bairro rico da cidade, dirigindo seu carro bonito, após ter ingerido álcool, na madrugada. Não por uma alegação de que houve fuga sem que fosse prestado socorro por medo de linchamento. Não pelo motorista ter arrancado o braço do ciclista na batida e, ao descobrir o membro em seu automóvel quilômetros depois, tê-lo arremessado em um córrego fétido ao invés de devolver para um reimplante. Não, por nada disso. Pois li e reli todas as notícias produzidas sobre o caso e percebi, de forma melancólica, que essa sequência de fatos bizarros, sem razão nenhuma de ser, fazem muito sentido para mim, que sou morador da maior cidade do país. De uma forma ou de outra, já ouvi essa história antes, com pequenas variações e tenho certeza que meus colegas a relataram outras tantas, com outros nomes. Às vezes é um braço que se vai preso a um carro, às vezes é uma vida inteira lançada ao esgoto. Mas isso não deve fazer sentido para milhões de outras pessoas, moradoras de milhares de outras cidades no país. Não, não estou dizendo que São Paulo é mais violenta. Mas em São Paulo, apesar da indignação, o surreal e o insano fazem todo o sentido. Nós os banalizamos. E ajudamos a construir uma cidade, que não faz sentido, por nossa ação ou omissão. Podemos tentar fazer diferente? Num passe de mágica, o braço emergiu do córrego e voou para as mãos de Alex, que entrou em seu carro e, rapidamente, chegou à avenida Paulista onde David o esperava deitado no chão. Ao chegar, o braço retornou de pronto ao seu lugar e a bicicleta prateada se desamassou. Alex voltou para o carro a tempo de chegar antes do fim da balada. Passou uma noite alegre, bebendo com os amigos. Quando o barman deixou cair o copo no chão, fazendo com que o tempo voltasse a correr para frente, chegou para um camarada e pediu para colocá-lo num táxi. Em casa, caiu em sono profundo, como há muito tempo não fazia, e sonhou com o futuro. Queria que as coisas fossem tão fáceis quanto uma inversão de texto. E que a responsabilidade pelo acontecido, no fundo, fosse só dele. “Meu filho disse que, mesmo sem o braço, tem a impressão de que ainda pode mexê-lo.” E que essa história saísse da minha cabeça e me deixasse dormir. * Publicado originalmente no Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto*
Foto: Divulgação/Internet Sociedade

Os “órfãos” de Chávez

[caption id="attachment_80150" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Divulgação/Internet"][/caption] É natural que a esquerda direitosa, de conteúdo nacional-reformista ou social-patriota, esteja se sentindo um tanto órfã diante da morte do Cel. Hugo Chávez, afinal, essa esquerda, indigente, anda sem referências políticas, qual náufrago, agarra-se a tábuas que lhes parecem seguras. Era Chávez, combativo? Sim! Era ele um palanqueiro? Sim! Entretanto, não devemos esquecer que uma das suas características era ser midiático e corajoso. Porém, o seu perfil político era o antiamericanismo e não levantava a voz contra o capitalismo. Nada dizia que desaprovasse o imperialismo inglês, francês, alemão, italiano, belga ou japonês. Em decorrência disso, ele procurava fazer alianças com o fascismo iraniano e sírio. Era justamente o seu antiamericanismo que fazia convergir para ele toda uma esquerda mal informada e prostrada diante da hegemonia política da burguesia imperialista. O povo pobre da Venezuela está em prantos diante da morte de Chávez, pois via nele a figura paterna que usando o dinheiro do petróleo promovia um trabalho de ações sociais, mitigando o sofrimento daquela gente. Essa conduta paternalista vamos encontrar em Getúlio Vargas, que se converteu em ídolo das classes trabalhadoras brasileiras, dispostas a identificá-lo como “pai dos pobres”, quando na verdade era “mãe dos ricos”. Em uma escala maior, tivemos na Argentina a figura populista de Juan Perón e sua mulher, Evita, cujos discursos eram dirigidos aos descamisados, aos despossuídos. Ora, não se faz triunfar a causa da justiça social através de governos. A transformação social dar-se-á, apenas, por via das massas populares insurgidas. Não se presta bons serviços à causa da igualdade social alimentando ilusões e fantasias. Temos que ter bem claro que a luta pela emancipação humana deve partir do princípio mater de que é o capitalismo o nosso inimigo, e nunca particularizá-lo de forma tão reducionista, como é o antiamericanismo. O antiamericanismo incorre no grave erro de não perceber que o imperialismo é produto do desenvolvimento capitalista. Assim sendo, é no anticapitalismo que está a luta consequente contra o imperialismo, e é por essa razão que insistimos em dizer: ser antiamericano não é ser anticapitalista, vide os casos do Talibã, do Irã, da Síria e do fundamentalismo islâmico de caráter fascista. Que mereça Hugo Chávez as nossas reverências pelo que ele foi, tudo bem! Mas não podemos acatar os seus limites políticos, quando se colocava como adepto de um socialismo que se apoiaria em uma distorcida combinação de Marx com Jesus. Muito menos devemos aceitar a sua confusa ideia de um socialismo do século XXI. Um socialismo bolivariano cujo guia exemplar seria o herói da luta anticolonial Simón Bolívar. * Gilvan Rocha é militante socialista e membro do Centro de Atividades e Estudos Políticos. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Gilvan Rocha*
Foto: Vincenzo Pinto/ AFP Sociedade

Desafios ao novo papa

[caption id="attachment_80154" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Vincenzo Pinto/ AFP"][/caption] São muitas as especulações quanto ao cardeal que será eleito sucessor de Bento XVI agora em março. A rigor, qualquer homem batizado na Igreja Católica é potencial candidato. Embora haja bolsas de apostas em torno dos “papabiles”, os variados palpites costumam dar zebra. Exceção foi o cardeal Ratzinger. Era teólogo do papa João Paulo II, presidente da Congregação da Doutrina da Fé, decano do colégio cardinalício e gozava, como teólogo, de certa ascendência sobre a maioria dos cardeais. Foi eleito pontífice em 2005, aos 78 anos. Há indícios de que, desta vez, será eleito um cardeal mais jovem. A Igreja não suporta mais tantos conclaves frequentes. Minha geração acompanhou as escolhas de João XXIII (1958), Paulo VI (1963), João Paulo I (1978), João Paulo II (1978) e Bento XVI (2005). A eleição do polonês Karol Woytila, em 1978, tirou dos italianos o monopólio do papado, que durou 456 anos. O que foi reiterado pela eleição de seu sucessor em 2005, o alemão Joseph Ratzinger. De novo, a Itália tentará recuperar a sé romana. Entre os italianos, os nomes mais cotados são os dos cardeais Gianfranco Ravasi, de 70 anos, presidente do Pontifício Conselho de Cultura, e Ângelo Scola, de 71 anos, arcebispo de Milão. Ravasi, homem da poderosa Cúria Romana, é visto como bom teólogo e homem espiritualizado. João Paulo II e Bento XVI o escolheram como pregador do retiro papal na quaresma. Scola é poliglota, vinculado ao movimento Comunhão e Libertação e considerado conservador. Poderá o futuro papa ser um não europeu? A Europa estará presente na Capela Sistina com 60 cardeais. E bastarão 77 votos para eleger o novo pontífice. Será uma grande surpresa a escolha de um papa não europeu. Infelizmente a Igreja Católica ainda é demasiadamente eurocentrada. Há entre os europeus quem encare os demais continentes como sucursais. Ainda perduram resquícios de séculos de colonialismo. Se Bento XVI foi um papa de transição, seu sucessor terá pela frente a difícil missão de adequar a Igreja à pós-modernidade. Um cardeal conservador seguiria os passos de Bento XVI e manteria a barca de Pedro alheia aos tempos atuais. Quais os grandes desafios a serem enfrentados pelo novo papa? Primeiro, implementar as decisões do Concílio Vaticano II, ocorrido há 50 anos! Isso significa mexer na estrutura piramidal da Igreja, flexibilizar o absolutismo papal, instaurar um governo colegiado. Seria saudável que o Vaticano deixasse de ser um Estado e, o papa, chefe de Estado, e fossem suprimidas as nunciaturas, suas representações diplomáticas. A Santa Sé precisa confiar nas conferências episcopais, como a CNBB, que representam os bispos de cada país. Outro desafio é dar fim ao tabu em relação à moral sexual. Hoje, é vetado debater esse tema no interior da Igreja. A rigor, os católicos estão todos proibidos de manter relações sexuais que não sejam com a explícita intenção de procriar; contrair segundas núpcias após divórcio; usar preservativos; admitir o aborto em certas circunstâncias; aprovar a união de homossexuais; defender o fim do celibato obrigatório para padres e o direito de acesso das mulheres ao sacerdócio. Resultado: a dupla moral. Uma, a da doutrina oficial; outra, a praticada pelos fiéis. E os escândalos de pedofilia como reflexo da suposta coincidência entre vocação ao sacerdócio e vocação ao celibato. Na Igreja primitiva a distinção era nítida. E no evangelho de Marcos, no primeiro capítulo, consta que Jesus curou a sogra de Pedro. Deduz-se, pois, que Pedro tinha mulher. O que não o impediu de ser escolhido cabeça da Igreja. Um terceiro desafio é a relação da fé com a ciência. Bento XVI reabilitou Teilhard de Chardin (1881-1955), padre jesuíta e renomado cientista, proibido em toda a sua vida de publicar um único livro. E João Paulo II pediu perdão, em nome da Igreja, por esta ter condenado Galileu e Darwin, abolindo a teoria criacionista da doutrina católica e admitindo o evolucionismo. Falta, entretanto, aprofundar nas hostes católicas o debate sobre o uso de células troncos, a nanotecnologia, a fertilização de embriões e outros temas que concernem à biotecnologia e à bioética. A ciência se emancipou da religião e corre o risco de abandonar os parâmetros éticos e morais, caso os potenciais provedores desses parâmetros fiquem divorciados dela. O quarto desafio são os diálogos ecumênicos, entre as várias Igrejas cristãs, e o inter-religioso, da Igreja Católica com as denominações religiosas não cristãs. Para o ecumenismo, Roma precisa admitir que seu bispo é pastor universal dos católicos, mas não dos cristãos. E se o bispo de Roma serve de referência à fé dos católicos, não deveria, no entanto, exercer autoridade direta sobre as Igrejas espalhadas mundo afora. Quanto ao diálogo inter-religioso, é importante abrir-se ao mundo muçulmano, livrando a Igreja do preconceito que o identifica com fundamentalismo. A teologia oficial da Igreja deve muito a islâmicos como Averrois e Avicena, que abriram as vias de acesso a Aristóteles, cuja filosofia respalda o tomismo. Acresce-se a isso a importância do diálogo com o budismo e o ateísmo. Ser papa é uma honra. Mas, também, uma cruz, bem traduzida no melhor e mais evangélico dos títulos do romano pontífice: servo dos servos de Deus. * Frei Betto é escritor, autor de Alfabetto – Autobiografia Escolar (Ática), entre outros –http://www.freibetto.org – twitter:@freibetto. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Frei Betto*
Votação na Câmara dos Deputados. Foto: Divulgação/Internet Sociedade

De costas para a sociedade civil

[caption id="attachment_80158" align="alignleft" width="300" caption="Votação na Câmara dos Deputados. Foto: Divulgação/Internet"][/caption] Tenho visto muita reação às decisões sobre o comando das Mesas e das Comissões Permanentes no Congresso. Em especial, foram várias as controvertidas decisões sobre a direção de Comissões temáticas relevantes, como a de Direitos Humanos da Câmara ou a de Meio Ambiente do Senado. Sem falar na presidência das duas Casas do Congresso. Houve problemas também na indicação de membros para várias dessas comissões pelos partidos. A questão fundamental é por que no Brasil autoridades eleitas podem decidir de costas para a sociedade, sem qualquer consequência para suas trajetórias políticas. Por que os partidos fazem indicações claramente destituídas de legitimidade e credibilidade, o Congresso vota nomes que são publicamente rejeitados por milhares de eleitores e parcelas relevantes e ativas da opinião pública e de formadores de opinião? Falando de forma mais simples e direta: por que os partidos e o Congresso e, não raro, o Executivo decidem de costas para a sociedade civil organizada? Só existe uma resposta plausível, técnica e politicamente. Porque a sociedade civil organizada é irrelevante na eleição e reeleição da maioria dos parlamentares no Brasil e as reações às decisões tomadas ao longo do mandato pelos presidentes, tampouco pesam quando disputam a reeleição. Os partidos não representam a sociedade e o Brasil voltou a ter currais eleitorais sólidos, que permitem às oligarquias partidárias se reproduzirem no poder, independentemente da opinião pública. Os partidos estão voltados para si mesmos e basta-lhes manejar os redutos que garantem a suas lideranças o monopólio de suas cadeiras. Há, portanto, uma deficiência estrutural em nosso sistema representativo e que vem se agravando. Eu diria que esta legislatura representa o ápice da manifestação dessa falha estrutural. Mas há, também, um problema pelo lado da sociedade civil organizada. Ela, claramente, não conseguiu desenvolver mecanismos de mobilização, manifestação de sua indignação e repúdio à ordem política vigente que faça diferença. Também não conseguiu enfrentar a alienação da parte pouco ativa da sociedade civil, que tolera o intolerável, se acomoda e, mesmo discordando do que se passa e se indignando privadamente, não se dispõe a somar sua voz à indignação pública. Em outras palavras, as formas de manifestação até agora utilizadas pela sociedade civil organizada, pela parcela ativa da opinião pública, têm sido irrelevantes para mudança dessa ordem política e para convencimento da sociedade brasileira de que ela precisa agir por essas mudanças. O Brasil tem diante de si duas tarefas críticas para construir uma democracia ampliada, verdadeiramente representativa, participativa e na qual a voz da opinião pública tenha consequências para as atitudes dos Três Poderes. Em particular, na qual o Legislativo e o Executivo, formados pelo voto popular, ouçam e respeitem a voz da sociedade civil. Especialmente quando os interesses mais afetados pela decisão manifestem opinião clara em determinada direção. Exemplo direto: nenhuma Casa do Congresso pode eleger para a Comissão de Direitos Humanos parlamentares rejeitados pelos principais grupos que atuam na defesa desses direitos, ou que tem sido vítimas da violação desse direitos e cuja biografia contenha indícios que ponham em dúvida que trabalharão efetivamente pelo reconhecimento e respeito a esses direitos e pela punição de transgressores. A primeira tarefa diante de todos é pensar de forma inovadora sobre as falhas estruturais de nossa democracia representativa. Significa ir muito além do rame-rame que se discute com o nome de reforma política. Esse ramerrão gira sem parar em torno das mesmas, surradas ideias: financiamento público, voto distrital, cláusula de exclusão, sistema misto alemão, lista. A Itália entrou nessa, adotou uma versão macarrônica do sistema alemão, e deu no que deu. É preciso pensar mais além, inclusive na adequação das formas partidárias às exigências da democracia no século 21. Pensar no uso mais intenso das tecnologias de mobilização e participação nas eleições, na democratização do Legislativo, hoje a mais oligárquica e deteriorada de nossas instituições políticas. Mas não podemos esquecer o Executivo, que também é eleito pelo vogo direto popular. As novas evidências trazidas por matérias de Matheus Leitão e Rubens Valente para a Folha de São Paulo denunciam um problema que não existiria se tivéssemos um verdadeiro sistema de acesso à informação pública, apoiado em tecnologias contemporâneas. Vivemos verdadeiro colapso dos serviços públicos, mas a ouvidorias públicas e privadas fazem ouvidos moucos aos milhões de reclamações que recebem. E ninguém é demitido. As agências reguladoras foram desmontadas, hoje são totalmente inoperantes, todo mundo anda indignado com o mau funcionamento das telecomunicações, dos aeroportos, com o estado das estradas, com os apagões sucessivos na rede elétrica das cidades. E nada acontece, ninguém é demitido. Nenhuma mudança. Isso é falha da democracia e de governança por parte do Executivo. E ausência absoluta de fiscalização parlamentar. No caso das ouvidorias e das audiências públicas, é claro que não funcionam. As primeiras, hoje, ou são ineptas, ou estão capturadas pelos interesses daqueles que deveriam estar fiscalizando e punindo. Punições que envolvam menos multas e mais demissões dos gestores responsáveis pela má prestação dos serviços públicos. As audiências públicas são vergonhosamente manipuladas, seja na área ambiental, seja no Congresso e olimpicamente ignoradas, quando, quase por milagre, são representativas e chegam a conclusões que contrariam os arranjos já realizados para impor as decisões supostamente em debate, portanto em aberto. Nesses casos, o Judiciário tem sido entre omisso e conivente. Mas é verdade, também, que tem sido menos provocado pela sociedade do que deveria. A reclamação ao Judiciário é um direito e sua resposta em tempo hábil um dever da magistratura. Há anos, reclama-se da morosidade do Judiciário e se discute a necessidade de reformas e medidas. Mas nada de relevante se faz. O Brasil não dispõe de mecanismos de transparência e responsabilização das autoridades cujo poder é delegado pelo povo. Por exemplo, o recall, que equivale à revogação do mandato por desobediência à vontade dos eleitores ou por falha grave na condução dos negócios públicos. As escolhas para o comando das Mesas do Congresso deveriam ser objeto de consulta popular, no caso de haver uma petição com assinaturas por pelo menos 1% do eleitorado. As posses só poderiam ocorrer após o referendo popular. A petição, por exemplo, rejeitando a escolha do presidente do Senado cumpre essas condições, é de conhecimento público e foi entregue ao Congresso. E daí? Ele tomou posse e presidiu a uma das mais importantes decisões que cabe ao Congresso, envolvendo o poder de veto presidencial e o pacto federativo. Precisamos de uma cláusula constitucional que determine o referendo popular dessas eleições internas, quando contestadas por número significativo de eleitores, como foi o caso. Provavelmente a história seria outra. A decisão dos royalties do petróleo interfere diretamente no pacto federativo. Não vou entrar no mérito da decisão em si. Minha opinião sobre petróleo e pré-sal é conhecida e pode ser consultada pesquisando esse site. Do ponto de vista democrático e da representatividade, esse tipo de decisão jamais poderia ser tomado em sessões tumultuadas e aparelhadas como foi o caso e teria obrigatoriamente que ser objeto de referendo popular. Só desta forma se pode alterar o pacto federativo, especialmente, quando se refere ao compartilhamento de receitas públicas. Não há sistema eleitoral ou de financiamento de campanhas que resolva esses problemas estruturais da representação. Eles requerem mudanças no próprio cerne da democracia representativa, tal como ela vem sendo praticada deste o final do século 19. Não estou dizendo que deveríamos ter um sistema baseado em plebiscitos. A história da América do Sul contém numerosos exemplos de manipulação de plebiscitos. Mas precisamos usar mais tecnologia para desenvolver mecanismos de controle social democrático da governança. E, de novo, não defendo a odiosa interferência na liberdade de imprensa que essa noção de controle social tem acobertado recentemente. Falo do controle social do Legislativo e do Executivo por mecanismos de acesso à informação, revogação de mandatos e de abertura de novos canais de voz para a opinião pública nas decisões não-rotineiras dos poderes constituídos pelo voto popular. E não considero essa agenda de mudanças esgotadas. Ao contrário, precisamos refletir e discutir mais, por fora dos escaninhos mentais convencionais, sobre as mudanças necessárias à democratização de nossa sociedade e nossa política. Pelo lado da sociedade, é preciso que os movimentos sociais, as organizações da sociedade civil, os indivíduos ativos e participantes façam profunda autocrítica. Se os políticos são capazes de resistir à pressão social é porque há falha na estrutura política, mas também porque essa pressão tem sido ineficiente. Ela também tem suas falhas comportamentais: excesso de ideologismo, em um momento de falência ideológica; intolerância com a diversidade de opiniões (que leva, inclusive ao desejo de censurar a imprensa que pensa diferente); divisões internas sem base substantiva; excesso de faccionarismo; discursos ultrapassados; oportunismo; cooptação; falta de coerência em relação à macroagenda nacional – escolhendo de forma faccionária e oportunista os temas para intervenção. É comum ver certas organizações se manifestando duramente sobre um tema e calando sobre o outro, embora eles sejam inegavelmente correlatos e, por coerência, deveriam ter o mesmo tratamento. São muitas, também, as insuficiências visíveis no uso das novas tecnologias, no processo de mobilização, na formação e legitimação de lideranças e porta-vozes. Há muito mais propensão ao ataque para desqualificar qualquer opinião, organização ou pessoa que se julga adversária, do que ao diálogo, que significa falar e ouvir. Falar e ouvir. Há movimentos sociais que cometem os mesmos erros dos governos, que fazem audiências públicas só para falar, nunca para ouvir. Os eventos por eles organizados são assim, também, só para falar. E quando ouvem o que não querem apupam, calam o suposto interlocutor. Como demandar democracia, sem ter comportamento democrático na base? Não são problemas exclusivamente nossos. Estamos vivendo uma fase de longa transição, de declínio da velha ordem econômica, social e política que teve seu auge no século passado. A nova ordem ainda não está visível e nem sequer temos sabido como discutir o futuro a construir. Nem em nosso imaginário temos tentado visualizar integralmente a nova ordem que queremos. Não podemos interferir no passado, mas podemos construir o futuro. Estamos vivendo tempos líquidos, como diz Zygmunt Bauman, palmilhando terrenos cediços. Por isso precisamos apurar nosso senso crítico, mas, sobretudo, aguçar nosso senso autocrítico. Isso tudo que está aí foi também resultado de escolhas nossas. * Publicado originalmente no site Ecopolítica.


por Sérgio Abranches*
Papa Bento XVI. Foto: Divulgação/pascomnovacruzrn.blogspot.com.br Sociedade

O colapso de sua teologia: razão maior da renúncia de Bento XVI?

[caption id="attachment_80113" align="aligncenter" width="400" caption="Papa Bento XVI. Foto: pascomnovacruzrn.blogspot.com.br"][/caption]   É sempre arriscado nomear um teólogo para a função de Papa. Ele pode fazer de sua teologia particular, a teologia universal da Igreja e impô-la a todo o mundo. Suspeito que esse foi o caso de Bento XVI, primeiramente enquanto Cardeal, nomeado Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Inquisição) e depois Papa. Tal fato não goza de legitimidade e se transforma em fonte de condenações injustas. Efetivamente condenou mais cem teólogos e teólogas por não se enquadrarem em sua leitura teológica da Igreja e do mundo. Entre as razões para sua renúncia, o Papa alega "diminuição de vigor do corpo e do espírito”e de "sua incapacidade” de enfrentar as questões que dificultavam o exercício de sua missão. Por detrás desta formulação, estimo que se oculta a razão mais profunda de sua renúncia: a percepção do colapso de sua teologia e do fracasso do modelo de Igreja que quis implementar. Uma monarquia absolutista não é tão absoluta a ponto de dobrar a inércia de envelhecidas estruturas curiais. As teses centrais de sua teologia sempre foram problemáticas para a comunidade teológica. Três delas acabaram refutadas pelos fatos: o conceito de Igreja como "pequeno mundo reconciliado”; a Cidade dos Homens só ganha valor diante de Deus passando pela mediação da Cidade de Deus; e o famoso "subsistit” que significa: só na Igreja Católica subsiste a verdadeira Igreja de Cristo; todas as demais "igrejas’ não podem ser designadas igrejas. Esta compreensão estreita de uma inteligência aguda mas refém de si mesma, não tinha a força intrínseca suficiente e a adesão para ser implementada. Bento XVI teria reconhecido o colapso e coerentemente renunciado? Há razões para esta hipótese. O Papa emérito teve em Santo Agostinho seu mestre e inspirador. De Agostinho assumiu a perspectiva de base, começando com sua esdrúxula teoria do pecado original (se transmite pelo ato sexual da geração). Isso faz com que toda a humanidade seja uma "massa condenada”. Mas dentro dela, Deus por Cristo, instaurou uma célula salvadora, representada pela Igreja. Ela é "um pequeno mundo reconciliado” que tem a representação (Vertretung) do resto da humanidade perdida. Não é necessário que tenha muitos membros. Basta poucos, contanto que sejam puros e santos. Ratzinger completou-a com a seguinte reflexão: a Igreja é constituída por Cristo e os Doze Apóstolos. Por isso é apostólica. Desconsidera os discípulos, as mulheres e as massas que seguiam Jesus. Para ele não contam. São atingidas pela representação (Vertretung) que "o pequeno mundo reconciliado” assume. Esse modelo eclesiológico não dá conta do vasto mundo globalizado. Quis então fazer da Europa "o mundo reconciliado” para reconquistar a humanidade. Fracassou porque o projeto não foi assumido por ninguém e até posto a ridículo. A segunda tese tirada também de Santo Agostinho é sua leitura da história: o confronto entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Na Cidade de Deus está a graça e a salvação: ela é o único pedágio que dá acesso à salvação. A Cidade dos Homens é construída pelo esforço humano. Mas como já é contaminado, todo o seu humanismo e demais valores, não conseguem salvar porque não passaram pela mediação da Cidade de Deus (Igreja). Consequentemente o Card. Ratzinger condena duramente a teologia da libertação porque esta buscava a libertação pelos pobres mesmos, feitos sujeitos autônomos de sua história. Mas como não se articula com a Cidade de Deus e sua célula, a Igreja, é insuficiente e vã. A terceira é uma interpretação pessoal que dá do Concílio Vaticano II quando fala da Igreja de Cristo. A primeira elaboração conciliar dizia que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo. As discussões, visando o ecumenismo, substituíram o é pelo subsiste para dar lugar a que outras Igrejas cristãs, a seu modo, realizassem também a Igreja de Cristo. Essa interpretação sustentada na minha tese doutoral mereceu uma explícita condenação do Card. Ratzinger no seu famoso documento Dominus Jesus (2000). Afirma que subsiste vem de "subsistência" que só pode ser uma e se dá na Igreja Católica. As demais "igrejas” possuem "somente” elementos eclesiais. Tanto eu quanto outros notáveis teólogos mostramos que este sentido essencialista não existe no latim. O sentido é sempre concreto: "ganhar corpo”, "realizar-se objetivamente”. Esse era o "sensus Patrum” o sentido dos Padres conciliares. Estas três teses centrais foram refutadas pelos fatos: dentro do "pequeno mundo reconciliado” há demasiados pedófilos até entre cardeais e ladrões de dinheiros do Banco Vaticano. A segunda, de que a Cidade dos Homens não tem densidade salvadora diante de Deus, labora num equívoco ao restringir a ação da Cidade de Deus apenas ao campo da Igreja. A Cidade dos Homens é atravessada pela Cidade de Deus, não sob a forma de consciência religiosa, mas sob a forma de ética e de valores humanitários. O Concílio Vaticano II garantiu a autonomia das realidades terrestres que tem valor independentemente da Igreja. Contam para Deus. A Cidade de Deus (Igreja) se realiza pela fé explícita, pela celebração e pelos sacramentos. A Cidade dos Homens pela ética e pela política. A terceira de que somente a Igreja Católica é a única e exclusiva Igreja de Cristo e ainda mais, que fora dela não há salvação, tese medieval ressuscitada pelo Card. Ratzinger, foi simplesmente ignorada como ofensiva às demais Igrejas. Ao invés do "fora da Igreja não há salvação” se introduziu no discurso dos Papas e dos teólogos "o universal oferecimento da salvação a todos os seres humanos e ao mundo”. Nutro a séria suspeita de que, tal fracasso e colapso de seu edifício teológico, lhe tirou "o necessário vigor do corpo e do espírito” a ponto de, como confessa "sentir incapacidade” de exercer seu ministério. Cativo de sua própria teologia, não lhe restou outra alternativa senão, honestamente, renunciar. * Leonardo Boff é filósofo, teólogo, escritor e comissionado da Carta da Terra. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Leonardo Boff*
so8 Sociedade

Incorporação dos princípios da responsabilidade social

Princípios e valores devem estar alinhados à cultura organizacional, ser construídos de forma participativa e representar a essência da organização. Nos dias de hoje, a preocupação com aspectos sociais e ambientais já faz parte dos negócios. A responsabilidade social é tema permanente na agenda das organizações. É raro encontrar uma empresa que não tenha algum princípio ou valor relacionado às questões sociais, tais como a eliminação do trabalho infantil; ou ambientais, como a redução de seus resíduos sólidos. No entanto, o que se nota é a pluralidade de princípios e a dificuldade de incorporá-los de maneira que os resultados sejam percebidos nas práticas cotidianas da organização. Isto é, vive-se um momento em que o discurso está consolidado, há a vontade de gerenciar a responsabilidade social e, portanto, aparecem os desafios naturais desse movimento. Como esses princípios e valores se manifestam na prática? Como são incorporados? Responder a essas questões tem sido um dos objetivos de diversos instrumentos de mercado que orientam as organizações nessa empreitada. A norma ANBT NBR ISO 26000 – Diretrizes sobre Responsabilidade Social1 – e os Indicadores Ethos de Responsabilidade Social Empresarial são bons exemplos desses esforços e servem como referência. Primeiramente, é preciso esclarecer quais são os princípios básicos para que uma organização gerencie sua responsabilidade social, aquilo que orienta suas políticas, estratégias e, consequentemente, suas atividades. É claro que princípios e valores devem estar alinhados à cultura organizacional, ser construídos de forma participativa, de dentro para fora, e representar a essência da organização. Em muitos casos, são apresentados no formato de declaração de princípios e código de conduta. No entanto, há um mínimo denominador comum que deve estar presente na base da formulação dos princípios e valores de cada organização. A norma ABNT ISO 26000 propõe sete princípios, que procuram sintetizar as orientações básicas de gestão e conduta para que as organizações consigam alcançar seus objetivos de negócios com responsabilidade social. Por esse motivo, são abrangentes e respondem às demandas de diversos segmentos da sociedade, a fim de potencializar a organização como promotora de uma nova economia, inclusiva, verde eresponsável. São eles: 1. Accountability O que é: Prestar contas e se responsabilizar por seus impactos na sociedade, na economia e no meio ambiente, principalmente aqueles com consequências negativas significativas. Como se faz na prática: Conhecer os impactos das decisões e atividades da organização na sociedade e, no caso de impactos negativos imprevistos e não intencionais, aceitar a investigação apropriada e tomar medidas para que sua repetição seja evitada. Dar respostas e prestar contas tanto para os controladores e as autoridades legais como para as partes interessadas afetadas por suas decisões e atividades. 2. Transparência O que é: Ser transparente, comunicar sobre as decisões e atividades que impactam a sociedade e o meio ambiente. Como se faz na prática: Comunicar de forma clara, precisa, completa e acessível as informações referentes à organização, como impactos conhecidos e prováveis de suas decisões e atividades, governança, origens e aplicações de recursos financeiros, critérios e resultados de seu desempenho econômico, social e ambiental. Divulgar o modo como identifica, seleciona e engaja suas partes interessadas. 3. Comportamento ético O que é: Comportar-se eticamente, baseada em valores de honestidade, equidade e integridade. Como se faz na prática: Ter o compromisso de lidar com o impacto de suas atividades e decisões de forma a preocupar-se com os interesses das pessoas e dos animais e com o meio ambiente. Identificar e declarar os valores fundamentais da organização e comunicá-los de forma abrangente a todas as partes interessadas. Estabelecer e promover padrões éticos de comportamento, de acordo com seus princípios e atividades, a partir do monitoramento e também do oferecimento de canais de denúncia. Prevenir e solucionar conflitos de interesse. 4. Respeito aos interesses das partes interessadas O que é: Respeitar, considerar e responder aos interesses de demais partes interessadas, além de proprietários, conselheiros, clientes ou associados. Como se faz na prática: Identificar as partes interessadas, seus interesses, preocupações, direitos legítimos e capacidade de engajamento. Reconhecer como as decisões e atividades da organização impactam as partes interessadas e como, reciprocamente, a organização é impactada. Colocar-se no lugar das partes interessadas para compreender seus pontos de vista e relacioná-los às expectativas da sociedade e do desenvolvimento sustentável. 5. Respeito pelo estado de direito. O que é: Aceitar que o respeito pelo estado de direito é obrigatório, isto é, nenhum indivíduo ou organização está acima da lei, nem mesmo o governo. Como se faz na prática: Manter-se informada sobre todas as leis e regulamentos aplicáveis às suas atividades e informar a todos na organização sobre a obrigatoriedade de cumpri-los. Assegurar a conformidade legal de todas as suas atividades, independentemente da localização e/ou do nível de fiscalização. 6. Respeito às normas internacionais de comportamento O que é: Acatar as normas internacionais de comportamento e, ao mesmo tempo, cumprir as leis e regulamentos a que está sujeita. Como se faz na prática: Reconhecer situações e localidades em que não haja legislação ou salvaguardas socioambientais adequadas e, nesses casos, respeitar como padrão mínimo as normas internacionais de comportamento. Reconhecer quando há contradição ou conflito entre a legislação local e as normas internacionais de comportamento e, nesse caso, buscar atender as normas internacionais dentro do possível, considerando, inclusive, as consequências do não cumprimento. Avaliar se há localidades e situações nas quais não vale a pena desenvolver atividades em razão dos conflitos com as normas internacionais de comportamento. Evitar ser cúmplice de atividades de outra organização que desrespeite as normas internacionais de comportamento. 7. Respeito pelos direitos humanos O que é: Respeitar e reconhecer a importância e universalidade da Carta Internacional dos Direitos Humanos, que inclui a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Como se faz na prática: Reconhecer que os direitos humanos são aplicáveis em todos os países, culturas e situações. Respeitar e promover os direitos humanos, bem como monitorar o seu cumprimento em todas as decisões e atividades. O segundo momento é o da incorporação de princípios e valores, a qual também apresenta um conjunto de ações básicas que devem ser tomadas para que a organização amplie o alinhamento de sua gestão com as diretrizes de responsabilidade social. É necessário um grau de formalização para que a organização possa assumir o que foi estabelecido e orientar suas decisões e atividades. Como mencionado anteriormente, tanto a declaração e carta de princípios como o código de conduta são os formatos mais encontrados no mercado. É fundamental que sejam comunicados largamente para a sociedade, considerando todas as partes interessadas, de forma a fortalecer o compromisso público da organização. E que essa divulgação seja contínua. As partes interessadas diretamente envolvidas nas decisões e atividades da organização, a exemplo de funcionários e conselheiros, devem estar capacitadas tanto para aplicar os princípios como para monitorar seu cumprimento. Isto quer dizer que elas devem estar aptas a compreender a presença dos princípios em todas as suas rotinas de trabalho, sendo necessário um canal de denúncia seguro para o informe de não conformidades. É recomendável, inclusive, que uma área da organização seja responsável pela incorporação dos princípios, supervisione sua aplicação e programe auditorias internas e externas periodicamente. Diante do dinamismo dos temas tratados pela responsabilidade social, como também das mudanças nas expectativas e nos interesses da sociedade, espera-se que os princípios e valores sejam revistos com a participação das partes interessadas. Um terceiro ponto a ser considerado é o papel da organização como promotora da responsabilidade social em sua esfera de influência e na cadeia de valores. Os princípios adotados por uma organização são referência e inspiram o comportamento das organizações parceiras e das partes interessadas diretamente relacionadas ao cotidiano das operações. Portanto, além de comunicar os princípios, é importante disseminar sua aplicação na cadeia de valor e motivar a sociedade. O exemplo, a partir da implementação dos princípios, é o que diferencia a liderança da organização, tanto em seu desempenho nos negócios quanto na responsabilidade social. * Vivian Paes Barretto Smith é mestre em Ciência Ambiental pelo Procam/USP e doutoranda em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. ** Publicado originalmente no site Instituto Ethos.


por Vivian Smith*

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