Lixo orgânico é transformado em negócio lucrativo no Brasil

Brasil

Lixo orgânico é transformado em negócio lucrativo no Brasil


por André Trigueiro*


A destinação inteligente do lixo úmido já é realidade em várias empresas do Brasil. Uma delas consegue faturamento médio de R$ 100 mil por mês. Lixo é um negócio lucrativo, e muito positivo para o meio ambiente, desde que tratado corretamente. O que se joga fora de comida por ano no Brasil daria para alimentar 30 milhões de pessoas. É a população do Iraque. Cada um de nós gera em média um quilo de lixo por dia e mais da metade disso é matéria orgânica. São 22 milhões de toneladas de alimentos que vão parar na lixeira. Resíduos que se transformam em uma bomba-relógio ambiental na maioria das cidades brasileiras. Abandonados a céu aberto, os resíduos orgânicos vão parar nos lixões, viram chorume, que contamina as águas subterrâneas. Gás metano, que agrava o efeito estufa. Atraem ratos, moscas e baratas, que transmitem doenças. É nesses locais que milhares de pessoas acabam vivendo, na tentativa arriscada de ganhar a vida, mas há quem já enxergue no lixo uma maneira correta de trabalhar e excelentes oportunidades de negócio. A destinação inteligente do lixo úmido já é realidade em várias empresas do Brasil. De restinho em restinho chega-se a cinco toneladas de lixo por mês numa fábrica de produtos de beleza. “Antes, a gente desenhava o procedimento mandando para aterro e hoje a gente utiliza nosso parceiro para fazer a compostagem, então é um ganho para sociedade”, fala o diretor da L'Oreal Brasil, Rogério Barbosa. Numa outra fábrica de equipamentos, os recicláveis são separados num galpão e mais recentemente, o lixo orgânico também passou a ter um destino mais nobre. Sem gastar um centavo a mais. “A gente consegue evitar que vá para aterros sanitários, cerca de três toneladas de resíduos orgânicos por mês”, fala o gerente de fabricação de equipamentos da White Martins, Giovani Santini Campos. Acompanhamos a rotina de uma das primeiras empresas do Brasil a transformar lixo orgânico em negócio lucrativo. O material é levado para um imenso galpão em Magé, na região metropolitana do Rio, onde acontece a compostagem. “A compostagem de forma natural duraria em torno de cinco a seis meses. Com um líquido, que funciona como catalisador do processo, a gente acelera isso para em média 40 dias”, explica o diretor comercial da Vide Verde, Marcos Rangel. Outra vantagem desse sistema é que ele reduz drasticamente as emissões de gases de efeito estufa, que provocam o aquecimento global. Nos aterros de lixo, gera-se 400 gramas de gás para cada quilo de lixo orgânico. Nas composteiras, essa emissão fica em torno de quatro gramas, por quilo, cem vezes menos. O que antes era resto de comida vira material seco, sem cheiro ou riscos para a saúde. Misturado à terra preta, o composto é ensacado para então se transformar em um produto cobiçado no mercado de jardinagem. Quem quiser pode produzir adubo orgânico dentro de casa. Em pelo menos cinco mil domicílios brasileiros, a Minhocasa é o destino final do lixo orgânico. “O resíduo orgânico que a gente pode colocar dentro desse minhocário pode ser desde as cascas de frutas e verduras, os talos, como também o alimento que já foi cozido como sobra de arroz, feijão, macarrão, casca de ovo, borra de café, pão embolorado, tudo isso é bem-vindo”, conta o sócio fundador da Minhocasa, César Cassab Danna. O sistema inspirado num modelo de política pública adotada na Austrália funciona até em apartamentos pequenos. Em caixas fechadas, que não exalam mau cheiro, as minhocas realizam de graça a conversão do lixo em adubo. * André Trigueiro é jornalista com pós-graduação em Gestão Ambiental pela Coppe-UFRJ onde hoje leciona a disciplina Geopolítica Ambiental, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC-RJ, autor do livro Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em Transformação, coordenador editorial e um dos autores dos livros Meio Ambiente no Século XXI, e Espiritismo e Ecologia, lançado na Bienal Internacional do Livro, no Rio, pela Editora FEB, em 2009. É apresentador do Jornal das Dez e editor-chefe do programa Cidades e Soluções, da Globo News. É também comentarista da Rádio CBN e colaborador voluntário da Rádio Rio de Janeiro. ** Publicado originalmente no site Mundo Sustentável.

Frederico Franco, atual presidente do Paraguai. Paraguai

Paraguai, democracia falsificada

[caption id="attachment_58094" align="alignleft" width="300" caption="Federico Franco, atual presidente do Paraguai."][/caption] Você compraria uísque Blue Label ou bolsa Louis Vuitton contrabandeados do Paraguai? Com certeza desconfiaria da qualidade. Isto vale para a "nova democracia” imposta pelo golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo. O país foi governado, durante 61 anos, pelo Partido Colorado, ao qual pertencia o general Stroessner, e também se filia o atual presidente golpista, Federico Franco. Após 35 anos sob a ditadura Stroessner, o povo paraguaio elegeu Lugo presidente, em abril de 2008. Eu estava em Assunção e o acompanhei às urnas. Havia esperança de que o país, resgatada a democracia, haveria de reduzir a desigualdade social. O novo governo tornou-se vulnerável ao não cumprir importantes promessas de campanha, como a reforma agrária, e se distanciar dos movimentos sociais. Apenas 20% dos proprietários rurais do país são donos de 80% das terras. Há que se incluir na cota os "brasiguaios”, grileiros brasileiros que expulsaram pequenos agricultores de suas terras para expandirem ali seus latifúndios. Lugo errou ao aprovar a lei antiterrorista e a militarização do norte do Paraguai, detendo lideranças camponesas e criminalizando movimentos sociais. Não soube depurar o aparelho policial, herança maldita de Stroessner. Em rito sumaríssimo, a 22 de junho, o Congresso paraguaio destituiu Lugo, sem assegurar-lhe amplo direito de defesa. É o chamado "golpe constitucional”, adotado pelos Estados Unidos em Honduras e, agora, no Paraguai. Preocupa a Casa Branca o progressivo número de países latino-americanos governados por lideranças identificadas com os anseios populares e incômodas aos interesses da oligarquia. Ao contrário de Zelaya, em Honduras, Lugo sequer pensou, ao ser derrubado, em convocar os movimentos sociais para apresentar resistência, embora contasse com a unânime solidariedade dos governos da Unasul. É o segundo sacerdote católico eleito presidente de um país no continente americano. O primeiro foi Jean-Bertrand Aristide, que governou o Haiti em 1991, de 1994 a 1996, e de 2000 a 2004. Os dois decepcionaram suas bases de apoio. Não souberam levar à prática o discurso da "opção pelos pobres”. Receosos diante das elites, a quem fizeram importantes concessões, não confiaram nas organizações populares. Os bispos paraguaios apoiaram a destituição de Lugo. E o Vaticano os respaldou. Isto não surpreende quem conhece a história da Igreja Católica no Paraguai e sua cumplicidade à ditadura Stroessner, enquanto camponeses eram massacrados e opositores políticos torturados, exilados e assassinados. A lógica institucional da Igreja Católica julga positivo um governo que a favoreça, e não que favoreça o povo. Exatamente o contrário do que ensina o Evangelho, para o qual o direito dos pobres é o critério prioritário na avaliação de qualquer exercício de poder. A derrubada de Zelaya e Lugo demonstra que a política intervencionista dos Estados Unidos prossegue. Agora em nova modalidade: valer-se de artimanhas legais para promover ritos sumários. Já que a última tentativa de golpe, em 2002, ao presidente Chávez, da Venezuela, não deu resultado. Ao contrário, toda a América Latina reagiu em defesa da legalidade e da democracia. Uma importante lição fica para os governos progressistas de Brasil, Argentina, Venezuela, Uruguai, Bolívia, Equador, Nicarágua, e vacilantes como El Salvador e Peru. Eleição não é revolução. Muda dirigentes mas não a natureza do poder e o caráter do Estado. Nem revoga a luta de classes. Portanto, há que assegurar a governabilidade no bojo desse paradoxo. Como fazê-lo? Há dois caminhos: por meio de alianças e concessões às forças oligárquicas ou mediante mobilização dos movimentos sociais e implantação de políticas que se traduzam em mudanças estruturais. A primeira opção é mais sedutora para quem se elegeu, porém mais fácil de ficar vulnerável à "mosca azul” e acabar cooptado pelas mesmas forças políticas e econômicas outrora identificadas como inimigas. A segunda via é mais estreita e árdua, mas apresenta a vantagem de democratizar o poder e tornar os movimentos sociais sujeitos políticos. A primavera democrática em que vive a América Latina pode, em breve, se transformar em longo inverno, caso os governos progressistas e suas instituições como Unasul, Mercosul e Alba não se convençam de que fora do povo mobilizado e organizado não há salvação. * Frei Betto é escritor, autor de Alfabetto – Autobiografia Escolar (Ática), entre outros – http://www.freibetto.org – twitter:@freibetto. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Frei Betto*
jornalismo Comunicação

Sustentabilidade jornalística, o novo desafio da profissão

Sustentabilidade virou palavra da moda. Primeiro foi no ambientalismo, depois contagiou os economistas e agora chega ao jornalismo, já não mais como um problema alheio, mas como um dilema profissional. Até agora a sobrevivência de um jornalista dependia do seu salário ou dos pagamentos avulsos. Os salários estão minguando tanto em valor como em frequência, enquanto os chamados frilas são numerosos, mas cada vez mais desvalorizados. Há jornalistas demais no mercado para trabalhos mal remunerados. Este é um problema globalizado que afeta profissionais, tanto de países ricos como de nações emergentes, como nós. Se o problema do desemprego já é grave para os jornalistas mais jovens e digitalizados, ele se transforma num dilema existencial para a maioria dos que superaram a marca dos 55 anos, faixa etária na qual o profissional alcança as condições ideais de experiência e conhecimento para exercer sua função. Toda uma geração de jornalistas está sendo expulsa do mercado pelo desemprego e pela falta de intimidade com as novas tecnologias, gerando um gap de conhecimento que aparece claramente na produção de matérias jornalísticas. Os mais novos patinam na inexperiência e nos modismos tecnológicos, enquanto os mais velhos se agarram a empregos em vias de extinção, culpando a tecnologia pelas suas agruras. O norte-americano Tom Stites conhece bem esta realidade. Já passou por grandes jornais em seu país, ganhou duas vezes o prêmio Pullitzer, e, no auge de sua maturidade profissional, passou a enfrentar o que ele chamou de “deserto informativo”. Compartilhou também as dificuldades de colegas na mesma faixa etária para sobreviver profissionalmente. Em 2010, ele e um grupo de amigos jornalistas decidiram partir para uma aventura. Enquanto uns compram uma motocicleta e saem por aí, o grupo de Stites resolveu criar um sonho jornalístico com a preocupação de combinar produção informativa independente e sustentabilidade econômica. Assim nasceu o projeto Banyan, cuja meta é desenvolver um modelo jornalístico que não dependa apenas da renda de salários e nem do pagamento de frilas. A ideia básica é a de que a crise dos jornais reduziu o volume de notícias jornalísticas oferecido ao público, criando um déficit noticioso, especialmente em nível local e hiperlocal, batizado como “deserto informativo”. A produção de notícias locais e hiperlocais já é um campo relativamente explorado por várias experiências, algumas com êxito relativo e outras fracassadas. Geralmente, a origem do insucesso está na falta de condições financeiras para manter o projeto, porque quase todas as iniciativas decolam apoiadas quase que exclusivamente em algum tipo de financiamento de algum mecenas. O projeto Banyan é baseado numa estrutura cooperativista entre jornalistas e o público, em pequenas cidades ou bairros de metrópoles, com uma lista de cinco possíveis fontes de renda. O projeto começou a ser testado na cidade de Haverhill (60 mil habitantes), no Estado de Massachusetts, e depois será oferecido como um pacote quem quiser aplicá-lo. O público funciona como informante permanente, ao mesmo tempo em que paga pelo acesso às informações. Os jornalistas recolhem, conferem, editam e publicam o material informativo, sendo remunerados proporcionalmente às receitas, que estão distribuídas entre publicidade convencional, contribuições dos membros da cooperativa, doações independentes, financiamentos de fundações privadas e instâncias governamentais, e trocas diretas (escambo). A aventura de Tom Stites e seus 27 colegas, em sua maioria grisalhos, ainda está longe de ser considerada um modelo, mas tem um mérito que a distingue de dezenas de outras experiências similares de produção jornalística não industrial. Ela coloca desde o início a sustentabilidade como condição de trabalho. Isso leva o foco das preocupações com o futuro do jornalismo para um novo terreno, onde a mudança de valores e rotinas é ainda mais radical do que a imposta pelas novas tecnologias no cotidiano das redações. Não há mais dúvidas de que o jornalismo deixou de ser um grande negócio e de gerar lucros astronômicos. Sendo assim, ele perde atrativos para os investidores interessados em retorno do capital aplicado. A publicidade, que até agora era a grande responsável pelas receitas financeiras da indústria jornalística, está migrando para a internet e seu modelo de negócios muda aceleradamente para o relacionamento individualizado com o consumidor, em vez da estratégia de uma mensagem para milhares de indivíduos. Sobra para os jornalistas a opção de descobrir a sua própria alternativa tirando leite de pedra. Aqui entramos no terreno das possibilidades, pois muito pouca coisa foi testada. A questão principal é que o modelo salarial não pode ser mais tomado como regra geral. A busca da sobrevivência no deserto informativo está levando muitos profissionais a avaliar a alternativa cooperativista como forma de viabilizar a sustentabilidade individual e do projeto com base numa combinação de dinheiro e troca direta – como, por exemplo, informação por supermercado. A questão que o projeto Banyan terá que enfrentar, por paradoxal que pareça, não é nem tecnológica e nem financeira, mas cultural. Como fazer com que o dono da farmácia ou o prefeito aceitem o escambo sem impor condições sobre o material produzido pelos jornalistas? Se esse hábito não for alterado, a credibilidade do projeto dificilmente estará em xeque e sua sobrevivência seriamente ameaçada. Daí é possível ver que a busca da sustentabilidade não é apenas uma questão técnica e também não depende apenas dos profissionais do jornalismo. Este desafio vai obrigar os jornalistas a se reaproximar do público para o qual produzem notícias. * Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.


por Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa
A mais rica cidade do Brasil queria coibir o sopão da madrugada. Foto: Fora do Eixo/Flickr Sociedade

As rodas da fortuna

[caption id="attachment_58070" align="alignleft" width="300" caption="A mais rica cidade do Brasil queria coibir o sopão da madrugada. Foto: Fora do Eixo/Flickr"][/caption] Não faz nem uma semana, São Paulo foi palco de um debate acirrado sobre o trabalho de voluntários que, durante a noite, distribuem sopas aos moradores de rua na maior cidade do país. A Prefeitura ensaiou censurar o trabalho, movimentos sociais reagiram e o prefeito Gilberto Kassab, ciente da má repercussão do caso, proibiu a proibição. No calor da discussão, muitos leitores esclarecidos e bem agasalhados aproveitaram o momento para colocar para fora uma bronca ancestral. Muitos se queixavam da presença dos mendigos que, como pestes transmissoras de doenças, se espalhavam pelo caminho de casa. “Em vez de dar o peixe é preciso ensinar a pescar”, discursaram os defensores do bom senso – que não por acaso têm o monopólio das varas, das redes, das iscas e dos barcos a motor. Um deles foi além: escreveu aos leitores deste site que a proibição da distribuição dos alimentos seria saudável para a economia paulistana. E explicou: com a ajuda dos voluntários, os legumes desapareciam das prateleiras, o que elevava os preços, gerava a inflação e prejudicava o bolso de quem trabalhava e tinha condições de comprá-los. Sem querer, o sujeito dava um retrato bem acabado do espírito utilitarista moderno, do qual os asseclas veem signos sem significantes (ou hieróglifos de uma linguagem estranha) toda vez que se deparam com expressões como “solidariedade” e “gratuidade”. Parece ironia, mas a mesma cidade, que ontem se negava a dar um prato de sopa aos seus moradores de rua, assistiria, pela tevê, a história de Rejaniel de Jesus Silva Santos e Sandra Regina Domingues, habitantes de um viaduto do Tatuapé que encontraram uma bolsa com R$ 20 mil e decidiram chamar a polícia. (O leitor preocupado com a inflação poderia se exasperar sabendo que os legumes seguirão em falta nas prateleiras, agora com um agravante: as notas de dinheiro seriam novamente injetadas na economia, cutucando com vara curta o fantasma da inflação.) Se tem uma história que os leitores adoram, e os jornais não perdem a chance de destacar, é sobre pessoas pobres que, diante da chance de enriquecer, devolvem o dinheiro que não lhes pertencia. Fica a impressão de que as coisas ainda têm jeito – e de alguma forma deve ter. É como um respiro no noticiário mundo-cão. A história do casal de catadores de São Paulo parecia inspirada em Onde os Fracos Não Têm Vez, o filme dos irmãos Coen baseado no livro de Cormac McCarthy em que o personagem de Josh Brolin encontra uma mala de dinheiro e passa o resto da vida penando por conta da própria sorte. (Já que o dinheiro pertencia a um grupo criminoso pouco disposto a fazer caridade.) Pelo menos no filme, vencedor do Oscar de 2008, o destino girou a roda da fortuna em direção contrária, e o apego à própria sorte provocaria estragos imateriais: o personagem ganha o dinheiro mas perde a paz, passa a ser perseguido e coloca em perigo a segurança da própria família. No caso de Rejaniel, havia principalmente duas preocupações admitidas nas inúmeras entrevistas dadas ao longo do dia: o medo de criar problemas com a polícia (que poderia desconfiar se o visse com tanto dinheiro) e a vontade de despertar o orgulho dos pais. De toda forma, o limiar entre a oportunidade escancarada e uma possível consequência desastrosa da sorte parecia tênue. Basta lembrar a ameaça sobre os dois candidatos a heróis das ruas feita pelos criminosos que haviam assaltado um restaurante em São Paulo e esconderam a mala possivelmente para despistar a polícia. (Impossível não imaginá-los com a cara do Javier Bardem.) De toda forma, o desprendimento dos dois moradores de rua provoca um nó na cabeça de quem, na semana passada, já se preocupava com o preço dos legumes ao consumidor final. É como rasgar nota de cem: não adianta buscar sentido na atitude. Mesmo assim, dá para ao menos imaginar que os moradores de rua já passaram por situações-limite tais de desapego que R$ 20 mil a mais, ou a menos, já não faz diferença. É como se houvesse uma ética própria das ruas, que oprime mas também abriga um despreendimento libertário impossível de ser encontrado em instituições como família, escola, trabalho e até albergues (todos com lógicas próprias, valores, regras e horários de funcionamento). Entender essa lógica com o olhar de quem não foi ao limite do desprendimento é exercício inútil. Em 2005, quando torcedores provocaram atos de vandalismo depois da conquista da Libertadores pelo São Paulo, vi uma banca de revistas ser destruída em segundos na base dos pontapés. A banca ganhou o formato de um número “8”, e logo foi invadida. Era parte da destruição. De onde eu estava, via as pessoas entrando na banca, parte delas com camisas oficiais de seu time, e levando o que cabia nas mãos: revistas, jornais, maços de cigarros, brindes. No mesmo instante, um catador de material reciclável, que passava pelo mesmo local sempre naquele horário, atravessou a bagunça com um olhar de estranhamento. Não só não aproveitou a chance de engordar o bolso surrado como balançou a cabeça em reprimenda aos espertalhões – que levavam num braço o que ele levaria uma noite para recolher em forma de latinhas de cerveja ou refrigerantes. Num mundo tão competitivo e de oportunidades tão escassas, a rejeição da própria sorte parece algo difícil de se entender. “Mas a vida real não é entendível”, escreveu certa vez Guimarães Rosa. A história do casal que recusou a própria sorte mostra que, nas ruas (ou no sertão, ou no deserto dos irmãos Coen), a sobrevivência não é medida pelas portas de oportunidades. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Matheus Pichonelli, da Carta Capital
A estilista Guo Pei em seu ateliê em Pequim. Foto: Divulgação Mundo

“Made in China” agora significa luxo

[caption id="attachment_58073" align="alignright" width="341" caption="A estilista Guo Pei em seu ateliê em Pequim. Foto: AFP/Ed Jones"][/caption] Diante do crescimento de uma nova elite chinesa, novas marcas de luxo locais estão deixando o estigma de "produto barato" para trás. A primeira coisa que vem à mente quando se pensa em produtos chineses é “barato” e “baixa qualidade”. Mas, nos últimos anos, o estigma começou a mudar. Com o surgimento de uma nova elite chinesa, marcas locais querem abastecer um outro tipo de demanda. Comparada com Alexander Mac Queen, a estilista Guo Pei administra um ateliê com mais de 400 funcionários, voltado exclusivamente para o mercado de luxo. “Nosso país está dando um grande salto”, diz a estilista de 44 anos ao jornal Le Monde. “Daqui a dez ou 15 anos, teremos designers incríveis.” Analistas acreditam que, até 2020, a China será responsável por 44% do consumo de produtos de luxo. As grandes marcas não esperaram para capitalizar o potencial do mercado. É o caso da Chanel, que criou uma coleção Paris-Xangai e organiza desfiles a cada temporada especial na China. Diante deste movimento, um número crescente de empresas quer capitalizar sobre marcas de luxo chinesas. Vinte marcas já estão presentes nesse nicho – fabricantes de relógios, joias, roupas e espumantes – e vários deles, como a marca de cosméticos Herborist, adaptaram tecnologias ou materiais antigos para satisfazer os gostos dos consumidores chineses de hoje. Os números desta marca de cosméticos de luxo chegam a US$ 300 milhões, e a marca está presente em 900 lojas em todo o país. Ela também iniciou a sua expansão no exterior. Em um relatório sobre bens de luxo da China, a empresa de consultoria AT Kearney disse que o “Made in China” foi “por milhares de anos, sinônimo de qualidade e expertise incomparável”. A virada veio no Século 20, quando a realização de economias de escala tornou-se predominante, em detrimento da qualidade de materiais e fabricação de produtos. Hoje, “com a economia crescendo novamente, os empresários chineses estão revivendo e recolocando no mercado séculos de know-how para criar uma nova geração de marcas de luxo”, avalia o documento. * Publicado originalmente no jornal Le Monde e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação do Le Monde
Leonardo Boff. Foto: Divulgação. Artigo

O impossível pacto entre o lobo e o cordeiro

[caption id="attachment_58079" align="alignleft" width="300" caption="Leonardo Boff. Foto: Divulgação"][/caption] Post Festum, podemos dizer: o documento final da Rio+20 apresenta um cardápio generoso de sugestões e de propostas, sem nenhuma obrigatoriedade, com uma dose de boa vontade comovedora mas com uma ingenuidade analítica espantosa, diria até, lastimável. Não é uma bússola que aponta para o “futuro que queremos” mas para a direção de um abismo. Tal resultado pífio se tributa à crença quase religiosa de que a solução da atual crise sistêmica se encontra no veneno que a produziu: na economia. Não se trata da economia num sentido transcendental, como aquela instância; pouco importam os modos, que garantem as bases materiais da vida. Mas da economia categorial, aquela realmente existente que, nos últimos tempos, deu um golpe em todas as demais instâncias (na política, na cultura e na ética) e se instalou, soberana, como o único motor que faz andar a sociedade. É a “Grande Transformação”, que já em 1944 o economista húngaro-norte-americano Karl Polanyi denunciava vigorosamente. Este tipo de economia cobre todos os espaços da vida, se propõe a acumular riqueza a mais não poder, tirando de todos os ecossistemas, até à sua exaustão, tudo o que seja comercializável e consumível, se regendo pela mais feroz competição. Esta lógica desequilibrou todas as relações para com a Terra e entre os seres humanos. Em face deste caos, Ban Ki Moon, secretário-geral da ONU, não se cansa de repetir na abertura das conferências: estamos diante das últimas chances que temos de nos salvar. Enfaticamente, em 2011, em Davos, diante dos “senhores do dinheiro e da guerra econômica”, declarou: “O atual modelo econômico mundial é um pacto de suicídio global”. Albert Jacquard, conhecido geneticista francês, intitulou assim um de seus últimos livros: A Contagem Regressiva já Começou? (2009). Os que decidem não dão a mínima atenção aos alertas da comunidade científica mundial. Nunca se viu tamanha descolagem entre ciência e política e também entre ética e economia como atualmente. Isto me reporta ao comentário cínico de Napoleão depois da batalha de Eylau, ao ver milhares de soldados mortos sobre a neve: “Uma noite em Paris compensará tudo isso”. Eles continuam recitando o credo: um pouco mais do mesmo, de economia e já sairemos da crise. É possível o pacto entre o cordeiro (ecologia) e o lobo (economia)? Tudo indica que é impossível. Podem agregar quantos adjetivos quiserem a este tipo vigente de economia, sustentável, verde e outros, que não lhe mudarão a natureza. Imaginam que limar os dentes do lobo lhe tira a ferocidade, quando esta reside não nos dentes, mas em sua natureza. A natureza desta economia é querer crescer sempre, a despeito da devastação do sistema-natureza e do sistema-vida. Não crescer é prescrever a própria morte. Ocorre que a Terra não aquenta mais esse assalto sistemático a seus bens e serviços. Acresce a isso a injustiça social, tão grave quanto a injustiça ecológica. Um rico médio consome 16 vezes mais que um pobre médio. Um africano tem trinta anos a menos de expectativa de vida que um europeu (Jaquard, 28). Em face de tais crimes, como não se indignar e não exigir uma mudança de rumo? A Carta da Terra nos oferece uma direção segura: “Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança na mente e no coração; requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal (…) para alcançarmos um modo sustentável de vida nos níveis local, nacional, regional e global”. Mudar a mente implica um novo olhar sobre a Terra não como o “mundo-máquina”, mas como um organismo vivo, a Terra-mãe, a quem cabe respeito e cuidado. Mudar o coração significa superar a ditadura da razão técnico-científica e resgatar a razão sensível onde reside o sentimento profundo, a paixão pela mudança e o amor e o respeito a tudo o que existe e vive. No lugar da concorrência, viver a interdependência global, outro nome para a cooperação e no lugar da indiferença, a responsabilidade universal, quer dizer, decidir enfrentar juntos o risco global. Valem as palavras do Nazareno: “Se não vos converterdes, todos perecereis” (Lc 13,5). * Leonardo Boff é teólogo e professor emérito de ética da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). ** Publicado originalmente no site Mercado Ético.


por Leonardo Boff*
BeloMonte Artigo

Belo Monte e a ignorância ambiental

Recentemente, o colunista do Correio da Cidadania Wladimir Pomar publicou dois artigos que me chamaram especialmente a atenção: “Perguntas de um ignorante ambiental” e “Belo Monte”, nos quais ele defende a construção de hidrelétricas como estratégias de desenvolvimento para o país, e este barramento, em especial, no Rio Xingu. Como colaborador frequente do Correio da Cidadania em questões ligadas ao meio ambiente, ecólogo e, acima de tudo, atingido direto por Belo Monte, pois resido na cidade de Altamira, no Pará, onde esta obra está sendo desenvolvida, sinto-me na obrigação de respondê-lo enfática e prontamente. Antes de tudo, é curioso que o colunista, que no primeiro artigo diz que “se vê um perfeito ignorante ambiental”, afirma categoricamente que o aquecimento global é um “dogma” (suposta verdade, inquestionável por seus defensores), ao invés de um fato científico mensurável, apesar da infinidade de cientistas sérios que estudam o assunto há algumas décadas. Mais adiante, supostamente na posição de “ignorante ambiental” ele se pergunta: “por que os que defendem o abandono da construção de hidrelétricas, desconsiderando os avanços técnicos e sociais que permitem mitigar em muito os danos ambientais e sociais, não assinam uma declaração pública comprometendo-se a não se manifestarem quando os apagões elétricos começarem, por falta do aumento da geração elétrica?”. Eu realmente gostaria de saber que avanços técnicos e sociais são estes, pois não são nada visíveis aqui ao lado do canteiro de obras da maior hidrelétrica em construção no Brasil. Lamentavelmente, sua defesa cega de Belo Monte revela que sua “ignorância” vai além do aspecto ambiental, mas que também é econômica, política e social, como fica mais claro no seu artigo mais recente. Pomar inicia seu último texto dizendo que, durante a Cúpula dos Povos da Rio+20, a construção da hidrelétrica de Belo Monte “foi transformada num dos crimes ambientais mais graves a ser derrotado pelos guerreiros ambientalistas”. Na verdade ela não foi “transformada” em crime. Trata-se de fato do mais grave crime ambiental da atualidade em todo o mundo. Isso porque o Xingu, até pouquíssimo tempo, era o último grande rio da Amazônia em bom estado de conservação, livre de hidrelétricas e amplamente ocupado por povos indígenas. Além do mais, ao contrário do que jura o governo, para ser viável economicamente, Belo Monte será a primeira de uma série de barragens a serem construídas neste rio e sua energia servirá apenas para atender às necessidades industriais (na forma de minérios cuja extração e processamento exigem grandes quantidades de eletricidade) das grandes potências capitalistas, e não ao desenvolvimento econômico e social brasileiro, como parece acreditar o ingênuo colunista. Mais adiante, Wladimir Pomar lamenta que a propaganda oficial de Belo Monte, exibida durante a Rio+20 tenha sido um “anúncio institucional tradicional sobre a grandeza da obra” enquanto ele esperava que fosse detalhado “o fato de que a represa de Belo Monte terá um baixo impacto ambiental, em parte devido à alagação mínima, por empregar turbinas de geração de fio d’água, em parte por ter planos para permitir a piracema e a navegação fluvial. E que comprovasse que o impacto social previsto deverá ser mais positivo do que negativo, por incluir medidas de promoção do desenvolvimento econômico e social das populações indígenas e não indígenas atingidas pela obra, além daquelas necessárias para evitar o colapso dos serviços públicos de saúde, educação e outros, em virtude do aumento populacional da região durante as obras... Explicando em detalhes tudo o que está planejado para evitar os erros do passado e atender às demandas de mitigação ambiental e desenvolvimento social, transformando a mobilização contra a represa de Belo Monte em mobilização a favor”. Para começar, as obras de Belo Monte já estão em andamento a todo vapor há mais de um ano. Então não é mais o momento em se falar no que está “planejado” para evitar os erros do passado, mas no que já foi feito. Ou melhor, do que não foi feito. Aqui em Altamira, já vivemos uma situação de “colapso dos serviços públicos de saúde, educação e outros, em virtude do aumento populacional da região durante as obras”. Nada, ou praticamente nada, tem sido feito no sentido de evitá-los. O que, evidentemente, não se percebe do escritório do colunista no Rio de Janeiro, mas está bem claro para todos os que vivem do lado de cá. E são esses os grandes responsáveis pela resistência contra a barragem, e não as tais “forças econômicas e políticas interessadas em impedir o processo de desenvolvimento econômico e social do Brasil”, que o colunista evoca para explicar a resistência à obra. Além disso, para os milhares de habitantes desta região, que terão as suas casas alagadas e que, a essa altura dos acontecimentos, ainda não foram sequer informados sobre para onde serão transferidos, esta não será uma “alagação mínima”. Nem para as várias pessoas que, como eu, terão o lindo rio à frente de sua cidade transformado em um lago podre. Nem será uma “alagação mínima” para as várias espécies de peixes, como o ornamental acari-zebra, que não ocorrem em nenhum outro lugar do planeta, e que serão extintas com a destruição das corredeiras da Volta Grande do Rio Xingu. As tais escadas para a piracema de que Wladimir Pomar fala são uma bobagem, pois não resolvem o problema dos peixes. Basicamente o que acontece é que peixes de corredeiras, como os grandes bagres, podem até subir as escadas para piracema, mas ao chegar ao lago acima da barragem, são imediatamente devorados por predadores de águas paradas como piranhas, ou simplesmente não resistem à baixa oxigenação das águas do lago, e morrem. Ninguém é obrigado a saber de tudo e o colunista realmente não precisaria estar ciente destes fatos ecológicos fundamentais das barragens, nem sobre a extinção de espécies endêmicas, ou que as barragens nas regiões tropicais, por meio da decomposição da vegetação em ambiente anaeróbico, produzem grande quantidade de metano, o que contribui imensamente para o aquecimento global (que é real e a maior ameaça ao futuro da humanidade), tanto quanto fontes energéticas oriundas de combustíveis fósseis de potência equivalente. Mas ele deveria saber que não somos ameaçados de “apagão” por problemas na geração de energia elétrica, mas pelo sistema de distribuição que é sucateado, e que as grandes potências capitalistas são as grandes interessadas na construção de Belo Monte, pois lucrarão duas vezes, com a venda dos equipamentos para o funcionamento da usina e com a compra de energia barata na forma de folhas de alumínio, subsidiadas pelo povo brasileiro que é quem está financiando a construção da barragem por intermédio do BNDES. Se Belo Monte fosse de fato um bom negócio não precisaria ser construída por um consórcio fundamentalmente estatal, financiado por recursos públicos. Mesmo deixando de lado os aspectos ambientais, só se defende essa obra faraônica, destrutiva e desnecessária, por interesses pessoais ou ignorância econômica e social. Finalmente, restam ainda os aspectos político-eleitorais, que desconfio que sejam a motivação fundamental do referido colunista. Apesar de todo o prejuízo econômico, social e ambiental trazido por Belo Monte, a obra é uma verdadeira maravilha para as grandes empreiteiras responsáveis pela sua construção e que foram os grandes financiadores da campanha da candidata do PT à Presidência da República. Como bem escreveu o leitor João Pedro no espaço de comentários sob o último artigo: “Você (Wladimir Pomar), como analista político, deveria ter um mínimo de discernimento para perceber que a sua identificação pessoal com o governo atual o está impedindo de analisar os fatos corretamente em relação à UHE de Belo Monte”. De fato, deve ser duro para um militante histórico de esquerda reconhecer que o grande projeto da presidente que ajudou a eleger, do partido que ajudou a criar, é um velho projeto da mesma ditadura militar que ele ajudou a combater, patrocinado pelo grupo político de José Sarney, que é o que há de mais atrasado nesse país, atendendo aos interesses do capital internacional. A alternativa a isso é a ignorância ou o silêncio, das duas a melhor opção. * Rodolfo Salm é PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da UFPA (Universidade Federal do Pará) em Altamira, e faz parte do Painel de Especialistas para a Avaliação Independente dos Estudos de Impacto Ambiental de Belo Monte. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Rodolfo Salm*
c4 Sociedade

”O lema do governo é retrógrado: ‘combater a seca’. Isto é uma ilusão, pois a seca é cíclica”

“A corrupção nas prefeituras municipais é um dos principais fatores para o entrave do desenvolvimento no semiárido”, declara o agrônomo Márcio Moura. O sertanejo sabe conviver com a seca e, diante de um longo período de estiagem, como o que se abate pelo semiárido brasileiro, faltam investimentos governamentais para garantir qualidade de vida aos agricultores. Diante desse cenário, o lema do governo de combater a seca “é retrógrado”, enfatiza o agrônomo Márcio Moura à IHU On-Line. Segundo ele, a “seca é cíclica, e devemos aprender a conviver com as adversidades de um fenômeno que é natural”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Moura critica a transposição do Rio São Francisco, e frisa que se trata de “mais uma ilusão do governo, que acredita que se combate a seca com superestruturas, em vez de investir nos sistemas familiares, que já possuem uma dinâmica produtiva, a qual está relacionada com a segurança alimentar, com a comercialização e com integração com o meio ambiente”. Para ele, a cultura assistencialista presente no semiárido dificulta o desenvolvimento da região. “As pessoas vendem o seu voto por uma carga d’água de carro-pipa, remédios, cimento. Por causa desse sistema, são eleitas pessoas com pouca capacidade de gerir em consenso com a sociedade, mas com muita capacidade de enriquecer ilicitamente”, assinala. Os programas governamentais, como Bolsa Família, Garantia Safra, Bolsa Estiagem, complementa, auxiliam na compra de alimentos, mas “não resolvem o problema, apenas transferem para a próxima geração, pois não são políticas concretas, que consigam que esses excluídos possam ter acesso aos direitos humanos, econômicos, sociais, culturais. Na verdade, é uma maquiagem”. Graduado em Agronomia pela Faculdade de Ciências Agrárias de Araripina (Faciagra), Márcio Moura é agrônomo da ONG Caatinga e coordenador do Programa de Políticas Públicas. Confira a entrevista. IHU On-Line – Segundo notícias da imprensa, essa é a maior seca do semiárido dos últimos 50 anos. Como os sertanejos enfrentam esses períodos? Márcio Moura – A região semiárida brasileira secularmente vive ainda o dilema da “indústria da seca”. As populações já diagnosticaram previamente quais as necessidades em relação às estruturas hídricas, para garantir água para o consumo das famílias, dos plantios e dos animais. São necessários investimentos dos governos federal e estadual, assim como aplicação dos recursos por parte dos municípios, para que se construam açudes, barreiros, barragens, perfuração de poços, sistemas adutores, a fim de que os agrossistemas possam ter sustentabilidade no período de estiagem. Por outro lado, a sociedade civil organizada, por meio da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) – entidade criada em julho de 1999 como fórum de organizações que atuam em prol do desenvolvimento social, econômico, político e cultural do semiárido brasileiro –, congrega atualmente cerca de 750 entidades dos mais diversos segmentos envolvidos com essa questão. Nela encontram-se organizações como as igrejas católica e evangélica, algumas ONGs, associações comunitárias, sindicatos e federações de trabalhadores rurais. Até este momento a ASA já viabilizou a construção de mais de 300 mil cisternas de placas de 16 mil litros para o consumo humano, o que vem diferenciando em relação a água de qualidade para as famílias agricultoras. Este vem sendo um grande apoio para as famílias agricultoras que têm enfrentado a seca. Para enfrentar os períodos de seca, muitos agricultores(as) investem na cultura da estocagem, ou seja, guardam água e alimento para o consumo familiar. Por intermédio de técnicas e práticas como silagem e fenação, asseguram o alimento para os animais e usam água de barreiros, poços e açudes para sustentar o rebanho. Os que têm menos condições ainda vendem os animais aos atravessadores no período mais difícil, que é de junho a janeiro, e esperam chover no próximo janeiro para readquirir os animais, quando finalmente se iniciam as chuvas no sertão. IHU On-Line – Como o semiárido aparece na agenda governamental? O governo brasileiro compreende quais são as necessidades e prioridades para a região? Márcio Moura – O governo de Dilma é muito tecnicista, é mais preocupado com as metas, dialoga pouco com a sociedade civil organizada, tanto que está desvalorizando o trabalho da ASA, que desenvolveu uma metodologia participativa para implementar cisternas de placas de 16 mil e 52 mil litros, barragens subterrâneas, bombas populares e barreiros lonados. Estas propostas deveriam ser valorizadas, pois entendemos que a obra física deve vir agregada à construção do conhecimento técnico com o saber das famílias. Nesse sentido, as instituições realizam momentos de formação em agroecologia com as famílias, para que possam valorizar o meio ambiente e desenvolver uma agricultura mais sustentável, valorizando os saberes tradicionais. Por meio do Ministério da Integração, o governo federal está instalando caixas de plástico – visando à campanha eleitoral de 2012 –, que são fabricadas em São Paulo, ao dobro do custo das que são construídas de alvenaria pelas famílias da região. Outro equívoco, ainda do governo Lula e que continua no governo Dilma, é a transposição do Rio São Francisco. O governo investiu milhões nessa obra, mas a inviabilidade está sendo demonstrada, pois o canal continua seco, rachando, e o ministro Fernando Bezerra Coelho continua solicitando mais recursos para consertar o que foi iniciado. É mais uma ilusão do governo, que acredita que se combate a seca com superestruturas em vez de investir nos sistemas familiares, que já possuem uma dinâmica produtiva, a qual está relacionada com a segurança alimentar, com a comercialização e com integração com o meio ambiente. O lema do governo é retrógrado: “combater a seca”. Isto é uma ilusão, pois a seca é cíclica, e devemos aprender a conviver com as adversidades de um fenômeno que é natural. As famílias precisam de políticas para estruturação de seus sistemas com mais recursos hídricos, acesso a crédito, assessoria técnica mais qualificada, saneamento básico, educação de qualidade, enfim, é isso que a zona rural no sertão ainda precisa para que as famílias possam viver com mais qualidade e dignidade. IHU On-Line – Como o senhor descreve o desenvolvimento social e econômico do semiárido brasileiro? A imagem de semiárido pobre e subdesenvolvido ainda permanece ou já começa a fazer parte do passado? Márcio Moura – Acredito que houve avanços sim. Hoje estamos num período de seca, mas não há invasão a feiras livres. Existem os programas governamentais como Bolsa Família, Bolsa Estiagem, Garantia Safra, Programa Brasil Sem Miséria, que são paliativos, mas acabam auxiliando na compra de alimentos. Esses são programas que não resolvem o problema, apenas transferem para a próxima geração, pois não são políticas concretas, que consigam que esses excluídos possam ter acesso aos direitos humanos, econômicos, sociais, culturais. Na verdade, é uma maquiagem. Mas não podemos generalizar, pois há o trabalho focado na agroecologia que a ASA vem desenvolvendo, inclusive com o Ministério do Desenvolvimento Social, no qual os agroecossistemas familiares foram estruturados, e as famílias consomem produtos livres de agrotóxicos, garantem a segurança alimentar, e o excedente comercializam na comunidade e na zona urbana, nas feiras agroecológicas. O semiárido ainda é feito de contratastes. IHU On-Line – Quais são hoje os principais impasses ao desenvolvimento do semiárido? Além da concentração da água e da terra, que aspectos destaca? Márcio Moura – Há uma cultura assistencialista, em que os aspectos eleitorais não são valorizados e na qual as pessoas vendem o seu voto por carga d’água de carro-pipa, remédios, cimento. Por causa desse sistema, são eleitas pessoas com pouca capacidade de gerir em consenso com a sociedade, mas com muita capacidade de enriquecer ilicitamente. A corrupção nas prefeituras é um dos principais fatores para o entrave do desenvolvimento no semiárido, apesar de as organizações da sociedade civil organizada apoiarem no trabalho com as associações. Ainda falta um despertar sobre a questão do voto, ou seja, são os velhos clãs que dominam a política local, passando de geração para geração. Há desvios nos recursos da saúde, educação, agricultura. IHU On-Line – Há risco de desertificação do semiárido? Márcio Moura – O agronegócio e muitas famílias agricultoras realizam práticas como as queimadas e o uso desenfreado de agrotóxicos, o que vem causando danos à fauna e à flora. Já existem extensões de áreas, como a do município de Gibués, no Piauí, que estão em processo de desertificação devido ao uso inadequado do solo. Segundo dados da Embrapa, 45% da área da vegetação da Caatinga já foi devastada. Portanto, isto é um sinal de que boa parte do solo está descoberta e exposta a chuvas, sol e vento, que são os principais vetores da desertificação. Não existem programas ou políticas públicas voltadas para a revitalização de rios e riachos, nem de reflorestamento. Estes investimentos custam caro para serem realizados, mas é necessário avançar nos trabalhos educativos no sentindo da preservação, pois no campo jurídico existe uma boa legislação de preservação ambiental, mas não há punição. IHU On-Line – Como a agroecologia tem sido desenvolvida no semiárido? Em que medida ela contribui para o desenvolvimento humano e sustentável de famílias agricultoras do semiárido brasileiro? Márcio Moura – A agroecologia é um movimento crescente que precisa de mais apoio governamental, no sentido da implementação da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural, para que os técnicos(as) possam apoiar as famílias camponesas em relação a uma agricultura menos danosa e mais autossustentável. Quando se discute agroecologia, a família tem que estar envolvida, valorizando o papel e conhecimento dos jovens, das mulheres e dos homens, considerando também o conhecimento do técnico, pois é nesse intercâmbio de informações que se processa um novo conhecimento, em que o agroecossistema é visto de forma sistêmica, em que todos os sistemas de criação de animais, cultivos, frutíferas, hortaliças se integram por meio da biodiversidade, onde cada sistema auxilia o outro. A agroecologia já tem suas raízes fincadas no semiárido, com processos construídos com as famílias, processos estes sistematizados e socializados para as mídias televisivas, radiofônicas, blogs, redes de organizações. Até o governo está começando a se interessar. IHU On-Line – Em que consiste a proposta de implantar sistemas agroflorestais como alternativa sustentável de produção no semiárido? Márcio Moura – O sistema agroflorestal é uma das propostas das entidades que desenvolvem o trabalho com a agroecologia. É uma forma de cultivo diversificado, em que se mantém árvores nativas, e se faz podas para que a luz possa entrar e, assim, se possam cultivar frutíferas, hortaliças, plantas medicinais, roçados, capins, enfim, plantas que possuem simbiose e que possam estar no mesmo espaço. Nesses sistemas, o solo fica protegido e mais nutrido, as famílias ampliam a diversidade de alimentos para o consumo e para os animais. Nessa forma de cultivo não se utiliza queimadas, e é abolido o uso de agrotóxicos. As famílias também desenvolvem os quintais produtivos, onde cultivam ao redor da casa e complementam a produção e a geração de renda. IHU On-Line – Qual a importância da Caatinga na preservação do semiárido brasileiro? Márcio Moura – A Caatinga é um dos biomas mais complexos e ricos do mundo, há uma biodiversidade de plantas e animais que só existe no Brasil. Se bem manejada, a Caatinga fornece alimento para as famílias e para os animais, é uma fonte enorme de estudos para a medicina, onde se disponibilizam princípios ativos de plantas exclusivas para elaboração de remédios. Além da beleza e da capacidade de regeneração quando ocorrem as primeiras chuvas. IHU On-Line – Quais são as principais reivindicações da Declaração do Semiárido, formulada durante a 1ª Conferência Regional de Desenvolvimento Sustentável do Bioma Caatinga? Márcio Moura – Em Fortaleza, no Ceará, representantes de mais de 300 organizações governamentais e não governamentais discutiram e aprovaram a Declaração do Semiárido, durante a 1ª Conferência Regional de Desenvolvimento Sustentável do Bioma Caatinga. O documento apresenta uma série de compromissos e algumas reivindicações importantes, como a inclusão do bioma Caatinga como patrimônio nacional e a aprovação no Congresso Nacional da Política Nacional de Combate e Prevenção à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca. A Declaração foi apresentada nos eventos paralelos da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Uma das principais bandeiras é a universalização do acesso a água. Entre as ações pontuadas no documento estão o incentivo à implantação de sistemas agroflorestais como alternativa sustentável de produção, a priorização da agricultura familiar sustentável e o fomento a linhas de crédito oficiais para atividades sustentáveis na Caatinga. * Publicado originalmente no site IHU-Online.


por Redação do IHU-Online
Muçulmano praticante, Mahmud Jibril chama para um diálogo as minorias, como os amazigh, os tuaregues e os islamitas fundamentalistas. Foto: AFP Artigo

Democracia à vista na Líbia?

[caption id="attachment_58091" align="alignleft" width="300" caption="Muçulmano praticante, Mahmud Jibril chama para um diálogo as minorias, como os amazigh, os tuaregues e os islamitas fundamentalistas. Foto: AFP"][/caption] Quem diria? A Líbia, país brutalizado por 42 anos de ditadura e onde a perspectiva de uma democracia laica era impensável, pôs um fim na onda de vitórias de legendas radicais muçulmanas. O povo, segundo resultados parciais das legislativas realizadas no sábado, escolheu Mahmud Jibril, líder da Aliança de Forças Nacionais (AFN), a qual defende a unidade dos demais partidos políticos. Em miúdos, diante das vitórias de partidos islamitas no Egito e na Tunísia, a Líbia demonstra que existe uma saída laica, ou pelo menos moderada, para as insurreições que, mundo árabe afora, derrubaram déspotas por anos cortejados por hipócritas líderes ocidentais. A AFN teria obtido 80 das 200 cadeiras da Assembleia Nacional encarregada de dirigir uma nova fase de transição. Oito meses após a morte de Muammar Kaddafi, 2,7 milhões de líbios tiveram a oportunidade de ir às urnas para participar de eleições livres. Os islamitas eram representados por duas agremiações: o Partido da Justiça e da Construção (PJC), braço da Irmandade Muçulmana, e o Al-Watan, dirigido pelo controverso ex-chefe militar de Tripoli, Abdelhakim Belhai. Para se ter uma ideia de quem eram os candidatos islamitas, Belhai esteve com Bin Laden nas prisões da CIA no Afeganistão. Com o colapso do regime de Kaddafi, foi um dos primeiros rebeldes a adentrar Tripoli. Norte-americanos e franceses lhe forneceram armas, a despeito de seu passado. No entanto, a Primavera Árabe, ao contrário do que previam vários experts, não gerará somente integrantes da Irmandade Muçulmana ou de partidos como o Al-Watan. E o que queriam esses observadores conservadores, incluindo considerável fatia da arcaica esquerda brasileira, a pregar o perigo de um mundo árabe sob o comando de fundamentalistas? Manter no poder o ditador Kaddafi, responsável pela tortura e morte de centenas de milhares de opositores líbios? Para numerosos líbios, Jibril, diga-se, também não é flor que se cheire. Em 2007, foi ministro da Economia de Kaddafi. Mas quem não trabalhou para Kaddafi? Ademais pesa a favor de Jibril o fato de que ele renunciou ao regime ditatorial. À época, ele trabalhava para Saif al-Islam, o filho de Kaddafi que propunha uma nova Carta. Jibril preferiu deixar o governo quando ficou transparente que Saif não pretendia incluir reformas na nova Constituição. E, no início da insurreição contra Kaddafi, Jibril tornou-se, durante sete meses, premier do Conselho Nacional de Transição (CNT). Mahmud Jibril, de 60 anos, estudou Ciências Políticas e Econômicas no Cairo. Fez mestrado na Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia, Estados Unidos, onde foi professor. É muçulmano praticante, mas mesmo assim chama para um diálogo as minorias, como os amazigh, os tuaregues e os islamitas fundamentalistas. Jibril quer, inclusive, um diálogo com os separatistas, estes insatisfeitos com a alocação de cadeiras na Assembleia: cem para o Oeste, 60 para o Leste (onde se encontra 80% das reservas de petróleo) e 40 para o Sul. Jibril, carismático embora sem senso de humor, é considerado um pragmático. É visto como um homem experiente e teve o bom senso de formar uma coalizão no momento em que os líbios não estão interessados em homens fortes (leia-se autoritários) no poder. Ajuda o fato de Jibril integrar a poderosa tribo warfalla. Os warfallas são ambiciosos, fazem carreiras em todos os campos. Frequentam universidades estrangeiras, tornam-se banqueiros, professores, etc. Serviram Kaddafi, mas apoiaram Jibril. Num país sem sociedade civil e partidos políticos – legado de Kaddafi –, tribos tiveram mais poder nas legislativas do que os islamitas. No entanto, não podemos esperar um futuro transparente para a Líbia: diferenças regionais e rivalidades não desapareceram com a queda de Kaddafi. * Gianni Carta é editor do site de CartaCapital. É jornalista e cientista político formado pela Universidade da Califórnia e mestre em relações internacionais pela Universidade de Boston. Foi correspondente da CartaCapital na Europa durante 17 anos. Em seus mais de 20 anos no exterior, também foi correspondente da IstoÉ, Diário do Grande ABC, repórter especial da BBC World Service, da rede de tevê norte-americana CBS e do semanário GQ (Europa). Contribuiu para, entre outros, The Guardian e Radio Five Live. Seu último livro é Às Margens do Sena (com Reali Jr., Ediouro, 2007). ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Gianni Carta*
Coluna Inter Press Service - Colunistas

A Europa não é a América

Miami, Estados Unidos, julho/2012 – Ao longo de mais de quatro décadas de residência nos Estados Unidos, detectei a persistente instalação de modos políticos e, sobretudo, sociais norte-americanos em território europeu, especialmente o espanhol. Ainda recordo, não faz muito tempo, como me questionava sobre a proibição de fumar em lugares públicos, os impostos implacáveis e as eleições primárias – entre outras curiosidades dos Estados Unidos – chegarem à Espanha. Demoraram, mas depois da música pop e do cinema de Hollywood, outros perfis norte-americanos estabeleceram cabeça-de-praia e ficaram. Inclusive, percebia-se a transformação da política para um presidencialismo muito à maneira de John F. Kennedy ou Richard Nixon, conforme o foco. Temia-se recentemente o surgimento do populismo que nos anos 1920 levou à catástrofe europeia. Muito parece ter ficado pelo caminho. A Europa não é a América. Esta apreciação ficou demonstrada pelo ambiente e pelos resultados das eleições legislativas na Grécia e na França, em diferentes modalidades de segundo turno. Por um lado, é evidente a sobrevivência da variedade europeia nas inclinações de eleição dos líderes. Nada mais longe do opressor bipartidarismo que parecia instalado em alguns dos países europeus que precisamente agora são protagonistas ou vítimas da crise. Embora haja uma alternância clássica em alguns países (Reino Unido, Espanha, França, Portugal), o certo é que para governar são necessários sócios secundários, quando não coalizões insólitas. Esta dimensão foi espetacularmente dramatizada pelo novo desafio grego para formar governo, à vista do triunfo parcial dos conservadores da Nova Democracia, da derrota histórica dos socialistas do veterano Pasok e do avanço insuficiente da extrema esquerda da Syriza, dirigida pelo carismático Alexis Tsipras. O resultado é que a coalizão pela qual apostam tanto uma maioria de gregos como o resto do continente é a formada pelos conservadores (ajudados pelas 50 vagas a mais que o sistema eleitoral dá), que até há poucas semanas se opunham às medidas de austeridade, e os social-democratas, cuja única alternativa era se retirarem para os quartéis de inverno. O mais escandaloso do favoritismo por esta coalizão de governo é que a evidência histórica demonstra que esses dois partidos são os principais culpados pela crise, pelas fraudulentas declarações sobre o estado de sua economia e pela corrupção generalizada na qual a Grécia se sentiu bastante cômoda durante décadas. Se voltarmos o olhar para a França, a peculiaridade das eleições legislativas, imediatamente seguida das presidenciais, é o maciço ganho de poder do ressuscitado Partido Socialista, no qual ninguém apostava depois das desventuras de seu anteriormente candidato virtual Dominique Strauss-Kahn, que se autodestruiu por suas frivolidades sexuais, nunca convenientemente esclarecidas. Se François Hollande chegou a dirigir o partido depois de ter superado vários competidores, entre eles sua ex-companheira Ségolène Royal, poucos apostavam em sua vitória, que chegou com a ajudinha das estridências de Nicolas Sarkozy e pelo magistral uso da oposição a Merkel e às suas medidas de austeridade. O certo é que Hollande conseguiu a vitória porque a França é uma sociedade basicamente “conservadora de esquerdas”, zelosa em sua maioria em se protegerem com as conquistas do estado de bem-estar e a sacralidade do Estado. Ou seja, o contrário dos norte-americanos, cujo ideal é um Estado reduzido. O triunfo presidencial foi um trampolim para dupla vitória eleitoral, com a conquista da Assembleia Nacional, em parte pelo sistema de jurisdição majoritária, pelo qual somente os que conseguem melhores colocações passam para um segundo turno. Curiosamente, esse sistema foi a razão da insólita derrota de duas senhoras emblemáticas nos últimos tempos da política francesa. Uma é Marine Le Pen, a sucessora de seu temível pai na direita racista. A outra é exatamente a ex-companheira de Hollande, Ségolène, mãe de seus quatro filhos. Agora, a primeira-dama francesa, a jornalista Valérie Trierweiler, se lançou arriscadamente com uma mensagem digital de apoio ao opositor de Royal, o trânsfuga Olivier Falorni, na vaga de La Rochelle. Falorni venceu e ganhou a vaga que teria garantido a Royal nada menos do que a presidência da Assembleia Nacional, a joia da coroa para qualquer político francês. Ignoram-se as consequências futuras deste episódio, mas à vista da curiosidade social da política quanto às relações pessoais, nada haverá de surpreendente que tudo continue igual, em contraste com os costumes norte-americanos, onde incidentes como este gerariam uma virada política. Finalmente, o setor mais derrotado destes exercícios foi o sentimento antieuropeu e contrário à unidade europeia. Não somente a moeda comum está saindo reforçada, como a atenção para estas duas eleições não foi apenas continental, pois ultrapassou as fronteiras da União Europeia. Se falou mais da Europa do que da Grécia e da França. Pela primeira vez especulou-se no campo eleitoral sobre Europa e União Europeia. E isso é bom para todos, inclusive para os Estados Unidos. Envolverde/IPS * Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu). 


por Por Joaquín Roy*
Ex-presidente Lula. Foto: Divulgação. Artigo

A alma da propaganda

[caption id="attachment_57292" align="alignleft" width="250" caption="Ex-presidente Lula. Foto: Divulgação."][/caption] Como é amplamente difundida, a propaganda é a alma do negócio. Deixando para lá a hipótese de a afirmação ser, em si mesma, uma mera propaganda, não nos resta dúvidas que, se ela vier a ser exaustivamente repetida, o seu efeito é bastante eficaz. Mesmo sendo uma grosseira mentira, de acordo com o que afirmava o ministro de Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels. Tenho constantemente defendido que a popularidade de Lula, o ex-operário e ex-presidente, não teria sido possível de se consolidar sem o fortíssimo apoio que mereceu da mídia dominante. Mídia não somente nacional, mas internacional. Esta é uma realidade que tenta ser deformada, pelos lulistas, a partir de abordagens que procurariam denunciar uma suposta e permanente conspiração dos meios de comunicação contra os seus dois mandatos. Não há dúvidas que há veículos da grande imprensa – o caso mais notório é o da Revista Veja – que abusam de certo sensacionalismo de escândalos, beirando o ridículo. Contudo, como regra geral, o que temos é o mais amplo, geral e irrestrito apoio midiático às ações que foram continuadas por Lula em relação ao período de FHC, ou introduzidas por seus governos. O caso mais notório diz respeito ao entusiasmo em relação à linha econômica adotada por Lula e, particularmente, aos efeitos do modelo econômico em curso, no tocante à distribuição de renda que, supostamente, teria tido a virtude de nos produzir uma nova classe média, com milhões de brasileiros ascendendo na pirâmide social. Desde julho de 1994, quando foi lançado o Plano Real - plano de estabilização monetária combinado com a criação de uma nova moeda nacional, atrelada ao dólar -, temos observado, de fato, uma melhoria da distribuição de rendas entre os assalariados e todos aqueles que vivem de rendimentos do trabalho. As razões para esse fato, comprovado pela evolução do coeficiente de Gini, calculado pelos dados das Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (PNAD’s) do IBGE, se relacionam a alguns fatores facilmente constatáveis. A própria redução dos índices mensais de inflação; os reajustes do salário mínimo, desde 1994, sempre com índices de correção acima da inflação; os efeitos dessa política de valorização real do salário mínimo sobre o piso do valor dos benefícios previdenciários; e a adoção e ampliação dos programas de transferência de renda aos mais pobres produziram esse efeito de diminuir a distância entre os mais pobres e os segmentos de renda mais elevada, dentro do mundo daqueles que vivem do seu trabalho. Entretanto, esses resultados não devem ser absolutizados, para fins de análise do quadro mais geral da distribuição de renda no país. Isso se deve ao fato de os resultados das PNADs não captarem os chamados rendimentos típicos dos capitalistas – juros, lucros e aluguéis. Essas pesquisas, por amostras domiciliares, recolhem com mais precisão os dados referentes aos rendimentos típicos dos trabalhadores – salários, diárias, rendimentos de autônomos e dos informais. Desse modo, o que podemos afirmar é que os rendimentos dos trabalhadores menos qualificados ficaram menos distantes daqueles dos trabalhadores melhor remunerados, cujos rendimentos não tiveram os mesmos efeitos dos ganhos da base da pirâmide salarial. Esse, sem dúvida, é um aspecto positivo, porém muito insuficiente para afirmarmos que houve uma melhora substantiva na distribuição geral da renda no país. O aspecto mais relevante a ser destacado é que continuamos a ter e conviver com uma estrutura tributária extremamente regressiva, onde, proporcionalmente ao que ganham, os pobres são mais penalizados do que os ricos, e, ao mesmo tempo, os gastos do governo privilegiam as despesas financeiras – na forma de juros – e beneficiam, assim, aos mais ricos. Em termos salariais, o fato é que quase 70% dos assalariados encontram-se na faixa de rendimentos de até dois salários-mínimos (R$ 1.222,00), quando o salário mínimo calculado pelo Dieese – de acordo com o mínimo de renda para o sustento de uma família de dois adultos e duas crianças – deveria estar, agora em maio de 2012, em R$ 2.383,00. Grosso modo, em termos de renda per capita, o mínimo, portanto, necessário ao sustento de um membro dessa família seria de algo próximo a R$ 600,00. Como explicar, desse modo, a superlativização dos efeitos distributivos de renda, que estariam ocorrendo atualmente e que são abundantemente noticiados pela mídia, para muitos, “golpista”? E como, particularmente, poder-se-ia explicar o surgimento de uma nova classe média? A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, comandada por Moreira Franco, nos dá a pista. No final do mês de maio, foi divulgado um estudo que estabelece novos critérios para a identificação da classe média brasileira. De acordo com esse estudo, a “nova” classe média é composta por famílias com renda per capita entre R$ 291 e R$ 1.019, segundo os dados da composição da renda em 2009. Isso mesmo, se o leitor se espantar com esses números, sugiro uma consulta à página na internet da própria SAE. Lá, será possível observar que houve um trabalho detalhado, que não somente classifica o que vem sendo chamado de classe média, como apresenta diferentes faixas de renda para a classificação dos vários extratos de renda do país. Os pobres, ou na terminologia da SAE “classe baixa”, dividem-se em “extremamente pobres”, com renda familiar per capita até R$ 81; “pobres”, com renda entre R$ 82 e R$ 162; e “vulneráveis”, com renda per capita entre R$ 163 e R$ 291. Já a “nova classe média” também se divide em três faixas: entre os valores de R$ 292 e R$ 441, encontram-se os componentes da “baixa classe média”; a “média classe média” possui renda familiar per capita entre R$ 442 e R$ 641; e a “alta classe média” situa-se entre os valores de R$ 642 e R$ 1.019. Completando esse curioso estudo, foram definidas também as faixas de renda da “classe alta”: de R$ 1.020 a R$ 2.481, temos a “baixa classe alta” e todos aqueles com rendimentos familiares per capita acima de R$ 2.482 passam a pertencer à “alta classe alta”. Com base nesses números, o governo sustenta a sua informação que, de acordo com os critérios adotados, a classe média brasileira cresceu 10 pontos percentuais, de 2001 a 2009, passando de 38% da população para 48%. A estimativa da SAE, a partir de projeções da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), é que a classe média represente 54% dos brasileiros no final de 2012. Sugiro que, a partir dessas informações, o leitor faça a sua opção: a propaganda é a alma do negócio ou a mentira repetida à exaustão vira uma verdade? * Paulo Passarinho é economista e apresentador do programa de rádio Faixa Livre. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Paulo Passarinho*

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