Xingu +23: pare Belo Monte

Artigo

Xingu +23: pare Belo Monte


por Rodolfo Salm*


Paralelamente aos primeiros dias da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada de 13 a 22 de junho, na cidade do Rio de Janeiro, com a meta vaga de “contribuir para definir a agenda do desenvolvimento sustentável para as próximas décadas”, foi organizado em Altamira, no Pará, o encontro Xingu+23, com o objetivo explícito de lutar contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu. O +23 faz referência ao número de anos desde o primeiro encontro dos povos indígenas de Altamira, ocorrido em 1989, já voltado à oposição à construção desta hidrelétrica no rio Xingu, quando os índios aqui reunidos, aliados a movimentos sociais, conseguiram cancelar o financiamento do Banco Mundial para o desenvolvimento das obras. Hoje, Belo Monte não é mais um projeto, mas uma obra em andamento, e neste encontro foram debatidos seus terríveis impactos, que já assolam a população desta região da Amazônia. A abertura do evento aconteceu no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio, na comunidade batizada com o nome do santo, ou pelo menos no que sobrou dela, pois a vila foi destruída para a construção da hidrelétrica. A data era, por um lado, especial, pois era o dia do padroeiro da vila, celebrado há muitos anos naquela comunidade; e, por outro, muito triste, pois seria a última celebração feita na comunidade. Emoção sintetizada no depoimento do Sr. Élio Alves da Silva, antigo morador da comunidade, e que deu início ao encontro. Élio lembrou os antigos moradores da vila que não estavam mais lá, suas alegrias em uma vida simples de luta de muitas décadas, testemunhada pelas mangueiras antigas, que cobriam os bancos, o altar e o estandarte montados ali para a celebração. “Criei meus filhos à custa do Xingu. Foi o rio mais rico que conheci. Mas hoje pescadores não conseguem mais pescar. Cada dinamite que explode parece que tem uma coisa explodindo aqui dentro do meu peito”, disse ele. Que completou contando que, se quisesse visitar algum dos seus antigos vizinhos, não teria como, pois todos se mudaram não se sabe para onde, com uma indenização em dinheiro que nem de longe paga o trabalho que tiveram por lá. Vidas destruídas, uma comunidade dilacerada. E não pôde completar seu discurso, pois a emoção lhe encharcou os olhos e travou a garganta. Além dos pequenos agricultores que lá estavam, acompanharam o evento estudantes, jornalistas, índios da região do Xingu e Munduruku, da região do Alto Tapajós, também ameaçados pela construção de barragens naquele outro rio, para nos lembrar de que este não é um problema só do Xingu, mas de toda a região amazônica, ameaçada pelo modelo de desenvolvimento econômico imposto para a nossa região. Além de um casal de ativistas turcos, que enfrentam problemas similares causados pela construção da hidrelétrica de Ilisu, no rio Tigre, para nos lembrar de que este também não um problema só da Amazônia, mas mundial. O ponto alto do encontro foi um protesto iniciado na madrugada do dia 15 - cerca de 300 manifestantes, às 5 horas da manhã, dirigiram-se ao canteiro de obras de uma ensecadeira de Belo Monte, barragem provisória de barro de pedras, que cortou o rio e que havia sido construída recentemente próxima à comunidade de Santo Antônio. Munidos de pás, enxadas e picaretas, abriram um caminho estreito de 15 metros de comprimento e 1,5 m de profundidade no barramento para que o Xingu pudesse correr uma vez mais, ainda que simbolicamente, ao longo de seu curso natural (ver o vídeo: Indígenas ocupam Belo Monte). Também fincaram 200 cruzes representando as mortes causadas pelo empreendimento e plantaram 500 mudas de açaí, simbolizando o sonho de recuperação daquela área degradada. Depois, sentados sobre a ensecadeira, escreveram com seus próprios corpos dispostos em forma de letras “Pare Belo Monte”, para que fossem fotografados do céu. Enquanto na Rio+20 discute-se o conceito vago de “Economia Verde”, o novo termo da moda, tão vazio de significado quanto o antigo e já desacreditado “Desenvolvimento Sustentável” dos anos 90 (vazio porque mal nascido, já apropriado pelo agronegócio brasileiro, fortemente representado na Conferência das Nações Unidas, cinicamente se auto-intitulando “verde”), a Xingu +23 tinha um recado bem claro para passar para o mundo: essa sandice de barrar todos os rios do planeta a todo custo tem que parar, começando por Belo Monte no rio Xingu! * Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da UFPA (Universidade Federal do Pará) em Altamira, e faz parte do Painel de Especialistas para a Avaliação Independente dos Estudos de Impacto Ambiental de Belo Monte. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.

c1 Artigo

Direitos sociais e meio ambiente não estão na agenda estritamente econômica do governo

O crescimento econômico brasileiro, não obstante medidas conjunturais de reativação, caminha para a estagnação relativa (crescimento econômico abaixo do incremento populacional), ainda que sem indicadores traumáticos de desemprego generalizado. Por outro lado, o debate técnico e ideológico sobre o crescimento, e conjunturalmente sobre as medidas de reativação econômica, compreende na verdade argumentos em disputa de três distintas concepções de desenvolvimento, com critérios ideológicos completamente diferentes. Temos em primeiro lugar a via do crescimento ou da defesa do crescimento econômico nos marcos da economia política hegemônica, contra as tendências conjunturais da estagnação econômica mundial, a que se vincula com convicção o governo Dilma. O governo faz uso do conjunto de políticas fiscais, monetárias e cambiais para elevar a demanda interna (de consumo e investimento) e melhorar a competitividade externa, no que se diferencia fortemente do receituário europeu atual, que muito se aproxima das concepções ortodoxas de austeridade, com necessária estagnação econômica imediata. Por sua vez, a via keynesiana neodesenvolvimentista do governo Dilma sofre crítica de duas vertentes bem distintas. De um lado, o pensamento semi-ortodoxo, herdado do período de hegemonia absoluta do setor financeiro nos governos FHC e Lula, que construiu todo o discurso da estabilização monetária a qualquer custo e da via desregulada para operação dos mercados, especialmente dos financeiros. Para esses setores, não haveria no ciclo econômico atual espaço para crescimento, haja vista as restrições do setor externo (reversão do ciclo expansivo da economia mundial na primeira década do século), e ainda uma agenda de reformas de orientação neoliberal (tributária principalmente), com tendência de diminuição e não de aumento da participação do setor público no Produto Interno Bruto. Outra perspectiva faz a crítica à orientação da política econômica atual, destacando os aspectos de subdesenvolvimento (dependência externa e desigualdade social) e insustentabilidade (ambiental) do modelo de crescimento, em evidência no último decênio, ora sob pressão estagnacionista. O neodesenvolvimentismo posto em evidência, principalmente a partir de 2004, muito fortemente ancorado na expansão das “commodities” mundiais, na política social e nos investimentos públicos em infra-estrutura (principalmente energia), contém muitos dos ingredientes de um estilo (“modernização conservadora”) em contradição com o discurso da igualdade social. Em síntese, o que parece de consenso do governo e dos seus críticos à esquerda é a necessidade de manter o nível de emprego, acrescentando-lhe ano a ano o incremento normal da força de trabalho. Isto por sua vez requer um patamar mínimo de crescimento econômico. Mas os padrões de bem-estar social, a expansão dos direitos sociais e a exploração racional dos recursos naturais não estão necessariamente nos planos da agenda estritamente econômica do governo federal e das forças políticas e econômicas que lhe dão sustentação. Finalmente, há certo consenso ideológico contra a estagnação, exceto no discurso estrito de austeridade fiscal, e acordo geral sobre a necessidade de preparar condições para o desenvolvimento em sentido genérico, mas dissenso forte sobre os rumos que esse desenvolvimento assumiu no caso concreto do último decênio. * Guilherme Costa Delgado é doutor em Economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Guilherme C. Delgado*
Severn Cullis-Suzuki, a canadense conhecida como "a menina que silenciou o mundo por cinco minutos". Foto: Divulgação AES Brasil. Envolverde Rio + 20

Sustentabilidade por amor

[caption id="attachment_55617" align="alignright" width="300" caption="Severn Cullis-Suzuki, a canadense conhecida como "a menina que silenciou o mundo por cinco minutos". Foto: Divulgação AES Brasil."][/caption] Vinte anos depois, Severn Suzuki não espera mais calar o mundo. Suas ambições hoje são de uma sociedade que se mobilize e grite sua vontade de um mundo melhor. Rio de Janeiro, 20 de junho (TerraViva) “Quando os chefes de governo deixam de exercer sua liderança, eles deixam de ser importantes.” Esta foi a maneira como a canadense Severn Suzuki expressou seu sentimento em relação à Rio+20, a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, que acontece no Rio de Janeiro até o dia 22. Vinte anos depois, a menina que ficou conhecida por reivindicar com propriedade, na Eco 92, que os governantes de todo o mundo tomassem atitudes urgentes para que seus filhos tivessem garantido o direito de viver em um mundo como o que ela conhecia, com qualidade de vida e a biodiversidade preservada, reafirmou sua convicção de que a mudança para a sustentabilidade é uma questão de amor entre as gerações, que vai acontecer independentemente da vontade política. Severn participou, no dia 19, do Encontro Internacional da Carta da Terra na Rio+20. O evento debateu a importância do documento, que é um compromisso da sociedade civil pelo desenvolvimento sustentável. Aos 32 anos, a canadense, que no encontro anterior era uma menina de apenas 12 anos, cresceu, tornou-se uma ecóloga e é mãe de dois filhos. Ela falou sobre a sensação de integrar uma nova sociedade que a maternidade proporciona. “Quando estava grávida, percebi que as pessoas me tratavam de forma diferente, mais gentil. Me dei conta de que eu estava em uma nova comunidade, na comunidade dos pais. Se você é um pai ou mãe, você precisa cuidar de algo além de si mesmo. Temos algo que nos conecta com um propósito maior”, testemunhou. Esta relação afetiva é, segundo ela, a porta de entrada para ações mais sustentáveis. “Temos que nos reconectar com o que nós fazemos e como isso vai impactar os outros, que são os nossos filhos”, indicou. A falta de ambição dos compromissos estabelecidos no documento preliminar, que será debatido pelos chefes de Estado nos próximos dias, foi apontada por ela como um ponto decepcionante. “Fico desapontada de saber que a declaração que vai sair da Conferência não vai ter metas ambiciosas como houve na Eco 92. Esse documento nunca teve tanta relevância quanto agora”, observou. A dificuldade no consenso é, para ela, a demonstração do fracasso em se entender profundamente o que está sendo debatido. “Todo mundo fala de economia verde, mas isso está se tornando uma questão de divisão. Como determinar a estrutura que vai nos levar adiante, se não conseguimos concordar com os valores e princípios que serão a base dessa estrutura? Se nós não concordarmos em princípios básicos, essa economia verde não vai valer nada”, ressaltou. Lembrando movimentos como a primavera árabe e o Ocupe Wall Street, Servern destacou que com os adventos da internet e das mídias sociais, o poder revolucionário da sociedade cresceu. “O espírito das pessoas está começando a sobressair no mundo. É um momento na história em que a revolução está no ar. Temos o potencial para viver tempos revolucionários e devemos aproveitar essa oportunidade”, enfatizou Apesar da sensação de fracasso em relação aos eventos oficiais, ela se disse feliz com o grande número de pessoas presentes na Cúpula dos Povos e com o fato de o evento como um todo ter reunido quase 50 mil pessoas de todo o mundo. “Já faz 20 anos e nós ainda estamos aqui, trabalhando juntos pela sustentabilidade”, comentou. Demonstrando esperança, finalizou: “vou sair daqui sabendo que a energia e o espírito que cresceu nas últimos duas décadas não vai mudar”. (TerraViva)


por Alice Marcondes, da Envolverde
IPS2 Inter Press Service - Reportagens

Resolução contra armas, “forte, mas não à prova de balas”

Bruxelas, Bélgica, 20/6/2012 – O Parlamento Europeu emitiu um forte sinal ao divulgar sua ambiciosa e integral resolução para acabar com o comércio ilegal de armas. Analistas lamentam, porém, que a mesma ignore vários fatores cruciais, como o impacto do comércio de armas no desenvolvimento socioeconômico dos países receptores e a participação da sociedade civil nas futuras negociações. Os países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU) se reunirão em Nova York no mês que vem para negociar o primeiro tratado vinculante de armas, um documento inovador em matéria humanitária que se propõe a regular o comércio internacional de armas convencionais. Atualmente, não existe um conjunto de normas universais para controlá-lo. O mercado mal regulado aviva os conflitos armados e causa um desnecessário sofrimento humano. Para atender o problema, os ganhadores do Nobel da Paz, Dalai Lama, Betty Williams, Elie Wiesel e José Ramos-Horta levam adiante uma ativa campanha por um acordo vinculante global desde 1997, com apoio de organizações não governamentais. Segundo a organização Armas Sob Controle, um milhão de armas, dos oito milhões produzidos ao ano, se perdem ou são roubadas. Cerca de 747 mil pessoas são assassinadas em episódios armados violentos por ano e dez vezes essa quantidade ficam feridas. O Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (Sipri) divulgou em março um informe mostrando que as entregas de armas convencionais aos países da África aumentaram 110%, em média, nos últimos dez anos. Os envios para os Estados da África subsaariana cresceram 20%, enquanto para os do norte da África subiram 273%. O Parlamento Europeu votou no dia 12 a resolução, que a União Europeia (UE) levará para a próxima conferência da ONU. O texto destaca a grande responsabilidade da Europa no comércio global de armas, pois os países do bloco são responsáveis por 30% de todas as exportações e estão entre os principais fabricantes. O pronunciamento também destaca que o novo tratado da ONU cobre “o maior espectro possível de armas convencionais, incluídas as pequenas e leves, e todas as atividades e aspectos do comércio”, segundo o Parlamento. Os legisladores pediram a criação de uma unidade de apoio às Nações Unidas para supervisionar e informar a respeito dos intercâmbios globais de armas, bem como rastrear as possíveis brechas do tratado. O Parlamento Europeu também quer que o tratado inclua fortes disposições para que os Estados informem sobre as decisões de transferência de armas pequenas e façam um registro de 20 anos. Também serão necessários rigorosos mecanismos de transparência e contra a corrupção, pois, segundo as últimas estimativas, o comércio de armas é responsável por quase 40% deste tipo de irregularidade no comércio mundial. Algumas disposições fundamentais deslizaram entre as gretas da ambiciosa proposta, segundo os especialistas. “Embora esta resolução seja um primeiro passo forte, nos decepciona não ressaltar a necessidade de não afetar o desenvolvimento socioeconômico dos países beneficiários”, destacou Nicolas Vercken, encarregado em Paris do controle de transferência de armas da organização não governamental Oxfam. Wim Zwijnenburg, responsável de desarmamento da IKV-Pax Christi, em Amsterdã, acrescentou que atualmente a UE proíbe “a exportação de armas para os Estados onde o desenvolvimento socioeconômico seja baixo e o gasto do governo alto. Este critério desapareceu da nova resolução”. Os países que são contra o artigo, em geral grandes exportadores de armas ou com regimes repressivos, afirmam que proibir a exportação para países economicamente menos desenvolvidos é uma política “neocolonial”, afirmou. Zwijnenburg considerou que se trata de um argumento que esconde o desejo de continuar vendendo ou comprando armas praticamente a qualquer custo. “Países exportadores como Brasil, Argentina, Canadá, Rússia, China e Índia estão contra porque querem proteger seu comércio de armas. Nações receptoras como Zimbábue, Síria e Egito se opõem por sua constante necessidade de novas armas. Já a maioria dos Estados subsaarianos está a favor do critério”, detalhou. Outro aspecto problemático da resolução é que não menciona a participação da sociedade civil nas negociações comerciais de armas. “Quando dois Estados discutem um acordo comercial, países como Estados Unidos e Grã-Bretanha têm grande capacidade para enviar uma equipe de dez pessoas às conversações, incluindo assessores legais e econômicos”, observou o especialista. “A maioria dos Estados africanos não tem essa capacidade. Por isso é importante incluir a sociedade civil nas negociações e apoiar os Estados mais pobres, que são, de fato, a maioria das nações em desenvolvimento com conflitos”, apontou Zwijnenburg. “A nova resolução não menciona nada disso. considerando que foram as ONGs que começaram um processo com vistas a um tratado, seria uma lástima nos excluírem”, ressaltou. Os especialistas têm um médio otimismo sobre a resolução europeia e as próximas conversações da ONU. “Há dez anos ninguém se atreveria a sonhar que pudéssemos chegar tão longe, que todos os países participariam e se encaminhariam para alcançar um acordo internacional”, enfatizou Vercken. “No entanto, sabemos que algumas nações só querem um tratado fraco e disfuncional”, reconheceu. “Será difícil. E se parecer que nos encaminhamos para um tratado débil recordaremos aos Estados negociadores que é melhor não ter nada que é, pois só fará legitimar os atuais esforços para regular o mercado de armas”, concluiu. Envolverde/IPS


por Daan Bauwens, da IPS
c1 Envolverde Rio + 20

O rascunho do futuro em 49 páginas

“Vamos ser claros: as negociações multilaterais demandam dar e receber” – declarou esta tarde o secretário-geral da Rio+20, Sha Zukang, ao anunciar a conclusão das negociações para fechar o rascunho final de “O Futuro que Queremos”, documento que será apreciado e possivelmente modificado a partir de amanhã pela cúpula de governantes da Conferência das Nações Unidos sobre Desenvolvimento Sustentável. A franqueza da mensagem do chinês, pouco usual na tortuosa linguagem diplomática, é provavelmente uma forma de se antecipar às numerosas críticas ao tom genérico e à falta de ambição do texto, “produto de intensas negociações prolongadas”. O rascunho a ser apreciado pelos governantes tem 283 parágrafos divididos em 6 capítulos (cerca de 50 páginas). O texto enfatiza a necessidade de renovar compromissos assumidos nos tratados de temática ambiental celebrados pelas nações a partir da Conferência de Estocolmo em 1972, reconhecendo que foi inconsistente o progresso na implementação do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza desde a Eco-92. Apesar desse reconhecimento, o capítulo “Economia Verde no Contexto do Desenvolvimento Sustentável e da Erradicação da Pobreza” é um conjunto de princípios que se apresenta como uma cartilha de propostas para adesão voluntária dos países. Ação e Governança Do ponto de vista da governança, o documento prevê o estabelecimento de um “Fórum Político Intergovernamental Universal de Alto Nível” para estudar a hoje existente Comissão de Desenvolvimento Sustentável e posteriormente substituí-la. Até agora não vingou, portanto, a ambição de transformar o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (o Pnuma) em uma agência como a Organização Mundial de Saúde (ou a do Comércio), com poderes para impor sanções aos países-membros que descumprirem tratados. O texto propõe a melhoria do status do Programa, com orçamento próprio (hoje vive de doações voluntárias), e a participação de todos os Estados-membros no Conselho de Governança. Cerca de 26 páginas, ou metade do rascunho final, constituem o capítulo “Estrutura para ação e acompanhamento”. É uma abrangente listagem de boas intenções em tom majestático (muito apropriado para governantes). Numa leitura rápida sobressaem as  expressões “nós reafirmamos” (25 vezes) e “nós reconhecemos”, que aparece 81 vezes em 148 parágrafos – sinal claro de que o documento está mais para diagnóstico que para um conjunto de redefinições necessárias à implementação do Desenvolvimento Sustentável. Contrariando as expectativas, as negociações não avançaram na indicação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, mas sugerem a criação de um grupo de 30 representantes a serem nomeados pelos Estados-membros para apresentar uma proposta a ser submetida à Assembleia Geral das Nações Unidas no período 2013-14. O último capítulo, “Meios de Implementação”, propõe fórmulas para direcionar fluxos financeiros multilaterais com prioridade para projetos que respeitem as metodologias necessárias ao desenvolvimento sustentável, mas não há menção ao fundo de US$ 30 bilhões anuais proposto durante as negociações na semana passada. Contrariando todas as expectativas, as negociações não avançaram na indicação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, mas sugerem a criação de um grupo de 30 representantes a serem nomeados pelos Estados-membros para apresentar uma proposta a ser submetida à Assembleia Geral das Nações Unidas no período 2013-14. A mais auspiciosa novidade desta última versão do texto seja a menção, pela primeira vez, da necessidade de lutar contra a corrupção em todos os níveis por considerá-la “séria barreira à mobilização de recursos” para o combate à pobreza, à fome e à implementação do desenvolvimento sustentável (parágrafo 266). A íntegra do documento pode ser acessada no link http://www.uncsd2012.org/futurewewant.html . * Sávio de Tarso é jornalista.


por Sávio de Tarso*, da Envolverde
c1 Envolverde Rio + 20

Rio+20: Descascando as histórias que as empresas contam

Às portas da Rio+20, as empresas também esquentam seus motores deixando suas assessorias de comunicação malucas. É hora de mostrar que também estão juntas para garantir um mundo mais sustentável. Daí a dificuldade revelada por alguns colegas do jornalismo corporativo de fazerem um camelo passar pelo buraco da agulha. Sou um dos raros seres humanos que leem com cuidado todo e qualquer release que me enviem sobre novas políticas de sustentabilidade das empresas, sem contar os relatórios que tratam do seu comportamento socioeconômico e ambiental encomendados por elas mesmas. Não porque seja fã dessa literatura, mas faz parte do ofício. Particularmente, preferia ler o Chico Bento. Que, além de tudo, posicionou-se contra o novo Código Florestal. Coisa que muita empresa grande do agronegócio – que conta com relatórios lindíssimos, salpicados com uma profusão de imagens de onças com próteses dentárias e papagaios-do-piercing-roxo – não fez porque torcia pela flexibilização das leis ambientais. Para produzir o modelo de relatório mais difundido hoje (Global Reporting Initiative), são envolvidos atores interessados nos impactos da empresa para discutir o comportamento das companhias. A ideia é boa mas, no final, ou questões colocadas não entram exatamente como deveriam ou, pior, a empresa diz uma coisa no relatório e age de forma diferente no mundo real. Um caso clássico: empresas prometem deixar de comprar de fornecedores com problemas sociais e ambientais. Prometem isso em seu relatório de sustentabilidade, consolidando uma política e comunicando-a ao público. Ganham com esse anúncio, abraçam ministros, tiram fotos com indígenas. Anos depois, quando um importante fornecedor é flagrado fazendo besteira, a empresa ignora o que escreveu e diz que vai trabalhar em parceria com o fornecedor para que, juntos, possam caminhar em direção a um mundo mais sustentável. E que não poderia deixar o fornecedor na mão sob o risco de empregos serem fechados. Lembrando que o tráfico de drogas é também um grande empregador, mas defender serviço de aviãozinho ou fogueteiro pega mal, enquanto sair ao lado de desmatador ou escravista ainda é justificável desde que seja pelo progresso da nação. Já vi coisas assim em grandes mineradoras, indústrias automobilísticas, enfim, não é monopólio de determinado setor. E o que estava escrito no relatório e que foi comunicado à sociedade? É o que se perguntam alguns amigos que estão diretamente envolvidos com produção de relatórios de sustentabilidade. Dia desses, um deles me confidenciou que, seguindo essa toada do “esqueçam o que escrevi”, ia oferecer seus préstimos como revisor de romances de ficção em alguma grande editora. Dramas pessoais e literários à parte, ainda considero salutar o processo de produção desses relatórios nas empresas que levam isso a sério e convidam os interessados no comportamento da empresa para debates. É o momento de pressionar e constranger. Cobrar o que não foi feito, reconhecendo avanços, é claro. E, como ninguém é de ferro, comer pão de queijo, sanduíche de metro e tomar suco de laranja em salas de conferência de hotéis chiques. Além de rir um pouco. Participei de um rosário de encontros visando à produção desses relatórios como parte interessada por conta do meu trabalho. Houve cenas memoráveis. Numa delas, anos atrás, um banco convidou para analisar seu relatório. Alguém levantou a mão em determinado momento e perguntou se ainda dava tempo de a empresa repensar um trecho que pegaria bem mal quando fosse divulgado. Nele, havia uma forma um tanto quanto inusitada de avaliar o impacto do aquecimento global no país e nos negócios: “Do ponto de vista dos impactos diretos das mudanças climáticas, o estudo (conduzido pelo banco, sobre negócios e mudanças climáticas) aponta um risco reduzido na estrutura da Rede de Agências e na composição do faturamento da Organização, dado o horizonte de tempo em que a alteração do clima do planeta deve começar a afetar o Brasil com mais intensidade. À exceção das regiões litorâneas, as mais ameaçadas pelo aumento do nível do mar, o restante do território brasileiro não deve ser diretamente atingido. A queda de oportunidades de trabalho no campo, o empobrecimento de faixas importantes da população e o consequente fluxo migratório para as grandes cidades poderão acarretar aumento do desemprego, gerando impactos sociais negativos como o crescimento da violência e da favelização e o fortalecimento da economia informal. Nesse cenário, poderia-se observar uma diminuição da fidelização dos clientes aos bancos, diante do acirramento da concorrência, cada vez mais concentrada em regiões metropolitanas. A importância de se trabalhar melhor a rentabilidade do cliente aumenta. Tais fenômenos implicam a necessidade de cadastro de clientes mais flexível e rapidamente atualizável, uma vez que uma movimentação mais intensa das pessoas amplia as oportunidades de negócio, tanto pelo volume de recursos quanto pelas oportunidades de financiamento.” Cadastro de clientes mais flexível? Ou seja, quem disse que não dá para ganhar dinheiro com mudanças climáticas? É a economia verde, minha gente. Isso sem contar o texto. Após anos lendo releases e relatórios, tenho a certeza de que alguma coisa está errada. Tudo bem que cada grupo tenha palavras próprias para se expressar. Mas se o objetivo é comunicar à sociedade e não apenas a um grupo restrito (ó, vó! ó que lindo, fui eu quem escrevi!), seria importante tocar os dois pés no chão e falar português claro. E não “sustentabilitês”. Até porque o uso exaustivo dessas expressões servem para encobrir a falta de conteúdo. Vamos a uma breve experiência. Levantei com uma amiga jornalista que também trabalha na área dez termos usados com frequência nos relatórios. Economia verde Empoderamento Globalizada Operacionalização Oportunizar Panorama geral Paradigma Participativo Sistêmico Sustentabilidade Disso, sem pensar, produzi um parágrafo: “Devemos operacionalizar, de forma globalizada, o empoderamento sistêmico como um elo de ligação de uma sociedade participativa no panorama geral de um novo paradigma de uma economia verde, que visa a oportunizar a efetivação da sustentabilidade.” Olha, não é por nada não, mas conseguiria encaixar esse texto em uma miríade de comunicações empresariais pré-Rio+20. É genérico, tipo uma pescada, uma virose, sempre presente no ambientalismo empresarial. Mas também em órgãos governamentais. Ou em organizações não governamentais… Enfim, sou o discurso que, cotidianamente, construo sobre mim mesmo. Ou seja, sou o que a sociedade vê em mim. E considerando que a percepção do que seja realidade é algo construído, quanto mais recursos financeiros tenho, melhor a bricolagem. Sou uma cebola de camadas sobrepostas que parece densa e cheia de conteúdo. Mas que, ao ser descascada, oferece apenas vento. * Publicado originalmente no Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto*
c2 Artigo

O candidato ingênuo

Candidato, vocábulo que deriva de cândido, puro, íntegro. Quem dera a maioria correspondesse a essa etimologia... A ingenuidade de muitos candidatos a vereador se desfaz quando, convidado a concorrer às eleições, acredita que, se eleito, não será "como os outros” (quantos não disseram isso no passado e hoje...) e prestará excelente serviço ao município. O que poucos candidatos desconfiam é que servem de escada para a vitória eleitoral de políticos que eles criticam. Para se eleger vereador, deputado estadual ou federal, é preciso obter quociente eleitoral - aqui reside o pulo do gato. A Câmara Municipal comporta de 9 a 55 vereadores, de acordo com a população do município. Cândidos eleitores imaginam que são empossados os candidatos que recebem mais votos. Ledo engano. João pode ser eleito ainda que receba menos votos do que Maria. Basta o partido do João atingir o quociente eleitoral. Vamos supor que o município tenha 6.000 eleitores. Destes, 1.500 deixaram de votar, votaram em branco ou anularam o voto. São considerados válidos, portanto, 4.500 votos. Como a Câmara Municipal tem 9 vagas, divide-se o número de votos válidos pelo número de vagas. O resultado dá o quociente eleitoral: 500 votos. Todo candidato que obtiver nas urnas 500 votos ou mais, será eleito vereador. É muito difícil um único candidato obter, sozinho, votos suficientes para preencher o quociente eleitoral. Casos como o do Tiririca são raros. A Justiça Eleitoral soma os votos de todos os candidatos do mesmo partido, mais os votos dados apenas ao partido, sem indicação de candidato. A cada 500 votos que o partido recebeu, o candidato mais votado vira vereador. Se o partido obteve 1.500 votos, ele terá, na Câmara Municipal, três vereadores. Os demais candidatos, que individualmente receberam menos votos do que os três empossados, ficam como suplentes. E o partido que obtiver menos de 500 votos, neste exemplo, não faz nenhum vereador. A lei permite que um partido apresente um número de candidatos até uma vez e meia o número de vagas na Câmara. Se o partido se coliga com outros partidos, a coligação pode apresentar candidatos em número duas vezes superior à quantidade de vereadores que o município comporta. Para uma Câmara que comporta 9 vereadores, cada partido pode ter 14 candidatos, e cada coligação, 18. Esta a razão pela qual os partidos lançam muitos candidatos. Quanto mais votos os candidatos obtêm, mais chance tem o partido, ou a coligação, de atingir o quociente eleitoral. E, portanto, de eleger os candidatos com maior votação individual. Ora, se você pensa em ser candidato, fique de olho. Pode ser que esteja servindo de degrau para a ascensão de candidatos cuja prática política você condena, como a falta de ética. Enquanto não houver reforma política, o sistema eleitoral funciona assim: muitos novos candidatos reelegem os mesmos políticos de sempre! Se você é, como eu, apenas eleitor, saiba que escolher o partido é mais importante que escolher o candidato. Votar de olho somente no candidato pode resultar, caso ele não seja eleito, na eleição de outro candidato do partido. Como alerta o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, "mais frequente, porém, é a derrota e a frustração de pessoas bem-intencionadas, mas desinformadas. Ao se apresentarem como candidatas, elas mobilizam familiares, amigos e vizinhos para a campanha. Terminadas as eleições, percebem que sua votação só serviu para engordar o quociente eleitoral do partido ou da coligação... Descobrem, tarde demais, que eram apenas ‘candidatos alavancas’”. Convém ter presente que o nosso voto vai, primeiro, para o partido e, depois, para o candidato. São raríssimos casos como o da manicure Sirlei Brisida, eleita vereadora em Medianeira (PR) com apenas 1 voto. Seu partido, o PPS, concorreu nas eleições de 2008 com nove candidatos. Pelo quociente eleitoral, apenas Edir Moreira tomou posse. E se mudou para o PSDB, acompanhado pelos outros sete suplentes. Sirlei, que adoeceu durante a campanha eleitoral, e não pediu votos nem à família, permaneceu filiada ao PPS. Agora, a Justiça Eleitoral decidiu que o mandato pertence ao partido, no caso, ao PPS. Edir foi cassado e Sirlei, empossada. * Frei Betto é escritor, autor de "A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org - Twitter:@freibetto. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Frei Betto*
Reprodução do quadro Futebol (1936), de Francisco Rebolo. Artigo

Copa 2014: rumo ao futebol-mentira?

[caption id="attachment_54505" align="alignleft" width="213" caption="Reprodução do quadro Futebol (1936), de Francisco Rebolo."][/caption] Em vez de valorizar relação única entre bola, arte e multidões, Brasil arrisca submeter-se à lógica que elitiza e apequena o esporte. O jornalismo brasileiro sempre teve um exército de palpiteiros e comentaristas, que povoam todos os dias rádios, televisões, meios impressos e online. Ainda que pouco se possa esperar dessas “opiniões”, diante do grau de controle editorial dos meios, é cada vez mais surpreendente a incapacidade da mídia esportiva nacional para tratar com profundidade o futuro do futebol. O Brasil vive um momento de transformações estruturais em seu esporte mais popular. Os debates mais relevantes passam ao largo da mídia, tomada por análises táticas intermináveis e improdutivas, discussões rasas e geradoras de falsas polêmicas e o curioso “novo jornalismo humorístico-esportivo”, que prolifera em todos os meios. À medida que se aproxima a Copa do Mundo de 2014, aprofunda-se, ainda que de forma lenta e sutil, uma política de segurança e “modernização” cada vez mais rígida e segregadora. Ao invés de analisarmos o que acontece no futebol, buscaremos entender o que são as forças policiais no Brasil, o que significam e o que pretenderão, quando esse processo estiver concluído. Para entendê-lo, é útil ter como parâmetro a realidade europeia, também dominada por uma concepção de combate “aos torcedores violentos”. Alguns setores da imprensa europeia – minoritários, mas fundamentais – vêm cumprindo papel importantíssimo na denúncia de certos absurdos. São iniciativas como o próprio Outras Palavras, que abre aqui esse canal de debates. Quem deseja o “novo futebol”? O abuso da força e a falta de sintonia da ação policial com a realidade socioeconômica brasileira nunca foi novidade. No futebol, é histórica a discussão sobre segurança em dias de jogos. Volta e meia, ela se reduz (de forma errônea, mas também proposital) ao controle e repressão das torcidas organizadas. Por isso, é preciso ir além da discussão pura e crua do pragmatismo que envolve a questão da “segurança”. Ainda mais no Brasil, marcado por uma cultura de controle social, imposição do poder e violência do Estado e grupos sociais dominantes. Estes valores são, em grande parte, estimulados, provocados e apoiados pela ampla maioria dos meios midiáticos esportivos. A falta de uma discussão mais profunda e séria sobre o tema se deve a dois fatores primordiais: a conivência da mídia esportiva com o processo de mercantilização do futebol e, principalmente, a grande despolitização da discussão sobre o esporte. Futebol-entretenimento e despolitização O futebol não é mais o mesmo dos anos 1970, que se estruturava com imensos estádios e convidava as massas – incluindo os torcedores mais pobres, que ainda podiam pagar ingressos. Hoje, impera em todo o mundo a ideologia do futebol-entretenimento. Inclui grande promiscuidade entre os interesses dos cartolas, empresários de jogadores, patrocinadores de clubes e os das emissoras de TV – as grande detentoras dos direitos de imagem do futebol nacional (inclusive do seu, que pagou ingresso “prevendo” essas cláusulas). Os estádios já não podem acolher um público que se aproxime de cem mil pagantes, número atingido diversas vezes no Brasil. Essa visão “programática” de uma reestruturação do futebol teve na Europa seu pontapé inicial. O Brasil viverá, com a Copa do Mundo, o momento crucial: poderá aceitá-la ou não. A proposta é diminuir os estádios, reduzir sua capacidade e transformar o público assistente em telespectador. Basta ver como se dão as reformas dos estádios brasileiros: redução da capacidade em cerca de 20%; setorização e fim das áreas populares; desenvolvimento de novos serviços alheios ao esporte, como shows e espaços semelhantes aos de shopping centers; aumento do valor dos ingressos, como decorrência final das mudanças. Tais transformações estruturais são apresentadas pela mídia esportiva como um grande passo para o futebol brasileiro, um avanço rumo à modernização do desporto nacional. Acontece que essa contradição traz requintes de crueldade: os setores populares, aqueles que estarão excluídos ao fim dessa reforma, são os primeiros a serem instigados a comemorar o novo momento. O “maloqueiro-sofredor” do Corinthians terá, após a Copa do Mundo, a mesma dificuldade de assistir a um jogo no Itaquerão-Odebretch que o “mulambo” do Flamengo enfrentará, no futuro Maracanã-Gutierrez. Mas tais transformações são “naturalizadas”, como se fossem o único caminho possível. Alguns jornalistas já declaram abertamente seu apoio ao novo modelo. É o caso de Alberto Helena Jr., comentarista do Arena SporTV, que conseguiu irritar inclusive colegas de profissão, ao dizer que “a tendência natural é a grande massa vendo futebol pela TV e uma elite nos estádios”. Em nenhum momento, a mídia esportiva brasileira procurou mostrar os efeitos deste retrocesso no futebol na Europa – principalmente em na sua menina-dos-olhos, a Premier League. Na Inglaterra, o público assistente tem se limitado a homens com mais de 30 anos, com renda superior à grande maioria da população local. Além de ser condicionado a comemorar sua própria exclusão dos estádios, o brasileiro de baixa renda não é informado de que ele próprio está financiando esse projeto. Em matéria para o Portal UOL, o jornalista Vinícius Kochinski reportou que dez estádios, dos doze escolhidos para sedes da Copa do Mundo, já estão cotados para ter administrações privadas. Isso, apesar de 97% dos recursos aplicados nesses estádios provirem do governo federal, por intermédio de megaempréstimos concedidos pelo BNDES. A “naturalização” dessas mudanças e a confusão entre os interesses dos torcedores e o de quem lucra com esse “novo futebol” são, antes de tudo, consequências da despolitização do tema. Esta dissociação é mais facilmente operada quando, em caso de confronto entre integrantes de torcidas organizadas, o tema é tratado – e repercute intensamente, em todas as seções dos jornais e noticiários – como “caso de polícia”. A própria concepção de entretenimento já caracteriza os fins desse projeto de futebol. Entretenimento é aquilo que distrai, que espairece e desvia a atenção. O futebol, deslocado do processo de embates políticos, torna-se mero objeto de manipulação. Na próxima semana, veremos como esta concepção está sendo implantada agora, e quais os possíveis caminhos para resistir a ela e superá-la. * Irlan Simões é estudante de Comunicação Social e torcedor do Esporte Clube Vitória. Atua no Movimento Somos Mais Vitória, na Associação Nacional dos Torcedores, na Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social e acha que o futebol deve ser jogador pela ala esquerda. ** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Irlan Simões*
c4 Artigo

Economia verde versus economia solidária

O Documento Zero da ONU para a Rio+20 é ainda refém do velho paradigma da dominação da natureza, para extrair dela os maiores benefícios possíveis para os negócios e para o mercado. Por meio dele e nele o ser humano deve buscar os meios de sua vida e subsistência. A economia verde radicaliza esta tendência, pois, como escreveu o diplomata e ecologista boliviano Pablo Solón, "ela busca não apenas mercantilizar a madeira das florestas, mas também sua capacidade de absorção de dióxido de carbono”. Tudo isso pode se transformar em bônus negociáveis pelo mercado e pelos bancos. Destarte, o texto se revela definitivamente antropocêntrico, como se tudo se destinasse ao uso exclusivo dos humanos e a Terra tivesse criado somente a eles e não a outros seres vivos que exigem também sustentabilidade das condições ecológicas para a sua permanência neste planeta. Resumidamente: "O futuro que queremos”, lema central do documento da ONU, não é outra coisa que o prolongamento do presente. Este se apresenta ameaçador e nega um futuro de esperança. Num contexto destes, não avançar é retroceder e fechar as portas para o novo. Há, outrossim, um agravante: todo o texto gira ao redor da economia. Por mais que a pintemos de marrom ou de verde, ela guarda sempre sua lógica interna que se formula nesta pergunta: quanto posso ganhar no tempo mais curto, com o investimento menor possível, mantendo forte a concorrência? Não sejamos ingênuos: o negócio da economia vigente é o negócio. Ela não propõe uma nova relação para com a natureza, sentindo-se parte dela e responsável por sua vitalidade e integridade. Antes, move-lhe uma guerra total, como denuncia o filósofo da ecologia Michel Serres. Nesta guerra não possuimos nenhuma chance de vitória. Ela ignora nossos intentos. Segue seu curso mesmo sem a nossa presença. Tarefa da inteligência é decifrar o que ela nos quer dizer (pelos eventos extremos, pelos tsunamis, etc.), defender-nos de efeitos maléficos e colocar suas energias a nosso favor. Ela nos oferece informações, mas não nos dita comportamentos. Estes devem se inventados por nós mesmos. Eles somente serão bons caso estejam em conformidade com seus ritmos e ciclos. Como alternativa a esta economia de devastação, precisamos, se queremos ter futuro, opor-lhe outro paradigma de economia de preservação, conservação e sustentação de toda a vida. Precisamos produzir sim, mas a partir dos bens e serviços que a natureza nos oferece gratuitamente, respeitando o alcance e os limites de cada biorregião, distribuindo com equidade os frutos alcançados, pensando nos direitos das gerações futuras e nos demais seres da comunidade de vida. Ela ganha corpo hoje por meio da economia biocentrada, solidária, agroecológica, familiar e orgânica. Nela cada comunidade busca garantir sua soberania alimentar. Produz o que consome, articulando produtores e consumidores numa verdadeira democracia alimentar. A Rio 92 consagrou o conceito antropocêntrico e reducionista de desenvolvimento sustentável, elaborado pelo Relatório Brundland de 1987 da ONU. Ele se transformou num dogma professado pelos documentos oficiais, pelos Estados e empresas sem nunca ser submetido a uma crítica séria. Ele sequestrou a sustentabilidade só para seu campo e assim distorceu as relações para com a natureza. Os desastres que causava nela eram vistos como externalidades que não cabia considerar. Ocorre que estas se tornaram ameaçadoras, capazes de destruir as bases físico-químicas que sustentam a vida humana e grande parte da biosfera. Isto não é superado pela economia verde. Ela configura uma armadilha dos países ricos, especialmente da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) que produziu o texto teórico do Pnuma, "Iniciativa da Economia Verde". Com isso, astutamente descartam a discussão sobre a sustentabilidade, a injustiça social e ecológica, o aquecimento global, o modelo econômico falido, e a mudança de olhar sobre o planeta que possa projetar um real futuro para a Humanidade e para a Terra. Junto com a Rio+20 seria um ganho resgatar também a Estocolmo+40. Nesta primeira conferência mundial da ONU, de 5 a 15 de julho de 1972, em Estocolmo na Suécia, sobre o Ambiente Humano, o foco central não era o desenvolvimento, mas o cuidado e a responsabilidade coletiva por tudo o que nos cerca e que está em acelerado processo de degradação, afetando a todos e especialmente aos países pobres. Era uma perspectiva humanística e generosa. Ela se perdeu com a cartilha fechada do desenvolvimento sustentável e agora com a economia verde. * Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor e autor de Sustentabilidade: o que é e o que não é, Vozes 2012. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Leonardo Boff*
c5 Artigo

Para que serve um jornal online? Ganhar dinheiro ou prestar serviços?

Essas duas perguntas ganharam importância depois da consolidação da tendência de reduzir a circulação de versões impressas de jornais e a migração do noticiário de atualidade para as versões online. A tendência já é um fato nos Estados Unidos e uma perspectiva cada vez mais concreta na Europa, onde os prognósticos sobre faturamento dos jornais, para o biênio 2012-2013, deixaram de ser sombrios para se tornarem trágicos. A mudança do formato papel para o digital está sendo orientada por questões basicamente financeiras, de economia e de ajuste no fluxo de caixa. O que está sintomaticamente ausente nas justificativas das empresas jornalísticas são questões ligadas ao noticiário e às transformações que a migração para o online provoca entre os usuários e nas próprias empresas. Se a opção pelo online for tratada apenas pelo lado da economia, do corte de gastos e de pessoal, as empresas estarão empurrando a crise com a barriga, pois o negócio da notícia pela internet é qualitativamente diferente no modelo da informação em papel. Na era do impresso, as opções informativas eram reduzidas e materializadas. No caso da web, o cardápio noticioso é quase ilimitado e imaterial. Ambos os fatores influem no custo e consequentemente no faturamento. O cálculo do custo-benefício da notícia impressa é facilmente quantificável, o que não acontece na plataforma digital, onde ninguém, até agora, conseguiu descobrir uma fórmula segura para ganhar dinheiro. Para pesquisadores, como o norte-americano Yochai Benkler, da Universidade Harvard, tudo leva a crer que a notícia online jamais será um bom negócio porque se trata de um produto extremamente barato por causa da grande oferta. Logo, o diferencial entre os provedores de informação jornalística vai se dar inevitavelmente pela prestação de serviços ao público. A notícia deixa de ser uma commodity comercializável para se tornar um bem público, o que significa uma volta às origens do jornalismo, quando ele ainda não era uma indústria movida a lucro. Além dessa, há  outra mudança provocada pela migração para a notícia de atualidade na internet. Os jornais estão associados à função de fiscalizadores dos governos e empresas privadas na cultura informativa tradicional. Recentemente, editores de jornais como o The New York Times questionaram se a redução dos dias de circulação dos jornais não acabaria com o hábito de os leitores seguirem diariamente a evolução de uma investigação. David Carr, do Times, acha que a quebra da sequência de dias fará com que os leitores percam o hábito do acompanhamento diário e, uma vez levados para o online, não voltarão mais ao impresso. Por isto, o editor de mídia do jornal acredita que a redução da presença e relevância do jornal impresso na cultura informativa contemporânea tende a “minimizar a função de watchdog (cão de guarda) exercida pela imprensa tradicional”. Mas Roy Greenslade, crítico de mídia do jornal inglês The Guardian, discorda e afirma que a função de patrulhamento de governantes e empresários pode ser executada pelos sites de notícias na web sem nenhum prejuízo. “A relutância em renunciar ao impresso (...) está baseada na concepção de que vivemos num mundo ancorado no papel. Se o futuro está no digital, então o jornalismo online pela web faz todo o sentido”, diz Greenslade. A polêmica é uma consequência direta da mudança de hábitos e de valores imposta pelo avanço da tecnologia digital e da comunicação multidirecional em rede. Não há motivos técnicos para que os jornalistas não continuem exercendo a sua função de watchdog usando a plataforma digital. Esta função pode ser ainda mais eficiente porque a internet viabiliza a colaboração do público no recebimento de denúncias e na checagem de informações. A questão tem desdobramentos culturais, na mudança de hábitos e valores, bem como consequências econômicas, já que o negócio da produção de notícias inevitavelmente será afetado. É importante que os jornalistas tomem consciência desse processo porque eles são protagonistas fundamentais nessa transformação. Até agora os profissionais eram basicamente empregados na indústria dos jornais. Esta situação tende a mudar cada vez mais rápido porque a redução dos dias de circulação de jornais impressos, ou até mesmo a suspensão da versão em papel, vai provocar desemprego e os profissionais terão que buscar novas funções no ambiente cibernético. O leitor também começa a enfrentar as consequências das mudanças porque sua cultura informativa está sendo alterada num ritmo cada vez mais intenso. A adaptação mecânica e operacional está sendo surpreendentemente rápida até mesmo nas gerações mais velhas e, teoricamente, mais resistentes à mudança. Mas a questão cultural permanece num limbo porque as pessoas ainda não têm ideia do vulto das transformações em curso. Se os jornalistas valorizam a sua profissão e seu papel na sociedade, eles terão que assumir também o papel de orientar o público leitor no ingresso na era digital e todo o conjunto de valores associados a ela. Este é um serviço de utilidade pública e apenas secundariamente, um bom negócio. * Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.


por Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa
Foto: Fora do Eixo Juventude

Congresso mobiliza jovens de todo o mundo na véspera da Rio+20

[caption id="attachment_54517" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Fora do Eixo"][/caption] Na ação Juventudes na Rio+20, eles debateram o futuro do planeta e medidas para que os compromissos da  conferência da ONU sejam efetivados. Terminou nessa terça, 12, o 6º Congresso Mundial das Juventudes (World YouthCongress - WYC), que teve início no Dia Internacional do Meio Ambiente, 5 de junho. O encontro, que acontece a cada dois anos, debate o papel da juventude no desenvolvimento sustentável. “O evento tem seis edições e já foi realizado em vários países; 350 jovens de vários lugares do mundo estavam presentes, foi momento privilegiado que veio para abrir um ciclo que coloca o Rio de Janeiro como porta do Brasil para o mundo”, relata Felipe Altenfelder da Casa Fora do Eixo São Paulo, que está na capital carioca nas mobilizações da Rio+20. O Congresso integra a programação Juventudes Rio+20, ação promovida em rede e realizada pela Secretaria Nacional da Juventude (SNJ), o Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) e a Escola de Comunicação da UFRJ. Além das entidades citadas, participam ainda movimentos sociais que debatem o tema da Juventude em diferentes linhas, como: Fora do Eixo, Viração, Viva Favela, Agência de Redes para a Juventude, Escola Popular de Comunicação Crítica da Maré, Agência Lupa e Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ, além das redes e movimentos que compõem o Conjuve. Sobre a importância de manter espaços voltados aos jovens dentro da Conferência, Mateus Fiorentini, da União Nacional dos Estudantes (UNE), ressalta que “essa é a geração que tende a ser formadora de opinião do próximo período, (é a geração) que hoje está nas universidades produzindo conhecimento e que está cada vez mais ligada na questão do desenvolvimento sustentável e ambiental. Ter uma programação voltada para essa turma é muito importante, ainda mais diante do cenário que a gente vive hoje, em todo o mundo, de mobilizações estudantis em defesa de outras formas de desenvolvimento”. A programação do Juventudes Rio+20 englobou encontros, debates e mobilizações que visam a dar mais visibilidade ao protagonismo juvenil nas causas sociais. A grade contou ainda com a “Youth Blast – Conferência de Jovens para a Rio+20”, evento oficial do Grupo de Interesse de Crianças e Jovens (Major Group for Children and Youth) da Comissão de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que buscou explicar melhor a importância da Rio+20 e da Cúpula dos Povos. Na grade, oficinas, capacitações, palestras, atividades autogestionadas e treinamentos. Ao final do encontro será produzido um documento com o posicionamento de crianças e jovens sobre sustentabilidade, que será apresentado como posição oficial do Major Group for Children and Youth (Grupo de Crianças e Jovens) durante a Rio+20. Além da Youth Blast, os jovens participarão também das atividades do “Enlace da Juventude”, o acampamento da juventude que acontece no campus da Praia Vermelha da UFRJ, e em dezenas de atividades culturais pela cidade até a próxima semana. Diante das dificuldades na implementação das deliberações de conferências anteriores, como a de 1992, a participação em massa da juventude em 2012 pode ser vista como decisiva para mudança nesse quadro. Para Fiorentini, “a Conferência de 1992 aconteceu no momento em que os setores da sociedade que defendem uma maior participação do Estado e um movimento mais harmonioso, não tinham o protagonismo que têm hoje”. Segundo ele, 20 anos atrás, as políticas neoliberais, com a redução do Estado e dos investimentos sociais, avançavam: “Vivíamos a implementação de um modelo de desenvolvimento predatório desenfreado, ou seja, de potencialização do setor financeiro na economia. Hoje, nós vivemos exatamente a crise desse modelo e a perspectiva de solução para esses problemas, esses setores que pressupõem o maior protagonismo do Estado estão em ascensão e crescem também no mundo as mobilizações em torno desse modelo de desenvolvimento. O cenário da disputa interna da Conferência também é diferente de 1992 e provavelmente os países em desenvolvimento exercerão uma pressão maior”, explica o estudante. * Publicado originalmente no site Revista Fórum.


por Maria Eduarda Carvalho, da Revista Fórum

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