O que as micro e pequenas pensam sobre sustentabilidade

Artigo

O que as micro e pequenas pensam sobre sustentabilidade


por Jorge Abrahão*


Pesquisa do Sebrae Nacional, divulgada em maio, mostra que as pequenas e microempresas (PMEs) ainda não acordaram para a sustentabilidade, relacionando-a muito mais com gestão ambiental do que com mudança na maneira de produzir e de consumir. Mais da metade (54%) dos empresários brasileiros não percebem a sustentabilidade dos seus negócios como uma “oportunidade de ganhos”. Esta é uma das principais constatações do estudo O Que Pensam as Micro e Pequenas Empresas sobre Sustentabilidade, realizado pelo Sebrae Nacional como parte da sua série Estudos e Pesquisas. A sondagem foi realizada com mais de 3,9 mil empreendedores de todo o Brasil e avaliou a percepção dessas empresas sobre a importância da sustentabilidade em seus negócios. O estudo mostrou ainda ações pouco ou não realizadas por essas empresas que, se fossem feitas, representariam um ganho expressivo para o meio ambiente, como utilizar matérias-primas ou materiais recicláveis no processo produtivo (51,7% dos entrevistados não utilizam), realizar captação de água da chuva e/ou reutilização de água (um expressivo número de 83,4% não realizam esse processo) e reciclagem de pilhas, baterias ou pneus (feito por apenas 49,1% dos entrevistados). Mas, mesmo o cenário não sendo dos mais animadores, já é perceptível uma mudança positiva no pensamento dessas micro e pequenas empresas. A responsabilidade ambiental deixou de ser uma exclusividade das grandes corporações no Brasil. Com a maior conscientização a respeito das mudanças climáticas, os consumidores passaram a ser mais exigentes em relação às questões ambientais e, com base nisso, as PMEs passaram a adaptar seus negócios e dar mais atenção às ações com foco no meio ambiente. Ainda que mais da metade dos entrevistados não veja a sustentabilidade como uma “oportunidade de ganho”, muitos realizam ações com foco na sustentabilidade, como coleta seletiva de lixo (70,2%), controle do consumo de papel (72,4%), controle do consumo de água (80,6%), controle do consumo de energia (81,7%), e destinação adequada de resíduos tóxicos, tais como solventes, produtos de limpeza e cartuchos de tinta (65,6%). Caso concreto Um exemplo de pequena empresa que está ciente de seus impactos e que trata a sustentabilidade com prioridade em suas ações é a RL Higiene - Limpeza Sustentável. A empresa, que está no mercado há mais de 30 anos, declara seu compromisso com a sustentabilidade no próprio nome, em sua missão e em suas ações. A RL faz isso oferecendo não apenas produtos de qualidade, mas soluções sustentáveis de higiene e limpeza, que utilizam o mínimo de recursos materiais e garantem o menor descarte possível na natureza, como é o caso dos produtos concentrados ou daqueles constituídos por matérias-primas renováveis. A empresa também oferece aos clientes treinamento em ferramentas de controle de orçamento e de consumo dos produtos e os estimula a fornecer melhores condições de trabalho para a sua equipe de limpeza. Outro aspecto é que a RL também ajuda a promover a conscientização dos funcionários de seus clientes para o consumo consciente e a redução dos desperdícios, por meio de mensagens nos dispensers do banheiro, cartazes, vídeos e outras ferramentas para apoio da comunicação interna. Essas ações fazem da RL uma indutora de comportamentos socioambientais mais corretos entre clientes, muitos deles grandes empresas. Esse caso demonstra que as PMEs podem acordar para a gestão sustentável a partir do próprio negócio e, com isso, induzir mudanças em outras empresas, inclusive de porte maior. A sustentabilidade requer investimento, mas, principalmente, demanda um olhar diferente sobre o próprio negócio e o mercado. * Jorge Abrahão é presidente do Instituto Ethos. ** Publicado originalmente no site Instituto Ethos.

s5 Sociedade

Cerimônia de abertura da Olimpíada irrita conservadores

Deputado conservador britânico classificou a abertura dos Jogos Olímpicos como uma "cerimônia esquerdista e um verdadeiro lixo multicultural". Com o país orgulhoso do que viu na abertura, primeiro-ministro David Cameron procura se afastar de seu colega conservador. No plano político, bandeiras de Taiwan e da Coreia do Sul provocam conflitos diplomáticos. A Olimpíada de 2012 arrancou com conflitos de bandeiras que, parafraseando o teórico militar alemão Carl Von Clausewitz, provam que o esporte é, como a guerra, a “política por outros meios”. O artigo é de Marcelo Justo, direto de Londres. Londres – Cerimônia esquerdista, verdadeiro lixo multicultural, “pior que a de Pequim, capital de um Estado comunista”. Com esses calorosos epítetos o deputado conservador Aidan Burley desqualificou em sua conta no Twitter a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos tão elogiada em nível nacional e internacional, e provocou uma furiosa reação pública e política. O governo de David Cameron, que esperou a chegada dos Jogos como maná celestial em meio à recessão, procurou se distanciar rapidamente do deputado. Aidan Burley não gostou da longa cena com crianças saltando em camas de hospital e enfermeiras, dedicada ao Serviço Nacional de Saúde (NHS), a aparição de símbolos do CND, uma organização que promovia o desarmamento nuclear durante a guerra fria, e, a gota que fez o balde do conservador transbordar, foi tanto rap. “É estranho que ele (o cineasta Danny Boyle) tenha dado tanta importância ao rap. Pareceu-me uma tentativa de enfocar nossa história com o prisma moderno de nosso culturalismo”, insistiu Burley em uma entrevista de televisão. Disposto a bombardear a cerimônia cultural, o deputado assinalou que o final tampouco foi de seu agrado. “É também muito triste que Shami Chakrabarty, da organização de esquerda Liberty, tenha sido uma das pessoas escolhidas para carregar a bandeira dos jogos”, disse Burley. Com um país orgulhoso por uma cerimônia que a imprensa britânica descreveu como “extraordinária” e “assombrosa”, Downing Street, o prefeito de Londres, Boris Jonson, e uma série de deputados conservadores se afastaram de seu colega conservador e elogiaram sem reservas a cerimônia inaugural. O trabalhismo aproveitou a ocasião. “David Cameron deveria mostrar um pouco de liderança e exigir um pedido de desculpas de Aidan Burley. Cameron disse que o Partido Conservador mudou, mas está claro que não mudou muito pelo que disse um de seus deputados”, assinalou o deputado trabalhista Michael Dugher. David Cameron assumiu a liderança dos conservadores em 2005 decidido a fazer o partido ocupar o centro do espectro político com uma imagem mais “branda” que a da era thatcherista, guinada com a qual a direita partidária nunca simpatizou. As bestas negras dos conservadores Aidan Burley é um dos mais excêntricos representantes dessa linha. No ano passado, foi obrigado a renunciar a seu cargo de assistente ministerial depois de participar de uma despedida de solteiros que tinha uma temática de disfarces nazistas. Grotescos erros desse tipo permitiram a Cameron isolar esse setor – ultranacionalistas e thatcheristas que reivindicam o império a ferro e fogo – mostrando-o como minoritário e marginal, mas não conseguiu eliminar a suspeita de que, na verdade, representa uma tendência profunda dos conservadores. Em todo caso, está claro que Burley não está sozinho. Um deputado conservador, Karl McCartney, insinuou no Twitter que mais gente está de acordo com suas opiniões. “Abertura de cerimônia agradável em sua maior parte, se ignorarmos as descaradas referências esquerdistas que muitos não ignoraram”, disse McCartney no Twitter. Em apoio a esta leitura política da Abertura, apareceu uma mensagem do magnata multimídia Ruppert Murdoch, que ficou vinculado aos conservadores no escândalo das escutas telefônicas. “A inauguração foi surpreendentemente boa, embora muito politicamente correta”, assinalou Murdoch em seu Twitter. O multiculturalismo, o politicamente correto, o NHS, a BBC e o rap são típicas bestas negras dos conservadores que os responsabilizam por diferentes pecados, desde o terrorismo até a falta de patriotismo, a desintegração familiar e o aumento de crimes. O multiculturalismo, em particular, foi alvo de fortes debates desde os atentados de 7 julho de 2005 em Londres contra o transporte público, que deixaram 54 mortos e mais de 700 feridos. Segundo seus críticos, a coexistência de distintas culturas no interior de uma sociedade (o multiculturalismo) não favoreceu a integração das distintas correntes imigratórias do pós-guerra no Reino Unido. A pior mostra desse fracasso seria o fato de que os quatro atacantes suicidas dos atentados eram de origem muçulmana. É claro que, para a maioria dos britânicos, vincular a cerimônia inaugural dos Jogos com um perverso “vício” multicultural é, no mínimo, uma hipérbole disparatada. Diplomacia olímpica A Olimpíada de 2012 arrancou com conflitos de bandeiras que, parafraseando o teórico militar alemão Carl Von Clausewitz, provam que o esporte é, como a guerra, a “política por outros meios”. Primeiro foi o erro com a bandeira da Coreia do Norte que colocou em perigo a partida com a seleção colombiana de futebol feminino na sexta. Além deste, o conflito China-Taiwan fez uma aparição no meio de Londres. Esse conflito, que começou em 1949 com a fuga do generalíssimo Chiang Kai-Shek para a ilha de Taiwan logo depois de sua derrota para Mao Tse-Tung, atravessou tempo e espaço e se instalou nos encarregados de decorar a central avenida de Regent Street às vésperas dos Jogos Olímpicos. A bandeira vermelho e azul de Taiwan estava entre as 206 bandeiras do mundo durante duas semanas até que uma misteriosa reunião entre a Associação de Regent Street, os organizadores dos Jogos e o Ministério de Assuntos Exteriores britânico mudou as coisas. Com sigilosa discrição, a Associação retirou a bandeira de Taiwan na quarta-feira. Quando o assunto chegou à imprensa, um porta-voz da organização dos Jogos lavou as mãos rapidamente. “O Ministério de Assuntos Exteriores nos asconselhou a baixar a bandeira. Os chineses tinham se queixado”, justificou-se para o jornal Evening Standard. Segundo um acordo firmado em 1980 com o Comitê Internacional dos Jogos Olímpicos, Taiwan exibe a bandeira de seu comitê olímpico e não a bandeira nacional. A China reivindica Taiwan como parte indissolúvel de seu território sob o princípio de uma única China, e se faz escutar sobre esse tema em todos os eventos políticos, culturais ou desportivos do planeta. Curiosamente, o partido governante de Taiwan, o Kuomingtang, também reivindica a unidade territorial. A bandeira retirada é a criada pelo pai da independência chinesa, Sun Yat Sem, reconhecido como herói nacional tanto pelos comunistas como pelos taiwaneses. Mas esses são detalhes históricos, nada mais. O Reino Unido, que tem entre suas prioridades econômicas a intensificação da relação econômica com a China para sair da recessão, não quer dar um passo em falso no delicado e escorregadio terreno dos símbolos nacionais. Isto não impede que os erros humanos – ou simples gafes – compliquem seus objetivos. Como se a diplomacia internacional já não fosse um campo minado, os organizadores dos Jogos colocaram seu grãozinho de areia para a paz internacional, confundindo a bandeira da Coreia do Norte com a da Coreia do Sul no telão da partida de futebol feminino com a Colômbia. As duas Coreias, tecnicamente, ainda estão em guerra (não foi firmado um acordo de paz de um conflito de três anos que deixou milhares de mortos) e são uma parte delicada do atual mosaico internacional. A desconfiança mútua é atávica e imprevisível. A Coreia do Norte não acreditou na teoria do erro humano: para eles se tratou de uma falha deliberada dos organizadores dos Jogos. A partida, que esteve a ponto de ser suspensa, começou uma hora mais tarde e o próprio primeiro ministro David Cameron precisou intervir para colocar panos frios. “Foi um erro de boa fé. Foi pedido perdão e vamos nos assegurar que o erro não volte a ocorrer. Não devemos exagerar o episódio. Foi algo infeliz e penso que devemos deixar assim”, assinalou Cameron. A mensagem não tranquilizou os norte-coreanos. “Certamente que ficamos furiosos. Imagine se um atleta obtém uma medalha de outro e aparece sob outra bandeira”, disse Ung Chang, membro do Comitê Internacional Olímpico da Coreia do Norte. * Tradução: Marco Aurélio Weissheimer. ** Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Marcelo Justo, da Carta Maior
Confronto. Após as punições, a Anatel e as empresas discutem um novo plano de investimentos. Foto: Olga Vlahou Sociedade

Caixa forte, sinal fraco

[caption id="attachment_60639" align="alignleft" width="300" caption="Confronto. Após as punições, a Anatel e as empresas discutem um novo plano de investimentos. Foto: Olga Vlahou"][/caption] Como bem sabem os usuários, os investimentos das empresas de telefonia não têm acompanhado o aumento expressivo da venda de linhas. Os números do setor sugerem que não é por falta de caixa: a remessa de lucros das empresas de telecomunicação para fora do país cresce a cifras parrudas. No ano passado, US$ 2,45 bilhões foram enviados para o exterior pelas companhias de telefonia móvel, fixa, de tevê por assinatura e de internet, valor 130% maior que em 2010. Ainda que não haja informações específicas sobre o caixa de TIM, Oi e Claro, recentemente punidas pela Anatel, os números indicam que o setor vive um bom momento, a despeito das dificuldades para usar o celular em várias regiões do país. Foi o segundo ano consecutivo de crescimento no envio de recursos, como havia ocorrido em 2008, quando a crise econômica estourou no mundo desenvolvido. De lá para cá, a receita do setor cresceu 22% e chegou a R$ 182 bilhões. “O movimento de remessas registrado em 2008 foi uma resposta à crise. E agora está ocorrendo de novo”, diz a advogada Flávia Lefrève, conselheira da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste) e ex-integrante do conselho consultivo da Anatel. A prática denunciaria, diz a advogada, uma versão moderna de colonialismo: “paga-se uma tarifa alta para ter um serviço ruim, para o consumidor ser maltratado e a participação das subsidiárias segurar os lucros das holdings”. A analista Elia San Miguel, da consultoria Gartner, concorda que a prática segue a lógica do mercado: “as vacas gordas ajudam as magras”. Os números oficiais indicam também que parte dos investimentos saiu do papel. As empresas de telecomunicação investiram R$ 21,7 bilhões no Brasil em 2011, valor 20,5% maior que em 2010. Os aportes não têm revertido, porém, o elevado índice de reclamações com foco em cobranças abusivas, desrespeito a contrato e falhas no serviço, desempenho que colocou as teles no topo do ranking do Procon no ano passado, ao lado dos bancos. Foram as queixas de clientes, por sinal, que levaram a Anatel a suspender as vendas de chips das companhias TIM, Oi e Claro desde a segunda-feira 23, exigindo que estas apresentem um plano de melhora dos serviços. Foram suspensas as operadoras com mais reclamações, o que afetou a TIM em 19 Estados, seguida da Oi em cinco e da Claro em três. Todas entregaram seus planos de ação à agência e aguardam avaliação. “Estamos trabalhando para fechar indicadores com performance e vamos fazer averiguações periódicas para verificar se os objetivos estão sendo atingidos”, diz Bruno Ramos, superintendente da Anatel, que tem se reunido com os grupos de técnicos das empresas. A medida surpreendeu as operadoras. “A metodologia utilizada pela Anatel para a suspensão não tinha sido definida antes”, diz Carlos Zenteno, presidente da Claro. A companhia informa que pretende investir R$ 3,5 bilhões neste ano em infraestrutura, além de melhorar o sistema de call center, o seu principal problema. “Estamos expandindo o atendimento, mas realmente tivemos alguns problemas.” A Anatel faz o acompanhamento de alguns índices de qualidade, como a taxa de queda de ligação, o estabelecimento de chamadas e a velocidade para atendimento das reclamações. A atuação da entidade, como se vê, deixa a desejar. “As empresas atendem a praticamente todos os indicadores da Anatel por eles estarem defasados. O setor cresceu demais, a legislação não acompanhou. A telefonia móvel não é regulada como um serviço público e por isso não tem metas de universalização ou política de preço, como há na fixa”, diz Rodrigo Abdalla, consultor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ramos, da Anatel, afirma que a regulação da telefonia móvel protege o usuário, além de exigir abrangência das operadoras. Acórdão do Tribunal de Contas da União (TCU) publicado na terça-feira 24, informa, porém, que a agência cumpriu apenas 27% das exigências feitas em 2006. Segundo o TCU, é preciso aprimorar o ranking de qualidade incorporando dados dos call centers das empresas e informações do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. “A suspensão da venda de chips pode ser eficaz no curto prazo, mas o problema é estrutural e precisa de mudanças na regulação”, avalia Abdalla. A participação relativa dos investimentos do setor caiu na última década. Em 2001, a parcela era de 11%, e em 2011 foi de 2,7%. Os recursos aplicados pelo setor representavam 0,5% do PIB nacional no ano passado, mas em 2001 a fatia era de 1,9%. Em defesa da atividade, o SindiTelebrasil, que representa as companhias, argumenta que as operadoras investiram R$ 250 bilhões no Brasil de 2000 a 2010, mesmo com uma relação entre lucro e receita, chamada margem líquida, baixa em comparação a outros setores. A margem no setor estaria em 2,5%, ante 5,6% nos transportes e 8,9% na energia elétrica. Sobre o resultado mais forte em 2001, quando o investimento foi de R$ 24,5 bilhões, Eduardo Levy, presidente do SindiTelebrasil, diz ter sido atípico. “As empresas anteciparam investimentos para poder entrar na disputa de longa distância.” O crescimento da telefonia no mercado brasileiro tem sido puxado pelo serviço móvel. São vendidos um milhão de celulares ao mês, e hoje há 256 milhões de aparelhos conectados. Há dez anos, eram 35 milhões. Relacionar o aumento de usuários com o ritmo dos investimentos não é, porém, uma leitura fiel dos fatos, segundo Levy. Para ele, o avanço da tecnologia e o aprimoramento do serviço reduziram os custos do setor. Uma das provas é que o preço médio do minuto, incluídos os impostos, caiu de R$ 0,40 no começo de 2009 para R$ 0,20 no fim de 2011. O assunto é controverso. Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) identifica a tarifa de celular brasileira como uma das mais caras entre países em desenvolvimento. Enquanto o valor médio pago por minuto no Brasil foi de US$ 0,11 em 2010, os valores na China, na Rússia e na Índia não chegavam a US$ 0,05. As companhias argumentam que essa comparação não leva em conta as promoções e os planos que reduzem as tarifas em ligações para fixo e entre as mesmas operadoras. Na prática, o custo pesa no bolso dos brasileiros, e uma consequência é que aqui o usuário fala menos ao celular do que em países como Colômbia, México, Chile e Argentina. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Samantha Maia, da Carta Capital
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O multilateralismo está em uma encruzilhada

Genebra, Suíça, agosto/2012 – O multilateralismo está em uma encruzilhada. Para sair dela é preciso atuar conjuntamente, por exemplo, nas questões ambientais e na sustentabilidade, temas centrais na recente cúpula Rio+20. A encruzilhada é notória no comércio e em outros assuntos econômicos. A Cúpula do Grupo dos 20 (G-20) países industrializados e emergentes de Los Cabos, no México, pôs o seu foco precisamente em melhorar a resposta coletiva às atuais turbulências econômicas, que também estão no centro dos acontecimentos na União Europeia (UE). A crise começou em 2008, mas a economia mundial ainda segue frágil. As projeções da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam que o intercâmbio comercial vai desacelerar, passando de 5% em 2011 para apenas 3,7% este ano. O impacto da crise também é sentido no mundo em desenvolvimento. A previsão é de que a dinâmica economia chinesa crescerá menos este ano, enquanto diminui o crescimento da Índia. Muitos países pobres veem baixar suas exportações para seus principais mercados, a UE e os Estados Unidos. Entretanto, surgem novos atores e novos sócios comerciais, o que muda sobremaneira a natureza do intercâmbio e aprofunda a interdependência econômica. Na última década, a participação das economias em desenvolvimento e emergentes aumentou de um terço para metade do produto interno bruto (PIB) global. E a parte dos países em desenvolvimento nas exportações globais aumentou de 33% para 43%. A estrutura do comércio internacional também está se transformando. Não faz muito tempo, numerosos produtos eram “Made in China” ou “Made in Germany”. Agora, a expansão das cadeias globais implica que a maioria dos produtos seja montada com contribuição de muitos países, e podemos dizer que são “Made in the World”. Com taxa de crescimento de 6% ao ano, o comércio em bens intermediários agora representa 60% do comércio internacional e é o setor mais dinâmico. O mapa das emissões globais de gases-estufa também mudou. As emissões do mundo em desenvolvimento aumentam bastante, e as da China são iguais ou já superaram as dos Estados Unidos. O mesmo pode ser dito da cooperação macroeconômica. Como demonstraram as cúpulas do G-20, tanto nas políticas monetárias como nas fiscais, na luta contra os paraísos fiscais ou pela regulação das atividades financeiras, falta a cooperação global. Porém, as regras que governam a cooperação multilateral não seguiram o ritmo dessas mudanças. Em boa medida, vivemos com as regras criadas na década de 1990. Uma preocupante atitude surgiu nos dois últimos anos com relação ao multilateralismo. Em contraste com os múltiplos chamados diante da propagação da crise financeira global em favor de maior e melhor coerência regulatória, a cooperação internacional afundou e está mais precária ainda. Algum cínico observador poderia dizer que, durante a década passada, os esforços internacionais para forjar acordos legalmente vinculantes puseram tão baixo o umbral das expectativas que, agora, até um acordo para continuar dialogando é considerado um êxito. Tal cinismo passa por cima do fato de que, para a maioria dos países, mais multilateralismo e mais cooperação internacional continuam sendo o único caminho sustentável para avançar. As mudanças dos últimos anos ditaram uma remodelação, uma reconsideração e um ajuste da cooperação multilateral tradicional, inclusive na OMC. A proliferação de diferentes coalizões informais e grupos de países e da sociedade civil, como G-8, G-8+5, G-20, B-20 e L-20, entre outros, é sintomática da natureza sempre mutante das relações internacionais. Entretanto, creio que sua eficácia dependerá de serem suficientemente representativas para enfrentar os cada vez mais complexos desafios em nossa agenda. Uma economia global estável não pode ser construída sem incluir os principais interessados no processo de tomada de decisões. E, o que é mais importante, enquanto a crise continuar golpeando fortemente os sistemas nacionais, será difícil alcançar um multilateralismo de alto nível. A situação pode se converter em um círculo vicioso: sair da crise mais cedo do que tarde implica uma forte liderança para executar os necessários acordos de cooperação internacional. Mas a legitimidade dos governos diminui com o descontentamento popular gerado pelas dificuldades econômicas e sociais. Isto afeta a capacidade de atuar conjuntamente, o que, por sua vez, prolonga a crise. Creio, então, que o multilateralismo está em uma encruzilhada. Ou avança no espírito de valores compartilhados ou enfrentamos uma retirada do multilateralismo, por nossa conta e risco. Sem cooperação global no financeiro, na segurança, no comércio, no meio ambiente e na redução da pobreza, os riscos de divisão, conflitos e guerras continuarão sendo perigosamente reais. Não basta ficar à espera de tempos melhores. Devemos ser mais audazes para juntos enfrentarmos os crescentes riscos. Envolverde/IPS * Pascal Lamy é diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC).  


por Pascal Lamy*
Festa na aldeia Kuikuro para o lançamento do DVD Xingu Terra Ameaçada, do Washington Novaes. Foto: Dal Marcondes Artigo

Governo irá suspender portaria polêmica sobre terras indígenas

[caption id="attachment_59958" align="alignleft" width="300" caption="Festa na aldeia Kuikuro para o lançamento do DVD Xingu Terra Ameaçada, do Washington Novaes. Foto: Dal Marcondes"][/caption] A Advocacia Geral da União (AGU) deve publicar um ato, nos próximos dias, suspendendo os efeitos da portaria 303/2012, que orienta o trabalho de seus advogados e procuradores em processos envolvendo terras indígenas. A partir da suspensão, o governo federal deve realizar audiências públicas com populações indígenas para consultá-las a respeito das novas regras em um prazo de 60 dias. A informação foi confirmada por fontes na Secretaria Geral da Presidência da República. Sob a justificativa da soberania nacional, a portaria prevê que o governo  pode intervir nessas áreas sem a necessidade de consultas às comunidades envolvidas ou à Fundação Nacional do Índio (Funai). Ou seja, instalar unidades ou postos militares, construir estradas ou ferrovias, explorar alternativas energéticas (leia-se hidrelétricas, termelétricas, usinas nucleares, entre outros) ou resguardar “riquezas de cunho estratégico” para o país – minerais ou vegetais, por exemplo. A Constituição Federal, no seu artigo 231, afirma que a exploração de recursos hídricos e a construção de usinas hidrelétricas só podem ser feitas com a autorização do Congresso Nacional, desde que ouvidas as comunidades atingidas. Ao mesmo tempo, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, do qual o Brasil é signatário, estabelece que as populações tradicionais devem ser consultadas em situação assim. A publicação da portaria, no dia 17 de julho, provocou fortes reações por parte de movimentos sociais e indígenas, organizações ambientalistas e de direitos humanos e em setores do próprio governo, como a Funai, pois ela também dificulta a expansão das terras indígenas. Do outro lado, recebeu manifestações acaloradas de apoio, como as da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que teria negociado os termos da portaria com a própria AGU. O Ministério Público Federal está atuando para derrubar os efeitos da portaria. A decisão pela suspensão foi tomada após uma reunião entre representantes da Funai, da Secretaria Geral da Presidência da República, do Ministério da Justiça e da Advocacia Geral da União, entre outros. De acordo com fontes da Secretaria Geral, foi explicado à AGU que a portaria havia torpedeado um processo de discussão sobre a normatização da convenção 169 da OIT. A Advocacia Geral da União havia usado como justificativa que, com essa portaria, acatava decisão do Supremo Tribunal Federal baseada na definição de condicionantes, em 2009, para a efetivação da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. Só que a corte afirmou que as condicionantes para demarcação valiam para aquele caso e não, necessariamente, para outros. O governo federal aproveitou a brecha e passou um pacotão do seu interesse. A presidente da Funai, Marta Azevedo, estará, nesta semana, com comunidades indígenas Guarani Kaiowá  que se reúnem na assembléia Aty Guassu, no Mato Grosso do Sul. O grupo, que esta envolvido em disputas de terra, seria um dos principais afetados pela medida. Em comunicado à imprensa enviado na tarde desta terça (24), após a publicação deste post, a Funai também confirmou que Luis Inácio Adams, advogado-geral da União, concordou em publicar um ato de vacância da lei, suspendendo a vigência da portaria até que sejam ouvidos os povos indígenas. * Com Verena Glass, da Repórter Brasil. ** Publicado originalmente no site Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto*
Há concreto, pedaços de ferro e cano entre o entulho despejado clandestinamente no parque Brasil

Soterrada, Área de Mata Atlântica agoniza em São Paulo

[caption id="attachment_59887" align="alignleft" width="300" caption="Há concreto, pedaços de ferro e cano entre o entulho despejado clandestinamente no parque"][/caption] Após andar durante pouco mais de cinco minutos dentro do Pinheirinho D’água, parque do distrito de Jaraguá, na zona oeste de São Paulo, chega-se ao que Ana Sueli Ferreira da Silva, de 45 anos, chama de “lugar favorito no mundo”. “Olha que bonito é aqui. Eu gosto porque é aberto, o vento bate naquelas árvores lá em cima e faz um barulho tão gostoso de ouvir”, diz, justificando a preferência. A cerca de 200 metros dali, a nascente de um córrego foi soterrada junto de 150 árvores com a ajuda de mil caminhões de terra e entulhos, jogados no parque sem qualquer tipo de autorização. O Pinheirinho D’água é uma das últimas áreas de reserva de Mata Atlântica dentro da capital paulista. Com 250 mil metros quadrados – o equivalente a 60 campos de futebol – , 70% de sua extensão configura Área de Preservação Permanente (APP), o que faz do aterramento nada menos do que um crime ambiental. Em volta do parque há escolas, prédios da CDHU e Cohabs. Todo o esgoto gerado passa a céu aberto dentro do Pinheirinho D’água. Sueli, que faz parte do Conselho Gestor, conta que há dez anos os moradores do bairro reivindicavam à Subprefeitura de Pirituba – responsável por administrar a região – a implantação de uma rede coletora de esgoto. Em abril ficou acertado que a Sabesp realizaria as obras. “Nós todos ficamos muito felizes com o acordo. Mas o tempo passava e eles não divulgavam o orçamento, nem qual empresa seria responsável pelo trabalho”, relata. Sem autorização oficial ou registro de licenciamento ambiental, no dia 2 de maio foram iniciados os trabalhos. Para entrar no parque, que é totalmente cercado por grades, um dos portões foi arrebentado. Somente em 21 de junho a autorização da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente da prefeitura de São Paulo foi publicada no Diário Oficial do Município. Encontram-se pedaços de ferro, de cano e concreto entre a terra jogada no local. Com o aterramento, o curso do esgoto foi desviado: se antes passava por debaixo de uma ponte, agora invadiu o espaço de uma trilha feita em meio às árvores. “Essa situação é triste e absurda. Mas isso acontece porque nós estamos em uma região periférica da cidade. Aposto que isso nunca aconteceria em um parque como o Ibirapuera ou o Villa-Lobos”, indigna-se Sueli. Carlos Eduardo de Jesus, também do Conselho Gestor, afirma que a situação se agrava porque a área soterrada é de brejo, um ambiente sensível que abriga biodiversidade importante para a filtragem de nutrientes e limpeza das águas, além de manter o equilíbrio do ecossistema. Os moradores questionam a atuação da administração do parque, que nada fez ao perceber que os caminhões entravam no local. O administrador Cristiano Cruz se justifica dizendo ter julgado que o aterramento fazia parte do projeto da Sabesp e que por isso não interferiu. O Conselho entrou com uma representação no Ministério Público do estado de São Paulo e, na quinta-feira 19, o promotor Washington Luis Lincoln de Assis, da 3ª. Promotoria de Justiça do Meio Ambiente da Capital, instaurou inquérito civil para investigar o caso. O inquérito também será encaminhado para a Promotoria Criminal para que sejam apuradas as responsabilidades criminais acerca do assunto. Outro lado Procurada pela reportagem, a Sabesp informou por meio de sua assessoria de imprensa que nada tem a falar sobre o caso, afirmando que a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente é a única que poderia liberar mais informações. CartaCapital então procurou a secretaria. Esta enfatizou que jamais deu autorização para que empresa alguma – a não ser a Sabesp – realizasse obras no local. Em nota, também afirmou que a empreiteira responsável já foi identificada e devidamente multada. “O Núcleo de Gestão Descentralizada da Zona Norte,  que pertence à Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, aplicou 5 multas à empresa Tercel Terraplenagem, que totalizaram um montante de 3.902,644,60 de reais”. E completou: “Além da aplicação das multas, o  infrator foi intimado a realizar a retirada do material depositado no parque nos próximos dias. Na sequência, ele deverá apresentar um plano de recuperação do dano causado”. A diretoria da Tercel, por sua vez, não quis se manifestar a respeito do assunto. Apenas informou que o responsável pelo projeto se chama Marco Antônio, sem também divulgar sobrenome. Ação de lideranças locais O Parque Pinheirinho D’água é resultado de uma luta dos movimentos sociais de Pirituba e Jaraguá, que reivindicavam a construção de um parque na região. Com o apoio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e da própria Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, o projeto foi inaugurado em 2001 e desde então recebe uma intensa fiscalização por parte dos moradores. O projeto foi feito por integrantes da pós-graduação da FAU, com a ajuda de equipes interdisciplinares formadas por profissionais como biólogos e sociólogos. As lideranças sociais locais também jamais deixaram de cuidar, preservar e lutar pelo parque. “O projeto inicial era lindo, mas é claro que nem tudo que estava previsto foi concluído”, lamenta Sueli. Ela conta que a ideia original era que existissem dentro do parque praças temáticas, como a “praça das crianças” ou a  ”praça dos skatistas”. Dentro da área do Pinheirinho D’água existe uma casa de Educação Ambiental, espécie de escola para ensinar as crianças a lidar com a natureza. “Outro dia um menino perguntou para a gente para que servia o capim. É uma pergunta tão simples que nós queremos responder. Todas as crianças deveriam saber que tudo cumpre uma função dentro do meio ambiente”, diz a conselheira gestora. Baiana, ela mora no bairro há 35 anos e sempre esteve envolvida com reciclagem e com a Associação de Catadores de Lixo. “Depois de resolver esse problema do aterramento, eu quero lutar por uma programação para esse parque. Eventos e gincanas para ocupar, chamar visitantes”, vislumbra, esperançosa. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Beatriz Mendes, da Carta Capital
A Cúpula dos Povos levou 80 mil pessoas à Marcha dos Povos e mobilizou diariamente 30 mil pessoas durante a Rio + 20. Foto: Divulgação Artigo

A Rio+20 foi um tremendo sucesso! Você sabia?

[caption id="attachment_59883" align="alignleft" width="300" caption="A Cúpula dos Povos levou 80 mil pessoas à Marcha dos Povos e mobilizou diariamente 30 mil pessoas durante a Rio + 20. Foto: Divulgação"][/caption] A nova economia veio para ficar, as relações de SER do ser humano vão conduzir esse processo e a sustentabilidade vai ser a referência para o desenvolvimento. Nenhum outro evento foi tão impactante, em todos esses sentidos, como a Rio+20. O presente e o futuro socioeconômico, principalmente do Brasil, estavam ali de corpo e alma. Quem tiver qualquer relação com o mercado de trabalho ou educação precisa, urgentemente, beber dessa fonte. Mas se a Rio+20 foi tudo isso por que a maioria das pessoas não está sabendo disso? Rio de Janeiro, manhã do dia 23 de junho (sábado), um grande amigo me pergunta se vi a manchete do jornal O Globo, principal jornal do Rio. Naquele instante pensei no desafio que a editoria teria para escolher dentre as centenas de encontros maravilhosos do dia anterior ou um fechamento, com “chave de ouro” do maior e melhor evento sobre a humanidade dos últimos tempos e principalmente sobre o foco dos recursos humanos diante do desenvolvimento sustentável. Quando segurei a capa do jornal, entretanto, não consegui acreditar no que via: “Paraguai cassa presidente e pode ser expulso do Mercosul.” Aquilo não podia ser verdade! Fiquei com muita vergonha! Uma vergonha alheia, que dói! Como isso foi acontecer? Os responsáveis serão expulsos do jornal? Do Rio? Do Brasil? Ainda atônito, recebo o jornal do dia anterior, sexta 22, principal dia da Rio+20 e a manchete ... “Impeachment relâmpago pode cassar presidente do Paraguai”. Que mídia é essa? No dia seguinte voltei para casa e comecei a encontrar com pessoas que se surpreendiam quando lhes relatava alguns dos momentos extraordinários da Rio+20. Os comentários eram de que achavam que não tinha sido tão bom. Houve até alguns que chegaram a acreditar que foi um fracasso. Matrix? O episódio do jornal é bem simbólico para ilustrar o que está acontecendo. Não se deixe enganar: a Rio+20, como um todo, foi um tremendo sucesso. O que lamentavelmente não funcionou, mas já amplamente esperado, foi a direção da ONU e do governo brasileiro. O importante é que isso não representou mais do que 1% do que foi a Rio+20. A ONU vem sendo protagonista de inúmeros fracassos e negligências aos direitos humanos que fundou essa instituição. Vexames como os casos recorrentes de abusos das tropas de ocupação nos países “necessitados” ilustram a atual ineficácia da ONU. O governo brasileiro vem, sistematicamente, tomando decisões contrárias à sustentabilidade. Da vergonha que passamos com o Código Florestal (essa mancha ficará para sempre na História) à redução das Áreas Protegidas e do entorno dessas Unidades de Conservação deixam claras suas intenções. Por isso não deveria haver expectativas de que se produziria algo de útil. O resultado foi um retrocesso que nos leva para os anos anteriores a 1987 onde se firmou os objetivos no relatório de Brundtland (nosso futuro comum). O ato simbólico desse disparate foi a nossa presidente adiar a data do evento de 5 para 20 de junho. Foi em 5 de junho de 1972 que se fez a primeira conferência da ONU (Estocolmo) e partir daí essa data se transformou no dia mundial do meio ambiente e data das próximas conferências. A Eco 92 foi nessa data, a Rio+10 (Johanesburgo) também e a Rio+20 deveria ter sido. A razão da mudança, aparentemente, foi por causa do aniversário da coroação da Rainha Elizabeth... pode? Fica ou não fica clara a importância que o nosso governo deu a esse evento. Mesmo tentando desmobilizá-lo de todas as maneiras não conseguiu. A principal razão foi que os líderes: empresariais, economistas, da sociedade civil, do terceiro setor, educadores, cidadãos, artistas, das ONGs, ativistas e personalidades do mundo inteiro aderiram ao chamado da Nova Economia e fizeram centenas de encontros, palestras, workshops que resultaram no maior e melhor evento sobre Sociedade, Economia, Política, Negócios, Educação e Sustentabilidade do mundo. Esse foi o maior evento da ONU. O Rio de Janeiro ficou lotado de cidadãos do mundo todo e, pela primeira vez, não foi por causa do carnaval nem do futebol. Como é possível acreditar que... “não foi nada”? Fábrica de conteúdo Pessoalmente, nunca aprendi tanto em tão pouco tempo e terei ainda muitos meses pela frente para ver, ouvir, ler, conversar e absorver uma pequena parte do que foi a Rio+20. Para cada “preciosidade” que eu participava, havia pelo menos mais duas ou três que estava “perdendo”. Para participar de tudo que vivenciei naqueles dias, teria de viajar pelo mundo todo, por pelo menos uns dois anos. Só na Cúpula dos Povos, um dos principais espaços da Rio+20 havia centenas de palestras, encontros e workshops acontecendo simultaneamente. O Forte de Copacabana (Humanidade 2012) abrigou mais algumas dezenas de eventos e personalidades internacionais. Só o encontro dos prefeitos das Megacidades (C40) já gerou resultados imediatos (foi demais). O Parque dos Atletas reuniu outra centena de protagonistas mundiais com stands, palestras, mesas de trabalhos, workshops e encontros gerativos. A Arena da Barra participou com outras centenas de palestras, conversas, workshops e discussões. Foi uma verdadeira fabrica de conteúdo e inovações. Foi lá que acompanhei as discussões do Instituto Ethos, desdobramento da conferência na semana anterior. Imperdível para todos os empresários! O Instituto Ipê, entre muitas contribuições, apresentou o novo REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) do Earth Institut (Columbia University)... foi sensacional! No Hotel Windsor Barra teve o mais incrível encontro de empresários “Corporate Sustainability Forum” que deixou claro que sustentabilidade não é só para os grandes, mas para toda cadeia produtiva. Ou seja, afeta todo e qualquer negócio. Surpreendeu pelo número de participantes. O Rio Centro teve mais de 50.000 inscritos! Aconteceram centenas de sessões, diálogos, palestras, mesas de trabalho e workshops. Estava todo Mundo lá! Aquele vexame gerado pelo encontro dos chefes de estado e as reuniões preparatórias tiveram pouca importância frente a todo resto que ocorreu no Rio de Janeiro. Além de tudo isso teve também centenas de eventos paralelos, como o do Rotary Club, realizados pela cidade toda. Vi e ouvi pessoas absolutamente maravilhosas como Ignacy Sachs, Ricardo Young, Mario Mantovani, Aron Belinky, Oded Grajew, Don Melnick , Vandana Shiva, Marina Silva (https://vimeo.com/44634884), Neca Setubal, Valter Behr, Virgilio Viana, Leonardo Boff, Ricardo Carvalho, Jeffrey Sachs, Alexandra Reschke, Guilherme Leal, Eduardo Rombauer, Edgar Gouveia Junior e muitos, muitos outros! Portanto, apesar da mídia, acredite que a Nova Economia veio para ficar, as relações de SER do ser humano vão conduzir esse processo e a sustentabilidade vai ser a referência para o desenvolvimento. Entender claramente esses três princípios é uma questão de sobrevivência para quem tem um papel no mercado de trabalho. * Alan Dubner é conectado com mídias sociais, educação para sustentabilidade e pensamento sistêmico.


por Alan Dubner*
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Mais chuva, mais seca, muito mais preocupação

Enquanto estas linhas são escritas, chove há quatro dias em Goiânia - quando há 30 anos as chuvas no período de estiagem (de abril a setembro) eram tão raras que até nome tinham as duas habituais: "chuva das flores" e "chuva do caju". Algo parecido com o que se verificava também no Cerrado paulista antes que, a partir da década de 1950, a remoção da vegetação nativa e a entrada da cana-de-açúcar e da soja, principalmente, mudassem tudo e tudo fosse possível em qualquer época - chuva e estiagem, frio e calor até no mesmo dia. E hoje tudo acontece ainda no momento em que a calamidade é a rotina em mais de mil municípios nordestinos, com a pior seca em décadas. Mas nem a cidade de São Paulo escapa aos dramas, tendo chovido em oito dias do início de junho mais de 100 milímetros, o que não acontecia em década e meia (Agência Estado, 9/6). Seminário da Unesp e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em Pernambuco avalia (remaatlantico, 12/7) que o Nordeste é a região que mais sofre e sofrerá com as "mudanças do clima", seguido do Centro-Oeste. Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Manaus e Curitiba serão as cidades maiores com mais problemas. O Nordeste, já com mais 29 mil quilômetros quadrados sujeitos a problemas mais graves, apresenta manchas de "hiperaridez", que podem transformar-se em desertos. Outro estudo, da Universidade Federal de Alagoas, adverte que a média de chuvas na região - 800 milímetros anuais - é muito inferior à evapotranspiração, de 3 mil milímetros anuais. O Relatório de Avaliação Nacional sobre Mudanças Climáticas, com aval da Coppe-RJ e de 128 cientistas, prevê um Brasil mais vulnerável às consequências do aumento da temperatura (O Globo, 11/6), com secas mais severas na Amazônia e na Caatinga; temperaturas mais altas nas grandes cidades do Sudeste (devidas às "ilhas de calor"); a Caatinga podendo chegar a 50% menos de chuvas em 2050; mas também com alterações sérias no Pantanal, no Cerrado e em parte da Mata Atlântica; até o fim do século, as chuvas na Amazônia poderão reduzir-se em 45%, com aumento de 5 a 6 graus Celsius na temperatura; a Caatinga poderá perder 50% até 2100. Nossos custos (Estado, 14/6) chegam a US$ 6,9 bilhões em 20 anos, com 20,6 milhões de pessoas afetadas e mais de 3 mil mortas - somos o 13.º país em enchentes e 18.º em prejuízos, segundo a ONU. Mas o Serviço Geológico brasileiro (Agência Brasil, 3/7) afirma que temos 680 mil pessoas em áreas de alto risco, só nos 140 de 821 municípios já mapeados - a maioria no Nordeste. Na América Latina, segundo o Banco Mundial e outras instituições, os prejuízos com esses fenômenos chegam a US$ 100 bilhões anuais (Estado, 5/6). E seria necessário investir US$ 110 bilhões anuais, de modo a reduzir as emissões para duas toneladas anuais de dióxido de carbono (CO2) por pessoa (no Brasil, segundo o cientista britânico Nicholas Stern, elas estão acima de dez toneladas anuais per capita). Ainda nesta semana, o Comitê de Segurança Alimentar da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) pediu a todos os países estratégias de enfrentamento das mudanças e dos riscos de perda de colheitas, que afetarão principalmente os países mais pobres. Os custos dos desastres no mundo a partir de 1992 chegaram a US$ 2 trilhões. E nos "eventos extremos" morreu 1,3 milhão de pessoas, entre os 4,4 bilhões de afetadas por enchentes (2,4 bilhões) e tempestades (720 milhões), principalmente (Estado, 14/6). China e Índia lideram o indesejável ranking. 2010 e 2011 já foram anos dramáticos. A elevação do nível dos oceanos agrava as preocupações dos cientistas. Estudo da Natural Climate Change (6/7) afirma que mesmo com cortes profundos nas emissões de gases poluentes e baixa nas temperaturas médias até 2050 o aumento do nível dos oceanos será "inevitável" até o fim do século. No Ártico, a concentração de CO2 já chegou a 400 partes por milhão. Até a extração e o uso de águas subterrâneas agrava os problemas no mar. O ano de 2012 está sendo o mais quente na História dos Estados Unidos desde 1895 (Reuters, 8/6), 2,9 graus acima da média do século 20. China, Bangladesh, Japão estão de novo às voltas com fenômenos extremos, milhões de pessoas atingidas. A Rússia investiga se administradores relapsos contribuíram para as piores inundações e o maior número de mortes em décadas, com o volume de chuvas em uma hora superando o que era habitual em dois meses, em algumas regiões. É nesse quadro que se reuniram esta semana em Berlim os representantes de 35 países, na tentativa de um acordo que possa levar a compromissos de redução de poluentes na Convenção do Clima, em novembro, no Qatar. Aí, a primeira-ministra Angela Merkel, da Alemanha, disse que enfrentamos "grande perigo" e que as intenções dos países poluidores até aqui não bastam para enfrentar a questão. Mesmo contendo o aumento da temperatura planetária para até 2 graus em meados do século, o problema não estará resolvido Mas persiste o velho confronto: os países do Brics, o Brasil incluído, dizem que a obrigação é dos países industrializados, que emitem desde o início da revolução industrial e até há pouco emitiam mais que o resto do mundo; os países mais desenvolvidos retrucam que sem as nações em desenvolvimento, que hoje poluem mais, nada adiantará. E pedem que haja novo período de vigência do Protocolo de Kyoto. Com o mundo ainda subsidiando com US$ 1 trilhão anuais o uso de petróleo e de outros combustíveis fósseis. A ONU é contra e quer criar uma taxa sobre esse consumo. O Fundo Monetário Internacional (FMI) apoia e tem até proposta de punição para os poluidores. Reunidos na State of the Planet Declaration, 2.800 cientistas dizem que "o sistema Terra está em perigo". O Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas pede planos setoriais de mitigação de emissões aos setores mais poluentes. Mas ainda emitimos quase 2% do total mundial de poluentes. E os acordos estão difíceis internamente. E chove, chove, onde deveria ser estiagem. E piora a seca na Caatinga. * Washington Novaes é jornalista. ** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.


por Washington Novaes*
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O consumidor consciente

Um acordo entre o Governo do Estado de São Paulo e Associação Paulista de Supermercados (Apas) colocou, em abril deste ano, fim às sacolinhas plásticas distribuídas em supermercados. Em julho, por força de uma decisão judicial, elas acabaram retornando. Entre idas e vindas, o que ficou, além da polêmica, da falta de informação e das brigas na justiça, foi um questionamento sobre qual o real papel do consumidor nessa discussão. Afinal, as sacolinhas, antes abolidas pelos supermercados com a justificativa de estarem tomando uma atitude e prol do meio ambiente, voltou por uma reivindicação dos consumidores. Em agosto do ano passado, muito antes dessa polêmica ganhar o noticiário do país, a Fundação Espaço ECO (FEE), o primeiro Centro de Excelência em Gestão da Socioecoeficiência e Educação para a Sustentabilidade da América Latina, divulgou uma análise de ecoeficiência que comparou o uso de diferentes tipos de sacolas para transporte de compras de supermercado. O estudo, que compreendeu a avaliação dos impactos ambientais e econômicos das alternativas, chegou à conclusão de que o impacto de cada uma das sacolas depende, sobretudo, do uso feito pelo consumidor de cada uma das opções, ou seja, está relacionado à quantidade de idas ao supermercado, ao número de vezes que cada tipo de sacola é reutilizada e como ela é descartada, entre outras características. Há muito, nossos atuais padrões de consumo têm sido apontados como um dos principais desafios ao desenvolvimento sustentável do nosso Planeta. Uma pesquisa desenvolvida pela ONG WWF, por exemplo, demonstrou que se todas as pessoas do planeta consumissem como os paulistanos, seriam necessários 2,5 planetas para sustentar esse estilo de vida. Mas como entender e medir o impacto desse consumo nas nossas escolhas diárias? Uma alternativa é compreender que, conscientes ou não, ao adquirirmos um produto, consumimos também toda a sua história, o que chamamos de Ciclo de Vida. E, a partir da compra, passamos a fazer parte deste ciclo, sendo também responsáveis por este processo. Que tal se, no ato da compra, obtivéssemos informações sobre a origem do produto, seu processo de fabricação, uso de matérias-primas e condições de trabalho dos profissionais envolvidos na produção, entre outras?  E mais: o que faremos com os aparelhos antigos, que abrirão espaço nas nossas salas para a chegada dos novos? E o que faremos com esses novos aparelhos quando eles também não atenderem mais às nossas necessidades? Para alguns, podem parecer absurdos esses questionamentos, já que o país vive uma fase em que, pela primeira vez, milhões de brasileiros têm o poder de compra. Outros abordariam ainda a importância da demanda interna por bens de consumo para que o Brasil enfrente a crise econômica que assola o mundo. Todos teriam razão se a única ótica que valesse fosse, ainda, a do lucro. Entretanto, não podemos mais desassociar aspectos econômicos de questões sociais e ambientais, uma transformação real e necessária. Devemos sim consumir. Mas devemos também cobrar mais informações e transparência dos fabricantes sobre suas práticas sustentáveis, seja durante a produção ou na oferta de soluções para o correto descarte de tais produtos. Assim, teremos um cenário em que produtores ecoeficientes e consumidores conscientes desempenham papéis decisivos na busca pelo desenvolvimento sustentável. * Emiliano Graziano é gerente de Ecoeficiência da Fundação Espaço ECO.


por Emiliano Graziano*
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Cuba, em busca do glamour perdido

Havana, Cuba, julho/2012 – Enquanto a Europa se desfaz em meio a uma crise que arrasa com os pequenos negócios, afeta os grandes e empobrece os cidadãos, Cuba, país que ao longo de 20 anos se especializou em viver na crise, parece que começa a se recompor e, ao fazê-lo, até recupera parte do esfumaçado glamour que alguma vez a caracterizou. Isto não significa que na ilha do Caribe as coisas tenham evoluído muito nos últimos tempos em relação ao que tem sido sua realidade de meio século de socialismo vivido. Porque, nem as “atualizações do modelo econômico”, como foram batizadas, nem as mudanças “nas mentes” reclamadas pelo presidente Raúl Castro foram tão profundas ou contundentes a ponto de se poder falar de uma situação política ou econômica essencialmente diferente. No campo político, a falta de uma verdadeira vocação evolutiva se observa em muitas manifestações, que vão desde as declarações públicas de que para sempre na História nada mudará no sistema político estabelecido, até a sobrevivência das tradicionais atitudes de sigilo a respeito da informação, criticadas pelo próprio presidente cubano. Por exemplo, muito pouco se fala (ou escreve) sobre o surto de cólera ocorrido recentemente na zona oriental do país e, para os que têm memória, fica evidente que os cubanos estiveram muito mais informados sobre a epidemia de cólera no Haiti, depois do terremoto de 2009, do que sobre o que acontece no país com o surto da doença. Tampouco se fala (ou escreve) sobre o destino do famoso cabo de fibra ótica estendido desde a Venezuela, que permitiria uma conexão de alta velocidade aos usuários cubanos, uma possibilidade tecnológica que terminou transformada em um mistério sobre o qual ninguém informa de seus postos oficiais. Muito menos se diz (ou escreve) por parte das autoridades, ainda até hoje, sobre a prometida reforma das leis migratórias que aliviariam um pouco as absurdas regulações atuais, repletas de proibições e permissões necessárias para sair ou entrar no território nacional, para os viajantes cubanos radicados dentro e fora da ilha. Entretanto, é evidente que no campo econômico, no nível mais elementar, produziram-se contrações e alterações que, inclusive, começam a ser visíveis em suas manifestações sociais. Um caso revelador é a existência de uma lista comentada dos treze restaurantes privados mais recomendáveis de Havana, que, aparentemente, foi elaborada por uma jornalista britânica especializada nessas qualificações e relacionada com o conhecido GuidePal. Nesses restaurantes privados, alguns abertos na década de 1990 e outros ao calor das recentes medidas de flexibilização da existência da pequena empresa privada, é possível degustar comida internacional, segundo dizem, de um nível louvável e em diversas modalidades e especialidades (curry e sushi incluídos), em ambientes exóticos, modernistas, típicos cubanos e até muito familiares, a preços que são mais do que atraentes para um bolso norte-americano, britânico ou mesmo europeu continental – apesar da crise. Com pratos cujos preços rondam os 10 CUC, os pesos conversíveis cubanos (oito euros), um comensal pode ter nestes lugares uma agradável noitada, com cervejas ou até algum vinho incluído, preparados pelos melhores chefes da cidade, e atendido por jovens garçonetes, tudo pela módica quantia de aproximadamente 20 euros. Ou seja, algo como um salário médio cubano de todo um mês... No entanto, como para demonstrar que as coisas não mudaram muito, existe, bem perto de alguns desses restaurantes privados refinados e de sucesso, um ainda gerenciado pela empresa governamental, onde, para ser competitivo, os preços são muito mais acessíveis. Digamos, cerca de 70 pesos cubanos (ou 3 CUC, isto é, a sétima parte de um salário médio mensal) por um prato nada sofisticado de comida chinesa, embora para alívio do bolso do consumidor neste restaurante estatal não se faz gastos excessivos. Ali, no melhor estilo socialista, não há sobremesa para terminar a refeição, nem café, “pois a máquina está quebrada”. A distância entre os glamorosos restaurantes privados citados pela jornalista britânica e os ainda gerenciados pelo Estado, afetados por sua tradicional ineficiência, marca o espaço entre duas realidades que se enfrentam no nível mais pedestre da economia cubana e que, alguma vez, se reproduzirá em outras escalas. Ao mesmo tempo, o abismo aberto entre qualquer das duas ofertas gastronômicas e os salários reais e oficiais cubanos é vertiginosa e altamente representativa das capacidades econômicas de uma maioria da população cubana, cujos salários apenas bastam para a subsistência, como também reconhece o governo. Por isso, enquanto o glamour regressa a certos locais de Havana onde, apesar da crise, um pequeno setor da sociedade, empreendedor e afortunado, faz sua vindima e espera as mudanças das leis migratórias para tirar férias em Cancún, em um afastado rincão do país um camponês de mais de 80 anos, sem aposentadoria, deve trabalhar todo o dia carregando água para um povoado onde o líquido não chega. Esse camponês octogenário, além do mais, deve dormir junto ao cavalo que o ajuda nas tarefas, pois, se roubarem o animal, perderá sua única e crítica forma de subsistência. Para esse camponês, entrevistado para um documentário apresentado pela televisão cubana, parece que a existência de uma lista de restaurantes em Havana, talvez recomendados por uma jornalista britânica, é algo tão remoto e inacessível quanto a ideia de viajar para a Lua, se não houvesse algumas restrições a isso. Envolverde/IPS * Leonardo Padura Fuentes, escritor e jornalista cubano. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua obra mais recente, O Homem que Amava os Cães, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ramón Mercader.


por Leonardo Padura*
Foto: Rhett A. Butler / Mongabay Sustentabilidade

Especialistas: extração sustentável em florestas tropicais é impossível

[caption id="attachment_59816" align="aligncenter" width="539" caption="Foto: Rhett A. Butler / Mongabay"][/caption]   Uma extração industrial de madeira em florestas tropicais primárias que seja sustentável e rentável é impossível, argumenta um novo estudo na Bioscience, que detalha como as características das madeiras tropicais tornam uma extração com práticas realmente sustentáveis impraticável. Por isso, os pesquisadores recomendam que os subsídios para extração industrial sejam diminuídos pelo programa de Redução de Emissões do Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+) da ONU. O estudo, que adiciona dados ao crescente debate sobre o papel da extração em florestas tropicais, contraria pesquisas feitas recentemente que defendem que uma extração bem administrada em florestas tropicais antigas poderia fornecer um “meio termo” entre a conservação e a conversão de florestas em monoculturas ou pasto. “Estamos enfrentando crises globais de biodiversidade e de mudanças climáticas e não podemos nos dar ao luxo de continuar perdendo florestas tropicais primárias – elas têm um papel central para resolver ambas as crises” disseram os autores, Barbara Zimmerman, do Fundo de Conservação Internacional para o Canadá, e Cyril Kormos, vice-presidente de política da Fundação WILD, ao mongabay.com. “Apesar de décadas tentando extrair sustentavelmente, a taxa de desmatamento mal caiu nos últimos 20 anos de 15 milhões de hectares por ano para 13 milhões de hectares por ano – e essas são estimativas baixas. A extração industrial não mostrou capacidade de manter as florestas em pé. Pelo contrário, a extração é normalmente o primeiro passo da retirada total para abrir caminho para o uso agrícola.” O estudo descobriu que apenas três 'fases' de extração em florestas tropicais levaram à quase extinção de árvores importantes em todas as principais zonas florestais – América do Sul e Central, África Central e sudeste da Ásia –, resultando não apenas em um distúrbio ecológico, mas em consequências econômicas. Barreiras ecológicas e econômicas As características das florestas tropicais – sua rica biodiversidade, variedade inigualável e interconexões extremamente complexas entre espécies – as tornam particularmente suscetível a distúrbios. Mesmo retirando apenas umas poucas espécies chave de árvores, os madeireiros rapidamente prejudicam essas espécies, deixando o resto em pé e mudando drasticamente a estrutura geral do ecossistema. Dessa forma, os madeireiros prejudicam o sistema ecológico, que permite que certas árvores cresçam novamente. “Praticamente todas as espécies que têm madeira de alto valor têm uma vida excepcionalmente longa e com crescimento lento, têm poucos exemplares na vida adulta, têm altas taxas de mortalidade de sementes e mudas, têm uma regeneração muito esparsa e dependem da diversidade animal para reprodução. Tudo isso aponta para a conclusão de que árvores tropicais provavelmente precisam de áreas contínuas de florestas ecologicamente intactas muito grandes para manterem tamanhos viáveis de população”, escreveram Zimmerman e Kormos em seu trabalho. As características particulares dessas árvores fizeram com que muitas companhias de extração simplesmente entrassem em florestas primárias, cortando todas as espécies de alto valor e deixando então a floresta para colonizadores ou cortando tudo para o pasto de gado ou plantações de monocultura (como celulose e papel, borracha ou óleo de palma). “A extração nos trópicos segue o mesmo modelo econômico que é evidente na maioria das áreas de pesca do mundo”, escreveram Zimmerman e Kormos. “As espécies mais valiosas são seletivamente retiradas antes, e quando elas são exterminadas, as próximas mais valiosas são retiradas, até que as florestas sejam completamente exploradas.” Embora a extração inicial possa ser muito rentável, as retiradas posteriores trazem cada vez menos dinheiro: menos árvores importantes podem ser achadas e o processo de regeneração de tais espécies é em geral comprometido. No final, a extração industrial se aniquila, deixado um vácuo econômico que em áreas acessíveis é frequentemente preenchido com a conversão de terras para pasto, fazendas de óleo de palma, agricultura industrial e plantações de madeira para corte. Alguns cientistas argumentaram que a solução para esse problema é implantar práticas de gestão florestal sustentáveis em madeireiras nos trópicos. De acordo com esses defensores da sustentabilidade, isso garantiria extrações em longo prazo e a proteção da saúde florestal em geral. Mas segundo o novo estudo, mesmo a chamada extração de impacto reduzido – que é atualmente a exceção em vez da norma nos trópicos – muda consideravelmente a estrutura de uma floresta. Com muitas sementes vitais e árvores retiradas, Kormos e Zimmerman apontam que a extração de “baixo impacto” deixa 20-50% da cobertura florestal aberta, quando “mesmo pequenas aberturas na cobertura (5-10%) podem ter impactos significativos no teor da umidade da floresta e aumentar o risco de incêndio”. Detritos deixados no solo da floresta secam rapidamente, criando uma forragem perfeita para o fogo. Ao contrário das florestas temperadas, incêndios em florestas tropicais primárias são pouco vistos, mas a extração de baixo impacto cria um novo conjunto de condições ecológicas que deixam a floresta vulnerável ao calor, vento e fogo. “Agora sabemos que sob as atuais orientações de gestão florestal sustentável, as florestas tropicais deixadas para se regenerarem naturalmente serão compostas em grande parte por espécies de baixa densidade e de baixo ou nenhum valor comercial, enquanto as espécies densas e de alto valor madeireiro experimentarão grandes reduções na população”, escreveram Kormos e Zimmerman, observando que as orientações atuais estão muito longe de manter as florestas intactas. A sustentabilidade verdadeira não é impossível de ser alcançada, escreveram Zimmerman e Kormos, mas as orientações precisariam ser consideravelmente fortalecidas. As madeireiras precisariam cortar apenas a cada 60 anos ou mais, retirando menos do que cinco árvores por hectare, deixando espaços de extração menores na cobertura, evitando cortar árvores jovens e usando técnicas de silvicultura para plantar novas sementes, entre outras considerações. “A chave para a capacidade de uma floresta de recuperar a maior parte de seus atributos originais depois da retirada seletiva é a extração de baixa intensidade”, escreveram eles. Mas há uma razão pela qual não há madeireiros industriais nos trópicos colocando tais regras rigorosas em prática. “O problema em implementar esse tipo de protocolo é que isso diminuiria substancialmente o volume de madeira retirável e aumentaria mais os custos de gestão e treinamento, o que tornaria a operação de extração economicamente inviável”, afirmaram Zimmerman e Kormos ao mongabay.com. Não é de se estranhar então que as empresas geralmente cortem a madeira e saiam da região, uma prática que resulta na mudança dos madeireiros de uma floresta tropical intocada para outra, sempre procurando por ganhos em curto prazo. Por exemplo, depois de extrair a maioria das florestas em Bornéu, os madeireiros se mudaram para lugares como a Sumatra. Agora que a Sumatra foi devastada – e muitas de suas florestas foram transformadas em plantações de monocultura – a extração industrial foi para Nova Guiné e as Ilhas Salomão. As florestas tropicais primárias estão desaparecendo no mundo todo. Extração não é um "meio termo" O trabalho de Zimmerman e Kormos é um dentre muitos que debate, às vezes calorosamente, a papel da extração na proteção ou destruição das florestas tropicais. Por exemplo, uma pesquisa publicada no Conservation Letters recentemente chegou a uma conclusão diferente de Zimmerman e Kormos, descrevendo a extração bem administrada como um meio termo entre a conservação e a destruição total das florestas tropicais para agricultura ou pecuária. “Florestas tropicais seletivamente extraídas, especialmente se são extraídas com cuidado, mantêm a maior parte de sua biodiversidade e continuam a fornecerem serviços ecossistêmicos como sequestro de carbono e funções hidrológicas”, declarou o principal autor desse estudo, Francis Putz, da Universidade da Flórida, ao mongabay.com em maio. O trabalho de Putz não argumenta que a extração não teve impacto, mas que qualquer impacto da extração é preferível à derrubada total das florestas. Embora Kormos e Zimmerman concordem com esse ponto, eles veem uma solução diferente. “Não há dúvida de que a extração industrial é melhor do que pastagens de gado ou óleo de palma ou outras plantações – mas o fato de que a extração industrial é melhor do que a conversão florestal total não significa que devemos subsidiá-la”, disseram Zimmerman e Kormos ao mongabay.com. “Os subsídios deveriam ser dirigidos a atividades que maximizem benefícios de carbono, de biodiversidade e sociais.” Eles também afirmam que algumas descobertas do outro trabalho são problemáticas. “O artigo inclui espécies exóticas introduzidas na biodiversidade local, e as pesquisas de biodiversidade citadas foram todas feitas logo após a extração e antes de uma segunda retirada, então havia uma expectativa de que ainda haveria alguma biodiversidade em curto prazo – a questão é o que acontece à biodiversidade em médio prazo, em particular depois de uma segunda retirada?” “Além disso, o artigo declara que as florestas com extração retêm 76% de seu carbono. Mas 24% do carbono de uma floresta é uma quantia muito substancial de emissões de carbono – levaria muitas décadas apenas para recapturar esse carbono, ao passo que precisamos maximizar a captura de carbono florestal agora.” Mas talvez o mais importante é que os problemas econômicos se mantêm, condenando muitas florestas extraídas ao corte total. “O ‘meio termo’ não torna a extração sustentável. A artigo de Putz et al claramente reconhece que o meio termo não atinge a sustentabilidade na produção madeireira. Como resultado, não faz nada para mudar a dinâmica fundamental, que é a que geralmente precede a conversão para o uso agrícola. Então o ‘meio termo’ poderia na verdade tornar as coisas piores – acelerando a conversão florestal”, disseram Zimmerman e Kormos. Fora do REDD Devido aos problemas para equilibrar a ecologia e a economia da extração em florestas tropicais, Zimmerman e Kormos argumentam que o programa da ONU, o REDD+, deveria interromper o fornecimento de dinheiro a companhias de extração industrial para administrarem as florestas tropicais em troca do carbono. “O REDD não deveria ser usado para subsidiar a extração industrial. As crises de biodiversidade e mudanças climáticas estão se tornando rapidamente piores e manter as florestas primárias intactas é uma parte essencial da resposta para ambas as crises. O financiamento de REDD deveria ser reservado para atividades que mantêm as florestas primárias intactas, como a gestão e administração de áreas protegidas”, disseram Zimmerman e Kormos. Eles observaram que o REDD+, que se destina a pagar países para preservarem florestas como reservatórios de carbono, perderia seu objetivo principal, já que mesmo concessões de extração bem administradas perdem uma quantia significativa de carbono quando as árvores caem, especialmente árvores grandes e antigas. Além disso, as florestas com extração correm riscos significativos de uma perda total de carbono como resultado de incêndio ou conversão para uso agrícola. Ainda assim, Zimmerman e Kormos afirmam que a extração pode ocorrer em florestas tropicais, mas deveriam ser pequenas operações dirigidas por comunidades locais, e não a extração industrial que domina o comércio atualmente. “A extração comunitária funciona quando é implementada em escala não industrial por comunidades que têm interesse em serem boas administradoras de sua terra”, declararam eles. A questão aqui é que as comunidade locais governem suas próprias florestas, o que acaba com o problema de corte e saída da região. Além disso, tais programas devem ser apoiados pelo governo nacional. É aí que o REDD+ realmente poderia fazer diferença. “A razão mais importante pela qual esses modelos bem sucedidos de gestão florestal sustentável em escala local não foram ampliados garantindo os remanescentes florestais é a falta de financiamento – uma situação que um investimento de REDD+ poderia corrigir”, observaram os autores. Zimmerman e Kormos disseram que apoiariam uma moratória global para a extração industrial em florestas primárias, uma ideia que foi lançada em alguns círculos ambientais. Moratórias em pequena escala não são novidade. A Indonésia está atualmente tentando implementar uma moratória nacional, ainda que o esquema esteja enfrentando muitas dificuldades e críticas dos ambientalistas e da indústria. Além disso, em 2002, a República Democrática do Congo instituiu uma moratória para quaisquer novas concessões de extração concedidas ou renovadas, embora essa moratória também tenha sofrido violações generalizadas. Mas para os madeireiros não entrarem nas últimas florestas tropicais primárias do mundo – ao menos nas que atualmente não são protegidas pelos parques – mudanças drásticas precisarão ser feitas na governança florestal. Atualmente, as políticas favorecem grandes conglomerados de extração industrial em vez de comunidades locais, que têm uma participação de longo prazo na saúde de suas florestas. Citações •Barbara Zimmerman and Cyril Kormos. Prospects for Sustainable Logging in Tropical Forests.BioScience 62: 479–487. doi:10.1525/bio.2012.62.5.9. •Francis E. Putz, Pieter A. Zuidema, Timothy Synnott, Marielos Peña-Claros, Michelle A. Pinard, Douglas Sheil, Jerome K. Vanclay, PlinioSist, Sylvie Gourlet-Fleury, Bronson Griscom, John Palmer and Roderick Zagt. Sustaining conservation values in selectively logged tropical forests: The attained and the attainable.Conservation Letters. 2012. doi: 10.1111/j.1755-263X.2012.00242.x. Leia aqui o texto original (em inglês) * Traduzido por Jéssica Lipinski, do CarbonoBrasil. ** Publicado originalmente no site Mongabay e retirado do site CarbonoBrasil.


por Jeremy Hance, do Mongabay

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