A transdisciplinaridade e o papel da imprensa

Artigo

A transdisciplinaridade e o papel da imprensa


por Alexandre Maciel*


“Qualquer medida que se for tomar a respeito da Amazônia, tem de ser deliberada a partir de decisões que vêm de alta complexidade científica”, é o que concluiu o professor Marcos Buckeridge [biologista vegetal especialista em mudanças climáticas, atualmente é diretor científico do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE)], um dos autores do próximo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Segundo ele, a biodiversidade encontrada na região amazônica é tão variada que não permite que os estudos a seu respeito se limitem somente a pesquisas isoladas em cada campo do conhecimento. Há muito tempo o debate acerca da interação entre os diversos fatores que permeiam a vida humana vêm sendo objeto de estudo entre muitos pesquisadores. Nesse sentido, para entender o funcionamento da natureza encontramos ao menos duas maneiras desenvolvidas: as pesquisas multidisciplinares, que executam trabalhos em paralelo, mas sem interação direta e que se encontram no chamado “modo 1”; porém, também existem as pesquisas transdisciplinares (ou de “modo 2”), que mantêm uma relação de paralelismo entre seus objetos de estudo, porém com interação entre eles e pressupõe participação da sociedade. “A ciência no modo 1, chamada ‘normal’, é aquela em que alguém propõe uma hipótese, acha um resultado, descobre um mecanismo e consegue descobrir um determinado funcionamento da natureza”, aponta Buckeridge. Já no modo 2, continua, ela é chamada “transdisciplinar”, pois é voltada diretamente à sociedade, propondo uma nova visão cultural e sugerindo uma unidade entre os diversos campos do conhecimento. Conectar campos do conhecimento Ele explica que “à medida que a sociedade passou a compreender os produtos da ciência, ela passou a também interferir diretamente”. Dessa forma, as consequências são não apenas a compreensão mais completa da realidade concreta, mas também o aumento das complexidades para o entendimento de determinados sistemas. Porém, esse avanço nas fronteiras da ciência não pressupõe um abandono das formas de pesquisas sem interação direta ou sem participação da sociedade. Buckeridge esclarece que “a ciência de modo 1, tem de continuar, pois se não tivermos este tipo de informação não conseguiremos fazer a ciência de modo 2”. Para ele, existe uma relação de necessidade de uma para outra, já que este tipo de avanço é uma ampliação do conhecimento especifico para o conhecimento geral. O professor não hesita em afirmar que as muitas áreas de estudos podem e devem interagir diretamente. Sejam as ciências naturais, sociais, humanas ou aplicadas, ele aponta que “o que nós precisamos fazer para ‘nos tornarmos transdisciplinares’ é conectar os diferentes campos do conhecimento”. O momento certo Buckeridge, que é casado com uma jornalista, acredita que a imprensa tem papel fundamental nesse processo, já que ela é a responsável por realizar a “catarse de transferência de informação” – como ele define – entre cientistas e sociedade. Na avaliação estrutural do professor, tudo que é relacionado à ciência faz parte de um processo, e dessa forma, para que estejamos em contato, “temos de convencer empresas, igrejas, OSCs etc., e o conhecimento cientifico tem de ser digerido de forma particular por cada um destes sujeitos”. Daí a necessidade de um profissional de comunicação que leve estas informações de forma a dialogar corretamente com cada público. “Existe um problema muito sério que é o da incerteza do dado cientifico e isso faz com que a confiabilidade na comunidade cientifica caia”, reconhece. Ocorre que, comumente quando o conhecimento científico é produzido existe uma forte tendência à sociedade depositar crença imediata por se tratar, supostamente, de uma nova descoberta e somente em um momento posterior é que se dá a fase da análise crítica. “Esse é um momento em que o nível de confiabilidade (na ciência) sobe, depois desce e então estabiliza”, define. Buckeridge afirma que esta é uma grande responsabilidade que os jornalistas carregam: o momento certo de publicar a informação. “Se um texto científico não acabado vaza para um jornalista e este o divulga, começam a surgir decisões (baseadas no que foi publicado) e se tiver um erro na pesquisa isso pose trazer consequências sérias e irreversíveis”, alerta o especialista. “A ânsia do jornalista é sempre o furo, mas às vezes esse furo pode nos trazer sérios problemas”, finaliza. * Alexandre Maciel é estudante de Jornalismo pela PUC-SP. ** Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.

Dolar de hong kong perdeu a paridade com a moeda chinesa yuan. Foto: Reprodução/Internet Capitalismo

Minha moeda é mais forte que a sua

[caption id="attachment_57103" align="alignleft" width="341" caption="Dolar de Hong Kong perdeu a paridade com a moeda chinesa yuan. Foto: Reprodução/Internet"][/caption] A psicologia das taxas de câmbio: pessoas assiociam o tamanho da cotação de uma moeda a seu prestígio. Desde janeiro de 2007, um dólar de Hong Kong vale menos que um yuan. De acordo com Joseph Yam, ex-presidente da Autoridade Monetária de Hong Kong, isso tem importância para habitantes de Hong Kong em visita à China. Em um estudo publicado neste mês, ele descreveu “a sensação de desespero” experimentada por alguns de seus amigos de Hong Kong quando sua moeda perdeu a paridade com a moeda chinesa. Eles se preocupavam com a possibilidade de os chineses “menosprezarem o valor da moeda das pessoas de Hong Kong”. Esta é uma razão, ainda que seja das mais triviais, que pode fazer com que Hong Kong reavalie a longeva atrelagem de sua moeda ao dólar, afirma Yam. Para a maioria dos economistas, incluindo Yam, tudo soa um pouco maluco. Mas as pessoas de fato parecem associar o tamanho de uma cotação a seu prestígio. Elas acham que uma moeda é “maior” que a outra se uma unidade dela puder ser trocada por mais de uma unidade da outra. Desse modo, os preços estrangeiros são divididos, não multiplicados; diminuídos, não aumentados, quando convertidos para a cotação natal. O título da “maior” moeda do mundo pertence ao dinar do Kuwait, que hoje em dia vale US$ 3,58. O poderoso dólar norte-americano fica em 11° lugar, ao lado dos dólares de Bermuda e Bahamas, e da balboa do Panamá. O dólar de Hong Kong, em contraste, fica cerca de 60 posições abaixo na lista, superado não apenas pelo yuan chinês, mas também pela pula de Botswana e pelo boliviano da Bolívia. Mas antes de sentir pena deles, pense um pouco nos vietnamitas. Com o ocaso do dólar de Zimbábue, a moeda destes é agora a menor cotação do mundo. Aonde quer que vão, eles têm que multiplicar, nunca dividir. * Publicado originalmente no site The Economist e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação The Economist
O casamento civil igualitário de gays e lésbicas é também uma política educacional: as crianças do amanhã ultrapassarão essa barreira simbólica. Foto: Guillaume Paumier/Flickr Creative Commons Artigo

Qual projeto de lei é mais urgente: casamento civil igualitário ou criminalização da homofobia?

[caption id="attachment_56794" align="alignleft" width="300" caption="O casamento civil igualitário de gays e lésbicas é também uma política educacional: as crianças do amanhã ultrapassarão essa barreira simbólica. Foto: Guillaume Paumier/Flickr Creative Commons"][/caption] Várias pessoas têm me perguntado se, na minha opinião, o “casamento civil igualitário”, como pauta política da comunidade LGBT, é mais ou menos importante que a “criminalização da homofobia”. Eu sempre respondo que não há resposta precisa: ambas são importantes e não se opõem ou contradizem. O PLC-122 (que altera a Lei do Racismo, criminalizando a homofobia) está – faz muito tempo – esperando ser votado no Senado Federal, enquanto a PEC que legaliza o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, proposta por mim e pela deputada Érika Kokay (PT-DF) junto a parlamentares, está na Câmara dos Deputados, em fase de recolhimento de assinaturas. Ambas as iniciativas podem tramitar simultaneamente nas duas casas e, como deputado federal e ativista gay assumido e orgulhoso da luta da nossa comunidade pela liberdade e a igualdade e contra a discriminação e o preconceito, eu defendo a aprovação das duas. No entanto, sempre respondo também que é legítimo debatermos, sim, qual desses projetos é mais urgente e deveria ser considerado prioritário estrategicamente. Qual deles é uma ferramenta melhor para combater, de fato, a homofobia? Qual deles ajudará mais e mais rápido a diminuir o preconceito? Qual deles será mais eficaz para reduzir a violência homofóbica? Qual deles terá um efeito mais rápido e poderoso para melhorar a qualidade de vida dos homossexuais, facilitar a saída daqueles e daquelas que ainda estão no armário, produzir uma mudança na percepção negativa e preconceituosa que milhões de pessoas ainda têm das minorias sexuais, e garantir o acesso igualitário aos direitos civis que deveriam ser para todos e todas? Em primeiro lugar, considero necessário esclarecer o que significa, para nós, gays e lésbicas, o direito ao casamento civil. Tem gente que pensa que se trata, apenas, de uma série de direitos materiais: inscrição do(a) parceiro(a) como dependente no plano de saúde, direitos migratórios, benefícios fiscais, acesso ao crédito como casal, adoção conjunta e reconhecimento da paternidade/maternidade, direitos trabalhistas, herança, pensão, etc. Claro que tudo isso é importante – perguntem, se não, por exemplo, ao viúvo que foi expulso da casa onde morara durante décadas junto ao parceiro, quando os sogros que nunca o reconheceram como genro apareceram e reclamaram os bens que eram do casal mas, segundo a lei, eram apenas de quem morreu –, mas isso tudo poderia ser resolvido com leis específicas ou com um instituto separado, especial, como a “união civil” que existe em alguns países. No entanto, eu jamais votaria a favor da “união civil” ou de qualquer lei segregacionista, mesmo que, em troca de aceitar a segregação, a gente conquistasse aqueles direitos materiais e ficasse numa situação semelhante à dos casados. Reclamar os mesmos direitos com os mesmos nomes significa dizer, bem alto, que, numa democracia, não pode haver cidadãos de segunda, cujos direitos são regulados por leis também de segunda. O casamento civil igualitário, além de garantir direitos específicos, garante a igualdade perante a lei, a cidadania plena e o reconhecimento simbólico do Estado – e também vai ser, quando aprovado, um pedido de desculpas a gays e lésbicas, por tantos séculos de discriminação. Que fique claro: o casamento civil igualitário não é apenas uma lei que reconhece direitos. É uma lei que diz que os casais homossexuais valem o mesmo que os casais heterossexuais, não são melhores nem piores e merecem o mesmo trato, a mesma proteção, o mesmo reconhecimento e a mesma celebração. Porque o casamento também é isso: uma celebração pública. E não há melhor forma de combater a homofobia que essa. A inclusão de gays e lésbicas numa instituição ordenadora na nossa cultura, o reconhecimento dos casados como casados e a celebração dos seus casamentos são também políticas educacionais. As crianças do amanhã nascerão num país em que essa barreira simbólica que nos deixava fora não existe mais e o Estado reconhece que somos cidadãos como qualquer um. Que, como cantava Cazuza, “eu sou mais um cara”. É claro que a criminalização da homofobia, que o PLC-122 propõe é justa e necessária. E sou a favor dela mesmo não gostando do aumento do Estado penal que ela implica, pois, se o racismo é crime – e acredito que deve continuar sendo – a homofobia também tem de ser. Mas precisamos ser conscientes de que a desvantagem da criminalização é que ela sempre chega tarde, quando o crime já se cometeu; e já aprendemos, pelo que acontece com muitos outros crimes, que a pena não é muito eficaz para prevenir. A mudança cultural que o debate e a aprovação do casamento civil igualitário podem produzir é capaz de mudar a cabeça das pessoas. Pode prevenir e diminuir radicalmente a homofobia, fazendo com que a criminalização, algum dia, deixe se ser necessária. Foi isso que aconteceu em outros países onde o casamento civil igualitário foi aprovado. Eu acredito, portanto, que a legalização do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo vai prevenir e combater a homofobia de maneira muito mais rápida, eficaz e profunda que a criminalização da homofobia. É por isso que a minha prioridade estratégica, como parlamentar, é essa. E acredito também que, depois da aprovação do casamento igualitário, o PLC-122 vai ser aprovado muito mais facilmente. E não vai ser o projeto que está nas gavetas do Senado faz muitos anos, bloqueado pela bancada fundamentalista, mas outro projeto muito mais avançado. Por isso, repito: sou a favor do casamento civil igualitário e do PLC-122. Quero que ambos os projetos sejam aprovados e espero que o PLC-122 seja reformulado para ser mais avançado e eficaz. Contudo, acho que a prioridade estratégica deve ser o casamento. É nesse debate que se joga tudo. Se conseguirmos, o país vai começar a ser outro, a mudança cultural será enorme e as outras leis que nos faltam vão ser aprovadas mais rápido e com mais consenso. Além disso, teremos feito um grande serviço a todos os setores da sociedade que lutam por um estado laico, com liberdade religiosa e não intromissão das igrejas nas políticas públicas e nas leis civis. * Jean Wyllys é jornalista e linguista, é deputado federal pelo PSOL-RJ e integrante da frente parlamentar em defesa dos direitos LGBT. ** Publicado originalmente na coluna do autor, no site Carta Capital.


por Jean Wyllys*
CadernoEducação2 Entrevista

“Fala-se em nome dos pequenos agricultores, mas, de fato, beneficiam-se os grandes grileiros”

Cada vez mais, os grandes debates políticos e projetos de infraestrutura são cercados pelas questões ambientais, levantando posturas apaixonadas e açodadas, mas nem sempre respaldadas por alguma profundidade argumentativa e conceitual. Tal vazio verificou-se novamente com a recém-encerrada Conferência Rio+20, promovida pela ONU em reedição da célebre Eco-92. Com a diferença de que o tema da preservação ambiental adquiriu centralidade muito maior nesses últimos 20 anos, sendo o Brasil palco de extremadas contradições na área. Após aprovar uma nova versão do Código Florestal, do agrado dos ruralistas e bombardeado por todas as vertentes do ambientalismo, a presidente Dilma Rousseff fez todo o esforço possível para angariar para o país uma imagem vanguardista de responsabilidade ambiental. No entanto, na análise de José Juliano de Carvalho Filho, entrevistado pelo Correio da Cidadania, tal visão simplesmente “não se aplica à realidade dos fatos da macroeconomia brasileira”. Para o professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP e membro da Associação Brasileira da Reforma Agrária (ABRA), todas as medidas do governo em questão no campo vêm no sentido de prejudicar a preservação ambiental, além de favorecer a concentração de terras. “Fala-se em nome dos pequenos agricultores, mas, de fato, beneficiam-se os grandes grileiros, abrem-se terras ao mercado e permite-se o avanço das monoculturas”, critica, deixando claro que o mesmo vale para outras decisões, como as MPs 422 e 458, também em benefício do agronegócio e em detrimento do meio ambiente e da justiça fundiária. Para além das discussões nacionais, Juliano desacredita de cima a baixo os novos conceitos de responsabilidade ambiental que o capitalismo tentar erigir e dos quais já se apropria. “Não sei se defino ‘economia verde’ como camuflagem, enganação, talvez falte um termo elegante. É preciso uma ruptura com a forma capitalista, principalmente o capitalismo financeiro, e tirar tudo da mão do mercado para se almejar uma ‘economia verde’. Essas conferências servem como um espaço para discutir, aumentar a conscientização, mas o fato é que os Brics e os países ricos não se comprometeram em nada. Não se trata de ver quem é de direita ou esquerda, a coisa é transversal, todos adotaram esse modelo macroeconômico”, resume. A entrevista completa pode ser conferida a seguir. Correio da Cidadania: Como o senhor avalia o novo Código Florestal aprovado no Congresso e o processo político que conduziu a este novo Código? José Juliano de Carvalho Filho: Acho que segue aquilo que sempre acontece na nossa organização histórica, desde a escravidão. Um código que criou necessidades. Quem criou tais necessidades não foi o país, foram os ruralistas. O processo, em minha opinião, é uma história antiga, de duas vertentes, a do latifúndio e a ambiental. A tática foi criar um clima de insatisfação com o Código Florestal que vigorava e depois colocar o bode na sala. A partir disso, com o bode na sala (as propostas ruralistas), mal cheiroso, se discutiu o Código e suas alterações. Dessa forma, foi um avanço muito grande em prol dos interesses dos chamados ruralistas – digo “chamados” porque deve ser a classe mais poderosa do país. Vai implicar em impactos muito negativos. Ainda estou tentando estudar se a MP editada pelo governo melhora ou piora a situação, mas o fato é que, comparando com o código anterior, esse é muito pior, pois permite mais derrubada de reservas, transformação legal de propriedades enormes em várias propriedades pequenas, consolidação de áreas agrícolas, além de outras contravenções do campo, como a anistia a crimes ambientais, contando também com uma justiça patrimonialista a serviço do latifúndio. São contraventores do campo, não querem recompor área, desmataram, grilaram. O fato é que, no contexto geral, aumentou-se a vulnerabilidade da conservação ambiental brasileira, com claras vantagens aos ruralistas. Correio da Cidadania: O que pensa dos argumentos que ressaltam que o Código supostamente protege os pequenos agricultores, o que se daria, por exemplo, pela não exigência de recomposição da reserva pra propriedades de até 4 módulos fiscais? José Juliano de Carvalho Filho: É o agravante: discursar em favor dos pequenos. É idêntico ao que aconteceu no programa Terra Legal, por exemplo. Fala-se em nome dos pequenos, mas, de fato, beneficiam-se os grandes grileiros, abrem-se terras ao mercado e permite-se o avanço das monoculturas. Em relação às populações tradicionais, continuarão como pobres brasileiros. Em linhas gerais é isso, com consonância muito grande com as medidas que passaram a ser editadas desde o fim do primeiro mandato de Lula, tais como as MPs que legalizaram grilagem e titulação de terras, dificultando algumas lutas indígenas pela terra, por exemplo. Não podemos esquecer de vários casos, como o dos guarani kaiowá, no Mato Grosso do Sul, em que se chegou a uma situação de barbárie total, com assassinatos, suicídios, esquartejamentos de índios, o que temos visto fartamente no noticiário. É tudo muito consistente da parte deles, pois mexem com todas as regras passíveis de serem burladas. É o mesmo discurso da Transposição das águas do São Francisco, do Terra Legal etc. Faço trabalhos no campo desde os anos 70, já cansei de presenciar casos de políticas para o campo anunciadas como benéficas ao pequeno agricultor e que na verdade os prejudicava. Quando se dava crédito para pequenos em alguma área, eram as grandes empresas quem pegavam, de fato, os créditos subsidiados. A história se repete, com as mesmas relações sociais. Agora é a mesma coisa com o Código Florestal, chegando a um ótimo resultado em favor dos ruralistas. O país pagará tanto em danos sociais como ambientais. Correio da Cidadania: Ou seja, têm sido, realmente, muitas e notórias as MPs que, nos últimos anos, beneficiam o latifúndio e os ruralistas, em detrimento da pequena produção e da agricultura familiar. E os governos Lula e Dilma seguem a tendência, certo? José Juliano de Carvalho Filho: Sem dúvidas. Desde o final do primeiro governo Lula. A partir disso, editaram-se as MPs 422, 458 e tivemos o Terra Legal. São duas questões a respeito da política agrária: se pegarmos todos os documentos de política agrária do PT, à época da primeira campanha vitoriosa, e também da segunda, tudo que define reforma agrária, ou seja, mexe com a estrutura agrária, como a revisão dos índices de produtividade, foi sumindo. Não ficou nada, de modo que não há compromisso do governo com a reforma agrária. Paralelamente, podemos elencar mudanças nas políticas agrárias, com medidas que invariavelmente beneficiam o agronegócio. É uma mistura de capital fundiário de pessoas que investem no Brasil em parceria com “brasileiros” (entre aspas, porque o capital e seus agentes não têm pátria), avançando cada vez mais sobre as terras. A cana tem capital externo, o petróleo tem, e essa é a regra geral em nossas commodities. Como exemplo, no estado de São Paulo, os índices de Gini eram razoáveis, mas agora o estado é dominado pela cana, que vai crescendo sem parar, e o índice de Gini só se deteriora. De um lado, uma série de medidas que favorecem o agronegócio e, por outro, uma série de medidas que dificultam a vida dos pequenos agricultores. Agora vemos projetos de políticas que visam criar obstáculos para a titulação e homologação de terras indígenas e quilombolas. De vez em quando se faz um mise en scène, mas os fatos são esses. Com as alianças que fez pra governar, vemos que o governo acabou refém dessa classe ultraconservadora e nociva. Correio da Cidadania: Em sua opinião, o governo Dilma já deixou clara sua política para o campo? Ela pode vir a beneficiar em algum momento a agricultura familiar e a reforma agrária? José Juliano de Carvalho Filho: Acho que ainda não está claro. Mas, novamente, pegando os documentos da campanha presidencial, em determinado trecho vemos que tanto Serra, candidato do PSBD, quanto Dilma, candidata do PT, com suas coligações e tal, ao apresentarem seus programas no TSE mostraram as semelhanças na “política” agrária. Assim como na Carta aos Brasileiros, do Lula, neste caso os dois programas deixaram claro, além dos discursos e convenções, que ninguém tinha compromisso com a reforma agrária. O documento do programa petista terminou apenas com generalidades. No máximo, a Dilma poderia fazer algo como o Lula, ou seja, algumas pequenas medidas em favor dos pequenos, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Entretanto, fazendo políticas que beneficiam acima de tudo o agronegócio em termos estruturais. O problema é que não se coloca a questão da propriedade como origem da pobreza e desigualdade social, o que é uma “aparente” contradição do programa petista. Os ministérios da Agricultura e o do Desenvolvimento Agrário fazem política à parte um do outro. Aquilo que se entende como pequena política ficou subalterna; negros, pobres, índios, sem terras, podem fazer o que quiserem desde que não incomodem. Se começam a incomodar a grande política, isto é, aquilo que gira em torno da macroeconomia... Não tenho esperança de grandes mudanças no mandato da Dilma. Os programas do PT têm a tendência de superconcentrar as terras e deixar avançar as grandes monoculturas de exportação. Já as MPs de benefício ao agronegócio tornam o governo refém de suas contradições políticas, o que redunda em políticas pífias para a reforma agrária. O que funciona mesmo é essa sustentação macroeconômica encampada pelo governo e suas metas. Temos uma especialização e reprimarização retrógradas, como diz o professor Reinaldo Gonçalves, opinião da qual compartilho. Correio da Cidadania: Como o senhor situa as intervenções de Dilma, que não seguiu a campanha maciça de setores mais progressistas pelo veto ao novo projeto de Código Florestal, sancionando-o com 12 vetos e 32 emendas? José Juliano de Carvalho Filho: É difícil responder com convicção, porque o melhor seria ter em mãos todas as versões: o Código Florestal anterior, de 1965, o novo, e aquelas versões que passaram e foram alteradas pela Câmara e Senado, comparando-as ponto a ponto e tendo uma avaliação mais concreta. É preciso ter cuidado com as matas ciliares, propriedades familiares, as águas... Tudo isso tem sido feito em prejuízo do meio ambiente, a exemplo também da questão das áreas consolidadas. É preciso ver tudo detalhadamente pra saber o que pode depois ser revertido na justiça. Mais que isso, não posso dizer ainda. Correio da Cidadania: Como o senhor tem visto a atuação dos movimentos sociais, aqueles ligados ao campo em particular, bem como sua relação com o atual governo? José Juliano de Carvalho Filho: Sou a favor dos movimentos, de modo que toda crítica que faço é no sentido construtivo, pois é neles que vejo esperança de mudanças reais na sociedade. Mas estão tímidos frente ao governo. Claro que fazem suas reivindicações por aí, mas estão tímidos. Reforma agrária e justiça no campo sempre foram conquistas, não concessões, mas as pressões por cooptação são muito fortes. E os movimentos deveriam estar mais agressivos. Correio da Cidadania: O que pensa do papel jogado pelo Brasil, e da imagem que o país tentou vender de si, na conferência Rio+20? A propaganda oficial de desenvolvimento sustentável, com a exploração de “energia limpa”, condiz com nossa realidade? José Juliano de Carvalho Filho: O papel do Brasil é uma grande contradição. Falando do documento final, de acordo com o próprio secretário da ONU, podemos falar que foi fraco. Não há medidas imediatas, de modo que é um fracasso maior ainda que a Eco-92, que pelo menos tinha propostas. O conceito de sustentabilidade não se aplica à realidade do nosso país e, na verdade, desde o documento que o criou, em 1987, não existiu de fato. Os povos do campo estão sendo prejudicados por essas medidas de dita sustentabilidade. Foi uma conferência muito fraca, do G-7 só a França esteve realmente presente, de modo que não saiu nada de muito importante desse encontro. Fica uma mistura de posições, ninguém sabe direito o que é isso (desenvolvimento sustentável), e todo mundo usa o conceito. Correio da Cidadania: Falando em conceito, o que o senhor teria a dizer sobre a “economia verde”, a grande novidade no vocabulário do capitalismo global? José Juliano de Carvalho Filho: O mercado se apropriou dessa história e começou a falar em “verde”. Um exemplo de agora, pequeno, mas emblemático do que acontece, é essa história das sacolinhas de supermercado. São eles, os supermercados, que vão mudar a cultura nacional sobre preservação ambiental? Na verdade, apenas defendem seu interesse econômico, que também está envolvido, uma vez que forneciam as sacolinhas gratuitamente aos seus clientes. A imagem que o Brasil deixou foi um pouco superior pela falta de representação dos outros países. Mas os resultados são fracos. Quais são os resultados e compromissos? Nenhuns. Não sei se defino “economia verde” como camuflagem, enganação, talvez falte um termo elegante. Cada um entende de um jeito e passa a imagem de estar fazendo algo pela preservação. É o capitalismo buscando novas formas de se reproduzir. Com o atual momento, a Europa em sua crise não resolvida, além da concentração de renda de alguns países, é uma roupagem nova. Não vejo esperanças de economia realmente verde, não vejo compromissos realmente sérios e um freio na acumulação capitalista. São questões políticas importantes e diretamente relacionadas. É preciso uma ruptura com a forma capitalista, principalmente o capitalismo financeiro, e tirar tudo da mão do mercado para se almejar uma “economia verde”. Outro exemplo é esse mercado de carbono, que não faz sentido, seria muito melhor taxar as empresas poluidoras. Uma empresa poluidora compra créditos de Moçambique, polui por lá, contamina grande parte do meio ambiente local, das águas, e ficamos assim. Acontece aqui no Brasil também. Essas farsas de mercado não vão deixar de seguir a lógica do capital. Daqui a pouco vão comercializar o ar que o teu neto vai respirar no futuro, vai tudo pro mercado. Dessa forma, tal como já vemos acontecer, teremos a monopolização das águas e bens naturais mais essenciais. Empresas como Nestlé e Coca Cola estão adquirindo territórios que lhes garantem abastecimento de água, o que na verdade é uma apropriação da natureza. A Monsanto é outro exemplo dessa monopolização, como se vê com as sementes, enquanto as propostas e denúncias da Via Campesina, ainda que sendo as melhores para os povos, são ignoradas. Lendo os cientistas (aqueles que merecem consideração), vemos que podemos atingir um desequilíbrio mundial sem retorno, com falta de bens naturais, aumentando ainda mais a pobreza, a barbárie, as disputas, impedindo os agricultores de terem sementes, tendo que se suprir de Monsantos e afins... Tais conferências e governos beneficiam esse modelo, dando pouca esperança para a humanidade. Servem como um espaço pra discutir, aumentar a conscientização, mas o fato é que os Brics e os países ricos não se comprometeram em nada. Não se trata de ver quem é de direita ou esquerda, a coisa é transversal, todos adotaram esse modelo. Usam seus argumentos de sustentabilidade e o mundo se encaminha para mais desastres, prejudicando as populações mais pobres, um dos resultados mais diretos desse “desenvolvimento sustentável”. Os resultados pífios, mornos, da reunião não mudarão isso. E o modelo macroeconômico do país beneficia tal lógica destrutiva. Elogiei algumas medidas do governo Lula, mas elas vêm acompanhadas dessas histórias, do aumento da força da monocultura e da concentração de terras. Os camponeses saem do campo, vão pra cidade e vemos se agravarem as questões agrárias, sociais e ambientais. * Com colaboração de Valéria Nader, economista, jornalista e editora do Correio da Cidadania. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Gabriel Brito, do Correio da Cidadania
Poder Financeiro Artigo

A Rio+20 e a submissão ao poder financeiro

O documento final da conferência das Nações Unidas não menciona nem uma única vez a crise econômica e financeira global. Pouco importa que a crise já tenha se convertido na Segunda Grande Depressão. De alguma maneira, os funcionários do Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (Pnuma) consideraram que esse assunto não era relevante em uma conferência sobre sustentabilidade. Tentaram tapar o Sol com um dedo, ignorando o fato de que o setor financeiro é o epicentro da crise global. O artigo é de Alejandro Nadal. A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (CNSD), mais conhecida como Rio+20, veio e foi embora. Poderia ter sido um ato importante, em vez disso, estabeleceu um novo padrão de como tornar-se irrelevante. A receita é simples: basta fazer de conta que nunca ouviu falar da crise global. O documento final da UNCSD não menciona nem uma única vez a crise econômica e financeira global. Pouco importa que a crise já tenha se convertido na Segunda Grade Depressão. De alguma maneira, os funcionários do Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (Pnuma) consideraram que esse assunto não era relevante em uma conferência sobre sustentabilidade. O Pnuma procurou levar adiante sua iniciativa sobre a economia verde. No relatório apresentado no Rio ela é definida como uma economia que aumenta o bem-estar, diminui a pobreza e melhora o meio ambiente. Tratar-se-ia de uma economia socialmente inclusiva, com baixas emissões de gases do efeito estufa e grade eficiência no uso e manejo de recursos. Para transitar a uma economia verde é necessário investir 2% do PIB mundial (anualmente entre 2010-2050) em dez setores chave. É uma quantidade importante. Onde se podem encontrar esses recursos? O Pnuma responde sem rubor: no setor financeiro. Segundo esta agência, o setor financeiro tem a sua disposição uma montanha de recursos e cada vez está mais interessado em uma carteira de investimentos que minimiza o custo ambiental e social, ao mesmo tempo em que capitaliza com tecnologias verdes. A amizade do Pnuma com o setor financeiro é confirmada quando se mencionam os mercados e instrumentos que agora estariam do lado da justiça e da saúde ambiental: bônus verdes, bônus de carbono, REDD+, e ativos de propriedade verde, etc. Aí está: a financeirização da natureza. Nunca ocorreu aos funcionários do Pnuma que o desenvolvimento destes mercados novos provém da busca de espaços de rentabilidade em um mundo no qual a economia real permanece estancada. O Pnuma no Rio tentou tapar o Sol com um dedo. Quis ignorar o fato de que o setor financeiro é o epicentro da crise global. O colapso da economia mundial se mantém em aumento porque a opacidade das operações financeiras acelerou o contágio ao princípio e agora impede a reativação do mercado interbancário. O Pnuma tem razão: o setor financeiro cresceu muito nos últimos vinte anos. Mas não lhes ocorre que isso é precisamente um sinal da patologia da economia global? O estancamento dos salários há três décadas explica o crescente endividamento das famílias. A demanda agregada foi impulsionada pelo endividamento e isso, por sua vez, explica como se levou a cabo um processo de redistribuição da riqueza dos mais pobres para os mais ricos. Instrumentos como os cartões de crédito, os empréstimos para estudantes ou para automóveis foram verdadeiros aspiradores para sugar recursos dos lares e levá-los aos bancos. Um dos fatores que explica a expansão do setor financeiro é sua inclinação para introduzir inovações que fizeram as operações do setor mais opacas, disfarçaram riscos, aumentaram a propensão à volatilidade e incrementaram os níveis de influência. A financeirização converteu muitas operações em zona vedada para os reguladores e agências de supervisão. A autorregulação só proporcionou a ilusão de que se estava fazendo algo para frear os abusos. Um ponto fundamental que o Pnuma não pode entender: uma proporção significativa da montanha de recursos em mãos do setor financeiro é riqueza contábil. Provém de um típico processo de inflação de ativos, ou seja, de uma bolha. A crise é a forma de destruir esse patrimônio que só existe na contabilidade. Para analistas como Nouriel Roubini ou Dean Baker, ainda falta muito para o processo deflacionário completar sua tarefa. Além disso, uma parte desses recursos financeiros provém das operações de criação monetária dos bancos. Por exemplo: com seus empréstimos, os bancos da União Europeia criaram bilhões de euros do nada ou, como dizem, ex nihilo. E só uma fração minúscula desses créditos esteve respaldada por depósitos. O balão gigante ainda está esvaziando. O Pnuma deveria estudar com seriedade a relação entre os setores financeiros e a realidade da economia. Os canais de transmissão entre estes setores são críticos para a manutenção da estabilidade macroeconômica. Em nossos tempos, as operações no setor financeiro propagaram e amplificaram a turbulência e puseram de joelhos a economia real. Caramba, até uma organização tão conservadora como o Comitê de Supervisão de Bancos da Basileia (dependente do Banco Internacional de Compensações) se preocupa com estes temas. Por que os funcionários do Pnuma não podem fazer o mesmo? *Alejandro Nadal é membro do Conselho Editorial da Sin Permiso. ** Tradução: Libório Junior. *** Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Alejandro Nadal*
Maluf e Lula selam apoio do PP a Haddad. Foto: Mauricio Camargo Política

A foto de Lula, Maluf e Haddad

[caption id="attachment_56528" align="alignleft" width="300" caption="Maluf e Lula selam apoio do PP a Haddad. Foto: Mauricio Camargo"][/caption] Quais os efeitos que uma imagem pode gerar num ambiente político midiático? Talvez sejam infinitos, mas um fato recente nos faz refletir sobre essa questão: a imagem de Lula e Haddad ao lado de Paulo Maluf. A foto registra um daqueles momentos que, para quem tem mais de trinta e poucos anos, apesar de já ter presenciado muita coisa em política, nunca acreditou que pudesse ver. A busca do apoio de Maluf mostra que o PT paulista está disposto a apostar todas as fichas e entrar num vale-tudo na disputa pela prefeitura de São Paulo, nem que isso custe o que restou de credibilidade à legenda. O custo político da foto no belo jardim de Maluf se fez sentir de imediato, com a renúncia de Luiza Erundina ao cargo de vice na chapa de Haddad, embora ela já soubesse anteriormente da aliança PT-Maluf. Mas qual o poder de uma imagem, como a do trio Lula-Haddad-Maluf, numa corrida eleitoral? A análise de uma imagem no jogo político é algo complexo e muitas vezes, como diz o ditado popular, uma imagem vale mais que mil palavras, seja isso positivo ou negativo, além de ser, segundo o sociólogo e teórico da comunicação Manuel Castells, a forma mais simples e direta de mensagem. Na foto em questão, temos o ex-presidente Lula, que pela sua história sempre se mostrou hábil no jogo político, capaz de alianças improváveis para atingir o objetivo final (e muitas vezes pouco nobre) da política desde os tempos de Maquiavel, alcançar o poder e nele se manter, conseguindo se reeleger após as denúncias e o bombardeio midiático do caso do mensalão, além de conseguir fazer seu sucessor, no caso, a presidente Dilma. Tenha-se afinidade com suas ideias ou não, poucos duvidam do talento político do ex-sindicalista. No outro lado da foto está Paulo Maluf, velho político paulista, ex-prefeito da cidade de São Paulo, ex-governador do Estado de São Paulo, herdeiro político da ditadura militar (Brizola, dizia “filhote”), exemplo de truculência política e de pouca civilidade democrática, acusado de inúmeros desvios e corrupção, além de procurado pela Interpol. Não obstante, o deputado federal mais votado do Estado de São Paulo em 2006 e o terceiro mais votado em 2010, com cerca de 500 mil votos, além de reverenciado por muitos paulistanos e por moradores da baixada santista, não sendo incomum encontrar pessoas mais velhas e conservadoras saudosas dos tempos de Paulo Maluf, em suma, apesar de tudo, ainda uma força política disputada por muitos, o que levou José Serra a se irritar pela perda do apoio de Maluf. Em meio aos dois, está o candidato Fernando Haddad, ex-ministro da Educação de Lula e por quem o ex-presidente parece nutrir um afeto político especial. Uma imposição O que une Lula e Maluf na foto não é um projeto político ou ideologia, isso seria impossível. Há nos comentários políticos que circularam esta semana a menção a uma possível negativa em ceder a Companhia de Habitação do Estado de São Paulo ao partido de Maluf, o PP, que integra a base de apoio do governador Geraldo Alckmin, o que teria gerado insatisfação e, como consequência, cambiado o apoio ao PT. O pragmatismo na busca por tempo televisivo é bem provável, o que sem dúvida refletiria a atitude calculista típica que domina o meio político brasileiro. Na tentativa de compreender o que une Lula e Maluf em uma campanha, não é possível desprezar as idiossincrasias dos eleitores do PT e de Maluf, pois, em ambos, há uma rejeição recíproca, das quais as consequências da aliança ainda são imprevisíveis, tanto no eleitorado petista quanto malufista, embora seja bastante provável que os marqueteiros e analistas da campanha petista já tenham calculado seus possíveis efeitos, mas talvez não tenham avaliado o desgaste que poderia ser causado por uma simples foto. Avaliar as consequências que a imagem de Lula, Maluf e Haddad pode ter produzido na disputa eleitoral é possível. Talvez o primeiro efeito, qualquer que seja a opinião política do receptor, seja o espanto e a indignação. Antigos opositores, pertencentes a partidos com origens muito diferentes, com pouca ou nenhuma afinidade político-ideológica, se abraçando alegres em um belo jardim, como se fossem participar do casamento de alguma sobrinha. Alianças são celebradas em todas as disputas eleitorais, e, nesses tempos confusos em que vivemos, o companheiro de hoje se torna o inimigo de amanhã e vice-versa, mas em geral são realizadas nos bastidores ou na calada da noite, depois de acordos e conchavos, muito diferente da exposição no caso da aliança PT-Maluf. Segundo a imprensa, a ida de Lula à mansão de Paulo Maluf teria sido uma imposição, sem a qual o deputado do PP não participaria da coligação de Haddad. Perda das esperanças Nos editoriais e nas colunas dos comentaristas políticos dos grandes jornais paulistas e na internet, quase todos foram unânimes em rechaçar a aliança que se materializou na foto no jardim, alguns sobre os arroubos de “eles se merecem” ou de “o crime compensa”, se esquecendo talvez que Paulo Maluf, na eleição de 2010, apoiou José Serra e, em 1998, a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, e em 2006 já havia apoiado Lula para reeleição, sem direito a foto, ou que isso rendesse maior atenção ou repercussão na mídia. Embora seja pouco provável que a foto de Lula, Haddad e Maluf tivesse a intenção de trazer algum retorno político (na verdade seu potencial era mais catastrófico), a imagem acabou por atrair o foco e ganhar o espaço midiático necessário para dar visibilidade ao candidato Haddad, a repercussão teria sido outra se a aliança tivesse sido anunciada apenas em uma nota ou informalmente. A imagem acabou rendendo e se multiplicou pelos vários meios. Aguardemos as próximas pesquisas de intenção de voto para saber qual será o efeito prático na opinião dos eleitores, que, em geral, não se preocupam com os programas de governo ou inclinações ideológicas, mas sim com a identificação que têm com o candidato, e nisso Maluf e Lula são hábeis, mestres daquela arte populista de possuir um eleitorado cativo. O difícil é saber se conseguirão transferir seus votos para o ex-ministro e realizar a negociação simbólica entre as tendências e os valores políticos de seus eleitores, tão diversos neste caso. O segundo efeito produzido pela foto foi percebido nas redes sociais, como o Facebook. Primeiramente, o tom também foi de espanto e indignação. Mas, num segundo momento, o tom de chacota e crítica surgiu e a imagem Lula-Haddad-Maluf começou a surgir em novas versões produzidas com o software Photoshop. Uma delas trazia, no lugar de Maluf, o vilão de Guerra nas Estrelas, Darth Vader ou, ainda, em uma versão criada pelo site de humor KibeLoco, Lula e Maluf abraçavam o capeta, que ocupava na imagem o lugar de Fernando Haddad. Manifestações criativas e inteligentes, carregadas de crítica. Diz outro ditado popular que aquilo que os olhos não veem, o coração não sente. Na nossa sociedade midiática, dominada por imagens, esse velho ditado é muito preciso e poderia ser reescrito da seguinte forma “só sentimos aquilo que os olhos podem ver”, situação que se aplica perfeitamente ao caso da foto nos jardins da mansão de Maluf. Temos muito que nos questionar a respeito da atmosfera política em que vivemos, sobre o excessivo tom da realpolitik, que parece ser muito mais uma tentativa insana de se chegar ao poder do que qualquer outra coisa, e a repercussão gerada pela foto de Lula-Haddad-Maluf sirva talvez para mostrar que muitas vezes uma simples imagem, planejada ou não, diferente de um fato por si só, pode ser o acesso direto e crucial aos meios de comunicação e à possibilidade de avaliarmos as tendências ou opções, tanto dos políticos como da mídia e, consequentemente, à maneira como tentam atingir o espectador/eleitor. E na política midiática, o acesso aos meios de comunicação equivale a existir, ainda que isso venha com o custo da desilusão política e da perda das últimas esperanças do cidadão. * Júlio Valério Neto é produtor audiovisual, de Andradas, Minas Gerais. ** Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.


por Júlio Valério Neto*
Frei Betto participa de debate da Cúpula dos Povos na Rio+20. Publicidade

Frei Betto: “A publicidade infantil deve ser discutida na escola”

[caption id="attachment_56452" align="aligncenter" width="416" caption="Frei Betto participa de debate da Cúpula dos Povos na Rio+20."][/caption] O teólogo e escritor Frei Betto acredita que os efeitos negativos dos anúncios publicitários infantis, principalmente televisivos, deveriam ser tratados pelos currículos das escolas brasileiras. A opinião foi defendida no debate sobre “Infância, Valores e Sustentabilidade”, organizado pelo Instituto Alana, nessa quinta (21/6) como parte da programação da Cúpula dos Povos, no Rio de Janeiro. Para ele, a publicidade utiliza a erotização precoce para seduzir as crianças a consumir produtos desde cedo. Quando se tornam consumistas entre os quatro e cinco anos, ocorre o fenômeno da “esquizofrenia”, por estarem biologicamente infantis, mas psicologicamente adultos. Dentro desse contexto, a criança que passa mais de três horas por dia na frente da TV transfere seu universo onírico para a telinha. “Não é necessário mais sonhar porque a televisão já faz isso por ela, só é preciso assistir esses sonhos”, afirma. Assim sendo, a tendência dessa criança quando chega a puberdade, próximo aos 12 anos, é viver um trauma ainda maior do que o normal para o período, ao perceber que o mundo infantil já acabou, mas a sua capacidade onírica ainda não se esgotou. Frei Betto ressalta que esse pré-adolescente é o candidato ideal para ser um usuário excessivo de drogas, forma pela qual poderá escapar do real e, finalmente, sonhar, já que não fez isso antes. “Não dá para ficar sem sonhar, quando a existência é colocada em bens e produtos, não há coração que aguente, a pessoa se frustra”, complementa. Levando em conta tudo isso, o escritor é a favor do projeto de lei que proíbe completamente a propaganda de produtos e serviços voltados às crianças, que tramita na Câmara há mais de dez anos e, atualmente, está parado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). “Eles querem formar consumistas, nós queremos formar cidadãos”, enfatiza. Para tentar minimizar esses efeitos negativos, Frei Betto defende que o tema seja discutido nas escolas, mas também em casa, espaço de debate fundamental para a formação do indivíduo. Nesse sentido, questiona os pais que preferem levar seus filhos ao shopping center, estimulando o consumismo, do que ir ao  parque ou em lugares próximos à natureza. “A experiência humana é construída com valores que, na minha opinião, são o problema mais profundo do sistema atual em que vivemos. Temo que o paradigma principal desse momento é o do mercado, em que os únicos princípios que importam são os que promovem a acumulação de riqueza”, lamenta. * Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.


por Marjorie Ribeiro, do Portal Aprendiz
t1 Artigo

O Bolsa Família e seus inimigos

O pensamento conservador brasileiro – na política, na mídia, no meio acadêmico, na sociedade – tem horror ao Bolsa Família. É só colocar dois conservadores para conversar que, mais cedo ou mais tarde, acabam falando mal do programa. Não é apenas no Brasil que conservadores abominam iniciativas desse tipo. No mundo inteiro, a expansão da cidadania social e a consolidação do chamado “estado do bem-estar” aconteceu, apesar de sua reação. Costumamos nos esquecer dos “sólidos argumentos” que se opunham contra políticas que hoje em dia são vistas como naturais e se tornaram rotina. Quem discutiria, atualmente, a necessidade da Previdência Social, da ação do Estado na saúde pública, na assistência médica e na educação continuada? Mas todas já foram consideradas áreas interditas ao Estado. Que melhor funcionariam se permanecessem regidas, exclusivamente, pela “dinâmica do mercado”. Tem quem pode, paga quem consegue. Mesmo se bem intencionado, o “estatismo” terminaria por desencorajar o esforço individual e provocar o agravamento – em vez da solução – do problema original. O axioma do pensamento conservador é simples: a cada vez que se “ajuda” um pobre, fabricam-se mais pobres. Passaram-se os tempos e ninguém mais diz essas barbaridades, ainda que muitos continuem a acreditar nelas. Hoje, o alvo principal das críticas conservadoras são os programas de transferência direta de renda. Naturalmente, os que crescem e se consolidam. Se permanecerem pequenos, são vistos até com simpatia, uma espécie de aceno que sinaliza a “preocupação social” de seus formuladores. Mas é uma relação ambígua: ao mesmo tempo que criticam os programas de larga escala, dizem-se seus mentores. Da versão “correta”. Veja-se a polêmica a respeito de quem inventou o Bolsa Família: irrelevante para a opinião pública, mas central para as oposições. À medida que o programa avançou e se expandiu ao longo do primeiro governo Lula, tornando-se sua marca mais conhecida e aprovada, sua paternidade começou a ser reivindicada pelo PSDB. Argumentavam que sua origem era um programa instituído pelo prefeito tucano de Campinas, José Roberto Magalhães Teixeira, em 1994. Ele criou de fato o Programa de Renda Mínima, que complementava a receita de pessoas em situação de miséria. Por razões evidentes, limitava-se à cidade e beneficiava apenas 2,5 mil famílias, com uma administração tão complexa que era impossível expandi-lo com os recursos da prefeitura. Tem sentido dizer que o Bolsa Família nasceu assim? Que esse pequeno experimento local é a matriz do que temos hoje? O maior e mais bem avaliado programa do gênero existente no mundo e que serve de modelo para países ricos e pobres? O que a discussão sobre o Renda Mínima de Campinas levanta é uma pergunta: se o PSDB estava convencido da necessidade de elaborar um programa nacional baseado nele, por que não o fez? Não foi Fernando Henrique Cardoso quem venceu a eleição de 1994? O novo presidente não era amigo e correligionário do prefeito? Ou será que FHC não levou o programa do companheiro para o nível federal por ignorá-lo? Quem sabe conhecesse a iniciativa e até a aplaudisse, mas não fazia parte do arsenal de medidas que achava adequadas para enfrentar o problema da pobreza. Não eram “coisas desse tipo” que o Brasil precisava. Goste-se ou não de Lula, o fato é que o Bolsa Família só nasceu quando ele chegou à Presidência. E é muito provável que não existisse se José Serra tivesse vencido aquela eleição. Fazer a arqueologia do programa é bizantino. Para as pessoas comuns não quer dizer nada. Como se vê nas pesquisas, acham até engraçado sustentar que o Bolsa Família não tem a cara de Lula. Não é isso, no entanto, o que pensam os conservadores. Para eles, continua a ser necessário evitar que essa bandeira permaneça nas mãos do ex-presidente. O curioso é que não gostam do programa. E que, toda vez que o discutem, só conseguem pensar no que fazer para excluir beneficiários: são obcecados pela ideia de “porta de saída”. Outro dia, tudo isso estava em um editorial de O Globo intitulado “Efeitos colaterais do Bolsa Família”: a tese da ancestralidade tucana, a depreciação do programa – apresentado como reunião de “linhas de sustentação social (?) já existentes” –, a opinião de que teria ficado “grande demais”, a crítica de que causaria escassez de mão de obra no Nordeste, e por aí vai (em momento revelador, escreveu “Era FHC” e “período Lula” – como se somente o primeiro merecesse a maiúscula). Para a oposição – especialmente a menos informada –, o Bolsa Família é o grande culpado pela reeleição de Lula e a vitória de Dilma Rousseff. Não admira que o deteste. Para os políticos, as coisas são, porém, mais complicadas. Como hostilizar um programa que a população apoia? Por isso, quando vão à rua disputar eleições, se apresentam como seus defensores. Como na inesquecível campanha de Serra em 2010: “Eu sou o Zé que vai continuar a obra do Lula!”. Alguém acredita? * Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Marcos Coimbra*
Página Paraguai Resiste. Paraguai

Paraguai: resistência ao golpe ganha página na internet

Frente de Defesa da Democracia lançou nessa segunda-feira, 25 de junho, a página Paraguai Resiste, que transmitirá informações sobre as marchas e mobilizações contra o golpe de Estado que afastou Lugo da Presidência. A página será também um espaço de organização da resistência contra o movimento golpista. Desde o final de semana, grupos de resistência começaram a ser formados por todo o país, na capital e no interior. [caption id="attachment_56426" align="aligncenter" width="470" caption="Paraguai Resiste página criada pela Frente Nacional de Defesa da Democracia do Paraguai."][/caption] A Frente Nacional de Defesa da Democracia, criada no último sábado (23), em defesa do processo democrático no Paraguai e contra a forma pela qual foi deposto o presidente Fernando Lugo, lançou nesta segunda-feira (25) uma página na internet, Paraguai Resiste, que transmitirá informações sobre as marchas e mobilizações contra o golpe de Estado que afastou Lugo da Presidência. A página será também um espaço de organização da resistência contra o movimento golpista. Desde o final de semana, grupos de resistência começaram a ser formados por todo o país. Sob a consigna “Fuera el Golpista Franco, Fuera el Gobierno Trucho”, as organizações sociais e políticas que apoiam Lugo iniciaram um processo de mobilização que deve se intensificar nos próximos dias na capital e no interior do país. O movimento de resistência civil liderado pela Frente Nacional de Defesa da Democracia recebeu diversas manifestações de apoio e solidariedade nos últimos dias. O Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) divulgou nota denunciando “o processo sumário e destituído de toda legalidade realizado contra o presidente Fernando Lugo”. “O Clacso repudia de forma enérgica e inequívoca este novo golpe ao presente e ao futuro da democracia paraguaia. Nossa rede institucional se manifesta de maneira contundente contra toda violação dos direitos humanos e cidadãos, da liberdade de expressão e de mobilização do nosso povo irmão, e exige o imediato restabelecimento do presidente Fernando Lugo em suas funções constitucionais”, afirma a nota. Brasil vai buscar consenso sobre o Paraguai O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, disse nessa segunda-feira (25), que a rapidez do processo de afastamento do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, causou “estranheza” e “perplexidade” ao governo brasileiro. “Você mudar o presidente de um país num período de 24 horas, 30 horas é de todo inusitado”, disse Carvalho à Agência Brasil. Ele reafirmou que o Brasil não deve tomar qualquer medida em relação ao Paraguai que não seja fruto de um consenso entre os países da região. “Acho correto que a Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e o Mercosul, que têm nas suas cartas de princípio a defesa da democracia, tenham uma ação mais forte”, acrescentou. Para o representante do governo brasileiro, o que ocorreu no Paraguai está na contramão da consolidação da democracia na América Latina. O presidente do Uruguai, José Mujica, também pensa que o Paraguai está na contramão. Para Mujica, “houve um golpe de Estado parlamentar, como ocorreu antes no Equador e em Honduras”. A destituição de Lugo, disse o chefe do Executivo, foi “aparentemente legal, mas moralmente ilegítima”. O presidente uruguaio sugeriu que o novo chefe de Estado, Federico Franco, antecipe as eleições presidenciais, marcadas originalmente para abril de 2013, para que o Paraguai tenha um presidente eleito pelo povo. Sobre a suspensão do Paraguai do Mercosul, Mujica defendeu que a relação do país com o bloco sul-americano “seja mantida apenas do ponto de vista instrumental” até que exista presidente “eleito pelo povo paraguaio. O Paraguai “mantém seus direitos e obrigações no Mercosul, mas não poderá participar da tomada de decisões”. Papel da Igreja Católica chama atenção Na Argentina, doze dos quinze membros que integram a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovaram um texto condenando a destituição de Fernando Lugo. Representante do governista Frente para a Vitória, Miguel Ángel Pichetto, classificou a decisão do parlamento paraguaio como “um golpe com características novas, distintas daquelas que vivemos no passado”. Pichetto chamou a atenção para o papel assumido pela Igreja Católica paraguaia no processo de derrubada de Lugo. Na mesma direção, a presidenta interina do Senado, Beatriz Rojkés de Alperovich afirmou: “Os atores destes fatos são sempre os mesmos – a Igreja, os meios de comunicação monopolistas e o establishment”. Luis Naidenoff, da União Cívica Radical (UCR) acrescentou: “No Paraguai se desrespeitou o devido processo legal e o direito à defesa”. Na França, o governo de François Hollande manifestou de forma oficial sua preocupação com a forma pela qual foi destituído o presidente Lugo e declarou apoio à mediação da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) para buscar uma saída democrática ao conflito. O comunicado do Ministério de Relações Exteriores diz que “a França apoia os esforços das organizações regionais, principalmente da Unasul, para permitir ao país encontrar uma solução constitucional, democrática e pacífica para a crise que atravessa”. Além disso, o governo francês pede que se respeite “a vontade soberana do povo paraguaio que elegeu Lugo como chefe de Estado em 2008”. Posição semelhante foi externada pelo chanceler espanhol, José Manuel García-Margallo, que expressou apoio ao Mercosul e à Unasul na “gestão da crise política no Paraguai”. * Publicado originalmente no site Carta Maior.


por Marco Aurélio Weissheimer, da Carta Maior
Diferentemente de Manuel Zelaya, Fernando Lugo foi para casa sem assumir a liderança do questionamento aos golpistas. Foto: Agência Efe. Paraguai

Há diferença fundamental entre os golpes de Honduras e Paraguai?

No que diz respeito à sua natureza política, nenhuma; nos dois episódios, a Casa Branca se posicionou contra o voto popular. A resposta a essa pergunta pode ser dada de bate-pronto: nenhuma. Ao menos no que diz respeito à sua natureza política. Nos dois casos, a derrocada de um presidente constitucional ocorreu por meio de processo sumário e operado pela via das instituições. Em ambas situações, esse modelo foi possível porque havia uma crise de poder nascida de uma mudança política incompleta: a conquista do governo pelos setores progressistas não se fez acompanhar por uma maioria parlamentar de esquerda e por reformas no sistema judiciário. Essa contradição não é exclusiva de Honduras e Paraguai. O Brasil vive cenário bastante semelhante. O ápice desse conflito ocorreu em 2005, quando as forças conservadoras estiveram a poucos passos de apostarem no impedimento do presidente Lula. Faltou-lhes coragem e sobraram-lhes dúvidas sobre como reagiriam as ruas. As duas derrotas eleitorais, em 2006 e 2010, neutralizaram setores potencialmente golpistas e isolaram a direita mais açodada. Mas o pano de fundo continua o mesmo. [caption id="attachment_56433" align="aligncenter" width="536" caption="Diferentemente de Manuel Zelaya, Fernando Lugo foi para casa sem assumir a liderança do questionamento aos golpistas. Foto: Agência Efe"][/caption] Mesmo países nos quais hoje a transformação política já atingiu todas as esferas do Estado, como é o caso de Venezuela e Bolívia, viveram essa contradição em outras fases. O golpe de Estado de 2002, contra Chávez, só foi possível quando a operação midiática dividiu as forças armadas e a base parlamentar governista, tirandou-lhe maioria na Assembléia Nacional. O boliviano Evo Morales, mesmo sem ter sido vítima de um golpe aberto, também viveu agruras parecidas. A lição dessas experiências é que não há caminho possível para romper esse conflito sem um forte apelo à mobilização social e à atuação firme dos segmentos que apoiam os governos progressistas. Manobras institucionais podem abrandar os efeitos dessa contradição, da mesma forma que a criação de maiorias táticas (como, aliás, houve em um certo período no Paraguai e há no Brasil). Mas dificilmente pode ser erradicada sem que o protagonismo das organizações populares empurre a direita para uma situação de cerco. Apenas depois de enfrentamentos desse gabarito, Evo e Chavez, por exemplo, conquistaram amplas maiorias estratégicas para suas administrações. Além da mobilização exercer uma forte influência pedagógica sobre os cidadãos, geralmente acaba por empurrar as correntes reacionárias para aventuras fora do quadro constitucional. Quando fazem essa opção, em cenário de isolamento, são mais facilmente desmascaradas e demarcadas como inimigas atávicas dos processos democráticos. Por razões distintas, nem Manuel Zelaya nem Fernando Lugo quiseram ou puderam criar as condições para uma ampla mobilização popular em defesa de seus mandatos e da ordem constitucional quando os golpistas começaram a tecer seus planos. O primeiro porque havia feito um rara passagem da oligarquia para o campo progressista, perdendo velhos amigos sem ganhar a confiança plena dos novos aliados. O segundo porque, eleito por uma coalização à esquerda, foi frustrando seus seguidores com concessões infindáveis, no afã de apaziguar as forças conservadoras. Perdeu antigos apoios e, de quebra, acabou derrubado por quem tentou cativar. Justiça seja feita, e aqui vai a primeira diferença importante, o fazendeiro Zelaya colocou seu chapelão e não se rendeu aos golpistas, comandando um longo processo de resistência. O padre Lugo, abatido e anêmico, foi para casa sem assumir a liderança do questionamento à ordem imposta pelos parlamentares sublevados. Começou a acenar com atos de resistência quando já havia aceito sua substituição ilegítima. Também há um traço de identidade nos interesses representados pelas coalizões oposicionistas das duas nações. No epicentro da conspiração estão grupos de latifundiários e banqueiros, associados a empresas de comunicação, que rejeitam qualquer reforma voltada para a democratização da terra ou o controle dos mecanismos rentistas. Outra semelhança pode ser encontrada na postura dos Estados Unidos. Nos dois episódios, a Casa Branca impulsionou a mão de gato contra o voto popular. A princípio, com vários senões e cautelas. Depois, consumada a operação golpista, de forma escancarada. Aliás, já tinha feito o mesmo no putsch venezuelano e na tentativa de desestabilizar Evo. Não é preciso esforço para chegarmos à conclusão de que o golpismo não pode ser tratado como peça de museu da Guerra Fria. Devidamente atualizada, essa alternativa continua presente no arsenal norte-americano contra as experiências progressistas da América Latina. Reação branda Também de diferente, o que podemos registrar, ao compararmos Honduras e Paraguai, foi a atitude da diplomacia brasileira,  que transitou do rechaço inegociável para uma posição de protesto. Os presidentes do Equador, da Argentina, da Venezuela e da Bolívia já disseram claramente que se tratou de um golpe de Estado e declararam que o novo governo não tem legitimidade. O Brasil, mesmo na nota na qual acena com sanções nos termos da cláusula democrática do Mercosul e da Unasul, não foi tão taxativo a respeito. Há informações de bastidores dando conta de que Fernando Lugo cogitou recusar a passagem do cargo e dissolver o Congresso, mas teria se deparado com a negativa brasileira de dar apoio a esse tipo de reação. Se assim ocorreu, trata-se de uma resposta distinta à adotada no golpe contra Zelaya. As razões para essa alteração ainda não estão claras. Uma das possibilidades é o receio de assistir Chile e Colômbia, governados por conservadores, se afastarem da Unasul. Outra possibilidade é a dúvida acerca da consistência da reação prometida pelo próprio Lugo, que ademais poderia transformá-lo de vítima em agressor. Os próximos passos do Itamaraty, no entanto, poderão esclarecer melhor se estamos apenas diante de inflexões circunstanciais ou de uma nova estratégia. Numa mirada mais abrangente, esta mudança de orientação, se verdadeira, residiria principalmente no modo de administrar as relações com Washington. Até a intentona em Assunção, poderiam ser notadas novas abordagens na política para o Oriente Médio, particularmente em relação à Síria, ao Irã e mesmo à intervenção da Otan contra a Líbia de Kaddafi. Com Lula e Amorim, de forma corajosa, o Brasil puxava um bloco contra-hegemônico, que desafiava abertamente os desígnios da superpotência. Hoje, às vezes, parece que esse objetivo saiu da agenda. Uma paradigma readaptado implicaria, também, um lidar distinto com as forças conservadoras quando essas se lançam em golpes institucionais. Eventualmente não por conta de um novo conceito, mas para evitar conflitos com governos fora do arco progressista e com os norte-americanos, além de prevenir exaltações internas com a mídia e as elites nacionais. Se há mesmo uma conduta diferenciada, essa acabou por sofrer, logo na estreia, inegável derrota, ao menos provisoriamente. Os atores moderados ou conservadores podem estar mais satisfeitos com o tom adotado em relação ao golpe no Paraguai, mas o fato concreto é que os golpistas não deram ouvidos e um presidente aliado foi derrubado. Poderia ser dito que, no caso hondurenho, o Brasil tampouco viu sua política ser vitoriosa, pois Zelaya não voltou à Presidência. Isto também é verdade. Mas o país colheu frutos positivos, como líder regional, por sua firmeza em defesa da democracia. E conseguiu isto num país localizado em região onde a hegemonia dos Estados Unidos pontifica incontrastável. Já a pátria guarani é integrante do Mercosul e sob forte influência verde-amarela. Aqui, ao contrário de Honduras, o Brasil tem meios de colocar a faca no pescoço dos golpistas. Se não tivermos êxito nisso, outros ensaios antidemocráticos poderão ter curso, na América do Sul ou mesmo dentro das fronteiras pátrias. Oxalá a aparente brandura brasileira seja apenas um momento. Afinal, a história não conhece golpes que tenham sido impedidos ou revertidos com punhos de renda. E salpica de exemplos sobre como a contemporização tem o dom de estimular o apetite fascista das oligarquias. * Publicado originalmente no site Opera Mundi.


por Breno Altman, do Opera Mundi
t4 Artigo

Rio+20 deixa a responsabilidade em nossas mãos

Diante da falta de liderança dos governos, caberá à sociedade civil lutar pelo desenvolvimento sustentável, porém é preciso que os movimentos sociais busquem a convergência das suas demandas e construam uma agenda mais propositiva. A Rio+20 se foi e o que ficou são milhares de reportagens que mostram quantas centenas de iniciativas de grupos como ONGs, empresas e indivíduos foram lançadas durante as conferências paralelas já que o evento oficial serviu para muito pouco além de fotos. Como disse Marina Silva, a confiança no “multilateralismo” foi uma das maiores perdas dessa Rio+20. As iniciativas independentes são sim importantes para mostrar como os mais diversos grupos têm tentado reagir à falta de liderança de governos como o brasileiro, que falsamente se dizem pioneiros no desenvolvimento sustentável, que deveriam assumir face às múltiplas crises que a humanidade vem enfrentando. Na falta de um compromisso sério e abrangente em direção a um futuro mais justo (ambiental, social, cultural e economicamente), o único resultado positivo que os mais esclarecidos conseguem distinguir neste cenário confuso é a reação da sociedade civil, que apesar de se mostrar indignada, ainda tem um longo caminho para estar organizada. A Cúpula dos Povos foi um evento maravilhoso em termos de diversidade de culturas e ideias, porém, as dezenas de atividades autogestionadas, apesar de riquíssimas em conteúdo, contribuíram para a segmentação das discussões, não avançando na reunião das diferentes propostas. Em todas as tendas que acompanhei, a crítica ao modelo atual de desenvolvimento insustentável "maquiado de verde" e ao estímulo ao crescimento desenfreado mesmo em meio à crise ora recorrente. As ditas soluções vão desde uma economia mais solidária, justa e com práticas mais sustentáveis até propostas mais profundas, como o distanciamento completo de mecanismos de valoração dos serviços ambientais e do corporativismo. Todas estas reivindicações têm o seu papel e são elementares na construção de um entendimento comum em que os diversos setores da comunidade mundial possam finalmente chegar a um novo modelo mais equitativo e menos depredador dos ecossistemas e também da própria sociedade. Entretanto, os movimentos sociais precisam buscar uma convergência maior das suas demandas e construir uma proposta crítica, mas também propositiva. Um exemplo claro foram as várias plenárias sobre decrescimento, ecossocialismo e outros movimentos que clamam pela saída do capitalismo: se buscam o mesmo fim, por que não unir os debates? A superação das diferenças é o único caminho para uma solução condizente à realidade. Uma das coisas mais marcantes da Cúpula dos Povos foi a angústia de indígenas de todo o Brasil. Desde os movimentos contra Belo Monte até os Kaingangs do sul brasileiro, a crítica é quanto à falta de respeito do governo atual aos seus direitos e terras. A legislação e normatizações que protegem estes povos muito mais proprietários da terra do que nós, intrusos que chegamos há menos de cinco séculos espalhando doenças e lixo, está sendo estraçalhada pelo governo Dilma. Isto sem falar nas denúncias de abandono dos indígenas no sambódromo, em colchões espalhados pelo chão e com comida sendo entregue às quatro da tarde. É desolador saber que a poucos quilômetros dali, a administração atual continua dizendo que respeita as populações tradicionais e busca a sustentabilidade. A distância entre os eventos populares e os oficiais parece um abismo pela ausência de comunicação, a não ser por alguns bravos ativistas que conseguiram entrar nas plenárias oficiais e tentaram mostrar para a comunidade internacional as dificuldades dos movimentos sociais no Brasil. Em nome de cerca de mil ONGs, o representante da Rede de Ação Climática, Wael Hmaidan, pediu na quarta-feira (20), durante a primeira sessão plenária da Conferência, que a referência de apoio atribuída às entidades civis organizadas fosse retirada do texto final da Rio+20. Em outro protesto, um grupo de lideranças e personalidades nacionais e internacionais de diferentes segmentos entregaram na quinta-feira (21) no Riocentro, a mensagem "A Rio+20 que não queremos" aos chefes de Estado e de governo que participavam da Rio+20. Por incrível que pareça, um dos momentos mais constrangedores e reveladores da Rio+20 foi o bate-boca da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, irritada com manifestantes no Riocentro durante uma mesa composta por Luciano Coutinho, presidente BNDES, Johaness Eck, representante da Casa Civil do Brasil, Deborah Wetzel, do Banco Mundial, Jane Smart, das Nações Unidas, e Tarso Azevedo, especialista em política florestal. Na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, o chamado "evento oficial", a maioria das reuniões, tanto plenárias quanto paralelas, pareciam entoar o mantra da "economia verde". O lado positivo é que agora realmente as grandes corporações e cidades não têm mais como esconder o seu passivo e terão que se adaptar ao novo paradigma que começa a nascer, voluntariamente na maioria dos casos devido à ausência de governança em nível nacional. Não há como negar que as iniciativas são sim muito interessantes, com algumas empresas preocupadas em espalhar a sensibilização para a sustentabilidade até mesmo para os familiares dos seus funcionários, e cidades se comprometendo com metas mais ambiciosas que os países. Mas tudo isto se deve à pressão popular e à conscientização de alguns poucos líderes empresariais. Como já está virando costume, a bola foi passada para nós, cidadãos: monitoramento da "maquiagem verde" e corrupção, participação nas decisões locais (especialmente às vésperas das eleições municipais) e, enfim, policiamento de nós mesmos contra o desperdício e consumismo. Estas são funções que certamente merecem a nossa atenção não apenas para garantir um ambiente equilibrado para as futuras gerações, mas para nós mesmos, já que não é apenas o sistema financeiro que está em crise, o planeta inteiro está. * Fernanda B. Müller é jornalista. ** Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Fernanda B. Müller*

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