O próximo escândalo na Igreja

Artigo

O próximo escândalo na Igreja


por José Lisboa Moreira de Oliveira*


Donald Cozzens no seu livro A fé que ousa falar (Loyola, 2006) deixou bem claro que o próximo escândalo na Igreja será de ordem econômica ou financeira: "Embora muitos, se não mesmo a maioria, dos bispos e párocos levem uma vida de fato simples e sem pretensões, distinguindo cuidadosamente o que pertence à Igreja e o que lhes pertence como indivíduo, alguns não se comportam assim. Não surpreende, portanto, que comentaristas familiarizados com as engrenagens internas eclesiais afirmem que a próxima onda de escândalos que irá abalar as bases da Igreja será de natureza fiscal” (pp. 27-28). Por sua trajetória e por sua competência, Cozzens deve ser levado a sério. Foi ele, a partir dos conhecimentos que tinha e dos estudos feitos, um dos primeiros a prever o escândalo da pedofilia clerical na Igreja dos Estados Unidos. Parte de sua previsão foi publicada no livro A face mutante do sacerdócio (Loyola). Por causa disso, foi intimado a comparecer ao Vaticano para sentar-se na mesma cadeira que Galileu e Boff sentaram. Quando estava arrumando as malas para viajar, estourou o escândalo e adiaram "sine die”* a sua ida a Roma. Até hoje não foi chamado e neste tempo de espera, além dos livros acima mencionados, escreveu também O silêncio sagrado(Loyola), no qual denuncia a política da hierarquia da Igreja de recusar-se a falar de certas coisas e de não silenciar diante de outras. Passados poucos anos da sua previsão, os escândalos financeiros começam a pipocar. O maior e o pior deles é a inclusão do Banco do Vaticano, feita pelo Departamento de Estado norte-americano, na lista dos prováveis 67 paraísos fiscais, onde os políticos corruptos, traficantes de drogas e outros criminosos abrem suas polpudas contas bancárias, com dinheiro manchado de sangue. Embora o Banco do Vaticano não apareça entre os piores paraísos fiscais, a simples inclusão do seu nome na lista já é por si só um tremendo escândalo. Tal escândalo se agrava se levarmos em conta que o próprio papa, em 2010, antes da ação do Departamento de Estado, determinou uma investigação cuidadosa para verificar se o dinheiro que circula pelo Banco da Santa Sé é realmente limpo. Mas os escândalos financeiros não param por aí. Estou convencido de que, se houvesse uma séria fiscalização feita pela própria Igreja e pelos governos, viriam à tona escândalos que levariam o próprio diabo a corar de vergonha. Recentemente tivemos, no Rio Grande do Sul, o caso de um padre que arrecadou dinheiro para a paróquia e depois sumiu com todo o montante. O povo denunciou o caso ao Ministério Público e a questão foi parar na Justiça. O padre, um estrangeiro, fugiu para seu país, onde se esconde para não prestar contas aos paroquianos e à Justiça brasileira. Mas a bomba pode estourar nas mãos do bispo diocesano, causando sérios estragos, sem falar no estrago ético e moral que já aconteceu. Há cerca de um ano atrás se descobriu que o ecônomo de um famosíssimo instituto religioso, com sede no Paraná, sumiu com vultosas somas de dinheiro, levando sua província à falência. Como "castigo” foi mandado como missionário para uma região pobre, onde certamente não vai faltar dinheiro para ele continuar desviando. Também nestes dias um caso abala a Itália. Roberto Formigoni, um político bem conhecido, antigo governador da rica região da Lombardia, membro do "Memores Domini”**, ala de leigos celibatários do movimento Comunhão e Libertação (CL), está sendo acusado de se envolver em escândalo de corrupção e suborno em contratos públicos de saúde e de usar recursos públicos para pagar férias pessoais. Outro membro de CL, Antonio Simone, foi preso e acusado de desviar 74 milhões de dólares do Instituto de Saúde Italiano. A coisa ficou tão séria que o dirigente geral de CL foi obrigado a vir a público para pedir desculpas e solicitar a punição dos prováveis culpados. Casos de eclesiásticos que arrecadam dinheiro e não prestam conta ao povo, de membros da hierarquia que somem com os bens das paróquias, não são exceções na Igreja. Existem inclusive denúncias de roubo de objetos de arte pertencentes a igrejas tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, cujo sumiço é muito misterioso. Há poucos dias, visitando uma cidade histórica do Recôncavo baiano, soube do roubo de imagens valiosíssimas de uma determinada igreja. Há sérios motivos para se desconfiar de que o pároco esteja envolvido no caso. E a principal razão para a desconfiança é que o padre não quer que se toque no assunto. Existem várias causas por trás desse comportamento dos eclesiásticos. Em primeiro lugar o fato de que durante praticamente todo o segundo milênio a hierarquia da Igreja tinha hegemonia e poder absoluto sobre todo o povo de Deus. Aos simples leigos cabia a obrigação de sustentar o clero, sem pedir satisfação ou explicações acerca do modo como o dinheiro e os bens da Igreja eram administrados. Qualquer pedido de explicação era castigado com excomunhões e com sérias ameaças inquisitoriais. Exemplo disso é a denúncia das vendas de indulgências feitas por Lutero. O reformista não terminou na forca ou na fogueira porque conseguiu fugir e receber proteção dos príncipes alemães. Além disso, há a ingenuidade de alguns prelados, os quais, mesmo que bem intencionados e pobres, acreditam que não há necessidade de prestar contas, porque eles são honestos e o povo acredita piamente na boa intenção deles. Isso é reforçado pela imagem sacral do padre, ainda muito presente entre o povo. Pode-se até desconfiar da honestidade de um eclesiástico, mas as pessoas acreditam que é perigoso se meter com quem mexe com o divino. Enfrentar o ministro religioso pode dar azar e complicar por demais a vida das pessoas. Afinal de contas ele é o representante de Deus.   Por fim, especialmente nos nossos dias, cresce no meio do clero os tipos inescrupulosos e corruptos, que veem o ministério ordenado não como serviço, mas como a forma mais fácil de ganhar fama e dinheiro. Infelizmente, a dimensão humano-afetiva não é bem trabalhada nos seminários e é cada vez mais frequente o acesso ao ministério ordenado de carreiristas e de oportunistas, os quais não têm escrúpulos de se utilizar dos meios mais sórdidos e ilícitos para ganhar fama e, por meio da fama, muito dinheiro. A coisa é tão grave que o próprio papa chegou recentemente a denunciar em público o carreirismo e oportunismo de certos clérigos. Espero que as autoridades eclesiásticas se deem conta dessa realidade e comecem a agir. Não esperem que os escândalos se multipliquem para tomar providências. Segundo Cozzens, a primeira providência a ser tomada é a eliminação da cultura clerical feudal que faz do bispo e do padre verdadeiros senhores e príncipes e dos demais fiéis apenas servos que os sustentam. É urgente a eliminação da púrpura real, das vestes litúrgicas cheias de brocados multicores que transformam os ministros ordenados em ricos avarentos arrogantes e autoritários. Além disso, urge rever o conceito de autoridade, diz Cozzens. Precisamos da presença na Igreja de "autoridades autorizadas e não autoritárias”. Autoridade autorizada é aquela que pela sua maneira de viver, de agir, reflete a pobreza e a simplicidade do Mestre servidor, que não tinha onde repousar a cabeça.   O Evangelho nos diz que são inevitáveis os escândalos nas comunidades cristãs. Mas diz também que os que provocam escândalos serão responsabilizados por seus atos. E os contextos onde essa exortação aparece não deixam dúvidas: trata-se do escândalo provocado pelas lideranças religiosas (Mt 18,1-14; Lc 17,1-10). E as lideranças cristãs escandalizam quando abandonam ou renegam a simplicidade de vida, quando se recusam a servir e querem ser servidos, e quando não cuidam dos pequeninos e dos desamparados. Aliás, se considerarmos o texto mencionado de Lucas, veremos que não escandalizar é o mesmo que ter fé, uma fé que é capaz até mesmo de arrancar o que parece irremovível e intransponível (Lc 17,5-6). Nesse sentido, o não cuidar da transparência no campo econômico talvez represente o pior escândalo para o povo. Não por acaso se costuma afirmar que o povo perdoa qualquer pecado do ministro ordenado, mas não perdoa a sua avareza, a sua falta de honestidade no uso do dinheiro que pertence à comunidade. E com toda razão, pois "o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1Tm 6,10). Notas (*) Sem data marcada. (**) Os que lembram do Senhor * José Lisboa Moreira de Oliveira é Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília. ** Publicado originalmente no site Adital.

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“Situação de violência no Brasil é de pandemia”, diz sociólogo

O sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, autor do Mapa da Violência e ex-diretor de Pesquisa do Instituto Sangari, acredita que a situação da violência no Brasil é a de pandemia. “A epidemia é um surto eventual, a pandemia é um problema estrutural e mais difícil de cuidar. A violência entre nós está incorporada”, destacou o sociólogo que já foi coordenador de Pesquisa e Avaliação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil. Há quase uma década e meia fazendo mapas da violência no Brasil, o sociólogo avalia que a identificação do brasileiro como “homem cordial” não se sustenta pelos dados estatísticos. “A sociedade brasileira é tão violenta quanto qualquer outra latino-americana”, diz, contrariando a interpretação mais usual do termo cunhado pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda (morto em 1982). No livro Raízes do Brasil (de 1936), considerado clássico das ciências sociais no Brasil, Sérgio Buarque cria o conceito de cordialidade. O termo, no entanto, é erroneamente usado no senso comum como sinônimo de gentileza e solidariedade – padrões que não são identificados nos dados avaliados no Mapa da Violência, elaborado há 14 anos por Jacobo. “Há, no Brasil e em outros países vizinhos, uma cultura de desvalorização da vida do próximo. Em países de outros continentes, os conflitos são resolvidos com negociação”, compara o sociólogo, que é argentino. A origem do “homem cordial” está ligada à ideia daquele que se deixa levar pela emoção em detrimento da razão – tipologia contrária à da ética protestante de alguns países europeus, também estudada pelo historiador – catálogo do arquivo de Sérgio Buarque está disponível online na Universidade Estadual de Campinas. O padrão de violência, revelado pelas pesquisas anuais de Jacobo, se aproxima mais desse sentido. Para Jacobo, o elemento cultural formador do povo brasileiro juntamente com a grande circulação de armas de fogo no Brasil são “uma mistura explosiva”. Ele lembra que “a arma de fogo foi inventada para matar ou ferir” e que, no país, “o Estado perdeu há muito tempo o monopólio da violência”, em referência ao uso da força exclusivamente pela polícia e pelas Forças Armadas. Segundo o pesquisador, “o aparelho privado da violência” envolve desde as firmas de segurança legalizadas, pagas por quem “vive sob temor”, até as milícias que atuam de forma paralela ao Poder Público em comunidades desassistidas pelo Estado, passando pela prática de “bicos” nas horas de folga dos policiais e pela corrupção de agentes públicos. “Não se chega a isso sem a cooptação irregular”, destaca. Os estudos de Jacobo estão disponíveis no portal Domínio Público do Ministério da Educação. A última pesquisa do sociólogo, Novos Padrões da Violência Homicida no Brasil, também está disponível na internet. * Publicado originalmente no site Agência Brasil e retirado do Mercado Ético.


por Gilberto Costa, da Agência Brasil
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Estranha “democracia” onde povo não decide

Em Portugal, cresce amarga sensação de que sonho europeu vai desfazer-se e “modernidade” revelou-se ficção tolhida pelas finanças. LISBOA (Portugal) – Quando a Associação 25 de Abril, que reúne os “capitães” protagonistas da revolução de 1974 recusou-se a participar das comemorações oficiais de aniversário, usou como justificativa uma acusação contra o governo conservador do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho: “deixou de refletir o regime democrático herdeiro do 25 de Abril e configurado na Constituição”. Na mesma linha, políticos e analistas lançaram advertências sobre o risco democrático que estaria vivendo o país, devido à crise econômica e as suas graves consequências sociais que instauram um clima de total desconfiança popular nos políticos, nos partidos e, em certa medida, nas próprias instituições. Afinal, se o país está sendo governado do exterior, pela chamada troika (a expressão adquiriu uso geral e significa a União Européia, Banco Europeu e FMI, que determinam as medidas de austeridade em aplicação), por que respeitar os eleitos que assumem o papel de meros executores de políticas impostas? Traduzindo este sentimento generalizado, o jornalista Ricardo Alves escreveu artigo publicado em vários blogues portugueses: “A pretexto da troika e do diktat alemão, Passos (Coelho) e (Paulo) Portas (ministro dos Negócios Estrangeiros, que acaba de visitar o Brasil) atacam no todo ou em parte progressos que estabilizavam há 38 anos o pacto social entre governantes e governados, tornando-se este governo o menos legítimo históricamentee socialmente desde (Marcelo) Caetano”. E prevê que este governo “não terminará pelas armas, mas sim com uma nova maioria que garanta à República o regresso ao rumo que mantinha desde 1974”. De toda parte vêm alertas sobre a iminência de uma ruptura política caso o governo persista nos seus planos de ajustes que tem sido mais rigorosos até do que os desejados pela troika. Esta mostrou-se mesmo “surpresa” com os efeitos de suas medidas, já que esperava um desemprego em torno dos 13% a esta altura do ano, mas ele já superou os 15% em março – um feito do qual o ministro das Finanças Vitor Gaspar mostrou-se orgulhoso em recente palestra nos Estados Unidos, mostrando que seu governo é mais realista que o rei… O sociólogo Elísio Estanque, em coluna no Diário de Notícias (6/4) faz coro aos reclamos gerais e traça um panorama dos efeitos da austeridade: “O sonho europeu ameaça desfazer-se no ar e a ‘modernidade’ revelou-se afinal uma ficção. Os pobres continuam pobres e os remediados empobrecem. Temos melhor educação, mas não há emprego; temos boas autoestradas, mas não podemos pagar os pedágios e o carro; vivemos mais tempo, mas com menos qualidade de vida; temos melhor sistema de saúde, mas não podemos pagá-lo; temos liberdade, mas a democracia está doente”. Se a democracia está doente, a coisa é mais grave, já que fora dela não se encontrarão soluções. Na verdade, ninguém (talvez alguns neonazistas que andaram soltando panfletos no 25 de Abril, sem maior repercussão) pretende que Portugal saia das normas democráticas, uma conquista já enraizada na consciência do povo, mesmo dos jovens que não viveram a crueldade da ditadura salazarista que massacrou seus avós e seus pais. Na Europa unificada de hoje, não há espaço para aventuras autoritárias e muito menos totalitárias, e hipóteses como golpes de Estado ou sublevações não se colocam em debate. A grande questão é se a democracia continua sendo um instrumento pelo qual o povo se governa, elegendo seus mandatários das diversas tendências ideológicas que formam maiorias parlamentares e devem, teoricamente, interpretar a vontade da população. Ou se a democracia está hoje refém da burocracia do sistema financeiro, que toma decisões do interesse de uns poucos, com a anuência forçada dos políticos. Vote em quem votar, o cidadão/contribuinte pressente que acabará sendo vítima das mesmas políticas recessivas, dos cortes nos gastos sociais (e até no seu salário), da entrega de bens coletivos a grupos privados (Portugal discute a privatização até dos serviços de água!) e da remessa de seus impostos aos bancos e organismos de crédito internacionais, representados pela inatingível e inquestionável troika. A crise é um teste para as instituições democráticas que tem-se mostrado robustas o bastante para suportar tantos alguns abusos de governos como estouros de revolta popular (as depredações de carros em Paris e em Londres, o M-15 espanhol, que completa um ano, e outros movimentos de indignados). Por enquanto, de maneira geral, afora algumas arbitrariedades policiais contra manifestantes ou ocupantes de áreas públicas ou prédios (condenáveis à luz da Democracia), não se cogitou de fechar partidos, censurar a imprensa ou mudar leis eleitorais: as liberdades democráticas formais estão mantidas. Doze governos caíram ou foram derrotados na Europa nos dois últimos anos, devido à política de austeridade, sendo Sarkozy e a coligação grega as últimas vítimas. Os europeus não têm votado pela direita ou pela esquerda; têm votado contra a crise e os que julgam serem os maiores responsáveis por ela, ou seja, os governos de plantão, de qualquer tonalidade ideológica. Portanto, trata-se mais de uma discussão sobre a consistência do regime democrático, admitida sua inevitabilidade; todos a queremos, mas nem todos a controlamos. O governo do povo, pelo povo, e para o povo tem se transformado num “governo dos mais ricos sobre o povo e contra o povo”. Retificar tal desvio é o esforço dos portugueses e seus parceiros da União Européia. * Antonio Barbosa Filho é jornalista e escritor, autor de A Bolívia de Evo Morales e A Imprensa x Lula – golpe ou sangramento? (All Print Editora). Em viagem pela Europa, acompanha as consequências da crise financeira pós-2008 e da onda corte de direitos sociais (‘políticas de austeridade’) iniciada em 2010. ** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Antonio Barbosa Filho*
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As fontes, a realidade e os efeitos do jornalismo

As histórias estão sendo contadas por diferentes agentes na sociedade há milhares de anos, desde o surgimento do primeiro homem na Terra, possivelmente. A partir delas, o mundo vai ganhando contornos e formando identidades em diferentes regiões, cada qual com suas características e sua comunicação mediada. Com o passar do tempo e a inserção das novas tecnologias da informação, a sociedade passa fazer parte de um universo que se encolhe no espaço e tempo – um tema já repetido com insistência. O jornalismo passa a ser fundamental nas trocas comunicativas, que colocam todos numa aldeia, de maneira que se tornam possíveis relatos rápidos e imediatos. Neste processo de globalização, que depende de comunicação e de mediações sociais com reflexo no econômico, a configuração de matrizes de pensamento vai ganhando forma, como resultado de uma sociedade que convive numa relação conflituosa e insuperável, entre dominantes e dominados, antes discursivamente – depois, não nesta ordem, vem o econômico, certamente. No meio de tantos relatos, alguns autoritariamente insistem em predominar, apesar da diversidade de pensamento e reflexões, associados aos diferentes modos de vida e cultura que fazem parte de comunidades existentes de norte a sul do terreno global. Somente no Brasil é possível conviver com diversidades culturais nas várias regiões. Cada qual com os seus agentes e ideias endógenas, mas notoriamente imbricadas, em um processo comunicativo interno. Na realidade, se esta análise faz sentido, não existe uma forma de relato e um único filtro para mediações, mas um conjunto de comunicadores e de mídias – mais hoje do que antes. Entretanto, pode-se afirmar: há uma ordem de pensamento que cinge a tessitura que liga a todos. A sobrevivência em questão O jornalismo não é sem propósito e está longe de ser neutro, com capacidade para usar quando quiser da objetividade, como um mecanismo à mão. Este mundo em questão é de quem comunica mais e para mais pessoas, com potencialidade. A comunicação local tem menos fluxo do que aquela que atravessa fronteiras e imaginários. A dominação está na capacidade de apresentar relatos, conforme as prerrogativas culturais e de senso comum, onde a maioria se encontra. As trocas não são justas; pertencer ao mundo significa abrir mão de particularidades, principalmente quando se quer hegemônico. Desta forma surge a pergunta inusitada em tempos de uma comunicação para a ética de Veja, Torres e Cachoeiras: quem tem o direito de falar? A comunicação realmente é democrática nos seus princípios? A pessoa que se expressa está imune às suas relações de pertencimento a grupos? O jornalista, um profissional não-liberal, de fato, está mais para a comunidade que pertence, no qual há conceitos e preconceitos, e usa de suas relações comunitárias para formar opinião, de maneira polifônica? A questão é delicada, ou mesmo ameaçadora, para a definição de uma comunicação democrática. Talvez tenha-se demorado demasiadamente para reconhecer que a grande mídia gera fluxos de ideias cujos princípios precisam de meios para influenciar e organizar as culturas, que conjuntamente têm multiplicidades de vozes e comportamento. O funcionalismo norte-americano não é novidade no campo teórico do jornalismo. A questão pode estar em entender que, resguardado as características dos meios, o discurso não é simplesmente de quem fala e deposita a assinatura. É fluído e está em movimento constante, o que pressupõe enfrentamentos para manutenção e ampliação de domínio. Ademais, conforme a pressão, há adequação discursiva, de tal forma que, na torrente aceita politicamente, as denúncias são feitas até mesmo por aqueles que as reconhecem; afinal, está em questão a sobrevivência. Neste sentido, agentes perdem seu direito de fala momentaneamente para logo em seguida tomarem o seu lugar. Vale repetir, a comunicação é viva e faz parte de um mundo com diferenças. Democracia e justiça social Assim, não seria absurdo conjecturar que há uma matriz discursiva que percorre o sistema, por vezes refutada, desconsiderada e aceita, finalmente. Os efeitos, entretanto, aparecem ao longo do tempo, de forma que, descobertos, iniciam-se do zero para uma outra forma de relatos, que segue uma determinada visão de mundo. Como exemplo, a rivalidade entre capitalismo e comunismo, a qual gerou discursos que deram tessitura à histórias de ambos os lados. Na torrente, cada mídia defende o seu lugar. Não há dúvida a quem representa determinados veículos de comunicação no Brasil pós-moderno, como se atesta as denúncias envolvendo a privatização da política e o discurso de determinados veículos de comunicação, de perspectiva liberalizante. A questão não cessará. Precisamos entender o quanto as novas mídias potencialmente permitem a polifonia, de tal forma que as histórias desconhecidas (não hegemônicas), que fazem parte de realidades outras, possam aparecer, impedindo as tentativas de manipulação do imaginário, com discursos não-ditos e interditados – eis o agendamento e a espiral do silêncio. Um raciocínio que faz sentido possivelmente seria o de incluir nas grades curriculares das escolas disciplinas sobre mídias, fontes, histórias e realidade. O conhecimento, que exige comunicação, é o lugar da democracia e justiça social, para a inexistência de Torres ao lado de Cachoeiras no paraíso, de uma ordem discursiva sistêmica global. * Antonio S. Silva é jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, doutorando em Jornalismo pela UnB e professor. ** Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.


por Antonio S. Silva*
Escritor Eric Nepomuceno diz que demora na prisão de chefes do massacre mostra sistema estruturado para garantir impunidade de poderosos. Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo ABr Brasil

“Decisão escandalosamente tardia”

[caption id="attachment_51286" align="alignleft" width="300" caption="Escritor Eric Nepomuceno diz que demora na prisão de chefes do massacre mostra sistema estruturado para garantir impunidade de poderosos. Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo ABr"][/caption] Após 16 anos do Massacre de Eldorado do Carajás, ação da Polícia Militar no Pará que resultou na morte de 21 integrantes de movimentos sem terra, o coronel Mario Colares Pantoja e o major aposentado José Maria Pereira de Oliveira, líderes da operação, finalmente vão cumprir suas penas atrás das grades. Depois de inúmeros recursos apresentados a diversas instâncias da Justiça, eles tiveram a prisão decretada pelo Tribunal de Justiça do Pará na segunda-feira 7. Em 2002, eles foram condenados a 228 anos e 158 anos anos de prisão em regime fechado, respectivamente. Desde o final de 2005 a dupla respondia ao processo em liberdade. Uma situação que, segundo o jornalista Eric Nepomuceno, autor do livro O Massacre, evidencia um “sistema judiciário brasileiro absolutamente viciado, estruturado para que a impunidade dos poderosos seja assegurada”. “Trata-se de uma decisão escandalosamente tardia”, diz em entrevista a CartaCapital. “A Polícia Militar do Pará, especialmente a guarnição de Parauapebas, que executou a sangue frio 19 pessoas (duas outras morreram depois, em consequência dos ferimentos), sabia o que fazia. E quem ordenou o ataque – o governador Almir Gabriel, seu secretário de Segurança Pública, Paulo Sette Câmara, e o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Fabiano Lopes, – contavam com a certeza dessa impunidade. Tanto assim que nem sequer foram indiciados”, completa. O escritor afirma que não houve interesse em investigar a Vale do Rio Doce, à época uma empresa estatal, que, segundo ele, pagou o aluguel dos ônibus de transporte das tropas ao local. “Nem [averiguar] por que os mortos foram escolhidos a dedo entre os manifestantes. A lentidão da justiça (sic) só confirma o esquema de impunidade". Após inúmeros recursos dos réus, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes pediu em março que a documentação do processo retornasse ao Tribunal de Justiça do Pará. Segundo Mendes, a defesa dos acusados estava tentando protelar a sentença. Com isso, o juiz Edmar Pereira, da primeira vara do Tribunal do Júri, expediu o mandado para que os condenados cumprissem as sentenças. Uma vitória simbólica para as famílias das vítimas e os movimentos de trabalhadores sem terra do Brasil, diz Nepomuceno. “O que importa é saber que o esquema de violência impune continua vigorando. No Pará, como em muitas outras partes do mapa brasileiro, sobrevive a noção de que os poderosos podem tudo, inclusive utilizar uma força pública de segurança como matarifes em defesa de interesses privados". Neste cenário, o jornalista diz não se surpreender com a pistolagem ainda reinante no Pará – representada recentemente pelo assassinato do casal de extrativistas Zé Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo em uma emboscada no assentamento Praia Alta Piranheira, em Nova Ipixuna. O sentimento é apoiado nos dados do relatório da Comissão Pastoral da Terra, entidade ligada à Igreja Católica, divulgado na segunda-feira 7, segundo o qual 29 pessoas foram mortas em conflitos no campo no Brasil em 2011. O maior número vem do Pará, com 12 vítimas. “Reveja o processo do caso do Massacre de Eldorado do Carajás: é uma lição clara de como funcionam as coisas. Essa prisão, nesse contexto, é apenas uma prisão. Exemplar, é verdade. Mas pela demora já está tudo dito”, conclui Nepomuceno. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Gabriel Bonis, da Carta Capital
Está cada vez mais difícil conciliar identidade real e identidade digital. Comportamento

Vida virtual: a necessidade de existir?

[caption id="attachment_51281" align="alignleft" width="270" caption="Está cada vez mais difícil conciliar identidade real e identidade digital."][/caption] Redes sociais apagaram as fronteiras entre identidade real e digital. Agora, é preciso ser feliz duas vezes. Se eu for ao restaurante e não fotografar o prato com Instagram, ainda assim vou poder apreciar a comida? Se as fotos da minha viagem não aparecerem nas redes sociais, ainda vou ter a sensação de ter viajado? E se comecei a namorar sem ter mudado meu status de relacionamento, será namoro de verdade? A internet trouxe um peso que eu, simplesmente, não sentia dez anos atrás. Uma necessidade de “existir” fora da vida real. De repente, é como se tudo que eu fizesse precisasse de um espelho digital – uma espécie de dublê virtual que me dá cara e sentido. É um pouco como checar a cada minuto meu reflexo. Estou mesmo vivo? Estou mexendo os pés, as mãos, a cabeça? No início da web, havia uma separação clara entre o real e o virtual. O primeiro era o domínio do palpável, dos pés no chão. O outro era pura fantasia e ilusão. Se você quisesse atravessar essa linha divisória, recomendava-se um pseudônimo. As pessoas adotavam temporariamente um alter ego, que não se restringia apenas a um nome, mas a toda uma identidade digital – parecida ou não com a real, não importava. Depois, voltava-se à sua existência de carne e osso, talvez com alguns conflitos de identidade, mas sempre com uma divisão clara entre as duas esferas. Tínhamos relações, contatos e hábitos no real e no virtual, e estes raramente se misturavam. Foi então que o MSN, o Gtalk, mas também a disseminação das câmeras digitais e das redes sociais, entraram em nossas vidas pessoais e profissionais. O Orkut e depois o Facebook, mais que quaisquer outras ferramentas, embaralharam definitivamente as cartas. Nas redes sociais, você coloca seu próprio nome, suas próprias fotos, suas próprias informações pessoais, armazenando sua identidade em uma interface digital. A “vida verdadeira” com “pessoas verdadeiras” invadiu subitamente o mundo virtual, apagando as fronteiras entre as duas esferas. As duas identidades nunca estiveram tão juntas. Ao mesmo tempo, nenhuma substitui a outra. Não, não estamos perdendo nosso contato com o mundo de verdade, de carne e osso. Não acredite nos catastrofistas do 2.0 que preveem o fim da nossa “identidade física”. O Sean Parker do filme de David Fincher estava errado ao dizer que, muito em breve, “moraremos na internet”. E a prova é o relativo fracasso de redes como o Second Life, que propõe uma imersão completa num mundo virtual abstrato. Na verdade, o avatar não é mais esse “eu” sem limites, moldado de acordo com nossas fantasias infinitas; o avatar é agora uma extensão da nossa vida real, um “eu” reduzido a tudo aquilo que acreditamos nos definir: gostos, fetiches, status, conhecimento e boas relações. Dependendo da nossa inteligência em lidar com os códigos da internet, a nossa atividade na internet virou inclusive uma ponte para conseguir coisas reais e palpáveis. Muitas vezes, é o caminho mais lógico – ou até, e aí começa a pressão, o único caminho. Identidade real e virtual coabitam, mas não sem conflitos. Com um pé fincado na realidade e outro em sua representação digital, fica cada vez mais difícil encontrar um equilíbrio. Como ligações covalentes, uma depende da outra para se manter. Vem então o peso, a necessidade exaustiva de alimentar nosso duplo digital, como se a vida só fizesse sentido quando colocada em cena na internet. Como se eu só existisse ao construir duas versões de mim mesmo. Pior ainda é a neurose em conciliar as duas realidades. Sim, porque as pessoas estão conscientes de que não podem se limitar a um avatar e sofrem quando percebem que “existiram” demais no Facebook e de menos na vida real. A sociedade de consumo sempre nos impôs desejos inalcançáveis e, muitas vezes, contraditórios. É preciso ser trabalhador e aproveitar a vida, é preciso ter posses e ser desprendido, é preciso ter uma vida regrada e ser aventureiro, preocupar-se com o futuro e viver como se não houvesse amanhã. É preciso comer tudo que é bom e ser magro, é preciso buscar a história de amor monogâmica perfeita e ser um objeto de desejo para todas as pessoas (o capital sexual na era das comédias românticas). Pois as redes sociais acrescentaram mais um elemento a essa esquizofrenia: não basta ter uma vida que pareça ser boa para você. A sua vida também precisa parecer boa no Facebook. Essa vida dupla é a marca do nosso tempo. Nos dias de hoje, ninguém mais é feliz se não for feliz duas vezes. Pouquíssimas pessoas se contentam apenas com a identidade que criou para si na internet. A maioria tem consciência que, ao passar muito tempo na internet, não está vivendo a vida de verdade, com pessoas de verdade. Mas, da mesma forma, está cada vez mais difícil apreciar a vida por si só. Se um bom momento não resultar em um bom álbum de fotos, ou um bom status, se não for compartilhado com uma legião de contatos virtuais e curtido, é como se a experiência não fizesse sentido. Sem um complemento na internet, sem uma representação nessa realidade paralela, fica uma estranha sensação de vazio. Onde está o botão curtir da vida real? * Bolívar Torres é jornalista e escritor. ** Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Bolívar Torres*
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Primeiro guia online de acessibilidade cultural é lançado em São Paulo

Material tem o patrocínio da Sabesp e traz informações completas de todos os equipamentos públicos culturais acessíveis na capital paulista. Está sendo lançado o primeiro guia de cultura e entretenimento da cidade de São Paulo voltado à diversidade humana. Trata-se do Guia Online de Acessibilidade Cultural, elaborado pelo Instituto Mara Gabrilli (IMG) em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura, com patrocínio da Sabesp. Ele traz 186 estabelecimentos ao todo, entre teatros, museus, cinemas, centros culturais, casas de espetáculos e bibliotecas que podem receber qualquer perfil de público – pessoas com problemas de locomoção, pessoas mais baixas, crianças e todos aqueles que apresentam uma estrutura física diferente da média, como o 1,5 milhão de pessoas com deficiência que vivem na cidade de São Paulo. Ele já está disponível na internet, no endereço http://acessibilidadecultural.com.br, que atende a requisitos de acessibilidade e onde também se pode fazer pesquisa filtrada por tipo de equipamento, região da cidade ou palavra-chave. “O guia não é só voltado às pessoas com deficiência, já que pode ser muito útil também para idosos, grávidas, pessoas engessadas, mulheres com carrinho de bebê etc. São Paulo é sinônimo de modernidade, de atualidade, de transformação a cada segundo. Por isso lançamos este guia online para que seja consultado e construído constantemente por todos os paulistanos. Este formato permite também a integração entre os equipamentos e o público, intermediado pelo instituto”, afirma Mara Gabrilli, fundadora do IMG. “A cultura é uma ferramenta fundamental para nosso desenvolvimento, com potencial para trazer transformações que levamos para toda a vida. Permitir que todos tenham acesso a isso, sem distinções, é uma obrigação do poder público”, diz Andrea Matarazzo, que esteve à frente da Secretaria de Estado da Cultura durante a elaboração do guia. O atual secretário, Marcelo Araujo, destaca que vários dos equipamentos mantidos pelo Estado constam do Guia e se destacam pelo cuidado com a acessibilidade. “A Pinacoteca, a Biblioteca de São Paulo e o Museu do Futebol, por exemplo, mantêm estrutura física acessível e investem, principalmente, na criação e desenvolvimento de projetos e programas educativos com recursos pedagógicos que visam criar vários níveis de acessibilidade”, afirma. A exposição “Sentir pra ver”, atualmente em cartaz na Pinacoteca, apresenta recursos multissensoriais como reproduções em relevo, maquetes, extratos sonoros e textos também em Braille, para garantir a percepção das obras expostas aos vários perfis de público. Patrocínio Nos últimos anos, a Sabesp vem estreitando sua relação com a cultura, por meio de patrocínios a eventos e criação de novos espaços e programas culturais. Desde 2004, a Companhia participa do Programa de Fomento ao Cinema, por meio do qual já patrocinou 127 filmes, totalizando investimentos de R$ 48 milhões no setor. Hoje a Sabesp é a empresa paulista que mais investe em cinema, terceira maior patrocinadora do Brasil e pioneira em exigir que as produções disponibilizem uma cópia com recursos que permitam aos deficientes auditivos e visuais apreciar o filme. Essa preocupação da Sabesp em proporcionar o acesso cultural a todos também está refletida no Cine Sabesp. Inaugurado em 16 de junho de 2010, o local se tornou um espaço para a promoção da cultura, educação e preservação do meio ambiente, além de formação de plateia para as salas de cinema de rua, uma opção de lazer quase extinta. Seleção - Durante três meses, três equipes especializadas em acessibilidade foram a 315 equipamentos avaliar quão amigáveis estes são para pessoas com deficiência ou alguma outra dificuldade. “Dos 315 equipamentos avaliados, 186 foram selecionados e integram o guia”, diz Ariana Chediak, gestora do IMG. São 61 bibliotecas; 3 casas de espetáculos; 37 centros culturais; 11 cinemas de rua; 44 museus e 30 teatros. Entre estes estabelecimentos, 55 são localizados no Centro, 31 na zona Leste, 9 na zona Norte, 52 na Sul e 39 na Oeste. O site também terá espaço para interação dos usuários, que poderão fazer comentários, sugestões e críticas. “Também será papel do Instituto Mara Gabrilli, como forma de continuidade ao trabalho, informar os equipamentos que precisarem de ajustes ou mudanças sugeridos pelos internautas, com o objetivo de tornar a cidade de São Paulo, no geral, um lugar que receba cada vez melhor as pessoas com deficiência. O guia é inovador por permitir esta construção permanente e colaborativa”, completa Ariana. Todos os locais trazem uma breve descrição, dados de endereço, telefone, e-mail, site, dias e horários de funcionamento e um item chamado “informações gerais de acessibilidade” com dados sobre estacionamento e visitação inclusiva guiada. Também há, para cada estabelecimento, dados específicos por tipo de deficiência, indicados com ícones que remetem à surdez, deficiência física, visual e intelectual. A análise ponderou aspectos arquitetônicos, de conteúdo, de informação, as tecnologias e a disponibilização de profissionais capacitados para algumas funções primordiais como intérpretes de libras, guia-intérpretes para surdocegos e mediação para pessoas com deficiência intelectual. As nuances são muitas e as avaliações foram feitas se pautando, principalmente, nas determinações de acessibilidade previstas na legislação brasileira. Para cegos, por exemplo, o local precisa ter explicações que sejam compreendidas por meio do tato e da audição do visitante, como placas em Braille e audiodescrição. Já os surdos irão contemplar um programa cultural através de sua visão, demandando a necessidade de intérpretes em Libras, a Língua Brasileira de Sinais, que estejam aptos a recebê-los e passá-los informações. Os visitantes com deficiência intelectual devem ser respeitados em relação às suas diferenças cognitivas. Cadeirantes, anões, assim como idosos, necessitam concretamente de uma arquitetura amigável que, antes de barrar suas entradas, torne o passeio agradável. Assim, as rampas são preferíveis aos degraus, as maçanetas devem ser leves e de alavanca, elevadores devem ter portas automáticas, botões, corrimões e balcões devem ter mais baixos. Interação Os próximos passos do Guia Online de Acessibilidade serão a participação de internautas e equipamentos para inclusão de novas informações. Assim, a partir de setembro próximo, usuários poderão avaliar a acessibilidade do equipamento respondendo a um formulário online. Nesta fase também serão lançadas as versões mobile e para tablets. No primeiro semestre de 2013, equipamentos de todo o Estado de São Paulo interessados em constar do guia poderão solicitar sua inclusão. Já para 2014, o site se tornará nacional e poderá receber solicitação de quaisquer equipamentos brasileiros. Estatísticas No Brasil, segundo o Censo 2010 (IBGE), 46,5 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência e, no Estado de São Paulo, são mais de 9,3 milhões. Os números praticamente dobraram em relação ao Censo 2000, que computara 24 milhões e 4 milhões, respectivamente. Os números do último Censo relativos aos municípios ainda não foram divulgados, de modo que, para a cidade de São Paulo, são consideradas ainda as estatísticas aferidas pelo Censo 2000: 1,5 milhão de moradores com deficiência, além de outro 1,5 milhão com mobilidade reduzida. É um universo de pessoas que podem ter nascido com alguma deficiência ou a adquirido ao longo da vida. E quando se fala de ações que melhorem a qualidade de vida dessas pessoas também são incluídos os que têm mobilidade reduzida, ou seja, idosos, gestantes, obesos, mulheres com carrinhos de bebê. Por isso, para Mara Gabrilli, “ao facilitar acessos para a inclusão das pessoas com deficiência, estaremos ampliando o escopo dessas ações para um grupo ainda maior de pessoas”. Atualmente, está sendo feito pela Prefeitura de São Paulo o primeiro levantamento exclusivo sobre habitantes da capital com deficiência. Lei de autoria da então vereadora Mara Gabrilli, que entrou em vigor em 2010, o Censo-Inclusão está atualmente na fase de envio de formulários à casa de todos os paulistanos, 2,4 milhões de moradias segundo banco de dados do IPTU. Estes, que também são encontrados no site www.censoinclusao.sp.gov.br, deverão ser preenchidos e enviados até maio deste ano à Prefeitura de São Paulo, que prevê divulgação de números preliminares em dezembro deste ano. Sobre o IMG O Instituto Mara Gabrilli é uma organização sem fins lucrativos que desenvolve e executa projetos para melhorar a qualidade de vida de pessoas com deficiência. Fundado em 1997, atua no apoio a pesquisas científicas para cura de paralisias, apoio a atletas do esporte paraolímpico e na orientação para desenvolvimento social de pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade social. Além disso, o IMG colabora com o apoio a diversos eventos e projetos de inclusão com o intuito de gerar um impacto na sociedade, tornando-a mais justa e acessível para todos.


por Redação do Sabesp
Os meninos do Pará atuaram na Portuguesa Santista em 2010. Na foto, jogo do time no Campeonato Paulista Sub-15 de 2006. Foto: Emerson Ortunho Brasil

Justiça condena exploração de crianças no Campeonato Paulista

[caption id="attachment_51262" align="alignleft" width="420" caption="Os meninos do Pará atuaram na Portuguesa Santista em 2010. Na foto, jogo do time no Campeonato Paulista Sub-15 de 2006. Foto: Emerson Ortunho"][/caption] Portuguesa Santista é condenada por uso de jogadores de 14 a 16 anos em situação de trabalho precário; 12 meninos dividiam três colchonetes de casal em kitchenette em más condições de higiene e geladeira vazia. “Para você jogar bem, você tem que se alimentar direito.” Essa foi a reação de Francisca do Nascimento ao telefone em Marabá ao ouvir o filho M., então com 15 anos, dizer que faltava comida no “alojamento” montado pelo “olheiro” Ronildo Borges de Souza para os meninos que vieram do Pará para Santos com a promessa de disputar campeonatos paulistas sub-15 e sub-17 vestindo a camisa da “Briosa”, a Portuguesa Santista, time centenário de segunda divisão do litoral de São Paulo. Os doze meninos de famílias pobres do Pará foram recrutados pelo conterrâneo Ronildo, que obteve procurações dos pais o habilitando a negociar qualquer tipo de contrato para os garotos, sem, no entanto, transferir-lhe a guarda legal nem fixar condições para que viessem para Santos com o “técnico” com diploma de treinador (em curso de 36 horas de aulas teóricas) concedido pelo Sindicato dos Treinadores Profissionais de Futebol do Estado de São Paulo. O sonho de se tornar um “Ganso” ou um “Pará”, ambos jovens de famílias humildes de origem paraense, fez bater o coração de pais e filhos e confiar no vizinho que visitava as escolinhas de futebol em busca dos meninos com maior potencial. Hamilton de Abreu, pai de D., conta que Ronildo era conhecido por levar garotos para jogar no Sudeste: “Ele conversou muito bem, mostrou outros jogadores que tinham ido para o Cruzeiro, o Atlético, então a gente confiou”, explica. “Nosso menino queria muito ir, também influenciado pelos colegas, pela promessa de chegar lá e começar a jogar. Como aqui não tem oportunidade, resolvemos deixar”, afirma ele, que via a situação como uma chance do filho realizar seu sonho. Os meninos foram inscritos para participar do campeonato infantil da Federação Paulista de Futebol pela Portuguesa Santista, como prometera Ronildo, mas aos poucos os telefonemas se tornaram preocupantes para os pais. “Chegou um momento que ele começou a ligar para cá: ‘Pai, a gente não está passando muito bem aqui, está faltando comida’”, diz Hamilton. Assim como outros pais, ele afirma que enviava mensalmente uma quantia de R$ 350 a Ronildo para a manutenção de seu filho em Santos. No dia 2 maio de 2011, depois de uma denúncia anônima, o Conselho Tutelar da Zona Leste de Santos visitou o número 90 da Rua Bassin Nagib Trabulsi, onde viviam os doze meninos no apartamento da zeladoria, uma “espécie de mini-kitchenette” de 40 metros quadrados no alto do prédio. De acordo com a declaração prestada ao Promotor da Infância e Juventude de 2011, a situação era “bastante precária, mobiliário em péssimo estado e falta de limpeza e higiene em todos os cômodos. Observa-se que não havia alimentos e quando questionado o sr. Ronildo nos respondeu que iria providenciar”. No dia seguinte o Ministério Público ajuizou uma Ação Civil Pública contra a Associação Atlética Portuguesa e Ronildo Borges de Souza exigindo do clube que parasse de utilizar os adolescentes em partidas oficiais ou treinamentos até que estivessem sob guarda de pessoa responsável, com a documentação em Santos regularizada, e matriculados na escola – direitos assegurados pela Lei Pelé. Também pedia a tranferência imediata dos garotos para hotéis e o pagamento dos custos para os que quisessem voltar para casa, sendo “impossível condescender que os jovens permaneçam em condições tão precárias, onde sequer recebem alimentação”. A ação civil foi acolhida pelo Juiz da Infância e Juventude, Evandro Renato Pereira, que emitiu mandados de citação e intimação para Ronildo e o clube santista. Dois meninos preferiram voltar para as casas dos pais e os outros dez foram transferidos para a Pensão Capelinha, 30 reais a diária incluindo as refeições, ainda assim melhor do que o apartamento sem ventilação e a ração de “frango e milharina (flocos de milho pré-cozidos)” que, segundo um dos pais, era a única coisa que os meninos comiam. No dia 13 de fevereiro deste ano, o juiz considerou em parte procedente a ação do Ministério Público, fixando multa de R$ 50.000,00 por atleta em formação alojado precariamente, e condenou “os réus a não inscreverem ou intermediarem de qualquer forma a inscrição de atletas em formação não residentes na Baixada Santista na Federação Paulista de Futebol sem que estejam matriculados, alojados adequadamente e recebam assistência médica, odontológica e psicológica; bem como garantia de retorno aos pais”. Não considerou procedente, porém, a denúncia de Tráfico de Pessoa de acordo com o Protocolo de Palermo – que fixa as regras internacionais para esse crime – por considerar que não se configurava esse tipo de crime. A condenação da Portuguesa Santista O juiz também rejeitou a defesa da Portuguesa, que contestou a ação civil do Ministério Público alegando ser “parte ilegítima” pois “terceirizou a exploração da atividade de futebol amador ao sr. Fernando Cezar de Matos, o qual passou a ter integral responsabilidade pelo desenvolvimento deste departamento”. “Se transferiu a terceiro (Ronildo) tal tarefa, continua sua (de Fernando) a responsabilidade de supervisionar as atividades por ele desenvolvidas”, diz a contestação, concluindo que o clube não teria “qualquer relação entre os fatos apurados”. “Se vieram para Santos e estão inscritos na Portuguesa Santista, é o clube em última instância que deve assegurar a eles todos os direitos da Lei Pelé e do ECA, sem prejuízo da ação regressiva contra pessoas”, interpretou o juiz. E determinou: “Todos aqueles que de uma forma ou outra aproveitaram desse deslocamento ilegal de adolescentes para Santos, com vistas a aferir alguma vantagem futura esportiva ou comercial são responsáveis solidariamente por indenizar os adolescentes de todos os prejuízos (…). O clube por conta própria ou por terceiros não deve estimular que adolescentes cruzem o país se aqui não tiverem ótimas condições de desenvolvimento”. E, referindo-se a Ronildo, que apresentou as procurações dos pais, os certificados de matrícula dos adolescentes na escola (sem notas ou avaliação de presença) e contas de supermercado em sua defesa, disse o juiz: “Não se pode aceitar que pessoas ligadas ao clube ou empresários com interesses comerciais sejam guardiões dos adolescentes (…). A figura do guardião é afetiva e desinteressada, não empresarial”. Por telefone, o advogado Cláudio Luiz Ursini, representante legal de Ronildo disse à Pública que “não havia mesmo [alimentos] porque se deixasse a molecada comeria tudo errado”. E afirmou que os meninos viviam melhor do que na casa dos pais. “O que eventualmente foi considerada uma condição ruim [pelo Ministério Público], para os meninos era muito melhor do que a condição que eles viviam na própria cidade”, afirmou, utilizando a pobreza das famílias a favor de sua tese. A Portuguesa Santista não quis se pronunciar por telefone. Passando na peneira O desejo de fazer parte dos “escolhidos”, que conquistam uma nova condição social no futebol, é o principal fator para que pais e filhos caiam em armadilhas como essa que vitimou os meninos da Briosa, explica o ex-craque Raí Souza Vieira de Oliveira, um dos criadores da Fundação Gol de Letra, que desenvolve atividades culturais e educativas com crianças e jovens de baixa renda. “A maioria dos atletas que jogam em clubes de destaque vem de outros estados. Muitos são convencidos por oportunistas a entrar nessa aventura, sem nenhuma estrutura”, diz Raí. Mesmo os que conseguem realizar seus sonhos muitas vezes têm sua formação prejudicada pela profissionalização precoce, estimulada por famílias e clubes. “Eles esperam que dali saia um atleta, e só. Com isso fica faltando o outro lado, que é a formação, a orientação e a educação”. Ainda adolescentes, os jogadores disputam uma vaga nas categorias de base de clubes profissionais, tentando se destacar nos campeonatos estaduais. O Santos FC, por exemplo, realiza quase toda semana uma peneira (teste técnico) em alguma cidade do Brasil, onde são avaliados até 500 meninos de 10 a 17 anos. Em 2011, 30 mil garotos passaram por testes do clube. Além disso, muitos chegam através de agentes ou empresários que têm contato com integrantes da equipe de grandes clubes e oferecem os meninos para fazer testes ou jogar em campeonatos juvenis. Em alguns casos, essa função é “quarteirizada”, como ocorreu com Ronildo, contatado por Fernando Cezar Matos que prestava um serviço terceirizado para a Portuguesa Santista, como responsável pelo Departamento Amador do clube. “É comum os jovens chegarem aos clubes com 12 anos e ficarem até os 20 para se tornarem jogadores profissionais. Mas acabam não sendo utilizados no profissional, e vão fazer o que da vida? Não estudaram, não têm diploma, não têm absolutamente nada”, diz outro ex-jogador, o Neto (José Ferreira Neto), comentarista da Rede Bandeirantes de Televisão. Mesmo os exemplos de sucesso às vezes exigem grande sacrifícios dos adolescentes e famílias, como no caso do jogador Pará. Antes de se tornar o conhecido lateral do Santos FC, teve que “vender o almoço para pagar o jantar”, como conta o jogador, atualmente no Grêmio. “Meus pais tiveram que vender quase tudo para me sustentar”, diz Pará. “Um dia o treinador me disse que queria levar três ou quatro meninos para São Paulo, para jogar profissionalmente, e perguntou se eu queria ir”. Apesar da resistência dos pais, ele aceitou o patrocínio do treinador e encarou três dias de ônibus para a capital paulista, onde passou todo tipo de privação antes de se revelar como lateral. Copa do Mundo: a nova miragem O sonho de se tornar jogador de futebol torna-se palpitante com a proximidade de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, que acontecerão no Brasil nos próximos quatro anos. “Os grandes eventos esportivos geram a ilusão de que ser jogador de futebol é uma possibilidade de realização profissional acessível”, diz Renato Mendes, coordenador do Programa Internacional para Eliminação do Trabalho Infantil da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Para Mendes, essa ilusão pode expor os adolescentes a riscos mais graves do que os maus tratos sofridos pelos adolescentes paraenses em Santos, principalmente por estarem afastados do convívio com a família. A ausência dessa rede de proteção no trato com outros adultos favorece abusos, incluindo a exploração sexual. “Isso costuma acontecer com frequência nesse tipo de relação de poder”, diz ele. “O adolescente se perde na relação de autoridade e afetividade porque ele sabe que depende dessa pessoa para realizar seu sonho”. A OIT defende uma revisão no sistema de seleção e de organização das categorias de base de todos os clubes de futebol do Brasil. “Queremos evitar que a criança seja feita de objeto, vinculando os centros de treinamento de talentos às escolas, mais precisamente ao Ministério da Educação”, diz Mendes. A decisão da entidade de intervir no trabalho infantil do futebol ganhou força com a morte de um adolescente durante uma peneira no Vasco, em fevereiro deste ano. Wendel Junior Venâncio da Silva, 14 anos, passou mal e caiu no gramado do Centro de Treinamento de Itaguaí. Chegou a ser levado para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) próxima, mas não resistiu. O jovem era de São João Nepomuceno (MG), e estava no Rio de Janeiro para um período de testes no Vasco. De acordo com pessoas ligadas à base do clube, ele apresentou atestado médico que o dava como apto para a prática de atividades físicas. O que não exclui uma eventual responsabilidade do clube. Logo após o caso, o Ministério Público do Rio de Janeiro entrou com uma ação civil denunciando as péssimas condições a que são submetidos os adolescentes no Vasco. Em abril, o CT (Centro de Treinamento) das divisões de base do clube teve suas atividades suspensas por decisão da juíza Ivone Ferreira Caetano, da Vara da Infância, da Juventude e do Idoso da Capital, e está obrigado a adequar as instalações de sua sede, no bairro de São Cristóvão, em um prazo de 30 dias. A juíza estipulou multa de 30 mil reais por dia em caso de descumprimento da ordem. Tráfico de pessoas? Em março, o Ministério Público do Estado de São Paulo entrou com mais um recurso de apelação no caso da Portuguesa Santista. Segundo os promotores, além de violar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Lei Pelé, o caso deve ser enquadrado como tráfico de pessoas para fins de exploração do trabalho, o que não foi contemplado na sentença do juiz. Segundo o MP o tráfico se configura a partir da forma como os meninos foram recrutados no Pará, através de um “discurso sedutor para que as vítimas, sob múltiplos aspectos vulneráveis, abandonassem seus lares e fossem tentar a sorte em distante local”. O tráfico interno de pessoa tem pena prevista de três a oito anos de prisão, além de multa ao agente aliciador – no caso, Ronildo. Na contestação, o Ministério Público também chama a atenção para a necessidade de “desvendar a cortina de invisibilidade que permeia a prática de tráfico de seres humanos”. “Muitos jogadores que vêm de outros estados tentam a sorte na Portuguesa Santista porque imaginam que um dia terão chances em times maiores como o Santos”, diz o promotor Carlos Alberto Carmelo Junior. A manipulação de sonhos das crianças torna difícil para os pais impedir que os filhos se lancem à aventura. Francisca, por exemplo, tentou trazer o filho de volta assim que soube que ele não se alimentava direito, mas enfrentou a resistência do rapaz, deslumbrado com a oportunidade de jogar em São Paulo. “Ele sonha em ser um grande profissional, ganhar muito dinheiro, ter uma boa vida, mas o que eu sonho para ele é estudar e se formar”, diz a mãe, em ritmo acelerado ao telefone. O gostinho de jogar em São Paulo, porém, faz com que alguns desses meninos esqueçam as dificuldades que passaram em Santos. “Fiquei dois meses na capital disputando amistosos e depois fui morar em Santos, onde joguei o sub-15 pela Portuguesa. Valeu a pena”, diz F., que retornou ao Pará em julho de 2011. “Quando eu voltei para casa, ficamos felizes e tristes ao mesmo tempo. Estou tentando voltar para Santos o mais rápido possível”, confessa o menino. Tráfico de Pessoas: da exploração sexual à exploração do trabalho Um estudo realizado em 2005 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) estimou em cerca de 2,4 milhões o número de vítimas de tráfico para trabalhos forçados. A face mais visível do tráfico de pessoas, um mercado estimado de 32 bilhões de dólares, envolve exploração sexual – caso de mulheres levadas para se prostituir na Europa, por exemplo. No entanto, a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, mais conhecida como Protocolo de Palermo, define o tráfico internacional de pessoas de forma mais abrangente, incluindo casos de exploração do trabalho, serviços forçados, a escravidão e práticas similares à servidão, e extração de órgãos. Segundo o Protocolo de Palermo, ratificado pelo Brasil em 2004, tráfico envolve “o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou uso de força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa para fins de exploração.” O tráfico interno de pessoas também é crime previsto no Código Penal Brasileiro, no artigo 231-A, assim definido: promover ou facilitar o deslocamento de alguém dentro do território nacional para o exercício da prostituição ou outra forma de exploração sexual. No projeto de reforma do Código, em andamento, pretende-se adequar a lei brasileira ao Protocolo de Palermo, incluindo, além da exploração sexual, o trabalho forçado, remoção de órgãos ou outro que acarrete ofensa relevante à dignidade da pessoa ou à sua integridade física. “Esta é uma situação que acontece há mais de 20 anos com bolivianos em São Paulo”, diz a advogada Juliana Armede, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas de São Paulo. “Na minha opinião, o Protocolo de Palermo não é suficiente para punição. Se não existir lei penal adequada (no Brasil), não haverá punição adequada”, conclui a advogada. No dia 24 de abril a advogada esteve no Ministério da Justiça, em Brasília, no IV Workshop sobre Legislação do Tráfico de Pessoas, e pediu a inclusão, na proposta de lei penal, da modalidade de exploração de atleta, que abrange o futebol. A ideia da lei especial foi recebida e acolhida por todos e também é defendida pela procuradora da república Ela Wiecko. “A relevância de uma lei especial é de garantir e sedimentar um sistema de proteção que é semelhante à eficácia e ao poder de mobilização que foram as leis especiais Maria da Penha, Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei de Lavagem de Dinheiro ou Armas”, diz Juliana. “Acredito que esse seja o caminho para enfrentarmos o tráfico de pessoas”, diz. Relacionar o deslocamento de milhares de garotos para jogar futebol ao tráfico interno ainda é complicado, pois depende da forma como cada caso acontece. Segundo Renato Mendes, coordenador do Programa Internacional para Eliminação do Trabalho Infantil da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o que está ocorrendo é um processo migratório intenso ligado à transferência de crianças a partir do trabalho de olheiros em busca potenciais talentos para o futebol, o que poderia ferir direitos fundamentais das crianças. “Os olheiros dos clubes prometem uma mentira, porque a maioria [dos garotos] terá que voltar para uma realidade difícil e sem nenhum auxílio. Podem ocorrer frustrações psicológicas e sociais, que comprometem o desenvolvimento do jovem”, afirma. Andreza Smith, advogada da ONG Sodireitos, que atua pelos direitos sexuais e pelos direitos migratórios na Amazônia, aponta alguns fatores que levam ao tráfico originado na região Norte rumo ao Sudeste, Rio de Janeiro e São Paulo, entre eles a carência econômica, a falta de informação e a busca por melhores condições de vida. A advogada também defende a mudança na legislação: “É imperioso mudar o Código Penal em relação ao tráfico de pessoas, pois da maneira que está atualmente escrito, o tráfico para qualquer tipo de exploração que não seja a sexual não constitui crime. Mas há muitos relatos de pessoas que são levadas para trabalhar como domésticas e trabalhadores rurais. E a partir de casos como este dos adolescentes, começamos a falar em tráfico para trabalho no esporte também”. * Esta matéria foi realizada através do Programa de Monitorias da Pública, no qual jovens repórteres recebem orientação e acompanhamento para produzir uma reportagem de sua escolha. ** Publicado originalmente no site Agência Pública.


por Amanda Kamanchek Lemos e Luana Lila*
arroz2 Brasil

O impacto do plantio de arroz no Marajó

A proposta de plantio de 300 mil hectares de arroz no Marajó exige amplo debate público sobre o tema, em vista do grande impacto que esta intervenção enseja. A chegada dos arrozeiros nos campos do Marajó se constitui, provavelmente, na maior tragédia socioambiental desde a expulsão da Igreja Católica da ilha no século XVIII. Quem ama o Marajó está muito preocupado com seu futuro. Vale lembrar que estes arrozeiros foram expulsos da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, por decisão do Superior Tribunal Federal – STF, por plantarem ilegalmente em terras indígenas (terras públicas federais). É urgente a realização de audiências publicas nos municípios impactados, a se iniciar por Cachoeira do Arari e Salvaterra, bem como audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado do Pará. Entre as principais temáticas a tratar estão: Questões sociais e culturais o Saúde humana – o uso de agrotóxicos em larga escala, especialmente aqueles lançados por aviões que passam sobre o núcleo urbano de Cachoeira do Arari, constitui-se em forte ameaça, especialmente aos mais frágeis – crianças e idosos; o Agravamento de risco de doenças – a presença de grandes áreas inundadas, inclusive em períodos de seca, no entorno do núcleo urbano de Cachoeira do Arari, poderá resultar em aumento substancial de insetos transmissores de doenças tropicais (dengue e malária, principalmente), o que precisa ser monitorado; o Exclusão da participação local – A comunidade local está totalmente excluída. Os moradores da sede de Cachoeira do Arari e entorno das fazendas de arrozeiros são afetados diretamente pelos empreendimentos e ninguém os ouviu! o Acesso viário – uma comunidade como a de Cuieira ficou rodeada, até sem a passagem para ir ao núcleo urbano. A se aumentar a área de plantio este fato se sucederá para outras comunidades; o Comunidades Quilombolas – qualquer empreendimento de grande porte precisa ouvir as comunidades quilombolas do entorno, como a de Gurupá, em Cachoeira do Arari; o Patrimônio imaterial – reiteradas denúncias alertam para mudanças substantivas nas tradições locais, como o impedimento de tradições que passavam pelas fazendas hoje em posse de arrozeiros, especialmente da festividade do Glorioso São Sebastião. Empreendimentos de grande porte exigem inventário do patrimônio imaterial; o Patrimônio arqueológico – por lei, qualquer intervenção de grande porte precisa ser precedida de estudo sobre a existência de patrimônio arqueológico. Ora, sabe-se muito bem, que esta região do Marajó é considerada como uma das que possui maior patrimônio de artefatos de cerâmica do Brasil. Questões ambientais o Espécies ameaçadas – inexistem estudos sobre o impacto do empreendimento sobre espécies de plantas e animais consideradas ameaçadas pela legislação estadual e federal. Preocupa, por exemplo, a existência de uma espécie endêmica de arroz silvestre, que poderá ser ameaçada pela expansão do plantio de arroz industrial; o Inexistência de EIA-RIMA – intervenção de tamanha magnitude deveria contemplar Estudo de Impacto Ambiental & Relatório de Impacto Ambiental, inclusive com audiências públicas e exaustivos estudos socioambientais. Nada disto foi feito! o Licenças ambientais insuficientes – a licença ambiental concedida pela Secretaria de Meio Ambiente de Estado em setembro de 2010, tratou apenas de um canal e não do empreendimento como um todo. Além disto, definia o monitoramento e a apresentação de relatórios sobre a qualidade da água, o que não foi realizado; o Modificação da paisagem – ainda que o búfalo e o boi causem enorme impacto, a dimensão da intervenção do plantio de arroz altera, completamente, a paisagem, desviando rios, encharcando vastas, promovendo o desmatamento, com a comprovada derrubada de árvores frutíferas entre outros; o Acesso à água – ao criar canais artificiais, bombear água do leito de rios em vultosos volumes (que não são medidos) e desviar cursos d’água, a dinâmica natural dos campos do Marajó se modifica, e o próprio acesso a água também. E isto não é devidamente avaliado e monitorado, por meio de testes físico-químicos, como a própria licença concedida pela SEMA exige; o Poluição da água – a presença de agrotóxicos, o aumento do risco de vazamento de combustíveis e mesmo a modificação da quantidade de oxigênio e de matéria orgânica, da mesma maneira, exige monitoramento e avaliação, uma vez que pode afetar a água que pessoas e animais bebem, e apresentar impacto relacionado à segurança alimentar, principalmente para a pesca de subsistência. o APA do Marajó – ainda que sem seu plano de manejo, a Área de Proteção Ambiental do Marajó, como determina o SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação, exige o licenciamento dos empreendimentos de grande porte; Questão fundiária o Cidade sitiada – o núcleo urbano de Cachoeira de Arari está cercado, o que impede a sua expansão natural. Cachoeira já estava encurralada, e hoje, praticamente, é uma cidade entre uma fazenda e o rio, é como o homem com as algemas, não pode se mexer. o Terras públicas x privadas – numa região do Marajó em que a titularidade das terras não está definida, por se tratar de áreas inundáveis, é preciso primeiro definir a propriedade das terras, bem como realizar o zoneamento econômico-ecológico para determinar que áreas podem ser utilizadas e sob que condições. Questões econômicas o Geração de emprego e migração – o plantio de arroz gera poucos empregos. Atualmente, a maioria é ocupada por migrantes trazidos pelos empreendedores de fora. Com a expansão da rizicultura haverá forte migração para a região, como ocorre em outros grandes empreendimentos na Amazônia. De que maneira isto agravará a exclusão do marajoara do emprego formal oferecido? o Distribuição de renda – o modelo de negócio apresentado pelos arrozeiros pouco contribui ao processo de inclusão dos mais pobres da região, ou seja, a maioria dos marajoaras; o Impacto na infraestrutura viária - as precárias estradas entre Cachoeira do Arari e os portos em uso recebem um tráfego crescente de caminhões articulados de grande porte, afetando a qualidade das estradas, especialmente de suas pontes e passagens, bem como o uso das balsas e prejudicando ainda mais a população, que dispõe de um acesso precário; o Geração de impostos locais – o produto sai in natura, para ser processado em outras localidades, o que significa baixa capacidade de geração de tributos para a localidade. Além disto, se os ônus relacionados aos arrozeiros estão claros, os benefícios tributários para a receita municipal não o estão; o Promoção dos produtos locais – diferentemente de outros empreendimentos, os arrozeiros pouco adquirem ou gastam no mercado local, impossibilitando que a economia local se beneficie de sua presença; O que nos preocupa, mais que tudo, é que os Maroajaras não estão sendo ouvidos, não participam das decisões sobre sua própria vida e território. Mais uma vez, são os outros que decidem sobre a vida do Marajoara. Até agora o que se vê são empreendedores de fora, a cercar tudo, numa postura arrogante, crendo que o dinheiro tudo compra, como se o Marajó fosse terra sem lei ou rei. Pior, não se preocupam em informar a população sobre o que se propõem a realizar, que benefícios acreditam serem capazes de propiciar. Simplesmente, estão desfrutando de um território favorável, desprotegido, e tirando todo o benefício sem que a população dele participe. O Arroz do planeta inteiro não vale a saúde de uma pessoa.É neste sentido que reiteramos a urgência de promover debates públicos em Cachoeira do Arari e nos municípios vizinhos, bem como realizar uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado do Pará, para discutir o impacto do plantio de arroz na vida dos Marajoaras. * Alessio Saccardo, SJ, Bispo da Prelazia de Ponta de Pedras Assunção Novaes (Cacau), coordenador do Conselho de Desenvolvimento Territorial do Marajó - CODETEM. Ima Célia Guimarães Vieira, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi. João Meirelles Filho, Diretor, Instituto Peabiru, Programa Viva Marajó. Assunção Novaes (Cacau), coordenador do Conselho de Desenvolvimento Territorial do Marajó – CODETEM.


por Assunção Novaes, Alessio Saccardo, Ima Célia Guimarães Vieira e João Meirelles Filho*
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Código Florestal e a propaganda enganosa

O projeto de alteração do Código Florestal aprovado no dia 25 de abril é apresentado como uma lei que vai trazer segurança jurídica para o setor rural e conciliar a produção com a conservação dos recursos naturais. Entretanto isso não é bem verdade. Diversos pontos que desfiguram este Projeto de Lei como um Código Florestal estão bem tratados em diversas outras manifestações. Destaca-se aí a anistia ao descumprimento da lei explicitada no artigo 67, que dentre outros efeitos penaliza quem cumpriu a lei até agora. Outro exemplo, que embora possa parecer preciosismo, prejudica a aplicação da lei é a definição das áreas de preservação permanente (APP) de topo de morro. O uso da cota do ponto de sela mais próximo da elevação par defini-la nos relevos ondulados na prática pode extinguir esta categoria, pois a maioria das elevações não será abrangida pela mesma. Inicialmente é bom ressaltar que o projeto tem alguns pontos positivos, enfrentando questões que não são bem tratadas no atual Código. Em especial destaca-se a questão dos usos consolidados em APPs e de Reseva Legal. Sem defender anistias amplas e irrestritas nestes casos é importante reconhecer situações, enfrentadas pela quase totalidade de imóveis rurais no país. A recuperação e proteção integrais destas áreas são de fato inviáveis. Mesmo assim, reconhecendo a importância ambiental, tanto para a produção agrícola quanto para a sociedade em geral destas áreas, é necessário estabelecer condições e contrapartidas para seu uso. Mas esse processo pode e deve ser feito de forma melhor que a apresentada, para que se tenha melhor coerência e qualidade técnica e legal. Alguns exemplos podem ser destacados, considerando aqui aspectos referentes á pretendida segurança para os agricultores e aplicadores da Lei. Pode-se começar pelo uso inadequado do termo “agrosilvipastoril”, que é central na definição do uso consolidado, mas não consta dos dicionários. Sistemas agrosilvipastoris na literatura técnica são situações bem específicas, que pressupõem a integração na mesma área das três atividades (agricultura, florestas e pecuária) simultaneamente e não alternativamente. Por exemplo, o Manual Agroflorestal para a Mata Atlântica (Ministério do Desenvolvimento Agrário, Secretaria de Agricultura Familiar, 2008) define: “Sistemas agrossilvipastoris: são caracterizados pela criação e manejo de animais em consórcios silviagrícolas...” Em outros pontos do próprio Projeto de Lei 1876 pode-se observar o uso de outros termos como “atividades agropecuárias” (art. 3º, inc. VI), agroflorestal (em diversos pontos). No artigo 58 as duas categorias (agroflorestal e agrosilvipastoril) são tratadas como distintas. É normal nos casos em que se pretende inovar que a lei traga definições, tanto é que o artigo 3º deste PL lista 23 definições, mas não esta, que seria essencial para a aplicação deste conceito e que ficará condicionada à interpretação dos diversos agentes da lei. A obrigação de recompor das faixas marginais em quinze metros apenas dos cursos d’água com menos de 10 metros de largura é incoerente. A função ambiental das faixas ciliares não acaba com aumento da largura dos rios. Em termos de extensão no conjunto do território a maioria dos cursos d’água será abrangida, mas os efeitos desta regra serão proporcionalmente maiores nas propriedades menores que nas maiores. É de se esperar que praticamente todos os imóveis tenham rios menores que 10 metros, e poucos são banhados por rios maiores. O PL também não resolve claramente as obrigações das concessionárias e dos proprietários lindeiros, referentes às APPs criadas com a implantação de reservatórios d’água, destinados à geração de energia ou abastecimento público, já existentes. A elaboração deste Projeto ignorou a Lei Agrícola (nº 8171, de 17/01/1991) já fazia alguma conexão entre as questões agrícola e ambiental. Em seu em artigo 99 criava a obrigação generalizada para todos os imóveis de recompor a RL em até 30 anos. Esta norma continua em vigor, contradizendo o pretendido novo Código. A mesma lei trazia a isenção do Imposto Territorial Rural (ITR) referente às APPs e Reserva Legal. O PL 1876 fala em dedução, o que traz dois conceitos distintos para a mesma coisa. Assim, esse PL não atende nem uma proteção dos recursos naturais nem a chamada segurança jurídica, tão pleiteada. Até por isso, então, o melhor é o veto, e retomar a elaboração de um Código que contemple verdadeiramente o uso sustentável dos recursos naturais. * Roberto Ulisses Resende é agrônomo, mestre e doutorando em Ciência Ambiental, trabalhou na Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo e atualmente é presidente da ONG Iniciativa Verde.


por Roberto Ulisses Resende*
Confusões. O Estadão acredita que seu sonho de vê-los brigar é verdade. Foto: Pedro Ladeira/Frame/Ag. O Globo Mídia

Opinião pública, o que é?

[caption id="attachment_50489" align="alignleft" width="273" caption="Confusões. O Estadão acredita que seu sonho de vê-los brigar é verdade. Foto: Pedro Ladeira/Frame/Ag. O Globo"][/caption] Pergunto aos meus reflexivos botões qual seria no Brasil o significado de opinião pública. Logo garantem que não se chama Merval Pereira, ou Dora Kramer, ou Miriam Leitão. Etc., etc. São inúmeros os jornalistas nativos que falam em nome dela, a qual, no entanto, não deixa de ser misteriosa entidade, ou nem tão misteriosa, segundo os botões. A questão se reveste de extraordinária complexidade. Até que ponto é pública a opinião de quem lê os editorialões, ou confia nas elucubrações de Veja? Digo, algo representativo do pensamento médio da nação em peso? Ocorre-me recordar Edmar Bacha, quando definia o país como Belíndia, pouco de Bélgica, muito de Índia. À época, houve quem louvasse a inteligência do economista. Ao revisitá-la hoje, sinto a definição equivocada. Os nossos privilegiados não se parecem com a maioria dos cidadãos belgas. A Bélgica vale-se da presença de uma burguesia autêntica, culta e naturalmente refinada. Trata-se de tetranetos da Revolução Francesa. Só para ser entendido pelos frequentadores do Shopping Cidade Jardim em São Paulo: não costumam levar garrafas de vinho célebre aos restaurantes, acondicionadas em bolsas de couro relampejante, para ter certeza de uma noite feliz. Até ontem, antes do jantar, encharcavam-se em uísque. Em contrapartida, a minoria indiana, sabe das coisas e leu os livros. Já a maioria, só se parece com a nossa apenas em certos índices de pobreza, relativa ou absoluta. No mais, é infelicitada por conflitos, até hoje insanáveis, étnicos e religiosos. Nada de Bélgica, tampouco de Índia. Nem por isso, a diferença, ainda brutal, existe entre brasileiros ricos e pobres, embora desde o governo Lula tenha aumentado o número de remediados. O Brasil figura entre os primeiros na classificação da má distribuição de renda, pecha mundial. Na semana passada, CartaCapital publicou ampla reportagem de capa sobre vários índices do nosso atraso, a mostrar que crescimento não é desenvolvimento. De fato, o Brasil sempre teve largas condições de ser um paraíso terrestre, como vaticinava Amerigo Vespucci, e não foi porque faltou o comando de quem quisesse e soubesse chegar lá. Sobrou espaço para os predadores, ou seja, aqueles que, como dizia Raymundo Faoro, querem “um país de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo”. A opinião pública, que os Mervais, Doras e Mirians da vida acreditam personificar, é, no máximo, na melhor das hipóteses para eles, a dos seus leitores. Há outra, necessariamente, daqueles que não se abeberam a essas fontes, e muitos sequer têm acesso à escrita. Votam, contudo, e são convocados pelas pesquisas de opinião. À pressão midiática, que ignoram por completo, preferem optar por Lula e Dilma Rousseff. Temos de levar a sério esta específica e majoritária opinião pública claramente expressa e, em termos práticos, mais determinante que a outra. A opinião pública que a mídia nativa pretende personificar já condenou o chamado mensalão e decidiu os destinos da CPI do Cachoeira. A opinião pública da maioria está noutra. O resultado do confronto há de ser procurado nas pesquisas e nas eleições, é o que soletram meus botões. Eles são exigentes e me forçam a um exame de consciência. Por que as circunstâncias me levam à referência frequente à mídia nativa? Acontece que a mídia é, sim, personificação da minoria. Aquela do deixa como está para ver como fica. A mesma que conspirou contra Getúlio democraticamente eleito e contra a eleição de Juscelino. Ou que apoiou Jânio Quadros em 1960, tentou evitar Jango Goulart depois da renúncia e enfim implorou o golpe perpetrado pelos gendarmes fardados em 1964, e o golpe dentro do golpe em 1968. A mesma que desrespeitou o anseio popular por eleições diretas em 1984 e engendrou uma dita redemocratização, de todo patética, em 1985, e hoje ainda dá uma de galo no papel impresso e no vídeo. Será que a rapaziada se dá conta do que está a acontecer de verdade? A mídia nativa, é fácil demonstrar, na sua certeza de representar a opinião pública do país todo pratica aquilo que definiria como jornalismo onírico. Neste mister, o Estadão de quinta 26 supera-se. Estampa na primeira página que a presidenta Dilma mente ao afirmar, ao cabo de um longo encontro com Lula em Brasília, a ausência de diferenças entre ela e seu mentor. A presidenta responde obviamente a uma pergunta e diz: “Não há diferenças entre nós e nunca haverá”. Então por que perguntam se estão certos de que seu sonho é a própria verdade? * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Mino Carta, da Carta Capital

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vaso garrafas002 Recicle seu jardim

Foto: Reprodução/ limaoflor.wordpress.com

O destino do lixo doméstico é um dos grandes problemas enfrentados pela sociedade. A quantidade de detrito produzido é muito superior à capacidade de processamento do mesmo, contribuindo para o aumento da poluição da água, do ar e do solo. Por isso, reciclar é tão importante. A reciclagem é uma maneira de ajudar a preservar o meio ambiente. Ela colabora para a diminuição do volume de resíduos nos aterros sanitários, protegendo os solos e os lençóis freáticos (água pouco profunda); e transforma lixo em matéria-prima, aumentando a vida útil dos materiais e evitando que mais detritos sejam produzidos desnecessariamente. Reciclar é reaproveitar produtos e utensílios que normalmente iriam ser jogados fora e dar a eles uma nova funcionalidade. Qualquer parte de uma casa permite a reutilização de materiais, inclusive o jardim, que, após receber esses itens, acaba ficando mais bonito, charmoso e principalmente sustentável. O reaproveitamento de recipientes para o cultivo de plantas é uma das formas de praticar a reciclagem e, consequentemente, a sustentabilidade, que a cada dia ganha mais adeptos. Baldes, chaleiras, xícaras, jarras, bacias e outros objetos podem ser transformados em belos vasos de plantas. No entanto, para utilizá-los, é preciso tomar alguns cuidados:  
  • Lavar muito bem as vasilhas, eliminando qualquer vestígio de elementos tóxicos (ferrugem, produtos químicos como cloro, ácidos e detergentes), para que as plantas não sejam contaminadas.
  • Impermeabilizar a parte interna de cada recipiente, aplicando uma camada de tinta ou revestimento impermeabilizante. Com esse procedimento, a durabilidade do vaso aumentará e também evitará que qualquer produto químico do utensílio possa contaminar a planta.
  • Optar por materiais resistentes, que suportem bem as mudanças climáticas e que não absorvam muito calor, pois isso pode ressecar a terra e matar a flor. Caso vá utilizar recipientes metálicos, escolha plantas com maior resistência à temperatura e à falta de umidade.
  • Observar o tamanho da planta e de sua raiz. Aquelas que têm raízes maiores e mais fortes devem ser plantadas em recipientes grandes e resistentes. Já as plantas com raízes mais finas podem ser cultivadas em jarras, utensílios de vidro e de outros materiais mais delicados.
  Em todos os casos, é preciso encontrar a melhor maneira de reproduzir as condições naturais de crescimento de cada planta. Toda espécie tem sua necessidade específica de água, portanto, é interessante escolher o recipiente de acordo com as necessidades de cada variedade. Flores como as orquídeas exigem pouquíssimas regas e obtém sua cota de água proveniente do ar, logo são mais fáceis de monitorar. Já as margaridas precisam de regas constantes e solo úmido, sem estar encharcado, e exigem um cuidado maior. *A Giuliana Flores está há mais de 20 anos no mercado e é líder em vendas de flores pela internet.- www.giulianaflores.com.br
Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
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