A grande mídia a serviço de quadrilhas organizadas

Mídia

A grande mídia a serviço de quadrilhas organizadas


por J. Carlos de Assis*


No Brasil, estamos assistindo estupefatos ao descortinamento do conúbio inacreditável entre setores da mídia e o crime organizado: gravações feitas pela Polícia Federal com autorização da Justiça revelam que a maior revista do país, a Veja, teria sido regularmente pautada por bandidos que usam espiões privados, alguns egressos do antigo SNI, para muitas vezes forjar escândalos. Décadas atrás, li a autobiografia do general Reinhard Gehlen, o chefe da espionagem alemã no Leste europeu durante a Segunda Guerra, o qual, com o fim desta e a derrota de Hitler, salvou a própria cabeça e as cabeças de seus auxiliares mais próximos vendendo aos norte-americanos seus arquivos e sua rede de contatos no coração da União Soviética. Tornou-se uma legenda, pela eficiência com que organizou, nas duas situações – sob Hitler, e sob os norte-americanos –, sua excepcional rede de espionagem contra os soviéticos. O fim da guerra deveria ter significado também o seu fim. Precavido, antes da derrocada final alemã enterrou algo como 50 barris de microfilmes em montanhas da Áustria para negociá-los com os vencedores. Deu certo. Gehlen acabou conquistando a confiança dos norte-americanos, e da própria CIA, transferindo para eles sua lealdade e, principalmente, seus arquivos materiais e mentais. Na antiga função, notabilizara-se sobretudo por ter sob seu comando centenas de brilhantes jovens espiões, recrutados entre a elite dos exércitos alemães. Na nova, manteve esses critérios. Cerca de quatro mil agentes do antigo Reich foram “transferidos” para os serviços de espionagem da nova Alemanha, dirigidos por Gehlen. Foram fundamentais para a organização de um serviço de informação ocidental direcionado contra os soviéticos. Antes, não havia nenhum sistema de espionagem estruturado nesse sentido pelos norte-americanos. Sem os serviços de Gehlen, e sem essa “transferência”, os Estados Unidos teriam uma tremenda dificuldade na condução ideológica de seu lado na Guerra Fria, que não se limitava apenas à espionagem, mas também à comunicação. Essas reminiscências me vieram à mente com o fim da União Soviética, e com a pergunta óbvia: o que foi feito do imenso aparato de espionagem, informação e contrainformação soviéticos, deixado sem pai nem mãe enquanto o Estado se desestruturava no desgoverno Yeltsin? Sabemos que algo dele sobreviveu nas mãos de Putin, mas, até que este antigo homem de informação assumisse o poder, dezenas de milhares de espiões de dentro e de fora da União Soviética perderam privilégios e rendas, sendo forçados a buscar outros meios de vida. Minha intuição é que essa rede universal de espionagem deserdada, não tendo em seu comando um general Gehlen que a negociasse em bloco com um novo patrão – os norte-americanos não se interessariam, a não ser pelos cabeças –, tem sido comprada no varejo por duas estruturas poderosas, que podem pagar por ela: o sistema financeiro e a grande mídia. O sistema financeiro usa a espionagem privada para manipular e chantagear políticos na busca de decisões legislativas a seu favor. É uma forma agressiva de lobby, que funciona sobretudo nos Estados Unidos. Quanto à utilização pela mídia de espiões descolados das estruturas formais de espionagem, tivemos a primeira evidência mundial com o caso Murdoch na Inglaterra: este megaempresário das comunicações, dono do Wall Street Journal, dentre outros jornais de direita, foi pego com a boca na botija ao empregar espiões para grampear personalidades de várias áreas na Inglaterra para chantageá-los com seu jornal de escâncalos. Isto sugere o cruzamento de interesses financeiros com interesses midiáticos espúrios, numa conspiração gigantesca, em escala global, contra a democracia. No Brasil, estamos assistindo estupefatos ao descortinamento do conúbio inacreditável entre mídia e crime organizado: gravações feitas pela Polícia Federal com autorização da Justiça revelam que a maior revista do país, a  Veja, teria sido regularmente pautada por bandidos que usam espiões privados, alguns egressos do antigo SNI, para muitas vezes forjar escândalos. Note-se que o SNI (Serviço Nacional de Informações) foi extinto por Collor anos atrás, e seus espiões, assim como os soviéticos, foram deixados à solta no mundo para quem pagasse melhor. Em relação à Veja, havia outros indícios de utilização de espiões, como tem sido bem documentado pelos jornalistas Luís Nassif e Paulo Henrique Amorim. Com minha experiência de mais de 30 anos de jornalismo ativo, e tendo eu próprio sido um dos introdutores do jornalismo econômico investigativo na área econômica no início dos anos 1980 – portanto, ainda sob a ditadura –, desconfio de reportagens com excesso de detalhes cronológicos, minuto a minuto – como recentemente fizeram com José Dirceu. Nenhum repórter consegue esses detalhes relativamente a fatos passados a não ser pela mão de um espião. Alguém os colhe, e a maioria que os colhe, colhe-os para vender. Como outras revistas de direita, a Veja paga pelo material, na medida em que rende aumento de circulação, pondo um laranja para assinar. Tudo se faz, claro, sob o manto protetor da liberdade de imprensa! * J. Carlos de Assis é economista e professor, presidente do Intersul, autor, junto com o físico e matemático Francisco Antonio Doria, do recém-lançado O universo neoliberal em desencanto, pela editora Civilização Brasileira. Esta coluna é publicada também no site Rumos do Brasil e, às terças, no jornal carioca Monitor Mercantil. ** Publicado originalmente no site Carta Maior.

Gilmar Mauro. Entrevista

“Movimentos sociais, partidos de esquerda, todos, estamos a reboque do grande capital e do Estado brasileiro”

[caption id="attachment_48032" align="alignleft" width="250" caption="Gilmar Mauro."][/caption] Como em poucos momentos da história, o Brasil vive um agitado período de lutas políticas em torno do acesso e domínio de suas terras, com intensas pressões sobre as legislações ambientais e fundiárias. Enquanto o Senado aprova a proposta ruralista de um novo Código Florestal, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprova a PEC 15, que transfere do Poder Executivo para o Congresso o poder de decisão sobre a homologação de terras indígenas e quilombolas. Em uma análise do atual contexto político, Gilmar Mauro, dirigente do MST, afirma ao Correio que o momento é parte das tradicionais ofensivas capitalistas, que visam a avançar sobre novas fronteiras econômicas e suas férteis terras – ao mesmo tempo em que a esquerda se encontra em grande refluxo, de modo “que apenas age reativamente, corre atrás do prejuízo após a direita tomar iniciativas políticas, em geral, perdendo”. A condução da política econômica focada nos interesses do agrobusiness exportador, altamente desestimulante para os investimentos produtivos e industriais (estão aí os dados de nossa "desindustrialização" para comprovar), corre ao lado de uma reforma agrária a cada dia mais excluída da pauta política. Gilmar Mauro refuta, no entanto, as críticas que sugerem passividade do movimento em relação ao governo petista, lembrando que o MST está “no mesmo patamar de mobilização da época de FHC, com 80 mil a 90 mil famílias acampadas pelo país”. Realista, ele ressalta a importância da atual jornada de luta camponesa, incluindo as de outros movimentos, mas prefere não alimentar ilusões de grandes mudanças e conquistas populares para o ano. De todo modo, afirma que há muito tempo o movimento camponês não convergia em torno de pautas e cobranças políticas similares. Como exemplo do atual momento crítico que vivemos, cita a determinação de Dilma Rousseff de não permitir desapropriações que custem mais de R$ 100 mil por família. “Ou derrotamos e destruímos esta proposta da Dilma, ou não tem mais assentamento no centro sul do país”. Com esse novo e desconhecido golpe que se pretende aplicar à reforma agrária – em um país que gasta 48% de seu orçamento com juros da dívida e 0,22% com reforma agrária –, fica notório que a troca de ministro do Desenvolvimento Agrário tende a ter valor prático nulo, como lembra Gilmar Mauro. Correio da Cidadania: As grandes questões ambientais, agrárias e sociais parecem tratadas de modo cada dia mais raso pelos governantes e pela mídia. Ao mesmo tempo, é notória a efervescência com que o país aparece aos olhos do público, com os números de um agronegócio galopante e com o interesse das multinacionais e grandes corporações em entrar no país, comprando terras e investindo pesado, basicamente, na especulação financeira. Como este cenário vai se associar, daqui em diante, com uma das demandas sociais mais básicas em nosso país, a reforma agrária? Gilmar Mauro: Toda a lógica apresentada não é nova, mas antiga, e evidentemente aprofunda uma característica histórica de nosso país, a de ser exportador de produtos primários. Faz parte de uma lógica econômica de tentar saldos positivos na balança comercial para se equilibrar no balanço de pagamentos, coisa que por sinal tampouco tem se conseguido. Embora eventualmente o Brasil tenha saldos positivos no balanço comercial, o déficit em conta corrente é altíssimo, fruto de um processo de endividamento externo especulativo, sugando anualmente bilhões e bilhões dos cofres públicos e, consequentemente, da população. Com isso, a reforma agrária está fora de pauta, fora da agenda. A lógica do modelo econômico é o desenvolvimento do agronegócio. Mesmo em relação à pequena produção, vimos na proposta do governo, no sentido de propor o empreendedorismo rural, uma espécie de “agronegocinho”, integrado aos grandes grupos econômicos, às grandes agroindústrias, ou produzindo para o mercado interno. Dessa forma, dentro de tal política do governo, podem ser integrados mais uns dois milhões de pequenos agricultores, da chamada agricultura familiar, para dentro deste modelo. E o restante, a grande maioria, mais uns dois a três milhões de famílias, mais os assentamentos, fica com o Bolsa Família, compensações sociais, etc., mas nenhuma perspectiva dentro de tal modelo. Concluindo, a reforma agrária agora depende de um debate político da sociedade. Se a sociedade quiser dar esse uso que o Brasil vem dando à terra, à água, aos recursos naturais, não cabe mais a reforma agrária. Se a sociedade brasileira quiser consumir esse tipo de alimento, não precisa mais de reforma agrária. Se quisermos dar outro uso à água, ao solo, aos recursos naturais e comer outro tipo de comida, a reforma agrária é um dos projetos modernos a serem implantados no país, o que evidentemente exige um novo modelo agrícola. É o debate que a sociedade precisa abrir. Correio da Cidadania: Os números apresentados em relação à reforma agrária em 2011 denotam, portanto, realmente, que o governo Dilma pouco se empenhará no sentido de promovê-la? Gilmar Mauro: São números pífios! Como sempre foram os resultados da reforma agrária no Brasil, que praticamente inexiste. Aliás, nunca existiu reforma agrária. Nós temos é política de assentamento. E cada vez menor. Os números de 2011 refletem este cenário, de uma política de assentamento de menor intensidade, com menos recursos, nenhuma prioridade do governo para os resultados. É o reflexo da política que vem sendo aplicada no último período político. Não acredito que a presidente Dilma se empenhe na questão. Ao menos é o que tem mostrado, ficando muito mais preocupada com a macroeconomia e sua atual lógica de condução, calcada na exportação de commodities agrícolas. Aliás, todo o desenvolvimento econômico brasileiro está alavancado em três eixos: a demanda externa dos últimos dez anos por commodities agrícolas e minerais, que as valorizou e valorizou também as próprias terras; em segundo lugar, grandes injeções de recursos públicos, principalmente via BNDES, patrocinando fusões de grandes empresas que se transformam em transnacionais – injeções realmente grandes financiadas pelo povo brasileiro; e em terceiro lugar, os investimentos que o Estado tem feito em grandes obras de infraestrutura, de megaeventos, do PAC. Outro ingrediente que sustentou o crescimento dos últimos anos foi o endividamento das famílias brasileiras, com a abertura do crédito para consumo, a antecipação do consumo, tanto de automóveis como da linha branca. Mas este modelo econômico tem limites, todo mundo sabe disso. Não dá para prever a data e a hora da crise, mas ela virá, certamente. Portanto, dentro do atual cenário macroeconômico (a real preocupação do governo Dilma), a reforma agrária, claro, está fora das prioridades. Correio da Cidadania: A propósito, em face do atual troca-troca de ministros em um governo de "composição", cada dia mais refém do fisiologismo parlamentar e das imposições midiáticas, qual o significado da troca do ministro do Desenvolvimento Agrário realizada nesses dias, em que Pepe Vargas ocupou o lugar de Afonso Florence? Gilmar Mauro: Do ponto de vista pessoal, não conheço muito o Pepe Vargas, porém, ele deve entender mais de reforma agrária que o anterior, que não entendia nada. Mas, de toda forma, sendo objetivo na avaliação, não vai se alterar muito o cenário da reforma agrária. Não é a pessoa, um só ministro, que vai mudar isso. É a política de governo, e quem a determina é a Dilma. Prova disso é a determinação da Dilma de não fazer assentamento onde a terra custe mais de R$ 100 mil por família. Ora, com o preço das terras em São Paulo, no Sul, no Centro Oeste, não haverá mais desapropriação. Com isso, a presidente altera a Constituição, a qual estabelece que a terra que não cumpre sua função social deve ser desapropriada para fins de reforma agrária, dando lugar a uma medida administrativa, econômica, estabelecendo que o custo por família assentada não pode passar de R$ 100 mil. Portanto, não tem mais desapropriação no centro sul do nosso país. Correio da Cidadania: Houve informações de que o principal fator a convencer Dilma a trocar o ministro foram informes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) acerca da grande insatisfação do movimento, e o medo de sua radicalização. Elas são verídicas? Gilmar Mauro: Que há uma grande insatisfação do MST, e também de outros movimentos, é evidente. Claro, com um ministro da reforma agrária que não entendia do assunto, nada se encaminhava. Mas a insatisfação não era só com essa pessoa, e sim com o fato de que o Brasil usa 48% de seu orçamento para juros e amortizações da dívida e somente 0,22% para reforma agrária. Este é o motivo de insatisfação. Em termos de radicalização, o movimento apenas continua fazendo lutas, estamos no mesmo nível em que estávamos no governo FHC, com 80 mil a 90 mil famílias acampadas em todo o Brasil. Houve um período, logo que o Lula entrou, quando o povo achava que ele avançaria na reforma agrária, que as famílias acamparam em maior número. Mas hoje temos em torno de 80 mil ou 90 mil famílias. Continuamos fazendo ocupação, luta, sem ilusão de que vão resolver o problema da reforma agrária. Porém, não deixaremos de fazê-lo, pois é preciso colocar o debate para a sociedade, para outros setores, categorias. Fora isso, também vivemos um momento de poucas lutas sociais. Aquelas que ocorrem são bastante corporativas, calcadas em reivindicações econômicas, seja do movimento sindical, seja do movimento social. Um cenário difícil para todo o movimento social, a esquerda, os setores progressistas. Mas o nosso movimento vai continuar fazendo o que sempre fez. O ingrediente principal é ampliar o debate no conjunto da sociedade. Correio da Cidadania: Mas o que pensa desse expediente de infiltração de agentes do Estado nos movimentos sociais? Gilmar Mauro: Quanto à participação da Abin, deve ser falta do que fazer, deve faltar serviço lá. Mas, historicamente, sempre fizeram isto conosco. Não só os serviços internos, como também a CIA. Portanto, estamos vacinados com relação a eles, além de ser de fato uma falta do que fazer. Porém, não acredito que a mudança do ministro seja resultado de tal diagnóstico da Abin. Esta insatisfação já foi mostrada por vários setores em diversas reuniões. Inclusive, estamos conseguindo reunir uma pauta comum entre vários movimentos sociais, algo inédito no último período, com a participação de Contag, Fetraf e outros movimentos, na perspectiva de realizarmos um encontro nacional de movimentos camponeses, uma espécie de congresso camponês no Brasil. E é a primeira vez, pelo menos nos últimos dez anos, que conseguimos juntar todo esse povo numa pauta em comum. Sendo assim, acredito muito mais nesses fatores do que nas informações vindas de agências como a Abin. Correio da Cidadania: De toda forma, a Abin e outros órgãos do Estado também dedicam seus serviços a investigar as milícias do campo contratadas pelo latifúndio, promotoras de permanente violência, chegando muitas vezes a assassinatos, ou sua atuação reitera o caráter de classe e de discriminação social do Estado? Gilmar Mauro: Aí tem uma questão importante a ressaltar. Historicamente, sempre houve violência, ora com o viés mais coercitivo, ora desenvolvendo processos de geração de consensos na sociedade. E acredito que o atual momento seja de intensificação de ambos. Um momento de ampliação dos instrumentos de produção de consenso social, e aumento também do uso de instrumentos coercitivos, basta observar os últimos despejos ocorridos em São Paulo. Mas a tentativa deles, do Estado e da sociedade de classes, é produzir consensos na sociedade que justifiquem processos de coerção; o episódio Cutrale foi isso, a entrada nos morros do Rio de Janeiro também, e assim por diante. Este é o momento que vivemos, e não é uma particularidade brasileira, e sim uma realidade mundial. À medida que o capitalismo enfrenta dificuldades econômicas e entra em crise, é evidente que o aparelho repressivo dos Estados entra em ação, não sendo diferente o caso brasileiro. Correio da Cidadania: Como você avalia a recente jornada de lutas das mulheres camponesas e a importância deste tipo de mobilização encabeçada por elas? A marcha das mulheres prenuncia algo para a jornada de lutas do Abril Vermelho? Gilmar Mauro: Nós iniciamos, no começo do ano, um processo de luta com várias ocupações. Na jornada em solidariedade aos companheiros do Pinheirinho, levamos 11 ônibus com militantes, quatro caminhões de comida. Agora, colocamos em mobilização por todo o Brasil milhares de mulheres. Em São Paulo, houve paralisações em todas as regiões, envolvendo centenas e centenas de mulheres. E vamos continuar assim na jornada de abril, que estará calcada fundamentalmente na reforma agrária. Ou a gente destrói e derrota essa proposta da Dilma de que terra acima de R$ 100 mil por família não deve ser desapropriada, ou a política de assentamentos continuará fora da pauta política. Assim, estamos iniciando bem o ano, com as forças que temos, com as dificuldades que temos, as quais, como eu disse, são dificuldades do conjunto da esquerda e do movimento social. Mas acho que será um ano de muitas lutas, muitas mobilizações, e principalmente, na minha expectativa, de construções políticas com outros setores da classe trabalhadora, a exemplo do que está acontecendo com o movimento camponês. Portanto, acho este um ano promissor em termos de lutas sociais, principalmente dos movimentos do campo. E outros setores estão dando os mesmos indicativos, como os professores. Na semana passada, acabou a jornada nacional do MAB, com participação do MST, e agora vem o Abril Vermelho, uma jornada que espero que seja bem grande em nível nacional. Correio da Cidadania: Qual o significado deste tipo de manifestação na atual conjuntura política e econômica, dominada pelo entrelaçamento do capital fundiário com o financeiro, e a agricultura praticamente refém de grandes grupos econômicos? Que consequências efetivas se pode esperar destas manifestações neste contexto? Gilmar Mauro: Eu não crio ilusões. O capital é o capital, na indústria, no comércio, no sistema financeiro ou na agricultura. A agricultura é só mais um espaço para a sua valorização. E o capital investe muito no Brasil porque está ganhando muito, e vai continuar a fazer isso. Já a minha falta de ilusão é em relação às manifestações da classe trabalhadora. Creio que a grande maioria das mobilizações da classe trabalhadora se resume a reivindicações de ordem econômica. O movimento sindical em geral e a classe trabalhadora em geral lutam por aumento de salário, Participação nos Lucros e Resultados (PLR), etc. Claro que há outras reivindicações também, significativas, porém, ainda bastante calcadas na luta econômica. Assim, acredito que o próximo período ainda será marcado por esse tipo de mobilização, aliás, no mundo inteiro. As mobilizações na Europa são importantes, mas também não tenho dúvida de que estão calcadas nas importantes perdas sofridas pela classe trabalhadora no último período. Não está posta a luta pelo socialismo na Europa, por exemplo. Ao menos com força popular. O caso do Oriente Médio, nos países árabes, é semelhante, pois são muito mais lutas democráticas do que antissistêmicas. O Brasil não foge à regra, as lutas são muito mais econômicas do que por mudanças políticas e antissistêmicas. Nesse sentido, ocorrerão mais lutas, até mais greves do que ultimamente, porque o Brasil ainda vive esse período, não tem pleno emprego, mas ainda tem muitas possibilidades. De toda forma, creio que devemos nos preparar para um longo período. O próprio Plínio Arruda Sampaio (ex-presidente da Associação Brasileira da Reforma Agrária) já disse que temos de nos preparar para uma maratona. Não dá pra pensar em corrida de cem metros. Eu vejo, tranquilamente, de maneira igual. Os momentos de luta da classe trabalhadora são esparsos, sazonais, às vezes sai só uma greve no ano, e com a luta bastante calcada no aspecto econômico. Porém, enquanto existir capitalismo, a classe trabalhadora vai bater cartão de dia e de noite. Temos de ir nos fortalecendo em relação às organizações, movimentos. Não se trata de fortalecer indivíduos, fomentar mais divisões, e sim de fazer esforços em favor das organizações e lutas conjuntas, ainda marcadas pelo viés econômico, mas visando a politizá-las, discutir os processos vividos. Em alguns cantos, o processo de politização é mais rápido, em outros, mais lento, mas existe o aprendizado coletivo, tanto em relação ao que é este governo, ao que é o Estado, como à lógica do capital. Nesse sentido, muitas organizações sociais têm evoluído. Correio da Cidadania: O que implicaria, na atualidade, e a seu ver, uma autêntica e renovada discussão sobre reforma agrária? Quais seriam, ao mesmo tempo, eventuais novas estratégias para levá-la a cabo? Gilmar Mauro: Eu dividiria a tarefa em duas partes. A primeira é a da resistência. É importante segurar a bandeira em pé, isto é o fundamental. Em tempos de crise é mais fácil sair xingando todo mundo e começar a promover novas rachaduras, sendo que muitos setores da esquerda não conseguem falar com o conjunto da classe trabalhadora, voltando-se a elas mesmas e gerando uma digladiação interna que só gera fragmentação. E assim nem precisa de direita. Manter as bandeiras em pé e resistir a esse tempo histórico é fundamental. Em segundo lugar, do ponto de vista estratégico, como já comentamos em parte, é preciso fazer um amplo debate na classe trabalhadora sobre o que é o modelo econômico. No nosso caso, o modelo agrícola, colocando em pauta o questionamento a respeito de quem nossas terras estão a serviço, a que custo isso tudo está sendo produzido, com a destruição ambiental, degradação da água, das reservas florestais, etc., além do tipo de comida que nossa sociedade quer consumir. Tudo para promover um debate politizado de que é preciso pensar num novo modelo agrícola, que respeite o meio ambiente, produza alimentos, matérias-primas, empregos e condições de vida com novos paradigmas tecnológicos e produtivos. Para fazer isso, evidentemente, não tenho ilusões, é preciso outro Estado. É preciso outro governo, e isso não depende só de nós. Aliás, para fazer reforma urbana também precisa de outro Estado, outro governo. Porém, tudo acaba recaindo na correlação de forças e avanço do conjunto de setores da classe trabalhadora, o que é o nosso desafio e também de toda a esquerda que acredita e quer mudanças profundas em nosso país. Enfim, nesse tempo de resistência, é preciso continuar investindo na formação político-ideológica e rever a organização. Enfatizo a organização, pois, como a classe não vive lutando – quem trabalha vive trabalhando, e só luta todo dia quem não trabalha –, caímos no problema da importância da organização, com memória histórica, preparadora de novas lutas, formadora de novos militantes, inclusive com a tarefa da conspiração, no bom sentido, política da classe trabalhadora. É mais que necessário fortalecer as organizações sociais. Correio da Cidadania: Na época da eleição de 2010, pouco antes da vitória de Dilma, você nos concedeu entrevista na qual reiterava que o Movimento dos Sem Terra não seria refém deste governo, a despeito de não haver tomado partido de nenhum candidato naquele momento. Você acredita que o movimento venha tendo posturas condizentes com essa afirmação? Gilmar Mauro: Acredito que sim. O MST não é refém de nenhum governo e nem será, muito pelo contrário. Mas é preciso dizer umas coisas. Conversando com sindicalistas, ouço que “o MST não está fazendo muita luta, e não sei que...”, mas devolvo lembrando que estamos no mesmo patamar da época do FHC, replicando com a pergunta: “nas greves do movimento sindical qual é a pauta? Vocês têm pautado a desapropriação das fábricas? As greves não são para melhorar o salário e a PLR? As negociações são com quem? Com o próprio patrão?”. Com o MST é o contrário. Nós ocupamos o latifúndio e não negociamos com o latifundiário. Negociamos com o governo, com o Estado brasileiro, e reivindicamos que o desaproprie. Assim, é evidente que, embora façamos uma luta radical, a ocupação da terra, etc., no fundo fazemos uma luta radical para que a terra seja desapropriada e aí sim legalizada, institucionalizando a ação do nosso movimento. Que seja legalizada para novas famílias assentadas, pois é a única forma de terem acesso aos créditos e outras coisas. Isto porque não temos força para tomar e distribuir o latifúndio por conta própria e fazer a reforma agrária por conta própria. Por isso, na nossa luta, ocupa-se e negocia-se. Nela, vemos o governo brasileiro como o canal da nossa negociação, assim como o sindicato negocia com o patrão que é o dono da fábrica. Portanto, neste contexto, a única diferença é que lutamos pela desapropriação e o sindicato por melhores salários. Fiz essa reflexão para chegar a outra: quando se parou uma fábrica e o conjunto de seus trabalhadores veio para uma ocupação nossa? Quem vem para as ocupações é a representação política da categoria, do sindicato, o que é importante, mas já paramos nossa produção inteira para prestar solidariedade a outros setores da classe trabalhadora. Não estou dizendo isso para defender que o MST seja melhor que outros setores, e sim que o estágio da luta ainda se encontra fundamentalmente em torno de lutas econômicas. E aí tenho clareza de uma coisa: uma organização que não responde às necessidades de sua categoria perde o sentido e a razão de ser para a sua categoria. Portanto, o MST vai ter que conjugar a necessidade da sua base, a luta pela terra, a lona, a cesta básica, o crédito, mas, concomitantemente, terá de investir na formação político-ideológica, fazendo todas as lutas. Este é o grande desafio de ser um dirigente do MST no atual momento histórico, a meu ver. Correio da Cidadania: Ao lado da reforma agrária, mais fora da pauta da grande mídia, bem como da agenda governamental, estamos diante das intensas discussões e polêmicas em torno do Código Florestal. O que tem a dizer do imbróglio em que se tornou esta reforma e como ela está associada ao destacado boom de "expansão capitalista" no Brasil e ao tema da reforma agrária? Gilmar Mauro: Essa é a tentativa deles: avançar nas terras brasileiras e na destruição do que ainda resta de preservação ambiental. É o papel deles no jogo. O que impressiona é ver setores da esquerda – se é que se pode chamar de esquerda –, progressistas, entrarem nessa, inclusive setores da igreja, com um discurso econômico em defesa do modelo atual. De nossa parte, estamos em campanha contra os agrotóxicos, um debate que a meu ver envolveu e entrou na sociedade. Se for aprovado esse Código Florestal, será goela abaixo, porque há sinais claros na sociedade de que a maioria dos brasileiros é contra a sua aprovação. Enfim, é o rolo compressor do modelo econômico aplicado no país, mas os impactos da aprovação do Código, evidentemente, serão muitos. Correio da Cidadania: E já há informações de que a presidente poderá vetar o novo texto do Código tal como votado no Senado. Porém, novos decretos viriam a modificar este modelo anterior, de modo a atender às expectativas da bancada ruralista. O que deve ser o desenrolar final desse processo em sua opinião? Gilmar Mauro: Eu não gosto de fazer projeções, pois seriam mais especulações subjetivas. Em minha opinião, se a Dilma vetar, ótimo. Só não sei se tem tempo para isso, se o fará de fato, é disso que não tenho nenhuma segurança. Acho difícil ficar apelando agora, “veta, Dilma, veta, Dilma!”. Sei lá, é muito difícil. Tomara que isso ocorra, seria uma medida importante, mas não tenho certeza e nem apostaria minhas fichas nisso. Mas, se vetar, dará mais força para a sociedade continuar se mobilizando. Não acho que facilitaria subterfúgios posteriores. Na verdade, para ser honesto, tenho que dizer que os movimentos sociais, os partidos de esquerda, todos, estamos a reboque – a reboque – do grande capital e do Estado brasileiro. E estamos agindo reativamente, este é o nosso problema, e não é só do MST. Estamos sempre correndo atrás das iniciativas que eles tomam. E normalmente perdendo. Esse é o balanço que precisa ser feito, inclusive para fugir à arrogância de que cada um tem uma verdade, absoluta. É preciso dizer que estamos todos ferrados, para não usar outra expressão. E se não tomarmos consciência da necessidade de se fazerem lutas com perspectiva de unificação, vamos perder em todas as frentes, nas quais só estamos correndo atrás do prejuízo. Estamos com dificuldade de ter uma estratégia própria e tomar iniciativas. O caso do Código Florestal é evidente, mas é só um. Há a Transposição do São Francisco, os transgênicos... Estamos sempre correndo atrás, e pior, perdendo, como disse. Correio da Cidadania: Acredita que o descaso com as questões agrárias, sociais e ambientais, ao lado da hegemonia do agronegócio, com seu modelo de exploração dos recursos naturais e o pesado lobby que vem fazendo para desmantelar o Código Florestal, poderão levar a uma radicalização dos movimentos sociais, inclusive do MST, nos próximos tempos? Gilmar Mauro: Não é uma questão de vontade. Meu desejo é fazer a revolução... Mas não posso cair no subjetivismo. Volto a ressaltar que a classe trabalhadora está numa fase de lutas com reivindicações econômicas. Eu não acredito em processos mais intensos do que esse. Tomara que esteja equivocado, mas não vou semear ilusões num meio de comunicação. Acho que estamos num tempo difícil e, mesmo com tais medidas, na sociedade brasileira as lutas ainda estão sendo marcadas pelo economicismo. E se eu tenho convicção de uma coisa hoje, é a seguinte: não existe a menor possibilidade de fazer a revolução pela classe. Ou a própria classe faz a revolução ou não haverá um grupo que a fará por ela. Portanto, é momento de ter essa consciência histórica, trabalhar, trabalhar e trabalhar, e talvez a gente consiga superar para o próximo período o atual momento de fragmentação e dificuldades. Acho que a crise econômica internacional, que certamente virá para cá, pode nos ajudar. Se agora não tivermos sabedoria sobre como nos posicionar e onde queremos estar quando a crise vier – e sem dúvida, virá – para darmos um salto de qualidade, talvez possamos ir mais para trás ainda. Não acredito que neste ano acontecerão grandes coisas. Tomara, tomara que sim, mas não quero plantar grandes ilusões. * Valéria Nader, economista e jornalista, é editora do Correio da Cidadania. Gabriel Brito é jornalista. ** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Valéria Nader e Gabriel Brito*
Foto: Getty Images Comportamento

Estar, verbo intransitivo

[caption id="attachment_47980" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Getty Images"][/caption] “Como assim, não está no Facebook?” Nos olhos curiosos, a lembrança do tempo em que se tinha controle do próprio tempo lampeja como um tweet. Verdade que dura só um segundo, o ciúme do tempo alheio. 140 milissegundos. “Mas nunca esteve ou saiu? Ah, entendi.” Feito um gato arremessado ao obscuro mundo do não, o ego virtual cai de pé, sempre. E sendo o site a aplicação empírica das teorias sobre a inflação do ego em tempos de cliques e bites, a inveja se transmuta em pena, travestida em desprezo – algo entre o que se sente por uma criança de orfanato e um viciado recorrente no chão da Avenida Paulista. Pobre outsider, não sabe o que perde. Até que o discurso pasteurizado e homogeneizado com os ganhos profissionais, pessoais, sentimentais e existenciais que só a rede faz por você brota da caixinha, pronto para beber. Como o Winston Smith de 1984 ou o Bernard Marx de Admirável Mundo Novo, o narrador descobre, atônito, que nesse tempo ditado por um sistema que formata o acesso às experiências da vida de todos, ignorá-lo é atitude transgressora, politicamente incorreta – e chata. “Só os chatos não têm Facebook”. Os sem coragem para adentrar o portal por medo de não sair. Caretas virtuais. Categoria na qual eu me sentia pra lá de confortável. Até surgir esse bendito blog. Estar ou não estar, eis a questão que surgia. Faria sentido escrever crônicas virtuais sem ver sua reverberação (ou a ausência completa dela, o que já seria uma resposta) no Face? Não, concluíram por mim os amigos. “Não inventaram nada melhor para encontrar pessoas e manter contatos e divulgar o próprio trabalho, etc., etc., etc.”, garantiu esse ser amorfo de mil vozes fundidas num consenso de caixinha UHT. Abrir ou não meu perfil, eis a questão que ressurgia. Meus dados estavam lá, desde quando, seis meses atrás, eu saíra do Facebook. Pois sim, eu estive, por um mês fiz parte da loucura coletiva. É justamente a lembrança do tempo em que perdi o controle do tempo que eu queria evitar. Mas assumir o medo não ajuda. Antes faz da atitude algo ainda mais (anti)revolucionário. Pois bradam os paladinos do mundo virtual: renegar as redes sociais em tempos de meio bilhão de usuários é cimentar a entrada da caverna e reduzir as representações possíveis a um arremedo de sombra real. Não adianta argumentar com o receio da despersonalização frente à modernidade líquida do capitalismo, teorias sobre a economia do tempo para deficitários de atenção ou o caráter biográfico na constituição do sujeito – é preciso estar, verbo intransitivo. Mas antes de inventar uma desculpa melhor para a volta (ou, usando o exemplo de Santo Agostinho, um jeito de publicar minhas Confissões nos moldes e tempo do Face), conto aqui minha pequena odisseia particular. O dia em que decidi sair do Facebook. Quanto tempo cabe em um mês virtual! Primeiro gastam-se horas lendo mensagens, abrindo fotos e bisbilhotando perfis de gente que não interessa. Por preguiça de aprender a operar essa panaceia de “ferramentas sociais” e ser criticado por fazer parcos logins; de tanto perder festas e jantares por não checar meu status; de tanto reclamar por não receber mais telefonemas e sentir falta de conversas reais e me irritar por aparecer em fotos apocalípticas com um tag na cara – enfim, de não mais suportar a exigência de transferir para os moldes de Zuckerberg toda uma vida, eu pesquisei sobre como sair. Bem que eu queria. Alguém se lembra de ter lido, ao entrar para o Facebook, que aceitava vender a alma ao diabo? Eu não. Então digitei, na ajuda do programa, a inocente expressão “deletar conta”. Queria terminar logo, tinha mais o que fazer, eu não servia para aquilo. Assumiria minha ignorância, afinaria meu discurso de despedida e era isso. Levaria 15 segundos. A primeira mensagem foi essa. “Ao desativar sua conta, você removerá completamente seu perfil (linha do tempo) e todos os conteúdos associados à conta do Facebook. Além disso, os usuários não poderão procurar por você nem visualizar suas informações.” Ótimo. “Ao reativar sua conta, seu perfil (linha do tempo) será totalmente restaurado (amigos, fotos, interesses etc.)”. E eu com isso. Era só o início do caminho das pedras. Após clicar no menu Conta, selecionar Configurações da conta, depois Segurança e clicar em “Desativar sua conta”, coitado de mim, vi a profundidade do buraco. Como um demônio mefistofélico, o Facebook prefere conversar antes de terminar a relação, sabe como é, depois de tanto tempo junto não se diz tchau sem uma última discussão. “Tem certeza de que deseja desativar sua conta? Desativar sua conta vai desabilitar seu perfil e remover seu nome e foto de todo o conteúdo que você compartilhou no Facebook.” Sim, sim, sim. Mas aí surge a chantagem emocional. Fotos de amigos queridos aparecem – um deles olha para o horizonte da Chapada Diamantina, outro se abraça triste ao violão e outro sorri na foto da festa no dia em que se casou. Sobre cada imagem, a mensagem: “Tal pessoa sentirá sua falta”. Caso você, monstro sem sentimentos, conseguisse abandonar aqueles amigos sozinhos no universo virtual, ficava subentendido, precisaria ainda explicar por que, clicando num dos itens da caixa “Motivo da saída (obrigatório)”. “Não sei como usar o Facebook.” Clique. O demônio responde na lata: “Aprenda o básico no nosso Central de Ajuda”. Mas não, talvez eu queira sair por que “Eu não acho que o Facebook seja útil”. E ele: “Você pode perceber a utilidade do Facebook após entrar em contato com mais amigos. Confira nosso Localizador de Amigos para saber quem você conhece no site”. Não, a decisão é sólida, a discussão está no passado, melhor clicar em “Eu gasto muito tempo usando Facebook” e encerrar o joguinho psicológico por aqui mesmo. Mas e se ele disser que “uma maneira de controlar sua interação com o Facebook é limitar o número de e-mails que você recebe de nós"? A tentativa de fuga avança pelo sistema e você clica em qualquer opção, com os diabos, já sem lembrar qual. Assustado com o fato recordado de que todos os seus dados são vendidos a milhões de empresas mundo afora por aquela mesma entidade sem forma que agora o barra na porta de saída, você pressiona o botão “Confirmar”, digita sua senha, os caracteres da verificação de segurança e, ufa, parece que acabou. Mas “eles” sabem das suas fraquezas, conhecedores natos da natureza humana virtual. Não dizem “adeus”, mas “até lá”. Uma caixa aparece no canto da tela. “Sua conta foi desativada. Para reativar sua conta, faça login usando seu antigo e-mail e a senha. Você poderá usar o site como antes. Esperamos que você retorne em breve." Kafka na veia! Não, eu não mais voltaria. Nunca mais. Mas e o blog? Seria para imprimir os textos e mostrar aos amigos? Quão anacrônico é um blog desligado do Facebook, quão pouco democrático, afônico, inútil? Aquiescendo à saraivada de pedidos, conselhos e xingamentos, eu disse sim. Fiz o login. E como se nada tivesse acontecido, como se eu voltasse de uma viagem de férias, lá estavam, com caras diferentes, status diferentes, novas fotos e comentários sobre a vida, os amigos, conhecidos e inimigos (exagero), aguardando o retorno do filho pródigo – o mais feliz dentre eles, o Facebook. “Que bom que você voltou! Sua conta está novamente ativa." É, eu estava. Percebi pela primeira cutucada de alguém com quem não falava havia um ano. Logo vieram mensagens, pedidos de amizade, tags em fotos bizarras. Os fantasmas da perda de tempo, da invasão de privacidade, da despersonalização dançavam satisfeitos. Sobrou a filosofia de botequim. A ideia de comportar a complexidade do mundo em um parâmetro lógico não nasceu com os gregos. É do homem. Mas o mundo era então bem menos complexo, os deuses apenas haviam começado a se reduzir em número na Grécia e os grandes debates ocorriam na ágora entre a meia dúzia de homens livres dispostos a gastar o precioso tempo de uma mortalidade de 35 anos com uma boa conversa fora. Agora, enquadrar um universo de preferências e atuações em abas e barras de rolagem, em pastas e galerias, sob pena de ficar completamente alijado do mundo, pareceria um exagero anacrônico. O fato de ter dificuldades de ordem patológica para escolher dá suporte à antiga decisão. Como selecionar as fotos que traduzem o que eu acho que sou? Como decidir como creio que me vejo ou como julgo que desejo ser visto pelos outros – ou ainda como acho que posso saber como os outros me verão – é tarefa hercúlea, sisífica (http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADsifo), um vício de origem. E pensar que a vida, vivida cada vez mais dentro daquela plataforma, acaba adquirindo aquele formato, assusta. As fotos não servem mais para guardar o momento da festa, mas para postar no Face – a própria festa, por fim, serve para postar no Face. A vida se transporta para o Face. Por que não fazer a festa em si virtual, automaticamente registrada, momento a momento? O Facebook materializa então na virtualidade o que Marcel Proust teorizava, no fim do Século 19, como a vida narrada nos salões da aristocracia francesa. Bastaria substituir o caso Dreyfus pela frase de Carlos Apolinário ou a Luisa, que está no Canadá, e teríamos uma interessante possibilidade de busca do tempo perdido nas madrugadas escoadas no Facebook, como então se deixava escorrer a vida em rodas de conversas sobre vidas que já não viviam. Era preciso ser visto, registrado, citado nos jornais, nas conversas, para existir nos salões que o escritor define, chegando a formar uma “psicologia do indivíduo medíocre”, que não existe senão em meio ao ethos. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Depender apenas da carne e das palavras em invólucros tão anacrônicos como o e-mail ou o celular é como ser humano num mundo mutante ou vampiro num mundo humano, para se ater às referências plausíveis da geração do progenitor Zuckerberg (que calha de ser a minha). O que Proust, em sua busca do tempo perdido, havia antes e melhor definido como “uma sucessão de prazeres inteiramente diversos de quaisquer outros, indizíveis para os amigos, no sentido que as impressões ricamente entretecidas umas nas outras que os orquestraram muito mais os caracterizavam para mim, e sem que eu o soubesse, do que os fatos que eu poderia contar”. Parece golpe baixo apoiar-se em Proust. Se eu quero escrever a alguém, eu escrevo um e-mail. Se quero falar com alguém, eu falo ao telefone. Não há barreira entre o desejo me comunicar com alguém e a concretização do desejo – a alegada facilitação do Facebook nunca me inspirou, nem quando adentrava o terreno das pessoas desconhecidas, mas tão à mão, tão perto de um contato bastando apenas uma cutucada, uma olhada nas fotos e comentários do perfil, uma mensagem, no máximo, para ter imediatamente um novo amigo. Novos horizontes, tão infinitos quanto o volume de dados pessoais a jorrar para o banco de dados do Facebook. Será mesmo? Para provar que não, decidi pesquisar (pelo concorrente Google, não pelo Facebook). Basta digitar, juntas, as pleonásticas palavrinhas “vício” e “facebook” e uma torrente de links surge na tela. Uma pesquisa revela que o termo “facebook addiction (vício em facebook)” foi décimo sexto mais procurado, à frente inclusive de “sex addiction (vício em sexo)”. Outra mostra que 48% dos norte-americanos entre 18 e 34 anos fuçavam em seu Facebook assim que acordavam – 28% deles o faziam na cama, antes de levantar, pelos smartphones. O que explica por que 57% deles conversam mais online do que no “mundo real” e por que uma empresa lançou até um teclado especial para viciados, o S.N.A.K. (Social Network Access Keyboard), com teclas de acesso direto a serviços do Facebook, como galeria de fotos, feed de notícias, e até mesmo o botão “curtir”. Um blog até elogiou o produto, mas criticou o fato de as teclas serem adesivos comuns, “que podem se desgastar rapidamente com a frequência de uso.” E como lidar com os dados de um estudo da University of Chicago Booth School of Business, que concluiu ser mais difícil para os usuários resistirem ao desejo absurdo de dar uma olhadinha – rapidinha, prometo, só para ver se vai ter aquela festa ou se fulano me adicionou ou se tem alguma notícia importante ou se alguém curtiu o comentário que fiz cinco minutos atrás sobre a situação das prostitutas afegãs – no Facebook do que de fumar um cigarro ou mesmo de ir atrás de sexo? Se algo passa à frente de sexo, é melhor ficar alerta. Daí descobri os programas antivício. Foi num almoço – real, com uma amiga real – que descobri a novidade. “Quando eu vivia em Londres, reclamei com uma amiga por passar tempo demais no Facebook. Ela me disse que havia vários programas para controlar o vício. A pessoa podia estipular quanto tempo queria passar conectada, digamos uma hora por semana, e o programa proibia a entrada no Facebook depois disso. Achei um absurdo. Não só por achar que eu mesma poderia me controlar, mas por medo de ficar sem o Facebook!” “Viciado em Facebook? Bloqueie sites que distraem no trabalho”, dizia o site tecnofagia.com, em uma resenha curiosa sobre os programas de computador para controlar o uso excessivo da rede. “O KeepMeOut permite definir quanto tempo você se permite acessar sites viciantes. Você pode definir quantas horas por dia pode acessar e se o bloqueio será apenas nos dias úteis.” E o LeechBlock “permite criar até seis regras distintas de site e horário de bloqueio. Quando você entra em um site da lista, um pequeno timer começa a contar no rodapé da página”. Havia outros ainda. O detalhe é que o próprio site pede para ser curtido no Facebook. Sintomático: ao lado do artigo, três dos quatro anúncios do Google (decididos por meio de seleção de perfil) versavam sobre “dependência química” ou “clínicas de recuperação”. Lembrei de certas noites em Pequim, em 2010, quando apurávamos uma reportagem sobre o vício dos chineses em internet para a Carta. Numa dessas saídas, por volta das duas da manhã, vimos dezenas de jovens sentados um ao lado do outro em um cibercafé 24 horas. Conversavam por chat, jogavam em fazendolas virtuais e, claro, gastavam fins de semana inteiros no renren.com, a versão deles do subversivo Facebook proibido pelo governo. A cena soou triste. Quem, afinal, trocaria a vida inundada de sentidos reais por uma noite na atmosfera azulada de cigarros baratos e barulho de videogame? À época, uma campanha para contornar o vício prometia até um manual com os sintomas da “doença” – como passar mais de seis horas diárias na frente da tela. Seis horas? Uma piada. Claro, na China a campanha deu subsídios para “campos” de reabilitação para ciberviciados. Mas por aqui a coisa vai para o mesmo lado. Uma reportagem da CNN fez até uma checklist. Se você perde horas de sono para ficar na rede, passa mais de uma hora por dia (outra piada) no Face, volta a ficar obsessivo com relacionamentos passados, ignora trabalho para navegar no site e o simples pensamento de deixar o Facebook o faz suar frio – você é viciado. Um certo e duvidoso doutor Michael Fenichel, psicólogo visionário, cunhou o termo que faltava: FAD, Facebook Addiction Disorder ou transtorno do vício em Facebook. “É difícil não observar a ubiquididade (sic) do vício em internet como um fenômeno e/ou parte aceita da vida cotidiana na era digital. Estaríamos em risco de ver a apresentação vasta – a existência de traços culturais comuns – de um transtorno do vício em Facebook? Ou às vezes é apenas FAD? (em inglês, fad quer dizer moda passageira)”. A carinha sorrindo não ajuda a já parca credibilidade do psicólogo. Mas o que dizer da escritora Zadie Smith? No artigo Generation Why?, publicado na New York Review of Books em 2010, Smith vaticinou o iminente auge da despersonalização dos sujeitos virtuais pelo excesso de individualismo egotista imposto pelos mecanismos do Facebook. “Quando uma pessoa se transforma numa série de dados num website como o Facebook, tudo nela fica menor: a personalidade individual, as amizades, a linguagem, a sensibilidade. De certo modo, não deixa de ser uma forma de transcendência: perdemos nosso corpo, nossos sentimentos contraditórios, nossos desejos, nossos medos – o que me faz pensar que aqueles de nós que sempre recusaram, com repulsa, o que vemos como uma ideia burguesa hiperinflada da identidade individual talvez tenham exagerado no sentido inverso: as identidades despojadas que assumimos na rede não mostram mais liberdade. São, apenas, mais controladas por alguém." Mas era tarde. Eu voltara a “estar”. Então me sobrou chafurdar na linha do tempo e emergir com um texto. Que desculpa melhor que a velha dicotomia viver-narrar para se apoiar nessa hora – como escrever sobre o Facebook sem sê-lo? Porque é um estado de espírito, estar no Facebook. Nos últimos 15 dias desde o “retorno”, não passou um sem que eu visitasse o tal status. Em muitos, gastei boas dezenas de minutos subindo e descendo a barra de rolagem. Claro, não imputo a ninguém uma culpa que é minha. Culpa dos ansiosos. Culpa dos conservadores, que julgam inacabadas conversas espargidas em bate-papos e cutucadas e tiradinhas cravadas nos perfis alheios. Como a tal filha citada na tal da reportagem da CNN. De tão viciada no Facebook, a mãe esqueceu da filha. A ponto de a criança, cansada de pedir ajuda para a lição da escola, ir ao quarto mandar um e-mail para a mãe. Mas ele também foi ignorado, claro, porque ela estava muito ocupada comentando e atualizando e rolando a barra do Facebook. A mãe não quis mostrar o rosto. Eu me senti egoísta como a pobre criança. Nesses dias de retorno, e-mails ignorados ganharam sua resposta ali, em poucas palavras jogadas na tela. Chamadas não atendidas por meio dele se explicavam. E convites reais, declinados com polidez, ali reverberavam – se a pessoa não deixava meia hora passar sem postar um comentário, um vídeo, um link, um pedacinho de si, para todos, como teria tempo de fazê-lo para um só, eu? A não ser que o Facebook fosse visto como arma contra o egoísmo, democrático, uma ferramenta quase comunista, apesar de calcada no culto à personalidade virtual: um pedacinho para cada, nada inteiro para ninguém. A inteireza é anacrônica, é egoísta, é uma chaga a ser extirpada com ajuda dos cliques, diriam os filósofos de prontidão para preencher as páginas amarelas. E se Smith viesse dizer que, ao falar para uma multidão, na verdade não falamos para ninguém – que ao cutucar alguém deixamos de lhe apertar as carnes ou que, ao viver pelas máximas comentadas no mural e índices de status postados ali, estaríamos experimentando não uma existência real, mas o simulacro de uma vida que não existe, no sentido mais estrito do termo – bem, ela que escreva outro livro que ninguém vai ler. Mas e se pensarmos que a experiência caminha para deixar de existir em si mesma, numa platônica noção de mundo real, para migrar por inteiro para o mundo da representação – ou dos salões aristocráticos do tempo perdido de Proust? E, pior, ao abrir mão da experiência, não estaria o ser facebookiano pondo a pá de cal sobre a capacidade narrativa? Quem é esse narrador, perguntaria Benjamin? É alguém com o traseiro na cadeira e a memória a esvaziar-se pelo bombardeio perene de estímulos, que já não separa o vivido do narrado – antes vive para narrar ou mesmo narra para viver, extirpando da própria narrativa os resquícios de complexidade dos tempos em que se liam contos de fada na escola. “O homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado”, disse o filósofo Paul Valéry. “Com efeito, o homem conseguiu abreviar até a narrativa”, emendou Benjamin. Ela se restringiu às atualizações de status e à leitura de comentários, fotos, links e vídeos, sob a ótica das informações do perfil. Eu sou isso. Penso assim. Este é o retrato fiel de minha vida. “Ou você não viu meu Face?” Por isso escrevi essa crônica. Para confessar um prazer sádico com o espanto alheio ao descobrir que, sim, se pode não estar. Não estar conectado. Virtualmente não existir. Foi bom enquanto durou. Agora cá estou, meu tempo novamente entregue ao controle divino da máquina. Volta e meia ainda recebo uma mensagem triunfante de uma das partezinhas desse ser disforme e universal, esfregando na minha cara a revanche do ego – paladinos de Zuckerberg a bardar a certeza de que é mais confortável viver no lado de cá, alimentado pelo soma virtual, pela verdade artificial, pela deliciosa ausência do império do tempo. “Aha, voltou para o Facebook? Eu sabia". * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Willian Vieira, da Carta Capital
120328-Feminismoa Mulheres

O feminismo em disputa

[caption id="attachment_47970" align="alignleft" width="300" caption="Arte: Blanca Amezkua, Grenudita"][/caption] Não aceito o controle do corpo e o moralismo como estratégias de combate. Sobretudo nos movimentos pela emancipação. Não sou capaz de me lembrar há quanto tempo sou feminista. O feminismo sempre fez sentido numa família feminista – um privilégio, penso eu. Quanto mais eu tomava consciência do meu próprio feminismo, porém, mais eu percebia que as pessoas têm geralmente uma ideia muito equivocada do que significa adotar este posicionamento. Em primeiro lugar porque, embora haja tendências gerais, ele não é fixado, único e muito menos estático: está em disputa, como todas as categorias e formas de pensar a vida social. Em segundo lugar porque há quem, sendo antifeminista, se aproveite da disputa sobre essa visão de mundo para selecionar os casos mais esdrúxulos de sua interpretação e divulgá-los como uma caricatura de mau gosto de algo construído com tanto sangue, suor e – vejam só! – paciência. A princípio, a ideia comum a todas as feministas é uma crítica aos papéis sociais sexuais e condições de vida por eles estabelecidos. Não se trata apenas de reivindicar direitos, mas de repensar, questionar, criticar. Reformular e construir uma nova ética, na qual as pessoas sejam tratadas da forma mais justa, igualitária e livre possível (inclusive quando isto significa estabelecer e reconhecer diferenças). Aí é que o negócio começa a complicar. Não é segredo que há uma série de mitos sobre feministas, como há sobre comunistas (que “comiam criancinhas”, lembram?), ou sobre qualquer grupo que, ao se insurgir, parece ameaçar, de alguma forma, os privilégios vigentes de uma sociedade absoluta e cruelmente desigual. Quantos mitos sobre a baixa capacidade de alunos cotistas negros em universidades públicas? Quantos mitos sobre as práticas sexuais gays? Quantos mitos sobre travestis? Homens dançarinos? Mulheres lutadoras? Militantes? Poupo vocês dos detalhes sórdidos e da cara de choque quando as pessoas descobrem que a comunidade “Empetecando”, no Facebook, sobre maquiagens, esmaltes e dicas de beleza, foi criada, é gerida e está repleta de mulheres feministas. Regular, controlar e restringir as práticas sexuais e corporais das pessoas com base em dogmas próprios imutáveis não feminismo, é religião. Feminismo é outra coisa. É aí que está o truque, a disputa: algumas militantes que se reivindicam feministas definitivamente discordariam. Poucas, é fato. Mas existem. Há quem se reivindique feminista e pense em regramento e controle do corpo como estratégia de combate. Meu exemplo favorito – e que, com o perdão da péssima ironia, não faz ao feminismo libertário que defendo favor nenhum – é a guerra antipornografia que se deflagrou nos Estados Unidos na segunda metade do Século 20. Munidas de estratégias antiéticas, teóricas como Catherine MacKinnon e Andrea Dworkin foram à luta não só na esfera intelectual mas também na esfera jurídica. Não mediram esforços para estabelecer mecanismos de controle extremo do Estado sobre as práticas sexuais de adultos em pleno exercício de sua razão. Outro exemplo curioso é a verdadeira guerra que algumas militantes brasileiras têm travado “contra a prostituição” (pra ficar no chavão que elas mesmas usam). Friso: não defendem a regulamentação da profissão, ou dispositivos legais trabalhistas que a tornem mais segura. São contra a existência em si deste tipo de prática. Ninguém conseguiu ainda me explicar a diferença – exceto o fato de haver sexo no meio – entre uma prostituta e uma profissional de qualquer outra categoria de trabalho, que congregue mulheres oriundas dos mesmos grupos sociais e ofereça salário semelhante. Por que a prostituta é mais vítima? Porque o sexo é sagrado e não pode ser comercial, num contexto em que todos os outros tipos de trabalho e serviços o são? Ainda que me expliquem isso, continuarei sem entender por que lutar contra a prostituição seria mais útil do que lutar para que esta possa ser uma escolha – e, mais ainda, uma boa escolha – profissional. Defender a proibição ou a extinção da prostituição, neste sentido, me parece algo como defender a proibição ou extinção da prática do aborto. Há aí uma outra questão interessante que deixo no ar para vocês. Muitas vezes vemos militantes de diversas causas (inclusive feministas) usando como argumento uma vitimização do sujeito que “defendem”, ou uma desconsideração total pela capacidade de tais sujeitos agirem com consciência e autonomia. Sobretudo quando suas práticas não agradam ou vão contra a cartilha desse tipo infeliz de militância. As feministas antipornô ou aquelas que lutam contra a prostituição, por exemplo, muitas vezes dizem que é impossível um “consenso esclarecido” de uma atriz pornô ou de uma prostituta. Mas é possível um “consenso esclarecido” de uma acadêmica ao escolher esta profissão? Por que? Porque acham que é uma “profissão melhor”? De onde vem essa ideia de que é “melhor”? O conhecimento escolar e acadêmico é a única fonte de iluminação, consciência, autonomia e verdade? Desde quando? Agimos sempre na contingência. Isto quer dizer que, não importa o quão conscientes, autônomos e autônomas sejamos, há sempre um limite de possibilidades para nossas ações. Mesmo para Eike Batista – homem, branco, milionário. Por que a minha contingência seria “mais livre” que a do outro (salvo casos em que as necessidades fisiológicas de sobrevivência não são cumpridas)? Isso quer dizer que as feministas usam táticas das mais injustas em suas argumentações e reivindicações? Não. Isso quer dizer que algumas militantes que se reivindicam feministas utilizam-se das mesmas táticas fundamentalistas de militância que algumas/alguns militantes não feministas das mais diversas causas, religiões, visões de mundo, sistemas políticos, opções de nutrição. Isto quer dizer que o feminismo está em disputa. Quer dizer que entro, como militante, acadêmica e autora, nesta disputa. Não sei se consigo dizer o que o feminismo é. Sei que ele não é religião. * Marília Moschkovich é editora do site Mulher Alternativa. ** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Marília Moschkovich*
civilização moderna Artigo

Nova cosmologia e libertação

Tempos atrás, o Museu Americano de História Natural fez uma consulta entre biólogos perguntando se eles acreditavam que estávamos no meio de uma extinção em massa. 70% responderam positivamente que sim. Ao renomado cosmólogo Brian Swimme, autor, junto com Thomas Berry, de uma das mais brilhantes narrativas da história do Universo (The Universe Story, 1992), foi perguntado o que poderíamos fazer, e ele respondeu: "O universo já vem, há tempos, fazendo a sua parte para deter o desastre; mas nós temos que fazer a nossa. E o faremos mediante o despertar de uma nova consciência cosmológica, vale dizer, se ajustarmos nossas condutas à lógica do Universo. Mas não estamos fazendo o suficiente”. Que quer dizer esta resposta? Ela acena para uma nova consciência que assume a responsabilidade coletiva com referência à proteção de nossa casa comum e à salvaguarda de nossa civilização. E ajustar nossas condutas à lógica do universo significa responder aos apelos que nos vem do assim chamado "princípio cosmogênico”. Este é o que estrutura a expansão e a autocriação do universo com todos os seus seres inertes e vivos. Ele se manifesta por três características: a diferenciação/complexificação; a subjetividade/interiorização; e a interdependência/comunhão. Em palavras mais simples: quanto mais o universo se expande, mais se complexifica: quanto mais se complexifica, mais ganha interiorização e a subjetividade (cada ser tem seu modo próprio de se relacionar e fazer a sua história), e quanto mais ganha interiorização e subjetividade, mais os seres todos entram em comunhão entre si e reforçam sua interdependência no quadro de um pertencimento a um grande todo. Comentam Berry/Swimme: "Se não tivesse havido complexidade (diferenciação), o universo ter-se-ia fundido numa massa homogênea; se não tivesse havido subjetividade, o universo ter-se-ia tornado uma extensão inerte e morta: se não tivesse havido comunhão, o universo ter-se-ia transformado num número de eventos isolados”. Nós teólogos da libertação, em quarenta anos de reflexão, temos tentado explorar as dimensões econômicas, sociais, antropológicas e espirituais da libertação como resposta às opressões específicas. No contexto da crise ecológica generalizada, estamos tentando incorporar esta visão cosmológica. Esta nos obrigou a quebrar o paradigma convencional com o qual organizávamos nossas reflexões, ligadas ainda à cosmologia mecanicista e estática. A nova cosmologia vê diferentemente o universo, como um processo incomensurável de evolução/expansão/criação, envolvendo tudo o que se passa em seu interior, também a consciência e sociedade. Em termos do princípio cosmológico, libertação pessoal significa: libertar-se de amarras para sentir-se em comunhão com todos os seres e com o universo, fenômeno que os budistas chamam de "iluminação” (satori), uma experiência de não dualidade e que São Francisco viveu no sentido de uma irmandade aberta com todos os seres. Em termos sociais, a libertação, à luz do princípio cosmogênico é a criação de uma sociedade sem opressões, onde as diversidades são valorizadas e expandidas (de gênero, de culturas e caminhos espirituais). Isto implica deixar para trás a monocultura do pensamento único na política, na economia e na teologia oficial. Este é o principal fator de opressão e de homogeneização. A libertação requer também um aprofundamento da interioridade. Esta já não se satisfaz com o mero consumo de bens materiais; pede valores ligados à criatividade, às artes, à meditação e à comunhão com a Mãe Terra e com o universo. A libertação resulta do reforço da "matriz relacional”, especialmente com aqueles que sofrem injustiças e são excluídos. Esta matriz nos faz sentir membros da comunidade de vida e filhos e filhas da Mãe Terra que através de nós sente, ama, cuida e se preocupa pelo futuro comum. Por fim, a libertação na perspectiva cosmogênica demanda uma nova consciência de interdependência e de responsabilidade universal. Somos chamados a reinventar nossa espécie, como o fizemos no passado nas várias crises pelas quais a humanidade passou. Agora ela é urgente porque não temos muito tempo e devemos estar à altura dos desafios da atual crise da Terra. * Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor, autor de Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito, Vozes, 2005. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Leonardo Boff*
1 Artigo

Quando um sindicato perde a sua utilidade?

O movimento sindical foi responsável não apenas pela melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores do país, mas contribuiu também para o processo de redemocratização. Quem diz que sindicato é coisa inútil, por exemplo, deveria aceitar o índice de reajuste oferecido pelo patrão e não aquele que foi negociado pelo sindicato de sua categoria. Claro que também possuem defeitos, com gente corrupta e imprestável, como todo ator social que detém poder e influência, como partidos políticos, igrejas e a imprensa. Há sindicatos que fazem, inclusive, um necessário contraponto ao desenvolvimento a todo o custo e ao progresso cego. Muitos, mas nem todos. É interessante ver o que está acontecendo em grandes obras espalhadas pelo país. Durante a última greve nas obras da usina hidrelétrica de Jirau, em uma assembleia que discutia a continuidade da paralisação na semana passada, sindicalistas foram vaiados por trabalhadores, que atiraram objetos contra o carro de som. Já em Altamira, onde desde quarta passada (28/3) parte dos operários das obras da usina de Belo Monte cruzaram os braços, sindicalistas distribuíram panfletos dizendo que a greve é ilegal e que estaria sendo promovida por elementos interessados em acabar com os empregos gerados pela obra. Fascinante. Trabalhador é trabalhador, patrão é patrão. No meio dos dois, o diálogo e, quando este não surte efeitos, pode-se adotar a paralisação e a greve, que são instrumentos democráticos de reivindicação. Parar de gerar valor para o empregador enquanto este não resolver negociar decentemente é um direito. O Consórcio Construtor Belo Monte, responsável pelas obras, distribuiu folhetos em que insta os trabalhadores a reivindicarem enquanto trabalham. Ou seja, protestarem por melhores condições, mas sem pressão, por favor. Eles podem solicitar isso. Desde o fim da Gloriosa – que inaugurou a era das grandes obras, que consomem moradores e operários –, temos a liberdade de dizer o que quisermos. E, em praça pública, fazer o devido enfrentamento. Curioso, portanto, que a própria empresa esteja, por meio de um pedido na Justiça, tentando impedir um jornalista ligado a um movimento social de cobrir a greve. Ou seja, o direito à liberdade de expressão existe, mas segue seletivo. O governo brasileiro inundou o país com bilhões em recursos para a construção, com o objetivo de modernizar a infraestrutura e erguer moradias, girando a economia. Só que “esqueceu” de uma coisa: com o mercado imobiliário aquecido, a busca por áreas urbanas para a incorporação levaria à expulsão de comunidades pobres que disputam a posse de terrenos. Se a Justiça considerasse sempre a função social da propriedade para tomar suas decisões, como está previsto na Constituição Federal, a história seria diferente e essas comunidades teriam direitos preservados. Mas se o Coelhinho existisse, talvez eu tivesse ganho o ovo de chocolate que tanto queria na última Páscoa. Ou se Papai Noel fosse de carne e osso, obras para a Copa não desalojariam ninguém de forma questionável. A situação trabalhista na construção civil é grave – os protestos na usina hidrelétrica de Jirau, que levaram a um quebra-quebra no ano passado, foram a cereja do bolo. Pipocam manifestações de trabalhadores nas obras de estádios para a Copa do Mundo e casos de trabalho escravo (Artigo 149 do Código Penal) em obras de moradia. Até em empreendimentos pertencentes ao Minha Casa, Minha Vida, o Ministério do Trabalho e Emprego já libertou gente. O governo federal lançou, no mês passado, um acordo com o setor da construção civil para resolver os problemas e elevar a qualidade de vida dos operários que, até agora, não surtiu grandes efeitos. O Planalto não se planejou para esses impactos da transformação do país em canteiro de obras. Para falar a verdade, não planejou muita coisa nessa área. O governo defender uma visão de desenvolvimento que privilegia o crescimento do bolo, em detrimento à sua divisão, é compreensível. É triste, mas entende-se devido à quantidade de interesses que ele acaba atendendo. Quando isso ocorre com representantes de trabalhadores, a situação é diferente. Sei que hoje somos modernos, ou melhor, quase pós-modernos. E que o Brasil é o país do deixa-disso. Mas vendo que alguns representantes dos trabalhadores não estão conseguindo se entender com seus representados, me pergunto por quanto tempo eles serão considerados úteis. * Publicado originalmente no site Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto, do Blog do Sakamoto
4768671594_de15e83ede_b Artigo

Dilma e a esquerda sem povo

Os entraves políticos do governo Dilma não se dão apenas com sua fisiológica base aliada, mas também com aliados históricos que comungam muitas de suas causas. Podemos citar inúmeros casos desse desencontro: o golpe na Articulação do Semiárido na questão das cisternas e da convivência com o semiárido; o não andamento da reforma agrária; a falta de diálogo com o sindicalismo, que no governo Lula era praticamente correia de transmissão do governo; silêncio e até conivência nas mudanças legais que afetam o meio ambiente, assim por diante. No ano de 2004, o Fórum da Reforma Agrária realizou em Brasília a Conferência da Terra e da Água. Milhares de pessoas estavam no ginásio de esportes da cidade. Houve uma mesa sobre energias e água. Eu estava na mesa, juntamente com alguém do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o cientista criador do Pró-Álcool, Bautista Vidal, e a então ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff. Ao meu lado, na mesa, estava uma secretária pessoal da então ministra. Quando falou que iria continuar o programa das barragens, Dilma foi vaiada pelo público mais ligado ao MAB. De imediato, a secretária de Dilma que estava ao meu lado murmurou: "o movimento social parou na história. Há tempos não contribui com mais nada com o Brasil”. Hoje, quando vejo os acontecimentos, tendo Dilma como presidenta, aquela frase da secretária me veio novamente à memória: tudo indica que aquele pensamento não era somente da secretária, mas da própria Dilma. Dilma veio de grupos de esquerda que pouco tiveram contato com o povo. Ainda que essas pessoas sejam extremamente íntegras, fazem parte daquele setor da esquerda que sempre teve dificuldades de reconhecer o povo como um ator essencial nas mudanças. As vanguardas têm a solução. Infelizmente, ou Dilma aprende rapidamente a lidar com os movimentos sociais de uma forma mais efetiva, ou vai ver o povo na rua, como os 15 mil indignados que ocuparam Petrolina, exigindo o cancelamento das cisternas de plástico. * Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Roberto Malvezzi, do Brasil de Fato
Junto com a ditadura vieram 21 anos de terror, de arbítrio, de tortura, de subtração de quaisquer traços do Estado de Direito, de supressão completa das liberdades, desaparecimento de pessoas. Como não lembrar disso tudo? Artigo

Falta alguém em Nuremberg

[caption id="attachment_48026" align="alignleft" width="300" caption="Junto com a ditadura, vieram 21 anos de terror, de arbítrio, de tortura, de subtração de quaisquer traços do Estado de Direito, de supressão completa das liberdades, desaparecimento de pessoas. Como não lembrar disso tudo?"][/caption] Tenho, volta e meia, escrito sobre a Comissão da Verdade. Pelejado contra o espectro do pijamato, que não se conforma com o fato, sequer, de se pretender o resgate de nossa memória histórica. E as vozes espectrais, nesses momentos, saem dos porões, emergem dos subterrâneos, e pretendem buscar argumentos que justifiquem a ditadura. Isso aconteceu recentemente, quando escrevi um artigo para o jornal A Tarde, de Salvador, sobre os militares e a democracia. Não há ditadura justificável. Todas elas, vistam a roupa que vestirem, pretendem substituir o povo, acreditam-se, cada uma a seu modo, detentoras da verdade, portadoras do saber, e acostumam-se com esta condição até que a população, de uma forma ou de outra, as substituam por formas democráticas de governar. Foi o que ocorreu com a ditadura no Brasil. Não vamos nos esquecer: foram 21 anos de terror, de arbítrio, de tortura, de subtração de quaisquer traços do Estado de Direito, de supressão completa das liberdades, desaparecimento de pessoas. Como não lembrar disso tudo? Como não resgatar a verdade? Como não tomar conhecimento dos crimes cometidos pelo Estado brasileiro? Como não nominar os criminosos, ao menos isso? Achei extraordinário que jovens tenham se articulado, nos últimos dias, para começar a revelar alguns torturadores que desfilam pelas ruas do Brasil como se fossem pacatos cidadãos e cumpridores da lei. É curioso como esses torturadores se relacionam com os fatos históricos. É como se fosse possível apagar o que fizeram, pura e simplesmente. Não deve ser muito agradável a filhos, netos, esposa, quem seja do círculo mais íntimo, surpreender-se com o monstro com quem moram e convivem, aquele que parecera até ali um pacato cidadão. Como? Meu pai, você foi mesmo um torturador? Meu avô, você tirava sangue das pessoas? Não, eu só interroguei, será a provável resposta. Ou eu só anotava. Não, eu só prendia. Sei lá o que responderão. Talvez seja o único preço que venham a pagar – a revelação da verdade. É só o que pretende a Comissão da Verdade, a rigor. E afinal, o STF, contrariando tudo que o Direito Internacional preconiza, resolveu anistiar os torturadores, deixar de considerar os crimes de tortura, sequestro, desaparecimentos de pessoas como imprescritíveis. A bem da verdade, nós não demos os passos que outros países deram. Muitas nações, que viveram experiências de ditaduras semelhantes à nossa, avançaram muito mais. A presidenta Dilma, quando chancelou a Lei da Comissão da Verdade, disse, com propriedade, que cada país tem sua própria história, sua dinâmica, sua evolução característica. É verdade. O Brasil é uma nação complexa, e os processos históricos raramente são abruptos. Reclamam mais tempo, e muitas vezes o que se chamaria de direitos da impaciência não são atendidos, ao menos não o são prontamente. Em todo caso, não custa lembrar que na Argentina, o Enguia – como era chamado o general Videla – está preso e ficará na cadeia até o fim de seus dias, que não está longe pois ele já ultrapassou há bom tempo a casa dos 80 anos. Junto com ele, há vários outros assassinos, torturadores cruéis, que também estão atrás das grades. Isto também aconteceu no Uruguai, como foi possível, também, ver o cruel Pinochet amargar prisão no Chile, para lembrar alguns exemplos. No Brasil, não é disso que se trata. Ao menos não o é até que haja alguma modificação da decisão do STF, do meu ângulo, uma decisão absurda, que contraria, como já dito, o Direito Internacional, e os mais elementares princípios dos direitos humanos. Se houve um Tribunal de Nuremberg, por que não haver justiça em relação aos torturadores brasileiros? Lembro-me de haver lido um livreto, de Davi Nasser, denominado Falta alguém em Nuremberg, referindo-se a Fillinto Muller, o comandante das torturas no Estado Novo, um dos supliciadores do respeitado, extraordinário revolucionário Carlos Marighella. Faltam muitos em Nuremberg. O que dizer de um Carlos Alberto Brilhante Ustra, desfilando país afora, como se não tivesse supliciado covardemente tantos brasileiros e brasileiras? Faltam muitos em Nuremberg. Mas, insista-se, não é disso que se trata. Trata-se, com a Comissão da Verdade, de resgatar nossa memória, de não permitir que nada seja jogado para debaixo do tapete, tenho insistido nisso, e não pretendo parar porque julgo de minha responsabilidade histórica, militante, fazer isso. Experimentei pau-de-arara, choque elétrico, afogamento, sei como agiram os torturadores. Passei quatro anos numa prisão, como milhares de outros brasileiros. Fui companheiro de tantos que morreram ao longo do caminho, e a lembrança deles, os sonhos que plantaram, nos convidam a não permitir que nada daqueles sonhos e daquela luta seja relegado ao esquecimento e que nenhum crime daquele tempo seja ignorado. No mínimo isso: revelar a verdade, entregá-la por inteiro ao povo brasileiro. Eu me impressiono, e sei que volto a um assunto sobre o qual já escrevi aqui, mas não custa repetir, com o fato de que os representantes do pijamato ainda queiram falar em dois lados. Só houve um lado sob massacre, apenas um. Só houve uma ditadura, e ditadura dispensa adjetivação. Ela nunca tem nada a ver com democracia, com decisão do povo. Se houve resistência, e houve, aconteceu por conta do legítimo direito de se opor ao arbítrio, direito consagrado internacionalmente, e que vem, se quisermos, desde tempos imemoriais, e que está assinalado historicamente até na Constituição norte-americana, cuja nação nasceu graças à resistência armada. Pobre do povo que não é capaz de resistir ao arbítrio, às ditaduras, que não é capaz de lutar pelas liberdades. Navegar é preciso, viver não é preciso. Sob ditaduras, lutar é preciso, viver não é preciso. Ou, para garantir a vida e as liberdades, impõe-se arriscar tudo – e nós, milhares de jovens, sobretudo, jogamos nossas vidas para enfrentar o monstro armado, que sufocou inteiramente as liberdades por mais de duas décadas. E aí fomos presos. E aí fomos mortos. E aí fomos sequestrados. E aí tivemos nossos corpos sangrados, dilacerados. E aí vimos nossas crianças desamparadas, muitas delas também torturadas. Vimos mulheres sendo afrontadas de todo modo, inclusive sexualmente. Vimos militantes serem empalados. Vimos tantos se exilarem. Vimos tantos se suicidarem, não suportando o volume de sofrimentos que lhes era imposto. A ditadura foi o terror que sufocava as liberdades. Só havia esse lado. E quando saíamos da tortura, os que sobreviviam, éramos submetidos a simulacros de julgamento, e passávamos anos na prisão. Como dois lados? Só houve um que cometeu crimes. Nossas reações, nossa luta pela liberdade e contra a ditadura, estavam amparadas no direito à resistência, consagrado ao longo da história. E, além disso, a ditadura nos impôs punições absurdas, draconianas. Só falta que pretendam, como alguns argumentam, que paguemos novamente, embora, como já dito, não tivéssemos cometido crime algum, já que estávamos exercitando um legítimo direito. A Comissão da Verdade será um momento forte de nossa história. Esclarecedor. Virá à luz uma grande parte das atrocidades da ditadura. Quem tem medo da verdade? Nossa verdade está a nu – é a verdade da resistência. Não temos nada a esconder. Nos orgulhamos por ter resistido, por ter alumiado a escuridão, por tentar demonstrar que havia caminhos para derrotar a ditadura, por mostrar que mais cedo ou mais tarde ela seria batida pela força do nosso povo. Pagamos com sangue. Tantos dos nossos foram mortos, e sempre mortos covardemente porque o torturador, olhado pelo ângulo moral, é um covarde. Não é um soldado em combate. É um ser desprezível que massacra outro sem que este possa se defender. É esse covarde que agora o Levante da Juventude está mostrando para a sociedade brasileira, desnudando-o. Insisto: não temos nada a esconder. Trata-se, agora, de revelar o lado da ditadura. Mostrar a verdade. Como diria Gramsci, o revolucionário não precisa mais do que da verdade. É ela que virá à tona com a implantação da Comissão Nacional da Verdade, cujos integrantes deverão ser nomeados, esperamos, nos próximos dias. Que venha, com toda sua força histórica. Para resgatar a memória dos que tombaram, dos que lutaram, e para revelar a verdadeira face dos 21 anos de ditadura. * Emiliano José é jornalista, escritor, autor, com Oldack Miranda, de Lamarca, o Capitão da Guerrilha e de Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar, entre outros, e deputado federal (PT/BA). ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Emiliano José*
A violência não guarda relação com o interior do estádio, tampouco com o uso de bebidas alcoólicas Brasil

Copa-2014: soberania e bebidas alcoólicas

No debate a respeito da Lei Geral da Copa, cujo texto básico foi aprovado na semana passada pela Câmara dos Deputados, a questão que tem ocupado maior espaço, e que tem sido motivo de disputas políticas, é a liberação ou não da venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios que abrigarão os jogos da competição. [caption id="attachment_48023" align="alignleft" width="300" caption="A violência não guarda relação com o interior do estádio, tampouco com o uso de bebidas alcoólicas."][/caption] De fato, o tema tem alimentado divergências entre a entidade maior do futebol, a Fifa, e o governo brasileiro. Ouve-se com frequência o argumento de que o Brasil não pode abrir mão de sua soberania e acatar todas as imposições da Fifa para sediar a Copa de 2014. Sob o prisma jurídico-institucional, tal argumento é extremamente válido, tendo em vista que deve preponderar a posição do Estado brasileiro em embates do gênero – para quaisquer temáticas. Mas só faz sentido aludir a questões de soberania se estamos realmente diante de um risco iminente para a sociedade, portanto, precisamos nos questionar se é esse o caso da venda de bebidas alcoólicas durante os jogos. No plano político, assistimos a uma série de arranjos que integram o esforço brasileiro para viabilizar a Copa-2014. Arranjos esses que foram articulados para agradar a Fifa e atrair o interesse de investidores. Em suma, se, de um lado, temos a reflexão sobre o interesse nacional em cada iniciativa ligada à Copa de 2014, de outro lado, compete ao país promover ajustes para sediar o maior evento esportivo do mundo – este, um grande interesse da sociedade brasileira. Nesse sentido, a autorização para comercializar bebidas alcoólicas nos estádios pode ser um atrativo também aos torcedores estrangeiros. De todo modo, convém deixarmos de lado a questão da soberania nesse debate sobre a venda de bebidas alcoólicas. Afinal, não se viu preocupações do gênero com outros temas de potencial muito maior de ofensa à soberania nacional, como as concessões, as licitações e as concorrências públicas voltadas à Copa de 2014. Nenhuma voz se levantou para falar de soberania estatal ou qualquer outra forma de limite em relação aos modelos de contratos em que o construtor tem amplas condições de impor seus interesses. Se não se teve o menor pejo de se colocar o patrimônio e a moralidade públicos em risco nessas situações, por que o fazer em uma questão de menor expressão como a das bebidas alcoólicas? [caption id="attachment_48022" align="alignleft" width="215" caption="O símbolo de uma Copa que até agora não definiu as regras do jogo."][/caption] O fato é que estamos às voltas com esse debate muito por conta do peso da bancada religiosa no Congresso Nacional, que, sob o pretexto da “moralização” dos costumes, acaba subvertendo a lógica do interesse estatal. Antes que se levantem vozes a supor um inexistente cerceamento à livre manifestação religiosa, ressalto que não vislumbro haver nenhum mal na participação de bancadas representantes de grupos religiosos nos legislativos. No entanto, o espírito do Estado de Direito não nos permite considerar dentro da normalidade e do desejável que coloquemos os valores religiosos acima dos interesses da República, do contrário estaremos dando um passo que compromete a laicidade do Estado. Este parece ser o pano de fundo do debate sobre comercialização de bebidas alcoólicas nos estádios. Por fim, as pertinentes preocupações com a segurança na Copa de 2014, altamente legítimas, não podem ser relegadas a segundo plano. Contudo, como demonstraram os recentes episódios trágicos de confronto entre torcedores na cidade de São Paulo, esta é uma questão que não guarda relação com o interior do estádio, tampouco com o uso de bebidas alcoólicas. É uma questão mais afeita a práticas de inteligência policial combinadas com monitoramento e fiscalização. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Pedro Estevam Serrano, da Carta Capital
Ilustração: Orlando Artigo

A boa consciência faz a esquerda dormir…

[caption id="attachment_48004" align="alignleft" width="263" caption="Ilustração: Orlando"][/caption] Reduzidos a uma luta entre o bem e o mal, longe de qualquer referência à história e à sociedade, os conflitos das últimas décadas desembocaram na estigmatização do antigo terceiro mundo e na instrumentalização dos direitos humanos. Tudo isto em nome de uma ideologia fundada sobre falsas simetrias. A queda do comunismo provocou um grande número de efeitos colaterais, em particular na maneira de pensar da esquerda. Enquanto existia, o comunismo forçava tanto seus partidários quanto seus adversários a refletir politicamente, quer dizer, a propor programas de curto e longo prazos, a fixar prioridades e a avaliar as correlações de força. A filosofia moral subjacente, “científica” ou “materialista”, consistia em inserir as tragédias e os crimes, grandes ou pequenos, na cadeia de causas e consequências, e em pensar que a condição humana só podia ser melhorada por mudanças nas estruturas socioeconômicas. Além de estar presente nos comunistas, essa maneira de pensar se encontrava também nos social democratas, quando eles realmente o eram, assim como na maior parte dos movimentos anticolonialistas. Toda a elaboração do direito internacional e a maioria dos esforços na busca pela paz eram ligadas a essa filosofia. A atitude oposta, que poderíamos chamar de religiosa e que era muito forte tanto nos “novos filósofos” quanto no discurso do ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush, consistia em ver o mal e o bem como existindo “em si”, quer dizer, independentemente das circunstâncias históricas dadas. Os “malvados” – Adolf Hitler, Joseph Stalin, Osama bin Laden, Slobodan Milosevic, Saddam Hussein, etc. – são demônios que saem de uma caixa, consequências sem causa. Para combater o mal, há uma única solução: mobilizar o bem, armá-lo, tirá-lo de sua letargia e lançá-lo ao ataque. É a filosofia da boa consciência perpétua e da guerra sem fim. A reação aos atentados de 11 de setembro de 2001, e às suas continuações, ilustra a diferença entre as duas filosofias. Aqueles que, minoritários no Ocidente, procuravam entender “por que eles nos odeiam” foram considerados apóstatas por aqueles que “entendiam” a reação norte-americana (dois países invadidos, um conflito interminável, dezenas, talvez centenas, de milhares de mortos). Estes últimos são frequentemente os mesmos que “entendem” a reação israelense quando três de seus soldados são capturados. Mas seria preciso então “entender” da mesma forma a vontade dos soviéticos, desde 1945, de fazer do Leste Europeu uma zona tampão, depois dos milhões de mortos em consequência da Segunda Guerra Mundial. “Entender” também a reação chinesa de isolamento, na época maoísta, resultado das Guerras do Ópio, das múltiplas humilhações da China pelas potências ocidentais e da invasão japonesa. E “entender”, enfim, a reação do mundo árabe à traição franco-britânica na época do fim do Império Turco, em 1918, da criação de Israel, em 1948, e do apoio ocidental constante a esse Estado, inclusive durante as cinco guerras árabe-israelenses. Todos os seres humanos têm medos irracionais e, quando atacados, reações excessivas, entre as quais desejos de vingança. Mas a violência contrarrevolucionária, a opressão das classes dominantes e as invasões estrangeiras precedem e engendram a violência revolucionária, e não o contrário. O caso do regime de Pol Pot, no Camboja, é sem dúvida o exemplo preferido dos intelectuais pró-Ocidente. Mas, como imaginar que esse regime poderia chegar ao poder sem os bombardeios sobre o Camboja, o golpe de Estado de março de 1970 contra o príncipe Norodom Sihanouk e a desestabilização desse Estado pelos norte-americanos?(1) Desprezo pela história Longe de admitir o que o precede, o discurso dominante sobre os países do Sul combina a estigmatização e o chamado à intervenção. A estigmatização baseia-se, em geral, nos direitos humanos, na democracia e, com relação ao Islã, no direito das mulheres. Nos Estados onde existem ditaduras, faz-se destas a principal fonte de todos os problemas. No caso contrário, suas eleições nunca são transparentes o suficiente, sua imprensa nunca é pluralista o suficiente, suas minorias nunca estão protegidas o suficiente, suas mulheres nunca são livres o suficiente. Esse discurso despreza a história. As sociedades ocidentais só se tornaram mais respeitadoras dos direitos humanos depois de um longo período de acumulação econômica e de evolução cultural, ambas acompanhadas da violência mais brutal (colonialismo, exploração operária, guerras mundiais). É irrealista exigir que países, que há apenas 60 anos viviam sob o jugo colonial ou feudal, atinjam subitamente as normas de respeito aos direitos humanos existentes em nossos países (e ainda assim, em tempos de paz; em tempos de guerra, vejam-se Guantánamo ou o destino que Israel reserva às populações palestinas e libanesas). Outra objeção é ainda mais séria. O discurso sobre os direitos humanos coloca sempre a tônica nos direitos políticos e individuais, ao mesmo tempo que ignora os direitos econômicos e sociais, que entretanto participam igualmente da Declaração Universal. Para ilustrar esse problema, citemos os economistas Jean Drèze e Amartya Sen. Eles calcularam que, partindo de uma base similar, a China e a Índia seguiram caminhos de desenvolvimento diferentes e que a diferença entre seus sistemas sociais (em matéria de cuidados com a saúde, por exemplo) tinha provocado 3,9 milhões de mortes suplementares por ano na Índia.(2) Comparações semelhantes podem ser feitas hoje entre Cuba e o resto da América Latina. Em nome de quais organizações não governamentais ocidentais, como a Repórteres sem Fronteiras, cujos membros gozam em geral de dois tipos de direitos (políticos e sociais), decidem qual deles é prioritário? Enfim, imaginemos por um instante os Estados Unidos e a Europa sem o fluxo constante de matéria-prima, a mão de obra imigrante, os bens manufaturados produzidos por trabalhadores com salários de miséria, os fluxos financeiros indo do Sul para o Norte (reembolso das “dívidas”, fuga de capitais) e mesmo sem a matéria cinzenta que vem remediar o naufrágio de nosso sistema educativo e de saúde. O que aconteceria com esses magníficos sucessos que nossas economias supostamente constituem? Elas estão, por enquanto, drogadas pelo imperialismo; mas essa droga provavelmente não será fornecida eternamente nas condições atuais. Diante da instrumentalização dos direitos humanos, o pensamento crítico ou de esquerda está extraordinariamente fraco, em particular quando se trata de se opor às guerras norte-americanas na Iugoslávia, no Afeganistão e no Iraque, todas justificadas pela defesa das minorias, das mulheres ou da democracia. Essa fraqueza reflete talvez o mal-estar sentido por muitos “ex” (comunistas, trotskistas, maoístas), pelo fato de que os direitos individuais e políticos tenham sido, durante o período “leninista”, mandados para o espaço. Mas de nada serve substituir uma cegueira por outra. Fora do espaço e do tempo Uma boa ilustração dessa fraqueza da esquerda é a ideologia do “nem-nem” que dominou os tímidos protestos contra os conflitos recentes: nem Milosevic nem a Otan; nem Bush nem Saddam; ou ainda nem Ehud Olmert nem o Hamas. Existem diversas falsas simetrias. Em primeiro lugar, em todas essas guerras, existe um agressor e um agredido. Colocar ambos no mesmo plano é abandonar qualquer noção de soberania nacional. Depois, o poder e a capacidade prejudicial das duas partes não são comparáveis. Os Estados Unidos e seu poderio militar são os pilares da ordem mundial na qual vivemos. São os Estados Unidos, e não os países já citados, a quem as forças progressistas afrontam e continuarão a afrontar durante a maior parte dos conflitos. Enfim, o “nem-nem” age como se estivéssemos situados acima do conflito corpo a corpo, fora do espaço e do tempo, enquanto vivemos, trabalhamos e pagamos nossos impostos nos países agressores ou nos de seus aliados (a postura “nem Bush nem Saddam” tinha um sentido completamente diferente para os iraquianos, que foram forçados a viver os dois regimes). Em vez de partilhar a visão que o Ocidente tem do resto do mundo, a esquerda ocidental poderia se esforçar para fazer os “ocidentais” entenderem a visão que o resto do mundo tem deles, e lutar contra tudo o que reforça um sentimento de superioridade e de pureza moral. Se o Século 20 não foi o do socialismo, ele foi o da descolonização, que permitiu que centenas de milhões de pessoas escapassem de uma forma extrema de opressão. Pode-se imaginar que o século que começa será o do fim da hegemonia norte-americana. Um “outro mundo” se tornará então realmente possível, e, quando nossas economias estiverem privadas dos benefícios provenientes da posição dominante dos Estados Unidos no sistema mundial, rediscutiremos talvez seriamente a questão do socialismo. Notas (1) Acrescentemos a isso que, assim que o regime do Khmer Vermelho foi derrubado pelos vietnamitas em 1979, ele passou a ser imediatamente apoiado pelos ocidentais. (2) Jean Drèze e Amartya Sen, Hunger and public action (Fome e ação pública), Clarendon Press, Oxford, 1989. * Jean Bricmont é professor de física teórica na Universidade de Louvain, Bélgica, autor de Imperialisme humanitaire (Bruxelas, Ed. Aden, 2005), e organizador, com Julie Franck, de um Cahier de l´Herne sobre Noam Chomsky. ** Publicado originalmente no site Diplomatique Brasil.


por Jean Bricmont*
Oliver Stuenkel Entrevista

Como os Brics podem mudar a geopolítica do mundo

[caption id="attachment_47993" align="alignleft" width="235" caption="Oliver Stuenkel."][/caption] Um jovem pesquisador brasileiro sustenta: Estados Unidos e Europa querem minar a aliança das periferias, porque não aceitam dividir poder global. Oliver Stuenkel fez parte da delegação brasileira para o fórum acadêmico Track II, em preparação para a Cúpula de Nova Délhi para líderes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (Brics), que aconteceu no dia 30 de março. Stuenkel é especializado nas relações do Brasil com a Índia, mas também foca mais amplamente suas pesquisas nos Brics. Ele é atualmente professor de Relações Internacionais na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Também coordena um blog chamado Post Western World, que olha como as potências emergentes estão mudando o mundo. Abaixo, estão partes de minha entrevista com Stuenkel, na qual ele lança luz sobre o Brasil e as perspectivas e desafios que os Brics enfrentam. Ele também contraria aqueles que dizem que os Brics falharam. Oliver Stuenkel: Ser parte dos Brics é muito importante porque o conceito tem implicações geopolíticas. O país é visto como uma ameaça potencial aos poderes estabelecidos. E o Brasil tradicionalmente tem estado distante das áreas e temas mais importantes do mundo. Nunca fora visto antes como uma ameaça potencial, ou um país poderoso, com impacto relevante na situação global. Mas ser parte dos Brics muda esta percepção, em algum grau. A aliança faz do Brasil um ator muito mais importante, na perspectiva europeia e norte-americana. Penso que há, no Brasil, uma grande consciência de que ser parte dessa aliança, ou grupo, pode permitir participar, por exemplo, no debate sobre a emergência da Ásia. Isto é importante porque, até a inclusão da África do Sul, os Brics eram basicamente três países (China, Rússia e Índia) que fazem parte da massa territorial da Eurásia. O Brasil é muito distante deles, geograficamente. Combinado com o fato de que Rússia, Índia e China se conhecem há muito tempo, isso contribuiu para o fato de, até a África do Sul se juntar, o Brasil manter-se como um estranho. A inclusão dos sul-africanos ajudou os Brics a assumirem dimensão global, capaz de representar mais continentes. Também fez com que o Brasil se sentisse menos excluído. A China ultrapassou os Estados Unidos como maior parceiro comercial do Brasil. A relação do Brasil com os Brics tornou-se mais importante que a relação com os Estados Unidos, ou até mesmo o Mercosul? Stuenkel: É difícil responder isso, mas o governo brasileiro continua a focar na sua própria região. Existe um forte reconhecimento, no Brasil, de que o país sempre será parte da América do Sul e de que os laços econômicos e políticos com esta região sempre serão uma prioridade. No que diz respeito aos Estados Unidos, acredito que há uma divisão na liderança brasileira. Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, a maioria dos políticos diriam que os Estados Unidos eram absolutamente uma prioridade. Mas agora, com os governos de Rousseff e Lula, existem pessoas tentando equilibrar as duas. Acredito que o Brasil nunca escolherá entre os Brics ou os Estados Unidos – sempre haverá um certo equilíbrio. Você acredita que os Estados Unidos e a Europa prefeririam que os Brics fracassassem? Stuenkel: No lado norte-americano, acho que existe um interesse forte em reduzir os laços entre o Brasil e o resto dos Brics. Acredito existir um entendimento claro de que o fortalecimento destas relações é problemático… Repare que há muito poucas alianças poderosas no mundo sem nenhuma participação europeia ou norte-americana. Os Brics são a única. E esse não é o interesse dos Estados Unidos. Você vê evidências de interesses poderosos tentando dividir os Brics? Stuenkel: Existem esforços, nos Estados Unidos, para enfraquecer as relações entre o Brasil e os outros países do Brics. Vemos isto na mídia. É muito difícil encontrar hoje qualquer comentarista norte-americano ou europeu que fale que o Brics pode ser algo bom, a ser apoiado. A visão dos comentaristas e acadêmicos norte-americanos e europeus sobre o Brics é muito mais cética que a Índia, por exemplo – onde há um novo grupo de pensadores emergindo. Qual o maior desafio que o Brics enfrenta? Stuenkel: Articular uma visão comum, para mostrar ao resto do mundo que é uma aliança poderosa, que pode construir uma visão clara do que quer… Também acho que os Brics precisam ser mais inovadores, porque agora estão sendo comparados a experiências passadas como o G7 e mesmo a União Europeia (UE) e a Otan. Muitas pessoas dizem “os Brics não se parecem com a UE ou com a Otan – por isso, vão falhar”. Acredito que o verdadeiro desafio é pensar fora do padrão, considerar novas ideias, criar algo que nem existe ainda e não entrará em xeque quando algum problema bilateral entre seus membros aparecer. Se forem capazes de fazer isso, quais serão os resultados? Stuenkel: Se os Brics forem capazes de falar com uma só voz em qualquer situação que envolva assuntos globais, vão se converter imediatamente em construtores de agenda e numa voz muito poderosa, que nem os Estados Unidos, nem a União Europeia poderão ignorar. Seria a primeira vez que teríamos uma alternativa séria à narrativa das potências estabelecidas sobre como ver o mundo. O controle do discurso global pelos norte-americanos ainda é bastante forte, porque os países emergentes não são capazes de articular uma visão alternativa nesse ponto. Os Brics podem mudar isso. Algumas pessoas dizem que os Brics já falharam, por não terem estabelecido narrativa e visão unificadas. Você concorda? Stuenkel: Não. Acho que existe, nos Estados Unidos e na Europa, interesse em assegurar que os Brics não estabeleçam uma narrativa. Muitas análises procuram criar uma imagem de que os Brics são incapazes de encontrar essa visão comum. É bastante natural que países que começaram a se reunir formalmente há apenas quatro anos ainda tenham problemas a resolver. Nunca chegará o dia em que concordem em tudo, assim como a União Europeia e a Otan não concordam em tudo. Por que alguém que vive fora dos países do Brics deveria se importar com eles, ou com o fato de se encontrarem anualmente como um grupo? Stuenkel: Porque os Brics têm o potencial de se tornarem uma voz muito importante. Não é possível resolver as mudanças climáticas, nem lidar efetivamente com a instabilidade financeira global, sem eles. Se estes cinco países disserem: “temos uma posição comum quanto às mudanças climáticas”, isto será de importância crucial para a próxima cúpula sobre o tema, e para o próprio debate global. Onde você vê os Brics em 2030? Stuenkel: Em 2030, das quatro maiores economias do mundo, três serão países do Brics. Eu acho que isto vai mudar fundamentalmente o mundo. * Gabriel Elizondo é correspondente da Al Jazeera no Brasil. ** Tradução: Daniela Frabasile. *** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Gabriel Elizondo*

Página 101 de 151« Primeira...102030...99100101102103...110120130...Última »
Para enviar sua dica ou opinião, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Dica/Opinião

agenda

XII Simpósio de Recursos Hídricos do Nordeste

data 04/11/2014 até 07/11/2014
XII Simpósio de Recursos Hídricos do Nordeste

data 04/11/2014 até 07/11/2014

dica de
sustentabilidade

anterior | próxima
Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

imagem do dia

|
Para enviar sua imagem, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Arquivo

Observações

 
casa-ecod

Casas “Earthships” são construídas com pneus e outros materiais recicláveis. Saiba mais aqui.

canoada

Canoada Bye Bye Xingu abre faixa de protesto em frente à barragem de Belo Monte: Desenvolvimento sim, de qualquer jeito não!

canoada

Foi dada a largada para a canoada Bye Bye Xingu. Serão 100 km percorridos em uma paisagem do Rio Xingu que será definitivamente transformada quando Belo Monte entrar em operação. Saiba mais aqui.

papelao

Caixa de papelão vira mochila e mesa na Índia. Saiba como aqui.

veg1-ecod

“Açougue vegetariano” que cria alternativas à carne faz sucesso na Holanda. Saiba mais aqui.

urina

Modelo de banheiro público transforma urina em fertilizante. Saiba como aqui.

urina

Modelo de banheiro público transforma urina em fertilizante. Saiba como aqui.

obradearte_consumo_final

Obra de arte que chama atenção para o consumo responsável está exposta no Parque do Ibirapuera, na cidade de São Paulo, durante a Virada Sustentável 2014.

Foto: Elisabeth Bertaglia

Chinchilas que “virariam” casaco de pele são libertadas por co-criador dos Simpsons. Saiba mais aqui.

EcoD

Primeira bicicleta elétrica feita com madeira de reflorestamento. Fonte: EcoD.





Copyright © 2009 Envolverde. Todos os direitos reservados.