Os espanhóis reinventam o futebol

Esporte

Os espanhóis reinventam o futebol


por Matheus Pichonelli*, da Carta Capital


No fundo, no fundo, havia alguma esperança de que, na hora certa, a trinca de zagueiros engoliria o trio de estrelas; que na bola parada o Víctor Valdés seria surpreendido por algo não calculado; e que, mesmo com tanto treinamento para fazer do gramado uma mesa de pebolim, seria impossível conter a criatividade lúdica brasileira.Mas não. O que vimos no domingo (18) foi um time entrar em campo e outro, não. E não foi falta de treino, de aviso, de vontade ou calma. Tem sido assim há pelo menos quatro temporadas.O Barcelona que venceu o Santos por 4 a 0 é um time programado para fazer desaparecer o adversário. Como se do outro lado do campo, seja o Santos de Neymar, seja o Real Madrid de Cristiano Ronaldo, não houvesse gente praticando o mesmo esporte ou falando a mesma linguagem. Pela câmera da tevê, é possível ver apenas pontinhos brancos, como bandeiras intactas, no campinho azul-grená em direção ao gol.Como a tática é justamente fazer o adversário desaparecer, tocando, caminhando, e se livrando da bola o mais rápido possível, parte do que conhecemos como futebol simplesmente desapareceu nessa era de domínio catalão, que pode ter produzido o melhor time da história.No jogo de domingo, ninguém viu escanteios, bate-rebate, chutão para a lateral, jogadas individuais na linha de fundo, faltas táticas, jogo de corpo, pedalada, escapada lisa pelo meio, caneta, chapéu, cruzamento do alto, pedardo de fora da área.Tudo isso caminha para o desaparecimento à medida que o futebol espanhol, representado pelo Barcelona e recriado na seleção, impôs uma nova modalidade dentro do esporte. Uma modalidade em que você fica mais tempo com a bola (no domingo, foram quase 70% de posse sobre o Santos), fazendo justamente com que seus jogadores fiquem menos tempo com ela. Do paradoxo, parece ter nascido uma reinvenção do esporte.Pode ser cedo para dizer. Pode ser que a história prove que o Barcelona não seria um supertime sem o Messi e que, sem os colegas Xavi e Iniesta, o argentino também não seria o superjogador que é. Entre todos, ele ainda é o único a carregar a bola, a tentar o drible, a arrancar em direção ao gol. Mesmo assim é econômico: só o faz quando os rivais já estão tortos de tanto toque de bola.E não tenham dúvida: Messi, tão latino como Neymar, é representante da escola onde vive, e não de onde nasceu.Seu brilho individual é uma espécie de licença poética num jogo calculado, na base da paciência e da troca de posicionamento. E foram justamente a paixão (que leva o atleta a tentar resolver a jogada num lapso de impaciência de quem luta contra o relógio) e a anarquia que fizeram durante anos a escola latina, passional, a rivalizar com a europeia, calculada e fria.O futebol só se tornou o grande esporte que é, imprevisível, emocionante, porque durante anos as Copas do Mundo colocaram à prova basicamente dois modelos. De um lado, o europeu tradicional, fundado pelos britânicos e apropriado por italianos e alemães. Em campo, contavam com a estrutura física para cabecear bolas lançadas à altura de um prédio. Ou no chute reto de fora da área. Um esporte para robôs, aplicados e eficientes.Chegam os latinos, primeiro com o Uruguai, depois com o Brasil e a Argentina, e o jogo físico perde seu reinado.A passionalidade latina, de quem corre feito leão e ainda é capaz de comer grama para não perder a partida, ganha sua maior expressão com a miscelânea produzida em gramados brasileiros. Vem Pelé, vem Garrincha, vem um exército de pequenos grandes homens que solapavam edifícios ingleses e italianos com finta, fôlego, gingado; uma caneta no grandalhão aqui, um chapéu no troncudinho acolá, e dois esportes completamente diferentes duelavam de igual para igual.Foi assim durante muito tempo. Num ano é o modelo engessado, mas aplicado, que se glorifica, como a Alemanha de 1974 ou a Itália de 2006. Em outros, é o estilo passional (ora anárquico) que vence, como o Brasil de 1970 ou a Argentina de 1986. A alternância do predomínio fazia dos asiáticos e africanos espécies de espectadores da brincadeira.Mas algo parece mudar na balança dos dois únicos modelos. Com o Barcelona, base da atual seleção campeã do mundo, um novo sistema parece surgir.A aplicação tática talvez seja a mesma consagrada no velho continente. Mas a supremacia começa a ser consolidada por meio de jogadores baixos, que se consagram mais pela capacidade de se livrar rapidamente da bola do que de correr com ela e produzir firulas como um Dener, um Ronaldo Fenômeno, um Robinho. Lá, todos brilham porque todos aparecem. Todos parecem saber onde estão todos. Treinam em campo reduzido, para dominar a arte do passe curto, e ficam imbatíveis quando o campo, real, se amplia. Do outro lado não existe adversário, mas espectador, à espera de um bote que não vem.Foi a fórmula encontrada por Josep Guardiola, e herdada por Vicente Del Bosque em 2010, para não perder de ninguém. Nesse modelo, a vitória, por mais elástico que seja o placar, é sempre por pontos, quase nunca por nocaute; é construída de forma lenta, desesperadora (para o rival), pelos miolos, de pé em pé.O futebol, nos pés dos espanhóis, eliminou as margens para o risco, para o improviso, para a supremacia do corpo sobre a lógica. Mas também a finta. Por isso, muita coisa de futebol que aprendemos como sendo coisas de futebol não entraram em campo na final do Mundial Interclubes.Uma final simbólica, que levou a campo o que havia de melhor na escola sul-americana: um time que tem em Paulo Henrique Ganso e Neymar suas duas maiores apostas para a próxima Copa e comandado pelo técnico brasileiro mais vitorioso da história recente. E o resultado foi o que foi.Porque o Barcelona é muito superior? Pode ser. Mas quem parece ter vencido o jogo não foi o time, mas um modelo de se jogar futebol.A escola espanhola (baixinha, paciente, aplicada, com mais gente no meio-campo que no ataque), que tem engolido a escola tradicional europeia a cada temporada, agora almoçou a escola sul-americana.Pode ser que esta escola se encerre tão logo alguma peça-chave do time, ou da seleção, se aposente, como aconteceu com a Holanda de 1974. Mas pode ser que os jogadores sejam apenas peões de uma esteira de produção consolidada.Se for, teremos de admitir que, neste começo de século, o futebol foi reinventado pelos espanhóis. E no futebol nem sempre vence o melhor ou mais sortudo. Vence quem se reinventa. Em três anos, são três mundiais, dois de clubes e um de seleções. E o viés é de alta.* Matheus Pichonelli, formado em jornalismo e ciências sociais, é subeditor do site e repórter da revista CartaCapital desde maio de 2011. Escreve sobre política nacional, cinema e sociedade. Foi repórter do jornal Folha de S.Paulo e do portal iG. Em 2005, publicou o livro de contos Diáspora.** Publicado originalmente na Carta Capital.

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Natal sustentável

Estamos a poucos dias do Natal. A principal data ocidental ligada a dar e receber presentes. Um hábito que gera muita alegria, mas que pode deixar um rastro ambiental intenso. Será que dá para diminuí-lo? Confira abaixo algumas ideais fáceis para curtir as festas sem prejudicar muito o planeta.• Se ainda falta encontrar alguns presentes, que tal dar experiências?Muita gente pode ter um excesso de objetos em casa e dar um serviço pode ser uma excelente opção. Uma massagem relaxante, um tratamento em um spa, uma diária em um hotel bacana, um mapa astral com um profissional competente... Esta é uma ótima forma de poupar a fabricação e descarte de embalagens e produtos, além de distribuir renda!• Vai mesmo comprar? Escolha produtos fabricados com critérios socioambientais firmes.Uma boa produção valoriza a mão de obra e adota todos os cuidados ambientais necessários. Escolha produtos duráveis e reparáveis, para não virarem sucata logo. Sem elementos tóxicos e com pouca mistura de materiais, pois são mais fáceis de reciclar. Vai dar um artigo que precisa de pilha? Adicione então um kit com pilhas recarregáveis e o próprio recarregador. Assim, evita que mais pilhas sejam descartadas.• Uma atitude criativa é fazer o presente.Montar um álbum bem bolado com fotos de momentos queridos, utilizar algum talento que possua em artes plásticas, música, poesia... Um presente assim personalizado pode tocar fundo um coração.• Gaste apenas na medida das suas possibilidades.Uma economia forte e sadia é parte importante de uma sociedade sustentável.• Cuide para que a embalagem também seja bem inteligente: útil ou de baixo impacto ambiental.• Na hora de abrir os presentes, muita coisa pode ser separada para reciclagem.Mesmo o isopor, que dispõe de poucas iniciativas de reutilização, pode ser encaminhado aos centros de triagem junto com os plásticos, já que se trata de uma resina plástica expandida.• Inove na decoração.Enfeitar árvores era uma tradição para agradecer à natureza pelos frutos, castanhas, nozes e lenha que esta nos doam. Enfeitar uma árvore sintética, com outros produtos artificiais, é uma ilusão que sai caro para o planeta. Procure sua própria forma de agradecer à natureza e enfeitar sua casa nesta data, evitando agravar a crise ambiental atual.• Faça uma ceia sustentável, com alimentos frescos e orgânicos, evitando espécies sob risco de extinção como o bacalhau, por exemplo. Prepare o suficiente, sem desperdícios. Evite o uso de descartáveis.Enfim, celebre com consciência e capricho, lembrando que o mais valioso são os sorrisos, abraços e o carinho entre todos.* Publicado originalmente no site do Banco do Planeta.


por Neuza Árbocz, do Banco do Planeta
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Papai Noel dos Correios presenteia cerca de 360 mil crianças

São Paulo – Cerca de 360 mil crianças que escreveram cartas para o Papai Noel receberão presentes neste Natal, graças à solidariedade de quem aderiu à campanha anual do Papai Noel dos Correios em todo o país. Na campanha, as cartinhas enviadas por crianças com menos de dez anos e em situação de vulnerabilidade social são cadastradas e os interessados em ajudar compram os presentes pedidos, que são distribuídos até o dia de Natal. Até a primeira quinzena de dezembro, foram cadastradas 610,6 mil cartas, de acordo com os Correios.Crianças fora desse perfil têm apenas as cartas respondidas. Este ano, foram 102 mil. No ano passado, foram recebidas 1,2 milhão de cartas, das quais foram adotadas 685,7 mil. Entre os brinquedos mais pedidos estão bonecas, jogos eletrônicos, bicicletas, material escolar, roupas, carrinhos e computadores. Hoje (19) de manhã, crianças de uma instituição que escreveram uma carta coletiva receberam os presentes na festa de encerramento da campanha.Gabriele tem sete anos e ganhou a boneca que tinha pedido. “Este ano, eu queria pedir uma bicicleta, mas pedi uma Barbie, porque o Papai Noel não tem dinheiro para comprar bicicletas para todas as crianças que querem”. Já Matheus, cinco anos, pediu um peru, repetindo o pedido não atendido do ano passado. “Eu gosto de comer peru no Natal, acho que, desta vez, o Papai Noel vai me dar”. Thais, dez anos, pediu um par de patins. “É a primeira vez que escrevo cartinha para o Papai Noel, mas tenho certeza que ele vai me dar”.“Graças à campanha, milhares de crianças voltaram a conviver com a presença do bom velhinho e foram contempladas com os presentes enviados pelo Papai Noel. Da mesma forma, em milhares de lares brasileiros, ressurgiram o espírito de solidariedade no período natalino e, principalmente, a crença em um futuro melhor e em um país com mais oportunidades”, disse o presidente dos Correios, Wagner Pinheiro de Oliveira.Na festa, o presidente dos Correios assinou um termo de parceria com o Instituto de Pesquisas Ecológicas Ipê para o plantio de 20 mil mudas de árvores em uma área de manancial, que fornece água para a região metropolitana de São Paulo. Cada árvore simboliza um funcionário da estatal. “Em todo o país, serão mais de 110 mil mudas que a empresa se comprometeu em doar”, disse Oliveira.* Edição: Vinicius Doria.** Publicado originalmente no site da Agência Brasil.


por Flávia Albuquerque, da Agência Brasil
Brasileiros vão precisar de um mês para instalar o módulo no continente gelado/Foto: CPC/UFRGS/Divulgação Mundo

Brasileiros já estão na Antártida para instalar primeiro módulo científico

[caption id="attachment_37348" align="aligncenter" width="425" caption="Brasileiros vão precisar de um mês para instalar o módulo no continente gelado. Foto: CPC/UFRGS/Divulgação"][/caption]Instalar o primeiro módulo científico brasileiro no interior da Antártida é o objetivo do grupo de cientistas do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), liderado pelo glaciólogo Jefferson Cardia Simões, do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que chegou na noite de sábado, 17 de dezembro, ao acampamento base da expedição Criosfera, segundo informou o portal Terra.Os pesquisadores estão acampados a 1.143 quilômetros do Polo Sul geográfico e a 2.124 quilômetros ao Sul da Estação Antártica Comandante Ferraz do Brasil – o que representa uma distância de 6.608 quilômetros do Rio de Janeiro e 5.719 quilômetros de Porto Alegre.Os cientistas informaram que, no momento do pouso da aeronave russa Ilyushin-76, o termômetro local oscilava ao redor dos -12°C, temperatura considerada alta para esta época do ano. Outra característica deste período de verão no Hemisfério Sul é que o Sol não se põe, ou seja, os cientistas vão conviver com 24 horas de luz na Antártida.Nos próximos três dias, um trator com o módulo científico Criosfera I e mais sete toneladas de equipamentos científicos, alimentos, combustível e barracas partirá rumo a um ponto mais ao Sul. A viagem de trator será feita por cerca de 500 quilômetros sobre o manto de gelo antártico. Deste local, os pesquisadores decolarão para o destino final em um avião DC-3 adaptado para aterissar na neve.O grupo de cientistas vai se dividir entre o acampamento base e o local de instalação da estação, onde ficarão dez pesquisadores, durante um mês, para instalar o primeiro módulo científico brasileiro próximo do Polo Sul geográfico.* Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação EcoD
e2 Artigo

Sufocar o Dieese na esteira da faxina moralista é novo golpe contra população

Nos últimos dias, chamou pouca atenção do grande público a notícia veiculada pelo jornal Valor Econômico a respeito de uma crise financeira que estaria sufocando o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), causada basicamente pela suspensão de todos os contratos e convênios do governo federal com ONGs, após a chuva de escândalos de corrupção fabricados e inflados pela mídia e parasitas do poder, dando origem à suposta “faxina” da presidente Dilma.Como se sabe, boa parte desses escândalos se apoiou em denuncismo, via de regra hipócrita, pois veio de setores que sempre se locupletaram com os mesmos esquemas. A mídia, em sua eterna chantagem aos governos que tenham o mínimo traço de ameaça a seus privilégios, não poupou munição para derrubar ministros – de pastas, sublinhe-se, secundárias.No entanto, nada disso se relacionava ao Dieese, organização que realiza diversos estudos das conjunturas socioeconômicas e do mundo do trabalho para o Ministério do Trabalho e Emprego há mais de 30 anos, sendo praticamente visto como um órgão oficial. É uma das raras entidades que expõem brechas de um sistema excludente, anunciando em alto e bom som que, diante dos atuais custos de vida, o salário mínimo deveria estar perto de R$ 2.200.Mesmo assim, se vê agora em apuros, pois não receberá os R$ 10 milhões anteriormente conveniados com o Planalto, de modo que são altíssimas as chances de atrasar toda a sua folha de pagamento e os encargos de fim de ano. Também mantido pelas centrais e os sindicatos, terá de contar com o esforço destes para não perder suas décadas de registros históricos sobre o mundo do trabalho brasileiro.Onda “moralista”O que se insinua é uma punição desproporcional a quem não tem relação alguma com as nomeações desde o início descabidas de ministros, dentro das “cotas” de cada partido da base aliada e com vistas a atender interesses descaradamente alheios aos da sociedade. Todos sabem disso desde o primeiro dia de mandato, mas deixam a carta guardada na manga para promover a chantagem e o tumulto no momento conveniente. Com o caso do enriquecimento pessoal (esperado a partir da lógica da ordem capitalista) de Antonio Palocci, então chefe da Casa Civil, foi inaugurada a temporada de “escândalos de festim”.Na sequência, mesmo com base em denúncias sem provas, suspeitas, achismos (um tipo de jornalismo em geral interesseiro e sem compromisso público, como Caco Barcellos explicou a Eliane Cantanhêde), o expediente funcionou. Todo o clamor por degola aos “corruptos” foi atendido, com os ministros (independentemente do gosto que tenhamos pelo seu desempenho político) tendo suas cabeças servidas uma a uma, em seguida a manchetes e à gritaria contra os alvos de ocasião.Voltou-se a pregar contra as ONGs e a facilidade com que acessam os corredores do poder. Trata-se de uma verdade, pois, com a despolitização dos anos neoliberais, tais organizações passaram a desfrutar de espaço privilegiado em diversas frentes, ocupando de modo oportunista e inapropriado, em grande parte das vezes, a lacuna deixada pelo setor público. No entanto, na nação dos desajustes, uma panaceia puxa a outra, e nunca se alcança a raiz verdadeira dos problemas. E é na esteira da panaceia do momento, com a caça indiscriminada de convênios de ONGs, que chegamos ao possível desmonte do Dieese, importante aliado da luta popular e sindical na busca por melhores condições laborais e sociais do povo brasileiro.Como se todas as ONGs fossem mesmo deixar de receber financiamentos... Quem acreditar que grandes tubarões políticos e corporativos terão suas “parcerias” com o setor público cortadas pela raiz, que acenda a primeira vela...Objetivamente, o que a situação sugere vai além da tão aclamada “faxina” do governo Dilma, que só tocou aonde a grande mídia e a direita apontaram. Afinal, deixa-se intacto o Ministério cartelizado pelo clã Sarney, cujo comandante causa tamanho asco em especialistas conceituados do setor energético que muitos sequer se animam a pronunciar seu nome.Outro setor que passa incólume à “vigilância” da mídia é o das telecomunicações, notadamente um dos mais esfalfados pela promiscuidade público-privada à época de seu inglório loteamento. Como já se noticiou intensamente à época, e a se confirmarem as novas e explosivas alusões do livro Privataria Tucana, tratou-se de um dos mais acintosos assaltos ao patrimônio público na história.Nova e refinada versão de desmonte do Estado?A possível inviabilização do Dieese nos leva a puxar um novelo bem maior.Como se viu, 2011 foi um ano desastroso do ponto de vista agrário e ambiental. Ciente da guarida que encontra no Congresso e no Executivo, o agronegócio empreende enorme ofensiva para descaracterizar nosso Código Florestal e liberar o meio ambiente brasileiro. Já o Incra, órgão responsável pela distribuição de terras e pela reforma agrária que nunca promovemos, segue inane, e a própria reforma agrária é riscada do caderno do Partido dos Trabalhadores.Por outro lado, o BNDES segue aportando recursos a perder de vista em projetos que avançam vorazmente pela Amazônia, alimentando um modelo econômico regressivo, concentrador e promotor de violência e exploração.Já no Nordeste, o governo toca projetos hidrelétricos, portuários, ferroviários, dentre outros, com o mesmo viés agroexportador, ao passo que o aclamado projeto de implantação de um milhão de cisternas no semiárido nordestino está praticamente abortado pelo governo Dilma, conforme informações da Articulação do Semiárido.A Funai não fica atrás e continua sem capacidade de ação nas questões indígenas mais cruciais. E é acusada por diversas etnias e tribos até de jogo duplo, pois trabalharia também de olho na preservação dos interesses empresariais sobre as terras indígenas pertencentes à União.“Não gosto de dizer que o Estado é ‘ausente’ nessas regiões (rurais e violentas), seria um erro do ponto de vista conceitual. Mas as instituições que servem para garantir a efetividade dos direitos fundamentais da parcela mais humilde são mal estruturadas, defeituosas ou insuficientes. Enquanto isso, aquelas criadas para garantir o desenvolvimento econômico, seja por meio do agronegócio, do extrativismo ou dos grandes projetos de engenharia, funcionam que é uma beleza”, resumiu em artigo recente o jornalista Leonardo Sakamoto.Como se vê, o nono ano do Partido dos Trabalhadores no Planalto não foi pródigo em oferecer esperanças de um futuro melhor e de um país mais justo e emancipado, se não no presente, tampouco como projeto em marcha. O Estado segue sequestrado pelos interesses corporativos e as sonhadas reformas estruturais jamais saem do papel.Uma era muito bem resumida pelo nosso entrevistado de final de ano, Ariovaldo Umbelino: “estamos num momento de ausência de luta política por parte da sociedade civil. E num momento desses, o que faz o governo? Tudo que deseja o capital. Aprofunda suas ações no sentido de retirar conquistas sociais e direitos, que permitem a construção de uma sociedade e um país mais humanos, com melhor distribuição de renda”.Sufocar o Dieese parece apenas mais uma atitude de traição e esquecimento do Partido dos Trabalhadores em relação a todos os seus laços e programas originais. Mas paremos por aqui, para não melindrar aqueles que ainda depositam esperanças neste governo. Deixemos que a reforma da previdência que virá à baila no próximo ano e novas reiterações deste modelo respondam com mais eloquência.* Gabriel Brito é jornalista.** Publicado originalmente no site do Correio da Cidadania.


por Gabriel Brito*
Sebastián Piñera Mundo

Os direitos humanos não são prioridade para o governo de Piñera

[caption id="attachment_37336" align="alignleft" width="150" caption="Sebastián Piñera."][/caption]A entrega do segundo relatório anual sobre a situação dos direitos humanos no Chile não contou com a presença de nenhum representante do governo. O relatório destacou as manifestações estudantis, a situação de superlotação carcerária, a diversidade sexual e os direitos dos povos indígenas, bem como a questionada homenagem a Miguel Krassnoff, o ex-militar condenado a mais de 140 anos de prisão por violações aos direitos humanos. O artigo é de Christian Palma.A diretora do Instituto Nacional de Direitos Humanos do Chile, Lorena Fries, convocou um debate sobre a regulamentação das marchas e mobilizações sociais e pediu ao governo de direita de Sebastián Piñera que esclareça o que se entende por ordem pública. Tudo isso em um ambiente de insatisfação social que vem sendo sentido com força no Chile este ano. O cenário escolhido para o seu chamado não podia ser melhor: foi durante a entrega do segundo relatório anual sobre a situação dos direitos humanos no Chile.“Este ano presenciamos mobilizações e o mais provável é que a cidadania se mantenha exigindo e demandando por seus direitos e isto requer mudanças, entre elas o decreto 1.086 que regulamenta as manifestações neste país”, declarou a diretora.Ela acrescentou de forma contundente: “isso deve ser debatido no Congresso. Tomara que o governo apresente um projeto de lei. Nós fazemos um chamado neste sentido, para que possamos debater o que estamos entendendo hoje em dia por ordem pública”.Dentro dos resultados do relatório de direitos humanos destacaram-se as manifestações estudantis, como o início de um despertar cidadão; a atual situação de superlotação carcerária, que o incêndio na prisão de San Miguel revelou e que custou a vida de 81 réus há um ano; a diversidade sexual e os direitos dos povos indígenas, bem como a questionada homenagem a Miguel Krassnoff, o ex-militar condenado a mais de 140 anos de prisão por violações aos direitos humanos.Chamou a atenção que não comparecesse nenhum representante do governo à entrega do relatório, mesmo tendo sido enviados convites oficiais, assegurou Fries. “Isso teria sido o correto em uma atividade como esta, pois as autoridades são as que devem garantir e respeitar os direitos humanos no Chile”.De fato, a ausência dos oficiais foi criticada pelo atual presidente do Senado, o opositor Guido Girardi.“Lamento muito que o governo não tenha participado deste evento, que tem a presença de todos os atores de direitos humanos nacionais e internacionais e lamento que o governo tenha uma atitude de indiferença com os direitos humanos, quase de desprezo”, assegurou o senador.Após o não comparecimento de representantes do governo, a diretora do Instituto Nacional de Direitos Humanos disse que iria até o Palácio de La Moneda para entregar pessoalmente a Sebastián Piñera o relatório anual do organismo.Por parte do governo, o ministro porta-voz do palácio presidencial, o direitista ex-senador Andrés Chadwick, enfrentou Fries por meio das redes sociais – como é de praxe neste governo – e a desafiou a não se comportar como “dirigente de ONG”. “Quando se dirige um Instituto do Estado como o de Direitos Humanos deve-se ter ‘estatura’ de Estado e não se comportar como dirigente de ONG”, sustentou com uma ironia bastante infeliz, além de qualificar as palavras da diretora de “insólitas”.Finalmente, o relatório considerou uma análise da atuação da força pública durante as diferentes manifestações e movimentos sociais que se prolongaram no decorrer de 2011.* Tradução: Libório Júnior.** Publicado originalmente na Carta Maior.


por Christian Palma, correspondente da Carta Maior em Santiago
Voluntário coloca livros danificados para secar no jardim do Instituto (Reprodução/The Guardian) Mundo

Egito perde parte da sua história em confrontos

[caption id="attachment_37354" align="alignleft" width="270" caption="Voluntário coloca livros danificados para secar no jardim do Instituto Foto: Reprodução/The Guardian"][/caption]Acadêmicos egípcios e voluntários lutam para salvar milhares de manuscritos raros destruídos em incêndio no Instituto do EgitoVoluntários em jalecos brancos, luvas cirúrgicas e máscaras na parte de trás de uma picape ao longo das margens do Rio Nilo, no Cairo, remexiam pilhas de raros manuscritos de 200 anos que eram um pouco mais que restos de carvão.Os voluntários, que iam desde acadêmicos a cidadãos estarrecidos, passaram os últimos dois dias tentando salvar o que resta de alguns dos 192 mil livros, jornais e manuscritos, que se tornaram escombros nos últimos ataques violentos no Egito.O Instituto do Egito, um centro de pesquisas criado por Napoleão Bonaparte durante a invasão francesa no final do Século 18, pegou fogo durante os confrontos entre manifestantes e militares egípcios no final de semana. Ele abrigava um tesouro em escritos, especialmente os manuscritos em 24 volumes Description de l’Egypte, que começaram durante a ocupação francesa de 1798 a 1801. Eles incluem 20 anos de observações de mais de 150 acadêmicos franceses e cientistas, e continham uma das descrições mais abrangentes dos monumentos egípcios, sua civilização antiga e vida contemporânea na época. Estão agora queimados sem chances de reparação.Seu antigo abrigo, o prédio de dois andares do instituto histórico próximo à Praça Tahir, está agora correndo risco de desmoronar depois que o telhado cedeu. “O incêndio de um prédio tão rico significa que uma grande parte da história egípcia acabou”, disse Mohammed al-Sharbouni, diretor do Instituto, no final de semana.Al-Sharbouni disse que a maior parte do conteúdo foi destruído pelo fogo, que durou mais de 12 horas no sábado. Bombeiros inundaram o prédio com água, aumentando o estrago. Durante os confrontos do dia anterior, partes do Parlamento e o escritório de uma autoridade dos Transportes pegaram fogo, mas essas chamas foram apagadas rapidamente.Enfrentamentos continuamA violência irrompeu no Cairo na sexta-feira, 16, quando forças militares guardando um prédio do governo, próximo ao Instituto, reprimiram uma manifestação pacífica de três semanas para exigir que os generais governantes entregassem o poder a uma autoridade civil. Pelo menos 14 pessoas morreram. Zein Abdel-Hady, que administra a principal biblioteca do país, está liderando os esforços para tentar salvar o que restou dos manuscritos carbonizados. “Isto é o mesmo que queimar livros de Galileu”, disse, se referindo ao cientista italiano cujo trabalho propondo que a Terra girava ao redor do Sol teria sido queimado em um protesto no Século 17.Abaixo do escritório de Abdel-Hady, dúzias de pessoas vasculharam os montes de restos trazidos da biblioteca. Um homem em jaleco cirúrgico carregou uma pilha de papel queimado nos seus braços cuidadosamente espalhados, como se estivesse embalando um bebê. A equipe de resgate usou jornais para cobrir alguns livros parcialmente queimados. Máquinas grandes embalaram a vácuo papel delicado.Pelo menos 16 carregamentos de caminhão com cerca de 50 mil manuscritos, alguns irreparavelmente danificados, foram deslocados das calçadas do lado de fora da embaixada norte-americana e da American University do Cairo, ambos perto do Instituto queimado, para a biblioteca principal, disse Abdel-Hady. Ele disse à Associated Press que não há como saber o que foi perdido para sempre no momento, mas o material vale dezenas de milhões de dólares. “Não dormi por dois dias e chorei muito ontem. Eu não gosto de ver um livro queimado”, disse ele. “O Egito todo está chorando.”Ele disse que existem quatro outras cópias manuscritas do Descrição do Egito. A obra francesa também foi digitalizada e está disponível online. Pode ter existido um mapa do Egito e Etiópia, datado de 1753, que foi destruído pelo fogo. No entanto, há outra cópia original do mapa na Biblioteca Nacional do Egito, disse ele. O Instituto danificado também abrigava cartas do Século 16 e manuscritos que foram amarrados e arquivados como livros.No momento, o inventário mais acessível para o que estava abrigado no Instituto está em um livro mantido na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, de acordo com William Kopycki, um diretor da biblioteca. Ele disse que a obra do Instituto era essencial para pesquisadores de história egípcia, estudos árabes e egiptologia. Uma fileira dupla de manifestantes cercou o prédio na segunda-feira, 19.Em uma coletiva de imprensa também na segunda-feira, um general do conselho militar governante disse que uma investigação estava sendo feita para descobrir quem pôs fogo no prédio. A televisão estatal levou ao ar imagens de homens à paisana queimando o prédio e dançando ao redor do fogo na tarde de sábado. Manifestantes também se aproveitaram do fogo, usando o terreno do Instituto para arremessar bombas e pedras em soldados no topo dos prédios próximos.Um coronel militar, ajudando nos esforços de resgate na biblioteca, disse que cerca de dez soldados foram designados para ajudar os voluntários. O voluntário Ahmed el-Bindari disse que os militares têm sua cota de responsabilidade por usar o telhado como uma posição para atacar protestantes antes de o fogo irromper. “Quando o governo quer proteger algo, eles protegem. Tente atingir os prédios do ministério do Interior ou da Defesa. Você não vai conseguir”, disse el-Bindari.* Publicado originalmente no jornal The Guardian e retirado do site Opinião e Notícia.


por Redação The Guardian
e10 Trabalho

Mesmo com acordo, Zara pode entrar na “lista suja”

Três oficinas que produziam roupas para a empresa foram flagradas com imigrantes ilegais em situação de trabalho escravo. A Zara pediu desculpas, assumiu parte da responsabilidade e sustentou que os casos foram isolados. Desde então, vinha anunciando ações junto a seus fornecedores, mas faltava um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho, o que veio a acontecer nesta segunda (19). O documento final não é tão forte quanto o que foi apresentado inicialmente pelo MPT na primeira tentativa de acordo no dia 30 de novembro. Ele pode ser lido como um instrumento para balizar e monitorar as ações da Zara daqui para a frente, mas não para compensar o dano causado no passado. Apesar disso, atores envolvidos veem um avanço no combate ao trabalho escravo no setor com o documento.Mesmo com o acordo, a Zara ainda corre o risco de ser incluída no cadastro de empregadores flagrados com mão de obra escrava, conhecido como a “lista suja”. Fontes no Ministério do Trabalho e Emprego ouvidas pelo blog informaram que a assinatura do TAC, por mais que demonstre boa vontade da empresa e uma mudança de comportamento quanto à sua cadeia produtiva, não influencia no trâmite das autuações. Caso confirmadas, após processo administrativo que conta com defesa da empresa, elas podem levar a Zara à lista.Quem é nela incluído, permanece por pelo menos dois anos, período durante o qual deve mostrar que não reincidiu no crime e quitou as pendências com o governo. Instituições públicas de financiamento e empresas privadas utilizam a “lista suja” para evitar negócios. Grandes empresas, como a gigante de energia Cosan, já passaram pela relação, que está sob responsabilidade do Ministério do Trabalho e Emprego e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.Segue matéria de Bianca Pyl e Daniel Santini, da Repórter Brasil, que acompanharam todo o processo de assinatura do TAC desde as negociações iniciais.O acordo final prevê o desembolso, por parte da empresa, de apenas 17% (R$ 3,4 milhões) do valor de indenização por dano moral coletivo (R$ 20 milhões) que havia sido inicialmente proposto pelo MPT. Além disso, o próprio termo “reparação por dano moral coletivo”, presente na primeira versão do TAC, foi substituído por “investimentos sociais”. Na prática, o documento se baseia em medidas que o grupo empresarial decidiu assumir daqui para frente, mas não estabelece um vínculo direto com os casos de escravidão contemporânea verificados pela fiscalização trabalhista.De acordo com Luiz Fabre, procurador do trabalho responsável pela negociação, o MPT concordou em abrir mão de 83% (R$ 16,6 milhões) da proposta inicial diante da concordância da Zara em assumir a responsabilidade jurídica pelas condições de trabalho praticadas no conjunto de sua cadeia de produção daqui em diante. Para ele, esse item, que motivara a resistência da empresa quando foi apresentada, significa um precedente importante para o combate à escravidão no setor têxtil, ou seja, um “ganho jurídico para a sociedade”.Além disso, o procurador declarou ter levado em conta os valores pagos por agentes envolvidos em casos semelhantes, além da “espontaneidade e boa vontade da empresa em assumir um compromisso sério”. Também pesou na decisão, segundo o membro da Procuradoria Regional do Trabalho da 2ª Região, o fato de que a quantia atende os projetos previstos no TAC.“Não usar o termo dano moral coletivo no TAC foi por conta da boa fé da empresa. Consentimos pelo não reconhecimento de culpa, que cabe ao Judiciário. Mas, a partir de agora, se for flagrado trabalho escravo na cadeia produtiva, a Zara será responsabilizada”, destaca Luiz. Ele acredita que, mais do que o temor relacionado a uma disputa judicial a partir de uma ação civil pública, o que motivou a empresa, que é considerada a companhia mais valiosa do mundo no setor têxtil, a assinar o acordo foi a pressão dos consumidores que reagiram diante da repercussão do caso na imprensa.Sobre a ausência de menção a danos morais no acordo estabelecido, a assessoria de imprensa da Zara reafirma a tese de que não tinha conhecimento do uso de trabalho escravo até então e, por isso, as oficinas contratadas foram responsabilizadas. Alega ainda que, assim que a denúncia foi feita, todas as providências foram tomadas imediatamente. O episódio, ainda segundo a assessoria, serviu para que o monitoramento da cadeia fosse aprimorado. O grupo promete tomar providências diretas em casos como este no futuro e espera influenciar já outras empresas do setor.Outra diferença substancial entre a proposta inicial e o TAC que foi assinado diz respeito às subcontratações. O primeiro texto proibia as “quarteirizações” e “quinteirizações”, que tende a fragilizar e precarizar as relações de trabalho, com relação ao “objeto principal do serviço contratado”. As referências a punições para as subcontratações não estão mais presentes no TAC assinado. Os subcontratados são inclusive incorporados como “terceiros”.Apesar das diferenças entre o que foi originalmente proposto e o que acabou sendo de fato acertado, integrantes do poder público que participaram da negociação apontam avanços. De acordo com Luís Alexandre Faria, auditor fiscal da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, que coordenou a operação que encontrou trabalho escravo em duas oficinas que produziam peças da Zara na capital paulista, o TAC pode ser considerado um divisor de águas por prever medidas de responsabilização direta. “Este é o único caso em que a empresa assume de fato toda a sua cadeia produtiva”, diz.A Zara se comprometeu a realizar inspeções mais rigorosas em fornecedores e terceiros. Caso problemas sejam encontrados, a empresa se comprometeu em tomar providências para saná-los por meio de um plano de ação e em notificar as autoridades sobre o fato. Caso o flagrante seja realizado diretamente pelo Ministério do Trabalho e Emprego ou pelo MPT, a empresa terá que arcar imediatamente com uma multa de R$ 50 mil. Os moldes do monitoramento da cadeia produtiva, na análise de Luís Alexandre, seguem as bases do que já vem sendo defendido pelo Programa de Combate ao Trabalho Escravo Urbano da Superintendência.Parte dos R$ 3,4 milhões de “investimento social” – e não de reparo por danos morais coletivos – será destinada a um fundo de emergência, administrado pela Pastoral do Migrante e pelo Centro de Apoio ao Migrante (Cami), para auxiliar vítimas de trabalho escravo. Parte vai para aparelhar órgãos públicos para o combate ao trabalho escravo.Para baixar a íntegra do acordo entre o MPT e a Zara, clique aqui.* Publicado originalmente no Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto*
12 Cidades

Diálogos Capitais – A questão ambiental: Desafios do Século 21

A crise global exige a urgente adaptação dos diversos organismos sociais e a velocidade das transformações questiona o surrado adágio que vê oportunidades ocultas no seio da crise. Os mais preparados podem, sim, aproveitar as melhores oportunidades, mas essa dinâmica não reduz a concentração do poder econômico, nem sinaliza parcimônia voluntária no uso dos recursos naturais. Ainda assim, o agravamento da crise ambiental parece despertar a consciência dos cidadãos, empresas e organizações sociais para criar e aplicar métodos mais eficientes para a transição rumo à sustentabilidade. Esta teia de contradições e soluções foi o centro do debate realizado no dia 21 de novembro, no seminário “A Questão Ambiental – O Grande Desafio do Século 21”, da série Diálogos Capitais, uma parceria de CartaCapital com a revista digital Envolverde.Na palestra de abertura, “Economia Verde e Justiça Social”, o professor titular de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Ladislau Dowbor, disse que a transição para a sustentabilidade deve enfrentar dilemas críticos, como a necessidade de investir maciçamente em transporte público nas cidades, em substituição ao modelo no qual os governos oferecem às montadoras incentivos para vender mais e garantir empregos, exigindo obras para acomodar automóveis que mal se locomovem pelas vias congestionadas. “É preciso resgatar a dimensão pública do Estado”, sugeriu. “O Congresso tem a bancada das montadoras, a das empreiteiras, a dos produtores rurais, mas não tem a bancada do cidadão!”Dowbor mostrou a sofisticada versão global da desigualdade, segundo estudo do Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica: “Apenas 737 atores, companhias ou indivíduos, controlam 80% das empresas transnacionais. Metade delas, 40%, está concentrada nas mãos de apenas 147 atores. Formam uma poderosa rede, na qual três quartos são intermediários financeiros”. Com tal concentração das decisões econômicas, “prevalece a lógica da ‘desresponsabilização’ na exploração dos recursos naturais com impacto global, já que não há poder regulador planetário, enquanto os Estados nacionais disputam a atração de capitais e, portanto, não têm vontade nem instrumentos para restringir essas megacorporações”. Ele acredita que as soluções estão nas cidades, onde “a sociedade organizada funciona em torno de seus interesses”. Mencionou, por exemplo, o caso da Suécia, onde a carga tributária corresponde a 66% da renda (no Brasil está em 38%), mas são tomadas nas cidades, de forma descentralizada, as decisões sobre como investir 47% dessa carga. “Na média, cada sueco participa de quatro organizações sociais para defesa de seus direitos”, explicou.Municípios verdesA participação é fundamental não apenas nas metrópoles. Uma experiência brasileira que confirma esse poder transformador é a de Paragominas, no sul do Pará, uma das campeãs do desmatamento no passado. “Além da ausência do governo na fiscalização, a impunidade era consequência do fato de que não se sabia quem era o dono da terra”, contou Mauro Lucio Costa, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas – município com área maior do que Sergipe. Ele lidera um movimento para fazer o Cadastro Ambiental Rural, que até março deste ano já havia identificado 94% das fazendas com perímetros georreferenciados. Agora, sabendo quem é o proprietário, a Prefeitura e o Sindicato têm a informação necessária para coibir as infrações. “Nosso objetivo é orientar o proprietário, mostrando que para produzir não é necessário desmatar, e é muito melhor aplicar o conhecimento técnico para ter mais eficiência, como estamos fazendo de maneira compartilhada com ótimos resultados.”Esse esforço tem o apoio da ONG The Nature Conservancy (TNC) e do Fundo Vale, que atuam conjuntamente no Programa Municípios Verdes, do governo do Estado do Pará, para promover a redução drástica e contínua do desmatamento. Criado pela  Vale, o Fundo Vale é uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) independente, que coopera com entidades públicas e do terceiro setor na gestão de projetos de sustentabilidade. “Somar esforços é a grande saída, porque o modelo assistencialista não resolve”, disse a gerente do Fundo Vale, Mirella Sandrini. “Monitorar e reduzir o desmatamento é fundamental na Amazônia, que gera apenas 8% do PIB mas é responsável pela emissão de 55% dos gases de efeito estufa do Brasil.” Esse objetivo, segundo ela, é ainda mais significativo diante dos investimentos em infraestrutura previstos para a região nesta década: mais de R$ 200 bilhões para grandes obras, principalmente para transportes e geração de energia. A consequência dessa atividade econômica é a intensificação da ocupação do território, por isso Mirella vê o ordenamento fundiário, a melhoria das condições de vida da população local e o incentivo a atividades produtivas não predatórias como eixos para o desenvolvimento sustentável da região.O objetivo é desviar da trajetória de erros estratégicos que embalou o sonho da ocupação a qualquer preço. “Até os anos 1990, os governos financiaram a migração de brasileiros de outras regiões para que fossem cultivar os solos pobres da floresta”, lembrou o engenheiro Adalberto Veríssimo, pesquisador do Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), que também colabora com o Programa Municípios Verdes. “O monitoramento a partir de 2003 foi fundamental: o desmatamento anual caiu de 28 mil para sete mil quilômetros quadrados em 2010”, comemorou. Este resultado, segundo ele, proporcionou maior redução da emissão dos gases de efeito estufa do que todos os projetos aprovados pelas normas do Protocolo de Kyoto.Riscos sistêmicosAs mudanças climáticas representam um dos três riscos sistêmicos apontados pelo empresário Ricardo Young, conselheiro do Instituto Ethos, na palestra sobre “Oportunidades de uma Economia Sustentável”. Ele citou documento do Fórum Econômico Mundial que relaciona os outros riscos: a crescente desigualdade econômica entre países e a ineficácia da governança global (das Nações Unidas), que exige consenso entre Estados nacionais para decisões multilaterais. Young mencionou também o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, para quem a especulação financeira – “que vive do sacrifício fiscal dos países” – está na raiz da atual crise econômica e ameaça a própria democracia. “Vários países da Europa vivem uma situação de suspensão constitucional, um novo tipo de Estado de exceção que não visa a perigosos terroristas, mas, sim, aos cidadãos comuns, seus salários e pensões.”Na visão de Young, a contaminação global por esses riscos sistêmicos pode, no entanto, ser estancada por tendências opostas, como as novas dinâmicas sociais e políticas (a exemplo das manifestações mobilizadas por redes digitais), a intensificação da inovação tecnológica e principalmente a condição das cidades como “territórios para a transformação sustentável – uma tendência à ‘localização’ em contraste com a globalização que prevaleceu desde os anos 1980”. “No Brasil, principalmente, as grandes oportunidades de negócios sustentáveis estão nas cidades, onde vive 84% da população em menos de 1% do território”, disse o empresário.Olhar abrangenteÉ a confirmação dessas tendências e oportunidades que vem provocando mudanças no modelo de gestão das empresas. “Não dá mais para olhar só para a questão financeira; tem de incluir a questão social e a ambiental”, afirmou a diretora de Sustentabilidade da BM&F Bovespa, Sonia Favaretto. A incorporação dessas outras dimensões ao universo empresarial indica, segundo ela, que a sustentabilidade está se tornando uma condição básica para competir, e não mais um diferencial de heróicas companhias desgarradas do mercado.Essa visão mais abrangente dos negócios é que motiva a rede de supermercados Walmart a integrar em sua estratégia a busca por uma posição de liderança em sustentabilidade e responsabilidade social corporativa, sem prejuízo da meta de melhorar a rentabilidade com crescimento acelerado. “Faz parte do nosso compromisso com o meio ambiente reduzir o consumo de água, de energia e a emissão de gases de efeito estufa na operação das lojas”, relatou a vice-presidente de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade, Daniela de Fiori. Também a gestão de resíduos tem metas de redução da destinação de lixo a aterros sanitários, o volume de embalagens em toda a cadeia de abastecimento, e o uso de sacolas plásticas deve cair 50% até 2013. O compromisso abrange também programas de agricultura sustentável – que já orientou mais de dez mil famílias em 12 Estados desde 2004 – e de logística de transportes, para melhorar a eficiência energética desse elo na cadeia de suprimentos. “Nosso objetivo é ter o maior grau de sustentabilidade de ponta a ponta”, garantiu Daniela, “sem que isso implique aumento de preços dos produtos nas gôndolas”.O financiamento da economia também pode induzir a adoção de práticas sustentáveis. “A análise do risco socioambiental é um dos critérios para concessão de crédito no Santander”, informou o gerente de Desenvolvimento Sustentável, Nasser Takieddine. O programa de microcrédito, segundo ele, atendeu a 800 mil clientes com R$ 1 bilhão em empréstimos desde 2002. Além disso, o banco é o gestor do Fundo Ethical de investimentos, que reúne ações de 43 companhias eleitas por atenderem padrões de gestão socioambiental e transparência corporativa, e rendeu 30% mais que o índice Ibovespa nos últimos dez anos.A Dow Química, outra megacorporação, também está trabalhando para alinhar suas práticas. “Atuamos como provedora de soluções, fornecendo matéria-prima para empresas que fornecem matéria-prima para a indústria de consumo. São nove elos na cadeia produtiva antes de chegar ao consumidor”, explicou Christianne Canavero, gerente de Sustentabilidade da Dow América Latina. Para dar conta de integrar a sustentabilidade em operações tão complexas, um ambicioso conjunto de metas foi estabelecido para 2015. Maior eficiência e conservação de energia, redução da pegada de carbono em matérias-primas e inovação contínua na busca de soluções inteligentes fazem parte dessas metas, como por exemplo a produção de polietileno de cana, em substituição ao petróleo. Christianne citou também que a fábrica em Aratu (BA) vai ter 75% da energia fornecida pelo sistema de cogeração hídrica e biomassa até o final de 2012.O panorama apresentado no seminário Diálogos Capitais confirmou que o enfrentamento da questão ambiental é um desafio para toda a sociedade. Os palestrantes dos vários setores abordaram o tema desde do ponto de vista global, de corporações e governos, até da perspectiva local dos cidadãos, num mundo em constante e acelerada transformação. Em todos os contextos, mostrou-se que sustentabilidade não é um conceito teórico para plasmar um modismo de curto prazo. Planejar uma nova economia, socialmente inclusiva e ambientalmente responsável, é uma questão de sobrevivência não só dos negócios como também da democracia participativa ameaçada pela desigualdade.*Savio de Tarso é jornalista e colaborador da Envolverde.


por Savio de Tarso*, da Envolverde
"O etanol deveria ter o mesmo tratamento da gasolina" afirmou o presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar, Marcos Jank. Foto: Agriculturasp Brasil

Usineiros pedem redução de impostos do etanol

[caption id="attachment_36741" align="aligncenter" width="425" caption=""O etanol deveria ter o mesmo tratamento da gasolina", afirmou o presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar, Marcos Jank. Foto: Agriculturasp"][/caption]As vendas de etanol, entre abril e 1º de dezembro de 2011, somaram 14,61 bilhões de litros, 17,95% abaixo do volume vendido na safra passada. Desse total, 13,08 bilhões de litros foram destinados ao mercado doméstico e 1,53 bilhão de litros à exportação.A produtividade da cana no período agrícola 2011-2012 foi a menor em 24 safras. No acumulado da safra, até o fim de novembro, foram produzidos 20,38 bilhões de litros de etanol, sendo 7,89 bilhões de litros de álcool anidro e 12,49 bilhões de litros de hidratado. A produção de açúcar somou quase 31 milhões de toneladas.Até 2020, a expectativa dos usineiros é dobrar a produção, de 555 milhões de toneladas para 1,2 bilhão de toneladas. Para atingir esse resultado, o diretor da Única, Antônio de Padua Rodrigues calcula que serão necessárias 120 novas usinas. “Precisamos produzir muito mais cana para atender a todos os mercados que a gente tem e, para isso, precisamos de políticas públicas e privadas também.”Do que foi processado na segunda quinzena de novembro, 44,58% foi para a fabricação de açúcar (498,6 mil toneladas). A produção de etanol, por sua vez, somou 383,8 milhões de litros, sendo 99,6 milhões de litros de álcool anidro e 284,2 milhões de litros de hidratado.Segundo o gerente de Produtos do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) Luiz Antonio Dias Paes “Essa safra foi um desastre total em termos de produtividade”, consequência do clima, com ocorrência de geadas e estiagens prolongada no inverno, e a menor renovação do canavial, resultado da crise econômica.Diante de uma safra considerada desastrosa por técnicos do setor, o presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, afirmou que é preciso dar competitividade ao etanol brasileiro. A medida mais importante, para o representante dos usineiros, é a desoneração tributária do etanol, em especial do Programa de Integração Social (PIS) e Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins). Atualmente, as usinas pagam 9,25% de PIS/Confins.“Estamos estimando que, em 2020, vamos produzir 1,2 bilhão de toneladas de cana e 40% dessa cana vai para a produção de etanol. E a grande questão é a competitividade. O mais importante é a redução dos tributos que são cobrados sobre o etanol”, explicou Jank.Segundo ele, o etanol deveria ter o mesmo tratamento da gasolina, beneficiada pela redução da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide). “Entendemos que o etanol tem que passar pelo mesmo processo. Hoje, a tributação que incide sobre a gasolina está na faixa de 35% do preço de bomba e a do etanol, em 31%. Achamos que deveria também haver redução sobre o etanol (para torná-lo mais competitivo).”* Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação EcoD

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Ao consumir bebidas e alimentos no carro ou na rua guarde o lixo até encontrar uma lixeira apropriada. Melhor ainda se ela for seletiva, separando o lixo orgânico do seco.Mais importante que limpar é não sujar. Fonte: Blog da Gisele.
Utilize uma bacia ou a própria cuba da pia para lavar frutas e legumes. Lavando-os sob uma torneira aberta, muitos litros de água serão gastos sem necessidade. Fonte: Viva mais verde.
Os aeradores são dispositivos que podem ser instalados nas torneiras para misturar a água corrente com o ar. Assim, menor volume de água é utilizado com a mesma eficiência. Fonte: Viva Mais Verde.

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Os três componentes principais da biomassa da cana-de-açúcar são a celulose, a hemicelulose e a lignina. Foto:EcoD

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Frases a laser são projetadas nos prédios gêmios da Câmara dos Deputados, em Brasília. Foto: Divulgação

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Marta Azevedo, a primeira mulher no cargo de presidenta da Funai. Foto: José Cruz/ABr