Por que é tão difícil ser brasileiro: economia, cultura, sociedade e política

Sociedade

Por que é tão difícil ser brasileiro: economia, cultura, sociedade e política


por Diego Conti*


  [caption id="attachment_97316" align="alignleft" width="300"] Foto: Reprodução/Internet[/caption] A rede social é um dos grandes fenômenos para se identificar pensamentos coletivos e tendências da sociedade, trazendo a tona o que Manuel Castells chamou de ‘a sociedade em rede’. Outro dia acessando o Facebook li a seguinte mensagem em minha linha do tempo: “ser brasileiro não é para amador, é preciso ser herói para viver aqui”. Refletindo sobre aquele sentimento de um dos membros da minha rede, resolvi escrever este artigo, a fim de construir diferentes conexões entre as dificuldades econômicas, sociais e políticas que os brasileiros encaram todos os dias. Os desafios para se ter uma vida plena no Brasil são imensos, vão do campo às grandes cidades. Boa parte destes desafios nasce de traços culturais da nossa sociedade, onde um indivíduo quer levar vantagem sobre o outro – desde aquele que utiliza o acostamento ou o corredor de ônibus para escapar do congestionamento, até aquele que faz uso da propina e do suborno para se livrar de uma multa ou obter alguma vantagem, muitas vezes ilegal – são ações que permeiam as diferentes instituições e dimensões da vida dos brasileiros. Trata-se de uma sociedade com valores onde os fins justificam os meios, o que prejudica até mesmo regras básicas de convívio social, como o respeito às vagas de estacionamento destinadas aos portadores de necessidades especiais e aos idosos. Uma mudança cultural do individualismo para as causas coletivas está em andamento no Brasil, ainda que passando por um lento período de transição. O importante é que avanços já podem ser vistos, mas algumas questões sociais cruciais ainda levantam muita polêmica: o grande debate sobre a existência e a importância do Bolsa Família, apesar de seus benefícios já estarem mais do que comprovados, sendo superiores as suas disfunções; a resistência de uma minoria que está no poder pela implantação do imposto sobre fortunas, o que seria mais do que justo, uma vez que quem ganha mais deve pagar mais, na expectativa de se desonerar a carga tributária dos produtos e serviços, visando a redução da desigualdade social; as opiniões contrárias à existência de um sistema de cotas raciais, num país que atravessou séculos de escravidão dos negros, onde o preconceito ainda existe de forma velada – outro dia mesmo conheci um jovem interessantíssimo que foi preso sem ter infringido a lei; o seu “crime” foi ser mulato, pobre e morador de uma favela. São exemplos que demonstram o atraso com os princípios republicanos. O debate deve ser outro. Em uma das visitas que fiz a Cidade Tiradentes, bairro do extremo leste de São Paulo, conheci um morador que gastava em média 6 horas por dia em deslocamentos pela cidade, contabilizando apenas os caminhos entre sua casa e o trabalho. Ele era porteiro de um prédio no Brooklin, um bairro nobre da região sul, onde ganhava um pouco mais de um salário mínimo e uma cesta básica todos os meses. O seu traslado envolvia o uso de ônibus, trem, metrô e algumas caminhadas, uma vez que aqui não se planeja o sistema de transporte público de forma integrada e, tão pouco, com qualidade. Resumidamente pode se dizer que a vida daquele cidadão é como a vida de milhões de outros brasileiros, seja em São Paulo, no Belém ou em Manaus, uma realidade parecida com a da época da Revolução Industrial, onde a jornada de trabalho era de 14 a 16 horas ao dia (ao somarmos o tempo de deslocamento dos brasileiros que vivem em áreas periféricas ao tempo da jornada de trabalho, teremos algo como aquela época). A infraestrutura precária impede também o crescimento dos setores produtivos e coloca o país cada vez mais abaixo no índice de competitividade das nações, reflexo de um modelo construído pelos interesses de um sistema apropriado pelas grandes corporações de setores específicos. A relação fica evidente nos financiamentos das campanhas políticas, que no Brasil são em grande parte realizados pelas empreiteiras, pelas montadoras, pelos bancos e pelos grupos do agronegócio. Juntando os interesses desses três setores, como numa fórmula matemática, chegaremos ao seguinte resultado: 1) um espaço urbano pensado e construído para a ocupação dos automóveis, em detrimento das pessoas e do transporte coletivo, afinal é de interesse que se construam túneis, pontes, viadutos e que se vendam cada vez mais carros; 2) um setor logístico saturado, baseado no uso de caminhões e pequenos utilitários, subaproveitando os transportes ferroviários e fluviais, alimentando o modelo de construção de rodovias e a venda de automotivos; 3) um ambiente econômico desfavorável às micro e pequenas empresas, através da criação descabida de taxas e aumento de juros bancários, tudo dentro da lei; 4) uma economia manipulada por especuladores e intermediários financeiros, aumentando o custo de vida e fazendo com que a taxa de endividamento das famílias brasileiras seja cada vez maior; 5) uma verdadeira crise ambiental, alimentada pela falta de planejamento do crescimento das cidades, pelos constantes desmatamentos em áreas de florestas, pelo uso excessivo de defensivos agrícolas e pela criação do novo código florestal brasileiro, desencadeando danos irreversíveis à biodiversidade. Esta lista certamente poderia ser maior – a crise do setor elétrico, o lobby da indústria de petróleo, os especuladores do setor de grãos, a escassez da água doce, dentre outros temas – mas para este artigo nos cabe chegar até aqui. Esta convergência de problemas e crises é ocasionada principalmente pela falta de governança do sistema político, onde o governo planeja e executa ações sem a participação popular, seguindo as diretrizes dos seus grupos de interesse, sem contar a ausência de instrumentos formais de avaliação dos programas de governo. Dentre as tendências traçadas pela ONU está a da ‘Governança Participativa’, onde os processos de decisão e de articulação das políticas públicas passam para as mãos da população. Dessa forma, naturalmente o dinheiro público seria investido de uma forma eficaz, produzindo resultados e evitando a corrupção. Se assim fosse, certamente hoje não teríamos atingido a marca de R$ 30 bilhões de investimento público em obras da Copa do Mundo, principalmente empregados na construção de estádios, num país onde falta carteira, giz e lousa em boa parte das mais de 150 mil escolas dos 5.570 municípios brasileiros. Neste cenário fica evidente que o Brasil precisa urgentemente de reformas, principalmente no que diz respeito aos setores político e tributário. Reformas que passam por uma mudança cultural. Estas duas reformas, se feitas com profundidade, reduzirão a desigualdade social, tornarão o ambiente mais favorável ao empreendedorismo e aos investimentos internacionais, melhorarão a qualidade dos serviços públicos e o funcionamento dos três poderes, provocando as mudanças necessárias para a construção de uma nova nação. * Diego Conti é doutorando em administração e pesquisador do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC-SP. ** Publicado originalmente no site Mercado Ético.

Indígenas são o maior grupo de risco do país. Foto: Reprodução/ Internet Sociedade

Povos das florestas pedem que seus direitos sejam centrais nas ações de redução do desmatamento

[caption id="attachment_99799" align="alignleft" width="300"] Indígenas são o maior grupo de risco do país. Foto: Reprodução/ Internet[/caption] O Workshop Internacional sobre Desmatamento e os Direitos dos Povos das Florestas, realizado na Indonésia e que reuniu participantes asiáticos, latino-americanos e africanos, lançou na semana passada a Declaração de Palangka Raya. O documento pede que a comunidade internacional garanta e respeite os direitos dos povos nativos sobre as florestas, terras, territórios e recursos naturais conforme dispõe a legislação internacional. Os povos pedem pelo fim da produção, comercialização e consumo de commodities derivadas do desmatamento, da apropriação de terras e outras violações dos seus direitos. Eles denunciam a invasão das suas terras e florestas pelo agronegócio, indústrias extrativistas e por projetos de infraestrutura, energia e da “economia verde”. “As ameaças às florestas dos povos nativos são similares ao redor do mundo”, comentou Carmenza Tez Juogibioy, líder indígena da Colômbia. “O Estado e as empresas continuam com o desmatamento, apesar de isso violar os direitos das comunidades florestais.” A conferência ressaltou que os povos têm capacidades diferentes para salvaguardar as suas terras, enquanto apontou que os governos frequentemente não os respeitam, emitindo concessões de exploração para empresas sem o consentimento livre, prévio e informado. No fechamento do evento, os participantes se comprometeram a trabalhar em conjunto, formando uma rede global independente para monitorar, documentar, desafiar e denunciar a destruição das florestas e violações associadas. * Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.


por Fernanda B. Müller, do CarbonoBrasil
amizade Sociedade

Encontrar e cultivar as boas companhias

Nessa vida urbana corrida, passamos dias, semanas, meses e até anos sem visitar amigos. Em tempos de conexões rápidas e ao alcance de um clique no celular, já nos habituamos a “conversar” via redes sociais, mensagens de texto e outros aplicativos disponíveis e cada vez mais populares. Sou daquela geração que circulava de ônibus, brincava na rua, almoçava na casa ao lado e pegava carona no jantar do vizinho da esquina, que residia numa casa com quintal e que, além de flores, dispunha também de árvores frutíferas. Comia pitanga, ameixa, abacate, limão, manga, laranja in-natura, e de acordo com os meses do ano mais propícios para cada uma delas. Que delícia era subir, por exemplo, na ameixeira, escolher a fruta madura e degustá-la ali mesmo, sentado no galho mais próximo e sob o cúmplice olhar dos amigos. Uma parcela expressiva de crianças deste século pouco sabe sobre a origem das frutas. Pensam que elas são fabricadas pelos supermercados, e muitas só as conhecem como polpa pronta para virar suco. No final de semana passado, a convite de uma amiga querida, estive em Florianópolis, e lá pude vivenciar a pureza das relações de amizade, e cultivar o “velho” hábito de ir às casas de amigos. No intervalo de 48 horas apareci de “bicão” autorizado em uma celebração de aniversário num quase sítio bucólico que tinha uma praia “particular” no seu quintal; almocei um sensacional churrasco no apartamento de uma amiga que conheço há mais de trinta anos e encerrei as visitações degustando uma pasta com molho de berinjelas preparada com ternura por um casal de amigos com um charmoso sotaque italiano. Em boas companhias, experimentei sensações de alegria, felicidade, confiança, amizade, gratidão, solidariedade e percorri lugares belíssimos sob a batuta do guia turístico “amigo de fé, irmão e camarada” desde corredores da faculdade. Tudo isso aconteceu ao vivo, com o calor de abraços, sorrisos e daquela energia insubstituível. Por mais que muita gente considere que a vida acontece no Facebook, o bom é investir nos encontros ao vivo. Porque essas são as oportunidades que temos para ficar olho-no-olho, sentir o pulsar dos corações e compartilhar com amigos de longa data e com aqueles recém-conquistados os nutrientes que nos fazem crescer e superar os desafios da nossa existência. Por aqui fico, até a próxima. * Leno F. Silva escreve semanalmente para Envolverde. É sócio-diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. É diretor do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, membro-fundador da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade, e da Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra. Foi diretor executivo de sustentabilidade da ANEFAC – Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


por Leno F. Silva*
Foto: Diário do Centro Mundo Sociedade

Marco Civil da Internet: “O texto atual subverte tudo. Teremos uma espécie de América Online – AOL”

[caption id="attachment_109739" align="alignleft" width="300"] Foto: Diário do Centro Mundo[/caption] “O Marco Civil da Internet era um projeto reverenciado no mundo todo: várias organizações internacionais achavam o texto espetacular, uma proposta incrível, e aí nossos parlamentares conseguiram estragar o projeto”, lamenta o publicitário João Carlos Caribé. De referência internacional como normativa que define os princípios, direitos e deveres dos usuários da internet, o Projeto de Lei do Marco Civil, tal como está escrito atualmente, passou a ser criticado inclusive pelos ativistas que acompanharam a sua elaboração desde 2009. Entre eles, está João Carlos Caribé, que em entrevista à IHU On-Line, por e-mail, foi enfático em relação aos pontos inegociáveis a partir da proposta original. “Neutralidade da rede não se negocia de jeito nenhum, privacidade não se negocia de jeito nenhum, e a liberdade também não se negocia de jeito nenhum. Não abrimos mão desse tripé.” Caribé esclarece que o texto do Marco Civil foi alterado pela primeira vez na Casa Civil e a versão enviada à Câmara dos Deputados já propunha a quebra da neutralidade. “As modificações na questão de neutralidade estavam muito claras: conforme regulamentação. Ou seja, para quem não está ligado, essa expressão passaria sem maiores problemas”. Segundo ele, essa versão do texto é a que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) “chama de original, mas não é. O texto foi deformado para atender as empresas de telecomunicações. Além disso, esse é o texto que ele quer votar, porque quem vai regulamentar a rede será a ANATEL. E, por sua vez, a ANATEL já está com tudo pronto. (...) A ANATEL já fez a consulta pública acerca da neutralidade, já definiu mais ou menos como ela irá regulamentar isso e só está esperando o Marco Civil virar lei para regulamentar a neutralidade”, denuncia. Na avaliação de Caribé, as alterações feitas no texto original do Marco Civil demonstram as estratégias das empresas de telecomunicações. “Para elas, interessa que o Marco Civil não seja votado nunca; caso seja votado, elas vão tentar inserir o conceito de “liberdade de negócios” no texto. Ocorre que mais adiante, no Senado, elas tentarão derrubar o princípio da neutralidade. Ou seja, para as empresas de telecomunicações, o principal ponto de discórdia é a neutralidade da internet”, assegura. Na entrevista a seguir, o publicitário esclarece quais são os outros pontos de divergências em torno do Marco Civil, e assegura: “A internet justamente funciona porque é uma rede livre, onde todos podem criar e compartilhar conteúdo; é uma rede plural. Sem a neutralidade, tudo vai acabar. Nós vamos voltar a esse antigo modelo de rede com curadoria, com conteúdo priorizado ou com ‘guardas’, digamos assim. Será horrível”. João Carlos Caribé é publicitário, pós-graduado em Mídias Digitais e atua como consultor e ativista pelos direitos e inclusão digital. Seu blog é entropia.blog.br. Confira a entrevista: IHU On-Line - O Projeto de Lei do Marco Civil era considerado avançado, mas o texto foi modificado diversas vezes. Quais são os principais pontos de discussão e divergência em torno do atual texto do Marco Civil da Internet? Quais grupos defendem quais posições? João Carlos Caribé – O texto original era ótimo, mas depois de uma série de audiências públicas, foi elaborado outro, próximo do ideal. O problema é que existem configurações de forças muito fortes dentro da Câmara dos Deputados e, então, depois que o texto estava pronto e entrou em tramitação, essas forças começaram a atuar – ocorre que elas não participam do debate público, ou seja, agem sempre de portas fechadas – e se organizaram, num primeiro momento, em dois blocos dentro da Câmara: o bloco da Globo e o das empresas de telecomunicações e de copyright, que queriam que o Marco Civil inserisse o parágrafo 2º, o qual previa remover o conteúdo de copyright sem ordem judicial. Posteriormente, elaboramos uma proposta para melhorar um pouco isso, porque o texto estava muito ambíguo e permitiria que qualquer um, baseado nessa premissa, pedisse para retirar um conteúdo da rede. Eu mesmo utilizei uma figurinha do tamanho de um selo para ilustrar um texto, e mandaram retirá-la do ar, porque era a imagem de capa de um livro do Chris Anderson e, ao utilizá-la, eu violava os direitos autorais do escritor. Ou seja, conteúdos culturais são removidos da rede por conta de uma bobagem. Pior ainda foi o caso envolvendo a Folha de São Paulo e a Falha de São Paulo. Os membros da Folha colocaram a Falha na Justiça com uma série de argumentos de que eles violaram a marca “Folha”. Essa medida abriu um antecedente perigoso. Mas essa premissa do parágrafo 2º foi a condição que as empresas de comunicações e a indústria de copyright exigiram para passarem a apoiar o Marco Civil. Princípio de neutralidade As empresas de telecomunicações querem porque querem quebrar a neutralidade da rede, pois pretendem ganhar dinheiro com isso. Carol Conway, advogada do Universo Online, fez um estudo e descobriu que as empresas de telecomunicações lucram quatro vezes mais do que os bancos. Recentemente foi publicado um artigo mostrando que muitas dessas empresas mandam quase todo o seu lucro para o exterior. Ou seja, nós estamos utilizando telefone para financiar os países do Norte. Um dos problemas mais graves do governo Dilma e do sistema do governo em si é atuação por emoção. Com o episódio do Snowden, que divulgou as espionagens da NSA, alguém soprou no ouvido da Dilma dizendo que o ideal era que as empresas de conteúdo que atuam no Brasil tivessem Data Center. Mas este argumento serve a dois propósitos. Em primeiro lugar, não resolve o problema para o qual foi inventado, ou seja, ter o Data Center no Brasil não significa que os usuários terão seus dados protegidos. Muito pelo contrário, quer dizer que as organizações brasileiras poderão espionar os dados do usuário. Em segundo lugar, com o Data Center no Brasil, fica muito mais fácil de ter resposta de remoção de conteúdo. Em relação a isso, a proposta do Marco Civil era outra. Existem muitas ações de remoções de conteúdo do Google, do Facebook e de sites internacionais na Justiça brasileira, mas os membros dessas organizações alegam que o servidor deles está fora do Brasil, então eles não estão sujeitos às leis brasileiras e não irão remover nenhum conteúdo. Então, a utilização do Data Center, baseado nesse argumento, cai por terra. Nesse sentido, começaram a estragar o Marco Civil, e muitas normas de vigilância foram inseridas de última hora no texto. Liberdade de negócios Além disso, foi inserida na definição de neutralidade a expressão “liberdade de negócios”. Essa mudança, para mim – e alguns advogados também concordam com a minha preocupação –, é um gancho para as empresas de telecomunicações abrirem ações na Justiça para quebrarem a neutralidade com base na premissa de liberdade de negócios. Essa é a “pegadinha” que eles estão inserindo no código do Marco Civil. Não tem nenhuma explicação para esta expressão estar lá a não ser essa. A partir dessas alterações, você vê como foram estragando um projeto de lei que era maravilhoso. Era um projeto reverenciado no mundo todo: várias organizações internacionais achavam o Marco Civil espetacular, uma proposta incrível, e aí nossos parlamentares conseguiram estragar o projeto. Artigo 16 No novo texto também foi inserido o artigo 16 – que é um dos piores –, por pressão da Polícia Federal e dos bancos. Esse artigo permite, tecnicamente, que se registrem os meta-dados dos usuários. Ou seja, dentro do artigo 16 tinha a opção dos logs. O Marco Civil, quando foi criado, era justamente uma resposta ao AI-5 Digital do projeto Azeredo, que não tratava dos log, os quais seriam abordados no Marco Civil, que determinava o seguinte: provedor de conexão registra somente o log de conexão, que nada mais é do que o IP que ele deu ao usuário, e a data e a hora. O provedor de conteúdo, por sua vez, registra o acesso do usuário. Então, por exemplo, quando uma pessoa faz um comentário em um blog, ali fica registrado o IP dele e o horário em que entrou. O WordPress faz isso automaticamente, como o Facebook e o Twitter estão sempre registrando o IP e a hora em que a pessoa entrou. Mas isso aí, no texto original do Marco Civil, era algo facultativo, ou seja, não era obrigatório registrar esse acesso. Ou seja, o site de conteúdo só era obrigado a registrar esse acesso em caso de ordem judicial. O Marco Civil também proibia que o provedor de conexão registrasse o acesso às aplicações. Hoje, sem essa normativa, a Oi, por exemplo, usa uma ferramenta que foi supostamente banida da Inglaterra. Trata-se de um software que fica registrando tudo o que o usuário faz. Quando você conecta pela Oi, pela Velox, sua navegação é totalmente vigiada. A operadora registra todas as páginas que você visita para te oferecer publicidade diferenciada. Esse é o argumento da empresa. Mas isso é um perigo. IHU On-Line - Qual a influência das teles na mudança do Marco Civil tal como está escrito? João Carlos Caribé - As teles pressionaram, e Eduardo Cunha é o principal porta-voz delas. As teles têm duas estratégias: para elas, interessa que o Marco Civil não seja votado nunca; caso seja votado, elas vão tentar inserir o conceito de “liberdade de negócios” no texto. Ocorre que mais adiante, no Senado, elas tentarão derrubar o princípio da neutralidade. Ou seja, para as empresas de telecomunicações, o principal ponto de discórdia é a neutralidade da internet, a qual, em termos gerais significa o seguinte: tudo que trafega na internet, seja texto, vídeo, uma música, ou uma conversa feita pelo Skype ou pelo WhatsApp, ou qualquer coisa parecida, é transformado em pacotes de dados e viaja pela rede dessa forma. Então, a neutralidade significa que todos esses pacotes são iguais perante a rede, ou seja, não existe uma prioridade de um tipo de pacote baseado no seu conteúdo ou na sua origem. O que as teles querem fazer? Elas querem justamente o contrário, ou seja, querem poder restringir os pacotes de dados com base no seu conteúdo e sua origem. Quais são as implicações disso? Você está acostumado a utilizar um buscador que não é o Google, mas a empresa de telecomunicação não fez um acordo com esse buscador, e aí demorará uma eternidade para carregá-lo, enquanto o Google carregará em um instantinho. Você tentará fazer uma ligação no Skype e não vai conseguir porque a conexão estará péssima. A Virtua faz isso hoje com o YouTube, por exemplo. Você acessa um vídeo e o vídeo cai. Ou seja, eles fazem esse traffic shapping que é nada mais que a quebra da neutralidade. Eles gerenciam o tráfico de acordo com o pacote, com a origem e o destino. E para eles, é um ótimo negócio. Só que isso acaba completamente com a possibilidade de inovação da internet. Uma vez que se quebre a neutralidade, o usuário só terá contato com provedores de conteúdo, e só vai poder fazer negócio na internet quem tiver dinheiro. Então, as teles passarão a ser os donos da internet. E ela vai começar a ser fragmentada, segmentada. IHU On-Line – O texto rompe com a ideia central de liberdade e funcionamento da internet? João Carlos Caribé – O texto atual subverte tudo. Vamos deixar de ter internet para ter uma espécie de América Online - AOL. No início da internet, nos anos 1990, 1996, a América Online nos Estados Unidos era uma grande rede privada de conteúdo. Inclusive, o próprio Bill Gates, quando criou a MSN, que era Microsoft Net Work, uma rede concorrente à American Online, falou que a internet não iria dar certo, e quebrou a cara. A internet justamente funciona porque é uma rede livre, onde todos podem criar e compartilhar conteúdo; é uma rede plural. Mas sem a neutralidade, tudo vai acabar. Nós vamos voltar a esse antigo modelo de rede com curadoria, com conteúdo priorizado ou com “guardas”, digamos assim. Será horrível. Não vai nem fazer sentido chamar o que querem criar de internet. Poderemos chamá-la de “rede de conteúdos”, algo mais ou menos assim. E as teles insistem em uma tese ainda mais absurda: a de que o pobre só acessa e-mail. Entretanto, Mário Brandão, que é presidente da Associação Brasileira de Centro de Inclusão Digital - ABCDI, que são as Lan Houses, fala que acontece o contrário: a pessoas que utilizam as Lan Houses acessam muitos vídeos, fazem muito learnings, usam muito conteúdo multimídia, mais até do que você ou eu. Então, a proposta das teles está totalmente equivocada na sua concepção. IHU On-Line - Quais são as mudanças que você sugere no texto atual do Marco Civil? Que questões são inegociáveis comparando o texto original e o texto atual? João Carlos Caribé - Neutralidade da rede não se negocia de jeito nenhum, privacidade não se negocia de jeito nenhum, e a liberdade também não se negocia de jeito nenhum. Não abrimos mão desse tripé. Então, não queremos de jeito nenhum, entre outros, o artigo 16, porque ele não tem o menor sentido e acaba com o Marco Civil. Nós tivemos uma reunião em Brasília com vários coletivos da sociedade civil, e nessa reunião de dois dias elaboramos um documento que foi publicado no IBG e na Reuters. Nesse documento, fizemos uma crítica bem pontual ao Marco Civil, inclusive com algumas propostas de redação dos artigos que achamos ruins. O problema todo é que existe uma pressão muito grande em cima do próprio relator, e a tendência é que o texto vá ao Plenário do jeito que está, ou seja, com todos esses defeitos. O problema é que se votarem nesse texto e ele passar para o Senado, será uma desgraça. A Dilma, por exemplo, não tem o menor conhecimento de causa, é muito mal informada, e para ela, está tudo bem. O que o Paulo Bernardo fala ou o que outra pessoa fala, para ela, é o certo; ela é muito mal assessorada em relação à internet. Então, o Marco Civil, que era uma coisa maravilhosa, pode virar um terror. Enviamos uma carta para o Ministro da Justiça, para o relator, para o Presidente da Câmara e para a Presidente da República, dizendo qual é a nossa posição, que apoiamos o Marco Civil com determinadas condições. Mas aparentemente eles não estão querendo ceder nem a esses argumentos. IHU On-Line - Considerando a história e o contexto em que surge o Marco Civil, como o senhor avalia as diferentes posições em torno do texto? O que essa mudança revela acerca da postura do governo em relação ao projeto? Não dá para dizer que o governo não entende do assunto. João Carlos Caribé - O governo pode até não entender, mas quem mexeu no texto, entende. Sabe cara de babaca? Essa é a nossa cara diante das alterações do texto. Nós trabalhamos, nos engajamos no debate do Marco Civil, construímos, melhoramos, aprimoramos o texto em duas consultas públicas. O texto estava bem “afinadinho” e foi para a Casa Civil na transição dos governos Lula/Dilma. Aconteceu que dentro da Casa Civil já houve uma deformação do texto, porque o Ministro Paulo Bernardo já estava vendido para as empresas de telecomunicações. O Paulo Bernardo é uma vergonha; ele é o Ministro das Teles, não é o Ministro das Comunicações. O valor em dinheiro que ele já doou para as empresas de telecomunicações, em pacotes de bondades, chega a ser vergonhoso. Ele entregou o texto para a Câmara dos Deputados com algumas modificações. O texto foi enviado da Casa Civil para a Câmara, curiosamente, em um dia em que eu estava lá, fazendo um Seminário do PL Azeredo e, por acaso, eu estava na mesa para falar quando chegou a notícia de que o texto tinha acabado de ser enviado para a Câmara dos Deputados. Então nós fomos ver o texto, e as modificações na questão de neutralidade estavam muito claras: conforme regulamentação. Ou seja, para quem não está ligado, essa expressão passaria sem maiores problemas. Esse texto já alterado pela Casa Civil é o texto que Eduardo Cunha chama de original, mas não é. O texto foi deformado para atender as empresas de telecomunicações. Além disso, esse é o texto que ele quer votar, porque quem vai regulamentar a rede será a ANATEL. E, por sua vez, a ANATEL já está com tudo pronto, inclusive já houve consulta pública. E aí quando você começa a entender todas as jogadas, você percebe como esses caras jogam bem. A ANATEL já fez a consulta pública acerca da neutralidade, já definiu mais ou menos como ela irá regulamentar isso e só está esperando o Marco Civil virar lei para regulamentar a neutralidade. E como os conselheiros da ANATEL são indicados pelo governo, então a configuração da ANATEL, deste governo, está totalmente “ANATELIS”. Tem somente um conselheiro que é “pseudo sociedade civil”, mas que na verdade foi funcionário da Telemar. Então, as decisões da ANATEL são basicamente pró empresas de telecomunicações e contra o cidadão comum/usuário. * Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Patricia Fachin, do IHU On-Line
criancas Sociedade

Sobre crianças e mentes colonizadas

  Ao formar consumidores precoces, publicidade infantil inibe outras maneiras de socialização e sugere: relações humanas precisam ser validadas por mercadorias… No dia 15 de março comemorou-se o Dia Internacional dos Direitos do Consumidor. Nessa mesma data, em 1962, o então presidente dos EUA, John F. Kennedy, enviou uma mensagem ao congresso norte-americano chamando atenção da sociedade para garantias básicas, até então pouco conhecidas e negligenciadas como o direito de proteção contra propagandas e embalagens fraudulentas, o direito de escolha e informação frente aos produtos e o direito de ser ouvido. Ao formar consumidores precoces, publicidade infantil inibe outras maneiras de socialização e sugere: relações humanas precisam ser validadas por mercadorias… No dia 15 de março comemorou-se o Dia Internacional dos Direitos do Consumidor. Nessa mesma data, em 1962, o então presidente dos EUA, John F. Kennedy, enviou uma mensagem ao congresso norte-americano chamando atenção da sociedade para garantias básicas, até então pouco conhecidas e negligenciadas como o direito de proteção contra propagandas e embalagens fraudulentas, o direito de escolha e informação frente aos produtos e o direito de ser ouvido. A mensagem deixava evidente a urgência da questão. Porém, a primeira comemoração da data se deu em 1983, e foi somente dois anos depois que a ONU reconheceu os direitos dos consumidores, legitimando internacionalmente a causa. Já no Brasil, o Código de Defesa do Consumidor, um dos mais completos e ousados do mundo, entrou em vigência em 1990, dois anos após a promulgação da atual Constituição Federal, e pode ser visto como resposta do poder público aos anseios da sociedade civil em relação aos avanços desgovernados da sociedade de consumo. Curiosamente, é também dos anos 90 que muitos autores datam a crise conceitual da infância, pois foi quando as crianças, historicamente vistas e tratadas como um vir a ser que precisavam ser preparadas para o mundo adulto, foram elevadas pelo mercado ao status de consumidoras – antes mesmo de poderem exercer plenamente sua cidadania. Tidas até então como filhas de cliente, as crianças passaram a ser consideradas como consumidoras finais, tornando-se um alvo importante do mercado de consumo de produtos e serviços – um potencial nicho comercial. Foi nesse contexto que a publicidade dirigida às crianças entrou em cena com grande força. Passou a endereçar ao público infantil mensagens de apelo ao consumo, que se aproveitam da vulnerabilidade infantil para vender. Tornou-se, segundo pesquisa da Intersciense, de 2003, a principal influência de compras dos produtos infantis com embalagens e personagens famosos. Hoje, contudo, a publicidade não endereça às crianças somente mensagens de produtos infantis, mas também de objetos adultos. Isso deve-se ao fato deste público estar sendo encarado pelo mercado como porta de entrada para a influência nos hábitos de consumo de toda a família. Dados mundiais a esse respeito apontam que a influência das crianças nas compras realizadas pela família chega a 80% em relação a tudo o que é consumido, inclusive em relação a bens e serviços de interesse exclusivo dos adultos, como, por exemplo, marcas de automóvel, imóveis, produtos de limpeza etc. No Brasil, só a moda infanto-juvenil movimenta a soma anual de R$10 bilhões, o que corresponde a um terço de toda a roupa consumida no país. A partir desses dados podemos dizer que o mercado enxergou nas crianças uma rentável fonte de lucros, já que quanto mais cedo você fideliza a criança a uma marca, mais chances tem dela ser fiel à mesma do berço ao túmulo, como dizem os publicitários. Assim, aproveitando-se da fragilidade e vulnerabilidade infantil, o mercado passou, então, não somente a atrair os olhares das crianças, como a dirigir-se diretamente a elas com peças publicitárias feitas “sob medida”. Não foi à toa, portanto, que o Código de Defesa do Consumidor Brasileiro previu proteger as crianças de apelos de consumo, instituindo no Art. 37: “É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva (…)”, e explicando no seu parágrafo§2º que “É abusiva, dentre outras, a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeite valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança. (…)”. As crianças são convidadas pela publicidade – que lhes é ilegalmente dirigida – a ingressar cada vez mais cedo no complexo mundo adulto do consumo. A lógica do consumo domina as relações infantis e acaba restringindo a criatividade e as trocas afetivas das crianças, além de queimar etapas importantíssimas do seu desenvolvimento. A criança será, em função do tempo em que vivemos, uma consumidora no futuro. Logo, além de protegê-la legalmente da comunicação mercadológica, como já fizeram 28 países do mundo, incluindo os dez com melhor qualidade de vida –,precisamos prepará-la para que seja uma cidadã e consumidora consciente e responsável. Isso é feito com Educação, principal ferramenta no processo de transformação social. Lembre-se: educar, assim como consumir, é um ato político. Precisamos começar a educar nossas crianças para que tenham responsabilidade ao comprar. O direito à educação para um consumo consciente é não só um desafio, como também a solução para os problemas morais e ambientais de nossos tempos. O principal direito das crianças é o direito à infância. Pensemos no direito de escolha e de proteção de nossas crianças frente ao bombardeio publicitário que as convida a tornar-se adultas antes do tempo. Elas são o prefácio para um mundo mais ético e sustentável, e têm nas mãos o poder de reinventar as relações de consumo. Tudo depende de vontade política e atuação conjunta em duas frentes: regulação e educação. * Lais Fontenelle Pereira, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e autora de livros infantis, é especialista no tema Criança, Consumo e Mídia. Ativista pelos direitos da criança frente às relações de consumo, é consultora do Instituto Alana, onde coordenou durante 6 anos as áreas de Educação e Pesquisa do Projeto Criança e Consumo. ** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Lais Fontenelle*
Foto: http://www.shutterstock.com/ Inter Press Service - Reportagens

Preso por ser jovem, pobre e usar boné

[caption id="attachment_109721" align="aligncenter" width="529"] Cerca de 15 mil pessoas participaram, no dia 20 de novembro de 2013, da Marcha do Boné, na cidade argentina de Córdoba, denunciando a arbitrariedade policial contra os jovens, segundo sua aparência e condição. Foto: Cortesia do coletivo de Jovens por Nossos Direitos[/caption]   Córdoba, Argentina, 19/3/2014 – Na província argentina de Córdoba, basta ser jovem, moreno, pobre e usar boné para ser detido como suspeito. A arbitrariedade policial se ampara no crime de “merodeo” (vadiagem), um instrumento de prevenção do crime que viola direitos constitucionais. José María Luque, conhecido como Bichi, perdeu a conta de quantas vezes foi detido pela polícia por essas características, em Córdoba, capital da província de mesmo nome. Residente em um bairro humilde, Luque, de 28 anos, foi detido pela primeira vez quando tinha 13 anos e voltava da escola com um amigo, vestido com uniforme escolar. Ficou detido por uma semana. “Eles nos pararam, pediram documentos e nos levaram presos. Assim, sem mais nem menos. Inventaram uma acusação contra mim: tentativa de roubo qualificado e porte de arma de fogo. Saí por falta de provas”, contou Luque à IPS. Agora ele integra o Coletivo de Jovens por Nossos Direitos, que luta contra o abuso policial. Afirma que teve sorte porque sua família conseguiu pagar um advogado e não lhe restou antecedentes. Porém, essa não é a realidade de muitos jovens detidos com base no Código de Faltas, de Córdoba, aplicado desde 1994 e reformado em 2007. Um estudo da Universidade Nacional de Córdoba e da espanhola Universidade de La Rioja revela que 95% dos detidos por esse Código não têm acesso a advogados. “Com uma falta em seu prontuário não se tem acesso ao atestado de boa conduta, um dos requisitos mais solicitados pelas empresas na hora de contratar”, ressaltou Luque. O código pune condutas que supostamente prejudicam a convivência social, como escândalo em via pública, omissão de identificação, resistência à autoridade, alcoolismo, mendicância e ócio. Segundo o estudo, quase 70% dos infratores são acusados de vadiagem, uma falta muito polêmica que permite à polícia deter suspeitos de vadiar, o que o dicionário da língua espanhola define como “vagar pelas imediações de algum lugar, em geral, com maus objetivos”. O Artigo 98 do Código pune com multas e até cinco dias de detenção quem permanecer perto de veículos ou instalações urbanas ou rurais “em atitude suspeita, sem uma razão plausível, provocando intranquilidade entre seus proprietários, moradores, transeuntes ou vizinhos”. “É uma figura totalmente subjetiva e arbitrária. Não é explicada qual é a atitude que se deve ter para não ser detido”, apontou Luque, que trabalha desde adolescente e agora é pizzaiolo. Bichi e outros jovens de semelhante extrato social costumam apresentar um padrão que os identifica: bonés coloridos, calças esportivas e sapatos vistosos. Mas a polícia equipara esse hábito cultural com a presunção de culpabilidade. “Muitos detidos usam boné. O boné é suspeito”, destacou Luque, um dos organizadores da Marcha do Boné, que a cada mês de novembro, há sete anos, pede a revogação do Código de Faltas e que, em 2013, reuniu 15 mil pessoas. “Digam o que disserem, a acusação de vadiagem é aplicada para que, quando houver morenos com boné nos bairros da periferia, dando voltas por algum lugar, a polícia os detenha”, disse à IPS o advogado Claudio Orosz, representante em Córdoba da organização humanitária Centro de Estudos Legais e Sociais. Orosz atribui o Código a uma sociedade “conservadora e moralista”, herdeira da “repressão e do genocídio” da última ditadura argentina (1976-1983). Para este advogado de casos de crimes de lesa humanidade, por causa dessa cultura, os pobres sofrem o “labirinto kafkiano” da vadiagem. Segundo um estudo universitário, os detidos nesse contexto são majoritariamente jovens entre 18 e 25 anos dos setores desfavorecidos. Durante 2011, foram detidas 73 mil pessoas na província, 43 mil delas na capital. “Acontece sempre o mesmo: se vem de um lugar pobre, é pobre, tem certa forma de se vestir, tem certos traços físicos, uma determinada cor de pele, e já se é perigoso para a sociedade”, explicou Luque. Um dos pontos mais questionados do Código é que outorga atribuição de juiz ao delegado de polícia. Isso é uma ironia porque a polícia cordobesa é a que “estrutura e mantém os grandes problemas criminais, os que geram maior dano à sociedade, como tráfico de pessoas, narcotráfico, roubo de peças de carros e venda de armas”, disse Agustín Sposato, também integrante do coletivo juvenil. Outro agravante, segundo Orosz, são os precários sistemas de impressão digital e investigação de antecedentes nas delegacias de Córdoba. “Às vezes, demora-se três dias para saber se alguém tem antecedentes para depois ser solto, o que constitui verdadeiras privações ilegítimas de liberdade”, ressaltou. “É um sistema de controle social, formalizado pela polícia, que fere os controles básicos de constitucionalidade”, afirmou. Para Orosz, “o Código de Faltas entrega enorme poder de seletividade e de controle social às forças policiais, sem o controle judicial”. Luque sabe bem. “Nas vezes em que me detiveram, vivi essa sensação de privação ilegítima da liberdade, de sequestro, de não saber quando vai sair, não saber como avisar a família e os amigos que você está ali. A impotência é muito grande, muito obscura, muito feia”, enfatizou. O governador de Códoba, José Manuel De la Sota, apresentou, em 1º de fevereiro, um projeto de reforma do Código de Faltas, que o parlamento provincial está analisando. Sergio Busso, presidente do bloco legislativo da governante União por Córdoba, considera necessário manter a figura da vadiagem, porque é importante no combate à crescente insegurança da população na província. Ele disse à IPS que o Código “é um instrumento que regula e pune as condutas antijurídicas, que afetam o direito das pessoas ou da sociedade em seu conjunto e que, por serem leves, não chegam a configurar crime”. No entanto, Busso admitiu que são necessárias reformas, para que “a prisão e a multa só sejam aplicadas em situações especiais e em seu lugar sejam utilizadas mais as penas substitutivas e acessórias, como trabalho comunitário”. Além disso, para o parlamentar, deve mudar quem pune. O projeto propõe que a falta seja dirimida por promotores ou juízes específicos, e não policiais, “para separar quem julga de quem executa o procedimento” e para garantir “um olhar independente”. Segundo Orosz, isso já foi tentado e não se pôde aplicar porque o sistema judicial sofreu um colapso com a avalanche de casos. Busso explicou que a reforma contempla que a falta de vadiagem exija a denúncia prévia de um morador identificado. Mas Orosz criticou que esse denunciante é “igualmente subjetivo”. O advogado considera que se deve revogar o Código de Faltas e substituí-lo por outro de convivência, que estabeleça “quais são as condutas desejadas e mecanismos de resolução de conflitos que não sejam necessariamente a prisão”, como a mediação vicinal. Para o jovem Sposato, as reformas propostas “são uma maquiagem, para acalmar o clima de conflito social” na província. “O que está em jogo é a vida, os direitos das pessoas, a possibilidade de todos na província serem iguais”, destacou. Faltas versus direitos humanos Os códigos de faltas e contravenções, para tratar condutas ilícitas que não chegam a ser delitos penais, existem nas 23 províncias da Argentina e na Cidade Autônoma de Buenos Aires. Em 33% dos casos, é a polícia que detém, investiga e sanciona, o que propicia excessos e violações dos direitos humanos. Em 2003, o Tribunal Interamericano de Direitos Humanos condenou o Estado argentino pela detenção ilegal, em 1991, de Walter Bulacio, de 17 anos, durante um show em Buenos Aires, pelo Código de Contravenções. O jovem morreu vítima da brutalidade policial. O tribunal ordenou ao país adequar o ordenamento jurídico interno à Convenção Americana sobre Direitos Humanos e outras normas internacionais. Os códigos surgiram principalmente durante os regimes autoritários do século passado, mas foram atualizados pela democracia. Para muitas organizações humanitárias, um de seus problemas é que se introduzem dissimuladamente no âmbito penal, de competência nacional, criando de fato a figura de “delitos menores” provinciais. Além disso, boa parte deles são difusos nas contravenções, o que colabora para sua discricionariedade, e negam o direito à defesa, à livre circulação, à liberdade pessoal, ao devido processo e ao juiz natural, entre outras anomalias jurisdicionais e humanitárias. Fontes: Federação Argentina LGBT e Associação pelos Direitos Civis Envolverde/IPS


por Fabiana Frayssinet, da IPS
No Mali, mulheres participam do projeto Cotton-4, desenvolvido com apoio do PNUD Brasil. Foto: Ferdy Garcês/PNUD Brasil. Inter Press Service - Colunistas

O imperativo de atender as tarefas de cuidado

[caption id="attachment_66482" align="alignleft" width="300"] No Mali, mulheres participam do projeto Cotton-4, desenvolvido com apoio do PNUD Brasil. Foto: Ferdy Garcês/PNUD Brasil.[/caption] Nações Unidas, março/2014 – Nas discussões realizadas na Organização das Nações Unidas (ONU), sobre uma agenda de desenvolvimento mundial que em 2015 possa suceder os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), parece existir acordo quanto a igualdade de gênero e empoderamento das mulheres serem componentes essenciais. Há uma ampla evidência de que, nos países onde se conseguiu uma igualdade de gênero maior no emprego e na educação, também existem índices maiores de desenvolvimento humano e crescimento econômico. Também há consenso em que o empoderamento das mulheres é essencial para reduzir a pobreza e melhorar os resultados em matéria de saúde pública. Muitos defensores da igualdade de gênero promovem a inclusão de objetivos relativos a um maior acesso das mulheres às oportunidades de trabalho e à iniciativa empresarial, bem como um aumento na participação política das mulheres. Em nossos esforços para conseguir um desenvolvimento equitativo e sustentável, não podemos afastar o olhar das mulheres na cozinha, junto à cama dos enfermos e pegando água no poço. Sem prejuízo de que esses são objetivos louváveis que deveriam ser incluídos, com frequência essas iniciativas não levam em conta um fator estrutural da desigualdade de gênero: a esmagadora carga de trabalho não remunerado que as mulheres assumem em casa e nas comunidades de todo o mundo. Trata-se do trabalho que realizam cozinhando, limpando e cuidando dos outros, e que em muitos países em desenvolvimento também inclui coletar água e combustível para o consumo da família. Esse tipo de trabalho, que é um dos pilares das nossas sociedades, exige delas uma enorme quantidade de tempo. Na África subsaariana, por exemplo, mulheres e meninas dedicam 40 bilhões de horas por ano coletando água, o equivale a um ano de trabalho de toda a força trabalhista da França. Essa desigual distribuição do trabalho de cuidado é conseqüência dos fortes estereótipos de gênero que persistem em nossas sociedades e representa um enorme obstáculo para conseguir igualdade de gênero e de condições entre homens e mulheres no gozo de direitos ao trabalho decente, à educação, à saúde e de participar da vida pública. O cuidado não remunerado frequentemente impede que as mulheres possam buscar um trabalho fora de casa. Por exemplo, um estudo realizado na América Latina e no Caribe mostra que mais da metade das mulheres entre 20 e 24 anos não busca emprego devido à carga de trabalho que têm com as tarefas domésticas. Além disso, quando as mulheres têm acesso a um trabalho remunerado, este pode não ser suficiente para empoderá-las se continuam sendo as principais responsáveis pelas tarefas de cuidado, o que significa um “segundo turno de trabalho” em suas casas depois de encerrada a jornada de trabalho remunerado. A desproporcional carga com cuidados também limita as oportunidades das mulheres para avançar em suas profissões e seus salários e aumenta as possibilidades de que acabem em um trabalho precário e informal. Os estereótipos de gênero que situam as mulheres como únicas responsáveis pelas tarefas de cuidado também têm impacto negativo nos homens, que sofrem a pressão social de precisarem ser os “provedores” financeiros de sua família em lugar de cuidar dela mais diretamente. O direito das meninas à educação também é prejudicado. Nos casos mais extremos, estas são obrigadas a deixar a escola para ajudar nas tarefas domésticas, no cuidado com as crianças menores ou com outros membros da família. Com frequência, as meninas veem limitadas suas opções de conseguir igualdade na educação, porque suas responsabilidades domésticas deixam menos tempo para elas do que para os homens para estudar, estabelecer redes ou realizar atividades extracurriculares. Sem igualdade de oportunidades educacionais, as mulheres e as meninas se veem impedidas de terem acesso a trabalho remunerado e emprego decente, que lhes permita fugir da pobreza. Em última instância, a distribuição desigual do cuidado prejudica os esforços para o desenvolvimento. As mulheres que vivem em situação de pobreza não têm acesso à tecnologia que poderia aliviar seu trabalho e frequentemente vivem em lugares sem infraestrutura adequada, como água corrente ou eletricidade. Assim, seu trabalho de cuidado não remunerado é especialmente intenso e difícil. A falta de tempo também afeta o empoderamento político e social da mulher. Como esperar que participe de reuniões comunitárias ou de formação de lideranças se não tem mais ninguém para cuidar de seus filhos ou de familiares enfermos em casa? O cuidado é um bem social positivo e insubstituível, é a coluna vertebral de todas as sociedades. Proporcionar cuidado pode trazer grandes recompensas e satisfações. Porém, para milhões de mulheres, a pobreza é sua única recompensa por uma vida dedicada a cuidar dos outros. O cuidado não remunerado é o elo que falta nos debates sobre empoderamento, direitos das mulheres e igualdade de gênero. Se não forem adotadas ações concretas para reconhecer, apoiar e compartilhar o cuidado não remunerado, as mulheres pobres não poderão desfrutar de seus direitos humanos nem dos benefícios do desenvolvimento. Deve-se reconhecer que essa distribuição desigual não é natural, é evitável e traz consequências negativas para nossas sociedades. Avançar no cuidado exige uma mudança cultural de longo prazo. Mas a agenda de desenvolvimento pós-2015 pode dar uma contribuição importante se reconhecer o trabalho de cuidado como uma responsabilidade social e coletiva, como um tema importante de direitos humanos, e como um elemento essencial para a redução da pobreza. Os Estados e demais atores de desenvolvimento devem tomar medidas melhorando os serviços públicos e a infraestrutura em áreas mais desfavorecidas, investindo em tecnologias de uso doméstico acessíveis, proporcionando serviços de apoio como de cuidado infantil (creches e berçários) e estabelecendo incentivos para que os homens tenham um papel mais ativo nessas tarefas. Hoje, mais do que nunca, nosso progresso depende de reconhecer, reduzir e redistribuir o cuidado não remunerado. A formulação da nova agenda de desenvolvimento pós-2015 é um bom lugar para começar. Envolverde/IPS * Magdalena Sepúlveda Carmona é relatora especial da ONU para os Direitos Humanos e a Extrema Pobreza, e John Hendra é subsecretário-geral da ONU e diretor-executivo adjunto da ONU Mulheres.


por Magdalena Sepúlveda Carmona e John Hendra*
Um cartaz mostrado por partidários pró-russos durante manifestações em Simferopol: “Crimeia contra o nazismo”. Foto: Alexey Yakushechkin/IPS Inter Press Service - Colunistas

Repressão russa açoita a Crimeia

[caption id="attachment_109706" align="aligncenter" width="529"] Um cartaz mostrado por partidários pró-russos durante manifestações em Simferopol: “Crimeia contra o nazismo”. Foto: Alexey Yakushechkin/IPS[/caption]       Kiev, Ucrânia, 15/3/2014 – A Crimeia enfrenta uma onda de abusos dos direitos humanos, com sequestros de jornalistas e ativistas, assédio contra minorias não russas e perseguições de quem for considerado simpatizante do pró-europeu governo da Ucrânia, afirmam organizações da sociedade civil. Segundo ativistas, essa região autônoma ucraniana, agora sob controle dos militares russos, vive uma escalada de violência e repressão antes do referendo do dia 16, no qual se decidirá seu futuro. Marina Tsapok, porta-voz da Associação de Observadores dos Direitos Humanos na Ucrânia, disse à IPS: “Há pessoas sequestradas e desaparecidas. A situação está piorando, é completamente ilegal e prevemos ainda mais violência, tanto antes quanto depois do referendo”. Organizações de direitos humanos temem uma ofensiva contra os potenciais opositores à secessão da Crimeia. As autoridades da região deixaram claro seu desejo de se integrar à Rússia. O apoio pró-russo entre a população local, da qual 60% são de origem russa, é forte. A propaganda de Moscou contra o novo governo ucraniano – o qual retrata como uma entidade formada ilegalmente e liderada por fascistas e neonazistas que querem destruir o país – ajudou a fomentar não só o sentimento pró-independência, como também a antipatia com relação aos partidários de uma Ucrânia unificada. Em manifestações realizadas nos dias 15 e 16, ativistas pró-ucranianos foram selvagemente golpeados por milicianos pró-russos. Em um incidente, mais de cem homens reprimiram um grupo de mulheres que fazia um protesto pacífico diante da sede da Marinha ucraniana em Simferopol, a capital da Crimeia, contra a intervenção militar russa. Muitos desses episódios passaram despercebidos ou sem castigar por parte da polícia, alimentando temores de que agora os grupos pró-russos possam violar os direitos humanos com total impunidade. Também há informes de imprensa sobre ucranianos na Crimeia que não queriam sair de suas casas por medo de serem atacados por grupos pró-russos. No entanto, os pró-ucranianos da Crimeia não são os únicos que sofrem intimidação. Ativistas e jornalistas que tentam registrar os fatos também são tomados por alvos. O serviço de informação Euromaidan, que cobre supostos abusos dos direitos humanos, afirmou que nos últimos dias houve uma crescente quantidade de sequestros. Euromaidan é o nome como ficaram conhecidos os protestos dos últimos meses no centro de Kiev. Tsapok também disse à IPS que no dia 12 foi informado o desaparecimento de cinco pessoas, que se acredita estarem sequestradas. Quatro delas eram ativistas pelos direitos humanos e a outra um ex-oficial militar. Apenas horas depois, outras cinco pessoas, entre elas jornalistas e ativistas, foram encontradas com vida após serem sequestradas. Outros denunciam que foram ameaçados de morte por tentar fotografar soldados e homens armados mascarados do lado de fora de prédios militares e civis. Além disso, a minoria étnica maior da península, os tártaros, também estão sob ameaça. Trata-se de um povo turco muçulmano que viveu na região durante séculos, até serem expulsos em 1944. Mais de dois mil foram enviados para campos de trabalho na Ásia central quando o líder soviético Josef Stalin os acusou de colaboração com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Quase 40 mil deles Cidadãos russos ocuparam seus lugares na Crimeia, e os tártaros só puderam regressar à península quando a União Soviética começou a se desintegrar, na década de 1990. Os tártaros denunciam que suas comunidades têm cada vez mais medo de ataques de grupos de autodefesa pró-russos, que, segundo afirmam, perambulam pelas ruas à noite. Segundo eles, pela manhã se encontra cruzes brancas pintadas nas portas de suas casas. Por medo, formaram seus próprios esquadrões de autodefesa, que controlam áreas com populações tártaras, enquanto outros protegem mesquitas. “Esses informes sobre marcas nas casas de pessoas tártaras, ou de que retiram seus passaportes para usá-los no referendo, além dos sequestros e de outros abusos dos direitos humanos que estamos vendo, mostram o quanto as coisas estão mal. E, pelo que podemos ver, só estão piorando”, disse à IPS Heather McGill, pesquisadora da Anistia Internacional. A previsão era de que o referendo apoiaria a adesão da Crimeia à Rússia, e com isso o Kremlin terá firme controle da península. Isso apresenta dúvidas quanto a que as novas autoridades da Crimeia adotem a mesma política de direitos humanos de Moscou, muito condenada pela comunidade internacional. “É muito difícil prever como serão as coisas (em matéria de direitos humanos) na Crimeia se o resultado da votação for de apoio à integração à Rússia. Mas eu apostaria que a situação será pior do que agora”, declarou McGill à IPS na semana passada. Enquanto isso, em Kiev, onde o novo governo ucraniano continua trabalhando com líderes do Ocidente para encontrar uma solução para a crise na Crimeia, ativistas pelos direitos humanos temem o pior para suas organizações sociais na península, bem como para as perspectivas das liberdades civis e dos direitos básicos nessa região. Tsapok previu à IPS que, “chegado o dia 16, os russos tomarão o controle e seu exército provavelmente mudará todo o funcionamento da Crimeia. Só pode haver mais protestos e mais violência”. Ela também exortou os ativistas pelos direitos humanos e a imprensa independente em todas as partes a garantirem que as violações dos direitos humanos na Crimeia continuem sendo informadas e vigiadas. Há alguns dias, à ponta de pistola, observadores internacionais de direitos humanos foram impedidos de entrar na Crimeia. Membros de unidades locais de “autodefesa”, que controlam as estradas de entrada na península, obrigaram uma equipe da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa a retroceder. A situação na Crimeia “afeta a todos. É a atual fronteira entre a legalidade e o caos, entre as notícias e a propaganda, entre a civilização e a selvageria medieval”, advertiu Tsapok. “Digo a todos os meus amigos: por favor, divulguem informação sobre a situação na Crimeia, sobre ataques a jornalistas, sequestros de ativistas da sociedade civil, o referendo à ponta de pistola. As pessoas não deveriam permanecer indiferentes; amanhã essas coisas terríveis podem acontecer a mais alguém”, enfatizou. Envolverde/IPS


por Pavol Stracansky, da IPS
"Aqui a gente ostenta contaminação", canta o rapper Davidson, aluno da USP Leste. Foto: Marcos Méndez Sociedade

Terra de ninguém

[caption id="attachment_109311" align="aligncenter" width="550"] "Aqui a gente ostenta contaminação", canta o rapper Davidson, aluno da USP Leste. Foto: Marcos Méndez[/caption]   Os imbróglios que levaram à interdição da USP Leste após uma série de problemas ambientais e acusações de má gestão. Seja bem-vindo a Each-USP/ Each ostentação/ Só que aqui a gente ostenta na contaminação, canta o rapper Davidson Cruz , 23 anos, aluno do último período do curso de Gestão Ambiental da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each). Criada em 2005 e sediada no bairro de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, a Each mais conhecida como USP Leste, começou 2014 com seus alunos e professores impedidos de entrar na universidade por uma interdição judicial. Às margens do Tietê, o solo do campus está contaminado com gás metano, altamente inflamável, proveniente do descarte do desassoreamento do rio. Além do subsolo e de um aterro ilegal depositado no campus, outros problemas tornaram impossível a permanência humana no local. Pombos infestaram o local, a água dos bebedouros foi contaminada pela ausência de proteção adequada e limpeza dos reservatórios e faltam equipamentos de segurança contra incêndio. Diante do quadro, a reitoria silenciou, segundo professores e alunos ouvidos pela reportagem – e para desespero dos mesmos. “Eu classificaria como total descaso a postura da USP”, reclama Davidson, que gastava não mais que 15 minutos para se deslocar de skate pela ciclovia da sua casa até a unidade. Para repor as aulas, ele e outros estudantes, além dos próprios docentes, foram provisoriamente para o campus da USP no Butantã, região oeste da cidade. Utilizando trem e metrô, o tempo de mobilidade saltou para até duas horas e meia. A interdição, feita às pressas, na opinião dos professores, causou transtornos. “Tem pesquisador desesperado, porque o material está todo lá e é fruto de coleta de muitos anos de pesquisa, que depende de refrigeração. Muitos docentes não têm para onde levar o material”, conta Michele Schultz, professora de Ciências Biológicas e Saúde da unidade. O prejuízo, diz, é difícil de calcular. “Para as nossas carreiras foi um baque enorme.” Segundo Michele, desde a escolha do local já se sabia que o terreno estava contaminado por metano. Originário da decomposição de material orgânico oriundo do Tietê, sua concentração é possível em toda a extensão da marginal. No caso da USP Leste, além do material do rio, havia também a possibilidade da presença de contaminantes depositados no local por antigas fábricas da região. “Era um terreno com problemas, porém contornáveis”, explica Marcos Bernardino de Carvalho, geógrafo e professor do curso de Gestão Ambiental na Each. Era necessário, porém, que a universidade traçasse um plano para extrair os gases do subsolo e construísse prédios compatíveis com a situação delicada de sua locação. Antigo reduto industrial, Ermelino Matarazzo faz divisa com a cidade de Guarulhos. Com 110 mil habitantes, é uma região carente, marcada por problemas nas áreas de segurança, cultura e saúde. Cortado por uma linha de trem metropolitano, que vai da região central até o bairro Calmon Viana, uma de suas estações – a USP Leste – foi construí-
da especialmente para atender os alunos da universidade. Questionado sobre uma solução para o problema do metano, o recém-empossado reitor da USP, Marco Antonio Zago, afirma estarem as edificações existentes assentadas sobre colchões de britas, o que drenaria o gás existente sob o pavimento térreo. “Vamos fazer do campus da USP Leste um modelo de ocupação segura e sustentável, em uma área que estaria, de outro modo, inutilizada para a ocupação humana”, respondeu por e-mail. Diante dos conhecidos problemas do solo, o que explica a construção do campus que abriga, aproximadamente, 4,5 mil alunos nos dez cursos de graduação, 285 professores e 200 funcionários? Entre as causas para a construção do campus, ao custo para os cofres do governo estadual de São Paulo de 53 milhões de reais, segundo o geógrafo Carvalho, estão a existência de um movimento popular por educação na região, além do debate interno na USP a respeito da expansão do número de vagas e da necessidade de se levar a universidade para outros pontos da cidade. “O fato de existir esse movimento casou com a disponibilidade de expansão da USP”, diz Carvalho, autor de um artigo sobre a criação da Each. Outra motivação seria estancar o processo de ocupação e urbanização do Parque Ecológico do Tietê pela instalação de um campus universitário. “O que não se esperava é que a ida da USP pudesse piorar a situa-
ção ambiental”, afirma o professor do curso de Gestão Ambiental. Por conta de problemas com o subsolo da região, prejudicado pelos descartes de indústrias químicas, a água do lençol freático do local é imprópria para consumo. “Eles tiveram de fazer uma adutora, por baixo da linha do trem, para alimentar a Each com água da Sabesp”, afirma Michele. Mesmo essa água, que alimentava torneiras e bebedouros, tornou-se foco de problemas. Segundo Adriana Tufaile, professora do Curso de Gestão Ambiental e Ciências da Natureza, a água do reservatório estava com coliformes acima do limite e turva. “Essa análise foi feita pela Sabesp. Descobrimos que fazia um ano e um mês que eles não eram limpos”, conta Adriana, diretora da Associação dos Docentes da USP (Adusp). Como a caixa d’água ficava abaixo do limite da terra contaminada e não tinha proteção contra entrada da água da chuva, a professora acredita que a água suja entrou no reservatório. “A improbidade administrativa também descuidou da higiene da nossa água”, diz. Antes da interdição, a USP foi autuada e multada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) por não cumprir as exigências determinadas na Licença Ambiental de Operação, como a extração do metano do subsolo e a retirada de terras contaminadas que foram descartadas na região da universidade em 2011. As condições ambientais do campus agravaram-se quando toneladas de terra de origem desconhecida foram despejadas dentro da universidade, localizada em uma área de proteção ambiental, sem autorização ou licenças ambientais necessárias. De acordo com o documento da ação civil pública elaborado pelo Ministério Público Estadual, entre outubro de 2010 e outubro de 2011, cerca de 200 caminhões entraram diariamente no campus, carregando, cada um, 18 metros cúbicos de terra de origem desconhecida. No total, foram despejados 109 mil metros cúbicos de terra, posteriormente classificada como contaminada, nas dependências da universidade. O diretor da USP Leste à época, José Jorge Boueri Filho, foi avisado da movimentação por 
e-mail enviado pela professora Rita Giraldi em 20 de janeiro de 2011. O e-mail foi citado na ação civil pública que o Ministério Público Estadual moveu contra a universidade em 2013. Em junho do mesmo ano, o diretor-geral do Parque Ecológico do Tietê, Valter dos Santos Rodrigues, encaminhou uma notificação pedindo a paralização do aterro, com a justificativa de que a universidade encontra-se em uma área de proteção ambiental. A movimentação, porém, continuou até outubro de 2011. Em setembro de 2013, Boueri foi afastado da função por problemas de saúde, pouco depois de professores e alunos entrarem em greve, motivados pela questão ambiental do campus. A reitoria da USP afirmou que foi instaurado um processo administrativo contra o diretor para apurar as responsabilidades no caso. Deflagrada pela instalação de placas que informavam a presença de “contaminantes com riscos à saúde”, a primeira paralisação começou no dia 10 de setembro e durou 50 dias. “Mesmo se a terra fosse limpa, já seria um problema ambiental, pois o seu deslocamento provocou desmatamento”, afirma a professora e diretora da Adusp Adriana Tufaile. “Além disso, a terra veio com entulho de construção civil e contaminantes capazes de causar danos sérios à saúde.” Relatório elaborado pela empresa Servmar, contratada pela USP para avaliar o impacto ambiental em fevereiro de 2012, aponta concentrações acima do normal de vários compostos na área aterrada, como fenol, cresol, naftaleno, benzeno e tolueno. O documento conclui que as concentrações acima dos padrões ambientais para o aterro são prejudiciais à saúde humana e podem causar “câncer e/ou efeitos toxicológicos não carcinogênicos”. Auto de infração expedido pela Cetesb, em agosto de 2013, determinou a remoção do solo depositado, bem como outras dez exigências relativas ao manejo do metano no subsolo e da água subterrânea. A USP teve 60 dias para apresentar uma solução para os problemas. Em 16 de dezembro de 2013, as aulas foram suspensas novamente por conta de uma infestação de pombos que interditou três salas de aula e também pela constatação da Sabesp de que a água dos bebedouros estava turva e com presença de bactérias. Sociólogo e professor do curso de Gestão de Políticas Públicas, Jorge Machado foi um dos afetados pelo problema com os pombos. “Precisei fazer tratamento médico com dermatologista”, afirma. Ele também sofreu com a transferência das aulas para a zona oeste. “Emprestaram um lugar no Butantã, mas lá eu não tinha um ramal próprio ou impressora”, reclama. “Eu estou coberta de reações alérgicas em razão da minha sensibilidade e dos contaminantes”, afirma Rosangela Fatima Toni, 57 anos, aluna do curso de Gestão Ambiental. Rosangela, que trabalha como costureira e mora em Guarulhos, também credita aos problemas ambientais do campus seu diagnóstico de hepatite A e B. “Fica difícil provar que foi pela contaminação, mas quem tem de provar que não é são eles”, explica Rosangela, que fez um boletim de ocorrência e uma reclamação junto ao Ministério Público. “Para mim é uma vitória muito grande estudar na USP, mas tudo ali contribuiu para jogar nossas expectativas ao nível do chão.” Os docentes afirmam que só voltarão ao campus quando todas as exigências da Cetesb forem cumpridas e não houver mais riscos à saúde. Com a proximidade da matrícula e da recepção dos calouros, o tempo para a resolução dos problemas ficou mais curto. Por e-mail, o reitor Marco Antonio Zago respondeu que “a Universidade tem trabalhado intensamente na resolução do passivo ambiental da área e, do ponto de vista jurídico, para a liberação da Escola. Por outro lado, estudos têm sido feitos quanto a alternativas de espaço, caso a interdição se mantenha”. Zago afirmou ainda que tem “apreço especial” pela unidade da zona Leste e que pretende trabalhar no longo prazo para transformar a Each em uma unidade de projeção dentro da universidade e, ao mesmo tempo, uma ferramenta de integração. “O objetivo fundamental da USP Leste é fazer a integração com a população e isso não aconteceu de maneira vigorosa, ainda que existam alguns programas de atendimento”, afirma. Segundo o reitor, outras questões, como a infestação de pombos ou a contaminação da água, já foram resolvidas no âmbito da própria Each. No entanto, até o fechamento da reportagem, o local para o início das aulas ainda era incerto. Sem acesso ao campus da Each, a solução seria alocar a comunidade acadêmica em outro prédio público da região. Mas, até o momento, nada havia sido resolvido. “A gente não sabe exatamente o porquê dessa falta de ação, porque vai ser um ônus para o governo do estado, ainda mais em ano eleitoral. E foi um projeto eleitoreiro por duas vezes, inclusive no horário eleitoral aparecia o prédio da USP Leste”, relata Michele Schultz. Desenhada para acolher um projeto dito inovador, a USP Leste oferece 1.020 vagas a cada vestibular. Como o regimento da USP proíbe a repetição de cursos na mesma cidade, todas as graduações ofertadas na Each são não tradicionais, entre elas Gestão Ambiental, Lazer e Turismo, Obstetrícia e Ciências da Atividade Física. Os cursos não têm departamentos e são marcados pelo estímulo dado aos alunos para elaborar propostas de intervenção na região onde a universidade está instalada. O caminho, porém, é tortuoso. A unidade enfrentou altas taxas de evasão nos novos cursos e também resistências do mercado de trabalho. Em 2011, 37% dos alunos da unidade abandonaram os cursos. Egressos do curso de Obstetrícia, por exemplo, enfrentaram batalhas judiciais para conseguir registro profissional nos conselhos Regional e Federal de Enfermagem, apesar de o bacharelado ser reconhecido pelo Conselho Estadual de Educação desde 2008. Assim como acontece nos demais campi, os alunos ingressam por meio de vestibular realizado pela Fuvest. As notas de corte e o número de candidatos por vaga, em geral, são mais baixos do que a média dos cursos ofertados no Butantã. O curso menos concorrido na unidade, de Ciências da Natureza, teve 2,6 candidatos por vaga. O mais concorrido foi Têxtil e Moda, com 12,5 candidatos por vaga ofertada. O perfil dos alunos é menos elitizado que o encontrado normalmente na Cidade Universitária. Apesar de a maioria ainda residir em outras áreas da cidade, por volta de 40% dos estudantes da Each vivem na zona leste de São Paulo. “É muito simbólico depositarem lixo na zona leste, que é uma região que sempre foi desvalorizada. Mas não acho que isso aconteceu porque estamos na zona leste, mas sim porque a universidade viveu uma fragilidade administrativa. Foi uma gestão autoritária, que desrespeita a comunidade em geral, e nós fazemos parte dessa comunidade”, afirma Elizabete Franco, professora na Each e membro da Adusp, a Associação de Docentes da USP. “A ideia era ser uma coisa inovadora, mas falta direção, parece que estamos abandonados”, reclama Paulo Borges, 34 anos, aluno do curso de Ciências da Natureza. Egresso da escola pública, Borges mora em Ribeirão Pires, região metropolitana de São Paulo. “Nossa esperança é de que as novas direções da Each e da reitoria da USP melhorem o diálogo para chegar a uma solução o mais rápido possível.” Júlia Mafra, 23 anos, aluna do curso de Gestão de Políticas Públicas, também se apaixonou pela proposta curricular da unidade. Moradora da zona norte da cidade, Júlia fez parte do comando de greve dos alunos no ano passado e participou da ocupação da diretoria da USP Leste, que durou 16 dias e terminou com a reintegração de posse pela Tropa de Choque da PM. Paulo e Júlia estão preocupados com o futuro da universidade. “Não vamos voltar para um campus que não é seguro, e o Butantã também não tem espaço para todos nós”, afirma a universitária. “A proposta era levar uma universidade pública para a zona leste. Não podemos deixar essa história toda para trás por causa da má gestão da USP.” Davidson Cruz, que apresentará sua música de protesto em um dos seminários organizados para recepcionar e explicar aos novos ingressantes da USP Leste os problemas da unidade, está sem perspectiva de como terminará o curso de graduação. “A gente fica desesperado. É um problema atrás do outro e não sabemos o que vai vir depois.” * Publicado originalmente na edição 84, de março de 2014  da Carta na Escola e retirado do site Carta na Escola/Carta Capital.


por Tory Oliveira, da Carta na Escola
2492_mulheres_pintura Sociedade

Solidariedade: substantivo feminino?

Em uma definição literal, a palavra solidariedade quer dizer dependência mútua entre indivíduos. Essa é a descrição que se encontra nos dicionários. O termo vem do latim solidare, que significa solidificar, tornar sólido. Quando uma pessoa toma uma atitude solidária, ela cria um vínculo com aquela que foi objeto de sua boa ação. Este é um substantivo que toma muitas formas diferentes, que vão desde pequenas atitudes, como ajudar um idoso a atravessar a rua, até a dedicação de seu tempo a uma determinada causa, com trabalhos voluntários em organizações sociais constituídas. De um extremo ao outro a solidariedade passa por diversos tons e sobretons, mas é parte do senso comum que ela se vista frequentemente de rosa. Assim, associar gestos solidários e de cuidado com o próximo à imagem feminina é algo corriqueiro. Mas será que as mulheres são realmente mais solidárias? Para o pesquisador do setor de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo, Ricardo Monezi, a resposta para essa questão é biológica. "Desde o tempo das cavernas, o homem tinha como função principal sair à caça e a mulher ficava com obrigações de cuidado com a caverna e os filhos. Isso tem relação com o cérebro de cada gênero. Eles são iguais, mas tem modus operandi diferentes", explica. Essa diferença se dá, segundo ele, principalmente por conta dos hormônios presentes em cada organismo. "O homem tem mais testosterona, que dá a ele um ímpeto mais agressivo, já as mulheres tem mais progesterona e estrógeno, que são hormônios relacionados à reprodução e ao cuidado", relata o pesquisador. Ao longo dos séculos a sociedade evoluiu, mas homens e mulheres seguiram interpretando papeis que reforçaram esses contrastes. "Por mais que as mulheres estejam cada vez mais caçadoras: trabalhando fora e sendo chefes de família, elas são ainda responsáveis pelo cuidado com a casa e os filhos", comenta Monezi. Esse caráter cuidador faz com que as mulheres sejam maioria em ações sociais. É mais comum ver uma mulher fazendo um trabalho voluntário do que um homem, principalmente se a atividade estiver relacionada ao cuidar, seja de pessoas ou do ambiente. Ainda assim, segundo Jorge Claudio Ribeiro, filósofo e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, isso não significa que elas sejam mais solidárias. "A sociedade historicamente destinou a homens e mulheres espaços diferentes e cada um dos sexos aprendeu a expressar sua solidariedade da forma que era possível nesses espaços. As mulheres fazem trabalho voluntário, colocam literalmente a mão na massa. Já os homens atuam em funções de gestão. Um exemplo clássico é a política. A maneira que muitos homens encontram de contribuir para a solução de problemas coletivos é a política e isso é uma expressão de solidariedade e cuidado com o próximo", explica Ribeiro. Diferente de Monezi, Ribeiro aponta esta divisão como algo muito mais social do que biológico. "Assim como as mulheres estão ocupando espaços antes masculinizados e tomando para si a expressão de solidariedade antes mais utilizada pelos homens, o oposto também ocorre. Os homens têm se sentido mais à vontade para serem cuidadores. Isso tudo é muito dinâmico", afirma o filósofo. Ele lembra ainda que a personalidade de cada pessoa pode influenciar, mas não é o principal fator. "Alguns indivíduos têm esse sentimento solidário mais aflorado e isso independe do sexo. Todavia, eu acredito que a solidariedade é algo que se aprende, principalmente com base em exemplos. Se eu cresço em um ambiente solidário, onde as pessoas a minha volta tem comportamentos solidários, vou ser um adulto com esse valor", exemplifica. Essa é também a opinião da antropóloga Mirian Goldenberg, autora de diversos livros sobre as questões femininas. Ela entende que a solidariedade é uma característica inerente ao ser humano. "O que ocorre é que os homens são socialmente cobrados para exercer atividades nobres, bem remuneradas. Quando ele dedica parte de seu tempo a uma atividade que não se encaixa nesse padrão, a sociedade classifica como ‘perda de tempo’. Já as mulheres são incentivadas a realizar essas atividades. São valorizadas quando fazem isso", diz. Estes comportamentos não são, de acordo com a antropóloga, um padrão seguido em qualquer sociedade. "Eu estudo a Alemanha Oriental, que é uma região onde os comportamentos são bastante distintos do que vemos aqui no Brasil. Lá é natural que uma mulher melhor remunerada seja responsável pelo sustento da família e o homem cuide da casa. Isso se reflete também quando falamos de solidariedade", demonstra. Mesmo diversas, as opiniões dos especialistas convergem em um ponto: fazer o bem faz bem. "Os estudos comprovam que quando alguém pratica um ato solidário, o cérebro dá um sinal para o corpo, de que ele tem que estar bem para poder continuar ajudando. A ciência ainda precisa estudar mais, mas já sabemos que quem participa de ações de solidariedade tem um sistema imunológico mais forte. Sabemos também que isso influencia até no colesterol, aumentando o bom e diminuindo o ruim", exalta Monezi. Ribeiro complementa afirmando que "é natural do ser humano ser solidário e isso impulsiona a pessoa a ir além, olhar para fora da sua rotina, da sua vida cotidiana". Enquanto homens e mulheres não concluem o desenho de uma sociedade diferente, onde cada um pode interpretar o papel que lhe cai melhor, as mulheres vão se beneficiando do direito de colocarem a mão na massa da solidariedade e seguem transformando realidades. Dedicação que transforma Na luta contra o álcool Trinta anos de trabalho voluntário no grupo e quatro à frente do Alcoólicos Anônimos (AA), uma das principais organizações de apoio a dependentes do álcool no Brasil. Sandra Lúcia de Oliveira é psicóloga e, diferente do que se possa imaginar, nunca teve problemas com bebida e nem enfrentou essa situação em seu círculo familiar mais próximo. "Comecei a frequentar as reuniões como voluntária, quando era recém-formada. O que me levou para o AA foi um paciente que tinha problemas de alcoolismo na família e já tinha tentado o suicídio. Eu precisava saber mais sobre a questão e fui procurar o AA. Nunca mais saí de lá". A psicóloga conta que o trabalho no grupo é alicerçado na questão da solidariedade. "Um apoia o outro, um precisa do outro. Trabalhar com isso durante tantos anos reforçou em mim esse sentimento. Eu já tinha um senso coletivo muito forte, porque sou mestiça de índios, e a cultura indígena tem um caráter coletivo. Então nunca enxerguei o outro como alheio a mim". Sandra enumera os benefícios que o trabalho voluntário traz, mas não esquece dos momentos mais difíceis. "É muito gratificante se sentir útil, saber que está ajudando. Mas é claro que já tive que abrir mão de muitos momentos em família. Trata-se de um trabalho voluntário, mas com o qual me comprometi. Ainda assim, faria tudo de novo". Na luta pela água Uma foto e uma vontade na cabeça. Recuperar um lugar que fez parte da sua história. A jornalista Malu Ribeiro passou parte da sua juventude às margens do Rio Tietê. A primeira vez que viu o rio tomado por espumas de poluição, nos anos 90, tirou uma foto. A imagem foi enviada para um concurso na Alemanha que premiaria imagens de poluição. Malu foi desclassificada, porque a comissão julgadora entendeu que a foto, em preto e branco, era de uma paisagem de neve. Ao explicar que era espuma de um rio sujo, o pessoal do concurso ficou chocado e acabaram por premiá-la com uma menção honrosa. "A partir daí percebi que as pessoas não tinham informação sobre a questão da poluição. Eu queria fazer algo por aquele lugar e entendi que como jornalista precisava dar às pessoas informação sobre o mal que estavam fazendo àquele rio", relata a jornalista, que hoje é Coordenadora da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica. Malu fez da preservação dos recursos hídricos a questão da sua vida. A região que ela tanto queria preservar foi transformada na Estrada Parque do Vale do Tietê, primeira estrada parque do Brasil. E essa conquista se deve muito ao seu trabalho. "A água já é um recurso que tem muito do feminino e por isso me identifico. Sou realmente uma pessoa privilegiada por poder trabalhar naquilo que acredito", alegra-se. Na luta pelos deficientes visuais Uma filha deficiente visual e uma mãe que transformou sua dificuldade solitária em uma das mais atuantes instituições especializadas em deficiência visual no Brasil, a Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual Laramara. A organização, em seus mais de 20 anos de história, já ajudou mais de dez mil pessoas e não cobrou nada por isso em 93% dos casos. A educadora Mara Olímpia de Campos Sialys é a mãe de Lara Siaulys, que hoje, já adulta, é formada em música. Quando Lara nasceu, em 1978, Mara deu início também à sua dedicação ao tema deficiência visual. Escreveu várias publicações específicas sobre educação e desenvolveu mais de 100 brinquedos especiais para crianças deficientes visuais. Sua principal obra é o livro "Brincar para Todos", em que ensina passo a passo a confecção de brinquedos, sempre utilizando materiais baratos, acessíveis e de fácil produção. "Desde o começo senti a necessidade de compartilhar minha experiência para ajudar outros pais a compreenderem melhor seus filhos e darem mais qualidade de vida para eles", conta. Sua maior alegria "é ver os pais ajudando seus filhos a serem mais felizes". Na luta pela preservação ambiental Engenheira agrônoma, fundadora da Funatura, uma das primeiras organizações não governamentais voltadas ao meio ambiente do Brasil, ex-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama ) e membro da comissão mundial de Parques Nacionais da International Union for Conservation of Nature (IUCN). Essas são apenas algumas das atividades que compõem o extenso currículo de Maria Tereza Pádua, que, como se não bastasse, é ainda uma flor: a orquídea Laelia purpurata Maria Tereza, batizada em sua homenagem. Com uma carreira construída desde o início na área ambiental, a engenheira tem em sua memória muitos feitos de que se orgulhar, mas um é especial para ela. "A minha gestão no Ibama foi a que mais criou Unidades de Conservação (UC)", conta. A trajetória de sucesso, fazendo o que ama, é para ela um grande presente. "Fui uma das primeiras mulheres a atuar nessa área no Brasil. Me beneficiei um pouco disso, porque, cercada de homens, ser mulher facilitava o meu acesso àqueles que tomam as decisões. Mas também tive situações complicadas. Precisei carregar meus filhos para as UCs diversas vezes e meu primeiro casamento não resistiu às viagens e ausências". Ainda assim, ela enfatiza que não há arrependimentos. Já se casou novamente e se declara feliz: "Passei a vida fazendo algo gratificante e que deixou um legado". * Publicado originalmente no site Mercado Ético.


por Alice Marcondes, para o Mercado Ético
fall1-485x323 Sociedade

Quando as bicicletas viram arte surreal

No interior do Senegal, o bicicleteiro-escultor Fall Meïssa combina transporte limpo com reciclagem e recria, a partir de mitos africanos, obras de imaginação invencível. Para que serve uma bicicleta? Para Fall Meïssa, a resposta vai muito além de um meio de transporte ou de lazer. Uma bicicleta pode virar um segurança do Michael Jackson, o cozinheiro do Gênio do rio, a mama África grávida ou até um pterodátilo meio dinossauro meio peixe. No trem de ideias surrealistas que viaja em alta velocidade pela sua mente não faltam opções do que fazer com uma bicicleta ou com partes dela que já não são utilizadas. A transformação do lixo em esculturas de metais escorre com facilidade entre as ideias do artesão de Saint Louis. Meio período artista, meio período mecânico, Fall Meïssa nasceu e cresceu entre as magrelas assistindo pai e avô a trabalharem em uma modesta oficina de bicicletas. “Quando eu era criança, no ateliê do meu pai, o velho não queria que eu tivesse uma vida de traquinagens na rua, então para me ocupar ele me deu a função de limpá-las”, lembra o artista, “cada vez que ele me dizia que não estava pronto, que faltava tal ângulo ou tal canto para melhorar, eu recomeçava. Nunca estava bom o suficiente. Nunca era hora de sair para brincar”. Foi assim, no borbulhar de um sentimento antagônico que Fall começou a transformar virtualmente em sua cabeça os objetos trabalhados. Imaginando-os em outras formas, ele começou a acreditar que cada vez que limpava, as peças iam ganhando novos contornos – quase animais ou humanos. “Era como se quando eu os tocava, eu tivesse o poder de lhes dar vida. Era como se eu tivesse ganhado o poder de lhes dar uma segunda chance”, conta o escultor na sua fala rápida, quase atropelada e de palavras cortadas. Suas obrigações lhe conferiram uma compaixão oposta: ao se sentir privado de liberdade, ele transformou livre os objetos que limpava. Fall explica que, aos poucos, vender as peças ou jogá-las fora se tornou impossível — ele já tinha começado a amá-las. Para ele já não eram mais objetos. Ele havia entendido que ali estava presente uma segunda vida. No seu pensamento fluído, o artista declara: “A bicicleta é como a natação, ela nos é familiarizada. É algo que gente nunca esquece. Ao ver um pedaço solto, qualquer pedaço, a gente sabe que ele veio da bicicleta. Não é assim com o carro ou com o celular. Porque a bicicleta não é vestida, ela é nua. E por isso, nós humanos somos muito próximos dela”. Transporte, entregas, encontros: em um insight, ele entendeu que as bicicletas são mais do que isso, são também um meio de fazer circular ideias e transmitir valores. E assim partiu para arte. Da paixão pela escola moderna, Meïssa imbicou nas metodologias contemporâneas de criação e na contramão de Saint Louis, uma cidade com problemas graves de coleta de lixo, o genioso escultor construiu sua vida na arte ecológica, tornando-se precursor de uma ciência de reciclagem que lhe veio naturalmente, através do sentimento e da percepção de valor de um material em desuso. Nas mãos do artista de aparência quase caricatural, de sobrancelhas grossas, barba preta com destaque singular de ponta branca, boca já sem dentes e capuz de pano cobrindo o cabelo cheio, as peças se transformam em obras refinadas, frutos de uma linha de pensamento apurada e complexa e de uma imaginação invencível. De um aro cortado ali e aqui, adicionado de um amortecedor e ornamentado por guidões nasce um “robô em pane, um grande cara, um corajoso! Mas que está em pane porque a velocidade da vida eletrônica não respeita a velocidade da vida”. Nasce também um “torcedor do basquete que não é um jogador, mas que na sua ansiedade marca pontos antes da própria equipe”. Nascem ainda mitos, lendas e personagens históricos relacionados ao gênio do rio, entidade mística intimamente presente na vida dos moradores de Saint Louis e que os protege de afogamentos e dos perigos das águas “em troca de dois pedaços de carneiro sacrificado oferecidos ao rio no nascimento de cada bebê da cidade”. Nascem a ritmo galopante analogias e metáforas. Na sua linguagem refinada e contrastante, o escultor afirma que a fórmula é simples: “A escultura e a mecânica são como a medicina. Existe um paciente que espera e eu tenho que ir até a minha farmácia buscar o medicamento necessário”. Com Fall Meïssa, o conceito de reciclagem ganha uma nova forma, uma forma em que a criatividade parece não ter esquina. * Publicado originalmente no site Afreaka e retirado do site Outras Palavras.


por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Afreaka

Página 26 de 156« Primeira...1020...2425262728...405060...Última »
Para enviar sua dica ou opinião, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Dica/Opinião

agenda

XII Simpósio de Recursos Hídricos do Nordeste

data 04/11/2014 até 07/11/2014
XII Simpósio de Recursos Hídricos do Nordeste

data 04/11/2014 até 07/11/2014
XVI SIMAI abre inscrições

data 11/11/2014 até 13/11/2014

dica de
sustentabilidade

anterior | próxima
vaso garrafas002 Recicle seu jardim

Foto: Reprodução/ limaoflor.wordpress.com

O destino do lixo doméstico é um dos grandes problemas enfrentados pela sociedade. A quantidade de detrito produzido é muito superior à capacidade de processamento do mesmo, contribuindo para o aumento da poluição da água, do ar e do solo. Por isso, reciclar é tão importante. A reciclagem é uma maneira de ajudar a preservar o meio ambiente. Ela colabora para a diminuição do volume de resíduos nos aterros sanitários, protegendo os solos e os lençóis freáticos (água pouco profunda); e transforma lixo em matéria-prima, aumentando a vida útil dos materiais e evitando que mais detritos sejam produzidos desnecessariamente. Reciclar é reaproveitar produtos e utensílios que normalmente iriam ser jogados fora e dar a eles uma nova funcionalidade. Qualquer parte de uma casa permite a reutilização de materiais, inclusive o jardim, que, após receber esses itens, acaba ficando mais bonito, charmoso e principalmente sustentável. O reaproveitamento de recipientes para o cultivo de plantas é uma das formas de praticar a reciclagem e, consequentemente, a sustentabilidade, que a cada dia ganha mais adeptos. Baldes, chaleiras, xícaras, jarras, bacias e outros objetos podem ser transformados em belos vasos de plantas. No entanto, para utilizá-los, é preciso tomar alguns cuidados:  
  • Lavar muito bem as vasilhas, eliminando qualquer vestígio de elementos tóxicos (ferrugem, produtos químicos como cloro, ácidos e detergentes), para que as plantas não sejam contaminadas.
  • Impermeabilizar a parte interna de cada recipiente, aplicando uma camada de tinta ou revestimento impermeabilizante. Com esse procedimento, a durabilidade do vaso aumentará e também evitará que qualquer produto químico do utensílio possa contaminar a planta.
  • Optar por materiais resistentes, que suportem bem as mudanças climáticas e que não absorvam muito calor, pois isso pode ressecar a terra e matar a flor. Caso vá utilizar recipientes metálicos, escolha plantas com maior resistência à temperatura e à falta de umidade.
  • Observar o tamanho da planta e de sua raiz. Aquelas que têm raízes maiores e mais fortes devem ser plantadas em recipientes grandes e resistentes. Já as plantas com raízes mais finas podem ser cultivadas em jarras, utensílios de vidro e de outros materiais mais delicados.
  Em todos os casos, é preciso encontrar a melhor maneira de reproduzir as condições naturais de crescimento de cada planta. Toda espécie tem sua necessidade específica de água, portanto, é interessante escolher o recipiente de acordo com as necessidades de cada variedade. Flores como as orquídeas exigem pouquíssimas regas e obtém sua cota de água proveniente do ar, logo são mais fáceis de monitorar. Já as margaridas precisam de regas constantes e solo úmido, sem estar encharcado, e exigem um cuidado maior. *A Giuliana Flores está há mais de 20 anos no mercado e é líder em vendas de flores pela internet.- www.giulianaflores.com.br
Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.

imagem do dia

|
Para enviar sua imagem, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Arquivo

Observações

 
Foto: Wilson Dias/Agência Brasil/ Fotos Públicas

Indígenas protestam em frente ao Palácio do Planalto e pedem infraestrutura nas escolas e a garantia da formação educacional com respeito aos valores tradicionais das comunidades.

Foto: NASA Earth Observatory image by Jesse Allen, using Landsat data from the U.S. Geological Survey/ Fotos Públicas

Nasa publica imagem que mostra efeito da seca no Sistema Cantareira. Veja os detalhes aqui.

Mulher_Gravida_SerraLeoaUNICEFTanya-Bindra

Crise no setor de saúde dos países afetados por ebola põe em risco a 800 mil mulheres grávidas. Foto: Mulher grávida em Freetown, Serra Leoa. UNICEF/Tanya Bindra

energiasolar

Estação carrega bateria de carros elétricos com energia solar. Saiba mais aqui.

O conteúdo do EcoDesenvolvimento.org está sob Licença Creative Commons. Para o uso dessas informações é preciso citar a fonte e o link ativo do Portal EcoD. http://www.ecodesenvolvimento.org/posts/2014/fotografo-da-national-geographic-expoe-obras-sobre?tag=clima#ixzz3GE6gXSuF 
Condições de uso do conteúdo 
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

Homem observa derretimento acelerado de geleiras no Ártico
Fotos: Érico Hiller

Fotógrafo da National Geographic expõe obras sobre mudanças climáticas em São Paulo. Veja mais aqui.

parklet-recife-ecod

Recife ganha seu primeiro parklet permanente. A estrutura funciona como espaço de convivência para promover o uso do espaço público de forma democrática.

São Paulo adere ao movimento ‘Outubro Rosa’ e ilumina monumentos. Foto: Fernando Pereira / SECOM - Fotos Públicas - 09/10/2014

São Paulo adere ao movimento ‘Outubro Rosa’ e ilumina monumentos. Foto: Fernando Pereira / SECOM – Fotos Públicas – 09/10/2014

Acre

Banco Mundial aprova empréstimo para beneficiar serviços básicos em comunidades vulneráveis do Acre. Saiba mais aqui.

Intervenção do Artista Plástico, Eduardo Srur, no rio Pinheiros. Foto: Eduardo Srur - 29/09/2014 – São Paulo, Brasil - Fotos Públicas

Intervenção do Artista Plástico, Eduardo Srur, no rio Pinheiros. Foto: Eduardo Srur – 29/09/2014 – São Paulo, Brasil – Fotos Públicas

Terceira Idade Marcos Santos/USP Imagens

Hoje , 1º de outuburo, é o Dia Nacional do Idoso. A data serve para refletir a respeito da situação do idoso no país, seus direitos e dificuldades. Foto: Marcos Santos/USP Imagens/ Fotos Públicas