Quando as bicicletas viram arte surreal

Sociedade

Quando as bicicletas viram arte surreal


por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Afreaka


No interior do Senegal, o bicicleteiro-escultor Fall Meïssa combina transporte limpo com reciclagem e recria, a partir de mitos africanos, obras de imaginação invencível. Para que serve uma bicicleta? Para Fall Meïssa, a resposta vai muito além de um meio de transporte ou de lazer. Uma bicicleta pode virar um segurança do Michael Jackson, o cozinheiro do Gênio do rio, a mama África grávida ou até um pterodátilo meio dinossauro meio peixe. No trem de ideias surrealistas que viaja em alta velocidade pela sua mente não faltam opções do que fazer com uma bicicleta ou com partes dela que já não são utilizadas. A transformação do lixo em esculturas de metais escorre com facilidade entre as ideias do artesão de Saint Louis. Meio período artista, meio período mecânico, Fall Meïssa nasceu e cresceu entre as magrelas assistindo pai e avô a trabalharem em uma modesta oficina de bicicletas. “Quando eu era criança, no ateliê do meu pai, o velho não queria que eu tivesse uma vida de traquinagens na rua, então para me ocupar ele me deu a função de limpá-las”, lembra o artista, “cada vez que ele me dizia que não estava pronto, que faltava tal ângulo ou tal canto para melhorar, eu recomeçava. Nunca estava bom o suficiente. Nunca era hora de sair para brincar”. Foi assim, no borbulhar de um sentimento antagônico que Fall começou a transformar virtualmente em sua cabeça os objetos trabalhados. Imaginando-os em outras formas, ele começou a acreditar que cada vez que limpava, as peças iam ganhando novos contornos – quase animais ou humanos. “Era como se quando eu os tocava, eu tivesse o poder de lhes dar vida. Era como se eu tivesse ganhado o poder de lhes dar uma segunda chance”, conta o escultor na sua fala rápida, quase atropelada e de palavras cortadas. Suas obrigações lhe conferiram uma compaixão oposta: ao se sentir privado de liberdade, ele transformou livre os objetos que limpava. Fall explica que, aos poucos, vender as peças ou jogá-las fora se tornou impossível — ele já tinha começado a amá-las. Para ele já não eram mais objetos. Ele havia entendido que ali estava presente uma segunda vida. No seu pensamento fluído, o artista declara: “A bicicleta é como a natação, ela nos é familiarizada. É algo que gente nunca esquece. Ao ver um pedaço solto, qualquer pedaço, a gente sabe que ele veio da bicicleta. Não é assim com o carro ou com o celular. Porque a bicicleta não é vestida, ela é nua. E por isso, nós humanos somos muito próximos dela”. Transporte, entregas, encontros: em um insight, ele entendeu que as bicicletas são mais do que isso, são também um meio de fazer circular ideias e transmitir valores. E assim partiu para arte. Da paixão pela escola moderna, Meïssa imbicou nas metodologias contemporâneas de criação e na contramão de Saint Louis, uma cidade com problemas graves de coleta de lixo, o genioso escultor construiu sua vida na arte ecológica, tornando-se precursor de uma ciência de reciclagem que lhe veio naturalmente, através do sentimento e da percepção de valor de um material em desuso. Nas mãos do artista de aparência quase caricatural, de sobrancelhas grossas, barba preta com destaque singular de ponta branca, boca já sem dentes e capuz de pano cobrindo o cabelo cheio, as peças se transformam em obras refinadas, frutos de uma linha de pensamento apurada e complexa e de uma imaginação invencível. De um aro cortado ali e aqui, adicionado de um amortecedor e ornamentado por guidões nasce um “robô em pane, um grande cara, um corajoso! Mas que está em pane porque a velocidade da vida eletrônica não respeita a velocidade da vida”. Nasce também um “torcedor do basquete que não é um jogador, mas que na sua ansiedade marca pontos antes da própria equipe”. Nascem ainda mitos, lendas e personagens históricos relacionados ao gênio do rio, entidade mística intimamente presente na vida dos moradores de Saint Louis e que os protege de afogamentos e dos perigos das águas “em troca de dois pedaços de carneiro sacrificado oferecidos ao rio no nascimento de cada bebê da cidade”. Nascem a ritmo galopante analogias e metáforas. Na sua linguagem refinada e contrastante, o escultor afirma que a fórmula é simples: “A escultura e a mecânica são como a medicina. Existe um paciente que espera e eu tenho que ir até a minha farmácia buscar o medicamento necessário”. Com Fall Meïssa, o conceito de reciclagem ganha uma nova forma, uma forma em que a criatividade parece não ter esquina. * Publicado originalmente no site Afreaka e retirado do site Outras Palavras.

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“Ainda se morre de fome no Brasil”

A chegada de uma mineradora a uma região próxima a um quilombo nos arredores da cidade de Goiânia mudou a rotina dos moradores. Eles sonharam com empregos, mas poucos se concretizaram. A disputa pela terra se acirrou, o espaço para plantar diminuiu. O jeito passou a ser comprar comida. Os modos de vida se alteraram, as relações foram atropeladas. E, como resultado, as comunidades vivem hoje uma nova tragédia: em troca de alimento, há famílias que oferecem até suas filhas a operários da mineração. A prostituição infantil passou a ser uma triste realidade no quilombo. A denúncia foi feita recentemente no Fórum Brasileiro de Segurança e Soberania Alimentar (FBSSAN), em junho, pelo Grupo de Mulheres Negras Malunga. Desde então, de acordo com a organização, nada mudou e a situação só se agrava. O caso se perde em meio a outros que se multiplicam Brasil afora, invisíveis frente à euforia das estatísticas que mostram a redução da fome em nível nacional. Segundo a ONU para Alimentação e Agricultura (FAO), o número de 22,8 milhões de pessoas em 1992 com fome caiu para 13,6 milhões em 2012. A mudança foi significativa, pois, em 1990, 15% dos brasileiros passavam fome. Hoje, são 6,9%. Procurado pelo Canal Ibase, o MDS disse não ter os dados das áreas específicas onde há insegurança alimentar, sugerindo que se procurasse o IBGE. [caption id="attachment_99799" align="alignleft" width="300"] Indígenas são o maior grupo de risco do país. Foto: Reprodução/ Internet[/caption] Os dados recentes poderiam ser festejados, já que a economia brasileira é a sétima do mundo em termos de Produto Interno Bruto e, em alguma medida, isso se reverteu em mudança social. Mas, ao seguir à risca um modelo de desenvolvimento excludente, surge um anticlímax: o país se expõe a um vexame quando se verifica a persistência da fome em algumas regiões. O que vem à tona claramente sobre o tema é que o Norte e o Nordeste apresentam quadros de insegurança alimentar incompatíveis com a riqueza nacional. Nessa geografia da fome atual, existem territórios em que populações vivem situações gravíssimas, como afirma Francisco Menezes, pesquisador do Ibase e referência nacional no tema: - Eu diria que os que estão em pior situação atualmente são os indígenas. Em muitas regiões, perderam suas terras (com a chegada da soja, cana, etc), foram muito violentados em sua cultura e vivem situações de calamidade, ao qual o Estado pouco ou nada contribui – diz Menezes, fazendo um contraponto à euforia das estatísticas. Na Terra Indígena Governador, no município de Amarantes, a 700 km da capital maranhense, o problema da fome está associado ao conflito com latifundiários do agronegócio e, consequentemente, à dificuldade de acesso à terra. Como o Brasil nunca consolidou uma reforma agrária de fato, há muitas comunidades abandonadas pela ausência de garantia do território pelo Estado. Segundo Joaquim Cardoso, morador da TI de Governador e membro do comitê gestor da Fundação Nacional do Índio (Funai), há muitos indígenas sofrendo por escassez de alimentos: - A falta de acesso à terra no país é uma das causadoras da fome. Sem regularização de terras, o governo deixa que as batalhas continuem. Os pequenos, claro, continuam perdendo. Há índios na beira da estrada, sem ter onde plantar e sem dinheiro para comprar – contou Joaquim em entrevista ao Canal Ibase. Nordeste é maior foco da fome no país A situação dos índios só ganhou visibilidade com o anúncio de um possível suicídio coletivo dos Guarani-Kaiowa, um ano atrás. Mas a situação permanece inalterada lá e em muitos outros territórios indígenas espalhados pelo país. A professora Sandra Maria Chaves dos Santos, da Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia, afirma que os dados dos últimos 20 anos deixam clara a diminuição da fome do país, mas isso não é justificativa, enfatiza ela, para deixar de combatê-la. Ela estuda o tema na região Nordeste e afirma que, em Sergipe, por exemplo, houve melhora. Mas a insegurança alimentar continua grave em outros estados. - E como serão os resultados do próximo censo do IBGE em relação à fome, levando-se em conta que a seca da região já dura quase três anos? – ressalta ela. No Vale do Jiquiriçá, a professora fez uma pesquisa com base na Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) e de um questionário socioeconômico. O resultado é que, de 2.002 domicílios, constatou-se insegurança alimentar em 70,3%, com predomínio da insegurança grave e moderada (36,0%) em nove municípios. - Há que se chamar atenção quanto às estatísticas do Censo de 2010. Embora tenha havido uma redução importante da fome, o que se vê nos dados é a manutenção das desigualdades regionais. O problema é estrutural. Quanto menor o nível de escolaridade, por exemplo, maior é o risco de insegurança alimentar – diz ela. No contexto atual, em que muitas populações estão na iminência de perder acesso à terra com a chegada de megaempreendimentos e a expansão do agronegócio, a situação se agrava. É o que afirma o coordenador-executivo da Action Aid Brasil, Adriano Campolina: - As obras de infraestrutura no Brasil estão gerando novas pobrezas, com a expulsão das pessoas de seus locais de origem. Precisamos reverter isso, que também ocorre em função dos megaeventos esportivos: a Copa e as Olimpíadas. [caption id="attachment_100250" align="alignright" width="300"] Foto: http://www.shutterstock.com/[/caption] A presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Maria Emília Pacheco, diz que o desafio é frear esse processo. - É preciso investir na agricultura familiar, no banimento do uso de agrotóxicos. Há um conjunto articulador de políticas que está diretamente relacionado à segurança alimentar. O alimento tem que ser visto como direito humano e não como mercadoria. Para Maria Emília, a soberania alimentar ainda não foi alcançada no país. Isso, prevê a presidente do Consea, só ocorrerá quando todos os povos tiverem direito de estabelecer suas políticas do direito humano à alimentação. - É preciso pensar a produção, a distribuição e o acesso ao alimento. E não adianta apenas comer, é preciso saber quais alimentos estão chegando à mesa dos brasileiros. O Brasil assiste neste momento, por exemplo, ao aumento do sobrepeso. E há casos que combinam subnutrição com sobrepeso devido à baixa qualidade dos alimentos. Há pesquisadores que questionam, inclusive, se alguns alimentos superprocessados devem ser chamados de alimentos. Nessa linha, a professora Inês Rugani, do Departamento de Nutrição da Uerj, aponta um aspecto dramático no país, que aparece também no programa Bolsa Família. Ela alerta que famílias cuja renda é mais baixa estão adquirindo o hábito de comprar alimentos processados, a fim de consumir produtos semelhantes aos da classe média. A professora Inês Rugani, do Departamento de Nutrição da Uerj, vê um um aspecto dramático no país, que aparece também no programa Bolsa Família. Ela alerta que famílias cuja renda é mais baixa estão adquirindo o hábito de comprar alimentos processados, a fim de consumir produtos semelhantes aos da classe média. - A qualidade da alimentação cai muito, e a consequência na saúde é direta, como o aumento da diabetes. Um grande exemplo são os refrigerantes. Os mais baratos são ainda mais nocivos do que os mais divulgados pela propaganda maciça. As pessoas a que Rugani se refere ao menos são beneficiadas por políticas públicas, como o Bolsa-Família. Mas há aquelas que ainda sofrem de privação. - Ainda se morre de fome no Brasil – afirma Francisco Menezes. * Publicado originalmente no site Canal Ibase.


por Camila Nobrega e Rogério Daflon, do Canal Ibase
Foto: Reprodução/Internet Sociedade

Onde está a sua beleza?

[caption id="attachment_109328" align="alignleft" width="290"] Foto: Reprodução/Internet[/caption] Cuidar da beleza é um exercício que nunca acaba, e que precisa ser sustentado a cada instante. Desde o acordar até a decisão de ir para a cama, nas mais diferentes situações, nos reafirmamos quão belo somos. E não é apenas por meio daquele olhar ligeiro ou longo diante espelho que nos enxergamos. Trata-se de reconhecer, valorizar e fortalecer o verdadeiro belo que nos habita e nos permite enfrentar os desafios e as oportunidades cotidianas, firmes e seguros, e sem se deixar enquadrar nos padrões impostos pela sociedade de consumo. Cada um é um ser distinto, bonito na sua essência, e com os recursos necessários para assumir seu espaço e o seu lugar neste mundo. Essa é a convicção que precisa ser descoberta e nutrida dentro, e não fora. Cada um deve conhecer e acionar o conjunto de conexões internas, que nos permite exercitar as habilidades natas e as aprendidas, para que possamos lidar com os acontecimentos, os quais, muitas vezes, nos tira do eixo ou nos faz enxergar outras janelas, a fim de que, com equilíbrio, consigamos ver e sustentar percepções; decodificar e superar dúvidas ou revisitar as nossas certezas. O ser humano bonito por natureza é consciente dos seus valores e aptidões, e se permite transitar com desenvoltura pelos diversos territórios do viver. E quando quiser dar um “tapinha” na aparência pode escolher entre milhares de Salões de Beleza disponíveis em todos os bairros da sua cidade. Bem disse o Zeca Baleiro: “Você não precisa de um salão de beleza. Há menos beleza num salão de beleza. A sua beleza é bem maior do que qualquer beleza de qualquer salão”. E digo também que belos são os profissionais que sabem exatamente como realçar a beleza de cada um de nós, independente do Salão que eles estão ocupando. Por aqui, fico. Até a próxima. * Leno F. Silva escreve semanalmente para Envolverde. É sócio-diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. É diretor do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, membro-fundador da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade, e da Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra. Foi diretor executivo de sustentabilidade da ANEFAC – Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


por Leno F. Silva*
Turquia Inter Press Service - Reportagens

Turquia caminha na corda bamba da Crimeia

Istambul, Turquia, 12/3/2014 – A crise na península ucraniana da Crimeia obriga a Turquia a realizar um delicado equilíbrio: se sente responsável pela proteção da minoria tártara, mas não deseja afetar suas relações econômicas com a Rússia. São inúmeras as razões para o interesse de Ancara na Crimeia: a região foi parte do Império Otomano entre 1470 e 1783, e os turcos têm estreitas ligações culturais com os tártaros da Crimeia, que representam cerca de 15% da população da península. Porém, seria muito difícil para o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, adotar uma postura mais agressiva diante da Rússia, para satisfazer muitos nacionalistas turcos, sem colocar em risco o comércio com Moscou. Estima-se em centenas de milhares os tártaros radicados na Turquia, a maioria descendente dos que abandonaram a Crimeia depois da anexação da região pelo império russo em 1783. Entretanto, apesar de todos os fatores históricos e culturais em jogo, poderiam ser as considerações de política interna a constituírem o principal fator para definir a postura de Ancara diante da crise ucraniana. Erdogan se viu seriamente afetado nas últimas semanas por denúncias de corrupção em grande escala dentro de seu círculo próximo e em sua família. Agora se esforça para reforçar sua base política e se prepara para sua primeira prova eleitoral desde que surgiu o escândalo: as eleições locais previstas para o dia 30 deste mês. O governante Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) depende do significativo apoio de elementos nacionalistas. Por isso, altos funcionários em Ancara insistem em defender os interesses tártaros em meio à ocupação russa da Crimeia, região que pertence à Ucrânia desde 1954. “Que não passe por suas mentes a ideia de que nosso primeiro-ministro e nosso presidente estarão indiferentes a qualquer tema que afete nosso povo irmão na Crimeia e em qualquer outra parte do mundo”, declarou o chanceler, Ahmet Davutoglu, no dia 3 deste mês, diante de líderes tártaros na Turquia. Ele fez essas declarações depois de protestos em Ancara e de outras manifestações menores em cidades com grandes comunidades tártaras. “O que acontece na Crimeia hoje nos aterra a todos”, disse à CNN Turquia Zafer Karatay, representante turco do Parlamento Nacional Tártaro da Crimeia. O governo de Erdogan já sofre uma enorme pressão pelo escândalo de corrupção e pelo ainda latente ressentimento social causado pela forma como reprimiu, no ano passado, os protestos contra a construção de um centro comercial no Parque Tarksim Gezi. Assim, poderia afundar politicamente se for acusado de debilidade em temas referentes a povos amigos da Turquia. “Eles (os líderes do AKP) não querem ser criticados pelo eleitorado nacionalista de terem fracassado em proteger os tártaros”, opinou Sinan Ulgen, pesquisador visitante do Carnegie Europe, com sede em Bruxelas. “Não pode parecer indiferente ao destino dos tártaros, de seus próprios parentes, quando se apresenta como protetor dos povos que sofrem no Oriente Médio”, afirmou. Apesar das fortes manifestações de apoio – incluindo a visita de Davutoglu no começo deste mês a Kiev, onde se reuniu com a comunidade tártara da Crimeia – funcionários em Ancara tentam deter o fervor nacionalista. A economia é a principal razão: quase metade do gás natural consumido pela Turquia provém da Rússia. Esse país também é o sexto maior mercado das exportações turcas, no valor de US$ 7,2 bilhões em 2013, segundo o Instituto de Estatísticas Turco. Assim, a Rússia é de extrema importância para as empresas do país. No final de 2012, os investimentos estrangeiros diretos turcos na Rússia somavam US$ 9 bilhões, segundo o Ministério da Economia. Considerando que as relações com Moscou já estão tensas devido às diferenças com relação à crise na Síria, Ancara parece reticente em pressionar mais sobre a Crimeia. Durante uma conversa telefônica, no dia 5 deste mês, com o presidente russo, Vladimir Putin, Erdogan atribuiu a responsabilidade da situação na Crimeia “principalmente” ao novo governo ucraniano, segundo uma declaração oficial turca. O primeiro-ministro também advertiu que a “instabilidade afetará negativamente toda a região”. Em declarações, no dia 6 deste mês, à televisão estatal, o ministro de Energia, Taner Yildiz, descartou que o fornecimento de gás russo seja afetado, e garantiu que não há necessidade de buscar alternativas de outros países, como o Azerbaijão. No entanto, manter o adequado equilíbrio diplomático poderia ser mais difícil para Erdogan nas próximas semanas e próximos meses. O referendo que acontecerá na Crimeia, no dia 16, sobre a adesão da península à Rússia poderá criar um profundo dilema em Ancara, pontuou Ulgen. Se a Turquia se preocupa com a integridade territorial da Ucrânia e a possível perseguição de tártaros sob um controle russo, “deverá ser muito mais crítica de Moscou para que a Crimeia se separe da Rússia”. No dia 6, em Simferopol, capital da Crimeia, o líder tártaro Mustafá Jemiliyev revelou que o chanceler turco lhe garantira que Ancara “se envolveria se os tártaros da Crimeia corressem perigo”. Qualquer enfrentamento que envolva os tártaros da Crimeia e a população russa na península desatará paixões nacionalistas na Turquia e acrescentará pressão sobre Ancara para que adote algum tipo de ação. “Poderia haver alguns indivíduos nacionalistas (na Turquia) que estariam dispostos a ir para a Crimeia e lutar”, ponderou Umut Uzer, especialista em povos turcos e nacionalismo na Universidade Técnica de Istambul. De todo modo, será difícil para Erdogan adotar uma postura mais agressiva em relação à Rússia sem colocar em risco suas apreciadas relações econômicas com Moscou. Uma atitude mais beligerante “supõe uma dificuldade fundamental, porque a Turquia não quer colocar em risco suas relações políticas e econômicas com a Rússia, sobretudo considerando que Erdogan e Putin parecem manter uma boa relação”, ressaltou Ulgen. Envolverde/IPS * Dorian Jones é jornalista independente radicado em Istambul. Este artigo foi publicado originalmente pela EurasiaNet.org.


por Dorian Jones*
jornalismo 01 Sociedade

Uma outra imprensa é possível?

Não acredito no princípio iluminista de que o acesso à informação (ou ao conhecimento) pode transformar a realidade. A batalha das ideias, da qual a imprensa é elemento central, precisa ser, ao mesmo tempo, reflexo e impulsionadora das lutas concretas travadas pelos movimentos sociais reais. Na vida real, mesmo diante da significativa explosão social dos últimos meses, temos tido dificuldade de construir uma frente de esquerda popular que dispute eleições ou organize a participação direta nas ruas. E isso se reflete na batalha das ideias, onde também não conseguimos organizar uma frente informativa de esquerda que atue no sentido de desmistificar e problematizar as mentiras, manipulações e, principalmente, as inversões ideológicas de interpretação do mundo que vêm da grande mídia empresarial. Desde as manifestações de junho, com tudo de novo e diferente que mobilizou as ruas, determinados modos de governar têm sido veementemente recusados mesmo por quem nunca participou de uma passeata. O resultado é que políticos que há pouco tempo representavam uma maioria admirável, como é o caso de Sergio Cabral e Eduardo Paes, respectivamente governador e prefeito do Rio de Janeiro, encontram-se, neste momento, no limbo. Digam o que disserem sobre a falta de base organizativa dessas manifestações, elas tiveram repercussão, no curto prazo, para muito além delas próprias. Foi essa mobilização que fez com que, apesar dos esforços em contrário dos Bonners da vida, o telespectador do Jornal Nacional visse professor apanhar da polícia em praça pública e, bem recentemente, gari ser chamado de marginal por reivindicar um salário de R$ 1.200. A incapacidade de se construir uma imprensa popular Enquanto a manipulação está no nível de questões mais gerais, como, por exemplo, a cobertura parcial sobre a crise na Venezuela, seu potencial ideológico, de inversão, naturalização e ocultamento da realidade é grande. Mas o fato é que esses impasses, desde junho, estão se tornado mais concretos e próximos a cada dia. Antonio Gramsci dizia que, em relação à sua concepção de mundo, o senso comum não é convencível por argumentos. Composto de um amontoado de referências diferentes e mesmo contraditórias, ele tem como baliza principal a confiança nos seus, a confiança no que dizem e fazem aqueles que pertencem ao seu grupo social. Essa perspicácia do comunista italiano parece de grande importância agora: afinal, entre amigos, familiares, colegas de trabalho ou vizinhos, todo mundo conhece ou conhece alguém que conhece um professor e um gari, e sabe que eles não correspondem àquela imagem reproduzida na TV ou no jornal, seja a de vândalo, de vagabundo ou de ingênuo a ponto de ser manipulado por interesses políticos e econômicos outros. A mentira ganha forma concreta. Posso estar sendo otimista, mas acredito que isso tem feito com que a credibilidade e o poder de fogo das grandes empresas de comunicação, principalmente as Organizações Globo, também caminhem para o limbo. Se vão permanecer lá ou se recuperar num tempo breve, só a história (presente) vai dizer. O problema é que não temos o que colocar no lugar, nem dos políticos nem dessa mídia. E uma coisa tem diretamente a ver com outra. Não se conseguiu organizar uma frente de esquerda, seja partidária, seja de movimentos sociais, que ocupe esse espaço e, ao mesmo tempo e pelas mesmas razões – sejam elas quais forem –, isso tem reflexo direto na falta de unidade construída para a batalha das ideias. Como nos ensinaram clássicos do pensamento marxista, como Lenin e Gramsci, cada um adequado ao seu tempo, o jornal (no sentido mais amplo, independentemente da mídia ou suporte) pode contribuir com o aprofundamento e a organização da luta social. Não pode inventá-la, nem substituí-la, sob o risco de se cair num idealismo de que a informação e o conhecimento resolvem os problemas reais. Mas pode retroalimentá-la, fortalecê-la e se fortalecer no mesmo movimento. A incapacidade de se construir uma imprensa popular de caráter nacional ou internacional, que efetivamente dispute sentidos e hegemonia, tem relação direta – embora não de causa e consequência – com as dificuldades pelas quais as lutas sociais passam no Brasil desde a década de 1980, na mobilização e na organização. Não arrisco dizer no que essas manifestações recentes vão dar, mas elas já são um marco nessa história e, portanto, são uma janela de oportunidade para novos marcos também no campo da comunicação. O pente fino editorial Que imprensa seria essa obviamente não se pode prever porque isso depende do que seriam e de que forma teriam as lutas reais, travadas por pessoas, grupos e organizações concretas e do grau de rechaço que elas podem produzir a esse mundo que aí está. É possível (e preciso), no entanto, ter clareza do que ela não pode ser, ou daquilo a que ela precisa se contrapor, no terreno da comunicação. E aqui temos que ir ao ponto da caracterização mais estrutural daquilo que chamamos de grande imprensa, mídia corporativa, comunicação de massa, imprensa empresarial entre muitos outros nomes mais ou menos corretos de acordo com a crítica que se faça. São todos apelidos adequados e mais fáceis de digerir, mas não podem ocultar o nome de batismo, aquele que mostra a filiação desses veículos e dessa prática jornalística que se naturalizou como se fosse de todos nós. Não é. Pode ter cheiro de naftalina, mas é isso mesmo: trata-se da imprensa burguesa, uma imprensa que tem lado numa sociedade dividida em classes. E isso mesmo a despeito das boas intenções e esforços éticos – quando é possível – dos muitos jornalistas que a ocupam na crença de estarem prestando um serviço público à democracia. Identificar o caráter de classe dessa imprensa significa reconhecer que os “interesses” frequentemente denunciados desses grupos empresariais no trato jornalístico dos fatos (ou não-fatos) vão muito além dos benefícios esparsos de um anúncio publicitário. Os ganhos, econômicos em primeiro lugar, e políticos como forma de sustentar os econômicos estão em esferas muito maiores e dependem também da sustentação de concepções de mundo que, na melhor das hipóteses, deixem tudo como está. Na pior – ou será que pode piorar ainda mais? –, apelam, na batalha das ideias e no lobby político direto, por mais repressão, mais ódio institucional e perda de direitos sociais (tudo sempre travestido de interesse público), como temos visto recentemente. Com isso quero dizer que a grande imprensa funciona como uma conspiração diária, em que os Marinho e seus semelhantes controlam cada detalhe da notícia? Claro que não. E nem é necessário. Não resta dúvida de que, sobretudo em momentos de crise de hegemonia, como o atual, no Brasil, esse pente fino editorial se faz presente, a ponto de gerar mal-estar nos próprios jornalistas, como aconteceu no Globo depois da capa do dia 20 de outubro passado. Mas essa não é a regra. No dia a dia das redações, aspectos corriqueiros e naturalizados garantem uma tal fragmentação do trabalho jornalístico que, ao impedir os nexos e contextualizações, mantém uma impressionante coerência ideológica. De um lado, temos um processo de trabalho que explora, robotiza e emburrece o jornalista. De outro, para compensar, temos um modelo de jornalismo e uma concepção de notícia que isolam os fatos, em nome da objetividade, retiram-nos da história, em nome da atualidade, e os jogam no esquecimento logo que é conveniente, em nome da velocidade própria desse jornalismo. Canais próprios Por tudo isso, a luta no campo da comunicação precisa ser pela construção de canais e veículos próprios, que desempenhem o papel de aparelhos privados de hegemonia, na conceituação de Gramsci, mas no sentido inverso ao da ordem estabelecida. Indo direto ao ponto: os jornalistas da grande imprensa, imersos num furacão de fragmentos que se tornou o trabalho jornalístico, devem ser disputados. Já a grande imprensa (burguesa), não. Não se trata de negar a importância, hoje, de se ocupar espaço nesses veículos para, de vez em quando, em momentos cruciais, se abrir alguma brecha para o contraditório ou se criar um constrangimento, como recentemente aconteceu com a coluna de Caetano Veloso no Globo sobre a tentativa do jornal de envolver o deputado Marcelo Freixo na morte do cinegrafista da Band. Mas é preciso não esquecer que isso é tão importante hoje apenas porque não temos outra opção, já que esses são os únicos jornais e telejornais massivos. Essa tática importantíssima, portanto, revela um vazio, uma ausência, e uma dependência estrutural; não pode levar à ilusão de que, como formiguinhas, mudaremos o caráter de classe de uma imprensa empresarial que depende dessa divisão para sobreviver – não esqueçamos, apenas para que esse papo não fique abstrato demais, que três irmãos da família Marinho figuram na lista dos maiores bilionários do mundo produzida pela revista Forbes este ano e eu não conheço concretude maior do que essa. Antes que aqueles que não reconhecem a cisão estrutural dessa sociedade e, portanto, não acreditam na luta de classes denunciem o cheiro de naftalina dessa proposta, me adianto em dizer o que ela também não pode ser “à esquerda”. Em primeiro lugar, não me refiro a jornais panfletários e nada jornalísticos como os que temos hoje de partidos ou sindicatos. Também não me refiro à comunicação comunitária, que desempenha um papel muito importante nas lutas locais, mas tem pouco potencial para uma efetiva disputa de hegemonia que se dá no nível da batalha das ideias. Tampouco trato aqui de um tipo de imprensa pequeno-burguesa que se atribui o título de alternativa para fazer, em nome de uma suposta esquerda, o mesmo tipo de manipulação grosseira que as Veja da vida fazem pela direita. Falo de uma imprensa que ressignifique, na sua própria elaboração, a prática do jornalismo; que dispute a (contra)informação e os sentidos mais gerais dos fatos imediatos em nome (e pelas mãos) de uma frente de movimentos sociais orgânicos e, se for essa a configuração que as ruas apontarem, também partidos de esquerda. Que trabalhe não na construção de versões alternativas dos fatos, mas na desconstrução da ideologia vigente, o que significa atuar para desnaturalizar, desocultar e desinverter as verdades que foram e são cotidianamente postas de cabeça para baixo. Em resumo: uma imprensa e um jornalismo que possam responder à concentração monopólica e de classe que temos hoje não com uma “diversidade” abstrata, que busque o falso princípio democrático de fazer as pessoas pensarem por si, mas com o esforço de construção concreta de um outro si, que só existe e faz sentido social e coletivamente. * Cátia Guimarães é jornalista. ** Publicado originalmente no site Observatório da Imprensa.


por Cátia Guimarães*
nuclear Inter Press Service - Colunistas

O estado do jogo do desarmamento nuclear

Nova York, Estados Unidos, março/2014 – Se a psicose é uma perda de contato com a realidade, o atual estado do desarmamento nuclear pode ser descrito como psicótico. Por um lado, a questão nuclear está começando a despertar da letargia em que esteve durante várias décadas. Por outro, o compromisso dos Estados nucleares com um mundo sem armas atômicas é mais violado do que cumprido. Comecemos somando os prós e os contras do desarmamento nuclear. Do lado dos prós temos o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, crucial para o problema, que se manifesta reiteradamente sobre o assunto, embora tenha reduzido a marcha. Ao discursar na Universidade de Pardue, no dia 16 de junho de 2008, afirmou: “É hora de enviar ao mundo uma clara mensagem: os Estados Unidos buscam um mundo sem armas nucleares. (...) Converteremos o objetivo de eliminar todas as armas nucleares em um ponto central de nossa política nuclear”. Não houve referência a quanto tempo isso poderia levar. Um ano depois, em seu famoso discurso de Praga, em 6 de maio de 2009, Obama afirmou: “Declaro abertamente e com convicção o compromisso dos Estados Unidos de buscar a paz e a segurança de um mundo sem armas nucleares”. Mas acrescentou que esse objetivo não será alcançado rapidamente, talvez não enquanto ele, que na época tinha 48 anos, estiver vivo. Quatro anos mais tarde, em 19 de junho de 2013, em Berlim, Obama anunciou: “Paz com justiça significa buscar a segurança de um mundo sem armas nucleares, sem importar o quanto este sonho possa estar longe”. Para ser sincero, a trajetória para a abolição anunciada em Praga foi implementada ou bloqueada sem responsabilidade do presidente. Foi negociada com a Rússia uma redução substancial das armas nucleares e se diminuiu o papel das armas nucleares na estratégia de segurança dos Estados Unidos. A ratificação do Tratado Exaustivo de Proibição de Testes e a negociação de um Tratado de Materiais Físseis, ambos favorecidos pelo governo de Obama, se mantêm suspensos, um por parte do Senado dos Estados Unidos e o outro por outro país. Porém, redução não é o mesmo que eliminação, e os departamentos norte-americanos de Defesa e Energia continuam empreendendo políticas que são claramente incompatíveis com o desarmamento nuclear, a saber: • A Estratégia do Emprego Nuclear dos Estados Unidos, emitida pelo Departamento de Defesa, em 19 de junho de 2013, estabelece que as armas nucleares só serão usadas em circunstâncias extremas, mas que é muito cedo para limitar seu uso estritamente à dissuasão; • A Avaliação de Tecnologia de Monitoramento e Verificação Nuclear, divulgada em janeiro pelo Conselho de Ciências de Defesa, admite que, pela primeira vez desde que começou a era atômica os Estados Unidos, têm de estar preocupados não só pela proliferação horizontal, por exemplo, aos países que não possuem armas nucleares, mas também pela proliferação vertical, por exemplo, nas nações que as possuem. Mas o informe de cem páginas não faz nenhuma referência aos requisitos de monitoramento e verificação em um mundo livre de armas nucleares. No dia 6 de fevereiro, em uma evidente violação do espírito, se não do texto, do Tratado de Não Proliferação Nuclear, os Estados Unidos anunciaram ter realizado com sucesso um teste de impacto (sem incluir uma explosão) da bomba nuclear B-61. Donald Cook, vice-administrador de Defesa nesse departamento, disse que a engenharia da nova bomba já começou e que isso permitiria substituir modelos mais antigos “para meados ou final dos anos 2020”. Daí a política dos Estados Unidos sobre desarmamento nuclear ser, pelo menos, heterogênea, e a das outras oito potências nucleares armadas não ser muito melhor. Agora passemos às boas notícias. Em 2013 as potências não nucleares tomaram medidas mais animadoras para o desarmamento do que em anos anteriores: • Em fevereiro, o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), organizou um Fórum sobre a Criação das Condições e da Construção de um Contexto para um Mundo Livre de Armas Nucleares, convocado pela Iniciativa das Potências Médias. Participaram 26 governos e várias organizações da sociedade civil; • Em março, o Ministério das Relações Exteriores da Noruega, outro país da Otan, convocou em Oslo uma Conferência sobre o Impacto Humanitário das Armas Nucleares, da qual participaram 128 governos e várias organizações da sociedade civil; • Em 21 de outubro, o embaixador norueguês junto à Organização das Nações Unidas (ONU), Dell Higgie, entregou ao Primeiro Comitê do fórum mundial a declaração adotada por 125 países, muitos dos quais participaram da conferência em Oslo. Ali se estabeleceu que a única maneira de garantir que as armas nunca voltem a ser usadas é eliminando-as completamente; • O grupo especial de trabalho de composição aberta sobre o Desarmamento Nuclear, estabelecido pela ONU, se reuniu pela primeira vez em maio, em Genebra, e em agosto produziu um informe para a Assembleia Geral propondo uma variedade de enfoques destinados a alcançar o desarmamento nuclear, incluindo um parágrafo sobre o papel do direito internacional; • Também pela primeira vez, a Assembleia Geral da ONU manteve em 26 de setembro uma reunião de alto nível sobre desarmamento nuclear, na qual país após país, representados por seu presidente, seu ministro das Relações Exteriores ou por outro alto funcionário, pediu um imediato e efetivo avanço para um mundo sem armas atômicas; • Por fim, e o mais importante, durante a conferência de acompanhamento de Oslo realizada na cidade mexicana de Nuevo Vallarta, nos dias 13 e 14 deste mês, Sebastian Kurz, ministro das Relações Exteriores da Áustria, anunciou que convocaria uma conferência em Viena no final deste ano, porque “os esforços internacionais de desarmamento nuclear exigem uma mudança urgente de modelo”. A conferência de Viena não será apenas um terceiro simulacro dos horrores indescritíveis das armas nucleares. Abordará assuntos sérios, talvez inclusive iniciando a redação do rascunho de uma convenção que proíba o uso e a posse destas armas, como sugeriu o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Mas há um problema: os países que têm armas nucleares boicotaram tanto a reunião de Oslo quanto a de Nuevo Vallarta. O que ocorrerá se também boicotarem Viena? Essa é a questão. Também é o desafio que enfrenta a crescente comunidade contrária às armas nucleares, tanto oficial como não oficial. A vergonha pode ser uma ferramenta da diplomacia. O Tratado de Não Proliferação, que para as potências nucleares é apenas meras palavras, exige esforços de boa fé de parte de todos os Estados para conseguir um mundo livre de armas nucleares. Este é um bom momento para lembrar aos Estados nucleares, e particularmente aos cinco grandes, essa obrigação tão importante. Envolverde/IPS * Peter Weiss é presidente emérito do Comitê de Advogados sobre Política Nuclear.


por Peter Weiss*
Foto: http://www.shutterstock.com/ Sociedade

A caminho das eleições sem saber aonde vamos

[caption id="attachment_100182" align="aligncenter" width="524"] Foto: http://www.shutterstock.com/[/caption]   Quem quer que se detenha hoje no noticiário sobre a política brasileira e sobre a campanha eleitoral que se avizinha não terá como escapar a certa perplexidade e a interrogações inquietadoras. Quando nada, porque a situação parece indefinida. As pesquisas sobre intenções de votos para a Presidência da República sugerem um quadro ainda em mutação, quase volátil. Com a ocupante do cargo em vantagem, mas com a oposição ainda sem saber com clareza para onde vai - e se vai unida ou fragmentada, ou que consequências terá sobre o eleitorado o início do julgamento do "mensalão mineiro"; se a Justiça proibirá ou não doações de empresas para campanhas e quem mais perderá ou ganhará com isso. Nesse panorama, o partido dominante no poder leva vantagem - seja por dispor das "benesses" desse poder que seduzem votantes, seja porque o "aparelhamento" nos cargos públicos (fala-se em dezenas de milhares de partidários, talvez centenas de milhares) facilita as ações. Também nesse panorama, as perguntas são muitas. Começando, num âmbito mais amplo, com as interrogações sobre o que acontecerá no País se continuarem prevalecendo as graves questões do clima que nos assoberbam. Seca mais prolongada, embora já seja a pior em muitas décadas? Com que consequências nos reservatórios e no abastecimento de água? E no campo da energia? Como isso se refletirá na avaliação dos candidatos? Depois, cabe perguntar que rumo tomarão os chamados protestos de rua. Que legislação vem por aí? Haverá proibição de "mascarados", como quer o governo federal, com prisão de até dez anos para eles? Mas com a Copa do Mundo de Futebol se aproximando e 75,8% dos eleitores inconformados com os custos gigantescos assumidos pelo governo (CNT, 19/2)? Não é o único complicador. Também da área econômica vêm muitos indicadores que sugerem prudência - PIB nacional em queda, redução nas vendas de veículos (provavelmente com o maior endividamento dos setores sociais "emergentes" internos), baixa nos índices de emprego no último trimestre de 2013 e nos números de assentados em áreas rurais. As notícias internacionais oscilam de rumo, ora com o Fundo Monetário Internacional dizendo que "o crescimento global mantém o ritmo" (Estado, 20/2), ora com os Estados Unidos alertando para a "turbulência" nos emergentes (22/2), que precisariam pôr "a casa em ordem". As contas correntes brasileiras registraram em janeiro o maior déficit mensal já apurado - US$ 11,6 bilhões (Estado, 22/2). Internamente, diz o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues que "a lua de mel com o Brasil acabou" e que é "cada vez mais forte entre empresários a ideia de que o País será rebaixado pelas agências de rating" (13/2). Teremos eleições com a economia em declínio? Que consequências daí advirão - ainda mais com o governo federal anunciando (Folhapress, 21/2) que realmente o crescimento do PIB será menor do que o estimado antes e que fará um corte de R$ 44 bilhões nas despesas governamentais? Em que áreas, com que reflexos no eleitorado? Tudo isso vem num momento de alta turbulência internacional, conflitos entre superpotências a respeito da Ucrânia, queda de mais um governo no Egito, povo revoltado nas ruas da Indonésia, na Síria, na Venezuela, até na Argentina - os dois últimos trazendo mais aflição ao Brasil. Até na China, ferreamente controlada, se sucedem protestos em Pequim e outras cidades, por causa da poluição do ar (FP, 25/2). As rebeliões nas ruas demonstram mais uma vez que as mobilizações sociais via redes na internet - sem projetos políticos específicos - têm levado a fortes turbulências e até a mudanças de governos, sem que se configure uma nova realidade política e social - como já se escreveu neste espaço. E hoje é muito alta a porcentagem de eleitores nas nossas redes. Para citar um caso, em Goiás mais de 40% deles participam de alguma rede; entre jovens de 16 a 18 anos, são 80%; quase 40% têm renda de até dois salários mínimos e 24%, mais de cinco salários mínimos (O Popular, 24/2). Como se refletirão essas coisas entre eles, no País todo ou num Estado onde o número de mandados de prisão por crime chega a 25 mil, o dobro da população carcerária? A incerteza será maior ainda com a resolução do Tribunal Superior Eleitoral (Agência O Globo, 14/1) que veda aos veículos de comunicação "fazer enquetes ou sondagens sobre as eleições durante o período de campanha; são proibidas as pesquisas de opinião pública sem registro formal". E a Justiça Eleitoral ainda poderá auditar "a qualquer tempo equipamentos eletrônicos portáteis usados em pesquisas". Nos dias de eleição, resultados dessas sondagens só poderão ser divulgados depois de encerrada a votação. São muitas interrogações. Com a agravante maior de que os partidos no poder não parecem empenhados numa plataforma eleitoral que traga um diagnóstico da situação real do País e de suas questões mais graves. Da mesma forma a oposição, que até aqui se limita a discursos vagos, genéricos, sem enfrentar com clareza os problemas sociais de um país que ainda tem muitos milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da miséria. Com as cidades tumultuadas por indefinição em áreas como o transporte. Sem legislação adequada para o adensamento urbano e o agravamento de tudo ao seu redor. E muito mais. Que se espera que aconteça? Que venham de fora soluções milagrosas? Que a seleção de futebol seja a campeã do mundo e gere euforia interna duradoura? Que tenhamos por aqui rumos diferentes dos que se veem nos países convulsionados por mobilizações em redes incontroláveis? É esperar demais. Graves e imensas tarefas aguardam a comunicação - essencialmente, que ela seja capaz de suprir informações indispensáveis à população e que a esta permitam escolhas adequadas. Sem fugir às complexas questões visíveis em toda parte. * Washington Novaes é jornalista. ** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.


por Washington Novaes*
Maquete da usina de Belo Monte. Foto: Ministério do Planejamento Sociedade

O Brasil tem meia Itaipu à espera de aprovação. Por quê?

[caption id="attachment_108923" align="alignleft" width="300"] Maquete da usina de Belo Monte. Foto: Ministério do Planejamento[/caption] Por que gastamos bilhões com termoelétricas? Será que só na Amazônia existe potencial hidráulico? Estas e outras questões sobre a crise no setor elétrico. Que o Brasil tem o maior potencial hidroelétrico aproveitável do mundo, isso já sabemos todos. Mas por que não podemos aproveitá-lo? Por que gastamos 23 bilhões de reais durante 2013 com termoelétricas movidas a petróleo e mesmo assim, sofremos apagões? As dúvidas da população sobre o setor elétrico são muitas. E há muitas outras, também sem resposta. Será que a culpa é dos índios, dos órgãos ambientais e das ONGs? Será verdade que é só na Amazônia que existem novos potenciais hidráulicos, como afirmam algumas autoridades? Por que razão, tal como nos anos 1970, apenas “mega-hidrelétricas”, de grande impacto ambiental, na Amazônia, são leiloadas pelo governo? Por que elas não podem ter reservatórios? Qual é a norma que prevê essa proibição? Baseada em qual estudo foi ditada? Por que não se publicam dados sobre o potencial hidroenergético brasileiro? Por que não discutimos a questão energética com a população, inclusive com os índios? Será impossível usar de forma sustentável mais de 160 gigawatts remanescentes, que é 2,6 vezes maior do que os 61 gigawatts em operação? Por que os 40% deste total, que estão fora da Amazônia, nunca são leiloados pela ANEEL/EPE? Quem escolhe por onde começar essa análise de projetos feita pela ANEEL? A própria ANEEL ou algum órgão ou autoridade? Existe alguma ordem de preferencia? Por que, até agora, só ficam prontos para leilão apenas projetos na Amazônia? Por que o governo federal, que desde 1941 já realizou mais de 140 conferencias nacionais sobre saúde, educação e meio Ambiente nunca realizou uma Confêrencia Nacional de Energia? Por que o governo não nomeia os dois conselheiros que representam a sociedade no Conselho de Monitoramento do Setor Elétrico, criado em 2004, como manda a lei? Buscando algumas respostas, em 25 de abril de 2013, a Associação Brasileira de Fomento às Pequenas Centrais Hidroelétricas (ABRAPCH) protocolou na ANEEL um relatório denunciando o atraso daquela agência na análise dos projetos de 640 pequenas hidrelétricas, conhecidas como PCHs, 95% deles situados fora da Amazônia. O relatório apontou que, em vez “problemas ambientais”, na verdade são as exigências ilegais, impostas pela própria ANEEL, as verdadeiras causas desse atraso injustificado, como concluiu a procuradoria federal do órgão, em vários processos. Juntas, apesar de pequenas, as PCHs teriam aportado mais de 7.000 MW (meia Itaipu) e já estariam prontas há seis anos e seriam construídas não na Amazônia, onde o licenciamento ambiental é muito difícil, mas no sudeste e no centro/sul, junto aos centros de carga, dispensando grandes linhas de transmissão. Nos horários de “pico”, as PCHs têm a grande vantagem de entregar ao sistema a energia que acumularam durante o dia em seus pequenos reservatórios, aliviando a carga das linhas de transmissão de longa distância. Isso diminui o risco de problemas no percurso derrubarem o “castelo-de-cartas” que se tornou a rede elétrica do sudeste, estressada pelo crescimento da carga sem investimentos suficientes em geração de fonte hídrica na região. Ambientalmente falando, as PCHs têm alagamento médio menor do que 15 campos de futebol e regularizam os rios, recompõe a vegetação das margens em suas áreas de preservação permanente, diminuindo a erosão, ajudando a evitar enchentes. Sem qualquer resposta, um ano depois de nossa denúncia, protocolamos na ANEEL, na semana passada, outro relatório. Desta vez, anexamos um pedido para a formação de uma comissão de sindicância, para apurar os fatos e as responsabilidades. Mostramos, com indicadores gerenciais da própria ANEEL, que há uma crescente na já baixíssima produção do órgão na aprovação não apenas de projetos de hidrelétricas grandes e pequenas, mas dos inventários de novos potenciais. Segundo os números, a agência aprova menos de 35 projetos de pequenas usinas por ano, com uma média de 268 MW. Nessa velocidade, para aprovar os projetos atuais, a agência gastaria 22 anos. O relatório mostra que, devido aos derivados importados para as térmicas, o saldo da balança comercial caiu de 19 bilhões de dólares em 2012 para 5,4 bilhões em 2013, no sentido contrário aos esforços para superar crise econômica. Mostramos também que se considerarmos o país como um todo existe realmente uma “folga” na geração. Mas a situação é muito instável na região sudeste/centro-oeste, devido ao seu déficit energético que hoje é de 2100 MW, mas que vai chegar a 6.700 MW em 2018, quase meia Itaipu. Foram simulados no trabalho mais de 10 mil cenários para todas as falhas simultâneas e possíveis no nosso sistema, considerando características físicas e elétricas o tempo de vida de cada uma das linhas de transmissão. O resultado é assustador e prevê que em 2018, se nada continuar a ser feito no sudeste em termos de geração hidrelétrica remanescente, enfrentaremos 14,67 dias com eventos de perda severa de grandes cargas no Sistema Interligado Nacional. E que, ainda em 2014, devamos sofrer ainda 2,83 apagões além do que ocorreu no dia 5 de fevereiro. É preciso que a sociedade conheça mais sobre esses assuntos e ajude a abrir mais essa “caixa-preta”. Acessar nossos relatórios, escritos em linguagem bem acessível, pode ser uma boa alternativa individual. Mas difundir a necessidade de uma Conferência Nacional de Energia assinando nossa petição “on-line” é uma atitude bastante coerente. Para ajudar, visite a www.abrapch.org.br e conheça mais sobre o setor elétrico brasileiro e suas estranhas perguntas sem resposta. O resultado é sempre um só: gastar mais derivados de petróleo importados, caros e poluentes. * Ivo Pugnaloni é engenheiro eletricista, presidente da Associação Brasileira de Fomento às Pequenas Centrais Hidrelétricas – ABRAPCH e do Grupo ENERCONS, tendo sido diretor da COPEL. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Ivo Pugnaloni*
12-anos-escravidao1-500x277 Sociedade

Escravidão e racismo nunca mais

Steve McQueen conseguiu mostrar em cores e numa segura direção e condução de “efeitos especiais”, toda a brutalidade da escravidão norte americana no imperdível “12 Anos de Escravidão”, filme baseado em fatos reais. Algumas cenas de açoite são difíceis de acompanhar, em função da violência e da gratuidade dos castigos impingidos por um escravagista completamente desorientado, que mantém uma relação destrutiva com a esposa ciumenta, mas que o desqualifica em público com a mesma tranquilidade que agride Patsey, a escrava preferida do marido. Para resistir ao regime desumano, Platt, que até ser enganado e vendido, era livre, morava em New York, tinha família e era um exímio violonista, constrói outro ser, que demonstra não sabe ler nem escrever e, dessa forma, sobrevive. Durante os 12 anos em que ficou submetido ao regime escravo, Platt jamais se descolou de Solomon Northup, seu verdadeiro nome, nem de sua personalidade. Soube aproveitar uma chance quando percebeu numa conversa que um carpinteiro free lance tinha críticas à escravidão e o persuadiu a escrever uma carta a seus amigos a fim de comprovar que era livre. Até a reconquista de sua identidade, Solomon percorreu os diversos caminhos da injustiça e pagou o preço por não abrir mão de sua dignidade. Diferente dele, naquele período, milhões de escravos sucumbiu, e passados quase dois séculos, o mais desolador é a existência, nos dias de hoje, de práticas análogas ao trabalho escravo ou degradante, sob a justificativa de que esses regimes são adotados para garantir competitividade. É importante ver o filme para nos conscientizarmos de que a sociedade praticou essa e tantas outras atrocidades aos seres humanos, e que em pleno Século XXI, em determinadas situações, agimos com a mesma crueldade. Por aqui, fico. Até a próxima. Serviço: 12 Anos de Escravidão | Drama | direção de Steve McQueen | 14 anos | 133 minutos | Estados Unidos Oscar de melhor filme, de melhor roteiro adaptado e de melhor atriz coadjuvante para Lupita Nyong’o. * Leno F. Silva escreve semanalmente para Envolverde. É sócio-diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. É diretor do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, membro-fundador da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade, e da Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra. Foi diretor executivo de sustentabilidade da ANEFAC – Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


por Leno F. Silva*
Cuba Inter Press Service - Colunistas

Cuba, a integração e a normalidade

Havana, Cuba, fevereiro/2014 – Recentemente Cuba testemunhou dois acontecimentos que aproximaram muito mais a ilha do contexto caribenho e latino-americano, do qual, por anos, se viu distanciada depois do triunfo revolucionário de 1959, uma mudança política que levaria o país à expulsão da organização dos Estados Americanos, ao bloqueio econômico e financeiro norte-americano e a um dramático isolamento continental. A realização da II Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) em Havana, nos dias 28 e 29 de janeiro, foi um considerável apoio nesse processo de integração, quando 33 mandatários da região visitaram o país e se reuniram com seus dirigentes. Alguns deles foram testemunhas da inauguração da primeira fase da zona econômica especial de El Mariel, dotada de um porto considerado o maior da área do Caribe e onde funcionará um enclave com leis de zona franca para o comércio e a indústria nacional e estrangeira. No encontro da Celac falou-se de democracia e respeito pelos direitos humanos, segundo são entendidos por muitos países da região, que levaram seus conceitos a essa declaração final lida pelo presidente cubano, Raúl Castro: “Fortaleçamos nossas democracias e todos os direitos humanos para todos”, diz o texto. Apenas concluída a reunião regional, uma equipe cubana de beisebol partiu para ilha Margarida, na Venezuela, para participar da histórica Série do Caribe, um torneio do qual os clubes cubanos foram fundadores e máximos animadores, lá pelas décadas de 1940 e 1950, e do qual foram excluídos a partir de 1961. Para que Cuba voltasse a estes clássicos foi preciso contar inclusive com a anuência dos diretores da organização das Grandes Ligas do Beisebol dos Estados Unidos e até do Departamento do Tesouro, pois a maioria dos jogadores dos outros países participantes (México, Venezuela, Porto Rico e República Dominicana) pertence a franquias do poderoso circuito do beisebol norte-americano. Estes dois marcos amenizaram a distância de Cuba em relação à região e inclusive o dilatado bloqueio norte-americano contra a ilha, politicamente ineficiente, economicamente desgastante para os cubanos e condenado há anos na Assembleia Geral das Nações Unidas. Tudo isto dá um apoio político ao governo cubano. Obras como a de El Mariel, no entanto, trazem esperanças econômicas para um país cuja estrutura comercial teve de ser refundada há duas décadas, depois do desaparecimento da União Soviética. Mais recentemente, a União Europeia (UE) anunciou uma possível mudança em sua relação política com a ilha, um novo acordo que melhorará os vínculos entre as partes e a cooperação do bloco, quase reduzida a zero, mas sempre com a condição europeia de que Cuba melhore a situação dos direitos humanos referentes à liberdade de expressão e associação, entre outros. Embora o problema dos direitos humanos em Cuba sempre seja um ponto álgido em que cada parte (a estrangeira e a oficial cubana) esgrime seus próprios argumentos, no fundo, o mais grave e pesado dos problemas cubanos não se resolve com melhores relações políticas regionais ou globais, nem com jogos de beisebol carregados de simbolismo esportivo e político, mesmo quando declarações e aberturas diversas sempre ajudem. Tampouco é solucionado com o pertencer a blocos político-econômicos como a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), por mais que estes também possam ajudar. O problema é que a grande pendência da ilha caribenha está em seu funcionamento e desenvolvimento econômico internos, que nem mesmo a política de mudanças feitas ao calor da “atualização do modelo econômico”, como é chamado, conseguiu concretizar. Com discretos crescimentos anuais de aproximadamente 2% devidos, sobretudo, à exportação de serviços (médicos, em sua maioria), mais o aumento na produção e na produtividade, fica difícil superar a dependência das importações (a de alimentos ronda os 80%) e concretizar a melhoria das condições de vida dos habitantes, agoniados ao longo de mais de duas décadas pelos embates de uma crise que teve seus fossos mais profundos nos anos 1990, mas que não deixa de assolar os cubanos. Para o país é imprescindível sua integração à região e ao mundo. Mas para os cidadãos é uma urgência que se consiga uma relação realista entre salários e custo de vida, que a luta cotidiana pela sobrevivência não consuma o grosso de suas energias e inteligência, e que o acesso à internet não seja uma concessão ou um luxo, mas um direito acessível. Que se fomente um investimento estrangeiro capaz de modernizar a infraestrutura de uma nação tecnológica e industrialmente envelhecida, que sejam gerados empregos bem remunerados e que se torne efetiva uma abertura da opinião crítica capaz de analisar e julgar a partir de diversas perspectivas os problemas da sociedade. Que não se quebre o realismo econômico com medidas como a de pretender vender carros a cinco, seis vezes o preço máximo que poderiam alcançar no mercado internacional (esses carros que quase não são comprados e que deveriam poder ser adquiridos, por exemplo, por esses necessários investidores estrangeiros e pelos profissionais cubanos, que com seus serviços em meio mundo geram os mais sólidos ganhos que o país recebe), etc., etc... Enfim, que a integração se reverta em normalidade, produtividade, discussão e possível solução de problemas enquistados no modelo político cubano. Porque, junto à necessária integração, essa normalidade que permite forjar programas de vida e olhar para o futuro (algo impossível na Cuba de hoje) poderia ser, e de fato é, o sonho de muitos cubanos: ter um país normal que, a partir desse estado de equilíbrio, consiga a aspiração de um desenvolvimento justo e sustentável e, sobretudo, de uma vida mais sossegada e próspera. Simplesmente normal. Envolverde/IPS * Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas obras estão traduzidas em mais de 15 idiomas e sua mais recente novela, Herejes, é uma reflexão sobre a liberdade individual. 


por Leonardo Padura*
Os homossexuais de Uganda se preparam para enfrentar uma série de incidentes violentos após a aprovação de uma lei que os condena. Foto: Amy Fallon/IPS Inter Press Service - Reportagens

Lei contra homossexualidade é o tiro de misericórdia nos direitos humanos em Uganda

[caption id="attachment_108677" align="aligncenter" width="511"] Os homossexuais de Uganda se preparam para enfrentar uma série de incidentes violentos após a aprovação de uma lei que os condena. Foto: Amy Fallon/IPS[/caption]   Kampala, Uganda, 26/2/2014 – Os homossexuais de Uganda se preparam para uma onda de prisões e incidentes de assédio, depois que o presidente Yoweri Museveni promulgou uma draconiana lei contra o homossexualismo. Após a aprovação, um homem gay de Kampala disse à IPS que agora não há nada que se possa fazer, e que só resta deixar o país em busca de um lugar mais seguro. “Ninguém diz ‘quero ser gay’, especialmente aqui, em Uganda. Simplesmente nasce assim. Não escolhe”, afirmou. A Lei Anti-Homossexualidade intensifica os castigos existentes para quem seja pego mantendo relações com pessoas do mesmo sexo, e prevê períodos de prisão que chegam a prisão perpétua por “homossexualidade agravada”, o que inclui sexo com menor de idade ou com um casal que seja HIV positivo. O texto também estabelece o “crime de homossexualidade”, pelo qual uma pessoa pode ser condenada à prisão pelo resto de sua vida. O advogado John Francis Onyango, especialista em direitos humanos que representa muitos ugandeses da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais (LGBTI), contou que “definitivamente” viu um aumento das prisões contra esse setor da população desde que o projeto foi aprovado no parlamento, no dia 20 de dezembro. “Também há muitas pessoas gays que temem por sua segurança, sua liberdade e sua possibilidade de associar-se”, contou o advogado à IPS, acrescentando que atualmente representa a comunidade LGBTI nos tribunais em vários casos. Antes de o projeto se converter em lei, essa nação já tinha algumas outras leis contra quem fosse pego mantendo relações homossexuais. Museveni desafiou a condenação internacional assinando a lei, no dia 24, durante uma cerimônia pública na sede do governo. Isto surpreendeu a muitos, pois Museveni havia dito no final da semana passada que deixaria em suspenso a legislação enquanto buscava assessoria com cientistas dos Estados Unidos para saber se a homossexualidade é uma manifestação natural ou é educada. Mas o legislador Sam Okuonzi, presidente da Comissão de Relações Exteriores do parlamento, explicou à IPS que Museveni foi alvo de uma “enorme pressão” de parte de uma crescente quantidade de legisladores, líderes religiosos e cidadãos em geral para que promulgasse a lei. “Não há nada que tenha unido esse país de modo tão absoluto e forte como esse projeto”, afirmou. Depois que Museveni aprovou o texto, outro legislador, Stanley Omwonya, declarou à IPS que, “realmente se trata de preservar nossa cultura. Queremos que nosso povo tenha retidão moral”. Ativistas pelos direitos humanos questionam a lei argumentando que viola os padrões internacionais de direitos humanos e que é inconstitucional. Frank Mugisha, ativista ugandense pelos direitos dos gays e ganhador do Prêmio Robert F. Kennedy para os Direitos Humanos 2011, postou no Twitter: “Ao assinar o projeto antigay, Museveni faz um gol contra. Desafiaremos esta lei e a anterior”. Na mesma rede social, Mugisha escreveu: “@YKMusevenii sabe que revogaremos essa lei no tribunal constitucional e que, com nossa determinação, nada nos deterá”. Onyango apontou que a nova lei também apresenta dúvidas sobre o espaço que as organizações da sociedade civil terão para operar. Segundo a lei, se uma organização não governamental “promover a homossexualidade” poderá ser fechada e seus diretores ou líderes poderão ser julgados. Em um comunicado divulgado no dia 24, a organização Human Rights Watch declarou que Museveni desferiu “um golpe drástico à liberdade de expressão e de associação em Uganda”. Há apenas uma semana o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, alertou Museveni que promulgar a lei complicaria a “valiosa relação com Uganda”. No passado, Obama enviou soldados norte-americanos como assessores a Uganda para ajudar o país a combater o rebelde Exército de Resistência do Senhor (LRA) e capturar seu líder, Joseph Kony. O LRA é responsável por assassinatos em massa, violações e sequestros no norte de Uganda. Canadá, Irlanda, Holanda, Alemanha, União Europeia e o arcebispo anglicano sul-africano Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz, também divulgaram comunicados ou se manifestaram sobre o projeto de lei. Alguns disseram que, entrando em vigor, pode provocar cortes na ajuda que Uganda recebe. Segundo informado no dia 24, Noruega e Dinamarca anunciaram de imediato que congelaram ou desviaram sua assistência, enquanto a Áustria afirmou que avaliava a sua assistência. Canadá, Estados Unidos e a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgaram um forte comunicado condenando a lei. A União Europeia a qualificou de “draconiana”, enquanto a Grã-Bretanha declarou que está “profundamente entristecida e desiludida”. O advogado ugandense Adrian Jjuko apontou à IPS que o país deveria se preparar para uma redução da ajuda que recebe. Mas enfatizou que Uganda precisa de “sanções que não afetem as pessoas comuns, mas as que aprovaram a lei”. “Há alguns aspectos da ajuda que poderiam ser cortados, em lugar de outros. Não cortar a ajuda destinada à educação”, pontuou Jjuko, diretor-executivo do não governamental Fórum para a Conscientização e a Promoção dos Direitos Humanos. “Talvez em termos de gasto militar e coisas assim... se é esse o tipo de ajuda que se corta, é o corte que se sentirá, por ir diretamente para o presidente, seus interesses e ambições pessoais, em lugar de ir para o povo de Uganda”, acrescentou. Jjuko ressaltou que reduzir a ajuda apenas pela aprovação da nova lei seria fazer vista grossa para outras violações dos direitos humanos cometidas em Uganda. “A questão gay não é o único assunto neste país. Vistos em sua totalidade, os antecedentes de Uganda em matéria de direitos humanos está baixando”, acrescentou. O que diz a Lei Anti-Homossexualidade No contexto da nova lei, quem tiver condutas homossexuais será condenado à prisão perpétua. A “tentativa de cometer homossexualidade” implicará uma sanção de sete anos, assim como por “ajudar e instigar” a homossexualidade. Uma pessoa que “mantiver uma casa, quarto, série de quartos ou local de qualquer tipo com fins de homossexualidade” também enfrentará sete anos de prisão. A lei também penaliza com prisão a “promoção” da homossexualidade. Fonte: Human Rights Watch Envolverde/IPS


por Amy Fallon, da IPS

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Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

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Foto: NASA Earth Observatory image by Jesse Allen, using Landsat data from the U.S. Geological Survey/ Fotos Públicas

Nasa publica imagem que mostra efeito da seca no Sistema Cantareira. Veja os detalhes aqui.

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Crise no setor de saúde dos países afetados por ebola põe em risco a 800 mil mulheres grávidas. Foto: Mulher grávida em Freetown, Serra Leoa. UNICEF/Tanya Bindra

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Homem observa derretimento acelerado de geleiras no Ártico
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Fotógrafo da National Geographic expõe obras sobre mudanças climáticas em São Paulo. Veja mais aqui.

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Recife ganha seu primeiro parklet permanente. A estrutura funciona como espaço de convivência para promover o uso do espaço público de forma democrática.

São Paulo adere ao movimento ‘Outubro Rosa’ e ilumina monumentos. Foto: Fernando Pereira / SECOM - Fotos Públicas - 09/10/2014

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Banco Mundial aprova empréstimo para beneficiar serviços básicos em comunidades vulneráveis do Acre. Saiba mais aqui.

Intervenção do Artista Plástico, Eduardo Srur, no rio Pinheiros. Foto: Eduardo Srur - 29/09/2014 – São Paulo, Brasil - Fotos Públicas

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Hoje , 1º de outuburo, é o Dia Nacional do Idoso. A data serve para refletir a respeito da situação do idoso no país, seus direitos e dificuldades. Foto: Marcos Santos/USP Imagens/ Fotos Públicas

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Gisele Bündchen protesta pelo meio ambiente em desfile da Chanel.