“O capital está indo bem, mas as pessoas estão indo mal”

Sociedade

“O capital está indo bem, mas as pessoas estão indo mal”


por Piero Locatelli, da Carta Capital


[caption id="attachment_104217" align="alignleft" width="300"] Geógrafo esteve no Brasil para lançar livro publicado nos Estados Unidos em 1982. Foto: Divulgação[/caption] Para o geógrafo britânico David Harvey, que escreve sobre urbanização a partir do marxismo, os problemas das cidades criam novas formas de fazer política. Os problemas urbanos criam um espaço onde novas formas de fazer política podem acontecer. Para o geógrafo britânico David Harvey, 78 anos, é possível constatar isso ao olhar os protestos que ocorreram ao redor do mundo nos últimos anos. “Não vejo as instituições políticas respondendo ativamente a este novo jeito de fazer política. Mas  também não acho que esses movimentos saibam o que fazer”, diz Harvey. Professor da Universidade da Cidade de Nova York, Harvey falou com a reportagem de CartaCapital em São Paulo, antes de lançar o livro Os limites do capital (Editora Boitempo), publicado originalmente em 1982 e agora traduzido para o português. No livro, Harvey aborda a dinâmica da urbanização a partir de uma interpretação minuciosa do legado do filósofo alemão Karl Marx. Harvey é um dos principais estudiosos de Marx na atualidade. Suas aulas  sobre o primeiro volume do Capital de Marx, disponíveis na internet, foram vistas mais de um milhão de vezes. Para o geógrafo, a onda de neoliberalismo iniciada nos anos 1980 faz com que a obra do alemão esteja mais atual do que nunca. Leia abaixo a entrevista, feita nesta semana em São Paulo: CartaCapital: Na nova introdução de Os limites do capital,  o senhor escreve que o livro é mais relevante hoje do que ao ser lançado, há trinta anos. Por quê? David Harvey: Porque a ascensão do neoliberalismo nos trouxe de volta ao tipo de mundo que Marx descreveu. Marx, e seu livro Capital, consideravam um mercado funcionando perfeitamente, como [o economista liberal] Adam Smith havia sugerido. Em 1970, nós não tínhamos mercados que funcionassem perfeitamente. Havia muita intervenção estatal, medidas de redistribuição de renda e um sistema forte de impostos, e a Europa tinha o estado de bem-estar social. Quando chegamos aos anos 1990, o que estava acontecendo era familiar e tinha um paralelo com o Capital de Marx. CC: O interesse na obra de Marx tem crescido junto com sua relevância? DH: Sim. Desde 2008, todo mundo percebeu que o capitalismo não é um sistema perfeito, e que não é a prova de crises. Marx é o principal teórico que explica como e onde a crise irrompeu, por isso há tanto interesse nele. CC: O senhor se refere ao “direito à cidade” como o poder coletivo das pessoas nos processos de urbanização, conforme definido pelo sociólogo francês Henri Lefebvre na década de 1960. Como  a ideia de direito à cidade tem sido usada hoje em dia? DH: Acho que o direito à cidade é um conceito genérico, e todo mundo tenta reivindicá-lo. Agentes imobiliários, financeiros e pessoas ricas têm feito isso. A questão é: quem consegue preencher esse conceito com seu significado particular? Para o direito à cidade ser parte de um movimento social efetivo, as populações marginalizadas e oprimidas têm de tratar desse tema como elas próprias o visualizam, para assim tomar controle do processo de urbanização. Em muitas partes do mundo o movimento dos trabalhadores tem se enfraquecido, e as revoltas urbanas emergiram como uma das arenas de luta anticapitalista. As pessoas estão buscando um jeito de olhar para essas lutas, e a ideia do direito à cidade agora é mais aceita como parte do que a esquerda deve fazer. CC: Os protestos no Brasil começaram com o aumento na tarifa de ônibus em São Paulo. O senhor vê paralelo com o começo de outras revoltas ao redor do mundo? DH: Há um grande descontentamento pelo mundo. O capital está indo bem, mas as pessoas estão indo mal. E essa diferença é vista de forma mais clara na qualidade da vida urbana. As pessoas estão vendo recursos enormes gastos em obras e projetos espetaculares, mas que não são gastos para melhorar a vida da maioria da população. Por isso, há uma raiva dissipada que é alavancada por um motivo particular. Aqui, foi a questão das tarifas. Em Istambul, o governo queria colocar um shopping no lugar de um parque tradicional. Nestes e outros casos, é uma insatisfação com a qualidade de vida urbana. E a insatisfação com a vida urbana é construída pelo capitalismo. CC: Os protestos de junho no Brasil foram iniciados pelo Movimento Passe Livre, um movimento horizontal e sem líderes. Por que esse tipo de organização tem tido mais predominância nas revoltas dentro da cidade, em vez de partidos de esquerda e sindicatos? DH: Os problemas urbanos criam um espaço onde novas formas de fazer políticas podem acontecer, como foi no caso das passagens de ônibus aqui no Brasil. Todas as organizações que tenho visto buscando a mudança na qualidade de vida urbana não usam as mesmas estratégias dos sindicatos e partidos políticos de esquerda, porque os problemas de organizar uma cidade são muito diferentes dos problemas de organizar um sindicato em uma fábrica. Então há uma forma nova de fazer política que está emergindo. E a esquerda convencional tem quer lidar com essas novas formas. CC: O que faz esses grupos terem apoio do resto da população e gerarem revoltas urbanas? DH: O que transforma o ativismo desses grupos em algo maior é a resposta policial, é o poder público usando a violência para responder a manifestações legítimas. E aí, claro, as pessoas vão às ruas contra a violência policial e movimento ganha uma nova escala. Isso aconteceu na Turquia e no Brasil. Há ainda uma tendência de militarizar a vida urbana cotidiana. E isso não acontece somente em manifestações, mas no dia a dia. Em Nova York, por exemplo, a polícia pode parar qualquer negro na rua e revistá-lo. Isso cria um grande ressentimento com as chamadas autoridades. Começam conversas sobre quem controla a cidade e porque estão a controlando desta forma. Isso se transforma numa questão geral, que passa pela classe média e às vezes até pessoas ricas se envolvem, porque nem eles querem viver numa sociedade tão autoritária. CC: No Chile, líderes de revoltas por uma educação pública foram eleitos para o Parlamento. Outros países não tiveram essa migração das ruas para os gabinetes. Como você vê a relação entre esses movimentos e a política institucional? DH: Não vejo as instituições políticas respondendo ativamente a este novo jeito de fazer política. Mas também não acho que esses movimentos saibam o que fazer. A resposta à eleição de pessoas como Camila Vallejo, por parte de alguns estudantes do Chile, foi dizer que os eleitos não seriam capazes de fazer nada no parlamento, e a mudança de verdade teria de vir das ruas. Mas acho que sair totalmente do Parlamento não seria bom. Há certo cinismo na esquerda. Além disso, há também uma concepção ideológica de anarquistas e autonomistas de que se candidatar a uma vaga seria uma traição do seu modo de fazer política. Acho isso uma pena, porque nós precisamos de todas as possibilidades de ativismo agora. CC: Mas, com as atuais limitações dos sistemas políticos, para que serviria a ação dentro da institucionalidade? DH: Acho importante que a ação direta seja sempre acompanhada por gente próxima às entranhas do poder estatal. Assim, por exemplo, seria possível mitigar o uso arbitrário de força estatal contra esses movimentos. Ou, ainda mais positivamente, o Estado possa ser reorientado para tomar ações efetivas contra a acumulação de capital por meio da urbanização. CC: O senhor tem falado, nos últimos anos, da necessidade de unificar a esquerda e o ativismo descentralizado que têm surgido ao redor do mundo. O Senhor tem visto esse movimento acontecer? Como isso poderia ser feito? DH: Lamento o fato de que a esquerda está ficando mais fragmentada do que unificada, porque há problemas que necessitam de ações globais, como o aquecimento global e outras arenas onde a política está sendo trabalhada mundialmente. Atualmente há uma grande receptividade a novas ideias, mas nós não temos uma boa forma organizacional para formar uma estratégia compreensiva e global. Acho que isso é algo que precisaríamos, mas como fazemos isso? Se eu tivesse a resposta, não estaria aqui falando contigo. * Publicado originalmente no site Carta Capital.

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A miscigenação é o maior valor do Brasil

  Na semana passada circulou pelo Facebook uma entrevista do Chico Buarque sobre racismo. Sem titubear o cantor e escritor declara que “Não existe brancos no Brasil” e, com humor, arrisca dizer que apenas para a Xuxa e o Taffarel possamos garantir que são puramente brancos. Além do fato de mais de 50% da população deste país autodeclarar-se negra ou parda, basta circular por aí para perceber que os traços das raízes africanas estão contidos na maioria da nossa população. Segundo o autor de “A banda”, se fossemos verificar as árvores genealógicas dos ditos brancos tupiniquins, a presença do sangue negro na constituição dessas relações familiares atingiria praticamente todos os casos analisados. Para ele a miscigenação é o grande valor desse país. Essa constatação é óbvia. Entretanto, infelizmente a hipocrisia faz com que parcela considerável da nossa sociedade ainda defenda e manifeste atitudes racistas e preconceituosas contra negros, índios e tantas outras características socioculturais desses cidadãos que com trabalho, talento e dedicação vem contribuindo há muitos séculos para o desenvolvimento desta nação. Essa mistura de traços, expressões, gestos e culturas é que faz o Brasil ser único no cenário mundial. E se soubermos valorizar, reconhecer e oferecer oportunidades de desenvolvimento para todos, e sem qualquer tipo de discriminação, seremos uma potência não apenas no futebol e na música. Teremos a possibilidade concreta de atingir reconhecimentos por acabar com a pobreza, a miséria, a violência e conquistar vários campeonatos de distribuição de renda, inovação, empregabilidade para jovens, educação infantil, saúde universal, preservação dos recursos naturais e referência em cuidar dos mais velhos. Isso pode parecer inatingível, mas não é. Temos todas as condições de promover essas transformações, desde que cada um de nós assuma essa responsabilidade e a coloque em prática. Apenas para citar um exemplo, no último domingo, na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo, durante a realização da Pílula de Cultura organizada pela Feira Preta, Bukassa Kabengele, com o seu show Pé na África, fez uma plateia calorosa, formada por negros, brancos, amarelos e tantas outras cores cantar com alegria e dançar com espontaneidade, numa grande celebração e num encontro que só as diversidades podem proporcionar. Desses pontos de mutação distintos, os quais se espalham pelos quatro cantos do país, reverberam a energia que precisamos para construir o presente nosso de cada dia, unindo sabedorias, aprendizados e percebendo que cada um de nós é essencial para todos. E diferente do que disse o Chico Buarque na sua famosa canção, ninguém está à toa na vida. Por aqui, fico. Até a próxima. * Leno F. Silva escreve semanalmente para Envolverde. É sócio-diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. É diretor do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, membro-fundador da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade, e da Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra. Foi diretor executivo de sustentabilidade da ANEFAC – Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


por Leno F. Silva*
Foto: Shutterstock Sociedade

Desmatamento na Amazônia não pode sair do controle

Brasília (DF) - As taxas de destruição da maior floresta tropical do planeta voltaram a subir após cinco anos de queda consecutiva. Os números divulgados pelo Governo Federal em véspera de feriado estimaram quase seis mil quilômetros perdidos entre agosto de 2012 e julho de 2013, que representam um aumento de 28%, ainda sem discriminar desmatamentos ilegais dos autorizados pelo Ibama e órgãos estaduais. Como dados oficiais, eles são referência para ações de controle e de planejamento do uso do solo regional. As maiores áreas desflorestadas se concentram em frentes de expansão agropecuária, no Mato Grosso, Roraima, Maranhão e Pará, e também em regiões como no entorno da BR-163 (Cuiabá-Santarém), da BR-364 (Cuiabá-Porto Velho) e sul do Amazonas, além de possíveis influências do garimpo, sobretudo no Pará. Acre, Amapá e Tocantins reduziram suas taxas. Vale ressaltar que, se associarmos o desmate registrado na Amazônia ao de outras regiões, o Brasil desponta com perdas anuais de aproximadamente 15 mil quilômetros quadrados, ou “a maior área de desmatamento do planeta”, como bem apontou artigo publicado no jornal O Globo em 20 de novembro. Os dados oficiais ainda não detectam desmates com menos de seis hectares, fazendo com que essas perdas só sejam computadas no ano seguinte pela expansão das perdas de vegetação nativa. No geral, as taxas de desmatamento continuam em níveis proibitivamente altos, pela falta ou ineficácia de políticas publicas para seu ordenamento e controle, e também devido a escassez de valorização da floresta em pé frente a outros usos da terra. Um conjunto de fatores influi no incentivo ao desmatamento, como a relativa ineficácia das ações voltadas ao seu controle, como políticas de ordenamento de uso da terra, além de fiscalização, comando e gestão pública dos recursos naturais. Para o WWF-Brasil, o novo “Código Florestal” (Lei 12.651 / 2012) também pode ter incentivado o desmatamento, com base em uma nova onda de especulação por terras. A retomada dos preços das commodities, o avanço de obras e planos de projetos de infraestrutura e a não criação de unidades de conservação também pesam na balança da destruição da Amazônia. Para tanto, é preciso fortalecer a agenda positiva para a região, envolvendo a consolidação de áreas protegidas, ações de fomento à produção florestal, aos conhecimentos tradicionais das comunidades locais e à valorização dos ativos florestais. Além disso, cabe atenção ao ordenamento e planejamento do uso do solo, inclusive agrícola e da produção de commodities, respeitando as vocações locais, as áreas de concentração de infraestrutura e a geração de mercados conscientes para a origem dos produtos. Mais que tudo, é importante reconhecer que é fundamental o reconhecimento dos ativos ambientais da região, que prestam serviços essenciais à humanidade, como regulação climática, fornecimento de água, conservação de solos, ciclagem de nutrientes, abrigo da biodiversidade e manutenção de saberes tradicionais. “Ainda é cedo para apontar com total segurança quais as reais razões para a retomada do desmatamento da Amazônia. O Governo precisa agir rapidamente para evitar que o mesmo fuja do controle e aumente os riscos para a região em termos da perda de sua biodiversidade e da depreciação de seu capital natural, com fortes impactos sobre sua população”, ressaltou Marco Lentini, coordenador do Programa Amazônia do WWF-Brasil. [caption id="attachment_100585" align="alignright" width="300"] Foto: Reprodução/ ttp://www.shutterstock.com/[/caption] Bioma Amazônia Infelizmente, em outros países amazônicos a tendência é de crescimento das taxas de desmatamento. Embora as fontes não sejam ainda estáveis, na maioria dos casos, já se constata, nos últimos anos, que as taxas anuais, as percentagens em relação à Amazônia de cada país e a área total desmatada nos países andinos passa a ser maior que área desmatada na Amazônia brasileira. Nos países andino-amazônicos - Colômbia, Peru, Equador, Bolívia e Venezuela - tem ocorrido movimento econômico e demográfico da Cordilheira dos Andes em direção às terras baixas da Amazônia. Essa dinâmica ainda não está totalmente clara, mas a atração, o acesso e a ocupação devem estar associados ao aumento na criação de gado e de cultivos, a mineração, o petróleo e obras de infraestrutura, que estariam induzindo o desmatamento. “Há uma necessidade urgente de fortalecer a cooperação entre os países do bioma Amazônico, com o objetivo de compartilhar experiências e lições aprendidas sobre o combate ao desmatamento. Sobretudo, é necessário cooperação para valorizar a floresta em pé, como ativo econômico de alto valor no bioma como um todo”, afirma André Dias, líder da Estratégia de Estímulo à Economia Florestal da Iniciativa Amazônia Viva da Rede WWF, que atua nos nove países do bioma Amazônia. “A ciência e os fatos nos ensinam que as partes de cada um dos países amazônicos estão conectadas e o equilíbrio de toda a Amazônia depende do seu funcionamento como uma unidade ecológica, daí a importância o monitoramento e combate ao desmatamento em todos os países do bioma”, completa André Dias. * Publicado originalmente no site WWF Brasil.


por Redação do WWF Brasil
Botões de controle para tubulações de água. Foto: Reprodução/ Shutterstock Sociedade

Até quando as águas entrarão pelo cano?

[caption id="attachment_100312" align="alignleft" width="300"] Botões de controle para tubulações de água. Foto: http://www.shutterstock.com/[/caption] Quando alguém se encontra em uma situação ruim ou desfavorável, diz-se popularmente que “entrou pelo cano”; ou, se o panorama for mais desesperador ainda, que “está com água até o pescoço”, prestes a se afogar. Tais expressões, paradoxalmente, aplicam-se para descrever a situação das águas e serviços dos ecossistemas que garantem aos humanos, e demais seres vivos, as condições de vida no Planeta Azul. Pessimismo face à crescente mobilização da sociedade frente aos desafios ambientais? Não. Importante reconhecer que ainda não estamos dando conta de equacionar os problemas ambientais e sociais decorrentes da contínua e desenfreada busca de bem-estar que, em escala nacional e global, é subvertida pelo crescimento econômico apressado e desbalanceado. Tal reconhecimento é instrumental na escolha de estratégias políticas e atitudes que possam, no conjunto, ampliar gradativamente os passos rumo à sustentabilidade e conservação dos bens e serviços ambientais, considerando também os aspectos de equidade e justiça para uma saudável e digna vida de todos. No Brasil, assim como em muitos países em desenvolvimento, águas captadas em rios, lagos e poços profundos, e conduzidas até as cidades para serem usadas em nossas residências, indústrias e comércio, acabam “entrando pelo cano”, mesmo quando despejadas a céu aberto em rios e córregos: a falta de tratamento sanitário polui rios, causa doenças transmissíveis e afeta a economia. Na virada do século, o estudo Avaliação Ecossistêmica do Milênio (AEM) promovido pelas Nações Unidas, indicou que a expansão da degradação ambiental não foi refreada pelo aumento de conscientização ou do número de pessoas, organizações, programas e políticas inspiradas em ideias em torno da sustentabilidade (nas suas várias dimensões: ambiental, social, cultural, econômica e política) e do desenvolvimento de nossas sociedades. Há desperdício e perda de água em todos os setores das atividades econômicas: na agricultura, responsável por cerca de 70% da água doce utilizada; nos sistemas públicos de redes de abastecimento; e em nossas residências. Segundo dados oficiais, há entre 25% e 45% de perdas e “desvios” (furto) de água em redes públicas de águas nas cidades brasileiras. Águas são usadas para diversos fins: geração de energia, indústria, agricultura, mineração, navegação, recreação e para nossa higiene. Para cada um desses usos há critérios, de qualidade e quantidade do uso, e para seu controle existem órgãos públicos específicos e campanhas de “uso racional” (quantas vezes você já não ouviu o pedido de ficar menos tempo no chuveiro?). Nos debates para a Rio+20, a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, ficou evidente que a somatória de iniciativas públicas e privadas, de indivíduos, movimentos da sociedade ou de empresas ainda não foi capaz de garantir globalmente o cumprimento de algumas das Metas de Desenvolvimento compromissadas internacionalmente para o ano de 2015, como, por exemplo, a de reduzir em 50% o déficit de abastecimento de água potável e acesso ao saneamento básico. São cerca de 1,2 bilhão de pessoas sem acesso a volumes diários de água saudável e 2 bilhões que não têm esgoto coletado ou tratado em todo o mundo. É notório que as dimensões econômica e social do desenvolvimento humano ainda ganham destaque e prioridade em relação às da conservação e sustentabilidade ambiental, apesar dos acordos internacionais, leis nacionais e programas voltados para essa questão. Por exemplo, no âmbito da Convenção de Diversidade Biológica, temos a Meta 11 de Aichi para a Biodiversidade, que propõe conservar, até 2020, pelo menos 17% de áreas terrestres e águas interiores e 10% das áreas marinhas e costeiras. Há compromissos globais, segundo o PNUMA para a “completa eliminação de certos produtos químicos, como as substâncias que destroem a camada de ozônio (sob o Protocolo de Montreal), o uso de chumbo na gasolina e os poluentes orgânicos persistentes (POPs) relacionados no Anexo I da Convenção de Estocolmo”. A Agenda 21, um programa de ações da Rio-92, trazia metas para o ano 2005 no tema de águas. Você sabe o que foi feito? Aumento populacional, falta de cumprimento da legislação ambiental, bem como expansão do consumo e da produção (o PNUMA diz que a pecuária é responsável por mais de 8% do uso de água doce no mundo), são alguns dos fatores que atrasam o efeito das boas iniciativas. Todo esse panorama pode se agravar com as mudanças climáticas, cujos efeitos sociais, ambientais e econômicos já são percebidos e atingem, sobretudo, populações e regiões mais vulneráveis, com as alterações no ciclo hidrológico, causando inundações, secas, quebras de safra e migrações. Sob certo ponto de vista, a “quantidade de água doce” disponível para uso humano está sendo fortemente alterada por tais fenômenos; estamos afetando a quantidade e a qualidade das águas, consideradas como “recurso renovável”, embora seu uso seja caro, quando não escasso, ou insuficiente em determinadas regiões. A seguridade hídrica, ou seja, a satisfação das necessidades humanas de águas mediante a garantia da integridade de ecossistemas hídricos e de dinâmicas hidrológicas deve ser considerada em todos os níveis e regiões. Para tanto, é necessária uma visão sistêmica e abrangente de questões e conceitos tão complexos, que conectam a gestão de recursos hídricos com saúde, educação, segurança alimentar, habitação e saneamento, bem-estar e desenvolvimento social. Para evitar que as águas e todos nós “entremos pelo cano”, precisamos superar a fragmentação de nossas ações; devemos considerar todas as “etapas” do uso de água pela nossa sociedade: desde a sua captação até a sua devolução, após tratamento, seja nos usos urbanos e rurais, sociais ou econômicos. Necessário promover a sinergia entre as iniciativas de órgãos públicos, comunidades e empresas. Não somente atitudes e iniciativas micro, no plano pessoal ou de cada empresa e organização, mas também de ações e visões abrangentes, coletivas, para territórios (áreas de mananciais, bacias hidrográficas, zonas econômicas, regiões metropolitanas). Comitês de bacia hidrográfica, colegiados nos quais poder público, setor privado e organizações da sociedade expõem seus interesses e compromissos para a gestão das águas e dos territórios abrangidos, são canais para eventuais inovações e iniciativas. O Programa Cultivando Água Boa, promovido por Itaipu Binacional, envolve municípios, órgãos estaduais e federais e, sobretudo, valoriza o engajamento e a participação de diversos segmentos da sociedade: educadores, jovens, organizações não governamentais e produtores rurais. Campanhas mais focadas também são muito relevantes, especialmente quando mobilizam e engajam a sociedade na demanda por ações, públicas e privadas, bem como no controle da sua execução. Um exemplo é a iniciativa em prol da recuperação da qualidade do Rio Tietê, a partir dos anos 1990, por liderança da Fundação SOS Mata Atlântica. Um ingrediente básico dessas iniciativas é o que levou milhares de pessoas às ruas, em meados de 2013 no Brasil: a indignação pela degradação, pelo descaso. A vontade de fazer a diferença, de se associar a uma causa e promover mudanças para um mundo melhor. Água e vida são questões de sociedade, de todos nós. Não basta usar e descartar água, e depois transitar com indiferença por uma avenida ao lado de um rio ou córrego degradado. Água boa tem que fluir. Ou até quando vamos deixar a água “entrar pelo cano”? * Rubens Harry Born é engenheiro civil e ambiental, mestre em saúde pública e doutorado em acordos ambientais internacionais. Foi coordenador do FBOMS – Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente, seu representante na Rio-92 e na Rio+20 e coordenou o Instituto Vitae Civilis, até 2009. ** Publicado originalmente no site Ideia Sustentável.


por Rubens Harry Born*
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“Felicidade sustentável”

Só teremos um modelo de desenvolvimento sustentável, se houver ampla reflexão sobre a felicidade e do que precisamos para sermos felizes. A maioria dos cientistas e dos indicadores nos mostra que o atual modelo de desenvolvimento está esgotando os recursos naturais, aquecendo o planeta, dizimando a biodiversidade, derrubando nossas florestas, transformando terras férteis em desertos, poluindo o ar e as águas, aumentando a desigualdade, incentivando o desemprego e os empregos precários, fomentando a competição e a violência, solapando a democracia e a confiança nas instituições e nos governos e piorando a qualidade de vida, no campo e nas cidades. Foi vendida a ideia de que o caminho da felicidade passa pelo consumo, pela aquisição da roupa de grife, do carro do ano, do último modelo de celular ou do eletrodoméstico. É o consumo e o acúmulo de bens sem limites e nunca saciados que propulsionam esse modelo suicida de desenvolvimento. A Rede Nossa São Paulo desenvolveu o Irbem (Indicadores de Referência de Bem-Estar nos Municípios) para avaliar a qualidade de vida nas cidades. Para montar os indicadores, perguntou aos habitantes quais seriam os itens importantes para sua qualidade de vida. A maioria respondeu que a felicidade é ter uma boa, carinhosa e fraterna convivência com a família, os amigos e a comunidade; uma relação amorosa saudável; equilíbrio entre trabalho e vida pessoal; acesso à educação e transporte público de qualidade; proximidade da natureza; frequentar cinema, espetáculos, teatros e museus; hospital e posto de saúde perto de casa; melhor convivência com animais; vida espiritual rica; prática de atividades físicas; ações comunitárias e a chance de viver numa sociedade solidária e segura (veja a pesquisa completa em www.nossasaopaulo.org.br). É claro que condições materiais razoáveis de vida são importantes, e é fundamental que as políticas públicas objetivem proporcionar essa realidade para todos. Mas centrar a felicidade no consumo e no acúmulo de bens é insustentável. Ao olhar todos os apelos que hoje relacionam consumo à felicidade, é de se perguntar: como fizeram antigas gerações, antes de todas essas invenções, para serem felizes? Como fazem as pessoas sem carros ou sem últimos modelos para serem felizes? Por que muitas pessoas que têm todos esses bens são infelizes? Em vez de promovermos investimentos e empregos em atividades artísticas, culturais e educacionais que favoreçam a saúde e o bem-estar; apoiem idosos, pessoas com deficiência, crianças e populações menos favorecidas; priorizem o transporte público de qualidade; preservem a natureza e apostem na pesquisa médica e no desenvolvimento de energias sustentáveis, concentramos nossos esforços em produzir bens de consumo que rapidamente tornamos obsoletos para podermos, enfim, consumir suas novas versões. Só teremos um modelo de desenvolvimento sustentável que preserve o planeta, reduza a desigualdade e promova a paz, a solidariedade e a qualidade de vida das pessoas e das futuras gerações, se houver uma ampla reflexão pessoal e coletiva sobre a felicidade, sobre o que realmente precisamos para sermos felizes. E se essa reflexão pautar a vida das pessoas, empresas, instituições e governos. * Oded grajew é coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo, presidente emérito do Instituto Ethos e idealizador do Fórum Social Mundial. Foi presidente da Fundação Abrinq e assessor especial do presidente da República (governo Lula). * Publicado originalmente no jornal A Folha de S. Paulo e retirado do site Mercado Ético.


por Oded Grajew*
Castel dell'ovo, em Nápoles, na Itália. Foto: Reprodução/Internet Sociedade

Jornalistas internacionais debatem um mundo sem lixo

[caption id="attachment_103681" align="alignleft" width="300"] Castel dell'ovo, em Nápoles, na Itália. Foto: Reprodução/Internet[/caption] No início deste mês, jornalistas e especialistas de todo o mundo se reuniram no X Fórum de Mídia Internacional sobre Proteção à Natureza, promovido pela organização Greenaccord. O evento acontece uma vez por ano na Itália e teve como tema este ano "Um futuro sem lixo".  A afirmação foco do encontro gerou acalorados debates. Gary Gardner do Worldwatch Institute mostrou como muitos recursos naturais estão se tornando escassos e, portanto, mais caros. "Não há mais tempo para desperdícios. Precisamos de cadeias econômicas circulares",  disse referindo-se a ciclos onde nada se perde e os resíduos de uma atividade são reabsorvidos em sua própria produção ou na de outros artigos.  Foi lembrado que a natureza não produz lixo. Tudo que é criado sem a intervenção humana pode ser reabsorvido nos ciclos naturais. "Esqueçam o crescimento. Não podemos transformar o mundo em um grande aterro", salientou Sergio Ulgiati, da Universidade de Nápoles.  Robert U. Ayres, do Instituto para Sistemas Aplicados de Análises (IIASA), demonstrou contudo como um fluxo de substâncias químicas é necessário na fabricação de diversos produtos da atualidade. "Sempre haverá lixo, pois há processos dos quais resultam sobras impossíveis de reaproveitar ou reutilizar, seja no que for", explicou. Mesmo assim, há muito que se aprimorar nos modos de produção, tanto para economizar as substâncias de origem, como para gerar menos resíduos. Foi o que defenderam diversos palestrantes convidados. Como Tommaso Sodano, do departamento do meio ambiente de Nápoles, que demonstrou os esforços do município na implantação de centrais de triagem e de indústrias de reciclagem locais. A cidade passou por recente escândalo com a descoberta de inúmeros aterros clandestinos e depósitos ilegais que incineravam lixo, sem cuidados ambientais, em um esquema apelidado de 'ecomáfia'. O combate a estas práticas está levando à instalação de grandes centros mecanizados, que hoje, já processam 50% de todo o resíduo de plástico tipo PET, sacolinhas plásticas e de papéis e papelões da região, conforme dados da empresa responsável Erreplast. Vittorio Sangiorgio, presidente do braço jovem do coletivo de produtores rurais Coldiretti,  falou de como é possível alcançar lixo zero na agricultura. Exposição reforçada por Enzo Favorino, da escola agrícola de Monza, que defendeu a compostagem de todas as sobras orgânicas. Este processo controlado de decomposição dos restos de alimentos gera adubo e fertilizante e ainda alivia a pressão sobre os lixões. Já o sociólogo e professor Héctor Castilho Berthier, da Universidade Nacional Autônoma do México, deu um tocante depoimento sobre como cadeias de poder dominam a coleta do lixo nas grandes cidades e exploram os catadores e os que vivem junto aos lixões. Belthier realizou o primeiro estudo e coletou os primeiros dados sobre esta realidade, em todo o mundo. Para isto, trabalhou ele próprio como lixeiro e depois viveu junto do maior lixão da Cidade do México. Ali, viu de perto como atuam os 'caciques do lixo'. Ao publicar seu estudo sobre as redes que sustentam a má gestão dos resíduos - e geram fortunas com isto - chegou a ser agredido fisicamente e ameaçado de morte. Nos três dias de diálogos e troca de informações, ainda foram abordados a necessidade de maior eficiência no uso de energia, um planejamento integrado para lidar com resíduos das atividades humanas e o papel das autoridades em alavancar as mudanças necessárias, através de leis, incentivos e sanções. Jon Dee, jornalista australiano responsável pelo portal "Do Something" (Faça Alguma Coisa), lembrou a necessidade das modificações acontecerem em todas as camadas. Desde a produção, até o consumo. Ele mostrou uma campanha de seu site que convida as pessoas a prestarem atenção ao que colocam no prato, na hora das refeições. Cada alimento consumido está ligado a uma longa cadeia de produção. Mesmo assim, ainda há muito desperdício e muita comida é jogada fora simplesmente porque as pessoas não comem tudo que pegam. "Lixo zero é uma utopia necessária. Incinerar simplesmente é perder oportunidades de criar empregos e negócios, enquanto que a logística reversa, a compostagem e reciclagem estimulam a economia", resumiu Paul Connett, cientista, criador da Zero Waste Strategy. * Neuza Árbocz é jornalista e especialista em Desenvolvimento Sustentável.


por Neuza Árbocz*
mudancasclimaticas Sociedade

Boletins da iniciativa verde nas rádios Estadão e Eldorado abordam mudanças climáticas e meio ambiente

A parceria inclui também a compensação das emissões causadas pelas atividades cotidianas das rádios Nesta terça-feira, dia 26 de novembro, começam a ser veiculados boletins com duração de um minuto durante a programação das rádios Eldorado e Estadão nos meses de novembro e dezembro. Serão mais de 20 temas com conteúdo informativo e educativo todos ligados de maneira direta ou indireta com o trabalho de recomposição realizado pela Iniciativa Verde há oito anos. Após a conclusão do inventário de emissões de gases de efeito estufa (GEE) gerados pelas rádios no período de um ano, para que as emissoras recebam o selo Carbon Free, a Iniciativa Verde constatou a necessidade do plantio de 1.675 árvores que serão destinadas a áreas degradadas da Mata Atlântica no estado de São Paulo e terão a importante função de proteger mananciais e matas ciliares. Essa compensação corresponderia a cerca de 250 pessoas usando automóveis particulares 1.0 movidos à gasolina no período de um ano. Durante anúncio da parceria feito dia 25, o presidente da Iniciativa Verde, Roberto Resende, disse que “tão importante quanto o plantio das árvores é a conquista desse espaço para a divulgação sobre a relevância desse trabalho e também para mostrar bons exemplos de empresas que fazem compensações voluntárias de suas emissões e que pode e deve ser replicado em outras corporações”. A programação dos boletins está prevista para ir ao ar da seguinte maneira: Rádio Eldorado – 107,3 em três edições diárias terças, quintas e sábados em horário rotativo; Rádio Estadão – 92,9 também em três edições diárias segundas, quartas e sextas no período entre 14h40 e 20h40.   Saiba mais sobre as atividades da Iniciativa Verde e sobre o selo Carbon Free no site: www.iniciativaverde.org.br


por Redação do Iniciativa Verde
Foto: http://www.shutterstock.com/ Sociedade

A hora de criar trincheiras cidadãs

[caption id="attachment_100300" align="alignleft" width="300"] Foto: http://www.shutterstock.com/[/caption] Do ponto de vista da cidadania, as grandes mobilizações e passeatas de junho último, que tomaram as ruas do Brasil, foram um despertar de esperanças. A letargia do país foi sacudida para valer e os poderes constituídos redescobriram que estavam distantes das aspirações mais legítimas por direitos e dignidade, de respeito à cidadania não só em seu poder constituinte como seu poder instituinte, que remete ao direito dos cidadãos de criar, modificar e revogar instituições. Basta é basta! Foi o que revelaram as ruas. Não dá para atender exigências da FIFA e as ganâncias de empresas construtoras, gastando bilhões, e não garantir o básico em transportes, educação e saúde, alegando falta de recursos. Também não dá mais para aceitar representantes mais preocupados com o seu próprio bolso do que em fazer jus ao mandato que lhes foi dado pelo voto de todos e todas nós. A cidadania levantou a voz, aos gritos, e destampou as contradições que permeiam a nossa jovem democracia. Mas, passados alguns meses, o que está se passando na conjuntura? Por que as agendas cidadãs não avançam e tudo volta ao seu lugar, como se nada tivesse acontecido, como se a força das mensagens das mobilizações de junho tivessem evaporado? No momento, de certo mesmo é só a sensação que muita coisa está dando errado. Logo entre nós, o país festejado pelos seus avanços da primeira década do século XXI! Parece que a fumaça das explosões cidadãs de junho ficaram no ar e tudo mundo foi perdendo um pouco de perspectiva. As próprias mobilizações perderam muito de seu foco e de pontos aglutinadores. Muita gente continuou a se manifestar nas ruas, mas … para onde vai isto tudo? A presença dos “black blocs”, no fim das passeatas, degenerou em violência e passou a afastar muita gente destas festas de cidadania e civismo. A nossa truculenta polícia, reprimindo e batendo, redescobriu métodos e leis do tempo da ditadura para investir contra os que ela caracterizou como baderneiros, vândalos, organizações criminosas. Mesmo nas festejadas UPPs do Rio de Janeiro, a polícia continua a mesma: força de repressão que é para proteger a gente do asfalto dos pobres favelados que teimam em se dizer parte da cidade e em reivindicar o direito de ter direitos. Aliás, a violência com assassinatos no Brasil voltou a crescer mais do que em países em guerra, mas para nós parece ainda uma expressão de normalidade. Um absurdo em si mesmo, antidemocrático e injustificável! Mas é na arena oficial da política – as instituições do Executivo, o Congresso e os partidos, o Judiciário, com uma forte dose de radicalização da mídia das classes dominantes, um monocórdio barulhento ele mesmo – que a fumaça ganhou consistência e a visibilidade da conjuntura ficou quase nula. A gente vê pouca coisa clara no momento. As agendas, que pareciam plantadas na política, retrocedem a cada dia. Cadê a reforma política, o plebiscito, a mudança de práticas e costumes no processo eleitoral? Não se fala mais e ponto. Mudança mesmo só se deu no jogo de sempre: criação ou não de novos partidos, realinhamento de forças em função de minutos de propaganda eleitoral, fundos partidários e preservação de mandatos. Nada, absolutamente nada de substantivo para fazer valer o direito instituinte e constituinte da cidadania nas democracias. Tivemos o escândalo da espionagem americana sobre nossas vidas e a louvável indignação da Presidente Dilma. Mas o escândalo da corrupção endêmica nas altas esferas do poder – fora a punição exemplar ao PT e seus aliados – continua um assunto menor. Ou alguém acredita que vai dar alguma coisa o tal fundo do metrô para os governadores do PSDB em São Paulo, bem maior do que o mensalão? E qual será o desfecho do fantástico esquema de desvio de recursos públicos na Prefeitura de São Paulo? Ou o sumiço dos recursos da reconstrução na Serra, no nosso Rio de Janeiro? Seguindo nesta vala obscura das ligações clandestinas para desvio de recursos públicos, o que dizer dos super salários no setor público, praticados com o maior escárnio, à revelia da lei, como se direitos fossem? Dá para juntar muito mais explosões e fogos por aí que estão causando muita fumaça e ruído e deixando turvo o horizonte político. Lembro aqui o ameaçador Código de Mineração, a confusão dos leilões (Pré-Sal, aeroportos, rodovias…) e das parcerias público-privadas, o voto secreto no Congresso, a demolição do Elevado da Perimetral (por que e para quem?), o embaralhamento do processo eleitoral do ano que vem. A lista é longa, infelizmente. Mas, como titulares de cidadania, devemos resistir e tentar entender. Criar “trincheiras” cidadãs para “guerras de posição”, como lembra o genial Gramsci, é condição incontornável para amanhã poder se mover e avançar. No Ibase, estamos praticando os “conversatórios” que são nada mais e nada menos do que a prática do livre pensar da conjuntura política. De tanto debater, uns e umas ajudando outros e outras, vamos acabar vendo melhor e saber onde incidir. Temos o ano de 2014 no horizonte próximo, muito desafiante. Nada como estar entrincheirados e preparados para o que der e vier. Afinal, optamos por radicalizar a democracia e “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. * Cândido Grzybowski é sociólogo, diretor do Ibase. ** Publicado originalmente no site Canal Ibase.


por Cândido Grzybowski*
Foto: PNUMA Sociedade

Quem paga a reciclagem?

[caption id="attachment_103221" align="alignleft" width="300"] A associação dos fabricantes de vidro defende o modelo europeu. Grandes marcas rejeitam assumir as despesas. Foto: Wilson Dias/ABr[/caption] Na Europa são as empresas. No Brasil, o governo e o setor privado não se entendem. Uma disputa é travada entre o setor público e as empresas para definir quem é responsável pelos custos da reciclagem das embalagens no Brasil. Uma parcela importante do setor privado não quer assumir o gasto com a coleta seletiva, exigência do governo federal, enquanto outra corrente propõe um modelo de financiamento baseado na experiência da Europa. A União deseja que as companhias assumam a parte dos custos da limpeza urbana relacionada à coleta de embalagens, cerca de 30% do lixo recolhido nas residências. “O que se discute é quanto e em que circunstâncias as empresas devem remunerar o município pela participação na logística reversa”, diz Zilda Veloso, diretora de Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente, em referência ao processo para garantir o retorno ao produtor dos materiais descartados pelos consumidores. As maiores empresas da cadeia, entre elas Coca-Cola, Nestlé, Unilever e Walmart, são contra. Reunidas na Coalizão, grupo formado por 21 associações empresariais e liderado pelo Compromisso Empresarial para Reciclagem, elas tentam evitar o custo adicional. “Não temos de ressarcir a coleta seletiva, função legal das prefeituras”, diz Victor Bicca, presidente do Cempre. Caberia ao setor privado aumentar o número de pontos de entrega voluntária de lixo reciclável, apoiar as cooperativas de triagem e garantir a compra da sucata. Para o governo, não é suficiente. A Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro propõe um modelo de compartilhamento dos custos da reciclagem entre empresas e municípios. O formato, semelhante aos pontos verdes existentes em países europeus, é baseado no financiamento privado de uma gerenciadora responsável pela administração da logística reversa. “As empresas pagariam uma tarifa pela embalagem a cada produto colocado no mercado. A soma de recursos permitiria à gerenciadora discutir com os municípios como fazer o tratamento dos produtos”, diz Lucien Belmonte, superintendente da entidade. Caberia a essa estrutura fechar acordos e contratos com as cooperativas, beneficiadoras e recicladoras. A venda da sucata complementaria a remuneração do sistema. O modelo é semelhante àquele sugerido pelo governo, a partir de um estudo de viabilidade técnico e econômica realizado pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal. Segundo a pesquisa, a existência de uma entidade gestora é importante para organizar o fluxo de sucata, otimizar o transporte entre centros distribuidores e obter ganho de escala. E a responsabilidade caberia às empresas. Uma terceira proposta, apresentada pela Associação Brasileira da Embalagem de Aço, também contempla a expectativa do ministério ao pressupor um gerenciamento e controle da logística reversa pelo setor privado. O governo busca combinar as propostas apresentadas para chegar rapidamente a um acordo. A definição de um sistema de logística deve ocorrer até o fim de dezembro, depois de um ano e meio de discussão, para atender às normas da Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010. As metas para redução do descarte de recicláveis em aterros sanitários começam a contar a partir de 2015. Na proposta da Coalizão, agrada ao ministério a atenção dada às cooperativas, pois a lei de resíduos sólidos estabelece como prioritária a inserção dos catadores no novo sistema. O grupo propõe triplicar o número de cooperativas e sustenta que a formalização da estrutura existente seria suficiente para atingir as metas exigidas, se municípios implantarem corretamente a coleta seletiva. Estima-se em 600 mil a 1 milhão o número de catadores no País e em 30 mil as cooperativas, incluindo os informais. “O modelo informal tem proporcionado ao Brasil níveis de reciclagem muito altos. É preciso fortalecer esse sistema complementar, formalizá-lo e diminuir o número de intermediários”, defende Bicca. O ministério cobra, porém, uma reestruturação completa do modelo, pois não concorda com a premissa de que o sistema atual é eficiente. A principal mudança em relação à cadeia que chega atualmente a metas impressionantes, como a reciclagem de 98% das latas de alumínio, é remunerar não só a sucata, mas toda a operação de coleta, transporte, triagem e beneficiamento dos produtos, além da destinação adequada da parcela não reciclável. Isso permitiria às cooperativas se autossustentarem e garantirem a venda até de materiais com baixo valor de mercado. Também evitaria a queda dos preços dos recicláveis em caso de saturação por insuficiente expansão do parque reciclador. “Hoje, quem determina o preço do reciclável é a indústria compradora, que não assume o custo do serviço. O sistema funciona com o trabalho escravo de catadores desassistidos ou remunerados pelas prefeituras pelo serviço ambiental”, diz Karin Segala, coordenadora de projetos do Instituto Brasileiro de Administração Municipal. Pesquisa realizada pela LCA Consultores a pedido do Cempre concluiu que o mercado informal no Brasil permitiu em 2012, a reciclagem de 65% das embalagens produzidas. “A conta foi feita a partir do produzido e do processado pelos recicladores, o que permite contabilizar o recolhido informalmente nas ruas e nos lixões”, afirma Bicca. O número é encarado com desconfiança por outros agentes do setor. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública, o volume chega a, no máximo, 10%. “Se fossem 65%, o problema estaria resolvido”, diz Segala. A meta da política nacional é chegar a 60% até 2031. No município de São Paulo, onde o objetivo é saltar de 1,6% de coleta seletiva para 10% em 2016, a prefeitura investirá em centrais mecanizadas de triagem, além das 22 cooperativas conveniadas, por entender que apenas os catadores não darão conta da demanda. “As melhores cooperativas processam 4 toneladas de lixo por dia, e para atingir a meta será preciso processar 1,2 mil”, diz o vereador Nabil Bonduki. Para financiar a nova estrutura, a prefeitura tenta um acordo de cooperação com a iniciativa privada, o principal nó desse debate. É preciso ainda aumentar a capacidade de reciclagem da indústria. As empresas têm investido em tecnologias que elevam o potencial de reutilização de materiais na sua produção. É o exemplo das garrafas PET, cuja redução do grau de descontaminação da resina reciclada permite que ela seja usada para fabricar outros recipientes de alimentos. As empresas reivindicam a desoneração dos materiais recicláveis para tornar os produtos mais competitivos em relação às matérias-primas virgens, proposta em estudo no governo. A oferta regular a ser garantida pela universalização da coleta é outro fator de estímulo. “Hoje falta um gerenciamento do mercado de reciclagem que o encare como um setor econômico e não como um projeto social. Existe um potencial produtivo enorme, principalmente para os catadores, sem continuarmos a nos valer de sistemas subumanos com índices pífios de reciclagem”, diz Carlos Silva Filho, diretor-executivo da Abrelpe. Além das embalagens em geral, há outros quatro setores que precisam implantar um sistema de logística reversa: de agrotóxicos e de lubrificantes, lâmpadas fluorescentes, eletroeletrônicos e medicamentos. Dentre eles, apenas o primeiro grupo chegou a um acordo. Os segmentos de lâmpadas fluorescentes e de eletroeletrônicos ainda discutem um modelo. A destinação correta das lâmpadas depende de uma solução para seu financiamento, mais cara por conta da toxidade dos componentes. Para eletroeletrônicos, um dos pontos a serem resolvidos é o modo de financiar o tratamento do resíduo decorrente do mercado ilegal. O acordo setorial para medicamentos está em fase de apresentação de propostas pelas empresas. * Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Samantha Maia, da Carta Capital
Foto: Divulgação/ Internet Sociedade

Consciência negra, para feministas brancas

[caption id="attachment_103217" align="alignleft" width="300"] Foto: Divulgação/ Internet[/caption] Desde cedo entendi o que era o racismo. Filho de uma mãe um tanto racista, numa família racista de negros, mulatos e descendentes de espanhóis, meu pai — de pele bem branca, olhos azuis e cabelo bem cacheadinho — fazia questão de pontuar que todos eram iguais e se horrorizava com o racismo. Minha mãe, nascida de uma mistura de europeus diversos e indígenas, sempre reforçava atitudes anti-racistas e criticava abertamente indivíduos e comportamentos discriminatórios. Quando comecei a me envolver em movimentos sociais, na adolescência, descobri o movimento negro e suas mais do que legítimas reivindicações. Só recentemente, porém, depois de muitos anos de militância, compreendi que talvez meu papel principal, nessa luta, seja mais óbvio e muito mais difícil do que eu imaginava: me reconhecer branca. Quando nascemos, nós, pessoas de pele e fenótipo socialmente lido como “brancos” (doravante aqui denominados apenas “brancos”, pra facilitar a leitura) somos ensinados que existem pessoas negras. Somos ensinados que têm a pele diferente da nossa. Em todas as formas de transmissão de cultura — escola, televisão, conversas em família, entre outros — a cor da nossa pele nunca é tratada como uma questão. É como se não tivéssemos cor. Nesse pensamento está baseada a expressão racista “pessoa de cor”, que pressupõe que nós brancos e brancas não temos cor. Sem perceber, passamos a vida acreditando verdadeiramente nessa mentira. Quando conseguimos alguma coisa, não associamos a conquista à nossa identidade ou classificação racial, mas a um mérito individual que simplesmente não existe. Isso não quer dizer que nenhum de nós brancos sejamos bons no que fazemos, calma aí. Significa apenas que uma pessoa negra tão boa quanto, ou melhor, ficou de fora na seleção em que nós passamos. Por diversos motivos. Foi quando tomei contato com o feminismo negro de Patricia Hill Collins e Bell Hooks que tomei consciência (não, não é um trocadilho) desses motivos. Estes são alguns deles: Eu nunca fui tratada por meus professores e professoras como um projeto de bandida, rainha de bateria ou faxineira; aprendi daí que a escola era mesmo o meu lugar. Nunca precisei passar por processos dolorosos e tóxicos para adequar meu cabelo às exigências de qualquer empregador sob a ameaça de passar fome; aprendi daí que meu cabelo não precisa ser corrigido. Fui tratada como mãe das crianças brancas de que cuidei como baby-sitter; aprendi daí que eu não precisava realizar nenhuma outra tarefa doméstica que não fosse cuidar das crianças. Nas novelas, filmes, revistas e outras mídias que constroem o imaginário popular e as nossas identidades e anseios, sempre havia personagens como eu, brancas, que tinham sucesso profissional em diversas áreas; aprendi daí que eu podia ser o que quisesse. Na escola e em todos os espaços públicos, especialmente naqueles em que frequentavam majoritariamente ou exclusivamente mulheres, sempre me senti confortável e incluída e sempre me deram a palavra; aprendi daí que eu podia e devia falar sempre que desejasse. Em espaços domésticos, as pessoas que desempenhavam funções de serviço pesadas como empregada doméstica mensalista, muitas vezes mal pagas e em condições de vida deploráveis, não eram do meu bairro, não eram minhas vizinhas, não eram minhas parentes; aprendi que aquilo não era pra mim. As revistas de moda e cabelo sempre tinham diversas sugestões e opções de maquiagem, penteados e cortes que se adaptavam facilmente aos meus tons de cabelo e pele, segundo as regras iluminadas dos editoriais; aprendi daí que eu sou normal, que eu sou a regra, o fiel da balança, o neutro pelo qual de deve medir os demais. Construída nessa e em outras situações, minha identidade racial ficou escondida. Toda a sociedade me dizia que “raça” simplesmente não era uma questão que me tangia. O gênero sim, já que como mulher eu estava do lado oprimido. Sendo branca, então, eu realmente acreditava que não tinha nada a ver com a discussão racial, exceto para defender “elas”, as mulheres negras. Daí que um dia elas gritaram. Apontaram minha raça e eu, em minha ignorância racista, que como sociedade acabamos por desenvolver de maneira doentia em todas as pessoas brancas deste país, me senti ofendida. Eu não gostava de ser lembrada de que era branca. Dizia inclusive que isso seria racismo. Era muito mais fácil acreditar que tudo que eu tinha conseguido tinha sido por mérito próprio. Que eu, mulher, não podia jamais ocupar o lugar de opressora nesta sociedade. Era o esquema perfeito: me colocava enquanto vítima e recusava deliberadamente a função de algoz. Conforto pouco é bobagem. Depois de espernear, me lembrei de um debate sobre cotas na época do ensino médio. Eu era, então, contra as cotas raciais. Meu melhor amigo — também ligado à militância de movimentos sociais — me disse uma das coisas mais interessantes que eu já ouvi sobre políticas públicas: “Estou do lado dos fodidos, Marília. A gente tem que estar do lado dos fodidos”. Nós, que nem fodídos éramos. Ele, que tinha olhos azuis e sobrenome italiano. Decidi ouvir o que as fodidas tinham a me dizer, pelo afeto que nutro por essa figura branca (sim, racista também isso). Botei o ego de lado. Pisei fora da zona de conforto, do meu esquema explicativo perfeito de mártir (existe feminino de mártir?). Escutei a Hill Collins. Reli Alice Walker. Fui atrás da Rosa Parks. Pesquisei Nina Simone. Me enfiei na história dos Panteras Negras. Assisti de novo Mississipi em Chamas, Uma Outra História Americana, tudo que eu tinha do Spike Lee. Me inscrevi em feeds de sites e blogs brasileiros sobre racismo e identidade racial – esses que antes eu sequer acessava, já que “não eram dirigidos a mim”, pela mesma visão limitada de quem acha que, sendo branco, não tem nada a ver com o dia da consciência negra. Peguei o Darcy Ribeiro da estante. Quase vomitei com a memória de tudo aquilo que meu cérebro havia, de forma traiçoeira, relegado “aos outros” quando aprendi na escola. Não eram os outros. Era eu. Nas páginas de Casa Grande e Senzala, eu era a moça na liteira. Eu era o personagem de Di Caprio em Django Livre, ou era também o branco salvador da pátria (ou pior, dos negros) interpretado por Chirstopher Waltz — ambos essencialmente racistas. Eu era a sinhá que eu tanto desprezava nas novelas de época. Eu era a imigrante italiana da novela, cujos descentes puderam acreditar no mito do mérito, já que sua cor de pele lhe dava contrato, trabalho assalariado, possibilidade concreta de compra de terras e direito de frequentar escolas, o que não era assegurado às populações negras na mesma época. Eu era, enfim, de volta ao século XXI, a moça que podia andar na rua sem ser abordada pela polícia. Que sabia que, a qualquer sinal de problema, chamar a polícia representava mais risco ao outro do que a mim mesma. Era eu, a moça feminista que não entendia por que “tanto escarcéu” das feministas negras, já que eu não era racista. Que tinha o privilégio racial mais imenso e cruel de poder ignorar a própria racialidade, e fingir que o racismo não existe enquanto ele feria minhas convicções e meu conforto como militante. Demorei meses, mas vocês têm um dia pra tentar: não dê parabéns a ninguém em 20 de Novembro, como pedimos que não nos deem rosas no dia 8 de Março. Use seu tempo para contribuir com a luta antirracista de maneira extremamente mais eficaz: reconheça-se branca, cale-se pela primeira vez na vida e escute o que as mulheres negras têm a dizer. PS.: esse texto, como escrito a partir da experiência de gente branca, necessariamente apresentará alguns racismos sutis; peço desculpas de antemão por eles e espero que possa, no diálogo com minhas companheiras negras, corrigi-los em breve. PS2.: escrever esse texto e provocar a discussão pública sobre privilégio racial branco não é um ato de heroísmo, nem de coragem: é o mínimo que precisa ser feito por pessoas brancas na luta antirracista. PS3.: os dois vídeos abaixo colocam em cheque o privilégio racial que nós brancos fingimos não ver; divirtam-se. * Marilia Moschkovich é socióloga, militante feminista, jornalista iniciante e escritora; às segundas-feiras contribui com o Outras Palavras na coluna Mulher Alternativa. Seu blog pessoal é www.mariliamoscou.com.br/blog. ** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Marília Moschkovich, para a coluna Mulher Alternativa
Foto: http://bit.ly/18mtvxA Sociedade

Ganância, impunidade e pobreza: tripé que sustenta o trabalho escravo

[caption id="attachment_103180" align="alignleft" width="300"] Foto: http://bit.ly/18mtvxA[/caption] “A manutenção do trabalho escravo é consequência de um tripé: ganância, impunidade e pobreza”, diz o jornalista e cientista político, Leonardo Sakamoto. A possível aprovação do Projeto de Lei 432/2013, que regulará a PEC57A, conhecida como a PEC do trabalho escravo, prevista para quarta-feira, tem gerado polêmica entre as entidades que defendem a Proposta de Emenda à Constituição. De acordo com o jornalista Leonardo Sakamoto, há um equívoco no PL 432/2013, de autoria do senador Romero Jucá (PMDB-RR). “Segundo tal proposta, o confisco de terras se daria simplesmente por conta de parte dos elementos que constituem o trabalho escravo, ou seja, cerceamento de liberdade e trabalho forçado. Mas a proposta ignoraria outros elementos que estão previstos na definição de trabalho escravo no Brasil: a dignidade do trabalhador, as condições degradantes de trabalho e a jornada exaustiva”, explica, em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone. Sakamoto esclarece que “a bancada ruralista nunca gostou do conceito de trabalho escravo, especialmente no que se refere à questão da dignidade do trabalhador. Uma vez mudando a regulamentação para este PL, a bancada irá utilizar esse conceito aprovado para a regulamentação como justificativa para mudar o conceito geral do trabalho escravo no Brasil. Por isso ela é preocupante: pelo que causa num primeiro momento e pelo que pode vir a causar em um segundo momento”. E acrescenta: “A grande discussão é como fazer a aprovação da regulamentação sem voltar atrás nesse conceito, utilizando um conceito que já está previsto na legislação”. Leonardo Sakamoto é jornalista graduado pela Universidade de São Paulo - USP, onde também realizou mestrado e doutorado em Ciência Política. É coordenador da ONG Repórter Brasil e representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo - Conatrae. Também escreveu Trabalho escravo no Brasil do Século XXI (Brasília: Organização Internacional do Trabalho, 2006). Confira a entrevista: IHU On-Line - Em que medida a aprovação do Projeto de Lei do Senado (PLS 432/2013) regularia a PEC57A? Leonardo Sakamoto - A ideia do projeto é regulamentar a PEC57A/99. A maioria das emendas constitucionais precisa de um projeto e de um regulamento que digam como ela vai funcionar. Então, um projeto de lei já era previsto, porque sem PL a PEC não funciona. O problema não é a regulamentação existir, o problema é o jeito como ela foi estruturada. Tal estruturação pode gerar um retrocesso no combate ao trabalho escravo. A discussão é referente ao jeito como o senador Romero Jucá – que ficou como relator da comissão mista formada para discutir a regulamentação da proposta da emenda constitucional 57A/99 – colocou a discussão. Segundo tal proposta, o confisco de terras se daria simplesmente por conta de parte dos elementos que constituem o trabalho escravo, ou seja, cerceamento de liberdade e trabalho forçado. Mas a proposta ignora outros elementos que estão previstos na definição de trabalho escravo no Brasil: a dignidade do trabalhador, as condições degradantes de trabalho e a jornada exaustiva. Então, não só a Comissão Pastoral da Terra - CPT, mas a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura - CONTAG e outras dezenas de Instituições e entidades da sociedade civil estão apontando que, do jeito que a proposta de regulamentação está, considera apenas os elementos ligados à liberdade do trabalhador e ignora os elementos relacionados à dignidade. Portanto, a PEC pela qual se lutou tanto desde 1995 poderá ser um grande retrocesso. IHU On-Line - Como o PL redefine o conceito de trabalho escravo previsto no Código Penal? Leonardo Sakamoto - A regulamentação, para efeito dessa lei, considera metade do artigo 149 do Código Penal, que define o que é trabalho escravo. O artigo 149 do Código Penal define trabalho escravo a partir de quatro elementos definidores. A regulamentação proposta pelo senador Romero Jucá considera apenas os dois primeiros elementos e ignora os outros dois. Isso muda a concepção para trabalho escravo no Brasil? Não, não muda. O que muda é o preceito da PEC. A bancada ruralista nunca gostou do conceito de trabalho escravo, especialmente no que se refere à questão da dignidade do trabalhador. Então, uma vez mudando a regulamentação para este PL, a bancada irá utilizar esse conceito aprovado para a regulamentação como justificativa para mudar o conceito geral do trabalho escravo no Brasil. Por isso ela é preocupante: pelo que causa num primeiro momento, e pelo que pode vir a causar em um segundo momento. IHU On-Line - Esta PEC57A está tramitando no Congresso há quase 15 anos. Que mudanças foram feitas na proposta desde então? Leonardo Sakamoto – Em 1995, a PEC foi apresentada no Senado pelo Deputado Paulo Rocha. Aí o projeto tramitou na Câmara, mas sem muito sucesso, até que foi proposto um projeto muito semelhante no Senado. Esse projeto tramitou e foi aprovado em dois turnos no Senado na década passada, então voltou para a Câmera dos Deputados para que fosse votado em dois turnos e aprovado. Contudo, o texto ficou parado. Em 28 de janeiro de 2004 ocorreu o que ficou conhecido como a chacina de Unaí, quando quatro funcionários do Ministério do Trabalho e Emprego foram mortos em uma fiscalização de rotina no Noroeste de Minas Gerais. O caso de Unaí, que teve repercussão nacional e internacional, serviu para forçar o trâmite da PEC. Então, ela foi aprovada, na Câmera, em primeiro turno, e sofreu uma modificação. Antes, era previsto apenas o confisco dos imóveis rurais e sua destinação para reforma agrária, entretanto, foi acrescentada a destinação de imóveis urbanos para programas de moradia popular. De agosto de 2004, quando foi aprovada, até maio de 2012, a PEC ficou transitando na Câmara. Em 2012 finalmente foi aprovada em segundo turno na Câmara e voltou para o Senado. Nesse retorno ao Senado, ficou combinado que seria criada uma comissão mista para discutir um projeto de regulamentação da PEC para que, no momento em que ela fosse aprovada, tivesse um projeto para regulamentá-la. Os ruralistas começaram a fazer jogo de palavras, começaram a falar que tinha sido combinado discutir o conceito de trabalho escravo, o que não é verdade. Também queriam aprovar a regulamentação antes de aprovar a PEC, o que tecnicamente é impossível, porque não se pode regulamentar algo que não existe. Então, foi criado o PL da regulamentação, o qual está previsto para ser votado no Senado Federal juntamente com a PEC do trabalho escravo, na próxima quarta-feira. Tentou-se, na semana passada, no Senado, colocar a votação da regulamentação antes da PEC. Muitos senadores se insurgiram, acharam isso um absurdo e, portanto, a regulamentação será votada depois da PEC. O ponto é que muitos senadores já propuseram emendas à proposta de regulamentação; tem mais de 50 emendas à proposta de regulamentação. Inclusive o governo federal, junto com sua base, já tem uma proposta de emenda substitutiva total, que substituiria a sugestão do Romero Jucá por outra regulamentação que inclua todos os elementos caracterizadores de trabalho escravo. A grande discussão é como fazer a aprovação da regulamentação sem voltar atrás nesse conceito, utilizando um conceito que já está previsto na legislação. IHU On-Line - Que razões favorecem a continuidade do trabalho escravo no país? O que caracteriza o trabalho escravo contemporâneo? Quem são os atores envolvidos nesta prática? Leonardo Sakamoto – A manutenção do trabalho escravo é consequência de um tripé: ganância, impunidade e pobreza. O trabalho escravo não é decorrência da maldade do coração humano, mas é decorrência de um cálculo econômico de cortar custos visando ao aumento da competitividade. A impunidade é outro fator que contribui, uma vez que há certeza de que as pessoas podem usar trabalho escravo e raramente irão para a cadeia. A pobreza, a falta de oportunidades, a má qualidade de vida faz com que as pessoas acabem caindo na rede de gatos, fazendeiros, empresários, que, no intuito de cortar custos, acabam utilizando essa forma de exploração. O trabalho escravo, gosto de fazer esta analogia, não é uma doença, mas é um sintoma, é um indicador de que algo não está bem, ou seja, de que há um modelo de desenvolvimento extremamente excludente, concentrador. Para combatê-lo é preciso fazer a reforma agrária, gerar empregos, melhorar a qualidade de vida das pessoas, atuar na melhoria da situação dos trabalhadores em geral, atuar na formação dos trabalhadores, no desenvolvimento social, punir efetivamente, aprovar leis que ajudem na punição das pessoas que utilizam o trabalho escravo. O Brasil é uma referência para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, é uma referência para a Organização Internacional do Trabalho, para outros países no que tange ao combate ao trabalho escravo, mas ainda temos muito a avançar nesta questão. IHU On-Line - Quais são as principais rotas de aliciamento de trabalhadores no Brasil? Há dados de em quais estados esta atividade é mais recorrente? Leonardo Sakamoto – Existem rotas internas de Norte a Sul, de Leste a Oeste. O estado que tem o maior aliciamento de trabalhadores escravizados é o Maranhão, o segundo Estado com o pior Índice de Desenvolvimento Humano - IDH do Brasil, e com péssimos índices de renda. Em contrapartida, o principal estado que utiliza mão de obra escrava é o Pará, mas nos últimos tempos São Paulo também está despontando como grande mediador de trabalho escravo, justamente pelo aumento de fiscalizações urbanas no Pará e no Maranhão. Há muito trabalho escravo na pecuária, nas siderúrgicas, e em São Paulo tem trabalho escravo em oficinas de costura, que costuram para grandes marcas, e na construção civil. Tem uma série de rotas, mas o que importa é que as pessoas aliciadas saem de áreas pobres para áreas que estão entrando em expansão. IHU On-Line - Qual a relevância da Lista Suja do trabalho escravo, atualizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego e pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República? Leonardo Sakamoto - Hoje ela é um dos principais instrumentos brasileiros de combate ao trabalho escravo. Ela foi criada em 2003 e traz o nome dos empregadores flagrados como reutilizando mão de obra escrava, e que tiveram direito de se defender em primeira e em segunda instância administrativa. Então, a Lista Suja é um instrumento de transparência importantíssimo, que tem servido aos trabalhadores do Brasil, mas também ao sistema econômico empresarial, porque os empresários acabam utilizando a lista - apesar do Ministério do Trabalho não obrigar - no sentido de se precaver, de fazer gerenciamento de risco, de evitar parcerias com empresas que utilizam trabalho escravo. A Lista Suja é reconhecida internacionalmente como um grande instrumento de combate ao trabalho escravo, e no Brasil ela acabou ajudando muitos trabalhadores, porque ao cortar produtores que se utilizam desse tipo de exploração, você está forçando não apenas aquele produtor a se adequar, mas também todos os produtores que trabalham em volta a seguir a lei e a adotar critérios responsáveis, como o trato com seus funcionários. A Cosan, quando entrou na lista, caiu mais de 5% na Bolsa de Valores de São Paulo. A MRV, que é uma grande construtora, quando entrou na lista, também caiu na Bolsa de Valores, porque o mercado está se precavendo. Bancos públicos federais também não emprestam dinheiro para quem está na lista. IHU On-Line - Deseja acrescentar algo? Leonardo Sakamoto – É importante as pessoas acompanharem a atuação dos senadores. As pessoas esquecem em quem votam. É importante que os cidadãos enviem e-mails para os senadores cobrando que a PEC do trabalho escravo seja aprovada, que a regulamentação seja aprovada sem extorsão. Essas ações podem ter um retorno positivo e isso ajudará muito nesse processo de aprovação da PEC57A. * Publicado originalmente no site IHU On-Line.  


por Redação do IHU On-Line

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Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
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