Pra onde vai o lixo que você produz?

Sociedade

Pra onde vai o lixo que você produz?


por Raquel Rolnik*


[caption id="attachment_105181" align="alignleft" width="287"] Foto: shutterstock[/caption] Muita gente já separa em casa o lixo seco do lixo orgânico, mas pouco sabemos que destino têm esses materiais, o quanto de fato é aproveitado para reciclagem, se é possível aproveitar o lixo orgânico pra alguma coisa… Enfim, a destinação final do lixo que produzimos é uma das grandes preocupações de nossas cidades hoje. A maior parte do lixo ainda vai para aterros sanitários, cada vez mais distantes e com enorme impacto sobre as áreas onde estão instalados. Afinal, quem quer conviver com um aterro do lado de casa ou do trabalho? Para se ter uma ideia, na cidade de São Paulo, hoje, temos coleta seletiva em 46% dos domicílios, mas menos de 2% do nosso lixo é de fato reciclado. Ou seja, não adianta ter coleta seletiva se não reaproveitamos de fato esse material. Com o objetivo de aumentar nossa capacidade de reciclar, a prefeitura de São Paulo inaugurou, no início deste mês, a primeira central de triagem mecanizada de resíduos recicláveis da América Latina, na Ponte Pequena, região do Bom Retiro, com capacidade para processar até 250 toneladas de lixo reciclável por dia. Um dos grandes limites para a ampliação da reciclagem é justamente o acúmulo do material reciclado e a dificuldade de encaminhá-lo para reuso, por ser muito volumoso. Se ele fica acumulado em grandes quantidades em centrais de reciclagem, sejam estas de cooperativas de catadores ou de empresas, isso também limita enormemente o potencial de expansão da capacidade de reciclar da cidade. Com a mecanização, o lixo separado é prensado mecanicamente, diminuindo de volume e, assim, podendo ser transportado mais facilmente. A receita gerada pela comercialização dos materiais processados pela central constituirá o Fundo Municipal de Coletiva Seletiva, Logística Reversa e Inclusão de Catadores. Este fundo viabilizará a contratação de cooperativas de catadores que atuarão dentro da central – na triagem dos materiais e na operação das máquinas, por exemplo – e, ainda, permitirá parcerias com outras cooperativas, que continuarão atuando externamente na coleta seletiva. A gestão do fundo será feita por um conselho formado por 9 integrantes, sendo três da sociedade civil, três do governo municipal e três das cooperativas de catadores. Ao incorporar as cooperativas na implementação deste novo sistema de coleta seletiva, espera-se melhorar as condições de trabalho dos catadores e, ainda, aumentar sua remuneração. A partir da instalação da central, a expectativa é ampliar o percentual de lixo reciclado em São Paulo para 10% até 2016. Além disso, até esta data, a prefeitura tem como meta fazer com que a coleta seletiva atinja todos os domicílios da cidade. Ainda sobre esta questão da destinação do lixo, uma outra boa notícia recente é o lançamento do projeto Composta São Paulo, iniciativa da sociedade civil, encampada pela Prefeitura, que distribuirá inicialmente para dois mil domicílios composteiras domésticas, mais conhecidas como minhocários. Estas composteiras transformam o lixo orgânico em adubo e podem ser acondicionadas em quintais, áreas de serviço, garagens e mesmo em cozinhas. Essa é uma iniciativa importantíssima se considerarmos que 51% do lixo produzido em nossas casas são resíduos orgânicos, ou seja, que não podem ser reciclados e vão direto para os aterros sanitários. Para participar do projeto e receber a composteira é necessário se cadastrar no site até o dia 27 de julho: www.compostasaopaulo.eco.br. O projeto prevê também oficinas de compostagem e plantio. Aumentando a escala e a cobertura da reciclagem, abrindo novas frentes de reaproveitamento do lixo, inclusive o orgânico, São Paulo avança no enfrentamento de um dos maiores desafios ambientais de nossas cidades. * Raquel Rolnik é urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. ** Publicado originalmente no Yahoo!Blogs e retirado do site Mercado Ético.

O mundo produz por ano cerca de 280 milhões de toneladas de plástico, das quais recicla apenas 10%. Foto: Lucyin/cc by 2.0 Inter Press Service - Reportagens

As empresas devem divulgar sua “pegada de plástico”

[caption id="attachment_115344" align="aligncenter" width="529"] O mundo produz por ano cerca de 280 milhões de toneladas de plástico, das quais recicla apenas 10%. Foto: Lucyin/cc by 2.0[/caption]   Washington, Estados Unidos, 25/6/2014 – O custo ambiental do plástico utilizado pelas empresas produtoras de bens de consumo chega a mais de US$ 75 bilhões anuais, segundo uma avaliação pioneira divulgada pela Organização das Nações Unidas (ONU). O cálculo se baseia no custo das emissões de gases-estufa gerados pela produção de materiais plásticos e o eventual impacto do lixo resultante sobre a vida silvestre e os ecossistemas, especialmente nos oceanos, já que apenas 10% dos produtos plásticos são reciclados. O custo dos recursos perdidos quando os produtos de plástico são jogados fora como desperdício, em lugar de irem para a reciclagem, também influi no ambiente. Os pesquisadores dizem que essas estimativas, divididas em 16 setores, são uma advertência para as empresas e seus acionistas. Várias indústrias são particularmente vulneráveis diante da adoção de novas normas, da demanda dos consumidores ou pela escassez de recursos em relação ao uso futuro ou à disponibilidade do plástico. O estudo exorta as empresas a adotarem uma política de divulgação sobre o uso do plástico para se isolarem dessas crises. Para isso, os executivos devem compreender com exatidão a quantidade de plástico que suas companhias utilizam. “A pesquisa mostra a necessidade de as empresas considerarem a pegada de plástico, tal como fazem com o carbono, a água e a silvicultura”, afirmou, no dia 23, Andrew Russell, diretor do Plastic Disclosure Project (Projeto de Divulgação do Plástico), uma organização sem fins lucrativos que copatrocinou o estudo sobre o tema. “Ao medir, gerir e declarar o uso e a eliminação de plástico, as empresas podem reduzir os riscos, maximizar as oportunidades e se converterem em companhias mais prósperas e sustentáveis”, assegurou. A publicação dos resultados coincidiu com a sessão inaugural da Primeira Assembleia da ONU para o Meio Ambiente, que acontece em Nairóbi, no Quênia. Mais de 1.300 representantes de governos e do setor privado participam até o dia 27 do que constitui o fórum de mais alto nível que as Nações Unidas já organizaram para discutir temas ecológicos. “O plástico chegou a desempenhar um papel crucial na vida moderna, mas não podemos ignorar as repercussões para o ambiente das formas como o usamos”, afirmou Achim Steiner, diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), por meio de um comunicado. A “redução, a reciclagem e o redesenho dos produtos que utilizam plástico pode trazer múltiplos benefícios para a economia verde, desde redução dos danos econômicos, aos ecossistemas marinhos e aos setores do turismo e da pesca, vitais para muitos países em desenvolvimento, até economia e oportunidades de inovação para as empresas, já que reduzem seus riscos de reputação”, acrescentou Steiner. Para o estudo, o Pnuma e o Plastic Disclosure Project colaboraram com a Trucost, uma consultoria britânica que coloca preço ao uso dos recursos naturais e que processou os dados numéricos. A transparência em torno do uso do plástico – e, posteriormente, maior eficiência em seu uso – poderia se converter em um ponto de competição entre as companhias. “Na medida em que as consequências do plástico ganham mais importância, pode ser que os acionistas das empresas exijam que estas melhorem suas taxas de revelação”, diz o informe publicado no dia 23. “Por exemplo, essa informação é útil para os investidores institucionais interessados em proteger o valor de seus investimentos. Os administradores de ativos poderiam colaborar com essas empresas para saber como vão gerenciar os riscos e as oportunidades do plástico”, acrescentou. As indústrias de alimentos e bebidas sem álcool têm os maiores custos de “capital natural” em função do uso do plástico, o que constitui mais de um terço do total, segundo a pesquisa. Como tais, essas empresas poderiam ser mais vulneráveis aos riscos para sua reputação ou sua contratação. Por outro lado, a maior proporção do negócio das empresas de brinquedos, seguidas pelos fabricantes de artigos e calçados esportivos, gira em torno do plástico, por isso experimentariam maior impacto econômico em razão de problemas derivados de seu uso. Mas a declaração pública sobre o uso do plástico por parte das empresas continua sendo escassa, já que apenas 50 das cem estudadas informaram a respeito. Além disso, tampouco há padrões em função dos quais elas tomarão a decisão de tornar pública essa informação. O mundo produz cerca de 28 milhões de toneladas de plástico por ano, mas recicla apenas 10%. Uma grande quantidade do lixo resultante acaba nos oceanos, onde causa danos no valor aproximado de US$ 13 bilhões, segundo novos cálculos da ONU. Em meados deste mês, o governo dos Estados Unidos organizou uma primeira cúpula sobre a sustentabilidade dos oceanos, com ênfase na contaminação do plástico. Por sua vez, o novo informe não pretende ponderar o uso do plástico em comparação com outros materiais, em função do peso de transporte ou o impacto acessório sobre bens importantes, como os alimentos. Tampouco propõe grandes reformas com relação ao seu uso, e por outro lado defende que o material seja usado simplesmente da maneira mais eficiente e sustentável possível. Esta postura foi elogiada pela indústria do plástico. O Conselho Norte-Americano de Química, um importante grupo de pressão em Washington, “apoiou” a conclusão e declarou que o informe “oferece um ponto que a empresas que fabricam e oferecem uma ampla gama de valiosos bens de consumo podem utilizar na avaliação de seus produtos e processos”. Mas alguns temem que a indústria do plástico seja muito insular para liderar qualquer processo de inovação. “A indústria está representada por um conjunto muito reduzido de empresas que estão muito arraigadas. Fabricam a maior parte dos vasilhames que utilizamos, e não são muito abertas à inovação e ao espírito empresarial”, afirmou Daniella Russo, diretora do Think Beyond Plastic (Pense Além do Plástico), um fórum que promove novas formas de abordar a contaminação plástica. Russo disse à IPS que é importante recordar que alguns materiais plásticos apresentam desafios ambientais importantes, e que outros não. Por exemplo, os vasilhames de uso único representam cerca de 50% da produção de plástico e no entanto estão destinados exclusivamente ao lixo. De fato, o informe do Pnuma identifica os vasilhames descartáveis e a espuma de poliestireno como os plásticos mais problemáticos. Porém, Russo assegurou que estes também oferecem as oportunidades de inovação mais interessantes. “Este é um mercado enorme, pronto para quem quiser aproveitá-lo”, afirmou. “A inovação pode vir de empresários individuais, mas também das próprias companhias se sentirem a pressão de fazê-lo”, acrescentou. Envolverde/IPS


por Carey L. Biron, da IPS
O casal mapuche Catalina Marileo e Luis Aillapán, diante de sua casa em Puerto Saavedera, na região chilena de La Araucanía. Em 2002, eles e outros familiares foram presos, julgados pela Lei Antiterror e finalmente absolvidos, por pedirem a uns militares a construção de uma estrada em suas terras. Foto: Marianela Jarroud/IPS Inter Press Service - Reportagens

Chile promete apagar a sombra da ditadura em direitos humanos

[caption id="attachment_115340" align="aligncenter" width="529"] O casal mapuche Catalina Marileo e Luis Aillapán, diante de sua casa em Puerto Saavedera, na região chilena de La Araucanía. Em 2002, eles e outros familiares foram presos, julgados pela Lei Antiterror e finalmente absolvidos, por pedirem a uns militares a construção de uma estrada em suas terras. Foto: Marianela Jarroud/IPS[/caption]   Santiago, Chile, 25/6/2014 – O Chile se comprometeu este mês junto à comunidade internacional a impulsionar uma série de reformas para melhorar a situação dos direitos humanos no país e assim apagar as persistentes sombras da ditadura no fundamental setor das garantias da cidadania. Avançar sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, reformar a polêmica lei antiterror, garantir os direitos humanos dos povos originários e o acesso universal a educação e saúde, são alguns dos compromissos que o Chile acaba de assumir diante da Organização das Nações Unidas (ONU). “Vemos sempre uma tendência de o Chile ir caminhando para o cumprimento de suas obrigações”, disse à IPS o representante regional para a América do Sul da Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o italiano Amerigo Incalcaterra. No dia 19, o país apresentou pela segunda vez em sua história o Exame Periódico Universal (EPU), um mecanismo do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Diante do Conselho, na cidade Suíça de Genebra, o governo formalizou sua aceitação de 180 das 185 recomendações feitas pelos 84 Estados membros, tendo rejeitado cinco delas. O Chile é um dos países latino-americanos mais conservadores e um dos seis em todo o mundo que proíbem o aborto em qualquer circunstância. O divórcio foi aprovado apenas em 2004 e o coletivo de lésbicas, gays, bissexuais, trans e inter-sexuais (LGBTI) ainda luta pelo reconhecimento legal dos casais do mesmo sexo. A educação e a saúde estão profundamente segregadas, o que gera uma espiral de desigualdade que a sociedade clama para que se reverta nesse país com pouco mais de 17 milhões de habitantes. Outro grave problema afeta os povos indígenas, que carecem de reconhecimento constitucional e que protagonizam há décadas enfrentamentos com as autoridades e os poderes de fato para que sejam restituídas suas terras ancestrais que lhes foram retiradas. As recomendações do Conselho de Direitos Humanos foram respondidas em primeira instância pelo governo do direitista Sebastián Piñera (2010-2014), poucas algumas semanas antes de deixar o poder em março. Piñera aceitou 142 recomendações, rejeitou 13 e “tomou nota” de outras 30, argumentando que não podia comprometer o cumprimento destas porque sua aprovação dependia do Congresso. “A figura de ‘tomar nota’ foi um novidade em matéria de direito internacional porque as recomendações são aceitas ou rejeitadas”, disse à IPS a advogada do estatal Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH), Paula Salvo, cuja instituição participou da sessão em Genebra. No dia 30, de maio governo da socialista Michelle Bachelet enviou por escrito uma “correção” à primeira resposta, na qual aceita 180 recomendações e rejeita cinco. Entre essas cinco estão duas do Vaticano, sobre o direito da pessoa humana desde a concepção e a proteção da identidade familiar tradicional, e outra sobre o direito da Bolívia a uma saída para o Oceano Pacífico. Segundo Incalcaterra, a presidente compreendeu que muitas das recomendações rejeitadas por seu antecessor já faziam parte de seu programa de governo. Isso inclui a despenalização do aborto terapêutico, pelas suposições de inviabilidade fetal, risco de vida da mãe e violação. O projeto de lei para permitir o aborto induzido nestes casos começará a ser discutido no parlamento no segundo semestre deste ano. Incalterra, cujo escritório regional fica em Santiago, explicou que a ONU reconhece que o aborto “é um tema complexo e de saúde”, mas o Conselho de Direitos Humanos pede que os Estados legislem sobre ele, e “estes três casos são o mínimo”. Além de legislar sobre o aborto terapêutico, o governo se comprometeu a reformar outras heranças da ditadura militar do general Augusto Pinochet (1973-1990), como a Lei Antiterrorista, que é aplicada quase exclusivamente contra supostos delitos do povo mapuche, em sua luta pela restituição de suas terras ancestrais. A lei aplica altas sanções, realiza duplos processos pela jurisdição civil e militar e permite testemunhas sem rosto, entre outras anomalias. O governo se comprometeu a não aplicar a lei contra os mapuches e a respeitar seus direitos humanos. Outro desafio ditatorial, que persiste após 24 anos de democracia, é a jurisdição militar, que pode ser aplicada a qualquer caso envolvendo militares, como vítimas ou acusados. A reforma prometida fixa que os tribunais civis processarão os militares acusados de crimes comuns e que a justiça militar não alcançará nenhum civil. Hernando Silva, pesquisador do Observatório Cidadão, disse à IPS que avaliaram positivamente que o Estado tenha aceito estas recomendações, mas o que esperam é “que de uma vez por todas sejam cumpridas, e não apenas assumidas”. “Não é a primeira vez que o Chile se compromete a legislar sobre justiça militar ou a lei antiterror” sem concretizar a promessa, recordou Silva. “A própria Bachelet se comprometeu durante seu primeiro mandato (2006-2010) a não aplicar mais a lei antiterror ao povo mapuche, algo que cumpriu”, pontuou, acrescentando que “é preciso que desta vez, finalmente, se dê cumprimento cabal às suas obrigações em matéria de direitos humanos”. Incalcaterra destacou que não há obrigatoriedade legal para cumprir as recomendações, mas advertiu que “todo o trabalho feito em nível internacional se baseia na boa fé. Se uma pessoa passa por esse exercício, dialoga com outros Estados e reconhece que essas recomendações são pertinentes e as assume, evidentemente tem que em mais quatro anos regressar a essa instância e dizer isto é o que foi feito”. A finalidade do EPU é impulsionar a implantação dos direitos de todas as pessoas que vivem em um país, explicou Incalcaterra. Por essa razão, afirmou que “devemos vê-lo sempre como um apoio adicional, que ajuda os Estados a estabelecerem políticas públicas, melhorar sua legislação se necessário, estabelecer institucionalidade se não a tem, proporcionar recursos, estabelecer dados estatísticos para sua análise, campanhas, etc.”. A revisão do cumprimento dos compromissos pelo Chile será dentro de quatro anos. Para o INDH, com um papel de supervisor estatal, há urgências a cumprir, com a ratificação dos tratados internacionais na matéria. Também é preciso contar com uma instância governamental de direitos humanos, um plano nacional e maior educação de seus alcances. Sobre as vítimas da ditadura sem reparação, o INDH considera que deve ser criado um órgão de qualificação permanente para casos pendentes e dar assessoria jurídica e social às vítimas de tortura. A advogada Salvo destacou à IPS que a partir de agora “o governo tem de gerar um mecanismo permanente de revisão das recomendações da ONU, porque tem pela frente um desafio intenso”. Envolverde/IPS


por Marianela Jarroud, da IPS
Torcedoras brasileiras assistindo ao jogo em Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil Sociedade

A mulher brasileira existe, mas não para satisfazê-los

[caption id="attachment_115378" align="alignleft" width="300"] Torcedoras brasileiras assistindo ao jogo em Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil[/caption] Como a imagem propagada para o mundo contribui para a ideia equivocada de que somos apenas corpos disponíveis. Copa do Mundo sediada no Brasil significa, mais que os jogos e a torcida pela conquista de um troféu, a vinda de turistas de todos os lugares do mundo. Estrangeiros que, antes mesmo de pisar em solo brasileiro, muitas vezes já têm uma ideia do que vão encontrar: futebol, samba, festa, gente cordial, caipirinha e mulheres. A “beleza” e “sensualidade" da mulher brasileira são vendidas como um atrativo, quase como um patrimônio nacional, tirando o fato de que estamos falando de pessoas, e não de cachoeiras ou conjuntos arquitetônicos. Enquanto isso pode ser visto por muitos com orgulho, mais um quesito para sermos “melhores” do que os outros, acho preocupante e até perigoso que sejamos retratadas para o resto do mundo desta forma. Uma amiga foi assediada na rua por estrangeiros que vieram para a Copa. Outro estrangeiro achou por bem agarrar e beijar uma repórter, enquanto ela trabalhava, de forma que ela não teve sequer escolha se queria ou não aquele contato físico. No clipe oficial da Copa, o foco da câmera na bunda de passistas que rodeiam o cantor estrangeiro dão uma pista de onde vem a ideia de que o corpo da mulher brasileira, especialmente da mulher negra, existe para ser admirado. Está ali à disposição. Veja bem: o problema não é a vinda de estrangeiros. Os turistas que assediaram minha amiga não fizeram nada muito diferente do que os homens brasileiros já fazem todo dia, com Copa ou sem Copa. A nossa existência ser resumida às nossas bundas, coxas e seios também não foi invenção de seja lá quem dirigiu o clipe da Copa. Os estrangeiros que compram essa imagem da mulher brasileira e vêm para o nosso País acreditando que estamos aqui para servi-los (inclusive vários deles vindo alimentar uma rede de exploração sexual que muitas vezes vitima crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social) certamente são parte do problema; tanto quanto os brasileiros, que consciente ou inconscientemente, reforçam esse machismo que nos despe não só de roupas, mas de humanidade. Basta olhar com atenção para o jornalismo e para as propagandas “made in Brazil” nesta época de Copa. Em um comercial da TAM, por exemplo, que dá as boas-vindas a todo o tipo de torcedor, torcedoras só são mostradas quando o narrador dá as boas-vindas às “princesas”. Porque é claro que se mulheres marcam presença nos estádios é para agradar o olhar masculino. Isso fica ainda mais evidente no jornalismo punheteiro que elege as “musas” da torcida, reforçando que a existência da mulher só serve ao propósito de embelezar o ambiente que ela frequenta, no caso, a arquibancada. Seria uma grande sorte se fôssemos vistas e tratadas assim apenas durante a Copa. Daria até pra comemorar. O negócio é que não: esse tratamento nos é dispensado cotidianamente, para onde quer que a gente olhe, onde quer que a gente vá, não importa o que a gente faça. O mais trágico é que, apesar da imagem hiperssexualizada da mulher brasileira, não somos apenas nós que sofremos com essa constante desumanização. Não é como se estrangeiros só assediassem mulheres quando viessem ao Brasil. Mulheres de todo o mundo também passam por isso, em maior ou menor grau, dependendo de onde são. Mas, de volta ao Brasil: quando saímos na rua, alguns homens acreditam que estamos ocupando aquele espaço público para obter a aprovação de seu olhar. E não são poucos. No mapa da campanha Chega de Fiu Fiu, os depoimentos deixados por mulheres dão uma ideia de como é comum e perigoso esse pensamento de que se estamos andando sozinhas na rua é porque estamos à disposição. Pergunte a qualquer mulher: essa invasão dos nossos corpos e espaços são rotina para praticamente todas nós. “Ah, cantada é inocente, elogio não tira pedaço”. Isso não poderia ser mais falso. Primeiro, porque é sim uma violência e é ainda mais cruel tentar esvaziar ou minimizar o constrangimento, o medo, a raiva e até a culpa que sentimos quando passamos por isso. E é como se a vontade do homem de “elogiar” valesse mais do que a nossa tranquilidade, nossa autonomia e o nosso direito de usar o espaço público sem sermos intimidadas ou perturbadas. Ou seja, de novo, nossa existência sempre em segundo plano em relação aos desejos dos homens. Depois, porque esse tipo de assédio é uma manifestação da ideia de que somos corpos disponíveis – e isso é munição que valida violências ainda mais extremas contra nós. Se existimos para satisfazê-los e estamos à disposição, então não veem problema em abusar de nossos corpos mesmo contra a nossa vontade. Então “tudo bem” nos violentar, agredir, até arrancar a vida se não correspondemos às suas vontades, especialmente quando fugimos do padrão de “mulher desejável”. Lésbicas então só existem como adereço para as fantasias sexuais masculinas ou para serem “consertadas” por um homem que as satisfaça “de verdade”. Não veem que existimos para nós mesmas, que temos vontades e desejos próprios. Essa ideia de que nossa existência gira ao redor da aprovação e da satisfação masculina está tão introjetada na sociedade que mesmo quando um ou dois filmes são protagonizadas por mulheres, com as histórias girando em torno delas e não de algum homem, gera indignação em uma parcela considerável do público masculino (veja, estou falando de uma simples representação em meio a um oceano de estereótipos machistas propagadas desde sempre, em todos os lugares). Como assim um filme em que as mulheres não servem de acessório a um protagonista homem ou para agradar o público masculino? Pois é. É contra esse tsunami de estereótipos que constroem sobre nós e que propagam de todas as formas, em todos os meios, e contra as agressões decorrentes dessas ideias, que temos que lutar diariamente. Temos que afirmar e reafirmar nossa existência como seres humanos diversos, complexos e autônomos. E se escrevemos ou falamos sobre isso, também geramos indignação: afinal, como pode uma mulher existir para escrever algo que não agrade os homens, algo que os faz sentir desconfortáveis por pensarem ou agirem de determinada forma? Só digo que é melhor se acostumarem a isso. Existimos, sim. E toda vez que tentarem nos negar nossa autonomia como seres humanos, nossas vontades próprias e nosso protagonismo em nossas histórias, vamos fazer mais barulho do que uma arquibancada inteira de torcedores. * Aline Valek é blogueira do Escritório Feminista. * Publicado originalmente no Escritório Feminista e retirado do site Carta Capital.  


por Aline Valek*
Brasil Sociedade

Força, meninos do Brasil

O Brasil parou para ver a seleção Canarinho vencer a de Camarões por 4 x 1. O time jogou melhor e conseguiu se classificar em primeiro lugar no Grupo A da Copa da FIFA 2014. Daqui para frente cada disputa será decisiva e só a vitória permitirá seguir adiante. Até agora a ampla maioria de brasileiros e os responsáveis pela organização do evento nas 12 cidades-sede estão conseguindo dar conta do recado, e os torcedores de dezenas de países estão lotando os estádios e adorando a receptividade da nossa gente. Durante o enfrentamento desta segunda-feira, enquanto o escrete do Felipão suava a camisa no belo estádio Mané Garrincha, em Brasília, a marginal do Rio Pinheiros, de São Paulo, permaneceu vazia, em um horário típico de congestionamento em dias normais. Sem se deixar alienar, é inegável a magia desse esporte que mobiliza fanáticos e apreciadores no mundo inteiro e, como vimos nessa primeira fase, há favoritos e zebras. Será campeão o time que, para além dos talentos individuais, esbanjar espírito de equipe, garra, respeitar a camisa, fazer gols e se cuidar para não ser surpreendido pelos adversários. Nessa altura da competição o melhor a fazer é desejar força para os meninos do Brasil. E que o time jogue para vencer! Por aqui, fico. Até a próxima. * Leno F. Silva escreve semanalmente para Envolverde. É sócio-diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. É diretor do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, membro-fundador da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade, e da Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra. Foi diretor executivo de sustentabilidade da ANEFAC – Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.  


por Leno F. Silva*
Foto: Bel Pedrosa Sociedade

Facetas de mulheres no futebol, sob o olhar de onze fotógrafas

[caption id="attachment_115353" align="aligncenter" width="500"] Foto: Bel Pedrosa[/caption]   Jogar futebol é uma prática, na sua maioria, masculina, embora já seja expressiva a quantidade de mulheres adeptas desse esporte que está em evidência no mundo inteiro neste momento por conta da Copa da FIFA. A presença do sexo feminino nas torcidas organizadas e nas arquibancadas é notória, como também é possível constatar uma importante participação de garotas trabalhando como repórteres, comentaristas e apresentadoras de programas dedicados à essa paixão nacional. Aproveitando que a “gorduchinha” encontra-se na boca de milhões de admiradores, e buscando apresentar situações realistas do universo futebolístico, o Centro Cultural São Paulo nos oferece a exposição fotográfica “As Donas da Bola”, um conjunto de registros contundentes sobre como o futebol está impregnado nas distintas realidades femininas e em diferentes regiões do Brasil. Os olhares atentos de onze fotógrafas produziram um mosaico valioso que traz à tona curiosidades como um campeonato disputado por índias, as peladas jogadas pelo time de freiras; flagrantes de futebol de praia e de várzeas espalhadas nas periferias do nosso País, dentre tantas outras imagens clicadas, as quais misturam beleza, precisão, drama, raça, paixão e, principalmente, vivências. A mostra configura-se como um trabalho cuidadoso que joga luzes em facetas pouco vistas desse esporte que movimenta multidões e os seus mais diversos sentimentos. Vale a pena conferir! Por aqui, fico. Até a próxima. Serviço: As Donas da Bola Centro Cultural São Paulo, Piso Caio Graco, até 13 de julho de 2014 Curadoria: Diógenes Moura Fotógrafas: Ana Araujo, Ana Carolina Fernandes, Bel Pedrosa, Eliária Andrade, Evelyn Ruman, Luciana Whitaker,       Luludi Melo, Márcia Zoet, Marlene Bergamo, Mônica Zarattini, Nair Benedicto Produção: Sýn Criativa Apoio: f2.8, Prefeitura de São Paulo – Cultura, Centro Cultural São Paulo Patrocínio: Caixa e Petrobras Saiba mais em: www.asdonasdabola.com.br   * Leno F. Silva escreve semanalmente para Envolverde. É sócio-diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. É diretor do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, membro-fundador da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade, e da Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra. Foi diretor executivo de sustentabilidade da ANEFAC – Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


por Leno F. Silva*
Levine Mukasakufu (à dir.) e sua filha, Josiane Nizumfura (à esq.). Hoje elas estão em paz. Sociedade

Ruanda 20 anos depois: o trágico depoimento dos filhos do estupro

Duas décadas depois do genocídio, jornalista ouve o depoimento de mulheres que foram estupradas, e dos filhos que nasceram em consequência disso [caption id="attachment_115009" align="alignleft" width="300"] Levine Mukasakufu (à dir.) e sua filha, Josiane Nizumfura (à esq.). Hoje elas estão em paz.[/caption] Quando Josiane Nizomfur fez 12 anos, ela quis conhecer seu pai, por isso escapou da escola e foi ao julgamento público onde sua mãe estava depondo contra ele por estupro. Levine Mukasakufu nunca havia contado a Josiane as circunstâncias de seu nascimento. "Eu não podia enfrentar isso, e ela ficou sabendo pelos vizinhos", disse. Levine – uma mulher pequena e delicada, que parece um passarinho colorido em sua tradicional saia enrolada – é uma das 500 mil mulheres violentadas durante o genocídio em Ruanda em 1994, quando a etnia hutu do país, sob ordens de seus líderes, tentou eliminar a minoria tutsi. Então com 21 anos, Levine e outras jovens de Kibilizi, a 130 quilômetros ao sul da capital, Kigali, foram obrigadas a se reunir no campo de futebol da cidade. Os Interahamwe, a milícia hutu que liderou os massacres dos tutsis, escolheram as que queriam, forçando-as até os campos de banana e milhete ao redor onde foram estupradas por grupos de homens. "O estupro era a recompensa que os líderes davam aos que matavam", disse Levine. "É por isso que eu não amava minha filha – seu pai foi quem matou minha família. Eu também queria matá-la." Quando Levine descobriu que sua filha tinha visto seu depoimento, ela a espancou a noite toda. Foi um de muitos ataques. Depois que não conseguiu abortar o bebê, ela frequentemente batia em Josiane quando era criança. "Se ela fizesse qualquer travessura, eu dizia que era igual ao pai, uma Interahamwe. Eu a expulsava, dizendo: 'Esta é uma casa tutsi, e você não pertence aqui'", disse ela. Esta semana, a Cúpula Global para o Fim da Violência Sexual em Conflitos, organizada pelo secretário das Relações Exteriores britânico, William Hague, e a atriz Angelina Jodie, pretende colocar vítimas como Levine e Josiane no centro das investigações de crimes de guerra. Os governos deverão assinar um novo protocolo para documentar ataques sexuais em tempo de guerra e adotar programas para ensinar a seus soldados que o estupro é um crime de guerra, e não uma consequência inevitável do conflito. Apesar de o estupro ainda ocorrer em todas as guerras, ele foi especialmente disseminado em Ruanda e as consequências são sentidas até hoje. O Tribunal Penal Internacional para Ruanda concluiu que o estupro foi uma parte integral do genocídio. "A violência sexual foi um passo no processo de destruição do grupo tutsi... destruição do espírito, da vontade de viver e da própria vida", disse o veredicto sobre os líderes hutus que organizaram o genocídio na região de Butare, que inclui Kibilizi. A ONU estimou inicialmente que 5 mil crianças nasceram de estupros no genocídio de 1994, mas o Fundo de Sobreviventes – uma instituição de caridade britânica que trabalha em Ruanda – acredita que o número pode chegar a 20 mil. Diferentemente dos órfãos de genocídio, os filhos do estupro não se qualificam para ajuda governamental e muitos vivem na pobreza. Os programas de ajuda geralmente se concentraram na dificuldade das mulheres violentadas, dando pouca atenção às crianças, que cresceram sentindo-se rejeitadas por suas mães e estigmatizadas pela comunidade. Em Ruanda, a etnia vem pela linhagem paterna, por isso as sobreviventes tutsis chamam as crianças Interahamwe de "filho de uma cobra", enquanto os parentes dos estupradores hutus muitas vezes dizem às crianças que suas mães são malditas por deporem contra seus pais e colocá-los na cadeia. Marie Josée Ukeye, uma terapeuta que aconselha 22 mulheres estupradas e 12 crianças em Kibilizi, diz que as crianças têm problemas de comportamento que só podem ser superados com anos de terapia em grupo. "As meninas adolescentes têm vergonha e muitas vezes assumem o sofrimento de suas mães, enquanto os meninos têm acessos de mau humor explosivos", disse ela. Como uma sobrevivente do genocídio, Ukeye vem realizando reuniões duas vezes por semana com as mulheres e as crianças há sete anos, ajudando-as a expressar-se e a superar sua raiva e sua dor. No costume de Ruanda, uma criança recebe um nome cristão e um kinyarwanda. Epiphane Mukamakombe, que fez várias tentativas de abortar, chamou seu filho de Olivier Utabazi, que significa "ele pertence a eles". Ela se recusou a amamentá-lo e tentou matá-lo quando era bebê. De alguma forma ele sobreviveu. Hoje com 19 anos, Olivier diz que compreende porque sua mãe era cruel com ele, mas continua assombrado pelo pai que não consegue odiar. "Por um lado eu o culpo porque ele estuprou minha mãe e não a ajudou a me criar", disse ele. "Mas por outro não sei se era realmente um homem mau." Quando criança ele era retraído e agressivo. No ano passado sua mãe juntou todo o seu dinheiro para mandá-lo estudar construção. Ele sonha em ser engenheiro e tem esperanças de uma vida melhor, mas sua atitude em relação ao estupro é confusa. "Talvez eles fossem matar minha mãe e então meu pai disse: 'se você nos deixar fazer sexo com você, não mataremos', por isso mamãe teve de concordar", disse o jovem. O estupro é errado, diz Olivier, mas ele parece mais perturbado por sua própria identidade confusa, dizendo que sente vergonha e raiva toda vez que tem de preencher um formulário que pede o nome do pai. Para sua mãe, os últimos 20 anos foram uma batalha simplesmente para aceitar a existência de Olivier. "Eu sentia que ele era um Interahamwe", disse Epiphane. Mas com o tempo ela percebeu que, como toda a sua família foi morta no genocídio, o menino era tudo o que ela tinha. Ela ainda teme os parentes do homem que a estuprou, acusando-os de atirar pedras contra sua casa e de envenenar sua vaca. Olivier fornece uma espécie de proteção, apesar de passar a maior parte do tempo na escola. "O amor veio depois, quando eu percebi que Deus me deu esse filho e ele é a única família que tenho", disse ela. "Não posso acusá-lo pelo modo como ele nasceu." Uma vez por semana as mulheres se juntam para trabalhar em mutirão nos pequenos campos à beira da aldeia. Inclinadas para recolher os grãos para secar, elas riem enquanto trabalham, achando conforto na companhia das outras e no conhecimento de que não estão sozinhas. Como agricultoras de subsistência extremamente pobres, poucas podem pagar por mão-de-obra, e mesmo que pudessem elas dizem que os trabalhadores podem ser parentes dos estupradores presos e não querem interagir com eles. O estigma do estupro nunca desaparece, e elas dizem que seus vizinhos hutus às vezes ainda as chamam de prostitutas. Algumas mulheres enlouqueceram com o sofrimento e passaram o trauma para seus filhos. Epiphanie Kanziga foi estuprada mais vezes do que ela consegue se lembrar e teve uma filha, Adeline Uwasi – nome que significa "do pai dela". As duas vivem em uma casa de um cômodo. O piso de terra fica alagado quando chove e um banco de ônibus velho, com as molas saltando através do plástico, serve de sofá. Quando Adeline tinha 3 anos, Epiphanie a deixou na floresta, acreditando que o genocídio continuava e ela precisava ser escondida. Em outra ocasião ela bateu em sua cabeça com um pau, ferindo-a tanto que a criança teve de ser hospitalizada. Frágil e chorosa, hoje Epiphanie conta com Adeline para cuidar dela durante a temporada anual de comemoração, quando os ruandenses marcam os cem dias de genocídio, a partir de 7 de abril. Vestida em seu uniforme escolar azul-real, Adeline tem sonhos de ir à Europa ou de conseguir um emprego em um banco, mas está atrasada na escola e fala em monossílabos, tão baixo que quase não é escutada. Muito consciente de sua posição como forasteira, ela certa vez disse a sua mãe que não tinha importância que ela não tivesse mais filhos, pois ninguém da comunidade lhes traria presentes quando nasce um bebê, à maneira tradicional. Ela acha difícil confiar nos homens e os considera mentirosos. "Eu não acho que eles têm amor", disse, olhando para os pés. Na última quinta-feira perto do escritório distrital de Kibilizi, onde 20 anos atrás líderes locais hutus e Interahamwe se reuniram para planejar o genocídio, os aldeões se preparavam para reenterrar os ossos dos que foram chacinados. Mais de 3 mil foram mortos nessa área, e todo o ano mais corpos são encontrados em covas coletivas e em fossas. Levine Mukasakufu estava no comando, usando luvas brancas de borracha para colocar cadáveres mumificados em caixões de madeira rústica pintados de branco, todos decorados com cruzes. Ela puxou uma lona azul e revelou dezenas de cadáveres, congelados na posição do momento da morte, um deles com as mãos para cima como se suplicasse por piedade. Um homem delicadamente puxou os restos de uma criança que devia ter 6 anos, com os joelhos dobrados como se ele ou ela estivesse dormindo. Uma das mulheres não aguentou e começou a chorar, mas Levine se manteve forte, decidida a que os membros de sua família tivessem um enterro decente. Ao contrário de outras mulheres, ela teve mais cinco filhos. Josiane, que ela atacou por ter ido ver seu pai, tornou-se uma mulher truculenta e autoconfiante, duas vezes maior que sua mãe. Elas alcançaram um acordo, uma maneira de se tolerarem. Os dias de gritos e brigas terminaram. "A violência sexual é um crime como nenhum outro", disse Marie Josée. "Ele afeta todos os aspectos da vida de uma pessoa – mental, físico, social. Destrói tudo." No entanto, ela acredita que as crianças têm uma chance de forjar suas próprias vidas se completarem os estudos. "Eu vi que grande tristeza é ser um filho do estupro", disse ela. "Mas também vi que os seres humanos, não importa pelo que eles tenham passado, podem progredir e melhorar." Assombradas pela morte e o estupro, condenadas à pobreza, as mulheres têm pouca esperança de felicidade. Só os filhos têm alguma chance de deixar o passado para trás. Leia mais em Guardian.co.uk. * Publicado originalmente pelo The Observer e retirado do site da revista Carta Capital.


por Lindsey Hilsum, para o The Observer
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Votar, mas em políticas públicas

Nunca me filiei a nenhum partido político, justamente para ter independência em minhas opiniões e honestidade nas coisas que escrevo. Na eleição de 1989 o país teve opções das mais variadas para eleger o primeiro presidente da República pelo voto direto. O mandato era de cinco anos sem direito à reeleição. Eram candidatos Mário Covas (PSDB), Ulisses Guimarães (PMDB), Leonel Brizola (PDT), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), José Paulo Bisol (PSB) e Fernando Collor de Mello (PRN). Todos os nomes eram conhecidos e tinham história na luta contra a ditadura e pela democratização do país, menos um, Collor. Eu fiz à época minha escolha por Mario Covas, um político até então coerente com uma linha de social democracia de centro-esquerda. Para o segundo turno da eleição passaram Lula e Collor. A mídia fez sua escolha por Collor e a edição do debate entre os presidenciáveis feita pela Globo no Jornal Nacional tornou-se um case de estudos nos meios acadêmicos de jornalismo. A Veja, por sua vez, elevou Collor ao status de “salvador da pátria” com a Manchete “O Caçador de Marajás”. Outros veículos surfaram na mesma onda e Collor foi eleito. Dois planos econômicos e um confisco da Poupança depois e com o país jogado em uma recessão, essas mesmas mídias decidiram que Collor “não servia” ao país. Houve o impeachment e ascendeu ao poder o vice Itamar Franco, que tentou fazer coisas importantes, mas foi sistematicamente ridicularizado pelos colegas jornalistas. Seu topete fez a festa entre os cartunistas. Itamar fez coisas importantes, quando defendeu a criação de “carros populares” a Volkswagen saiu com o ridículo relançamento do Fusca. A Fiat, mais atenta e solidária ao presidente mineiro, inovou. Lançou o Uno Mille, um carro moderno (para a época) e que revolucionou o conceito de carro de entrada no Brasil, assim como tirou a indústria automobilística de um marasmo de décadas. Itamar também lançou o Plano Real, erroneamente creditado ao ex-presidente Fernando Henrique, que apesar de ministro da Fazenda, é sociólogo e entende de economia tanto quanto a média dos bem informados. Os verdadeiros pais do Plano Real foram Edmar Bacha, Rubem Ricúpero, Ciro Gomes, Pedro Malam e Pérsio Arida, um grupo de estudiosos que buscou na âncora cambial e ajustes em preços relativos a estabilidade monetária. Após o final do mandato de Itamar veio Fernando Henrique Cardoso, eleito em uma aliança com o Partido da Frente Liberal (PFL), partido sucessor da ARENA (Aliança Renovadora Nacional), base política civil que sustentou a ditadura militar desde 1964. Quando o PSDB se aliou naquele momento à elite do coronelato nordestino morreu o sonho da social democracia.  Fernando Henrique foi eleito para um mandato de cinco anos, sem direito à reeleição. Durante seu primeiro mandato o presidente Fernando Henrique e boa parte de seu staf saiu a campo para conseguir uma mudança constitucional e estabelecer a reeleição para cargos majoritários, ou seja, presidente da República, governadores de Estado e prefeitos. A história desse período está impressa em jornais e livros e os custos dessa reeleição em termos de dinheiro e corrupção de deputados rendeu manchetes nos principais jornais brasileiros. Na época muitos setores da economia brasileira eram estatais (e eu sou um dos que acredita que os serviços privatizados são melhores hoje) e foram privatizados em favor de empresas nacionais e multinacionais. Nada de errado nisso, mas há um ponto nunca explicado: onde e em que foi aplicado o dinheiro obtido na venda das empresas do Grupo Telebras, do Grupo Siderbras e tantas outras? Por que nunca foi apresentado um balanço dos valores reais das vendas e um descritivo minucioso de onde o dinheiro foi aplicado? O PSDB se perdeu  quando se aliou ao PFL, hoje conhecido como DEM. A democracia não pode ser construída sobre a demagogia de políticos que se perpetuam no poder, seja ele exercido por militares de direita, sociólogos de centro ou de sindicalistas de esquerda. A opção de reeleição não foi feita pelos atuais governantes, e sim é uma herança de ambições antigas. Agora é constitucional, os eleitores podem reeleger e os políticos se aferram a isso. Um velho dizer da política: “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Não é possível voltar atrás com essa questão da reeleição, assim como não é possível, pelo menos nessa geração, retomar o debate sobre o parlamentarismo, emenda derrotada em plebiscito em que Fernando Henrique também renegou vocação por um regime baseado em uma estrutura de poder mais flexível, com um primeiro ministro, forma de governo que defendeu antes de se tornar presidente. Quando Lula foi eleito presidente da República a diferença factual não foi haver ou deixar de haver corrupção. FHC teve Sergio Mota, o trator que cuidou para que a reeleição fosse um fato e Lula teve José Dirceu, que garantiu a aprovação das políticas do PT no Congresso. Qual a real diferença entre os dois? A real diferença entre os governos FHC e Lula/Dilma está na dimensão dos avanços econômicos e sociais, dos números do desempenho da economia, da redução da desigualdade, da construção de universidades e da oferta de políticas públicas para populações até então excluídas.  Os sistemas de bolsas sociais foram criados para alavancar transformações na sociedade, não para eleger ou reeleger políticos. Infelizmente os benefícios para a sociedade são enegrecidos por uma visão estreita de setores da sociedade brasileira que enxergam políticas partidárias em todas as políticas públicas. E é bom lembrar aqui que essas políticas começaram no mandato de FHC sob a inspiração de dona Ruth Cardoso. Não há diferença entre os políticos que apoiam o governo A ou o governo B, o que é uma infelicidade para o país. Qual a diferença entre políticos que receberam o mensalão e os antigos “anões do orçamento”, políticos que nos anos 80/90 se apoderaram da Comissão de Orçamento da Câmara Federal para vender emendas e roubar o dinheiro público? A diferença real é que nenhum anão foi preso. Dentro de poucos meses haverá uma eleição para Presidente da República, governadores de Estado e deputados estaduais e federais. Tudo o que se está fazendo nas mídias e nas redes sociais é jogar um uma partida de preto ou branco, como se santos e demônios estivessem empunhando armas em um tabuleiro. Não sei você leitor, mas quanto aos demônios, tenho certeza, em relação a santos, não tenho visto muitos nestes quase 60 anos de vida no Brasil ou neste planeta. É preciso colocar sobre a mesa as políticas públicas! O que queremos ser enquanto país, enquanto estado e enquanto cidade? Há uma confluência de crises assolando o mundo, o Brasil e as grandes cidades em quase todos os Estados. Crise climática global, crise do modelo políticos brasileiro, crise no modelo econômico baseado no consumo como vetor de desenvolvimento, crise nos serviços públicos das cidades... a lista é infinita. O economista Ladislau Dowbor, um dos principais pensadores de uma economia de alto impacto social e baixo impacto ambiental, costuma dizer que estamos em uma crise de um modelo econômico que tende a se autoperpetuar. “É preciso que paremos de pensar que a economia pode ter um crescimento infinito em um ecossistema finito”, diz ele, e completa: “O único paralelo na natureza de um sistema que cresce até esgotar os recursos e morrer, é o câncer”. Parece que os partidos políticos não respondem mais aos anseios de uma sociedade que está dividida. No entanto não há ainda uma alternativa posta a este modelo de representação política. Acredito que se, enquanto sociedade, dedicarmos mais tempo a pensar em soluções e em fazer avaliações coerentes das políticas públicas, ao invés de nos jogarmos de cabeça em um destrutivo jogo de acusações, na maioria simplesmente reproduzindo como fantoches coisas que lemos ou assistimos, teremos a chance de fazer das próximas eleições um passo relevante para o processo civilizatório brasileiro. Cada fragmento que se formou na sociedade brasileira se comporta como se sua opinião fosse a única a valer. No entanto, o que realmente vale é retomar a construção do futuro do Brasil de forma coerente com as necessidades das atuais e das futuras gerações. O conflito político é inerente à organização humana, não haverá um tempo sem ele. A história da humanidade e do Brasil, ano a ano, é uma sucessão de crises políticas cruciais. A deste tempo não é maior nem menor do que as crises de outros tempos. Em cada período da história, brasileiros buscaram fazer algo para superar as crises e garantir a existência do amanhã. Meu pai comentava a crise que levou ao suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, dois anos antes de eu nascer. O país dividido e as mídias envolvidas em um jogo de preto ou branco. A morte de Getúlio dearticulou o golpe militar que estava por um fio. Café Filho e Juscelino Kubitschek conseguiram empurrar a crise por algum tempo, mas viveram tampos tumultuados. Jânio Quadros e João Goulart retomaram a crise. A renúncia de Jânio lançou o país na insegurança institucional, um golpe branco foi tentado com a nomeação de Tancredo Neves como primeiro-ministro, não deu certo, Goulart reassumiu seus direitos presidencialistas e o Golpe militar veio em 1964. Um país cindido em preto ou branco apenas interessa àqueles que não acreditam na institucionalidade do voto e na segurança do Estado de Direito. Cabe à geração de eleitores de outubro de 2013 fazer sua parte, não em um jogo de inimigos, mas em um tabuleiro de possibilidades, de estratégias e de sonhos. Todas as gerações têm suas utopias e é preciso que esta geração volte a acreditar em um futuro onde as pessoas possam viver com qualidade. (Envolverde)


por Dal Marcondes, da Envolverde
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O Brasil pulsa em cada um de nós: cuide-se para cuidar

A Copa do Mundo da FIFA chegou. Até sabermos quem será o vencedor do campeonato teremos 64 jogos, em um mês de disputas. Todas as seleções chegaram aqui com a meta e o desafio de despachar o time brasileiro. Apenas nos campos e nos enfrentamentos poderemos saber se as preparações, as estratégias e as táticas foram suficientes para as disputas nos gramados. Para a equipe comandada pelo Felipão, toda partida terá sabor de decisão. Afinal, jogar em casa e sob a pressão de 200 milhões de brasileiros, exigirá maturidade emocional de cada atleta e de toda a equipe técnica, mais a capacidade individual de não esconder o talento, a inventividade e a ginga, que são importantes diferenciais dos nossos craques e valorizados nos quatro cantos do mundo. Não obstante aos atrasos com a finalização das obras, aos protestos e as reivindicações sociais, os gastos abusivos, a corrupção endêmica e tantos outros problemas que precisamos enfrentar e solucionar, torço para que todos nós, brasileiros, saibamos agir com equilíbrio e serenidade, interagindo de forma pacífica com os milhares de torcedores apaixonados por futebol e que adoram este País. E que depois da Copa, independente do resultado, decidamos cuidar do Brasil. Cuidar da nossa gente, cuidar na nossa terra, cuidar dos nossos rios, cuidar das nossas cidades, cuidar das nossas matas, cuidar das nossas relações, cuidar da nossa diversidade, cuidar das nossas escolhas, cuidar das nossas diferenças, cuidar dos nossos afetos, cuidar dos nossos filhos, cuidar dos nossos pais, cuidar de tudo o que é público, cuidar dos nossos resíduos, cuidar do que falamos e cuidar dos nossos incômodos. Cuidando cada um de si e uns dos outros, seremos co-responsáveis por tudo o que acontecer, e teremos coragem de agir cotidianamente para construir um Brasil plural e melhor, de dentro para fora, e com o verdadeiro sentimento de que essa nação tropical pulsa em cada um de nós, e como organismo vivo, ela pode se transformar e ser lapidada a cada instante. Por aqui, fico. Até a próxima. * Leno F. Silva escreve semanalmente para Envolverde. É sócio-diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. É diretor do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, membro-fundador da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade, e da Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra. Foi diretor executivo de sustentabilidade da ANEFAC – Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.  


por Leno F. Silva*
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Em três anos, violações relacionadas à Copa e Olimpíadas se agravaram no Rio de Janeiro

O Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro lançou mais uma versão do dossiê "Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos”, em que denuncia os transtornos que o Mundial de Futebol vem acarretando para a cidade do Rio de Janeiro. Trazendo atualizações e informações novas, o relatório revela um panorama amplo, envolvendo questões de moradia, mobilidade, trabalho, esporte, meio ambiente, segurança pública, informação, participação popular e economia. Durante seus três anos de atuação o Comitê Popular do Rio pode constatar que as violações relacionadas às intervenções para receber os megaeventos esportivos apenas se agravaram. A poucos dias da Copa do Mundo, a constatação óbvia é de que o legado deixado é apenas uma cidade mais cara, com menos espaço para a população pobre e trabalhadora e mais restrições ao exercício pleno da cidadania. "Os novos marcos legais e institucionais impostos pelos megaeventos esportivos violam abertamente os princípios da impessoalidade, universalidade e publicidade da lei e dos atos da administração pública. A população na rua, em protestos legítimos por direitos, sentiu na pele o aumento da repressão policial, e novas formas de criminalização dos movimentos sociais. Grupos culturais, vendedores de rua, torcedores, se viram diante dos efeitos perversos da Lei Geral da Copa e das regras da Fifa para os lugares associados aos jogos e seu entorno”, denunciam. No capítulo sobre Moradia, o Comitê destaca a aceleração da "limpeza social” de áreas valorizadas da cidade. Até o momento, calcula-se que 4.772 famílias foram removidas no Rio de Janeiro, totalizando 16.700 pessoas. Outras 4.916 famílias estão sob ameaça de remoção. Vale destacar que os dados são subestimados e a contagem feita pelo Comitê e sua rede de contatos, pois não existem dados oficiais. As famílias foram removidas por diversos motivos, como ampliação do aeroporto, obras de instalação ou reformas de equipamentos esportivos, obras viárias; algumas famílias foram removidas por estarem em área de interesse turístico e outras por estarem instaladas em áreas ditas de risco e interesse ambiental. Desde 2011, devido à visibilidade dada à luta popular, algumas conquistas aconteceram e comunidades conseguiram negociar melhores indenizações ou a remoção para casas e apartamentos mais próximos ao local onde moravam. A situação do trabalho formal e informal gerado pelas obras também é abordada no dossiê, com base no fato de que a geração de empregos é uma das principais justificativas utilizadas pelo governo para mobilizar grandes investimentos para os megaeventos esportivos. A precarização do trabalho promovida pelos consórcios e reforçada pela omissão dos órgãos fiscalizadores foi constatada em várias obras, sobretudo nas relacionadas a transporte, reforma de estádios e arenas esportivas. A contrapartida dos trabalhadores foi a organização de greves na busca por mais segurança, melhores salários e benefícios, como participação nos lucros, aumento no valor da cesta básica e plano de saúde para si e suas famílias. Nas ruas, o trabalhador informal também viu sua fonte de renda ser retirada. Desde o início de 2009, a gestão do prefeito Eduardo Paes vem implementando uma política de repressão contra camelôs e trabalhadores informais com a operação "Choque de Ordem”, que busca realizar a limpeza urbana do Centro e outras regiões. Em junho de 2009, foi realizado um cadastramento e recadastramento para vendedores informais. O problema denunciado pelas lideranças de rua é que as vagas abertas estavam extremamente aquém da demanda. Eles estimam 60 mil trabalhadores, enquanto a Prefeitura recadastrou 4 mil e abriu 14.400 vagas de vendas. No capítulo sobre esporte, o Comitê aponta os gastos exorbitantes, que excedem de longe o que foi gasto em outros países. Com relação às Olimpíadas, o orçamento previsto já excedeu em 1,4 bilhão o orçamento original. No Caso da Copa, com exceção de Fortaleza, Estado do Ceará, todos os estádios apresentaram aumentos "astronômicos" em seus orçamentos. O Brasil tem, hoje, sete dos estádios mais caros do mundo. No total, serão gastos mais que R$ 8 bilhões para os estádios da Copa de 2014. O capítulo também faz críticas à elitização dos estádios com o encarecimento dos ingressos e desrespeito aos patrimônios históricos da cidade. Ao final do documento, o Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro expõe nove propostas voltadas para o reforço a direitos que vêm sendo violados pelo Estado e pelos promotores privados dos megaeventos, em associação com os agentes públicos. Veja as propostas e o dossiê completo aqui. * Publicado originalmente no site Adital.


por Natasha Pitts, da Adital
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Renasce o facismo

Ao votar este ano, reflita se por acaso você estará plantando uma semente do fascismo ou colaborando para extirpá-la... Jean-Marie le Pen, líder da direita francesa, sugeriu deter o surto demográfico na África e estancar o fluxo migratório de africanos rumo à Europa enviando, àquele sofrido continente, “o senhor Ebola”, uma referência diabólica ao vírus mais perigoso que a humanidade conhece. Le Pen fez um convite ao extermínio. O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy propôs a suspensão do Tratado de Schengen, que defende a livre circulação de pessoas entre trinta países europeus. Já a livre circulação do capital não encontra barreiras no mundo... E nas eleições de 25 de maio a extrema-direita europeia aumentou o número de seus representantes no Parlamento Europeu. A queda do Muro de Berlim soterrou as utopias libertárias. A esquerda europeia foi cooptada pelo neoliberalismo e, hoje, frente a crise que abate o Velho Mundo, não há nenhuma força política significativa capaz de apresentar uma saída ao capitalismo. Aqui no Brasil nenhum partido considerado progressista aponta, hoje, um futuro alternativo a esse sistema que só aprofunda, neste pequeno planeta onde nos é dado desfrutar do milagre da vida, a desigualdade social e a exclusão. Caminha-se de novo para o fascismo? Luis Britto García, escritor venezuelano, frisa que uma das características marcantes do fascismo é a estreita cumplicidade entre o grande capital e o Estado. Este só deve intervir na economia, como apregoava Margareth Thatcher, quando se trata de favorecer os mais ricos. Aliás, como fazem Obama e o FMI desde 2008, ao se desencadear a crise financeira que condena ao desemprego, atualmente, 26 milhões de europeus, a maioria jovens. O fascismo nega a luta de classes, mas atua como braço armado da elite. Prova disso foi o golpe militar de 1964 no Brasil. Sua tática consiste em aterrorizar a classe média e induzi-la a trocar a liberdade pela segurança, ansiosa por um “messias” (um exército, um Hitler, um ditador) capaz de salvá-la da ameaça. A classe média adora curtir a ilusão de que é candidata a integrar a elite embora, por enquanto, viaje na classe executiva. Porém, acredita que, em breve, passará à primeira classe... E repudia a possibilidade de viajar na classe econômica. Por isso, ela se sente sumamente incomodada ao ver os aeroportos repletos de pessoas das classes C e D, como ocorre hoje no Brasil, e não suporta esbarrar com o pessoal da periferia nos nobres corredores dos shopping-centers. Enfim, odeia se olhar no espelho... O fascismo é racista. Hitler odiava judeus, comunistas e homossexuais, e defendia a superioridade da “raça ariana”. Mussolini massacrou líbios e abissínios (etíopes), e planejou sacrificar meio milhão de eslavos “bárbaros e inferiores” em favor de cinquenta mil italianos “superiores”... O fascismo se apresenta como progressista. Mussolini, que chegou a trabalhar com Gramsci, se dizia socialista, e o partido de Hitler se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como Partido Nazista (de Nationalsozialist). Os fascistas se apropriam de símbolos libertários, como a cruz gamada que, no Oriente, representa a vida e a boa fortuna. No Brasil, militares e adeptos da quartelada de 1964 a denominavam “Revolução”. O fascismo é religioso. Mussolini teve suas tropas abençoadas pelo papa quando enviadas à Segunda Guerra. Pio XII nunca denunciou os crimes de Hitler. Franco, na Espanha, e Pinochet, no Chile, mereceram bênçãos especiais da Igreja Católica. O fascismo é misógino. O líder fascista jamais aparece ao lado de sua mulher. Como dizia Hitler, às mulheres fica reservado a tríade Kirche, Kuche e Kinder (igreja, cozinha e criança). O fascismo é anti-intelectual. Odeia a cultura. “Quando ouço falar de cultura, saco a pistola”, dizia Goering, braço direito de Hitler. Quase todas as vanguardas culturais do século XX foram progressistas: expressionismo, dadaísmo, surrealismo, construtivismo, cubismo, existencialismo. Os fascistas as consideravam “arte degenerada”. O fascismo não cria, recicla. Só se fixa no passado, um passado imaginário, idílico, como as “viúvas” da ditadura do Brasil, que se queixam das manifestações e greves, e exalam nostalgia pelo tempo dos militares, quando “havia ordem e progresso”. Sim, havia a paz dos cemitérios... assegurada pela férrea censura, que impedia a opinião pública de saber o que de fato ocorria no país. O fascismo é necrófilo. Assassinou Vladimir Herzog e frei Tito de Alencar Lima; encarcerou Gramsci e madre Maurina Borges; repudiou Picasso e os teatros Arena e Oficina; fuzilou García Lorca, Victor Jara, Marighella e Lamarca; e fez desaparecer Walter Benjamin e Tenório Júnior. Ao votar este ano, reflita se por acaso você estará plantando uma semente do fascismo ou colaborando para extirpá-la... * Frei Betto é escritor, autor de “Batismo de Sangue” (Rocco), entre outros livros. ** Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Frei Betto*

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