O grande desafio de sustentabilidade para a geração Y

Sociedade

O grande desafio de sustentabilidade para a geração Y


por Roberta Valença*


[caption id="attachment_99371" align="alignleft" width="300"] Foto: NynaMalina / Fotolia.com[/caption] “Millennials”, “Geração da Internet”, “Geração Y”, não importa o nome, mas o desafio que têm pela frente: eles mesmos. Já ouvi muitas expressões, como “esses jovens são dinâmicos e cheios de ideias para transformar as empresas” ou “são as pessoas que nasceram em época de grande prosperidade econômica e tecnológica”. Mas o que entendemos por prosperidade econômica e tecnológica? Quais são os números sérios que comprovam essa prosperidade? Se ela existe, hoje a base da pirâmide social está sendo ignorada descaradamente em nossa economia, baseada pelo consumo de poucos. Também faço parte dessa geração. Somos filhos de pais que se iludiram com a possibilidade de oferecer uma vida melhor acabaram por dar tudo o que podiam (e o que não podiam) para poupar os filhos de quaisquer vontades. No entanto, esses pais deixaram de lado um ensinamento imprescindível, que é a capacidade de lidar com frustrações. Quando fiz 28 anos de idade, me vi tomada pelos questionamentos da vida, a inquietação de transformar aquele estado que parecia imutável. Hoje, com 33, ainda vejo alguns amigos insatisfeitos com seus empregos, convivendo com a sensação de que há alguma coisa errada. Os bares estão cheios, mas com conversas pouco produtivas, que acabam em reclamações sobre chefes, as funções, seus salários, suas vidas. Eles acabaram se tornando pessoas que odeiam tudo a sua volta e contribuem para esse sentimento de desânimo geral. A capacidade de sair do estado da frustração, ou melhor, entender o porquê estamos nesse estado ao qual, de certa forma, nós mesmos nos colocamos, é a chave para pararmos de nos sentir especiais. Precisamos nos tornar o sujeito dessa história, não mais o objeto. Os desafios que temos sob nossa responsabilidade estão ligados às mudanças de valores em nome da sustentabilidade.  Esse modelo de pensamento nos trouxe a importância de olharmos para as incongruências com as quais convivemos em relação ao ambiente. Saber que nossos recursos naturais estão escassos, nos manter informados e abertos para aprender e compreender quais aspectos contribuem para a situação em que nos encontramos são algumas diretrizes que devemos seguir nesse novo rumo. [caption id="attachment_111719" align="alignright" width="230"] Roberta Valença[/caption] Acredito muito na capacidade de mudança do ser humano, mesmo que de forma tímida nos primeiros passos. Recentemente li um texto que traduz um pouco sobre como acessar um senso de urgência nas pessoas, que diz: “Acredito que há momentos específicos da vida das pessoas em que elas estão mais abertas a (...) mudanças. São como janelas que se abrem de vez em quando (...) ainda resta compreender melhor a leitura desse momento de quando ela se abre, para poder entrar e travá-la para não mais fechar”. Espero, ao menos, ter aberto a janela aos “Millennials” que estão lendo este texto, e que se encarreguem de colocar uma trava para nunca mais fechá-la. * Roberta Valença é CEO da Arator, consultoria especializada em projetos de sustentabilidade com inovação- roberta@aratorsustentabilidade.com.br.

filme Sociedade

Diversidade e inclusão tratadas com respeito e sensibilidade

  Dois temas sensíveis da adolescência em um mesmo personagem: a descoberta da sexualidade a e deficiência visual. Somam-se a esse duo os desafios naturais do relacionamento familiar, o preconceito de parte da turma da classe, os desejos comuns da idade, a conquista da autonomia e a vontade conhecer outro país; o enfrentamento dos dilemas interpessoais e, no meio disso tudo, a confirmação de que os verdadeiros amigos são poucos e que suportam as surpresas da vida. “Hoje eu quero voltar para casa sozinho” é um filme sobre adolescentes que precisa ser assistido por jovens e adultos; pais e mães; professores e educadores em geral, e por todos aqueles que apreciam uma boa diversão cinematográfica brasileira sobre situações que praticamente todos irão se identificar. O diretor Daniel Ribeiro, que também responde pelo roteiro, acertou em tudo, com destaque para os diálogos, que são bacanas, convincentes, engraçados; e a escolha dos atores principais, que estão à vontade nos respectivos papéis. Léo (Guilherme Lobo) é o jovem cego de nascença, que enfrenta os pais para ser autônomo e, nesse caminho, se depara com a descoberta dos seus sentimentos. Giovana (Tess Amorim), a melhor amiga de Léo, o apoia nas diferentes situações, e é a responsável pelas tiradas mais engraçadas dessa estória. Já Gabriel (Fabio Audi), o novo aluno da escola, rapidamente se junta à dupla, formando o trio de amigos e, aos poucos, muito mais. A abordar dois temas relacionados à valorização da diversidade – a inclusão de pessoas com deficiência numa escola convencional e o homossexualismo – a fita não apenas joga luz nessas questões pouco debatidas nesse universo educacional. O faz de forma madura, cuidadosa, crível e com leveza. Merecidamente, no dia em que fui ao cinema, ao final da exibição expressiva parcela do público bateu palmas, manifestando a imediata empatia com essa obra de ficção, mas que muito tem a ver com os desafios que, como sociedade, necessitamos enfrentar. “Hoje eu quero voltar para casa sozinho” foi premiado com o Fipresci (Prêmio da Crítica Internacional) do Festival de Berlim e o Teddy Bear, que destaca filmes com temática ou personagens GLBT. Bons reconhecimentos para o primeiro longa-metragem de Daniel Ribeiro, que está há poucas semanas em cartaz no Brasil e que, tomara, fique no circuito por muito tempo. Agende-se para ver e, se gostar, ajude na divulgação. Por aqui, fico. Até a próxima. Serviço: Hoje eu quero voltar sozinho, Brasil, 96 min., classificação 12 anos Direção: Daniel Ribeiro Elenco: Guilherme Lobo, Fábio Audi, Tess Amorim, Eucir de Souza, Selma Egrei, Laura Romano Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=lpHKXyko358 * Leno F. Silva escreve semanalmente para Envolverde. É sócio-diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. É diretor do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, membro-fundador da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade, e da Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra. Foi diretor executivo de sustentabilidade da ANEFAC – Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


por Leno F. Silva*
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América Latina: desafio além da mobilidade

[caption id="attachment_76779" align="alignleft" width="300"] São Paulo. Foto: Divulgação[/caption] Cidades latino-americanas são de uma diversidade imensa, mas possuem pelo menos uma semelhança: a velocidade e a escala de urbanização que estão enfrentando. Diferentemente dos países desenvolvidos, onde a urbanização historicamente ocorreu gradualmente, as principais cidades latino-americanas têm experimentado um crescimento explosivo nas últimas décadas. O ritmo acelerado já seria preocupante em si, mas há alguns componentes a mais, levando-se em conta a necessidade de se construir cidades de forma menos degradante para o meio ambiente e, principalmente, de reduzir a forte desigualdade social. Esse desafio foi um dos temas do Fórum Econômico Mundial sobre a América Latina, que ocorreu na semana passada, no Panamá. Logo na abertura do evento, o fórum divulgou um relatório sobre infraestrutura, parte crucial para o planejamento futuro de um país e suas cidades. De acordo com o relatório, a demanda de infraestrutura global atualmente está estimada em cerca de US$ 4 trilhões. Há, porém, uma defasagem de pelo menos US $ 1 trilhão a cada ano que deixa de ser investido. O crescimento dos investimentos em infraestrutura não está conseguindo responder às necessidades da sociedade, especialmente em países em desenvolvimento. E a América Latina não é exceção. O relatório também destaca alguns bons exemplos de projetos específicos na região, tais como as pistas de pedágio em Porto Rico que permitem o acesso para o sistema local Bus Rapid Transit (BRT ), garantindo acesso ao transporte público, ao mesmo passo que controla o uso de carros. Em alguns horários, se saem de casa de carro, os motoristas pagam um pedágio. Trata-se de um projeto que, além de reduzir o tráfego de veículos, reduz as emissões de gases de efeito estufa. O transporte é um grande problema em cidades latino-americanas e, por isso, uma das principais demandas da sociedade civil na região. A construção de sistemas de transporte público, no entanto, é apenas parte do necessário para construir uma cidade mais acessível a todos. É o que ressalta o professor argentino Pablo Benetti , diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro: - Há algumas experiências interessantes de transporte público na América Latina, como em Bogotá, na Colômbia. Mas, para fazer mudanças reais, será necessário, em primeiro lugar, que o poder público faça investimentos nas cidades de forma mais equitativa. Há muitos locais, como o Rio de Janeiro, em que os investimentos são distribuídos de forma muito desigual, concentrando-se apenas em algumas áreas, sem atender as demandas de grande parte da população. Para construir uma cidade saudável, precisamos investir não apenas em mobilidade para todos, mas também educação, saúde, ou seja, todos os serviços básicos. Estes serviços têm de ser garantidos sem distinção de classe. Este é um grande desafio na América Latina: reduzir a desigualdade. [caption id="attachment_111442" align="alignright" width="300"] Medellin, na Colômbia. Foto: Alamy / Alamy[/caption] Bogotá é um exemplo interessante por causa das mudanças que tem experimentado ao longo das últimas duas décadas. A cidade implantou o maior sistema de BRT em larga escala do mundo e uma rede de 400 km de ciclovias, feito realizado por uma sucessão de prefeitos, entre o final da década de 1990 e início dos anos 2000. Outro exemplo importante no mesmo país é Medellín. Em 2013, a cidade foi votada como cidade do ano pelo Urban Land Institute. Uma vez conhecida como a capital da narcotráfico, a cidade viveu uma profunda transformação, começando com melhorias na mobilidade e inclusão social. Para Elizabeth França, especialista em gestão urbana para a América Latina, este caso é interessante para pensar o planejamento urbano de forma mais ampla: “A cidade de Medellín foi redesenhada para permitir que os seus cidadãos possam participar ativamente de sua gestão. Como resultado da pressão da sociedade civil, o diálogo do governo não inclui apenas o setor privado, mas há formas de representação social atuantes. Trata-se de um conceito muito interessante para uma cidade que pensa seu planejamento a partir da participação social. Mas, infelizmente , ainda é muito raro na região. Existem outros projetos na América Latina que não são tão conhecidos, mas oferecem lições importantes. Em Tlatelolco , uma cidade no México, há um projeto de habitação social que foi concebido como um espaço para acomodar pessoas que antes possuíam moradias precárias em um total de mais de 90 estruturas de edifícios diferentes. O aspecto mais inovador de Tlatelolco, porém, é que a construção foi feita no centro da cidade, ao contrário de muitos projetos recentes que preveem este tipo de habitação em áreas periféricas. - A maioria das pessoas que vivem hoje nos conjuntos habitacionais está próxima a seus locais de trabalho e sequer precisa se deslocar muito para as necessidades básicas, o que é bom para todos. – diz Analí Perez Ramirez, especialista mexicana em Cooperação Internacional. - A maioria das pessoas que vivem hoje nos conjuntos habitacionais está próxima a seus locais de trabalho e sequer precisa se deslocar muito para as necessidades básicas, o que é bom para todos. – diz Analí Perez Ramirez, especialista mexicana em Cooperação Internacional. Enquanto lideranças de Estado se reúnem no Fórum Econômico Mundial na América Latina para debater o progresso futuro da região, há exemplos de políticas locais que estão pensando não apenas na resolução dos problemas, mas em como fazer isso de uma forma menos impactante ao meio ambiente e mais equitativa. * Publicado originalmente no The Guardian – Global Development Professionals Network e retirado do site Canal Ibase.


por Camila Nobrega, do Canal Ibase
Foto: Aaron Amat/ Fotolia Sociedade

1964: a revolução de mentalidades a se fazer

A primeira semana de abril foi marcada pelos cinquenta anos do Golpe de 1964. Certamente o tom foi de condenação ao Regime Militar e às consequências para toda uma geração que se viu privada de liberdades democráticas por um longo período. Para os mais jovens, 1964 e o Regime Militar fazem muito pouco sentido em suas vidas, como de certo modo o Estado Novo “pouco significou” para a minha geração. A primeira lição é que se deve fazer um esforço persistente para que o Brasil recuse alternativas autoritárias e que possamos consolidar a nossa frágil democracia. Vários são os caminhos necessários ao fortalecimento de nossa democracia, a começar pela tão falada reforma política, que permitiria uma aproximação entre o Parlamento e o eleitorado. Embora seja inegável que a Assembléia Nacional Constituinte teve como motivação principal democratizar o país, ela deixou a desejar nesse quesito, consagrando o voto proporcional e diminuindo a representação dos estados mais populosos na Câmara dos Deputados. Assim como muitos, defendo a instituição do voto distrital misto no Brasil. Explico: o voto distrital puro restringe a possibilidade de eleição de políticos respaldados no chamado voto de opinião, diminuindo, por conseqüência, a capacidade do Parlamento se tornar um instrumento efetivo de debate dos grandes temas nacionais e/ou contemporâneos. Vale assinalar que o voto de opinião no Brasil está sob risco de extinção, especialmente pelos atuais custos das campanhas eleitorais. Em São Paulo, a estimativa de uma campanha para deputado federal se encontra em um patamar mínimo de R$ 5 milhões, sendo que em outros estados esse valor pode se multiplicar. Apenas a título de exemplo, em 1986, quando me candidatei pela primeira vez a deputado constituinte, a campanha não alcançou o que seria hoje o equivalente a R$ 200 mil. Por outro lado, participei em poucos meses de mais de 140 debates promovidos por diversas entidades dispostas a conhecer a plataforma de candidatos das mais variadas tendências e partidos. Nas campanhas sucessivas, esses debates foram se escasseando e, infelizmente, as candidaturas, hoje, se tornaram “reserva de mercado” para os chamados cabos eleitorais. Em outras palavras, é uma situação em que “o mercado tomou conta”: o voto existe apenas para aqueles que têm condições de bancar os custos inflacionados das campanhas eleitorais. Com isso, o Parlamento perde a cada dia sua credibilidade perante a sociedade. Para aqueles que lutaram pela democracia, nada mais doloroso. Mas para quem sempre acreditou que a democracia viria associada à ideia de um país mais sustentável, a angústia é ainda maior. Ingenuamente acreditávamos que empreendimentos como a Transamazônica, as usinas nucleares e outros que afirmavam uma concepção de desenvolvimento equivocada, não fariam parte necessariamente da agenda da democracia. E hoje, vemos que a mesma matriz de pensamento daquela época persiste hegemonicamente no Brasil, cedendo muito pouco espaço às idéias que os novos tempos exigem. Eventualmente podemos esperar que estas eleições venham trazer visões e mentalidade novas para agenda da democracia. * Fabio Feldmann é consultor ambiental. ** Publicado no jornal Brasil Econômico em 10 de abril de 2014 e retirado do site Fábio Feldmann Consultores.


por Fabio Feldmann*
A situação em São Paulo não é um fato isolado, mas insere-se em um contexto maior de mudanças climáticas, com desafios mundiais para a gestão da água enquanto um recurso finito do planeta. Foto: Shutterstock Inter Press Service - Colunistas

Ficção climática, um gênero literário que vai além da ficção científica

Taipé, Taiwan, abril/2014 – Quando lemos romances ou ficções curtas em qualquer idioma o fazemos para entender a história, para aprender algo novo ou, com sorte, para conseguir algum tipo de elevação emocional graças às palavras impressas nas páginas e às habilidades do narrador. Então, como contar a “história” da mudança climática e do aquecimento global? Um novo gênero literário chamado “ficção climática”, abreviado em inglês como cli-fi, vem evoluindo nos últimos anos e, embora ainda empreste seu nome da ficção científica, se centra em relatos sobre a mudança climática e seus impactos atuais e futuros sobre a vida humana. Alguns insistem em que é apenas um subgênero da ficção científica, e isso tem sentido em certo aspecto. Mas, em outros, trata-se de um gênero em si mesmo que está ganhando impulso em todo o mundo, não como mero escapismo ou entretenimento – embora frequentemente inclua esses elementos –, mas como um modo sério de abordar os assuntos complexos e universais existentes em torno da mudança climática. Sei algo sobre ficção climática porque nos últimos anos trabalhei para popularizá-la, não só no mundo de idioma inglês, mas também entre milhões de pessoas que leem em espanhol, chinês, alemão ou francês, para citar alguns. Em minha opinião, é um gênero internacional, com leitores internacionais, que deveria ser abordado por escritores de qualquer nação e em qualquer idioma. Cada vez mais novelas de ficção climática se dirigem a uma audiência jovem – “adultos jovens”, no jargão editorial –, como Not a Drop to Drink (Nem Uma Gota Para Beber), de Mindy McGinnis, The Carbon Diaries 2015 (Os Diários do Carbono 2015), de Saci Lloyd, e Floodland (Terra Inundável), de Marcus Sedgwick. Na verdade, são as crianças e os adolescentes que sofrerão as consequências dos estilos de vida escolhidos pelas gerações anteriores. Em um mundo que enfrenta os impactos potencialmente catastróficos da mudança climática, esse novo gênero literário se incorpora à nossa cultura em narrativa comum, divulgando ideias e pontos de vista sobre o futuro que a humanidade pode enfrentar em dez, cem ou 500 anos. É aí que entra em cena a ficção climática, que pode desempenhar um papel importante para plasmar as emoções e os sentimentos das personagens, em um relato ou romance bem escrito para conscientizar leitores em todo o mundo. Imaginem um romance de ficção climática, que não só chegue a milhares de leitores, mas que também os emocione e, talvez, os motive a se converterem em uma voz mais forte no debate político internacional sobre as emissões de carbono. Esse é o potencial da ficção climática. Uma universidade dos Estados Unidos oferece um curso sobre romances e filmes de ficção climática para estudantes de ciências ambientais e literatura. Para Stephanie LeMenager, que este ano dá aulas na Universidade de Oregon, o curso constitui uma oportunidade, para ela e seus alunos, de explorar o poder da literatura e do cinema, em um momento em que escritores e cineastas tentam abordar alguns dos assuntos mais difíceis que a humanidade enfrenta no século 21. O curso de LeMenager se chama As Culturas da Mudança Climática. É o primeiro na América do Norte, e inclusive no mundo, que se dedica dessa maneira às artes e à mudança climática. Estou seguro de que outras universidades seguirão esse esforço pioneiro, agregando novos cursos sobre ficção climática para seus estudantes. Nathaniel Rich é um escritor de 34 anos, autor do aclamado romance Odds Against Tomorrow (Prognósticos Contra o Amanhã), uma história ambientada em um futuro próximo em Manhattan, que mergulha na “matemática da catástrofe”. Residente em Nova Orleans, Rich acredita que serão publicados mais livros como o seu, não só em inglês e não só do ponto de vista das nações ricas do Ocidente. Escritores de todo o mundo devem se animar a incursionar no gênero da ficção climática e a usar a literatura de suas próprias culturas para tentar despertar a população sobre o futuro que pode esperar a todos em um planeta que esquenta sem um fim à vista. As tramas podem ser aterradoras, mas as novelas de ficção climática dão a oportunidade de explorar esses assuntos com emoção e prosa. Os livros têm importância. A literatura tem um papel a desempenhar em nossos debates sobre os impactos do aquecimento global em todo o mundo. Se poderá dizer que o cânon do gênero remonta ao romance O Mundo Submerso, escrito em 1962 pelo britânico J. G. Ballard. Outro dos primeiros livros sobre esse fenômeno foi escrito em 1987 pelo australiano George Turner: As Torres do Esquecimento. A norte-americana Barbara Kingsolver publicou há alguns anos um romance muito poderoso de ficção climática intitulada Flight Behavior (Comportamento de Voo). Me impressionou muito quando o li no verão passado, e o recomendo. A canadense Mary Woodbury criou o site Cli-Fi Books, que lista romances atuais e passados de ficção climática. Como vejo o futuro? Prevejo um mundo onde os seres humanos se aferrem à esperança e ao otimismo. E sou otimista. E creio que quanto mais nos apegarmos à ciência da mudança climática no plano cultural mais efetivamente poderemos nos unir para evitar o pior. Envolverde/IPS * Dan Bloom é jornalista independente de Boston que vive em Taiwan. Em 1971, se formou na Tufts University, onde se especializou em literatura francesa. É ativista climático e literário desde 2006. Para segui-lo no Twitter o endereço é @polarcityman.


por Dan Bloom*
Foto: Reprodução/Internet Sociedade

Sustentabilidade precisa conquistar o coração dos consumidores

[caption id="attachment_97489" align="alignleft" width="300"] Foto: Reprodução/Internet[/caption] Ecochato, natureba, biodesagradável… Não é de hoje que piadinhas refletem o conflito entre o apelo fácil e sensual do consumismo e o discurso geralmente moral e limitador de quem, querendo ser sustentável, acaba ficando insuportável. A fantasia coletiva e o desejo individual falam mais alto que o fato evidente de que – como decorrência dos limites planetários – o modelo de produção e consumo que nos trouxe até aqui não será capaz de prover bem-estar aos bilhões de pessoas que, de fora, assistem à festa dos incluídos. E agora? Como mudar um sistema no qual – por convicção, ilusão, conveniência ou falta de opção – aposta a maioria da humanidade? O difuso movimento pela sustentabilidade enfrenta um duplo desafio: não só mostrar que superou a dicotomia ambiental versus social mas também não ser visto como um estraga prazeres retrógrado, saudosista e excludente. Na publicação de pesquisa realizada pelo Instituto Akatu, em 2010, resumimos uma proposta: “Para ganhar os corações, mentes e bolsos dos consumidores, a Sustentabilidade, a RSE e o Consumo Consciente precisam ser apresentados não como conceitos sofisticados, mas traduzidos em práticas e propostas concretas. E essas não podem ser percebidas pelo público como imposições restritivas, mas sim como uma boa alternativa ao consumismo vazio, angustiante e insustentável. Vistas como o caminho mais curto, barato e desejável rumo à felicidade, que é, ao final, o que todos almejamos”. Em 2012 o Akatu realizou nova pesquisa, avançado nesse caminho com metodologias inéditas na área. O relatório Rumo à Sociedade do Bem-Estar resume seus resultados, e traz interessantes perspectivas, com destaque para uma “priorização de desejos” utilizando o modelo de Escalonamento por Máximas Diferenças, mais conhecido como MaxDiff. Trata-se uma ferramenta amplamente utilizada no marketing para mensurar quanto certos atributos desejáveis são mais (ou menos) preferidos pelo público quando comparados a outros atributos, também desejáveis. Resultados provocantes Sem saber que o assunto era sustentabilidade, 800 consumidores de todo o Brasil, das classes A, B, C e D, priorizaram 16 “desejos”, sobre oito temas do seu cotidiano. Os entrevistados também não tinham como saber que esses “desejos” apontavam para caminhos diferentes: metade rumando para uma sociedade mais sustentável, metade seguindo o atual modelo consumista. O que se viu foi surpreendente e animador: em todas as classes de renda (e também de idade, região etc.) predominou a preferência pelo “caminho sustentável” (veja gráfico ao lado). A publicação do Akatu traz conclusões detalhadas, e pode ser baixada aqui. Sem deixar de reconhecer possíveis limitações, é uma metodologia consistente, que trouxe resultados provocantes. Um exemplo ilustra bem a situação encontrada: misturadas entre as 16 frases que representavam os “desejos” propostos aos entrevistados, estavam as seguintes: “Quero ter tempo para estar junto com as pessoas de que gosto” e “Quero comprar presentes para agradar as pessoas de que gosto”. Evidentemente, a primeira frase aponta para um caminho mais sustentável, enquanto a segunda reproduz o consumismo vigente. Numa escala de 0 a 10, o índice médio de preferência dos consumidores da classe A pela primeira frase foi de 9,5 e, pela segunda, 2,2. Na classe B, esse placar foi 8,8 contra 2,2. Na classe C, 8,2 contra 2,6 e, na classe D, 7,6 contra 3,3. Importante notar que essas frases estavam misturadas com todas as demais, e não foram confrontadas diretamente entre si (o que poderia trazer o viés da resposta “politicamente correta”). Os dados mostram que, quanto mais baixa a renda, menor a diferença na preferência dada ao caminho sustentável frente ao consumista (um resultado esperável, considerando-se a carência e a frustração de quem vive à margem da festa do consumo). Mas mostram também que, apesar disso, mesmo entre os mais carentes, não é o consumismo que mais diretamente dialoga com as aspirações dos entrevistados, mas sim os valores do bem-estar e do bem viver. Para quem trabalha por uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável, a boa notícia é que há demanda pelo que temos a oferecer. O desafio, que persiste, é traduzir nossa mensagem: em vez de frustrar sonhos e castrar aspirações com um discurso apocalíptico ou por demais racionalista, aprender a falar ao desejo do consumidor, a mostrar caminhos atraentes e viáveis. Reconhecer a voz das ruas e dialogar com ela é o primeiro e necessário passo. * Aron Belinky é coordenador do Programa Finanças Sustentáveis do GVces. Anteriormente, foi também o responsável pelas pesquisas do Instituto Akatu mencionadas neste artigo. ** Publicado originalmente no site no site Página 22 e retirado do site Mercado Ético.


por Aron Belinky*
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Com um futebol disciplinado e de cooperação, o Ituano venceu o Peixe

Quem é melhor: time grande ou time pequeno? Antes de responder essa questão, vale dizer que time grande normalmente é aquele com um número muito expressivo de torcedores, que reúne atletas de nível internacional e bem remunerados; contrata técnicos com larga experiência, abocanha excelentes recursos de empresas patrocinadoras, é oriundo das principais capitais do País e disputa o campeonato da série A. Já as equipes consideradas pequenas, são mantidas com dificuldade, a maioria está presente nas cidades do interior brasileiro, as faixas salariais dos atletas são mais próximas do mínimo brasileiro; às vezes os técnicos são iniciantes, participam dos campeonatos menos destacados e, às vezes, o socorro financeiro vem do comércio local: da granja, do mercadinho ou da padaria da esquina. O último domingo revelou os vencedores dos campeonatos estaduais. Em São Paulo, o Ituano Futebol Clube, que avalio como um time médio, sagrou-se campeão ganhando do Santos, em pleno Pacaembu lotado de torcedores do Peixe. Embora tenha perdido no tempo regulamentar, nas penalidades marcou 7 a 6 e ergueu a taça da primeira importante disputa de 2014. Para chegar a esse resultado, a equipe técnica da cidade conhecida pela grandeza de alguns objetos como, por exemplo, orelhão, lápis e outros badulaques gigantes, traçou um plano centrado no trabalho em grupo e na valorização de um time jovem e diverso. Para além dos talentos individuais, o Ituano mostrou garra, força, criatividade, determinação e cooperação de um elenco formado por onze estrelas. Nas duas disputas da final, o escrete da camisa vermelha e preta apresentou melhor volume de jogo e se mostrou mais entrosado. No jogo decisivo, mesmo perdendo de 1 x 0 com um gol irregular, foi pra cima e, disciplinado, travou as principais jogadas do time comandado pelo experiente Oswaldo de Oliveira. Com a decisão levada aos pênaltis, o time do técnico Doriva errou menos e sacramentou uma vitória que colocou o Ituano na galeria das mais importantes equipes brasileiras. Tomara que essa conquista digna de time grande contribua para que o trabalho desenvolvido não seja perdido e que o discurso do treinador enaltecendo o empenho e a dedicação dos jogadores, não vire uma mera manifestação para “inglês ouvir”. Por aqui, fico. Até a próxima. * Leno F. Silva escreve semanalmente para Envolverde. É sócio-diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. É diretor do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, membro-fundador da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade, e da Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra. Foi diretor executivo de sustentabilidade da ANEFAC – Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


por Leno F. Silva
Leonardo Padura. Foto: http://pt.wikipedia.org/ Inter Press Service - Colunistas

Cuba cresce ou não cresce?

[caption id="attachment_111025" align="alignleft" width="200"] Leonardo Padura. Foto: http://pt.wikipedia.org/[/caption] Havana, Cuba, março/2014 – Os mais recentes vizinhos estabelecidos em meu bairro são beneficiários de uma das mudanças introduzidas pelo governo de Raúl Castro como parte da chamada “atualização do modelo econômico cubano”. Eles eram uma das famílias que, por uma razão ou outra, viveram durante anos em albergues coletivos e por fim tiveram a sorte de receber um dos milhares de locais, onde antes funcionavam escritórios governamentais, e que foram transformados em moradias, como forma de diminuir o déficit de casas. Esses vizinhos, que não pagaram, nem podiam pagar, nada pelo imóvel que lhes foi entregue, vivem de um dos ofícios mais modestos que se pratica na ilha: coleta de papel, papelão, vidro e alumínio, que depois vendem a centros coletores de matérias-primas recicláveis. Como sua atividade trabalhista não é suficiente para se manterem, esses vizinhos beneficiados com a destinação de uma moradia digna e gratuita, agora estão dividindo a habitação para vender uma parte, amparados em outra mudança introduzida pelo governo: a da livre compra e venda de imóveis. Dessas e de muitas outras maneiras os cubanos tentam melhorar sua vida, embora no fundo a estejam piorando, vendendo o pouco que têm ou realizando qualquer manejo econômico mais ou menos legal (ou ilegal) que lhes dê dividendos. A raiz mais visível do problema é que os cubanos, sobretudo se trabalham para o Estado, não ganham o suficiente para sobreviver. Por isso, os que não têm um familiar no estrangeiro que os ajude com algum dinheiro, ou um membro do clã que de alguma forma tenha acesso a ganhos em moeda forte, cada dia de sua vida devem contar seus centavos para atender as necessidades básicas, como alimentação e higiene. Mas o terreno no qual está incrustada a aparente raiz do problema não é, na realidade, o valor de mudança dos salários, ou seja, sua capacidade aquisitiva. O mar de fundo está na macroeconomia que, apesar das mudanças introduzidas, não consegue decolar e se mantém em crescimentos anuais que se movem pouco acima dos 2%. É um número que está abaixo do que se esperava, ao pôr em movimento o paralisado sistema econômico cubano, e que também está abaixo dos níveis capazes de garantir um crescimento em condições de reverter a tensa situação em que vivem os cidadãos. Nem em quantidade nem em qualidade seus salários são suficientes para a satisfação dessas necessidades básicas... para não falar de luxos inconcebíveis para milhões de cubanos: ir a um restaurante, por exemplo. A recente abertura da primeira fase da Zona Especial de Desenvolvimento de El Mariel, com seu terminal para supernavios e contêineres, é considerado o primeiro passo para se começar a sonhar com crescimentos que – segundo os economistas, só se ultrapassarem os 5% anuais – poderão iniciar uma mudança substancial na situação do país. A esperada nova lei de Investimento Estrangeiro, que talvez coloque essas atividades em níveis similares aos criados para El Mariel, poderia também contribuir para uma melhoria da macroeconomia com a entrada de capitais frescos e produtivos no país, se as condições de investimento, segurança e propriedade, entre outras, realmente tornarem atraente montar em Cuba algum tipo de negócio, algo que hoje não ocorre. Em Mariel funciona, em essência, uma zona franca com facilidades para investimento, pagamento de impostos, comercialização de produtos, etc. Um sinal estranho de para onde poderiam ir as quantidades e qualidades dos investimentos estrangeiros em Cuba foi enviado pelo próprio governo, quando, em janeiro deste ano, decidiu abrir o mercado de venda de veículos automotores no país, fixando tarifas astronômicas e desproporcionais aos automóveis novos e de segunda (ou quarta mão) colocados no mercado. Modelos de Peugeot de 60 mil euros tarifados em mais de um quarto de milhão de dólares não é precisamente uma demonstração de boa vontade com os potenciais investidores, além de ser um desdém pelos cubanos (quase sempre profissionais que com seu trabalho produzem importantes ganhos para o país), que por uma ou outra via haviam obtido o capital necessário para comprar carros que, antes da “abertura” do mercado, já eram suficientemente caros em comparação com os preços praticados em outras partes do mundo. E o fato de que pouco se tenha vendido carros, ou a indignação expressa por muitas pessoas, não alterou seus preços, como se supõe deve ocorrer em qualquer mercado ou país. Embora não seja economista nem pretenda sê-lo, creio que as contas econômicas em Cuba são tão obscuras que ao final conseguem ser muito claras: se não se encontra vias seguras e eficientes de crescimento, a situação do país e de seus cidadãos não mudará no essencial. Ainda que uma pequena quantidade de cubanos convertidos em microempresários possa estar fazendo algum dinheiro, sua prosperidade é muito relativa e apenas significativa se comparada com a forma em que vivem e resolvem os problemas meus vizinhos do bairro e outras milhares de famílias como eles. E o problema que se apresenta com relação ao futuro econômico e social do país seria saber como o capital estrangeiro atuará efetivamente no desenvolvimento do país e, sobretudo, o grande mistério: como os 11 milhões de residentes da ilha poderão se inserir em uma sociedade mais mercantilizada e competitiva. Será vendendo o único que lhes resta, ou seja, sua força de trabalho, como alerta a filosofia marxista na qual se fundamenta a política oficial cubana? Por enquanto essa obscura perspectiva também parece clara. Envolverde/IPS * Leonardo Padura, escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas obras estão traduzidas em mais de 15 idiomas e sua mais recente novela, Herejes, é uma reflexão sobre a liberdade individual. 


por Leonardo Padura*
Foto: Alex Silveira/WWF Brasil Sociedade

Cadastro Ambiental Rural: não dá mais para esperar

[caption id="attachment_102877" align="alignleft" width="400"] Amazônia. Foto: Divulgação/Internet[/caption] Na semana anterior participei de um debate importante sobre a regulamentação infraconstitucional do Artigo 225 da Constituição Federal, no que tange à consideração de que alguns biomas brasileiros são considerados “Patrimônio Nacional”: Mata Atlântica, Floresta Amazônica, Serra do Mar e Zona Costeira. A Assembléia Nacional Constituinte deixou de contemplar o Cerrado e a Caatinga nesta categoria. Em 1993, na mal sucedida revisão constitucional, houve uma tentativa de se reparar essa omissão, estando em tramitação no Congresso Nacional algumas Propostas de Emenda Constitucional (PECs) que objetivam suprir essa lacuna. Infelizmente, apenas o bioma Mata Atlântica foi objeto de uma legislação específica, editada em 2006, após quatorze anos de tramitação. Ou seja, o Congresso Nacional e o Executivo Federal têm sido absolutamente omissos no que tange a essa matéria, especialmente se levarmos em conta que a Constituição Federal está prestes a completar seu 26° aniversário. Esta omissão tem sido responsável, em minha opinião, por uma relação extremamente litigiosa entre ambientalistas e ruralistas, pelo fato de que o único instrumento legal existente para proteger os biomas brasileiros é o Código Florestal. Desse modo, o país perde a oportunidade de editar legislações que permitam atender a complexidade intrínseca aos biomas, dispensando o uso e o conhecimento da ciência sobre os mesmos. Apenas a título de exemplo, uma legislação que trate do Pantanal deve levar em conta o regime hídrico do bioma, a sua topografia e condições de solo, bem como os impactos prováveis do aquecimento global. Significa dizer que nos dias atuais, um legislador responsável deve escolher um modelo de legislação diferente do velho e atual Código Florestal. Outro exemplo importante diz respeito à regulamentação infraconstitucional da Serra do Mar, também considerada “Patrimônio Nacional”: dada à sua reconhecida instabilidade geológica, potencialmente causadora de tragédias nos períodos de chuvas, caberia ao legislador nacional criar um marco regulatório que impedisse a ocupação inadequada, como vem ocorrendo nas últimas décadas. Independentemente da necessidade dessa legislação sobre os biomas inseridos na categoria “Patrimônio Nacional”, o instrumento mais importante do novo Código Florestal está pendente de regulamentação: o CAR – Cadastro Ambiental Rural. Certamente, o maior ganho em todo o debate sobre o Código Florestal foi a criação desse importante instrumento, que permitirá que o país tenha um registro de todas as suas propriedades rurais com informações sobre o imóvel e as respectivas APP – Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais. Com isso, será possível indicar com precisão os passivos e ativos ambientais, propriedade a propriedade. Essa informação, com certeza, será um instrumento efetivo de cumprimento da legislação e possibilitará o desenho de boas políticas públicas. Boas políticas públicas que protejam os vários interesses em jogo. Desde a segurança jurídica necessária aos proprietários rurais, passando pela garantia de que esses biomas continuarão prestando os serviços ambientais tão necessários à Humanidade. No Brasil, nos dias atuais, é a garantia de que continuaremos a ter água. * Fabio Feldmann é consultor ambiental. ** Publicado no jornal Brasil Econômico em 3 de abril de 2014 e retirado do site Fábio Feldmann Consultores.


por Fabio Feldmann*
Foto: http://www.shutterstock.com/ Sociedade

O carro já não é mais o mesmo

[caption id="attachment_100453" align="alignleft" width="300"] Foto: http://www.shutterstock.com/[/caption] No começo de março, o governo de São Paulo e o Metrô-SP publicaram os resultados da Pesquisa de Mobilidade da Região Metropolitana 2012. De cinco em cinco anos, a pesquisa mostra em números aquilo que estamos cansados de ver nas ruas: cada vez mais pessoas dirigindo carros por cada vez mais tempo nos congestionamentos, e aqueles espremidos nos trens e ônibus esperando sua vez de poder dirigir o seu. Em São Paulo, carros são mais do que meros meios de transporte. Por aqui, são a moeda social usada como estandartes de personalidade, poder e status. Bem, eram até agora. De acordo com a pesquisa, as classes A e B (renda familiar acima de R$ 4.976,00) reduziram o uso de automóveis em 6%, e aumentaram as viagens a pé ou em transporte público na mesma proporção, quando comparado com 2007. Aparentemente, a combinação do trânsito cada vez mais caótico, com as novas linhas de metrô e ônibus e a crescente conscientização socioambiental acenderam a chama da mudança. Os paulistanos parecem ter começado a ver a luz no fim do túnel congestionado, o que nos traz a dúvida. Se esta mudança aconteceu mesmo enquanto o transporte público se mostra ineficiente, quanto mais a cidade melhoraria se o planejamento fosse otimizado? Coincidentemente, na mesma semana houve o rebuliço na mídia, quando a atriz Lucélia Santos foi flagrada em um ônibus no Rio de Janeiro. Enquanto alguns a denegriram por se “rebaixar ao transporte de pobre”, muitos saíram em sua defesa, aplaudindo sua atitude e clamando por melhores condições de transporte no país. Neste caso, a mídia social tem sido crucial para o aumento da conscientização sobre os impactos ambientais, e para a exposição da desigualdade social e econômica. O resultado, por consequência, é uma mudança no olhar sobre o transporte público e seu benefício essencial para cidades mais sustentáveis e com qualidade de vida. O que não é coincidência, no entanto, é o enorme aumento nas viagens sobre trilhos. Desde 2007, novas linhas foram entregues em São Paulo, o que resultou em 62% mais viagens nos trens, e 45% mais viagens no metrô. Ressalta-se aqui também que a maioria das estações inauguradas estão nas áreas mais ricas da cidade, explicando assim o aumento no uso deste modal pelas classes mais altas. De qualquer modo, a troca do carro pelo transporte público entre os mais ricos contesta impiedosamente a noção tão largamente divulgada de que o paulistano nunca abriria mão de seu possante. Porém, o trânsito ficou tão insuportável que a grande maioria saiu em busca de alternativas. E, na verdade, esta talvez seja apenas a ponta do iceberg. Pode haver ainda uma enorme demanda para ônibus, trens e bicicletas, repreendida por falta de acesso ou segurança. As 55% viagens a mais nos táxis podem também indicar que finalmente o carro perdeu seu encanto e mais e mais pessoas estão livrando-se (ou tentando) dele. Entre números e gráficos de tendências já conhecidas e esperadas, a Pesquisa da Mobilidade 2012 rompe com os paradigmas anteriores e mostra que a história com o carro pode não terminar com “felizes para sempre”, e que o casal está discutindo a relação. Isto é bom para a cidade, para os pulmões e para a sociedade, mas como podemos agir para servir a toda esta nova demanda que está disposta a mudar? Mesmo com novas linhas, o metrô ainda é ínfimo em São Paulo, com 3,75 metros de trilhos por 1.000 habitantes. Só para comparar, Londres tem uma extensão 15 vezes maior por habitante. Não obstante, pontos de ônibus, embora belos e novos, não oferecem informações e horários das linhas para seus usuários. E diferentemente de outras grandes cidades, São Paulo parece fazer vista grossa às novas tecnologias que contribuem para o transporte público, como aplicativos de celular e veículos com GPS para estimativa de rota. Por fim, há ainda a questão da segurança nos pontos e nas caminhadas que completam as viagens, especialmente à noite. Mais da metade dos entrevistados pelo Detran-SP apontam a falta de segurança como causa principal ao evitarem ônibus e trens quando saem à noite ou aos fins de semana. Mais do que compreensível, visto que um pedestre tem 3,5 vezes mais chances de ser assaltado do que um motorista. Isto certamente mantém diversos ciclistas e usuários em potencial presos dentro de seus carros blindados. Portanto, é essencial não apenas entender, mas também aproveitar o potencial destes resultados. Especialistas ingleses da JMP Consultants e da Ahead Innovation têm acompanhado de perto estas tendências para novos hábitos de mobilidade no Brasil. Construir mais avenidas apenas reforçará o paradigma anterior, defendendo valores já antiquados em relação ao carro. E políticas de incentivo como o IPI reduzido deveriam favorecer bicicletas e não automóveis, encorajando a mudança na percepção do valor social de cada meio de transporte. Uma única linha de metrô e novas faixas de ônibus já foram suficientes para mudar 6% daqueles que mais usam o carro. Então imagine quanto da cidade mudará quando melhorias na infraestrutura dos transportes e no planejamento atingirem as demais parcelas da população. A mobilidade em São Paulo não é uma causa perdida, e sim um trabalho em andamento. E depende de nós, no correto planejamento orientado ao usuário e nas decisões certas para que o futuro da cidade seja mais sustentável e próspero a todos. * Marcelo Blumenfeld é diretor de projetos da AHEAD Innovation Strategies, uma consultoria com foco em pesquisas estratégicas em sustentabilidade e inovação na área de desenvolvimento urbano. Mestre em Planejamento de Transportes pela Universidade de Leeds e Bacharel em Desenho Industrial pela FAAP, tem como interesse primário a aplicação de novas tecnologias em soluções urbanas e o desenvolvimento de novos modelos de transportes. ** Publicado originalmente no site Mobilize Brasil.


por Marcelo Blumenfeld*
outono_manha-300x225 Sociedade

Onde foram parar as nossas estações?

Pelo menos na cidade de São Paulo o Outono ainda não chegou. Principalmente no decorrer do dia as temperaturas continuam altas, como se fosse Verão. Se para os setores ligados à moda, os quais associam os seus lançamentos às estações do ano, está cada vez mais difícil acertar o que produzir, imagine para a natureza, que não dispõe de tecnologia nem de instrumentos que permitam ajustes climáticos com antecedência e até de última hora. Em um tempo não tão distante, março era o mês de chuvas “fechando o verão”, como escreveu e cantou Tom Jobim em uma das músicas mais conhecidas da Bossa Nova. Neste ano São Pedro decidiu fechar as torneiras e nada de água para abastecer os nossos rios, lagos, reservatórios e as centenas de centros de tratamento. O resultado dessa secura é que os paulistanos correm o risco de ficar com os canos vazios. Tudo bem que nesse caso, além dos aspectos naturais, ocorreram problemas de gestão das organizações que respondem por administrar esse importante recurso hídrico. Voltando à estação em vigor, é impossível prever quando ela chegará por aqui com aquele friozinho gostoso, que permitirá caminhar sem muita transpiração, dormir protegido com uma manta leve e acordar vendo uma ligeira névoa que, durante o dia, se dissipará revelando o azul do céu e o sol não ardente. Como vivemos sob a órbita das indefinições, não será surpresa se numa hora dessas formos visitados pela atmosfera do Inverno, depois de experimentar uma semana com os traços da Primavera. Diante de um cenário imprevisível, cabe a cada um cuidar do equilíbrio físico e mental, a fim de evitar que o nosso corpo sofra com os reflexos das transformações externas, pelas quais não dispomos de qualquer mecanismo controle. Por aqui, fico. Até a próxima.


por Leno F. silva*

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Dica/Opinião

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sustentabilidade

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vaso garrafas002 Recicle seu jardim

Foto: Reprodução/ limaoflor.wordpress.com

O destino do lixo doméstico é um dos grandes problemas enfrentados pela sociedade. A quantidade de detrito produzido é muito superior à capacidade de processamento do mesmo, contribuindo para o aumento da poluição da água, do ar e do solo. Por isso, reciclar é tão importante. A reciclagem é uma maneira de ajudar a preservar o meio ambiente. Ela colabora para a diminuição do volume de resíduos nos aterros sanitários, protegendo os solos e os lençóis freáticos (água pouco profunda); e transforma lixo em matéria-prima, aumentando a vida útil dos materiais e evitando que mais detritos sejam produzidos desnecessariamente. Reciclar é reaproveitar produtos e utensílios que normalmente iriam ser jogados fora e dar a eles uma nova funcionalidade. Qualquer parte de uma casa permite a reutilização de materiais, inclusive o jardim, que, após receber esses itens, acaba ficando mais bonito, charmoso e principalmente sustentável. O reaproveitamento de recipientes para o cultivo de plantas é uma das formas de praticar a reciclagem e, consequentemente, a sustentabilidade, que a cada dia ganha mais adeptos. Baldes, chaleiras, xícaras, jarras, bacias e outros objetos podem ser transformados em belos vasos de plantas. No entanto, para utilizá-los, é preciso tomar alguns cuidados:  
  • Lavar muito bem as vasilhas, eliminando qualquer vestígio de elementos tóxicos (ferrugem, produtos químicos como cloro, ácidos e detergentes), para que as plantas não sejam contaminadas.
  • Impermeabilizar a parte interna de cada recipiente, aplicando uma camada de tinta ou revestimento impermeabilizante. Com esse procedimento, a durabilidade do vaso aumentará e também evitará que qualquer produto químico do utensílio possa contaminar a planta.
  • Optar por materiais resistentes, que suportem bem as mudanças climáticas e que não absorvam muito calor, pois isso pode ressecar a terra e matar a flor. Caso vá utilizar recipientes metálicos, escolha plantas com maior resistência à temperatura e à falta de umidade.
  • Observar o tamanho da planta e de sua raiz. Aquelas que têm raízes maiores e mais fortes devem ser plantadas em recipientes grandes e resistentes. Já as plantas com raízes mais finas podem ser cultivadas em jarras, utensílios de vidro e de outros materiais mais delicados.
  Em todos os casos, é preciso encontrar a melhor maneira de reproduzir as condições naturais de crescimento de cada planta. Toda espécie tem sua necessidade específica de água, portanto, é interessante escolher o recipiente de acordo com as necessidades de cada variedade. Flores como as orquídeas exigem pouquíssimas regas e obtém sua cota de água proveniente do ar, logo são mais fáceis de monitorar. Já as margaridas precisam de regas constantes e solo úmido, sem estar encharcado, e exigem um cuidado maior. *A Giuliana Flores está há mais de 20 anos no mercado e é líder em vendas de flores pela internet.- www.giulianaflores.com.br
Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.

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Ônibus de cidade inglesa é movido a fezes, esgoto e lixo orgânico. Saiba mais aqui.

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