As tensões e os riscos na base da pirâmide

Sociedade

As tensões e os riscos na base da pirâmide


por Washington Novaes*


Muito se tem dito e escrito sobre a onda de protestos que varreu o Brasil nos últimos meses. Uma conclusão quase unânime é a de que a surpreendente mobilização de milhões de pessoas em toda parte ocorreu por meio das chamadas redes sociais, desligadas de partidos ou movimentos políticos, mas incluindo aspirações diversificadas – que se informam e atuam pela internet. Adicionalmente, mostrou-se que a imensa maioria dos manifestantes estava entre 15 e 29 anos. Pesquisa do Ibope publicada por este jornal (25/8) pode reforçar a visão de que a maioria dos jovens, e até mesmo das pessoas em geral, não tem objetivos políticos claros e definidos – tanto que só 7% disseram considerar-se “bem informadas” e saber do que se trata ao discutir o tema “reforma política”, nada menos que 52% se declararam “nada informadas” e 34%, “pouco informadas”. Em recente edição da revista New Scientist (20/7), o competente editor Fred Pearce acrescenta um tempero novo ao molho, que pode levar a conclusões e direções surpreendentes. Pierce afirma que a estrutura de idade de uma população, que vem mudando rapidamente em quase toda parte, pode afetar um país de formas ainda pouco pensadas. E isso se aplica inclusive aos países da Primavera Árabe (Tunísia, Líbia, Egito e outros). Também pode ajudar a entender fenômenos sociais em outros lugares, como a crise política na Grécia e no Sul da Europa. E tudo parece envolvido: a educação, a urbanização, as infraestruturas, tudo, Mas é muito difícil saber qual é a contribuição efetiva de cada área para a mobilização das diferentes forças que moldam o país. A maior atenção aos problemas da saúde, que reduziu fortemente a mortalidade infantil nos países fora do mundo industrializado, assim como a redução do número de filhos têm alterado significativamente a chamada pirâmide demográfica. Que deixa de ter o formato tradicional - base larga que se vai afinando - e se aproxima de uma figura mais uniforme ao longo dos anos. Com isso cresce muito a proporção de jovens adultos na população. Isso já ocorreu há algum tempo nos países industrializados da Europa e da América do Norte, mas já está presente em boa parte dos países fora desse mundo. E se os governos não atenderem às necessidades específicas desse contingente de jovens adultos, a transição demográfica pode traduzir-se em insatisfação generalizada. Henrik Urdal, do Instituto Internacional Pesquisa da Paz, de Oslo, que é citado, escreveu em relatório para a ONU que "um jovem empobrecido pode ser tanto um possível integrante de grupos armados como uma pessoa frustrada com a exclusão econômica e política". E como é crescente a proporção de jovens adultos nessas sociedades, pode ser criadora de muitas tensões. Analisando conflitos internos em 175 países desde a segunda metade do século 20, Urdal concluiu que, "a cada ponto porcentual mais de jovens na população, comparados com a 'população adulta', o risco de aumento dos conflitos sobe 4%". E quando esses jovens superam em 35% todos os adultos, o risco de conflitos de interesses é 150% maior (International Studies Quarterly, volume 50, página 607). Essa taxa persiste mesmo quando melhoram a situação econômica e as práticas da democracia. Na mesma direção, Richard Cincotta, pesquisador que hoje assessora o National Intelligence Council, do governo norte-americano, conclui que em países com mais de 40% da população adulta entre 15 e 29 anos a possibilidade de conflitos civis é o dobro da que se registra em sociedades mais estabilizadas. A possibilidade efetiva em direção problemática está na falta de empregos. Pode acontecer em lugares como o Afeganistão, onde os jovens adultos são mais de 50% da população adulta total. Nações "idosas são menos turbulentas", diz Urdal. China e Cuba são exceções. Mas as nações de idosos também caminham para situações complicadas. Como a Itália, por exemplo, onde a aposentadoria de um idoso é paga por 13 pessoas empregadas. Ou a Alemanha, com alta população de idosos. Resta olhar para o nosso terreiro, onde também cresce muito rapidamente a fatia de jovens adultos - mais de 50 milhões entre 15 e 29 anos - na população total, graças à redução das taxas de natalidade (já abaixo da taxa de reposição, de dois filhos por mulher em idade fértil) e da mortalidade infantil (mais de 50% em dez anos). Serão decisivas nos tempos à frente as taxas de emprego/desemprego da população jovem, quando esta não cessará de crescer - até 2027, segundo Fábio Giambiagi, em artigo neste jornal (22/9/2012). Mas no geral a situação do emprego preocupa, já que em julho tivemos os piores números de dez anos em matéria de trabalhadores com carteira assinada. E a geração de empregos nesse mês (41,4 mil) caiu 77,7% em relação a julho de 2012 (183,9 mil). Na faixa de 17 a 22 anos, 15,9% não trabalham nem estudam, 19,1% trabalham e estudam, 25% só estudam e 40% só trabalham, segundo o IBGE (novembro de 2012). Até 2023, só a população entre 15 e 24 anos terá mais de 33 milhões de pessoas. Sua possibilidade de emprego é menor que a taxa geral. Tanto que o desemprego entre os jovens, em dez anos, caiu 41,6%, enquanto a taxa geral baixou 53,8% (IBGE, 11/8). E segundo o ministro do Trabalho, Manoel Dias, a avaliação mensal do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados indica que "houve uma perda de dinamismo no mercado" (FP, 21/8). Portanto, precisamos de atenção. Não houve mudança no quadro da população jovem, seus caminhos de informação, seus formatos de manifestação - em que também preocupam grupos minoritários, muito atuantes, que recorrem à violência. Nem há indícios de que tenhamos novas propostas políticas e novos caminhos de governo, capazes de atender às aspirações dessa nova parte da "pirâmide demográfica" e de afastar os riscos para os quais os estudiosos estão apontando. * Washington Novaes é jornalista. ** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.

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Wikileaks: Quem lucra com a espionagem digital

As revelações de que a presidenta Dilma Rousseff tornou-se um alvo direto da vigilância da NSA, a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, acenderam um alerta de emergência no alto escalão do governo. Documentos vazados por Edward Snowden, ex-analista da CIA (Agência Central de Inteligência), mostram que a espionagem tem como foco números de telefone e e-mails, além do rastreamento do IPs por meio de softwares como o “DNI selectors”, capazes de fazer uma varredura por todos os dados de navegação de um usuário na internet, incluindo seus e-mails. Mesmo depois de o vazamento de documentos secretos da NSA jogar luz sobre a espionagem massiva realizada pela agência de segurança norte-americana, continuam nas sombras as empresas que fabricam e vendem essas tecnologias de vigilância e fazem lobby para o seu uso. Não há nenhuma estimativa que mostre o tamanho desse mercado. Sabe-se que apenas a área de spyware – um software-espião instalado sorrateiramente no computador – movimenta US$ 5 bilhões, e tem potencial para crescer cerca de 20% ao ano. Segundo levantamento do jornal The Washington Post, o “black budget”, o orçamento destinado aos serviços de inteligência do governo dos Estados Unidos, soma US$ 52,6 bilhões ao ano – mais de 68% disso vai para a CIA, a NSA e o NRO (Escritório Nacional de Reconhecimento, órgão responsável por desenvolver, construir e operar satélites de reconhecimento). O valor reservado para as áreas de inteligência e vigilância dobrou em relação a 2001. A maior parcela de gastos é com coleta, exploração e análise de dados. Apenas a CIA tem um gasto previsto de US$ 11,5 bilhões para coleta de dados em 2013. As empresas contratadas são mantidas em segredo. Quem lucra com tanta vigilância [caption id="attachment_98076" align="aligncenter" width="474"] Mapa feito por pesquisadores do Citizen Lab, da Universidade de Toronto, mostra os países onde já foi detectada a presença dw servidores do software espião FinFisher, do Gamma Group[/caption]   Mas quem são as empresas que fabricam e vendem a tecnologia que permite tamanha vigilância digital e fazem lobby para o seu uso? Algumas informações vêm à luz hoje, com a nova publicação do WikiLeaks, uma continuação do “Spy Files”, publicado em 2011. São 249 documentos de 92 empresas de vigilância, entre brochuras, contratos e metadados referentes a alguns dos principais empresários do ramo. “A publicação Spy Files 3 faz parte do nosso compromisso contínuo de jogar luz nessa indústria obscura de vigilância. E a base de dados do Spy Files continuará a crescer, tornado-se um recurso para jornalistas e cidadãos, detalhando as condições orwellianas sob as quais levamos nossas vidas supostamente privadas”, diz Julian Assange. Além da Agência Pública, outro 18 veículos internacionais são parceiros na publicação, incluindo Pagina 12, da Argentina, La Jornada, no México, e o canal RT, da Rússia. Os documentos mostram, por exemplo, que empresas como Glimmerglass e Net Optics oferecem tecnologia para “grampear” o tráfego de dados em cabos ultramarinos de fibra ótica. Outras empresas fornecem equipamentos sofisticados de gravação e reconhecimento de voz, além de softwares que analisam diversas gravações ao mesmo tempo; outras permitem analisar diversos materiais (vídeos, fotos, gravações) simultaneamente. Há ainda empresas que se especializam em descobrir falhas em sistemas operacionais e vendem essas “dicas” a governos – eles podem, com essa informação, hackear um computador “alvo”. Outras empresas vendem tecnologias que permitem monitorar a atividade online de ativistas e manifestantes. Muitas delas vendem tecnologia para diversos órgãos do governo americano, como a Cyveillance, pertencente à empresa QinetiQ, usada pelo Serviço Secreto dos Estados Unidos para monitorar a rede 24 horas por dia. E muitas já têm forte presença no Brasil, seja vendendo tecnologia e serviços para empresas como Vale e Petrobras, seja abocanhando contratos de vigilância para a Copa do Mundo e a Olimpíada. Por conta dos megaeventos – e das manifestações de junho – o Brasil tem se tornado um mercado prioritário para essas empresas de vigilância. Uma indústria nas sombras “Confidencialidade é essencial para o negócio de segurança”, diz o site da empresa alemã Elaman, uma subsidiária do grupo Gamma Group, um dos mais famosos grupos que vendem tecnologias para vigilância digital na rede. Famoso não por iniciativa própria, mas por ter se envolvido em diversos escândalos recentes, o Gamma está sendo investigado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) por ter tido alguns dos seus softwares espiões usados contra ativistas no Bahrein. Seu principal produto, o software-espião FinFisher, infecta computadores para capturar informações, enviadas a uma central interceptadora. Pesquisadores da Universidade de Toronto descobriram servidores de monitoramento do FinFisher em 36 países – incluindo Turquia, Paquistão, Panamá, Etiópia, Malásia, Qatar e Vietnã. Também encontraram o spyware “disfarçado” do navegador Mozilla Firefox, uma isca para levar “alvos” a fazer o download em seus computadores. O diretor da Gamma – que tem sedes na Alemanha e na Inglaterra –, Martin J. Muench, reafirmou que a empresa coopera com as regulações dos dois países e que o produto teria sido roubado durante uma apresentação. Segundo o executivo, uma cópia do software foi feita no evento e, depois, o spyware foi modificado e usado em outras partes do mundo. O vazamento do WikiLeaks, porém, mostra que os executivos da Gamma teriam viajado recentemente para países com governos autoritários, como Guiné Equatorial, Turcomenistão, Malásia, Egito e Qatar. Contratos indicam ainda que a empresa negociou o fornecimento de componentes de software e hardware para Omã, num projeto que seria chamado de “sistema de monitoramento para i-proxy”, em parceria com a empresa alemã Dreamlab. A mesma Dreamlab chegou a negociar um sistema de monitoramento semelhante com o Turcomenistão. Outras empresas de peso do setor também fornecem software para governos repressivos pelo mundo, como mostra um mapa desenvolvido pela agência de notícias Bloomberg em 2010. Mais de dois anos depois, o vazamento do WikiLeaks mostra que executivos dessas empresas continuam a visitar países do Oriente Médio, incluindo Emirados Árabes, Líbano, Qatar e Kuait.“A indústria de vigilância caminha de mãos dadas com governos de todo o mundo para permitir a espionagem ilegítima dos seus cidadãos. Com pouca fiscalização e nenhuma regulação, essa ampla rede de espionagem envolve a todos nós contra a nossa vontade e, geralmente, sem o nosso conhecimento”, explica Assange. Quem é quem Glimmerglass e Net Optics oferecem tecnologias para “grampear” tráfego de conexões de até 10 Gbps, motitorando informação em tempo real. A principal tecnologia da Glmmerglass, do vale do Silicio, o CyberSweep (algo como “cibervarredura” em português), serve para interceptar o sinal em cabos de fibra ótica. Com isso, é capaz de selecionar, extrair e monitorar todo e qualquer tipo de dado que trafega pelos cabos, como vídeo, áudio e ligações de celular e telefone fixo, entre outros. Também consegue fazer a sondagem de conteúdo do Gmail, Yahoo!, Facebook e Twitter. Esse tipo de tecnologia é usado por agências nacionais de segurança nacional.Segundo ativistas emfavor da privacidade na rede, a Glimmerglass deve ser fornecedora de tecnologia de monitoramento para a NSA Mas o setor das empresas de vigilância e segurança digital não se resume à interceptação de dados. Um exemplo é a Vupen, que identifica falhas em sistemas de segurança de internet e revende essas informações para governos e grandes corporações. Como diz o próprio CEO da empresa, Chaouki Bekrar, em livreto de propaganda , as “agências policiais precisam da mais avançada pesquisa de intrusão em TI e das ferramentas de ataque mais confiáveis para secretamente e remotamente acessarem sistemas de computador. Usar vulnerabilidades de software anteriormente desconhecidas poderia ajudar os investigadores a alcançar essa tarefa com êxito”. A NSA gastou US$ 25 milhõe este ano com este tipo de serviço, segundo o levantamento do Washington Post. A Agnitio, uma empresa privada espanhola, é líder em fornecer programas de leitura biométrica de voz a setores de diversos governos e empresas ao redor do mundo, em mais de 35 países. A tecnologia da Agnitio pode reconhecer a voz de um suspeito em tempo real, rastreando milhões de ligações e sem deixar rastros do grampo. Outra que atua na área da biometria é a Human Recognition Systems. A empresa oferece uma variedade de tipos de reconhecimento biométrico que vão desde a análise de padrões (íris, tamanho dos membros do corpo, etc) até a análise de comportamento e de padrão de veias humanas. Essas tecnologias seervem tanto para garantir a identificação de um funcionário ao acessar documentos privilegiados, até ser usada em checkpoints em locais de guerra para determinar se um habitante do país é “insurgente ou um civil inocente?”, como mostra a brochura institucional” Algumas dessas empresas também possuem escritórios ou estão presentes no Brasil por meio de parceiras. Das que aparecem nos documentos vazados pelo WikiLeaks, 16 têm ligação com o Brasil. Dentre essas, nove têm escritórios subsidiários aqui. É o caso da Autonomy, que em 2011 foi comprada pela gigante HP, e que, em 2010, vendeu seu programa de análise de dados IDOL para o Banco do Brasil . O IDOL monitora e rastreia vários tipos de informação coletados por uma empresa ou governo. Ao buscar uma palavra-chave, o sistema irá rastrear registros de reconhecimento facial, gravações de áudio e vídeo, todos os tipos de dados disponíveis e até a análise comportamental para produzir um monitoramento unificado. Outras empresas, como o i2 Group, comprado por outra gigante, a IBM, possui empresas brasileiras parceiras que mediam a contratação de tecnologias. Através da Tempo Real Group, a empresa fechou contratos com a Controladoria-Geral da União, o Ministério Público Federal e organizações de segurança, como a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. A empresa desenvolve softwares de coleta e análise de informações. Contra manifestações A Cyveillance, uma subsidiária da empresa americana QinetiQ, especializa-se em monitoramento 24 horas da internet e, segundo ela mesma define em sua brochura, análises de inteligência sofisticadas para “identificar e eliminar ameaças a informações, infraestruturas e indivíduos, permitindo aos nossos clientes preservar a sua reputação, receita e a confiança dos clientes”. A empresa afirma servir a maioria das empresas mais ricas do mundo “e mais de 30 milhões de consumidores através de sua parceria com provedores que incluem AOL e Microsoft”. A brochura da empresa, vazada pelo WikiLeaks, mostra bem o uso dessa tecnologia: uma foto traz manifestantes portando bandeiras num protesto. O texto explica: “Protestos, boicotes e ameaças contra seus empregados, oficinas e escritórios causam caos na sua organização”. Por meio de monitoramento 24 horas por dia, sete dias por semana, a empresa afirma que resolver ameaças requer incorporar inteligência à segurança. A Cyveillance garante que tem pessoas, processos e tecnologias para prover inteligência sobre as atividades relacionadas a uma empresa, “permitindo que você aja antes que um evento ocorra”. Também garante monitoramento contra vazamentos de informações por whistleblowers da empresa. A tecnologia da Cyveillance é amplamente utilizada pelo Departamento de Segurança Interna do governo americano. Tanto que, em dezembro de 2012, o órgão publicou um relatório sobre as ameaças do uso dessa tecnologia em cidadãos americanos. “Embora o propósito inicial da Cyveillance não seja coletar informações pessoais, o conteúdo de interesse do serviço secreto coletado pela Cyveillance pode conter esses dados”, diz o texto. Informação potencialmente relevante é enviada ao serviço secreto, que determina se é necessário mais investigação para avaliar o conteúdo – e pode compartilhá-lo com outras agências do governo americano. Gigantes da tecnologia também apostam na vigilância O mercado em torno da análise qualificada de grandes bases de dados, o chamado big data, está em franca expansão. Para se ter ideia, analistas estimam que, em 2015, cerca de 4,4 milhões de pessoas estarão trabalhando nessa área . E um dos ramos que mais se beneficia disso é a vigilância eletrônica. Atentas ao potencial lucrativo desse nicho de mercado, empresas como a IBM e a HP já investem na compra de empresas especializadas no desenvolvimento desse tipo de tecnologia. Em 2011, a HP anunciou a compra da Autonomy, uma empresa inglesa líder no campo de “desenvolvimento de softwares que ajudam organizações do mundo inteiro a entenderem o significado por trás da informação” . Como? Um time de analistas varre conteúdos de emails, documentos, fotos, redes sociais e outros tipos de mídia, atrás de informações relevantes, de acordo com a demanda do cliente. Segundo o site, organizações como KPMG, Philips, Oracle e T-Mobile já utilizaram os serviços da Autonomy, além de órgãos de governo, como o Parlamento inglês, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos e também o Banco do Brasil, que adotou o uso do software IDOL, desenvolvido pela empresa inglesa, em 2010 . Fundada em 1996, a Autonomy está presente em três continentes, com uma lista de mais de 65 mil usuários mundo afora, além de 400 parceiros de produção e 400 parceiros de revenda de produtos, que incluem grandes empresas como Adobe e Novell. Há suspeitas de que a Autonomy tenha inflado dados de faturamento e receita para favorecer a compra pela HP . A IBM também tem investido – e faturado – com o mercado de vigilância desde que, em 2011, anunciou a compra da i2 Limited, empresa inglesa de análise dados de segurança . A i2, que foi fundada em 1990, diz ter colaborado diretamente com a localização de Saddam Hussein, em 2003: as forças americanas utilizaram um dos seus softwares para rastrear o paradeiro do ex-ditador iraquiano. Com mais de 4.500 clientes em cerca de 150 países, a i2 oferece tecnologia para “combater insurgência e terrorismo, e garantir a segurança nacional” . Organizações como a Interpol, FBI e OTAN utilizam os softwares da subsidiária da IBM para rastrear grandes quantidades de dados provenientes da internet, chamadas telefônicas e dados bancários e “coletar, integrar, analisar, visualizar e distribuir informações” a fim de interceptar indícios de atividade criminosa. No Brasil, a Tempo Real Group, uma das distribuidoras da i2, presta serviços para diversos clientes, como Agência Nacional de Petróleo (ANP), Banco do Brasil, Bradesco, Controladoria-Geral da União, Ministério Público Federal, Ministérios Públicos do Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, Polícias Civis do Distrito Federal, Minas Gerais e São Paulo, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e Receita Federal. O produto? Softwares de rastreamento e processamento de dados para fins diversos, que vão do combate à corrupção e investigação de fraudes à interceptação de crimes que coloquem em risco a segurança nacional. Entrevista: "O negócio delas é assassinar a democracia" O ativista alemão Andy Müller-Mahuhn é membro de longa data do Chaos Computer Club, um dos clubes hackers mais atuantes do mundo, além de investigar assiduamente a indústria de vigilância para o site colaborativo Buggedplanet. Desenvolvedor virtuoso, Andy trabalha com comunicações criptográficas e é criador da empresa Cryptophone, que comercializa dispositivos de comunicação vocal segura. Foi cofundador da European Digital Rights (Edri), ONG que defende a garantia dos direitos humanos na era digital, e ocupou o cargo de diretor europeu da Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (Icann), responsável pela elaboração de políticas internacionais para os endereços adotados na internet. É um dos maiores nomes da filosofia cypherpunk, autor do livro de mesmo nome juntamente com Julian Assange. Ele deu esta entrevista à Pública através de chat criptografado. Quem são os clientes dessas empresas de vigilância? Falamdo o genericamente, as empresas expostas no Spy Files do WikiLeaks fornecem na maioria para mercados nacionais, ou seja, os malucos por controle dos governos – seja no Oriente Médio, no coração da Europa e da África, na Ásia ou nas Américas do Sul, do Norte e Central. Quais dessas empresas têm contrato com a NSA? Há pelo menos uma, a Glimmerglass, que é contratada da NSA, segundo revelações dos documentos que o Snowden vazou. Quanto a outras, é muito provável que Vastech e Net Optics também estejam fornecendo tecnologia usada nos programas da NSA. Por que provavelmente? A Vastech é uma empresa sul-africana que fornece tecnologia de monitoramento estratégico (interceptação e gravação) de todas as telecomunicações, não para alvos específicos. Não sabemos muito sobre os seus clientes (além de que eles foram flagrados na Líbia), mas eles estavam entre os primeiros a fornecerem tecnologia para gravar e arquivar todas as comunicações em um ambiente de rede específico. A Net Optics fornece equipamentos para “grampear” conexões de fibra ótica e fios elétricos até o nível de 10 Gbps, que é geralmente o tipo de velocidade usada para monitorar todo o tráfego de um provedor, um pouco similar à Glimmerglass. Muito provável que seja usada se você quer interceptar todo um país ou todas as comunicações de um provedor. A Speech Technology Center, na Russia, e Agnitio, da Espanha, são alguma das mais importantes empresas para sistemas de reconhecimento de voz, ambas fornecendo novas tecnologias para interceptação estratégica, ou seja, você pode analisar um conjunto de gravações e interceptações, e não apenas uma por vez. Então a Agnitio tem mais probabilidade de fornecer para a NSA do que a Speech Technology Center, mas ainda estamos pesquisando isso. A Vupen é muito provavelmente fornecedora da NSA. Eles vendem “exploits”, e há apenas um punhado de empresas fazendo isso profissionalmente. O que são “exploits”? São falhas em programas de computador que podem ser usadas para explorar a máquina, ou seja, para adquirir controle sobre ela sem o dono tomar conhecimento. Esse é um mercado muito quente e especial. Podemos comparar isso com pessoas que vendessem informação sobre o seu bairro para criminosos: quem deixa às vezes a janela aberta, quem não tranca a porta etc. Então elas não invadem as casas nem roubam nada, mas vendem a informação para os governos fazerem isso. Não é um comércio muito ético, para colocar de maneira gentil. Eles compram essas informações no mercado negro, de quem encontra bugs nos sistemas da Microsoft e da Apple, por exemplo. Em vez de ajudar essas empresas a corrigir as falhas, usam as brechas para invadir. Você mencionou que considera algumas dessas empresas “malignas”. Por quê? A NICE – “bonzinho”, em inglês – tem um approach de vigilância de 360 graus. Isso não é compatível com o meu entendimento do que são direitos humanos, mas é uma empresa sediada em Israel, então talvez não devêssemos ficar muito surpresos. No entanto, o que eles fazem não é nada “bonzinho”. A Vastech está matando a privacidade de pessoas em nações inteiras… Isso também é muito do mal ao meu ver. Todo mundo é suspeito, isso muda a maneira que os governos veem seus cidadãos, e tem implicações muito amplas… E o pior é que isso é vendido como uma estratégia de marketing! Em uma palavra, o negócio delas é assassinar a democracia. Muitos dizem que essas tecnologias são necessárias para segurança – por exemplo, durante os megaeventos. Qual é o limite entre segurança e invasão da privacidade? Qualquer tecnologia que trate seres humanos como objeto é maligna, ela não tem a natureza da humanidade. Vigilância e segurança não são a mesma coisa. A vigilância somente dá mais opções de ação àqueles que coletam os dados ou as filmagens. Então megaeventos requerem atenção humana entre aqueles que deles participam. A tecnologia não pode resolver problemas de natureza social. Pode amplificar esses problemas. Depende muito da situação saber qual é a melhor solução. Mas a vigilância é um conceito que traz muitos problemas para o indivíduo. A Alemanha sediou uma Copa do Mundo. No Brasil, muitas dessas empresas estão vendendo câmeras, software etc. Houve um aumento da vigilância na Alemanha por causa da Copa? Sim, houve. Eles aumentaram as câmeras de CCTV nas ruas e outros tipos de vigilância, mas na maioria aumentaram a presença policial, porque tinham medo de vandalismo e ataques terroristas. Mas os alemães são muito sensíveis ao abuso da vigilância por causa dos tempos de nazismo e das atividades da Stasi (a polícia secreta do regime comunista da Alemanha oriental). Houve uma reação da população? Há um longo embate ocorrendo aqui entre cidadãos e autoridades, que constantemente está chegando até a Corte Suprema em relação a, por exemplo, retenção de dados e o direito à privacidade, também garantindo o direito à segurança do seu computador pessoal contra aqueles que podem querer invadi-lo (como agências de governo com vírus espiões, o que foi declarado ilegal na Alemanha). Há algum risco para o governo brasileiro de comprar essas tecnologias de empresas que vendem para muitos países e muitas empresas? As informações coletadas por esses softwares poderiam, por exemplo, ser repassados para outros governos ou empresas? Olha, isso depende da tecnologia. Mas há algumas empresas – como a Gamma – que têm uma atuação muito global e que não apenas ajudam seu clientes a espionar alvos, mas também coletam dados em nome dos seus clientes! Isso sugere que eles podem ter seus próprios interesses, ou seguir os interesses de terceiros ao lidar com esses dados. Fornecer tecnologia de vigilância é um negócio muito sensível porque você aprende não apenas sobre a estrutura da segurança de um governo, mas também sobre os seus “medos” – e ambas são é informações muito interessantes para agências de inteligência de outros países. Além disso, quando você vê nos contratos que a Gamma (Alemanha-Reino Unido) está comprando tecnologia da Dreamlab (Suíça), que então está incorporando peças de uma empresa israelense… Seria muito ingênuo não pensar que a empresa israelense teria interesse se essa tecnologia fosse instalada em países do Oriente Médio. Para a Copa do Mundo de 2014, elas estão vendendo ao Brasil câmeras de helicópteros, softwares de monitoramento e análise, sistemas de rádio, antenas de telecomunicação… Esses exemplos já mostram que é toda uma indústria, com muitos componentes e obviamente interesses financeiros por trás deles. Se isso traz mais segurança ou somente dinheiro para aqueles que simulam prover segurança é algo que ainda vamos ver. * Publicado originalmente no site Agência Pública.


por Bruno Fonseca, Jessica Mota, Luiza Bodenmüller e Natalia Viana*
Foto: Reprodução/ Internet Sociedade

Você não está no trânsito, você é o trânsito

  [caption id="attachment_98058" align="alignleft" width="330"] Foto: Reprodução/ Internet[/caption] Histórias de pessoas que cansaram de ser o trânsito e mudaram seu meio de transporte. Mobilidade é atualmente uma das principais preocupações e fontes de dores de cabeça de quem vive nas grandes cidades. Longas distâncias, desgaste físico e, principalmente, o estresse causado pelos engarrafamentos tornaram-se motivos mais do que suficientes para que cada vez mais pessoas optem por outros meios de transporte que não os veículos individuais. Recente artigo publicado pelo jornal "The New York Times" aborda a questão do crescente desinteresse dos jovens por carros, o que tem preocupado as montadoras. De acordo com pesquisas da General Motors, a geração entre 18 e 24 está valorizando mais ter qualidade de vida do que investir na compra de um carro próprio. Renata Prudente, de 21 anos, encaixa-se no perfil descrito acima. Bicicleteira assumida, conta que seus pais queriam presenteá-la com um carro quando entrou na faculdade, aos 19, mas ela não quis. “Eu ando de bicicleta pela cidade. Gosto da liberdade que a bike me dá. Não preciso me preocupar com estacionar o carro ou fugir do trânsito. Além disso, andar de bicicleta é mais saudável. Quando preciso sair de carro por algum motivo específico, posso combinar com meus pais de usar o carro deles”, explica a jovem. A jornalista paulistana Mariana Portiz, de 36 anos, também optou por não andar de carro. Mas para ela o motivo foi outro. Mariana dirige desde os 18 anos, quando tirou carta e ganhou seu primeiro automóvel, mas uma briga de trânsito há alguns anos fez com que ela repensasse como estava se comportando em sociedade e buscasse novos caminhos:   “O trânsito sempre me irritou muito. E eu sempre peguei muito trânsito porque trabalhava longe de casa. Até que, certo dia, voltando do trabalho e atrasada para um compromisso, levei uma fechada. Saí do carro e bati boca com o outro motorista, e ele comigo. Foi uma baixaria, e depois eu só conseguia me arrepender. Estava mais nervosa, estressada e triste do que nunca”. A saída encontrada para lidar com o estresse causado pelos longos engarrafamentos enfrentados diariamente foi abandonar o carro. “Aos poucos, consegui me organizar para trabalhar de casa. O bairro onde moro é ótimo, tem tudo perto. Assim, consigo fazer 90% das minhas obrigações e atividades a pé”. Dois anos depois, Mariana está mais saudável, caminha diariamente, não sofre mais de estresse. Vendeu seu carro e, aos finais de semana, anda de táxi ou carona. “Evitar esse tipo de aborrecimento para mim é importante e por essa razão investi nisso. Hoje, não contribuo mais para o trânsito caótico, não perco tempo com engarrafamentos e sou mais feliz e tranquila”, finaliza. O publicitário João Pedro Menezes, 27 anos, decidiu deixar o carro na garagem antes de ter uma crise de estresse. Passou a se locomover de metrô para ir e voltar do trabalho. “Em determinado momento, percebi que o que mais me atrapalhava era a minha preguiça de sair de casa e o preconceito com o transporte público”, conta ele, que, andando de metrô, economiza todos os dias cerca de 40 minutos para ir e para voltar do trabalho. Além do tempo economizado, João também diz que a opção pelo transporte coletivo resultou em economia para ele, que não gasta mais tanto com gasolina. “Deixei o carro para usar em dias de chuva, quando preciso carregar coisas ou quando tenho algum compromisso após o expediente”, conta. O caso do executivo de TI Rafael Junqueira, 29 anos, ilustra bem uma nova postura frente à mobilidade. Ele optou por mudar-se para um endereço bem próximo ao de seu emprego, e não leva mais do que 5 minutos para chegar ao trabalho: “Como eu gastava 3 horas por dia nos deslocamentos, ou 72 horas por mês, percebi que a cada mês eu perdia mais que um final de semana, uma insanidade. Não compensa nem física nem financeiramente”. E ele acrescenta: “Hoje eu chego mais disposto no trabalho, rendo mais e, na hora de voltar, é só alegria, e não mais um tormento”. * Mais informações no site Sustentabilidade Allianz.   ** Publicado originalmente no site Mobilize.


por Camila Hungria, do Sustentabilidade Allianz
A Homeless World Cup é uma competição que visa chamar a atenção para a situação de moradia no planeta. Foto: Giulia Afiune Sociedade

Campeões Invisíveis

[caption id="attachment_98026" align="aligncenter" width="500"] Campeões do mundo: Robson Martins (à esquerda), o técnico Pupo Fernandes (centro) e Douglas Batista. Foto: Giulia Afiune[/caption]   Conheça a seleção das periferias brasileiras que, sem recursos nem aplausos, conquistou o título da Homeless World Cup de 2013. Acostumado a ser Golias nos torneios de futebol internacional, o Brasil viveu seu dia de Davi. E não faz muito tempo não. No último dia 18, quatro jovens brasileiros conquistaram a Homeless World Cup, a Copa do Mundo dos Sem Teto, campeonato de futebol criado há dez anos para denunciar as precárias condições de moradia que afetam um grande número de pessoas no mundo. O primeiro torneio, em 2003, reuniu moradores de rua de diversos países na cidade de Graz, na Áustria. O mais recente, que deu a vitória aos brasileiros reuniu equipes de 50 países em Poznan, na Polônia. Hoje o torneio engloba também pessoas que vivem em “situação de risco” por morarem em áreas violentas, em habitações precárias, em áreas sem acesso a infraestrutura básica, condição em que se encaixam boa parte dos moradores das periferias das grandes cidades brasileiras. O jogo é dividido em dois tempos de sete minutos e as equipes se organizam como no futebol de rua: três jogadores na linha e um no gol. Vale até aquela clássica tabela com a parede, usada pra ajudar a driblar os adversários em campinhos e quadras no Brasil. Naquele dia 18 de agosto, estavam na linha Darlan Martins, morador do Cantagalo (Rio), Douglas Batista, do Jardim Ângela (São Paulo) e Robson Martins, do Campo Limpo (São Paulo); Vinícius Araújo, da Rocinha (Rio) estava no gol. Por falta de recursos, o “país do futebol” mandou a menor delegação entre os 59 países participantes: além dos quatro atletas, viajou o técnico Flávio “Pupo” Fernandes, professor de Educação Física. Guilherme Araújo, da ONG Futebol Social, responsável pela montagem da equipe, explica: “A gente já vinha trabalhando com o mesmo patrocinador desde 2011, o patrocínio para esse ano era algo quase que automático. Como o patrocinador nos apoia mediante a Lei de Incentivo ao Esporte, o projeto foi submetido ao Ministério do Esporte, mas não foi aprovado a tempo”, conta. O patrocinador em questão é a Eletrobras, empresa estatal de energia elétrica, e como era considerado certo, a ONG já se mexia para conseguir os aportes para o ano, quando veio a notícia de que a verba não viria. “A informação que a gente teve era de que faltava uma carta de intenção de patrocínio. Esse nosso patrocinador, uma estatal, não faz esse tipo de carta. E a empresa está passando por uma grande reestruturação, passando por sua maior crise da história, então era inviável”, resume. Diversos patrocinados sofreram cortes com crise da Eletrobrás, que chegou a registrar a maior queda de suas ações em quinze anos – 15% – em novembro do ano passado. O aporte dado à Confederação Brasileira de Basquete (CBB), por exemplo, caiu 42%: passando de R$ 13 milhões em 2012 para R$ 7,5 milhões em 2013. Já a delegação mexicana, que disputou a final com o Brasil, levou 45 pessoas à Polônia: além de 20 atletas, incluindo a comissão técnica, 25 pessoas foram como convidadas da Fundação Telmex, braço social da Telmex, gigante do ramo das telecomunicações que atua em países como a Argentina, o Chile, a Colômbia, os Estados Unidos, o Equador, a República Dominicana, e até mesmo no Brasil, como controladora da Claro, uma das quatro gigantes de telecomunicação brasileiras. O dono da Telmex, o bilionário mexicano Carlos Slim Helu, foi eleito o homem mais rico do mundo pelo quarto ano seguido no ranking da revista Forbes. Sua fortuna é estimada em nada menos do que R$ 73 bilhões, R$ 6 bilhões à frente do segundo colocado Bill Gates. “O dinheiro com o qual eles mandaram essas 45 pessoas é o dinheiro que a gente consegue manter todo o nosso projeto durante um ano”, compara o técnico Pupo Fernandes. Ainda assim, em uma final suada, os quatro atletas brasileiros venceram os mexicano.s Na disputa dos pênaltis que se seguiu ao empate de 3 a 3, o goleiro brasileiro defendeu a primeira bola e Darlan Martins, eleito o melhor jogador do torneio, marcou o gol que deu o título ao Brasil. Após disputar dez partidas consecutivas, sem banco de reservas, sem verba, sem apoio, o time voltou com o caneco, mostrando a raça das periferias brasileiras. Muito além do gramado A reportagem da Pública encontrou Douglas Batista e Robson Martins, os dois paulistas da equipe campeã do Homeless World Cup, na sede do Estrela Nova, clube comunitário do Campo Limpo que integra a rede de entidades parceiras da ONG Futebol Social, que utiliza o esporte como meio de formação de jovens líderes comunitários, de idades entre 16 e 20 anos. Para fazer parte do time, não basta ser bom de bola, os avaliadores selecionam também pelos vínculos que mantêm com a comunidade, pelo engajamento social para transformar a comunidade e pela situação de risco em que se encontram. Robson tem o perfil da vítima de violência nas periferias brasileiras. Ele é negro, tem 18 anos e está desempregado há seis meses. De acordo com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, no ano de 2011, 59.198 pessoas foram assassinadas no Brasil. Deste total, 35,2% (18.387) eram afrodescendentes de idades entre 15 e 29 anos. Ele trabalha desde os 16 anos para ajudar a mãe, que sustenta a casa sozinha com o salário de metalúrgica. Antes de deixar o emprego em uma empresa de instalação de portões, ele trabalhava numa serralheria. Em nenhum momento, porém, pensou em largar o futebol. “É a minha vida, é o que eu mais gosto de fazer, quero ser jogador desde os meus cinco anos de idade”, conta, emocionado. Morador do bairro Maria Virgínia, no coração do Campo Limpo, Robson é obcecado pelo sonho de jogar futebol profissionalmente desde que começou a assistir os jogos do Corinthians, seu time do coração. Na comunidade, não encontrava áreas de lazer para afiar seus dribles, chutes, passes e lançamentos, e até os 16 anos, frequentava escolinhas de futebol onde conheceu dezenas de garotos que, como ele, amavam a bola e depositavam ali suas esperanças de melhorar a própria vida e a dos familiares. O tempo foi passando, porém, sem que ele obtivesse a esperada vaga numa equipe de base de um clube profissional. “Peneira eu já fiz muitas. Inclusive já passei, mas os caras só fazem promessas. Eu passei umas vezes, os caras falaram que iam me levar para um clube, mas nunca levaram”, diz. A maior decepção com o futebol aconteceu perto da sua casa, no CDC (Clube da Comunidade) do Sapy, ali no Campo Limpo, ele conta. Ao saber que o Internacional, gigante colorado do Rio Grande do Sul, iria fazer uma peneira ali, Robson acordou cedo, e nas primeiras horas da manhã já estava esperando pelo ínicio da triagem. “Naquele dia eu joguei bem”, conta, “eu tinha passado, já tava treinando entre os escolhidos, e aí chegou um menino não sei de onde, com pai e empresário e tudo. E tiraram eu pra colocar o menino. Aí, no final do treino me disseram que eu não precisava mais treinar, que estava dispensado”, conta. No mundo do futebol, apesar de muito jovem, Robson já é um veterano. Neymar, por exemplo, entrou para as categorias de base do Santos aos 11 anos e estreou como profissional aos 17 anos. Ainda assim ele continua a treinar sozinho em suas tardes no CDC do Sapy, sem perder a esperança. “Eu corro, faço uns trotes, chuto a bola na parede. Estou sempre me preparando para quando aparecer a oportunidade. Com força, esperança e foco vai acontecer”, acredita. Se nos próximos dois anos ele não conseguir uma colocação no futebol, porém, Robson sabe o que o aguarda: emprego, oito horas de trabalho por dia, marmita à tiracolo. O cronômetro está rolando. “No país do futebol, com 5 Copas do Mundo, você vê milhões de reais sendo investidos em estádios, no time, na seleção e você não tem ninguém, nenhum empresário nem patrocinador para investir em nós”, reclama o outro campeão mundial, Douglas Martins, morador do Jardim Ângela, também na zona sul da capital paulista. Como Robson, ele sempre quis ser jogador de futebol. Apoiado pelo pai, marceneiro, e pela mãe, recepcionista de cabeleireiro, ele passou por oito clubes, na tentativa de entrar em uma equipe de base, entre eles o Brasil de Pelotas, o Paulista de Jundiaí e até o São Paulo. A pior experiência para Douglas foi no Mogi das Cruzes, quando ele tinha 18 anos. “Eu comia só arroz e dormia no chão sujo, em um colchãozinho que quase não era colchão. Durante duas semanas foi tanto perrengue que eu pensava ‘será que é isso mesmo que eu quero da minha vida?’. Aí a sua mãe te liga, te pergunta como que tá e você tem que mentir, né? Porque se não ela ia querer me buscar. E como eu quero esse sonho, resisti até onde eu pude.” Após ser dispensado do Brasil de Pelotas, com 19 anos, Douglas desistiu e foi trabalhar na marcenaria do pai, mas não se sentia feliz: queria voltar ao futebol, que continua sendo o seu principal projeto. “Meu plano B é estudar, fazer uma faculdade. O Ensino Médio eu já completei. E, se não der certo no futebol, tentar seguir outra vida”, diz. Futebol Social X Copa do Mundo [caption id="attachment_98027" align="aligncenter" width="500"] A Homeless World Cup é uma competição que visa chamar a atenção para a situação de moradia no planeta. Foto: Giulia Afiune[/caption]   Impulsionar jovens a fazer carreira no futebol, porém, não é o objetivo central da ONG Futebol Social, responsável pela montagem da equipe brasileira para a Homeless World Cup, criada por Guilherme Araújo após uma experiência dele na revista Ocas, publicação vendida por pessoas em situação de rua como oportunidade para que voltem a exercer um trabalho remunerado. “O projeto nasceu dentro da Ocas, cresceu dentro da Ocas e no fim de 2009 a gente fundou uma nova ONG”, conta Araújo. A Ocas havia sido convidada a representar o Brasil na “Homeless World Cup”, mandando um time de moradores de rua. “Eu treinei o time e tivemos dificuldades, porque muitos nunca tinham praticado um esporte, uma atividade física”, conta o técnico Pupo Fernandes. Da experiência veio a ideia de usar o futebol como um agente de transformação social através de um projeto desenvolvido por uma rede de entidades parceiras como o Clube da Turma e o Estrela Nova, no extremo sul de São Paulo, e o Criança Esperança do Rio de Janeiro. A ONG Futebol Social também está presente em Minas Gerais, em Brasília e no Pará. “Temos a meta de chegar a todas as regiões do Brasil, mas ainda estamos buscando recursos para isso”, conta Pupo Fernandes. “Nesse momento vemos que a mídia e os patrocinadores focam muito mais a Copa do Mundo do projetos como o nosso. Por exemplo, um patrocinador prefere pegar R$ 100 mil e fazer mil bolas associando-se à Copa do que destinar a um projeto como o nosso”, avalia. * O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora. ** Publicado originalmente no site Agência Pública.


por Ciro Barros e Giulia Afiune, para a Agência Púbilca
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Obama e Washington em xeque

Como uma gafe histórica ajudou a desarmar ataque à Síria. Que o episódio revela sobre poder internacional no século 21. Um olhar superficial poderia atribuir ao secretário de Estado dos EUA, John Kerry, o gesto desengonçado que tornou difíceis e arriscados os planos da Casa Branca para uma guerra contra a Síria. Na manhã desta segunda-feira (9/9), ao falar de improviso em Londres, Kerry sugeriu que o ataque anunciado por Obama poderia ser cancelado, caso o presidente sírio, Bashar Assad, entregasse “todas as suas armas químicas, sem demora” e permitisse “a verificação completa” do ato pela comunidade internacional. No instante seguinte, tentou neutralizar o efeito de sua própria frase, talvez por perceber o risco que implicava. “Ele [Assad] não o fará, isso não pode ser feito”, disse. Minutos depois, a porta-voz do Departamento de Estado correu em seu socorro, afirmando que ele fizera apenas “uma argumentação retórica”, sobre a “impossibilidade de Assad abrir mão das armas”. Mas era tarde. Muito rápido, o chanceler da Rússia, Sergei Lavrov, que se opõe à guerra, aproveitou a brecha. Assegurou que seu país recomendaria à Síria colocar os arsenais sob supervisão de inspetores internacionais. O círculo fechou-se quando o próprio chanceler sírio, Walid al-Moulen, que estava em Moscou, acolheu a proposta e saudou “a sabedoria da liderança russa, que tenta prevenir uma agressão norte-americana contra nosso país”… Nos instantes seguintes, e na velocidade da internet, a ideia receberia o aval do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, do primeiro-ministro britânico, David Cameron, e de diversos parlamentares em Washington. À noite, um Obama relutante foi obrigado a ceder, parcialmente. Em cinco entrevistas à TV, que haviam sido agendadas para defender o ataque à Síria, ele disse desconfiar do compromisso sírio, mas declarou-se disposto a testá-lo. Outras reviravoltas poderão surgir, mas atacar Damasco, nas novas circunstâncias, havia se tornado insustentável. A questão é: tudo terá sido, mesmo, resultado de um escorregão de John Kerry? Uma série de acontecimentos aconselha a dizer que não. Desde meados da semana passada, os planos de um ataque à Síria sofriam desgaste crescente. A aprovação, no Congresso norte-americano, da resolução de guerra proposta por Obama tornara-se, no mínimo, duvidosa. No plano internacional, aprofundava-se o desgaste do presidente dos EUA, dos governantes e da mídia dispostos a segui-lo. Por trás destas dificuldades, há três hipóteses que merecem ser analisadas com atenção – e comemoradas. Dez anos após mentir intencionalmente ao mundo, no Iraque, Washington não reúne, hoje, condições políticas para desafiar a ONU – einiciar um conflito cujo real objetivo é a afirmação de seu poder geopolítico. Permanece temerário, para governos que se afirmam democráticos, contrariar de modo frontal e aberto a opinião majoritária das respectivas sociedades. Não será aceita, sem contestação, a ideia de que os Estados têm o direito de agir movidos por “informações” que dizem possuir – mas se recusam a compartilhar com os cidadãos. Todas estas hipóteses foram reforçadas por fatos concretos, nos últimos dias – inclusive no cenário interno dos Estados Unidos. Lá, uma opinião pública cansada de guerras e manipulações, e um establishment político profundamente dividido, corroeram uma estratégia esdrúxula da Casa Branca. Consistia em afirmar que existem “provas conclusivas” sobre a responsabilidade do governo sírio pelo ataque químico a um subúrbio de Damasco, em 21/8; mas em evitar a apresentação pública de tais comprovações – que seriam sigilosas e, portanto, exibidas apenas em comitês de senadores e deputados. Já no sábado, um balanço do New York Times revelava que Obama enfrentaria uma “batalha tensa e em contracorrente” para aprovar no Congresso seu pedido de autorização para a guerra. Havia três fatores para isso. Uma parcela importante do Partido Democrata opunha-se por convicção ao conflito – da mesma maneira que o próprio presidente condenou a guerra contra o Iraque quando senador, fora da Casa Branca e, portanto, menos submisso às pressões da máquina de Estado. Um outro setor, que incluía democratas e republicanos, tendia a votar contra o Executivo por pressão direta dos eleitores. Todas as sondagens de opinião pública realizadas nas últimas duas semanas, desde que o presidente anunciou a disposição de atacar a Síria, revelam que uma sólida maioria de cidadãos opõe-se a esta atitude. O jornal estimava que são especialmente sensíveis a tal posicionamento os parlamentares que não têm sua reeleição assegurada – e terão de enfrentar as urnas, em pouco mais de um ano. Esta previsão foi confirmada em 9/9, de modo enfático, por Justin Amash, deputado do estado de Michigan pelo Partido Republicano. Nos encontros públicos, disse ele, “percebo que não há apenas desaprovação à guerra, mas esmagadora desaprovação – seja de eleitores democratas ou republicanos”… A arrogância da Casa Branca, que se julgou desobrigada a oferecer sinais efetivos do suposto envolvimento de Assad no ataque contra civis, ajudou a cimentar a rejeição popular à guerra. No domingo, um texto da agência Associated Press, insuspeita de favorecer o governo sírio, frisava a lacuna. “O público – dizia a matéria – ainda não viu uma única peça de evidência concreta capaz de conectar o governo do presidente Assad aos ataques com armas químicas. Nenhuma imagem de satélite, nenhuma transcrição das comunicações militares sírias: nada”. A terceira razão para os percalços internos de Obama é o acirramento das disputas entre as elites políticas norte-americanas e a consequente dificuldade de Washington para exercer poder global. Ao invocar a parceria do Congresso para a guerra, em 31/8, o presidente imaginou que teria amplo amparo do Partido Republicano – conservador, implicado nos conflitos contra Iraque e Afeganistão, saudoso dos tempos em que os EUA enxergavam-se como potência única. Uma parte dos republicanos de fato o apoiou. Reivindicou, inclusive, que os ataques não se limitassem a “punir” Assad, mas procurassem derrubar ou, ao menos, enfraquecer seu regime. Mas outro setor, ainda mais primitivo, radicalizou-se de modo irreconciliável contra o presidente, nos últimos anos – a ponto de considerá-lo um “socialista” que não merece apoio em circunstância alguma… Na arena internacional, Obama e seus aliados foram pegos num contrapé similar. Confiante no poder bélico incomparável dos Estados Unidos, o presidente agiu como George W. Bush em 2003 e julgou-se com legitimidade para lançar unilateralmente, e sem aval da ONU, uma guerra de pretexto “humanitário”. Num editorial de rara sinceridade publicado em 5/9, a revista Economist apoiou o presidente, mas expôs a verdadeira razão por trás de sua iniciativa. “Os argumentos para a intervenção na Síria são mais estreitos e menos utópicos que no Iraque. Primeiro, está o cálculo dos interesses norte-americanos. A arena internacional é, por natureza, anárquica. (…) Como polícia do mundo, os EUA podem definir as regras de acordo com seus interesses e preferências. Se recuarem, outras potências avançarão (…) A China já provoca a América; Vladimir Putin começou a confrontá-la – e não apenas sobre a Síria. É questionável que a Síria fosse de interesse vital para os EUA, antes deste ataque; mas não depois do desafio direto de Assad à autoridade de Obama”. Em poucos dias, ficaria claro que Washington mantém supremacia militar global, mas arrisca-se a perder, de forma acelerada, algo mais decisivo: o poder político para impor “seus interesses e preferências”. Em 29 de agosto, o Reino Unido, um aliado histórico nas campanhas militares norte-americanas, já havia se recusado a atacar a Síria, após surpreendente voto contrário de seu parlamento. Três dias depois, o papa Francisco anunciou – em fala aos católicos, no Vaticano, e também pelo twitter – sua oposição à guerra. Exortou: “guerra nunca mais. Nunca mais guerra”. Argumentou: “Quanto sofrimento, quanta dor, quanta devastação, traz o uso das armas, em seu rastro”. Por algum tempo, Obama e Kerry contaram com uma compensação parcial: o presidente francês, François Hollande, ofereceu, em 30/9, apoio à intervenção na Síria. Mas suas condições de mantê-lo começaram a evaporar, logo em seguida. Também na França, apenas 25% da população apoia o ataque. Embora a Constituição permita a Hollande ir à guerra sem apoio do parlamento, cresceram os sinais de que o presidente não conseguiria fugir a este teste. Por isso, já na reunião do G-20, em São Petersburgo (5 e 6/9), ele vacilava. Sugeria que talvez fosse melhor adiar o ataque para depois de um parecer dos inspetores da ONU sobre as armas químicas. Não se sabe quando ele sairá e é muito improvável que implique o regime sírio… Em tais circunstâncias, era natural que John Kerry, impulsivo e falastrão, acabasse cometendo alguma gafe. Obama tencionava submeter rapidamente, ao Congresso, a moção em favor da guerra. Quanto maior a demora, mais riscos de o apoio interno e internacional ser corroído pelos fatos. A entrevista do secretário de Estado, em Londres, foi um autêntico festival de absurdos. Talvez para aliviar as pressões sobre Hollande, ele afirmou, por exemplo, que os EUA planejavam, contra a Síria, um ataque “incrivelmente pequeno” [incredibly small]. Desconcertou todos os que conhecem as incertezas dos conflitos bélicos – mas em especial os conservadores norte-americanos, que exigem “firmeza” contra Assad. Desse ponto até o blefe infantil e comprometedor, pronunciado a seguir, foi um passo. Ágil, empenhado em recuperar ao menos parte da antiga influência geopolítica, o governo Putin não deixou a oportunidade escapar. Que virá agora? Os riscos de um ataque à Síria não podem ser, ainda, descartados. Como admite o editorial do Economist, não é de armas químicas que se trata – mas de poder geopolítico. Por isso, a caça a pretextos prosseguirá: agora, provavelmente na forma de condições para a inspeção dos arsenais que o governo Assad não tenha condições de cumprir. Outra possibilidade é um novo ato provocativo. As imagens das vítimas de Damasco, em 21/8, sugerem de fato que foram atingidas por armas químicas; porém, quem as lançou? Um depoimento de Carla Negroponte, da comissão da ONU que investigou atentados aos direitos humanos na Síria, é eloquente: “com o que sabemos até agora, são os opositores do regime os que utilizaram gás sarin”. Conhecidos por seus laços com a Al Qaeda, os “rebeldes” não poderiam animar-se a novas aventuras, capazes de instigar o envolvimento direto dos EUA? Mas o tempo agora corre contra Washington: a lógica das guerras é a ação irrefletida, as “urgências” reais ou produzidas. Além disso, há fatores mais profundos em movimento. Nesta terça-feira (10/9), veio à luz uma nova e impactante sondagem sobre a opinião pública norte-americana. Comprovou a rejeição à guerra – seis de cada dez entrevistados opõem-se até mesmo aos ataques aéreos “limitados” a que se refere Obama. Indicou que, segundo 80%, os objetivos da guerra contra a Síria “não estão claros”. Mas revelou, também, um nítido desconforto da própria população com o papel imperial que os governantes querem preservar para os EUA. A ideia de que seu país deve exercer “liderança na resolução de conflitos externos” é rechaçada por 62% dos norte-americanos e apoiada por apenas 34%. A desaprovação é 19 pontos percentuais mais alta que à época da guerra contra o Iraque (43%), há dez anos. Obama assumiu a Casa Branca, em 2002, prometendo virar a página de intervencionismo e arrogância, que marcou a era Bush, e resgatar os valores positivos que os EUA imaginavam ter projetado, em décadas passadas. Chegou até mesmo a receber o Prêmio Nobel da Paz. Porém, concessão depois de concessão, curvou-se de tal modo ao establishment político – particularmente ao chamado “complexo industrial-militar” – que se reduziu a uma peça muito funcional à engrenagem. Um presidente negro, neto de africanos e de passado progressista, mostrou-se afinal mais útil que seu antecessor para comandar tarefas como o assassinato extra-judicial de milhares de pessoas, por drones; a ampliação ilimitada das redes globais de espionagem; a perseguição aos que a denunciam. É possível que a aventura síria dispare um forte alerta contra este processo. Talvez, em vez de Bashar Assad, tenha sido Barack Obama quem “cruzou a linha vermelha”, no episódio. Se for assim, é possível esperar, daqui em diante, maior resistência internacional aos planos de um governante que já não pode usar máscaras. E salta aos olhos, neste ponto, um último aspecto, preocupante: a desarticulação da chamada “sociedade civil global”. Há dez anos, às vésperas de George Bush iniciar a guerra contra o Iraque, ela promoveu manifestações nos cinco continentes. Segundo certas estimativas, reuniram 13 milhões de pessoas. Não frearam a ofensiva militar, mas foram essenciais para deslegitimá-la. Foram articuladas em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial (FSM) de 2003. Levaram o próprio New York Times, a falar na emergência de uma segunda superpotência mundial. Na crise síria, esta “superpotência” esteve ausente. O papel mais destacado na oposição a Washington coube a… Vladimir Putin, presidente da Rússia. A mesma ausência tem se repetido em uma série de acontecimentos globais de grande relevância – da crise financeira à defesa dos perseguidos por denunciarem a espionagem de Washington. O esvaziamento dos FSMs, a partir de 2005, não foi corrigido nem substituído por outro espaço ou mecanismo de articulação. Fazê-lo será, cada vez mais, um desafio estratégico. * Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Antonio Martins, do Outras Palavras
Climate Sociedade

Ajustamos o termostato do planeta para nos gratinar lentamente

“Temos cinco minutos para a meia-noite”, afirmou Rajendra Pachauri, do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas, que lançará um novo relatório sobre a situação do aquecimento global até o final do mês. Segundo ele, temos muito pouco tempo para evitar a tão falada catástrofe em nosso sistema climático. Quem lê essa declaração (e viveu a Guerra Fria) é capaz de se lembrar do “Relógio do Juízo Final“, um medidor simbólico mantido pelo Boletim dos Cientistas Atômicos, nos Estados Unidos, que mostra o quão perto estamos de destruir nossa civilização por tecnologias que criamos. Inicialmente, ele retratava o risco de armas nucleares, mas, recentemente, passou também a considerar mudanças climáticas, biotecnologia e nanotecnologia, entre outras, que podem, mesmo sem intenção, passar a régua na humanidade. Na pior situação do relógio, chegamos a 2 minutos da meia-noite (em 1953, com sucessivos testes nucleares do EUA e da União Soviética) e, na melhor, a 17 minutos (com a redução do arsenal nuclear ao fim da Guerra Fria). Desde 2012, o reloginho está estacionado a 5 minutos do fim por conta do risco de uso de armas nucleares em conflitos pelo mundo, de desastres em usinas atômicas e, é claro, por conta das soluções insuficientes para o processo de mudança climática. Nossa sociedade não evoluiu pensando em um plano B e agora que ajustamos o termostato do planeta para a posição “Gratinar os Consumistas Lentamente” ficamos nos debatendo com discursos mequetrefes de que a economia não pode pagar pelas necessárias mudanças no modelo de desenvolvimento pela qual passa a solução. E, ainda por cima, alguns perus e frangos acham que o forno não está ligado e clamam pelo direito de continuar poluindo. Não só está ligado como em contagem regressiva. Tendo em vista todo esse negacionismo maluco, um renomado cientista declarou, pouco antes de uma das cúpulas do clima, que era melhor então deixar os fatos tomarem seu curso natural, o mundo aquecer, refugiados ambientais quadruplicarem, cidades nos países ricos serem invadidas pelo mar, a fome surgir no centro do mundo, guerras ambientais ocorrerem. Só assim pessoas e países tomariam atitudes mais fortes que as alternativas atuais, como o mercado de carbono. Situação que, no Brasil, é vulgarmente conhecida como “a hora em que a água bate na bunda”. O problema é que, seguindo a toada, quando chegarmos nesse ponto, talvez não haja mais traseiro para salvar. Como já disse aqui, não é à toa que uma das mais estranhas e, ao mesmo tempo, brilhantes alianças políticas no parlamento brasileiro seja entre a bancada evangélica e a bancada ruralista. De um lado, os fieis ajudam a garantir a manutenção de um desenvolvimento a qualquer preço, passando por cima do meio ambiente, como se não houvesse amanhã. Do outro, os fazendeiros contribuem para que os direitos humanos sejam rasgados diante de uma visão distorcida de religião, garantindo que não faça muito sentido existir um amanhã. O pacto é perfeito. Diante do desespero do caos ambiental (fomentado pelos ruralistas ao derrubarem o Código Florestal), mais fieis irão a igrejas. Pois só restará lamentar. Ou rezar. Até porque, do ponto de vista do meio ambiente ou da dignidade humana, antecipam todos o dia do juízo final. Enquanto isso, a maioria segue escondida no conforto do anonimato, defendendo o seu, fazendo meia dúzia de ações insignificantes para dormir sem o peso da consciência, comprando da periferia do mundo o direito de continuar poluindo e o resto que se dane. Não querem mudanças no modelo de desenvolvimento que impactaria o “American Way of Life” que importamos, apenas reciclar latinhas de alumínio e dar três descargas a menos no vaso sanitário por dia. Deixar de comprar? Tá maluco! Alguns consideram que a avaliação de Rajendra é pessimista. Eu não. Há indícios suficientes de que a vaca já foi para o brejo. Dá um nó na garganta saber que as próximas gerações irão falar de nós entre os dentes. Não porque fomos a única geração responsável pelas altas concentrações de CO2 na atmosfera. Mas porque sabíamos disso e não fizemos o necessário. * Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política.  ** Publicado originalmente no Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto*
Foto: Reprodução/ Internet Inter Press Service - Colunistas

Os jornais estão se convertendo em brinquedo de multimilionários

  [caption id="attachment_98031" align="alignleft" width="300"] Foto: Reprodução/ Internet[/caption] San Salvador, Bahamas, setembro/2013 – Atualmente poucas pessoas sabem que quando foram criadas as primeiras agências de notícias, no século 19, a Havas francesa e a britânica Reuters dividiram o mundo entre elas. A divisão seguiu as fronteiras dos dois impérios coloniais. A América Latina foi parar nas mãos da Havas, enquanto a Reuters ficou com os Estados Unidos. A primeira agência norte-americana que rompeu o monopólio foi a United Press International (UPI), alegando que os Estados Unidos não podiam ser vistos através dos olhos britânicos, um argumento muito parecido à queixa do Terceiro Mundo contra o monopólio de informação do Norte. No mundo da mídia, esta agência era considerada um gigante, por isso foi uma surpresa quando, em 1986, um milionário mexicano, Mario Vázquez Raña, comprou a UPI por US$ 41 milhões e pronunciou a célebre frase: “Eu tinha dois jatos Falcon. Vendi um e comprei a UPI”. Desde então a concentração de meios de comunicação em mãos de multimilionários proliferou. Os casos de Murdoch e Berlusconi são os mais famosos. Alguns observadores veem nisto um giro à direita, impulsionado pelos que têm dinheiro. Não se trata de uma teoria da conspiração. Simplesmente, cem possuidores de uma Ferrari tendem a ter uma visão mais coincidente sobre as coisas do que, por exemplo, os donos de cem Volkswagen. Os Estados Unidos são um bom observatório no mundo da informação. Na verdade, o termo meios de comunicação de massa foi cunhado nos Estados Unidos, porque as vendas dos veículos deveriam ser grandes para serem considerados viáveis. Na Europa, a mídia não se dirigia à massas. O famoso Times de Londres (agora em mãos de Murdoch) vendia cerca de 50 mil exemplares, e seus leitores eram a elite do Império Britânico. Os jornais europeus eram culturais, com artigos longos e bastante analíticos. Os meios de comunicação norte-americanos partiram na direção oposta e assim nasceram os mass midia. Nas últimas semanas, uma impressionante série de prestigiosos jornais norte-americanos foi comprada por milionários. O caso mais conhecido é o do Washington Post, considerado o jornal mais influente junto com o New York Times. Durante os últimos 80 anos, o Post esteve nas mãos da mesma família, os Graham. Jeffrey Bezos, fundador da Amazon, o comprou por US$ 250 milhões, cifra que representa 1% dos 25 bilhões de sua fortuna pessoal (a Amazon conta com uma capitalização de mercado de US$ 128,37 bilhões). A venda incluiu no pacote vários outros jornais locais, avaliados há dez anos em US$ 5 bilhões. Este fato é um golpe de morte definitivo para os jornais de propriedade familiar. Houve um tempo em que os Chandler eram proprietários do Los Angeles Times, os Copley do San Diego Tribune, os Cowles do Minneapolis Star Tribune, e os Bancroft do Wall Street Journal (WSJ). Aquelas famílias defenderam a independência e a identidade de seus jornais. É patente a diferença entre o WSJ dos tempos dos Bancroft e o de agora, propriedade do onipresente Murdoch. O Boston Globe foi comprado por outro multimilionário, John Henry, por apenas US$ 70 milhões. O New York Times (NYT) pagou US$ 1,1 bilhão em 1993 pelo Globe. Até quando o NYT continuará sendo a última referência do jornal familiar, neste caso propriedade de quatro gerações da família Sulzberger, desde 1896? O NYT não sofre perdas, mas não deixa de ser um peixinho em um mundo de tubarões. Tem uma capitalização de mercado de US$ 1,67 bilhão contra os US$ 56,663 bilhões de ativos da Murdoch News Corporation, os US$ 27 bilhões da família Bloomberg, os US$ 93,86 bilhões do Facebook, ou os 284,04 bilhões do Google. Dito de outra forma, hoje em dia a palavra está com o dinheiro. E, segundo parece, a batalha pelo futuro será travada na internet. A Aliança de Meios de Comunicação Auditados informou recentemente sobre uma queda drástica nas vendas de revistas. A Newssweek foi comprada em 2010 por um dólar pela IBT Media, uma companhia pouco conhecida, enquanto outras revistas, como Vogue, Vanity Fair, Metropolitan e People seguem pelo mesmo caminho. Segundo a mesma fonte, nos Estados Unidos as assinaturas online aumentaram de 5,4 milhões para 10,2 milhões no último ano. O New York Times já superou os 60 mil assinantes graças a uma agressiva campanha de assinaturas online. Estão seguros de que isto garantirá a viabilidade do jornal no longo prazo e dessa forma descartam a possibilidade de venda. No entanto, o que se avizinha no horizonte é que a linha que separava os meios de comunicação, quanto ao conteúdo, das redes de distribuição, está ficando apagada. Google, Facebook, Microsoft e Yahoo buscam mais notícias para transmitir, e mais publicidade. Com a compra do YouTube e do Zagat, o Google entrou com tudo no campo do conteúdo. O Yahoo comprou um novo sistema de microblogging, que permite que 119 milhões de usuários publiquem rapidamente palavras e imagens, por US$ 1,1 bilhão, mais que o triplo dos preços combinados das vendas do Post e do Globe. Nada mais demonstrativo de como os nomes de prestígio estão a preço de banana. Entretanto, os assinantes online representam uma mudança antropológica em relação ao antigo leitor. As suas são mentes inquietas, ansiosas por mudar de página, e isto fará com que reduzam progressivamente os artigos extensos e as análises. Este processo se acentuará na medida em que avançar a mudança geracional. Um detalhado estudo da Universidade de Paris indica que entre as pessoas na faixa dos 14 aos 16 anos observa-se um período de atenção menor do que o de seus pais, algo que qualquer professor pode confirmar. Além disso, para os jovens está desaparecendo a fronteira entre o jornalismo tradicional e profissional e o chamado jornalismo-cidadão, realizado por qualquer pessoa que queira publicar notícias e fotos na rede. Como resultado, qualquer texto com mais de 850 palavras (como este artigo muito resumido, com mil palavras) é considerado excessivamente longo para ser publicado. Isto faz prever um mundo melhor informado e mais consciente? * Roberto Savio, fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e editor do Other News.


por Roberto Savio*
“Ele imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo esforço intelectual”. Reflexões em torno de poema de Brecht, no século 21 Sociedade

O analfabeto midiático

[caption id="attachment_97714" align="aligncenter" width="527"] “Ele imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo esforço intelectual”. Reflexões em torno de poema de Brecht, no século 21[/caption]   Leia, ao final do texto, O Analfabeto Político, de Bertolt Brecht O pior analfabeto é o analfabeto midiático. Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. E que elas – na era da informação instantânea de massa – são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê – que também estão presentes na internet – a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país. Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%. O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar. Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos. Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”. Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada. O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista. O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica – para não estender demais os campos do conhecimento – para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos. Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.” O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público. Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia. Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. — O analfabeto político O pior analfabeto, é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, O preço do feijão, do peixe, da farinha Do aluguel, do sapato e do remédio Depende das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil, Que da sua ignorância nasce a prostituta, O menor abandonado, O assaltante e o pior de todos os bandidos Que é o político vigarista, Pilanta, o corrupto e o espoliador Das empresas nacionais e multinacionais. (Bertold Brecht) * Puiblicado originalmente no site Outras Palavras. mídia, comunicação, comportamento, sociedade,


por Celso Vicenzi*
Manifestação pela Avenida M'Boi Mirim, periferia na zona sul de São Paulo. Foto: Marcelo Camargo / ABr Sociedade

Qual é o habitat do ser humano?

[caption id="attachment_97710" align="aligncenter" width="400"] Manifestação pela Avenida M'Boi Mirim, periferia na zona sul de São Paulo. Foto: Marcelo Camargo / ABr[/caption]   O progresso a qualquer custo tem negligenciado o ser humano. Construções sustentáveis tentam resgatar essa dívida. Habitat é o local ideal para que uma espécie, seja ela animal ou planta, possa se desenvolver, se alimentar e procriar. Pesquisadores já identificaram os habitats de inúmeras espécies. Sabemos, por exemplo, quais são os melhores lugares para que o elefante, a onça, o tamanduá-bandeira e o esquilo possam viver. Identificamos os biomas naturais e os seres vivos que os habitam. Até mesmo fomos capazes de considerar algumas espécies como exóticas, quando elas passam a ocupar e interagir de maneira pouco saudável com as espécies chamadas nativas dessa região. E nós, humanos, quais são os nossos ambientes, nem diria naturais, mas ideais para podermos viver com qualidade? Ao longo da nossa história, as cidades e comunidades humanas foram sendo formadas levando em conta as questões ambientais existentes no local. Bom exemplo é o da água, vital para a sobrevivência. Nós humanos íamos ao seu encontro e instalávamos nossas moradias próximas às fontes do líquido precioso. Não é à toa que todas as grandes civilizações do passado se desenvolveram em torno dos grandes rios e muitas continuam lá até hoje. O crescimento desordenado plenamente acompanhado da evolução tecnológica capacitou o homem, em sua megalomania, a vencer, domar a natureza criando espaços artificiais que aterraram e desviaram rios, asfaltaram a terra e eliminaram os outros seres vivos que, de alguma forma, bloqueassem esse caminho chamado de progresso, até mesmo outros seres humanos (indígenas e povos tradicionais, só para citar alguns). Claro que muita coisa boa foi criada, mas junto com interessantes inovações vieram também a total falta de bom senso em relação a uma análise criteriosa sobre os benefícios e malefícios envolvidos com essas transformações. Perguntas básicas deixaram de ser feitas, como as que envolvem, o quanto determinada obra impacta a vida de todos e interfere nas fundamentais leis naturais a que todos nós estamos subordinados. As cidades, assim como elas foram concebidas, representam a melhor e mais saudável maneira de se viver? Uma perversa consonância entre ganância, ignorância e ausência de planejamento foram os principais responsáveis pelo atual caos generalizado dos grandes aglomerados urbanos, notadamente nos países mais pobres e em desenvolvimento. Sem que isso signifique que o tal mundo desenvolvido tenha equacionado tais problemas, mas ao menos foram capazes de trabalhar em parte com maior seriedade. Um novo cenário. Tal estado de coisas ao menos foi capaz de fazer surgir um movimento povoado de boas intenções conhecidos por vários formatos como ecovilas, cidades e comunidades sustentáveis, movimentos de moradias alternativos e também as chamadas construções sustentáveis. Na semana passada, São Paulo foi palco do Greenbuilding Brasil que em sua quarta edição mostra um mercado em crescente expansão. Só para ter ideia, esse mercado de construções sustentáveis partiu de um patamar de 3% do PIB geral da construção civil brasileira em 2010, para 9% em 2012. O registro de empreendimentos que buscam obter a certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), principal certificadora do gênero no Brasil, partiu de 1 projeto em 2004 para 219 pedidos em 2012. O Brasil já registra um total de 109 edificações devidamente certificadas como sustentáveis e ocupa a 4ª posição no mundo nesse cenário atrás de EUA, China e Emirados Árabes. Ainda é pouco, principalmente se levarmos em conta o boom do mercado imobiliário nos últimos anos, mas demonstra uma crescente preocupação com os impactos causados pelo setor. Um estudo realizado pela Universidade de Oxford (Inglaterra), feito a pedido da OIT (Organização Internacional do Trabalho), constatou ser o setor da construção civil responsável por 40% das emissões dos gases de efeito estufa do planeta. Além disso, os custos maiores de uma obra sustentável que podem atingir de 1 a 3%, pouco mais do que uma construção convencional, serão plenamente compensados se analisarmos que ao longo da vida útil de um edifício, 80% dos custos envolvem gastos com manutenção. Portanto, redução nos consumos de energia, água e o uso de materiais locais e menos agressivos ao meio ambiente que já contribuem positivamente para a sustentabilidade, também irá aliviar o desembolso mensal daqueles que optarem por essas obras mais sustentáveis. Políticas públicas. Mas é verdade também que mais do que o crescimento das construções sustentáveis - ou novas ecovilas - e mesmo o desenvolvimento de núcleos de moradias autossuficientes será preciso um envolvimento mais sério dos nossos gestores públicos responsáveis pela elaboração de macro políticas urbanistas. Será preciso uma nova visão que pense as atuais cidades e as futuras aglomerações urbanas de modo a priorizar uma maior integração com o meio ambiente e o uso racional de todos os recursos disponíveis. Prioridade também para o bem viver de todos, mais próximo de uma imagem do paraíso, ao invés do inferno atual das metrópoles. Mais harmonia no dia a dia e menos estresses cotidianos que empobrecem as nossas rotinas e prejudicam a saúde física e psicológica de tantas pessoas. E, antes de mais nada, possam fazer a simples e óbvia pergunta que ainda não foi respondida no início dessa missiva e que de certa maneira também não foi feita ao longo de toda a nossa história, afinal, qual é mesmo o habitat do ser humano? Quem se habilita? * Reinaldo Canto é jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente e pós-graduado em Inteligência Empresarial e Gestão do Conhecimento. Passou pelas principais emissoras de televisão e rádio do País. Foi diretor de comunicação do Greenpeace Brasil, coordenador de comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e colaborador do Instituto Ethos. Atualmente é colaborador e parceiro da Envolverde, professor em Gestão Ambiental na FAPPES e palestrante e consultor na área ambiental. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Reinaldo Canto*
Um mural em Bushwick, Nova York, busca conscientizar sobre os direitos de seus habitantes na hora de tratar com a polícia. Foto: Kim-Jenna Jurriaanas/IPS Inter Press Service - Reportagens

Jovens de Nova York expõem cicatrizes da política policial

[caption id="attachment_97696" align="aligncenter" width="529"] Um mural em Bushwick, Nova York, busca conscientizar sobre os direitos de seus habitantes na hora de tratar com a polícia. Foto: Kim-Jenna Jurriaanas/IPS[/caption]   Nova York, Estados Unidos, 4/9/2013 – Um colorido mural ocupa uma fachada inteira de um prédio de três andares na esquina das avenidas Gates e Irving, no bairro nova-iorquino de Bushwick, no Brooklyn. Nele se vê um grupo de jovens filmando uma prisão com seus celulares. Acima, uma legenda que diz: “Você tem o direito de olhar e filmar as atividades policiais”. “Pintamos este mural para informar as pessoas sobre seus direitos”, explicou Justin Serrano, de 19 anos, que cresceu nesta comunidade de origem predominantemente latino-americana, onde cerca de um terço das famílias é pobre. O muro, pintado por jovens do Make the Road New York, uma organização não governamental que tenta empoderar a juventude de comunidades trabalhadoras de toda a cidade, reflete a presença dominante que tem a polícia na vida deste setor da população de Bushwick. Também permite compreender sua relação com o Departamento de Polícia de Nova York (NYPD). Para os jovens que crescem em comunidades de imigrantes com a de Bushwick, essa relação esteve marcada na última década pela persistente política de parar, interrogar e revistar. Esta política de abordagem e revista (stop and frisk), permite aos agentes agirem em relação a pessoas que despertam suspeitas razoáveis de estarem envolvidas em alguma atividade criminosa. É uma tática básica da “tolerância zero” que Nova York aplica, e se tornou o “modus operandi” das gestões dos dois últimos prefeitos. Michael Bloomberg, atual prefeito, e o comissário de polícia, Ray Kelly, atribuem a esta política a redução dos crimes violentos em toda a cidade e de terem tirado de circulação oito mil armas. Contudo, especialistas em justiça penal e defensores das liberdades civis questionam há tempos a efetividade desta política e que o NYPD a aplique especialmente nas comunidades pobres de imigrantes e negros. Dados do NYPD mostram que, entre 2003 e 2012, a polícia parou e revistou quase cinco milhões de pessoas. Em aproximadamente 88% dos casos, a pessoa era negra ou latino-americana. E em 90% a polícia não conseguiu comprovar nenhum delito. Só no ano passado foram parados e revistados 400 mil vezes negros e latino-americanos. Embora a quantidade de pessoas abordadas nas ruas tenha disparado nos últimos anos, a apreensão de armas se manteve persistentemente baixa ao longo da década, e só aconteceu em menos de 1% das detenções. [caption id="attachment_97697" align="aligncenter" width="560"] Nova York, Estados Unidos, 4/9/2013 – Um colorido mural ocupa uma fachada inteira de um prédio de três andares na esquina das avenidas Gates e Irving, no bairro nova-iorquino de Bushwick, no Brooklyn. Nele se vê um grupo de jovens filmando uma prisão com seus celulares. Acima, uma legenda que diz: “Você tem o direito de olhar e filmar as atividades policiais”. “Pintamos este mural para informar as pessoas sobre seus direitos”, explicou Justin Serrano, de 19 anos, que cresceu nesta comunidade de origem predominantemente latino-americana, onde cerca de um terço das famílias é pobre.[/caption]   No entanto, avistam-se mudanças com as duas vitórias históricas anotadas em agosto pelos defensores da reforma policial em Nova York, apesar de milhões de detenções de inocentes terem deixado danos colaterais, afirmam trabalhadores comunitários e juristas. O explosivo aumento das paradas e revistas direcionadas a homens jovens não anglo-saxões preocupa pelo impacto que pode ter em gerações que crescem excessivamente controladas pela polícia, segundo o pesquisador Brett Stoudt, professor de psicologia na Faculdade John Jay de Justiça Penal e do Centro de Graduados da City University of New York. [caption id="attachment_97698" align="alignleft" width="350"] Abordagens e revistas por raça: brancos, negros, latino-americanos, asiáticos e outros. Fonte: Departamento de Polícia de Nova York[/caption] Entre 2008 e 2009, os jovens de 14 a 21 anos representaram um terço das paradas e revistas, apesar de constituir apenas a décima parte da população da cidade, revela um dos estudos. As reiteradas detenções policiais sem motivo têm um efeito desmoralizador nos jovens, enfatizou Stoudt. A enorme persistência dessas medidas em certos bairros também cria um “entorno cíclico” que aumenta as possibilidades de os jovens dessas comunidades ficarem presos no sistema penal “por um motivo ou outro”, segundo Stoudt, coautor do informe “Práticas de abordagem, interrogatório e revista na cidade de Nova York”. Por exemplo, “em uma abordagem o agente pode encontrar uma pequena quantidade de maconha e o jovem em questão pode se assustar e sair correndo”, explicou à IPS. Serrano já foi parado pela polícia na rua mais de 20 vezes. “Me sentia como se não fosse humano”, contou. Em uma ocasião se dirigia apressadamente para sua casa para levar remédios para sua mãe e acabou na delegacia. Em Nova York as experiências dos jovens com a polícia não se limitam às ruas, se estendem a escolas e prédios habitacionais, onde o NYPD pode ter presença legal. Esta vigilância de todos os aspectos da vida cotidiana pode alterar notavelmente a conduta pessoal e levar, por exemplo, uma pessoa a evitar pedir ajuda à polícia quando necessitar, pontuou Stoudt. Sentado em um banco no parque, Serrano para de chupar seu sorvete por um momento para aconselhar dois amigos mais jovens que estão em suas bicicletas BMX. “Precisam largar as bicicletas. Desde que comecei a usar meu skate fui parado bem menos”, disse aos garotos. Serrano também deixou de passear pela sua vizinhança. Agora se reúne com seus amigos em um lugar de um bairro próximo, onde a polícia não os molesta. [caption id="attachment_97699" align="alignright" width="400"] Detenções de inocentes, em verde-escuro, comparadas com o total de detenções, em verde-claro. Fonte: Departamento de Polícia de Nova York[/caption] No bairro de Flatbush, no Brooklyn, poucos quilômetros ao sul de Bushwick, Keron Gray evita estar na rua com seus “barulhentos amigos” e se mantém longe de caminhos onde seja mais provável ser abordado. “É  indigno. Quando se está fazendo compras na Quinta Avenida (de Manhattan) isso não acontece”, afirmou. Funcionários municipais defendem há tempos o sistema de parada e revista, argumentando que em certas áreas há maior prevalência de crimes violentos. Em uma decisão histórica, a juíza Shira Scheindlin rejeitou, no dia 12 de agosto, esse argumento e estabeleceu que a parada e a revista do NYPD criam “uma política de elaboração indireta de perfis raciais” que viola os direitos constitucionais dos que não são brancos. Scheindlin ordenou um processo drástico de reforma. No final de agosto, o Conselho da Cidade de Nova York anulou um veto do prefeito e aprovou dois projetos que estabelecem o controle independente das políticas do NYPD e ampliam os recursos legais contra os perfis criminosos baseados em critérios tendenciosos. No entanto, o prefeito Bloomberg, que apelou da sentença, afirmou que as duas decisões limitarão o trabalho policial e terão como consequência a volta do crescimento dos crimes violentos. Entre os fatos de agosto e a investidura de um novo prefeito em 2014, parece inevitável uma reforma da maior força policial dos Estados Unidos. Para Serrano, parte do dano é irreparável. “A primeira vez que fui detido, eu estava com meu irmão mais novo. Até hoje ele me vê diferente, com se fosse um criminoso”, contou. Envolverde/IPS


por Kim-Jenna Jurriaans, da IPS
Cuba1 Inter Press Service - Reportagens

Cuba, futuro imperfeito

Havana, Cuba, setembro/2013 – Diante de uma loja em Havana, onde são vendidos produtos em divisas, vários vendedores informais oferecem aos possíveis clientes produtos deficitários: pámpers (sic), quadros, baterias de automóveis, o que quer que já tenha sido e já não é. Em uma área bastante exclusiva da praia de Varadero, o principal polo turístico cubano, uma horda de vendedores de caracóis percorre sua extensão oferecendo sua mercadoria aos visitantes. Diante da minha casa, a cada manhã, passa um homem anunciando vender tanques de água. Em um ponto de ônibus alguém pratica um negócio que está se generalizando na cidade: trocar um peso por oitenta centavos em frações, pois desta forma o que vende o peso pode pagar a passagem de dois ônibus e o que compra ganha 20 centavos, ou seja, negócio bom para ambos, embora para desgosto dos motoristas e cobradores que ficavam com os 60 centavos que deveriam devolver. Como esses, muitos são os “ofícios” alternativos ou informais que foram aparecendo por esta ilha nos últimos anos. A maioria dos que os exercem são jovens que encontraram nos cantos mal iluminados da sociedade, formas mais lucrativas de ganhar a vida do que as oferecidas pelos salários do Estado, maior empregador do país. Com estes ofícios ou negócios (que chegam aos extremos éticos do exercício da prostituição) uma pessoa pode obter o dinheiro necessário para sobreviver de um modo muito mais satisfatório do que com um simples trabalho formal. Os ofícios informais existem em todo o mundo. Mas proliferam, sobretudo, onde há problemas de pobreza e desemprego. Em Cuba quase desapareceram por décadas, em parte por razões econômicas e em parte por compulsão social. O ressurgimento e auge desta maneira de ganhar a vida tem como causa econômica a desproporção entre salários e custo de vida, e como principais protagonistas os jovens. São pessoas em muitos casos ainda em idade escolar (pré ou universitária) que optaram, ou foram obrigadas a optar, pela rua em lugar da sala de aula. Em qualquer dos dois casos (a opção obrigatória ou voluntária) sobre eles influiu a perda de prestígio social e de capacidade econômica que significa ser um trabalhador ou mesmo um profissional. Eles sabem que entre os universitários há os que conseguem trabalhar perto de uma fonte de divisas da qual podem se beneficiar, transitam o caminho para ter uma vida tranquila. Mas, por uma ou outra das opções, decidiram não jogar essa roleta russa, mas sim resolver o presente pelo caminho do menor esforço. Há alguns meses perguntava em uma crônica o que poderia pensar da vida o jovem de 17, 18 anos que a cada manhã se planta na calçada do quarteirão onde moro para vender alho e abacate. Gostaria de saber, dizia, quais expectativas de futuro tinha. Ou, melhor ainda, se tinha ideia do que era possuir expectativas de futuro. O fato de ganhar em um dia cem pesos sem roubar ninguém parecia satisfazer esse jovem que ganhava cinco vezes mais do que um médico com consultas e responsabilidades profissionais. Por tal motivo o número de “informais” cresce, e diria que diariamente. Felizmente, seus ofícios dependem da habilidade, da ineficiência de certos mecanismos estatais, da corrupção, da escassez. E digo felizmente porque ainda hoje muitos deles não transgridem certas fronteiras, após as quais existe um enorme perigo para eles e para o resto da sociedade. Observando a passagem dos vendedores de caracóis de Varadero, não pude deixar de me perguntar o que farão em certo momento alguns desses jovens sem classe social se sua atividade deixar de ser possível ou rentável. Essa esquadra que hoje percorre a praia, em que pode derivar no futuro? O melhor seria encontrarem uma forma decente de ganhar a vida, o que significaria uma revolução profunda no quadro econômico no qual nasceram e viveram por mais de duas décadas. E se não a encontram? Então se converterão em caldo de cultivo para as atividades que estão por trás dessas fronteiras perigosas. Para evitar essa queda, naturalmente, não seria suficiente a repressão legal e policial, pois seria apenas uma solução momentânea. Impõem-se criar alternativas viáveis, porque não imagino muitos desses jovens convertidos, digamos, em agricultores ou pedreiros filiados a uma cooperativa na qual o ganho dependerá do trabalho puro e duro, muitas horas sob o Sol, a pressão dos colegas e a obrigação de entregar ao fisco algo como um terço de seus ganhos. Talvez para muitos desses informais o tempo da superação já tenha passado e, para sempre, estão destinados a se moverem nos fossos da sociedade, fazendo os trabalhos mais sujos ou pior pagos, ou saltando diretamente para a criminalidade em qualquer de suas muitas formas existentes. E tais possibilidades me dão pena por esses jovens e terror pelo resto dos cidadãos que nesse futuro possível conviveriam com eles. Envolverde/IPS * Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua obra mais recente, O Homem Que Amava os Cães, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ramón Mercader.


por Leonardo Padura*

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