Dois repórteres e o escândalo da Siemens

Sociedade

Dois repórteres e o escândalo da Siemens


por Redação da Agência Pública


Parte das informações divulgadas na carta do ex-executivo da Siemens foram publicadas por Gilberto Nascimento na Carta Capital em 2009. Por uma falha de edição, a Pública cometeu uma omissão na matéria “O repórter que descobriu o whistleblower da Siemens”. Parte das denúncias contidas na carta do ex-executivo – sobre o cartel e o esquema de corrupção no metrô de São Paulo, envolvendo o governo estadual – já haviam sido publicadas pelo repórter Gilberto Nascimento na revista Carta Capital, em 2009. A carta, porém, só foi publicada na íntegra em maio de 2012, em trabalho assinado por Bryan Gibel no site da UC-Berkeley, assim como a entrevista com a fonte. O repórter Bryan Gibel cita que procurou a bancada legislativa do PT em São Paulo depois de conversar com jornalistas brasileiros; através do partido, chegou ao whistleblower, como relata na reportagem publicada em nosso site. Em comunicação com a Pública, ele confirmou ter conversado com o repórter Gilberto Nascimento após a leitura da matéria, que o ajudou, mas ele só chegou à fonte depois de frequentar por semanas a Assembleia Legislativa de SP. Nascimento, porém, considera “uma inverdade” dizer que Gibel “descobriu” o whistleblower da Siemens. “Eu dei as dicas para ele (Bryan) porque ele estava fazendo uma trabalho de mestrado, não era concorrente, e não publiquei a carta inteira porque achei que não fazia sentido publicar anônimamente”, explica Gilberto. O trabalho de mestrado, realizado por Bryan Gibel na UC-Berkeley, é, na verdade, também uma reportagem, uma vez que o encerramento do curso dirigido pelo jornalista investigativo Lowell Bergman, exige uma matéria jornalística, em vez da tradicional dissertação de mestrado, em sua conclusão. Gibel e Bergman também checaram na Siemens, à época, se a empresa havia recebido a carta, como ele explica na reportagem da Pública. Por isso, tinham as garantias de autenticidade do documento que faltava à época da matéria de Gilberto Nascimento na Carta Capital. “A minha tese é fruto de mais de dois anos de investigação jornalística que eu fiz como parte do Programa de Jornalismo Investigativo na Universidade de Berkeley, sob a supervisão dos jornalistas da universidade. Ela foi retirada do site da universidade na semana passada por questões de privacidade de algumas das fontes mencionadas”, diz Bryan. Confiante na boa-fé dos envolvidos, a Pública se desculpa por ter trazido polêmica para um assunto tão caro aos jornalistas: o “furo”. Reiteramos que todas as informações da reportagem de Bryan Gibel continuam corretas, tendo havido um equívoco de nossa autoria no olho (resumo) da reportagem, já corrigido por nós. Leia a matéria de Bryan Gibel aqui. * Publicado originalmente no site Agência Pública.  

O presidente do Comitê Organizador Local, José Maria Marin, participa do balanço da Fifa sobre a Copa das Confederações. Foto: Agência Brasil Sociedade

Por que a Copa perdeu apoio entre os brasileiros?

[caption id="attachment_97188" align="alignleft" width="300"] O presidente do Comitê Organizador Local, José Maria Marin, participa do balanço da Fifa sobre a Copa das Confederações. Foto: Agência Brasil[/caption] Em 2012, o evento e as empresas patrocinadoras tinham apoio da maioria da população. O que mudou? Para alguns, pode ter sido uma surpresa a desaprovação a empresas que estavam simplesmente patrocinando uma competição esportiva de alcance nacional, mas os novos tempos exigem também novas posturas e atenção às demandas da sociedade. Um estudo divulgado pela empresa Nielsen mostra que os consumidores demonstram reprovação às empresas que anunciaram seus produtos e serviços durante a Copa das Confederações em junho último. A rejeição à realização da Copa do Mundo em 2014 no Brasil também atingiu níveis inéditos. O que surpreendeu os pesquisadores foi a mudança de percepção dos consumidores. Em 2012 a Copa no Brasil era apoiada por 71% dos entrevistados; 67% também apoiavam as marcas patrocinadoras do evento. Na época apenas 3% rejeitavam as marcas que se vincularam à Copa e 33% consideravam o evento um mau negócio. Ao final da Copa das Confederações, a mesma pesquisa constatou que o apoio à realização da Copa caiu para 45% e o apoio às marcas patrocinadoras desabou para 32%. Ao mesmo tempo, a rejeição ao evento subiu para 22%. A pesquisa foi feita com 1.420 pessoas em São Paulo e nas seis cidades sede da Copa das Confederações. Entre as razões para essa virada na opinião dos entrevistados estão as suspeitas de superfaturamento na construção dos estádios, a ausência de obras de infraestrutura e as manifestações de rua, que questionaram os gastos públicos para bancar a competição. Grandes empresas e corporações privadas sempre tiveram e vão continuar a ter - imagina-se por muito tempo - influência sobre a vida das pessoas. Basta lembrar que existem conglomerados multinacionais maiores do que países (caso seus valores de mercado fossem comparados com os PIBs de algumas nações mais pobres e outras nem tão pobres assim). Mais do que questionar esse poder, é preciso fazer com que a iniciativa privada seja capaz de assumir compromissos muito além do que faziam num passado recente, vinculado estritamente ao seu negócio. Quero dizer o seguinte: empresa que ainda olha para o seu próprio umbigo está ligada a um mundo ultrapassado. Quem pensa que pagar impostos, cumprir as leis e obedecer aos ditames da legislação trabalhista já está cumprindo de maneira satisfatória para o que se espera dela, pode começar a rever seus conceitos, pois o resultado será a perda gradativa de espaço ou até mesmo a falência. Um mundo cada vez mais conectado e informado exige progressivamente das empresas um aumento também crescente em suas responsabilidades sociais e ambientais. Os que eram chamados de stakeholders, ou públicos de interesse como acionistas, clientes e governos, hoje podem ser estendidos a todos os setores sem distinção. Uma sociedade mais organizada, como já está ocorrendo, irá cobrar dessas organizações uma posição muito mais proativa de participação e inserção nos grandes temas. Algumas delas já demonstram sensibilidade suficiente para cumprir um papel protagonista nesse novo cenário enquanto muitas, infelizmente, ainda resistem a compartilhar responsabilidades com governos e sociedade civil organizada. A definitiva inserção do setor privado na busca de soluções e enfrentamento dos grandes problemas brasileiros certamente será um caminho sem volta e as possíveis resistências vão trazer, conforme revelou a pesquisa sobre a Copa do Mundo, um grande risco ao próprio mundo dos negócios. Alcançar um mundo melhor, mais justo, equilibrado e sustentável, portanto, deve ser entendido e encarado como uma responsabilidade e dever compartilhado indistintamente por todos os setores. * Reinaldo Canto é jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente e pós-graduado em Inteligência Empresarial e Gestão do Conhecimento. Passou pelas principais emissoras de televisão e rádio do País. Foi diretor de comunicação do Greenpeace Brasil, coordenador de comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e colaborador do Instituto Ethos. Atualmente é colaborador e parceiro da Envolverde, professor em Gestão Ambiental na FAPPES e palestrante e consultor na área ambiental. ** Publicado originalmente no site Carta Capital.


por Reinaldo Canto*
Debate na ECO. Foto: Camila Nobrega Sociedade

Lei da Midia Democrática no Congresso

[caption id="attachment_97123" align="alignleft" width="300"] Debate na ECO. Foto: Camila Nobrega[/caption] No centro das polêmicas que dão combustível às manifestações nas cidades brasileiras está uma que parece causa de poucos, mas é transversal a todas as outras reivindicações: a democratização dos meios de comunicação. Apesar do que diz a Carta Magna sobre a regulação de concessões, no Brasil há uma grave situação de concentração da mídia: poucos grupos privados e menos de dez famílias são os donos dos meios de comunicação. Em vários estados brasileiros, ocorre o que, em termos econômicos, chama-se de monopólio, para designar uma concorrência imperfeita dentro do ideal que governa a sociedade atual, de livre mercado. Para ser livre, o monopólio tira a força dos demais, não deixando que eles cresçam ou dificultando até mesmo sua existência. E isso acontece com apoio do Estado, uma vez que a maioria das verbas para publicidade dentro de órgãos públicos são destinadas ao que se convencionou chamar de grande mídia. Foi esse o tema que reinou no debate realizado esta semana na Escola de Comunicação da UFRJ. E é ele também que incendiou as redes sociais nesta quinta-feira (22/8), com o lançamento da Lei da Mídia Democrática, Projeto de Lei de Iniciativa Popular das Comunicações, no Congresso Nacional. Segundo Maria Mello, da secretaria executiva do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), o projeto de lei será apresentado aos parlamentares e à sociedade civil, já que o evento é público, em Brasília. - Esperamos materializar, no ato, toda a diversidade contida na campanha Para Expressar a Liberdade, que foi a propositora do Projeto de Lei da Mídia Democrática. Temos confirmações de entidades representativas dos movimentos sociais mais diversos, do movimento sindical e de parlamentares do campo progressista. Vamos mostrar que o povo está cada dia mais disposto a lutar por esse direito fundamental que é o direito humano à comunicação. Essa luta existe no país há mais de 30 anos, mas nunca conseguiu uma mudança na legislação, ou a simples regulamentação de leis que já existem e não são aplicadas. É o caso daquela que regularia a concentração de veículos nas mãos de uma só corporação, o que é impedido em vários países. Esse foi o foco do debate na Escola de Comunicação da UFRJ, com uma mesa composta por Felipe Peçanha, o Carioca da Midia Ninja, Catherine Lira, representante da Rede Alternativa (um coletivo que une vários veículos de midia alternativa do Rio de Janeiro, entre eles o Canal Ibase), Gizele Martins, do jornal O Cidadão – do Complexo da Maré, Guilherme Ramalho, estudante que representou a Band e o doutorando e especialista no assunto, Gustavo Barreto, fundador do Consciencia.Net. - Nós não queremos ser o novo monopólio da Mídia, nossa causa é a dos movimentos sociais, é a da democratização – defendeu Peçanha, ao ser questionado sobre o crescimento rápido da Midia Ninja e sobre os objetivos futuros da rede. – Nós somos parciais, temos uma visão sim, todo recorte tem. A diferença dos meios de comunicação alternativos é que maioria deles já admite a inexistência da imparcialidade, ao contrário da grande mídia. A representante do jornal da Maré foi dura em suas críticas à mídia convencional, mas de forma contundente. Ela citou situações de morte de pessoas inocentes e até crianças na favela, como consequência de ações policiais, para ilustrar um modelo recorrente de cobertura do cotidiano das comunidades pelas grandes redes de comunicação. - Em 2008, uma criança morreu na porta de casa, pelo tiro de um policial. Os moradores da Maré ocuparam a delegacia e foram chamados de vândalos pela mídia. Isso é vandalismo? Não, isso é revolta. E a abertura da reportagem dizia ‘moradores fecham trânsito’. A notícia é mesmo o trânsito na cidade, quando uma mãe perde um filho desse jeito? – criticou Gizele. Já a representante da Rede Alternativa, Catherine Lira, introduziu uma discussão que muitas vezes passa ao largo da opinião pública: a pluralidade de mídias que começam a se fortalecer no país, mas que dependem de mudanças na estrutura política e econômica para se manterem vivas. No caso da rede, por exemplo, como ela explicou, cada veículo integrante atua sob uma lógica chamada de “Creative Commons”, que significa a possibilidade de replicar o conteúdo sem direitos autorais. - O que fazemos é colaboração. Se um veículo parceiro produz algo bom, é bom para mim também, eu posso colocar a matéria dele. É um apoio mútuo. A notícia, dentro da midia alternativa, não é mercadoria, ela é informação de utilidade pública. Mas, para esse tipo de pensamento crescer e para a mídia funcionar para a sociedade e não em função do capital, temos que mudar toda a estrutura. Não se pode ter qualquer financiamento, por exemplo. E é preciso que haja financiamento público para outros veículos, e não só os grandes, que ficam cada vez maiores. Gustavo Barreto alertou para o fato de que as redes sociais, como o Facebook, muitas vezes dão a ilusão de que algumas coisas estão mudando, de que uma revolução está sendo feita. Mas ainda são muito poucas pessoas realmente esclarecidas sobre as causas que estãs nas ruas, entre elas a necessidade da demcratização da mídia. Ele também lembrou que, embora algumas iniciativas, como a Midia Ninja, tenham crescido rapidamente, ainda são vistas uma parcela muito pequena da população, uma vez que nem 50% dos domicílios brasileiros possuem internet. - O Facebook é uma autoafirmação de si próprio. Quando eu entro lá, fico muito feliz, parece que muita gente está consciente de tudo que eu acredito. Mas, claro, são meus amigos. Precisamos entender que isso é uma bolha. A internet não é a redenção do mundo. Ela também não é o único meio de comunicação no nosso país, nem será. Há jornais impressos, revistas, televisões e rádios, por exemplo. Mas há também problemas graves desconhecidos da maioria da população, como a proibição de atuação de rádios comunitárias. A permissão para elas funcionarem demoram anos, o que, de alguma forma, também é uma forma de controle da informação. Por isso, está na mesa agora a reivindicação sobre a Lei da Mídia Democrática. Desde as 9h, está acontecendo um tuitaço #leidamidiademocratica. Se você concorda com sa revisão da lei de concessões no país, apóie. * Publicado originalmente no Canal Ibase.


por Camila Nobrega, do Canal Ibase
'As pessoas estão menos interessados no esporte como política', afirma Raí. Foto: Renato Leite Ribeiro Sociedade

É hora de mudar as estruturas “viciadas” do esporte no país, defende Raí

[caption id="attachment_96584" align="aligncenter" width="500"] 'As pessoas estão menos interessados no esporte como política', afirma Raí. Foto: Renato Leite Ribeiro[/caption]   Ex-craque do São Paulo quer aproveitar megaeventos para mobilizar cidadãos e atletas por transparência e democracia nas estruturas e políticas públicas do esporte. Para quem não conhece a região, não é fácil chegar à Fundação Gol de Letra. As vias tortuosas e as ladeiras da Vila Albertina, no bairro do Tremembé, extremo norte de São Paulo, confundem quem está acostumado às ruas largas e sinalizadas do chamado centro expandido da capital paulista. A organização fundada pelos ex-craques do São Paulo, Raí e Leonardo, em 1998, fica no alto de um morro. Vista de fora, parece uma escola infantil bem cuidada, contrastando com as casas vizinhas, sem revestimento, e na companhia de Raí, vamos descobrindo a fundação. Entramos nas salas, ele cumprimenta as pessoas, explica as atividades realizadas ali: aulas de capoeira, futebol, teatro, música, informática. O objetivo é complementar a formação das crianças da região. Ele é o que se pode chamar de exemplo inspirador para a molecada. Tetracampeão com a seleção brasileira em 1994, 5 vezes campeão paulista, 2 vezes campeão brasileiro, campeão da Libertadores e campeão mundial pelo São Paulo, além de uma passagem vitoriosa pelo PSG (Paris Saint Germain), da França, Raí aproveita os troféus conquistados no futebol profissional para erguer outras bandeiras: “As pessoas estão menos interessadas no esporte em si, enquanto direito das pessoas”, diz. Ele também é diretor da ONG Atletas Pela Cidadania, presidida por Ana Moser, uma mobilização de atletas consagrados por políticas públicas para o esporte e, antes de começar a entrevista, mostra no jornal a primeira vitória da organização: o governo havia endossado a proposta dos atletas para emendar a Lei Pelé (MP 612), adotando medidas como quatro anos de mandato para dirigentes das federações que recebem recursos públicos, transparência na prestação de contas, participação dos atletas nas eleições e remuneração dos dirigentes. “Saiu hoje, o governo endossou”, repetiu, orgulhoso. Leia aqui a entrevista do craque. Quando você iniciou sua carreira como atleta você sentiu falta de ter uma estrutura como a que você oferece para essas crianças na Fundação Gol de Letra? Faltou algum apoio nesse sentido? Eu sentia isso de duas formas diferentes. Primeiro, no próprio clube que deveria incentivar e se preocupar mais com o jovem. Hoje em dia mais ainda porque os jogadores chegam com 12, 13 anos para morar no clube e geralmente vêm de outra cidade. Mas o que era mais forte para mim era sentir o quanto os jogadores com quem eu convivia, meus companheiros e colegas de time no juvenil, nos juniores e depois no profissional também, eram pessoas capazes, inteligentes, mas que não tiveram acesso à informação, a uma boa qualidade de educação, a experiências diferentes, como a gente tenta fazer na Fundação. Apesar de ter vindo de um meio mais pobre e tal, quando eu nasci meu pai já estava numa condição melhor, e vi que 95% dos atletas vêm de regiões pobres, de bairros pobres com escolas ruins e que acabam tendo que deixar a escola. Eu tive boa escola, boas condições e pude ver o quanto isso limitava o potencial e as oportunidades que eles tinham. Isso me marcou e me deixou muito sensível ao tema. E não só pelo projeto aqui, mas também pela minha visão ideológica, de justiça social, tudo o que eu fui desenvolvendo depois. Eu sempre digo que o que me levou a montar a Fundação não foi só a diferença de recursos, mas também de oportunidades entre as pessoas, o que é a grande injustiça. Você poderia explicar mais sobre o papel dos clubes na formação dos atletas? Existem bons exemplos de clubes que ainda são minoria, mas, em geral, o clube só quer formar o atleta para jogar no time dele, com uma visão muito pobre de formação cidadã, educacional. A formação é muito voltada para desenvolver um lado técnico, de fundamentos, o aspecto físico, mas essa outra parte, de desenvolvimento da pessoa, fica esquecida. Pelo fato de eles serem responsáveis por esses garotos já muito cedo, eles teriam que ter uma fiscalização mais constante, mais presente. O Conselho Tutelar já chegou a multar ou tomar outras providências em alguns clubes em que os caras não iam para escola ou não estavam em situação decente. Então acho que é uma coisa que ainda tem que melhorar bastante. E qual é o efeito disso para o atleta? O efeito é um jogador menos preparado, uma pessoa menos preparada para encarar as coisas. O reflexo disso fica evidente no pós-carreira, quando ele sai do universo do futebol e fica perdido, sem uma visão mais ampla. E quando você se torna um atleta, além de cidadão, você se torna uma pessoa pública, e aí a formação faz falta para participar, ser consciente. Você teve uma breve experiência como gestor das categorias de base do São Paulo. Como foi? Durante os três meses que fiquei, eu vi que os atletas moravam em quartos embaixo da arquibancada do estádio do Morumbi: as janelas tinham grades, os meninos tinham que se deslocar para a escola, para o treino… Então a primeira coisa que eu fiz foi provar para os dirigentes que valeria a pena ter um centro de treinamento que o São Paulo não tinha. Para tirar os garotos dali, eles alugaram um centro de treinamento que pertencia ao José Roberto Guimarães, treinador da seleção feminina de vôlei. Outra coisa que eu fiz foi trazer um educador com grande experiência, que era ligado à Escola da Vila [colégio particular de São Paulo], que também tinha trabalhado em presídios, tinha vivência em diversos ambientes, para Eu a gente desenvolver um projeto educativo [no São Paulo], como a gente faz aqui. Uma ideia de educação integral: ver como as crianças convivem, onde elas vivem, a escola, o tempo livre, ver como trabalhar isso para ter uma formação mais ampla. A minha primeira preocupação foi justamente essa questão humana. E depois que eu saí, o Cilinho, que entrou no meu lugar, manteve esse educador por mais um tempo. Não acompanhei de perto, mas tenho certeza que ele deve ter colaborado bastante. Por que você saiu em tão pouco tempo? Primeiro porque a estrutura do futebol e dos clubes tem muitas amarras políticas, né? Então você tem que compor com várias chapas, vários interesses diferentes, para você conseguir se eleger ou se manter onde está. E acaba ficando muito dividido. Eu entrei num momento em que a oposição tinha ganhado, então estava mudando de grupo. Achei que iria colaborar como um executivo, como um profissional que ia fazer esse tipo de plano. E eu vi que as pessoas ali dentro me respeitavam como pessoa, me tinham em boa conta, mas não queriam profissionalizar o trabalho, tinham outros interesses. E aí acabou travando. Ali eu me senti meio que como um peixe fora d’água, senti que ia acabar incomodando, arrumando briga política. E eu, por ter sido ídolo do São Paulo, vi que eu tinha muito mais a perder do que a ganhar em uma estrutura que não estava pronta para as ideias e para a maneira como eu queria atuar. Mudando um pouco de assunto: como você avalia a superestrutura do futebol? Esse modelo de repasse de verbas da confederação para as federações? Acho que é uma estrutura viciada há muito tempo. As federações que elegem o presidente da confederação são, na maior parte delas, [dirigidas por] pessoas que já estão há muito tempo no poder. Os clubes que elegem o presidente da federação geralmente devem favores à pessoa que está na presidência da federação. O presidente da federação é um cara que já ajudou clubes aqui e ali, até financeiramente. E o clube acaba se sentindo obrigado a votar nessa perpetuação de poder. A CBF é a mesma coisa: acaba fazendo conchavos com as federações para se manter ali e devolve esse conchavo com favores. Então acho que é uma relação viciada para permitir uma perpetuação do poder, algo completamente antidemocrático. E as pessoas que gerem o futebol acabam se sentindo donas dele e se esquecem do interesse público do esporte que elas representam. E isso não só com o futebol, mas com todas as modalidades esportivas. Esse vício começa montando um ambiente que é muito propício para falcatruas, corrupção, mau uso do dinheiro, em detrimento da modalidade e das pessoas que estão envolvidas com o futebol. Você acha que a Copa do Mundo pode impulsionar uma discussão pública desse modelo? Acho que é uma oportunidade. A gente viu a quantidade de exigências que a FIFA coloca para o país poder receber a Copa do Mundo. E como existem muitos interessados, o país acaba cedendo e aceitando todas essas exigências. Aí a FIFA vem com uma coisa pré-determinada que acaba dando muitos poderes para ela própria, ou para a confederação que está recebendo a Copa. Então a Copa do Mundo por si só, acho que não poderia deixar legado nesse aspecto porque os responsáveis pela organização são eles mesmos. Até o governo federal começou a perceber isso, tanto que a Dilma tem uma relação super distante tanto com o Ricardo Teixeira quanto com o Marin, não quer nem aparecer junto. Mas ao mesmo tempo é uma grande oportunidade da população se mobilizar, das pessoas organizadas reivindicarem, porque isso tem que mudar. Antes não havia propostas, apoio da opinião pública, os esportistas também não tinham uma mobilização tão grande… Agora eu acho que está acontecendo, é o que a gente está fazendo. Essa emenda que aprovamos é um exemplo. Enfim, a Copa do Mundo é uma oportunidade para que as pessoas se manifestem e aí forcem uma mudança. São mudanças que até poderiam acontecer de outra forma, mas com a Copa aqui, chamando a atenção, é uma grande oportunidade para que a gente tenha os avanços nas estruturas do futebol. E estamos aproveitando essa oportunidade? Por enquanto estamos aproveitando pouco. Acho que ainda tem tempo e as Olimpíadas vão estender o interesse e o ambiente de discussão sobre esporte até 2016, pelo menos. Acho que vai depender da nossa mobilização e de uma boa estratégia para poder tocar e mexer nos pontos chave. No nosso caso, o que estamos fazendo é ter discussões internas e com outros atores da sociedade que mexem com o tema para ver quais pontos podemos atacar. O que pode acontecer é a imprensa e a população também ficarem atentas a alguns abusos que aconteceram. E por que eles acontecem? Por ter muito poder centralizado, acumulado na mão de poucos. Temos que pensar tudo que não avançou e foi mal feito, mal intencionado, o quanto isso prejudica o desenvolvimento do esporte no Brasil.E precisamos ver o que poderia ser feito de diferente, se houvesse essa alternância de poder, quais seriam as vantagens, os benefícios. Precisamos mostrar, discutir, debater e reivindicar. Esse é o caminho. [caption id="attachment_96585" align="aligncenter" width="500"] Junto à ONG Atletas pela Cidadania, Raí busca profissionalizar estrutura esportiva para romper com 'estrutura viciada'. Foto: Renato Leite Ribeiro[/caption]   Quais são as dificuldades de levantar essas bandeiras? Acho que tem uma questão [da dificuldade de adesão] entre os esportistas por uma questão cultural. E também por uma questão de carreira do esportista, que dura de 15 a 20 anos, no máximo. Ele tende a ter uma carreira e depois ir fazer outra coisa, se interessar por outra coisa, então você não tem uma participação ativa. E já não existe uma cultura de participação entre atletas, que é o que estamos querendo mudar. Outra questão é que a sociedade não dá o valor que o esporte poderia ter em todas as suas dimensões: educacional, de saúde, enfim. Falta essa cultura da importância e do impacto que o esporte pode ter na sociedade e por isso ele é encarado como uma coisa secundária. As pessoas até estão interessadas na questão da confederação, das federações, da vida política do esporte e dos grandes eventos, mas estão menos interessadas no esporte em si enquanto política pública, enquanto direito das pessoas. Se você sair aqui fora, você não vai encontrar nada de área de lazer. No Brasil, 30% das escolas não têm aula de educação física. Se você não tem esporte na escola, no seu bairro, você fica privado de um direito e de uma ferramenta importantíssima no seu desenvolvimento físico, intelectual, cognitivo. Então a grande luta é mostrar a importância que o esporte pode ter no desenvolvimento humano, para o desenvolvimento do país de uma maneira geral. E tentar mudar essa falta de cultura esportiva que existe ainda no país. Você vê resistência da imprensa esportiva em lidar com isso? Tanto com outras dimensões do esporte (educacional, de participação) como na questão política? A meu ver é tudo parte de um processo. Por exemplo, no Pan-Americano de 2007 existem provas de superfaturamento absurdas e ninguém foi responsabilizado; nem o governo do Rio, nem federação, ninguém. E está lá comprovado com documentos do TCU e tudo mais. Quando o Rio estava concorrendo para as Olimpíadas, existiu até um começo de investigação no Congresso, mas ficou explícita aquela ideia: “Olha, se a gente for atrás disso, o Brasil não vai levar as Olimpíadas. Vamos esquecer esse assunto. Como a gente quer levar esse assunto se a gente prova que existiu um escândalo no Pan?” Nesses assuntos acho que a imprensa pegou muito leve e foi muito superficial, não foi atrás. E é uma coisa que está aí, ainda existe. Então acho que são coisas que deveriam ter tido mais luz e deveríamos ter ido às últimas consequências. Em relação ao futebol a gente está vendo algumas declarações no sentido de não se preocupar com as denúncias da Copa, para ajudar na ‘festa’… Sim, estamos vendo a mesma coisa com a Copa. Isso é ridículo. As manifestações chegaram no mês da Copa das Confederações. A competição aconteceu, com alguma tensão a mais, mas as manifestações aconteceram para cobrar, para exigir. E é isso que tem que acontecer. Espero que a Copa também sirva para chamar a atenção para outros problemas. Tanto você como o Sócrates sempre tiveram preocupação com questões extra-campo e posicionamentos ideológicos claros. Isso trouxe problemas? Ser mais posicionado politicamente atrapalha a carreira do atleta? Eu acho que tem muita gente que evita criar polêmicas ou externar opiniões com medo de atrapalhar a carreira. Mas existe também muita alienação no sentido de desinformação mesmo. A pessoa vê uma coisa errada, não vai atrás, não quer saber… No caso do esporte, não é um privilégio do Brasil. O esportista de uma maneira geral tem essa imagem também fora do país. Conversei com um dos líderes do movimento estudantil de maio de 1968, o Daniel Cohn-Bendit, que estava fazendo um documentário sobre a Copa. E ele entrevistou Sócrates, me entrevistou, e entrevistou outros personagens. Ele até falou que aqui no Brasil tem mais atletas interessados no extra-campo do que lá fora. No fundo, o atleta tem uma visão egoísta por ter uma carreira curta. Mas também tem muitos que se alienam porque não têm informação. Falta uma formação mais ampla. Você já teve problema por ser envolvido, engajado? Não muito. Acho que depende da maneira que você se coloca. Eu lembro que com 20 anos de idade, no Botafogo de Ribeirão Preto, os salários dos atletas já estavam três, quatro meses atrasados. O time estava numa situação ruim e o clube contratou outros jogadores para salvá-lo. E aí na primeira vez que sentamos com dirigentes e jogadores contratados eu disse: “Olha, acho um absurdo vocês contratarem jogadores sendo que tem jogador aqui sem receber”. E trouxe um desconforto. Em algumas outras situações também trouxe, mas nada que prejudicasse a minha carreira. Nunca deixei de colocar minhas posições. O que você acha do Brasil receber a Copa do Mundo? Pensando em todos os impactos que ela tem, como você avalia a vinda da Copa para o Brasil? Por alguns motivos que citamos antes, criar um ambiente para discutir o esporte, o futebol, a política…acho que isso já é um legado que a gente pode deixar. Em outros aspectos, como, por exemplo, o que aconteceu no Pan-Americano, não era um país que, pelo histórico, merecia [os megaeventos]. Mas acho que pode trazer coisas boas para o país, se pegarmos esses maus exemplos do passado, tentar fiscalizar mais, ter mais transparência. E a transparência que a gente quer instituir para a Copa, que isso se estenda para o futebol de maneira geral. Mas a gente sabe que com a falta de planejamento que teve, atrasos, com certeza vai ter muito desperdício, falta de transparência, muita coisa sem licitação, coisas que vão contra o interesse público. E só depois da Copa que a gente vai ver o balanço. Se fosse bem planejado acho que poderia ser produtivo, mas como a gente sabia que o Brasil já não teve capacidade de se planejar bem, acho que vai ter muito desperdício de recursos e de possibilidades que teriam de melhorar a estrutura de eventos ou das regiões onde a Copa vai estar presente, vai estar muito abaixo do que poderia. E o fato de a Copa que foi vendida como a Copa da iniciativa privada ser quase inteiramente bancada com dinheiro público? Acho um absurdo, temos que ir a fundo nisso. Nunca acreditei naquilo que se dizia no começo, que seria com dinheiro privado. O que a gente tá vendo é que tá havendo muito dinheiro público e se fala que é financiamento, que vai retornar… Acho que isso é inaceitável e tem que ir atrás pra ver também qual vai ser o retorno. No final, vamos fazer a conta, por na balança e ver se valeu ou não valeu receber a Copa. Existe um embate entre a administração privada das Confederações e clubes e o fato de o futebol ser um bem público. Como é possível equilibrar os dois? Acho que a questão é realmente mudar a legislação. Uma organização que tem uma gestão privada acha que não deve satisfações nem ao poder público, nem a ninguém. E no futebol o caso é mais complicado; se nos outros esportes que recebem dinheiro público, você não tem transparência, no futebol que não recebe dinheiro público, pelo menos no caso da CBF, menos ainda, né? Então Outro com a Copa do Mundo você entra e se apossa do país durante um mês, e também durante a preparação e, ao mesmo tempo, as decisões são tomadas de uma maneira privada. A maior parte delas segue o interesse das Confederações ou da FIFA. Fica um tabu até porque a FIFA ameaça que, se houver interferência do Estado numa Confederação nacional, ela tira da Copa do Mundo. Então, é um tabu que tem que ser rediscutido. Se a Confederação que usa os símbolos do país, as cores do país, se os eventos que ela organiza têm um impacto público claro, muito dessa autonomia tem que ser rediscutida. No manifesto da Atletas vocês também colocaram a questão dos direitos humanos. Por que vocês decidiram levantar essa bandeira? É para estar em sintonia com o momento do país, das manifestações também. A gente viu essa mensagem e nós como atletas não podemos passar fora disso. Se existe o padrão FIFA, o superfaturamento, ou a questão dos direitos humanos, da retirada das famílias para construir estádio e tudo, a melhor maneira de responder isso é através de uma investigação oficial, seja pelo Ministério Público, CPI, o que for. Todo mundo tá querendo saber. Se tem um estádio que custa 600 milhões, então vamos abrir: O que aconteceu? Houve superfaturamento? Não houve? Foi gasto muito mais do que previsto? Por quê? Na questão das remoções, houve abuso? Acho que você tem que mostrar a ferida, né? E que sejam punidos os responsáveis. Acho que é isso que a população tá querendo, tá buscando. Você tá protestando para que não aconteça mais, para que mude, mas também para que, se houve abusos, punir de uma forma exemplar. Isso é o que não aconteceu no Pan-Americano. Não basta só protestar ou querer dar voz, fazer plebiscito, mudar um monte de coisa, se você não mostrar o que aconteceu na época e o que acontece agora. A Olimpíada é um evento voltado para esportes de rendimento e os investimentos são feitos nesse sentido. Você acha que o investimento em esportes de rendimento pode gerar uma cultura esportiva na população? Eu acho que até contribui você ter um atleta de rendimento com sucesso, ele incentiva até certo nível, mas muito menos do que se imagina. O que é burrice, na verdade, é não pensar numa política de esporte mais global e que atinja a população em geral. Quantas pessoas praticam natação no Brasil? Quantas têm a oportunidade de ter uma piscina decente? Devem ser milhares apenas num país de milhões. Você tá jogando um monte de grana, não tá privilegiando a maioria, não tá levando isso em consideração, e desperdiçando talentos. Ter um campeão a mais ou um a menos estimula, mas se você não tiver acesso ao esporte não adianta. Se você vai lá e tem uma série de campeões ou algumas medalhas a mais, depois que passa a Olimpíada, o dinheiro não volta e o esporte continua da mesma maneira. É burrice pensar só nesse lado emergencial para tentar mostrar serviço, quando a situação do esporte no país é ridícula porque está fora dos direitos básicos de qualquer cidadão. Falta atenção do governo para manifestações espontâneas, amadoras do esporte? Por exemplo, o futebol de várzea. Falta atenção no sentido de incentivar, oferecer um lugar melhor para a prática? As federações e confederações monopolizam as atividades mais instituídas, organizam os campeonatos e o que está fora disso fica largado. Existe aí um potencial a ser desenvolvido não só no futebol, mas no esporte em geral. Em qualquer outro país você tem uma política paralela que amplie essas práticas amadoras. Na França, que eu conheço mais de perto, uma contrapartida que a federação tem que dar é provar que está disseminando a prática da modalidade pela qual é responsável. Tem que prestar contas daquilo. Não é só organizar o seu campeonato, você tem que democratizar a atividade da sua modalidade. Lá, o principal papel de uma federação é dar acesso ao maior número de pessoas no país àquela modalidade. Quem organiza o campeonato são as ligas de clubes; a federação só entra com seleção, essas coisas. É uma escolha política falar para a federação “Tudo bem, você cuida do futebol, mas você tem que fazer com que todas as pessoas que queiram tenham acesso ao futebol, fomentando onde não tem”. É uma opção política colocar isso como prioridade. Na Atletas vocês tem entre as metas que todas as escolas brasileiras tenham quadras até 2022, até 2016 para as cidades-sede. Você acha que estamos caminhando para isso? Para 2022, sim. Até 2016 vai ser mais difícil, mas os prefeitos dessas cidades se comprometeram com essas metas e a gente vai estar em cima. No Rio, que é cidade sede das Olimpíadas, em cerca de 20% das escolas, mesmo que você queira construir uma quadra, você não tem espaço. A escola foi pensada sem espaço para atividade esportiva, outras coisas foram construídas no entorno… Junto com o Instituto Ethos desenvolvemos um questionário que vai acompanhar ano a ano até as Olimpíadas qual vai ser a evolução. É nosso papel também fazer valer esse compromisso que eles assinaram e cobrá-los. Depois disso, se a coisa andar e a política de uma maneira geral melhorar, talvez até 2022 a gente consiga. A Ana Moser disse em entrevista à Pública que o esporte é uma caixa preta: há poucos dados disponíveis para guiar uma política pública mais estruturante para o esporte. Como vocês pretendem incentivar a produção desses dados? Para as cidades sede que assinaram o compromisso, a gente exigiu que se fizesse um diagnóstico para poder medir a evolução. E é triste quando o próprio Ministério do Esporte ou as Secretarias de Esporte das cidades, essas menos ainda, não têm diagnósticos, números para a gente ter como base. Qualquer plano começa com a avaliação da situação. Acho que essa é uma das grandes provas do descaso com a política de esporte no país. E outra questão que poderia também ser mais debatida com a imprensa: 90% das secretarias de esportes do país são barganhas políticas, indicando quem tem pouca experiência e pouco interesse no tema. E isso no governo federal, nos estádios e municípios. Geralmente o partido menos expressivo na chapa, leva a secretaria dos Esportes. Isso tem que mudar, e aí passa por essa questão da população se tocar do direito que tem. Você vê algum caminho de como é possível promover essa mudança de concepção do esporte como uma coisa auxiliar, para fazer no tempo livre, para uma atividade com papel estruturante na educação e na política do país? Uma das nossas linhas de atuação é a de desenvolver pesquisas e estudos e levantar o que já existe. Em Londres, por exemplo, foi provado que praticar esportes melhora o desempenho em outras disciplinas na fase escolar porque ajuda no desenvolvimento cognitivo e tudo mais. Também existem experiências e estudos que mostram que o esporte é melhor na linguagem para a integração e na mobilização de uma comunidade, e que mostram uma diminuição de violência clara com a prática do esporte. É você mostrar isso, fazendo, talvez, estudos maiores no país e constatar que onde você tem acesso a esporte e a lazer você tem menos violência, melhor desempenho na escola. Acho que se basear em estudos e depois ir atrás de buscar políticas nesse sentido, né? Pegando casos de cidades que fizeram isso, você começa a caminhar para a valorização e a conscientização da importância do esporte. E a isso se soma uma vontade política? Com certeza. E a vontade política também anda a empurrões. E é isso que a gente tá tentando fazer. O deputado Vicente Candido, relator da Lei Geral da Copa, lançou o Proforte ( Programa de Fortalecimento dos Esportes Olímpicos), que propõe a anistia da dívida fiscal dos clubes de futebol, estimada em R$ 3 bilhões, em troca do investimento deles em esportes olímpicos. O que você acha dessa ideia? Acho que o interesse que puxa isso é mais o perdão das dívidas do que o interesse no esporte olímpico. Isso não faz parte de uma política maior. Deveria estar se debatendo mais a política de esporte olímpico do que o que os clubes podem fazer. A dívida e o que esses clubes podem fazer pelo esporte tem pesos políticos desproporcionais. Pensando nas manifestações dos últimos meses, se você pudesse passar um recado para os cidadãos, que são também torcedores, o que você diria para a população brasileira em relação à Copa? Achei lindo o que aconteceu durante a Copa das Confederações. Vamos aproveitar, potencializar esse ambiente. Infelizmente a FIFA vai ter que conviver com essa tensão, porque ter uma Copa do Mundo chama atenção para o país ,e dá mais força às vozes que estão loucas pra se manifestar. * O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora. * Publicado originalmente no site Agência Pública.


por Ciro Barros e Giulia Afiune, da Agência Pública
Foto: Divulgação/ Internet Sociedade

Brasil: para que a reciclagem não seja mera retórica

[caption id="attachment_96574" align="alignleft" width="300"] Foto: Divulgação/ Internet[/caption] Efetivação da Política Nacional de Resíduos Sólidos tarda. Eis quatro propostas para colocá-la em prática, na 4ª Conferência do Meio-Ambiente. A Política Nacional de Resíduos Sólidos ocupa o centro da 4ª Conferência Nacional do Meio Ambiente, que se realiza em Brasília de 24 a 27 de outubro. O que está em jogo vai muito além do indispensável fechamento dos lixões e de sua versão levemente melhorada (os aterros controlados), que ainda recebem 40% de todos os resíduos domiciliares do País. Mais importante que acabar com os lixões é mudar a própria relação da sociedade com os remanescentes daquilo que consome. O fundamental não é a destinação correta do lixo (embora isso seja importante, claro), mas sim a sua expressiva diminuição, ou seja, a transformação e a valorização daquilo que sobra do consumo para que sirva de base à formação de nova riqueza. A expressão “lixo zero” já se tornou lema da política de resíduos sólidos em algumas cidades, como San Francisco, e faz parte das metas de empresas globais, como a Walmart. É preocupante o contraste entre as ambições da Política Nacional de Resíduos Sólidos e a lentidão com que ela se transforma em realidade. Apenas 16 estados brasileiros e menos de 10% dos municípios já elaboraram seus planos. É claro que há problemas legais e administrativos imensos para que a gestão do lixo busque, antes de tudo, a valorização dos materiais de que ele é composto. Esses problemas, entretanto, podem ser abordados de maneira coerente e harmônica se forem enfrentados quatro desafios, que deveriam formar o eixo da conferência de outubro. Em primeiro lugar, é fundamental que as grandes marcas globais ajudem a aplicar no Brasil aquilo que já fazem nos países desenvolvidos: nos Estados Unidos, a Coca- Cola e a Nestlé Waters comprometeram-se recentemente a organizar e financiar o sistema de coleta e recuperação de seus resíduos na proporção daquilo que colocam no mercado, conforme relatório recente da organização As You Sow. O WWF firmou um acordo com a Coca-Cola que inclui a recuperação e a reciclagem de suas embalagens, mas com metas quantitativas somente para os países desenvolvidos. A conferência pode ser uma ocasião para que o compromisso com a coleta e a recuperação seja assumido pelas grandes marcas globais que atuam no Brasil. Não se trata simplesmente de auxiliar o sistema de forma tópica e localizada: trata-se de assumir o princípio do poluidor pagador e responder financeiramente (e em alguns casos fisicamente) por coletar e destinar corretamente os resíduos. Como essa responsabilidade é onerosa, ela funciona também para sinalizar aos produtores a urgência de melhorar suas embalagens, utilizando menos materiais e desenhando os produtos de maneira a facilitar o reaproveitamento dos resíduos. O segundo desafio, muito relacionado ao primeiro, está no reconhecimento do trabalho dos catadores de resíduos sólidos como prestadores de serviços ambientais. Esse reconhecimento não se confunde com a venda dos produtos que eles recolhem, pois nem sempre há mercados favoráveis para tais produtos. As catadoras indianas de resíduos sólidos oferecem instrutiva aula de economia neste vídeo: demonstram, de maneira persuasiva, que o trabalho de recolher as embalagens das ruas tem de ser pago e que esse pagamento deve vir de quem fabrica e oferece os produtos envolvidos por essas embalagens. O terceiro avanço da conferência consistirá em retomar a discussão nacional sobre a taxa domiciliar do lixo. É óbvio que a sociedade paga pelo lixo domiciliar coletado. Mas a irresponsável demonização da taxa do lixo fez com que esse pagamento se escondesse no imposto territorial, o que inibe sua utilização com finalidades de política pública. Por fim, é fundamental que essa responsabilidade do setor privado seja enquadrada legalmente com base em objetivos ambiciosos. Na União Europeia, por exemplo, o recolhimento de material eletrônico é organizado pelo setor privado, mas as metas são definidas pelo Estado: até 2005 o objetivo era recuperar 4 quilos per capita de resíduos eletrônicos, montante que foi elevado, posteriormente, tendo em vista o aumento do consumo, a 20 quilos anuais per capita até 2020, como mostra relatório recente da Agência Ambiental Europeia. O Brasil não será uma sociedade saudável na maneira como gere os materiais que formam sua riqueza enquanto o setor privado não assumir a responsabilidade estratégica que lhe cabe. É disso que depende o próprio sucesso da Política Nacional de Resíduos Sólidos. * Ricardo Abramovay é professor titular da FEA e do IRI-USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp, e autor deMuito Além da Economia Verde, lançado na Rio+20 pela Editora Planeta Sustentável. ** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Ricardo Abramovay*
paulistano Sociedade

O paulistano está preparado para deixar o carro na garagem?

A implantação de faixas exclusivas tornou o ônibus mais rápido que o automóvel para o deslocamento entre algumas regiões da cidade, mas a qualidade do serviço ainda é péssima, não condizente com o preço já subsidiado. Sabe-se que a transição de uma cidade de carros para uma de pedestres, bicicletas, ônibus e trens trará impactos para o estilo de vida do paulistano. A pergunta é: estamos preparados para mudarmos a prioridade de transporte individual para o coletivo ou vamos continuar defendendo isso como uma ideia bonita – mas para os outros. Para ajudar no debate, entrevistei Thiago Guimarães, pesquisador do Instituto de Planejamento de Transportes e Logística de Hamburgo e um dos grandes especialistas sobre a mobilidade urbana em São Paulo. Blog - O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), defendeu um estudo da Fundação Getúlio Vargas, encomendado pelo sindicato das usinas de etanol, propondo que um aumento de R$ 0,50 no litro da gasolina poderia abaixar o preço da tarifa do transporte público em R$ 1,20. Quais são os impactos por trás dessa ideia, além do descontentamento de quem tem carro? Thiago Guimarães - Em uma metrópole como São Paulo, a melhoria das condições de deslocamento da maioria da população passa necessariamente por um transporte coletivo mais eficiente e mais acessível. Em comparação internacional, a gasolina comercializada no Brasil ainda é muito barata. Seja pela perspectiva de crescente escassez de petróleo, pela necessidade de busca de fontes energéticas alternativas ou por um tributo com caráter redistributivo, o brasileiro não pode mais se iludir e achar que é seu direito poder comprar energia fóssil barata para sempre. São essencialmente políticos os problemas envolvidos nessa proposta. O primeiro é o risco político-eleitoral de o prefeito Fernando Haddad e seu partido perderem, no curto prazo, apoio de quem não quer ver interferência no direito de uso supostamente irrestrito de seu automóvel. Essa é uma amardilha, que tem levado sistematicamente os políticos brasileiros a praticarem políticas urbanas, energéticas de transporte míopes, sem visão de longo prazo. Portanto, considero esse um falso risco. O segundo problema é o prefeito querer mexer no imposto sobre a gasolina no município de São Paulo. A tributação de combustíveis não deve ser tomada como uma política da alçada municipal. O preço dos combustíveis para uso em automóvel particular deveria ser aplicado no mínimo no nível metropolitano. Caso contrário, haverá fila para o abastecimento de veículos em postos de Osasco, São Caetano, Guarulhos… Em terceiro lugar: há o risco de outros bens e serviços serem afetados pelo novo nível de preço da gasolina. Esta seria, aliás, uma das vantagens do pedágio urbano sobre um imposto indiscriminadamente cobrado sobre o consumo de gasolina. Por fim, existe o risco de o caráter redistributivo dessa política se perder. Afinal quem garante que um imposto criado no Brasil para uma determinada finalidade será mesmo destinado para aquilo? Outra pesquisa da Prefeitura de São Paulo mostra que o transporte público em ônibus piorou no município entre o ano passado e este. A principal reclamação dos usuários não é o preço, mas a qualidade do serviço – atraso, muvuca, ônibus que não param nos pontos. A administração municipal diz que a solução para isso passa pela implantação de corredores. Os corredores são é a pedra filosofal do transporte público em São Paulo? Não surpreende o fato de que o custo monetário não seja a principal reclamação entre os usuários. Até porque quem considera o transporte coletivo caro demais e não toma ônibus por causa disso sequer foi ouvido pela pesquisa. No entanto, é expressiva a parcela da população das grandes regiões metropolitanas do Brasil excluída dos serviços de transporte coletivo. Daí a importância das recentes manifestações e de propostas que visem à redução do preço das tarifas de transporte coletivo. Outro fator importante para a melhoria da qualidade do transporte coletivo é redução dos tempos de viagem e o aumento da confiabilidade. A implantação de corredores pode ser um elemento essencial para reduzir os tempos de viagem, dependendo sobretudo do conceito de corredor de ônibus a ser implementado. Até agora, pouco se falou sobre como os corredores serão. O conceito de Bus Rapid Transit vai além da mera implantação de faixa exclusiva. Envolve rapidez no embarque e desembarque, aumento da regularidade e do conforto do serviço. O que a prefeitura está propondo para a cidade: faixas exclusivas ou verdadeiros corredores de ônibus? Vergonhosa mesmo é a baixa confiabilidade do sistema. Em determinadas paradas, não se sabe sequer quais linhas de ônibus passam por ali e nem de quando em quando passam. Será que é tão dificil assim melhorar a qualidade da informação à disposição dos usuários? Essas ponderações mostram que, enfim, está chegando a hora de fazer uma escolha. Mas a população, o poder público e os empresários aceitarão mudar a vida na metrópole? Já se passou a hora de fazer essa escolha e de o poder público por em prática políticas que democratizem o acesso ao espaço urbano e às oportunidades que a cidade oferece. O atual momento político favorece muito a discussão de como o transporte coletivo deve ser priorizado. A sociedade está muito insatisfeita com as condições de deslocamento em uma cidade em que andar de carro, tomar um ônibus ou mesmo um metrô pode ser uma experiência quase traumática. É preciso dizer claramente: a priorização do transporte coletivo envolve uma disputa por diversos recursos escassos, entre eles, o espaço viário, a energia de origem fóssil e o dinheiro necessário para sustentar um mecanismo de financiamento de um sistema integrado, eficiente e inclusivo. Talvez por motivos que remetem a nosso passado escravagista, parte das pessoas de maior poder aquisitivo acha que ônibus, no Brasil, é e sempre será coisa para a ralé. Não obstante, acredito que a maioria das pessoas compreenda a importância dos meios coletivos de transporte para o funcionamento e a qualidade ambiental e urbanística da metrópole. Mais difícil ainda é tirar o poder público da inércia. Como acreditar que, de repente, será bem-sucedida a instalação de uma sistemática de planejamento e de gestão integrados de transporte e uso do solo? * Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política.  ** Publicado originalmente no Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto*
Da esquerda para a direita, Assange,  Snowden e Manning. Foto: Reprodução/ Internet Inter Press Service - Colunistas

Cinco teses sobre Assange, Manning e Snowden

[caption id="attachment_96553" align="aligncenter" width="504"] Da esquerda para a direita, Assange, Snowden e Manning. Foto: Reprodução/ Internet[/caption] Alfaz, Espanha, agosto/2013 Tese um O assunto de divulgar informação reservada não se trata de revelar segredos, mas sim de não violência e da luta da desobediência civil contra os grandes males sociais. Revelar informação secreta pressupõe que se possa alertar alguém, que de fato quer ser alertado, e que está em posição de fazer algo a respeito. Obviamente, os que podem fazer algo a respeito da política externa dos Estados Unidos, os que têm o poder – o Legislativo: congresso e em especial o Senado; o Executivo: Departamento de Estado, Pentágono e Casa Branca; o Judiciário: Suprema Corte; o econômico: bancos gigantes; a cultura: os grandes meios de comunicação – sabem perfeitamente bem que isso acontece. São todos esforços para conservar o poder imperial econômico, militar, político e cultural. Entretanto, não querem mudanças. E os que querem – uma grande parte da população norte-americana, da dos países aliados e a maioria do resto do mundo – foram alertados, mas em grande medida são impotentes. Ao menos isso é o que acreditam. Sobre este ponto, veja a tese cinco. Tese dois A questão básica não é o interesse político-midiático sobre Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden, mas sobre a informação que divulgaram. Manning divulgou um vídeo sobre o ataque de um helicóptero contra várias pessoas, a maioria não combatentes e desarmadas, no Iraque, entre os quais havia dois jornalistas da agência de notícias Reuters. O resultado: o parlamento iraquiano rechaçou a proposta do governo de George W. Bush (2001-2009) de manter uma base militar nesse país. Os Estados Unidos se retiraram do Iraque em 31 de dezembro de 2011. Manning também revelou a magnitude total da corrupção do ditador da Tunísia, Zine el-Abidine Ben Ali, o que avivou a revolta juvenil. Também revelou que o ditador do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, aceitou os ataques com aviões não tripulados dos Estados Unidos em seu país, o que levou à sua a saída do poder. Manning revelou que a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, ordenou a diplomatas da Organização das Nações Unidas (ONU) que espionassem seus colegas no fórum mundial em busca de informação detalhada sobre os líderes da ONU, com contrassenhas e chaves criptografadas. Manning revelou que o atual secretário de Estado, John Kerry, pressionou Israel para que se mostrasse aberto a devolver as Colinas de Golã à Síria como parte das negociações de paz. Manning revelou que a corrupção do governo afegão era “esmagadora”. Manning revelou a natureza autoritária e corrupta do regime de Hosni Mubarak (1981-2011) no Egito. Manning revelou que o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, estava contra atacar as instalações nucleares do Irã porque seria contraproducente. Manning revelou a política israelense de “manter a economia de Gaza funcionando em sua mínima expressão possível enquanto se evitasse uma crise humanitária”. Manning revelou que o presidente da Síria, Bashar al-Assad, e sua mulher compraram joias e levavam um estilo de vida luxuoso na Europa, enquanto sua artilharia matava em Homs. Tomemos o exemplo de Snowden: suas revelações, de que os Estados Unidos espionavam tanto seus aliados quanto o Afeganistão, colocaram em risco os planos de Washington de criar dois grandes blocos comerciais, um transatlântico e outro transpacífico, para excluir o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Assim sendo, então esta é a história do mundo, com os Estados Unidos ganhando tempo. Tese três A diplomacia em geral, não só a dos Estados Unidos, ficou a descoberto Quando Assange publicou as primeiras informações no WikiLeaks escreveu: “O imperador está nu. Mas não só o imperador norte-americano, como também a imperatriz diplomacia”. “Que tipo de discurso ridículo é este, tão concentrado no negativo, nos atores, em geral pessoas da elite em países de elite? Mexericos, caracterizações pueris, o tipo de ‘análise’ de poder típico da imaturidade. Onde está a análise da cultura e da estrutura, que é anos luz mais importante do que os atores que vem e vão?”, questionou. “Onde estão as ideias positivas? Onde estão as ideias sobre como transformar os desafios da mudança climática em cooperação para um benefício mútuo e equitativo como os projetos para destilar água na fronteira de Israel com Líbano e Palestina, alimentados por espelhos parabólicos, e a positiva cooperação entre Estados Unidos e Irã sobre energias alternativas?”, ressaltou. “A democracia morre a portas fechadas e o WikiLeaks as abre; um enorme serviço à democracia”, afirmou. O que revelaram Manning e Snowden é a agonia do império dos Estados Unidos. O que revelaram Assange e outros é a agonia do sistema estatal como o conhecemos. Ambos processos levarão tempo, o anterior mais do que este último. Mas, sem errar: estas três pessoas fizeram história. Três nomes que serão lembrados quando alguns presidentes dos Estados Unidos passarem a um merecido esquecimento. Quem recorda as maiores autoridades inglesas na Índia, como os vice-reis e seus crimes, reis dos vícios? Gandhi mantém vigência. Quem conhece os nomes dos ingleses que trataram de manter as colônias no litoral do Oceano Atlântico? George Washington, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin ofuscaram a todos. Talvez, inclusive, contribuam para a redução dos exércitos e, se os Estados Unidos mudarem, para o entendimento entre as nações. Um prêmio Nobel da Paz compartilhado pelos três. Não muito provável, porque a Noruega é cliente dos Estados Unidos. Tese quatro Os aliados dos Estados Unidos obedecem por medo, não por estarem de acordo. Concretamente: obedecem para evitar que um dia a Força Aérea dos Estados Unidos aterrisse nas muitas bases que estão à sua disposição, “pois o governo é incapaz de proteger sua própria população”. Vêm os Estados Unidos, não os russos nem os muçulmanos. Quanto mais factível se torna, mais os Estados Unidos deslizam para sua predisposição ao totalitarismo bem aceito. O próximo passo, provavelmente acampamentos da Fema (Agência Federal para o Manejo de Emergências) para suspeitos – por categorias, metadados – como os japoneses durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Tese cinco Todo o mundo, em especial a mídia, pode acelerar o processo. As maçãs podres devem cair da árvore; uma sacudida ajudaria. Os meios de comunicação mais importantes, como The Guardian e The Washington Post à frente, merecem nossos cumprimentos. Depois, deixemos que milhões de pessoas cerquem os ministérios das Relações Exteriores e as embaixadas pedindo o fim da espionagem, que afastem seus servidores dos grandes traidores nos Estados Unidos, suspendam a cooperação futura, turvem as relações diplomáticas até que ocorra uma “desespionagem”, semelhante ao desarmamento. Envolverde/IPS * Johan Galtung, professor de estudos sobre a paz, é reitor da Transcend Peace University (TPU). Também é autor de 150 livros sobre paz e assuntos afins, entre eles 50 Years -100 Peace and Conflict Perspectives (50 Anos -100 Perspectivas Sobre Paz e Conflitos).


por Johan Galtung*
rua Sociedade

A refundação do Brasil? O sentido oculto das manifestações de rua

O que o povo que estava na rua no mês de junho queria, em último término, de forma consciente ou inconsciente? Para responder me apoio em três citações inspiradoras. A primeira é de Darcy Ribeiro no prefácio ao meu livro O caminhar da Igreja com os oprimidos (1998): "Nós brasileiros surgimos de um empreendimento colonial que não tinha nenhum propósito de fundar um povo. Queria tão somente gerar lucros empresariais exportáveis com pródigo desgaste de gentes”. A segunda é de Luiz Gonzaga de Souza Lima na mais recente e criativa interpretação do Brasil: A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada (São Carlos 2011): "Quando se chega ao fim, lá onde acabam os caminhos, é porque chegou a hora de inventar outros rumos; é hora de outra procura; é hora de o Brasil se Refundar; a Refundação é o caminho novo e, de todos os possíveis, é aquele que mais vale a pena, já que é próprio do ser humano não economizar sonhos e esperanças; o Brasil foi fundado como empresa. É hora de se refundar como sociedade” (contra-capa). A terceira é do escritor francês François-René de Chateaubriand (1768-1848): "Nada é mais forte do que uma ideia quando chegou o momento de sua realização”. Minha impressão é que as multitudinárias manifestações de rua que se fizeram sem siglas, sem cartazes dos movimentos e dos partidos conhecidos e sem carro de som, mas irrompendo espontaneamente, queriam dizer: estamos cansados do tipo de Brasil que temos e herdamos: corrupto, com democracia de baixa intensidade, que faz políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres, no qual as grandes maiorias não contam e pequenos grupos extremamente opulentos controlam o poder social e político; queremos outro Brasil que esteja à altura da consciência que desenvolvemos como cidadãos e sobre a nossa importância para o mundo, com a biodiversidade de nossa natureza, com a criatividade de nossa cultura e como maior patrimônio que temos que é o nosso povo, misturado, alegre, sincrético, tolerante e místico. Efetivamente, até hoje o Brasil foi e continua sendo um apêndice do grande jogo econômico e político do mundo. Mesmo politicamente libertados, continuamos sendo recolonizados, pois as potências centrais antes colonizadoras nos querem manter ao que sempre nos condenaram: a ser uma grande empresa neocolonial que exporta commodities, grãos, carnes, minérios como o mostra em detalhe Luiz Gonzaga de Souza Lima e o reafirmou Darcy Ribeiro citado acima. Desta forma nos impedem de realizarmos nosso projeto de nação independente e aberta ao mundo. Diz com fina sensibilidade social Souza Lima: "Ainda que nunca tenha existido na realidade, há um Brasil no imaginário e no sonho do povo brasileiro. O Brasil vivido dentro de cada um é uma produção cultural. A sociedade construiu um Brasil diferente do real histórico, o tal país do futuro, soberano, livre, justo, forte; mas, sobretudo, alegre e feliz” (p.235). Nos movimentos de rua irrompeu este sonho exuberante de Brasil. Caio Prado Júnior em sua A revolução brasileira (Brasiliense 1966) profeticamente escreveu: "O Brasil se encontra num daqueles momentos em que se impõem, de pronto, reformas e transformações capazes de reestruturarem a vida do país de maneira consentânea com suas necessidades mais gerais e profundas e as aspirações da grande massa de sua população que, no estado atual, não são devidamente atendidas” (p. 2). Chateaubriand confirma que esta ideia acima exposta madurou e chegou ao momento de sua realização. Não seria sentido básico dos reclamos dos que estavam, aos milhares, na rua? Querem um * Leonardo Boff é filósofo, teólogo, escritor e comissionado da Carta da Terra. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Leonardo Boff*
trabalho rural Sociedade

E onde está Welbert?

Um trabalhador teria sido assassinado no interior da fazenda Vale do Triunfo, pertencente ao Grupo Santa Bárbara, no município de São Félix do Xingu, no Pará. De acordo com denúncia da Comissão Pastoral da Terra, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Pará e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), uma testemunha prestou depoimento por ter presenciado um empregado da fazenda disparar um tiro na nuca do tratorista Welbert Cabral Costa, de 26 anos. O motivo seria um suposto desentendimento relacionado a direitos trabalhistas. A família deu queixa no dia 3 de agosto. O corpo ainda não foi encontrado e um delegado da Polícia Civil assumiu as investigações. Welbert possui esposa e quatro filhos pequenos. O desaparecimento ocorreu no dia 24 e as organizações divulgaram nota pública, no último dia 9, exigindo que o Delegado Geral da Policia da Polícia Civil no Pará e a Secretaria de Segurança Pública do Estado realizem buscas com a máxima urgência no interior da fazenda. De acordo com um relatório da Comissão Pastoral da Terra, entre 1996 e 2010, 799 trabalhadores rurais foram presos, 809 foram ameaçados de morte e 231 assassinados no Estado do Pará. Nesse mesmo período, 31.519 famílias foram despejadas ou expulsas de 459 áreas que eram reivindicadas para assentamentos da reforma agrária. Segundo a instituição, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no ano passado, eram 130 fazendas ocupadas por 25 mil famílias de trabalhadores rurais sem terra na região, uma disputa de mais de um milhão de hectares. A propriedade pertence à Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, empresa que tem o banco Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas entre os sócios. O grupo, um dos maiores criadores de gado do mundo, está oficialmente, desde 2005, no Sul do Estado do Pará. Possui cinco unidades de produção, com capacidade superior a 500 mil animais, distribuídos em 500 mil hectares de terra, segundo o site da instituição. De acordo com nota enviada, a empresa confia no trabalho das autoridades, espera que o desaparecimento seja devidamente apurado e está colaborando para a apuração das responsabilidades. Afirma que a Santa Bárbara “não coaduna, não avaliza, não acoberta, não aprova qualquer atitude ilícita, repudiando de forma veemente as injustas e falsas acusações de que outros eventos desta natureza já teriam ocorrido em suas propriedades rurais”. Por fim, rechaça a “imputação de que teria aliciado ‘jovens delinquentes’ para fazer segurança em suas fazendas. O grupo diz que se preocupar com o meio ambiente e seus empregados. Afirma que garante alimentação, assistência médica e social, seguro de vida, transporte; moradia e capacitação a funcionários; além de distribuição de leite e educação, com professores transporte material escolar, uniforme e alimentação para os alunos. Apesar disso, foi envolvida em casos de trabalho escravo contemporâneo em 2012, quando o governo federal libertou cinco trabalhadores de uma fazenda do grupo. Também foi alvo de uma ação civil pública por crimes ambientais pelo Ministério Público Federal, e 2009, com problemas que envolviam uma área de 51 mil hectares. Em 21 de junho de 2012, manifestantes foram alvejados a bala por seguranças da fazenda Cedro, pertencente à Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, em Eldorado dos Carajás, Sudeste do Pará. José Batista Afonso, da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra em Marabá, diz que os feridos estavam se reunindo na porteira da fazenda para um ato contra a grilagem de terras, o trabalho escravo e o uso excessivo de agrotóxicos, como parte das ações paralelas à Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Nesse momento, os seguranças atiraram contra eles. O deputado federal Claudio Puty (PT-PA) foi um dos parlamentares que acompanhou o caso. Na época, afirmou que “esse é mais um capítulo de violência ligada à propriedade do grupo pertencente à Daniel Dantas. Boa parte dessas terras são, originalmente, de aforamento para extração de castanha que, depois, foram apropriadas e revendidas para o grupo Santa Bárbara de maneira absolutamente irregular”. De acordo com Puty, que também foi presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre Trabalho Escravo, as terras eram objeto de ação da Procuradoria Geral do Estado visando ao cancelamento do direito ao uso para fins diferentes do original. Em resposta a este blog sobre esse incidente, a Santa Bárbara Xinguara informou que “a empresa faz o que a lei lhe permite para coibir essa violência: cobra as autoridades”. Em nota, a empresa afirma que “eram 300 invasores enfurecidos e apenas seis seguranças para proteger as vidas dos funcionários e de si próprios e à propriedade.” E negou que o grupo protestasse contra o uso de agrotóxicos, como divulgou o MST. “O balanço da violência, crimes e atentados às pessoas e ao direito à propriedade é dramático”, afirmou. Daniel Avelino, procurador da República no Pará, afirmou que os problemas na Cedro incluíam “fazer funcionar empreendimento agropecuário sem licença outorgada pelo órgão ambiental competente” e “impedir a regeneração natural de vegetação nativa em área especialmente protegida (Bioma Amazônia)”. De acordo com uma ação do MPF, 92,22% da Cedro não possuía cobertura vegetal – sendo que, apenas de reserva legal, o responsável pela área tem que garantir 80% na Amazônia. Zé Pereira - A entrada da fazenda se localiza a cerca de 40 quilômetros da curva do “S” da rodovia PA-150, local onde 19 trabalhadores rurais sem-terra foram assassinados em 17 de abril de 1996. O Massacre de Eldorado dos Carajás deixou mais de 60 feridos após uma ação violenta da Polícia Militar para desbloquear a rodovia. Duas pessoas foram condenadas por conta da operação: o coronel Mario Colares Pantoja (a 228 anos de prisão) e o major José Maria Pereira Oliveira (a 154 anos), que estavam à frente dos policiais. Trabalhadores rurais ligados ao MST chegaram a ocupar a fazenda Espírito Santo, também localizada no Sul do Pará, hoje controlada pela Agropecuária Santa Bárbara. Integrada por terras públicas, elas estavam cedidas pelo Estado para Benedito Mutran Filho para colonização e extrativismo e não poderiam ter sido vendidas a Dantas sem autorização do governo. Ainda sob controle do antigo responsável, em setembro de 1989, aos 17 anos, o trabalhador rural José Pereira Ferreira foi atingido por uma bala no rosto por funcionários da fazenda quando tentava escapar do trabalho escravo. O caso, que não recebeu uma resposta das autoridades brasileiras, foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Para não ser condenado por omissão, o governo brasileiro teve que fazer um acordo em que se comprometia a adotar uma série de medidas para combater o trabalho escravo e a indenizar José Pereira pela omissão do Estado. As ações que o governo tomou em resposta ao caso foram fundamentais para o estabelecimento do sistema de combate ao trabalho escravo no Brasil. E, em novembro de 2003, o Congresso Nacional aprovou um pagamento de R$ 52 mil a Zé Pereira. Mortes no Pará - No ano passado, a CPT divulgou um levantamento sobre a situação de 38 lideranças e trabalhadores rurais ameaçados de morte na região Sul-Sudeste do Pará. O estudo trouxe uma descrição do conflito e das medidas que estão sendo tomadas ou não pelas autoridades competentes e apontou a situação em que se encontra cada pessoa ameaçada. O diagnóstico foi enviado para o Ministério Público Federal, Incra, Ibama, Ministério Público do Trabalho, entre outras instituições, com uma série de recomendações para a proteção aos trabalhadores e ao meio ambiente. De acordo com a CPT, as causas estruturais das ameaças envolvem o “desmonte da reforma agrária”, a “impunidade” e a “ineficiência na defesa do meio ambiente”. Entre os ameaçados de morte que constavam do relatório, está Laísa Santos Sampaio. As ameaças de morte que ela tem sofrido seguem um roteiro conhecido: recadinhos, invasões da própria casa, ter o cachorro alvejado por balas. E o final de uma história semelhante foi visto quando assassinaram sua irmã, Maria do Espírito Santo da Silva, juntamente com o marido dela, José Claudio Ribeiro da Silva, ambos lideranças do Projeto de Assentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira, localizado a cerca de 50 quilômetros da sede do município de Nova Ipixuna, Sudeste do Pará. O caso ganhou repercussão internacional em maio do ano passado. A professora é o próximo alvo dos pistoleiros porque manteve a luta da irmã. O projeto em Nova Ipixuna garante o sustento de mais de 500 famílias com a produção de óleos vegetais, açaí e cupuaçu. O documento cita mortes anunciadas, como as de José Dutra da Costa, o Dezinho, Pedro Laurindo, José Pinheiro Lima, além das de José Claudio e Maria. Todos já haviam informado às autoridades as ameaças que sofriam. * Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política.  ** Publicado originalmente no Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto*
Foto: Reprodução/ Internet Sociedade

Para que reportar sustentabilidade?

[caption id="attachment_96081" align="alignleft" width="300"] Foto: Reprodução/ Internet[/caption] No mundo atual, a informação é o oxigênio do mercado. O relatório de sustentabilidade vem sendo duramente criticado tanto por grupos favoráveis às causas social e ambiental quanto por seus oponentes. A mais grave das condenações está relacionada ao objetivo do instrumento: "greenwashing". Ou seja, as empresas usam o relatório de sustentabilidade para criar uma imagem "verde", sem que haja uma melhoria no seu desempenho ambiental. A questão é se o relato de sustentabilidade é um instrumento válido. Todos concordam que as empresas devem informar, com transparência e eficiência, seu impacto socioambiental, positivo e negativo. Há inclusive aqueles que consideram essas informações tão ou mais importantes que as informações financeiras. A divulgação de informações pelas empresas é a base da saúde dos mercados financeiros modernos. O capital não pode ser alocado de forma sábia, e segura, em empresas que não informam adequadamente os riscos aos quais está exposta. A razão é simples: menos informação representa menos certeza para investidores. Da mesma forma que dados financeiros omitidos levaram a perdas milionárias no escândalo da Enron em 2000, os investidores da BP se depararam com perdas de até US$ 32 bilhões do valor de mercado da empresa por não terem sido informados sobre o risco de acidentes. Informação é o oxigênio do mercado. No mundo atual onde o intangível representa, em média, 80% do valor de mercado de uma empresa de capital aberto, a divulgação de desempenho socioambiental torna-se essencial. As empresas deverão reportar suas métricas sobre os ativos que ela influencia e não aqueles que ela controla Além de corrigir as falhas de mercado, o reporte de informações socioambientais impulsiona a gestão empresarial desses ativos. Ao fazer o exercício de reunir dados e práticas, a empresa inicia um processo de levantamento e monitoramento desses dados, passo necessário para avançar na gestão empresarial e, consequentemente, no seu melhor desempenho. Até o final dos anos 90, o relatório empresarial de sustentabilidade era praticamente desconhecido. Em pouco menos de uma década, tornou-se prática difundida entre as grandes empresas e, hoje, mais de dois terços das companhias na Fortune 500 publicam relatos de sustentabilidade. Um grande problema dos relatórios, no entanto, é a falta de contexto, que resulta na incompreensão das informações pelos tomadores de decisão. Hoje, uma companhia encontra dificuldades, por exemplo, para mensurar e divulgar seus esforços para reduzir o consumo de determinado recurso natural. Para o investidor ainda não é possível perceber o valor agregado que esses esforços trarão para essa empresa. Além disso, com a falta de informação geográfica do consumo desse recurso, o governo não tem insumos para orientar políticas públicas. Os clientes e consumidores, por sua vez, não conseguem comparar o desempenho dessa empresa com o da concorrência. E a corrente de incompreensão vai se estendendo. O relatório também está desbalanceado, com o passado ocupando um espaço muito maior que os planos e compromissos futuros. Nesse contexto, nem investidores, nem consumidores, nem ONGs, nem parceiros conseguem entender a contribuição da empresa sob as perspectivas das questões sociais e ambientais. Está na hora de virar esse jogo e medir o progresso em direção à sustentabilidade. Isso requer a utilização de métricas do mundo real, ou seja, inserir as empresas num contexto maior. Para isso, é preciso considerar métricas como as dos limites do planeta, das metas do milênio e, no futuro próximo, dos objetivos do desenvolvimento sustentável. Porque uma empresa não tem êxito em um ambiente socialmente esgarçado ao seu redor, nem irresponsável ambientalmente. No futuro, a valoração de uma empresa deverá considerar todas as formas de capital de maneira equilibrada: a econômica, a social e a ambiental. E o relato tem um papel essencial nessa transformação: proporcionar ao mercado e à sociedade um instrumento de tomada de decisão. Deverá ser compreendido tão facilmente quanto um balanço financeiro. Três grandes mudanças ocorridas este ano prometem revolucionar a forma como as empresas entendem e reportam a sustentabilidade. No começo do ano, o Carbon Disclosure Project, chamado agora somente CDP, anunciou a criação do maior banco de dados de capital natural do mundo. O CDP que conta com o apoio de 722 investidores, gerenciando US$ 87 trilhões em ativos - isto é, um terço do capital investido no mundo -, passou a coletar dados de carbono, água e florestas de mais de cinco mil empresas. Com isso, traz para o mercado métricas confiáveis e comparáveis de desempenho passado e estratégia de futuro, buscando a integração da cadeia de fornecedores. A segunda novidade foi o lançamento para comentários do arcabouço do Relato Integrado (RI), em abril. O RI busca principalmente uma mudança de processo, visando medir os ganhos e perdas em seis fluxos de capital: financeiro, manufaturado, intelectual, humano, social e relacional e natural. O objetivo principal é explicitar a criação de valor dos aspectos extra-financeiros para os investidores. Empresas brasileiras como a CCR, Natura, Petrobras, BNDES, AES, Itaú e Votorantim já aderiram a essa iniciativa com pilotos do programa. Por último, a nova geração de diretrizes do Global Reporting Initiative (GRI) trouxe maior foco na materialidade e uma mudança simples, mas revolucionária, no escopo dos relatos: as empresas deverão reportar suas métricas sobre os ativos que ela influencia em vez de reportar sobre os que ela controla. Nesse contexto, fica impossível falar de questões materiais sem incorporar a cadeia produtiva. Quando trazemos fornecedores e consumidores para a discussão, fica difícil não fazer a integração da sustentabilidade não só com o setor financeiro, mas com todas as áreas da companhia. Acreditamos que essas ferramentas vão ajudar na construção de economias equitativas e resilientes, em que as empresas operem de forma integrada com sua cadeia de fornecimento, mercados, sociedade e economias, e com o planeta. Que estes instrumentos possam abarcar melhor toda a complexidade da sustentabilidade empresarial, promovendo o relato cada vez mais simples e compreensível a todos. * Marina Grossi é presidente executiva do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds). Tatiana Botelho coordena a iniciativa de transparência e relatos do Cebds. ** Publicado originalmente no site Valor Econômico e retirado do site Cebds.


por Marina Grossi e Tatiana Botelho*
“Quem me chamou e falou que esse legado poderia ser convertido numa representação política foi ACM Neto, Aloizio Mercadante e Heloísa Helena”. Fotos: José Eduardo Bernardes Sociedade

“Não é fácil lidar com a estupidez” Entrevista com Jean Wyllys

[caption id="attachment_96073" align="alignleft" width="380"] “Quem me chamou e falou que esse legado poderia ser convertido numa representação política foi ACM Neto, Aloizio Mercadante e Heloísa Helena”. Fotos: José Eduardo Bernardes[/caption] Na matéria, Wyllys fala sobre a dificuldade de se lidar com direitos humanos no Brasil e alerta que o combate à homofobia não pode cair na armadilha de reforçar o Estado penal. Jean Wyllys é jornalista, professor universitário e deputado federal. Quando adolescente, já sabia e reconhecia o seu desejo por outros homens, e passou então a querer entender seu “espaço no mundo”. Fruto dessa inquietude, ainda conflituosa com os valores cristãos herdados do seio da família, questionou, pela primeira vez, uma liderança religiosa sobre a homossexualidade e a igreja. “A reação do Dom Jaime foi muito curiosa, ele disse que eu estava perdendo a fé”, relata o parlamentar. Atualmente, talvez, somente Deus seja mais citado do que o deputado federal do Psol-RJ nos discursos inflamados dos pastores midiáticos, a quem o parlamentar prefere chamar de “fundamentalistas religiosos”. A atuação contra a homofobia e os embates com Marco Feliciano e Silas Malafaia fizeram desse baiano de Alagoinhas o maior representante do movimento LGBT no Congresso Nacional. Em 2005, quando venceu a quinta edição do Big Brother Brasil, Jean Wyllys amealhou 50 milhões de votos via internet ou telefone, projeção que fez com que lideranças políticas, de orientações e partidos distintos, o procurassem para transformar a força dessa votação global em resultado eleitoral. “Quem me chamou e falou que esse legado poderia ser convertido numa representação política foram ACM Neto, Aloizio Mercadante e Heloísa Helena.” Apesar do sucesso midiático, o pleito por uma cadeira na Câmara dos Deputados terminou com 13.018 votos. Sua ascensão ao Parlamento só foi possível por uma carona na campanha do companheiro de partido Chico Alencar, cuja expressiva votação de 240 mil eleitores permitiu a eleição de mais um parlamentar. Hoje, apesar de ter se tornado uma bandeira ativa de um movimento específico, o LGBT, quer ser reconhecido por uma atuação mais ampla. “Não é fácil falar de direitos humanos quando a noção de direitos humanos é direito de bandido e quando as pessoas demandam por vingança, e não por justiça.” Jean Wyllys recebeu Fórum um dia antes da 17ª Parada do Orgulho LGBT, em São Paulo. Durante a entrevista, o deputado falou sobre miséria, conservadorismo, homofobia, direitos humanos, marco regulatório da mídia, defendeu que a rede Globo e os meios de comunicações são espaços a serem disputados pela esquerda e reclamou da falta de educação política dos brasileiros. Fórum – Certa vez, você disse: “Em Alagoinhas, vivia-se abaixo da linha da pobreza.” Chegou a passar necessidade nessa época? Como foi a sua infância e adolescência lá no Nordeste? Jean Wyllys – Minha família vivia abaixo da linha de pobreza. Nasci e cresci em uma periferia chamada Baixa da Candeia, o nome oficial é Assis Chateaubriand, mas Baixa da Candeia foi o nome pelo qual ela ficou conhecida. Vivia em uma periferia rural, muitos sítios onde as pessoas ainda plantavam mandioca no fundo e tal, não tinha água encanada e minha mãe lavava roupa no rio. Era uma infância de muita pobreza e, ao mesmo tempo, uma infância muito bacana, de ir nadar no rio, de brincar de roda e ciranda, dos festejos do catolicismo popular presentes, como a festa junina. Mas, voltando à miséria, a gente vivia numa situação complicada, meu pai tinha problema com alcoolismo, então, desde que me entendo por gente, ele não tinha emprego fixo. Estava trabalhando em uma oficina e na semana seguinte já mudava de oficina, por causa da bebida, isso fazia com que ele não tivesse meios de bancar nossa sobrevivência, a gente dependia muito da ajuda dos outros, de coisas dadas mesmo. Mas não era uma grana suficiente pra criar tantos filhos, éramos sete, mas minha terceira irmã morreu, somos seis hoje. Fórum – Era o filho mais novo? Jean Wyllys – Não, sou o quarto, tem três meninas antes de mim. Para que você tenha uma ideia, minha mãe engravidou com um mês de parida. Era muito filho morando em casas precárias, porque tinha de ser casa em que o aluguel fosse barato, era cada casa ruim… Quando chovia, molhava dentro de casa, em bairros que não tinha esgotamento sanitário, era um horror. Nem sempre a gente tinha comida todos os dias, muitas vezes fui pra escola com fome. Ao mesmo tempo, minha mãe era uma mulher de muita fibra, tinha um orgulho danado. A gente não se apresentava sujo em nenhum momento, tínhamos de estar limpos, podia não ter sabonete em casa, mas ela dava um jeito, pegava patchuli, que é uma folha muito comum na região em que vivíamos, macerava e dava banho pra que a gente ficasse cheiroso. A camisa poderia estar puída e rasgada, mas estava limpa, impecavelmente limpa. Mesmo com os surtos de piolho que tinham na região, no nosso cabelo não tinha. Ela tinha esse cuidado, essa coisa da higiene, apesar da pobreza. Comecei a trabalhar aos 10 anos, fui vender na rua, eu e meu irmão, começamos com algodão-doce e depois com a folhinha do Sagrado Coração de Jesus, e ainda vendemos um livro chamado As plantas curam. Apesar do trabalho, nunca pensei em deixar de estudar, e ia com fome para a escola muitas vezes, porque era um lugar que eu gostava de ir, apesar do bullying. Fórum – Você foi para Salvador com que idade? Jean Wyllys – Saí de Alagoinhas com 15 anos para um colégio interno, que foi um grande divisor de águas na minha vida. Era um colégio da Fundação José Carvalho, uma instituição filantrópica, era de propriedade de uma indústria de ferro liga que tem na Bahia, chamada Ferbasa. Essa fundação administrava o Colégio Técnico da Fundação José Carvalho, um colégio de excelência com um processo seletivo rigoroso. Por pior que seja essa ideia, porque é uma ideia que flerta com o nazismo, a ideia de formação de uma elite pensante, o colégio tinha esse ideal de formar uma elite intelectual que viesse da pobreza. Aos que passavam, eram oferecidos três cursos: tradutor-intérprete, analista de sistemas, numa época em que informática era para poucos, e técnico em mineração, que era para formar mão de obra para a indústria. Optei por análise de sistemas, e já saí da fundação com um emprego certo num hospital português. Tive formação em teatro, música, cinema, oratória, cheguei em Salvador pronto para o vestibular. Fiz a prova para três universidades: a católica, a estadual e a federal, passei nas três. Então, optei por fazer jornalismo. Antes de ir para a fundação, o que me ajudou muito foi a igreja, ela foi muito importante pra gente. Fórum – Qual a sua orientação religiosa, hoje? Ela existe? Jean Wyllys – Tenho uma religiosidade, não tenho uma religião. Depois desse período em que me engajei, me associei à Pastoral da Juventude estudantil, e quando entrei na fundação quebrei esse vínculo com a igreja. Chegou um momento em que eu comecei a questionar, porque, óbvio, o desejo já se fazia presente na minha vida, o afeto e o desejo, e comecei a questionar os padres sobre isso. O bispo Jaime foi para quem eu perguntei, estava intrigado, queria saber por que a igreja não tratava da questão da homossexualidade. Fórum – Qual foi a reação? Jean Wyllys – A reação do Dom Jaime foi uma reação muito curiosa, ele disse que eu estava perdendo a fé. Entendi que era um limite para mim, que a igreja, embora tenha me dado valores muito bacanas, colocou ali um limite, e coincidiu com a minha ida para a faculdade. Mas já na Fundação, comecei um flerte com o ateísmo, com a entrada na universidade, e com a leitura do Materialismo histórico, de Marx, fui flertando mais com ateísmo, mas sou baiano e pisciano, não dá para viver num deserto de crença, não dá para não crer. Crer, em mim, é imperativo. Talvez por ter sido criado com uma educação católica, Deus passa a ser uma marca indelével, marcada a ferro e fogo em mim. Você pode até flertar com o ateísmo, mas Ele está ali. Eu lembro, aqui, do João Cabral de Melo Neto rezando quando estava morrendo. O ateu mais convicto rezou no momento da sua morte. Então, não conseguia viver num deserto de crença, e encontrei nas religiões de matrizes africanas um lugar no qual poderia recompor a minha relação com o sagrado. O candomblé sempre rondou a minha vida porque a família do meu pai é ligada ao candomblé, minha avó Rosa era rezadeira, tinha um altar de santos vestidos que me fascinava e, ao mesmo tempo, me dava medo por causa da educação católica que tive. Tinha um fascínio pela tatuagem que ela tinha no braço, uma estrela de Davi. Ela não era judia, o fato de ela ter uma estrela de Davi tatuada era tão somente porque a estrela era um símbolo pagão anterior ao judaísmo. Na Baixa da Candeia, como uma grande periferia, tinha muito terreiro de candomblé. Os terreiros foram banidos para os lugares mais distantes, religião de preto e de pobre tinha que ser banida dos centros. Fórum – Sua família era conservadora e católica; como foi sentar para conversar e explicar a sua homossexualidade? Foi para sua mãe que contou primeiro? Jean Wyllys – Na verdade, foi para meu irmão. Minha irmã foi surpreendente, ela falou: “Eu sempre soube e isso não muda nada”, achei muito bonito. Meu irmão também disse algo parecido, mas, com ele, eu temia mais. Sempre fomos ligados, temos um ano de diferença de idade, ele é hétero e eu sou gay, temia que ao dizer isso houvesse um afastamento, mas não houve. Com a segurança que os dois me deram, pude falar com minha mãe com tranquilidade. Lembro dos olhos dela marejando, ela chorando, mas minha mãe sempre confiou em mim, porque assumi o papel de arrimo de família muito cedo, aos 10 anos. Meu pai estava vivo, mas conversei só com minha mãe, não conversei com ele. Quando disse pra ela, tinha acabado de entrar na Fundação, e como entrar lá era um prestígio muito grande… Fórum – Você ganhou um reality show, ficou rico e se tornou repórter de um programa de TV. Em que momento você falou: “Quero ser deputado”? Jean Wyllys – É assim, a política sempre esteve na minha vida, cara. A política esteve na minha vida antes de tudo isso que você disse. Fórum – Mas, discutir política e ser politizado é diferente de tomar um impulso e dizer: “Agora quero ser personagem dessa política”. Jean Wyllys – Confesso para você que nunca pensei em ser um representante eleito, em nenhuma das esferas. Como sempre fui um garoto falante, e bem falante, as pessoas diziam: “Esse aí vai ser advogado ou político”. E eu dizia: “Não, eu vou ser jornalista”. Tenho a ideia que eu queria ser jornalista desde os 12 anos, e me tornei jornalista. A política sempre esteve na minha vida, essa agenda de movimentos sociais entrou na minha vida muito cedo, e sempre fui engajado politicamente no movimento pastoral. Quando cheguei em Salvador, entrei no movimento homossexual, porque não tinha o movimento LGBT, não tinha esse nome ainda. Bom, aí venci o Big Brother com 50 milhões de votos na final, e com todas as características que eu tinha: nordestino e gay. Então, após o programa, chegou um momento em que precisei entender o que fazer desse legado. Quem me chamou e falou que esse legado poderia ser convertido numa representação política foi ACM Neto, Aloizio Mercadante e Heloísa Helena. Três figuras diferentes, de três partidos diferentes e de três ideologias diferentes. Mas todos identificaram em mim um potencial representante eleito. Fórum – Os três identificaram convidando você? Jean Wyllys – Os três identificaram me convidando. ACM Neto convidou para que eu fosse como vereador na chapa dele, em 2006, em Salvador. Mercadante me convidou quando fui participar de uma audiência pública no Senado, para debater sobre o Estado laico no Brasil, e ele me chamou depois de um papo que eu tive com uns senadores do PT. O Mercadante falou sobre isso, ele me disse: “Você tem de se filiar a um partido, porque o que vai garantir a chance de se candidatar é um partido, e você tem um legado de popularidade.” É claro que ele falou isso esperando que eu fosse me filiar ao PT. E depois, Heloísa Helena me encontrou numa festa do cortejo afro em Salvador e me convidou, dizendo que meu perfil era o perfil do Psol. Pensei que, se três pessoas tão distintas falaram isso, então é porque o universo está me dando um sinal. Bom, aí é pública a decisão, fui e me filiei ao Psol porque o PT, no Rio de Janeiro, é um apêndice do PMDB. Ideologicamente, estava mais próximo do Psol, embora eu não concorde com tudo do partido, mas isso é salutar. Quando eu me filiei, já cheguei com a expectativa de sair candidato, mas sem esperança de vencer, porque sabia que estava “fora da mídia” – odeio essa expressão, odeio, mas vou usar porque não existe outra – há muito tempo, porque assim eu quis. Pedi demissão da Globo, do “Mais Você”, para voltar à academia, a dar aula, eu era professor da Universidade Veiga de Almeida e da ESPM, voltei a dar aula e estava fora da imprensa de maneira deliberada. Tinha contra mim o fato de ter participado do BBB, e as pessoas, quer dizer, a imprensa não está muito preocupada em distinguir alhos de bugalhos e trata todo mundo da mesma forma, ninguém queria saber qual foi a motivação, na verdade tinha um estigma e isso pesava contra mim. Por outro lado, tinha o fato de o Psol ser um partido pobre e que não aceita doações de empresas, não compactua com o financiamento privado de campanha, é um partido de poucos recursos, e os poucos recursos que o partido tinha iam ser investidos no Chico Alencar. O Chico tinha sido candidato a prefeito em 2006, e tinha tido 80 mil votos, então o partido achava que ele podia não ter uma quantidade suficiente de votos para se reeleger a deputado federal. Eu não teria recursos, seria uma campanha invisível, como de fato foi, me candidatei sabendo que eu não seria eleito. E aí, para minha surpresa, fui eleito. Isso só aconteceu porque fui o segundo mais votado do partido, o Chico teve uma votação fenomenal, arrebentou. Fórum – Você estabelece um olhar crítico sobre diversos aspectos e segmentos da sociedade; qual a crítica que você faz ao BBB? Você não acha que eles reforçam muito o estereótipo, promovem alguns preconceitos? [caption id="attachment_96074" align="alignright" width="400"] “Acho que o que leva a esquerda aos fracassos sucessivos é a incapacidade dela enxergar os meios de comunicação de massa como um campo a ser disputado”[/caption] Jean Wyllys – Tenho um olhar crítico sobre toda a cultura de massas. Como diz Caetano Veloso na letra de “Santa Clara”, a televisão é apolínea e dionisíaca, não é a maldita, mas também não é a santa. Nós temos que ter um olhar crítico sobre a cultura de massas de uma forma geral, incluindo aí o futebol. Acho curioso que muita gente que se acha inteligente se arvora a falar mal de BBB ou da telenovela, e se entregue à paixão do futebol. O futebol não quer dizer nada, em minha opinião, sou uma pessoa praticamente alheia ao futebol, não perco meu tempo vendo os campeonatos, mas respeito quem vê. Acho legítimo quem vê aquilo lá como entretenimento, vejo o futebol como um momento para deixar de ser máquina para virar homem, o maquinismo que o capitalismo impõe a cada pessoa e a cada indivíduo, uma máquina de trabalho que vira homem, vivendo a sua paixão. Respeito quem vê o futebol como espaço de sociabilidade, ou seja, tudo tem que ser visto de maneira crítica, incluindo aí o BBB. O BBB cede de maneira fácil aos estereótipos, mas porque também a audiência quer ver os estereótipos, porque há uma demanda das pessoas por ver aquilo que elas não são. O BBB cede ao estereótipo por uma cultura de valorização da branquitude e da heterossexualidade, que não nasceu com a TV, é anterior à emergência da televisão. A TV emerge para reforçar, mas não podemos esquecer que ela também garante espaços onde isso pode ser contestado. O BBB traz questões que a política não conseguiu pautar; por exemplo, teve agora uma edição, não me lembro se foi a última ou a penúltima, em que a violência contra a mulher foi pautada pelo que aconteceu dentro da casa, um cara que se aproveitou de uma menina que estava bêbada, e isso levou a um debate público muito mais do que a política conseguiu fazer. A questão da homossexualidade foi debatida de maneira exaustiva e respeitosa com a minha presença, entrei no programa para poder fazer essa leitura crítica de uma maneira mais apropriada. Enfim, tenho um olhar crítico e não me arrependo em nenhum momento de ter entrado, mesmo tendo colocado à prova o prestígio que tinha como repórter. Já tinha publicado um livro antes, era uma figura conhecida respeitada em Salvador e, mesmo tendo colocado esse prestígio em risco, não me arrependo não, cara. Sempre soube que podia entrar e sair das estruturas sem me arranhar e a prova disso é que estou aqui. Fórum – Historicamente, a linha editorial da Globo tem problemas com os movimentos sociais. Como você enxerga essa contradição entre o seu partido – porque o Psol vem dos movimentos sociais – e a Globo, que defende interesses do capital e da elite? Jean Wyllys – Vejo com absoluta naturalidade. Acho que o que leva a esquerda aos fracassos sucessivos é a incapacidade dela enxergar os meios de comunicação de massa como um campo a ser disputado. A impressão que tenho é que essas pessoas nunca leram Antonio Gramsci. Há a releitura que o próprio Gramsci fez do marxismo, na qual ele fala da necessidade de posicionamentos estratégicos para você promover a revolução, que não vai acontecer do dia para a noite e com hora marcada. A impressão que tenho é que as esquerdas fracassam também porque parece que nunca leram a revisão da concepção de poder de Michel Foucault de que, nós podemos sim, assumir posições diferentes, dependendo da situação. Vou pegar como exemplo o cara que vai marchar pelos direitos dos trabalhadores oprimidos pelo patrão e pelo capital. Esse cara é o mesmo que chega em casa, bate na mulher e não lava um único copo. Ele está ali, lutando nas fileiras do movimento trabalhista de inspiração marxista pelo fim da exploração, mas explora a mulher dele dentro de casa. O poder se constituiu nessa relação, essa pessoa que é explorada passou a ser exploradora, e essa ambivalência não serve só para esse trabalhador, a Rede Globo também é um espaço, uma arena. É uma burrice e uma estupidez tratar a Globo como um bloco monolítico e não como uma arena em que há uma disputa interna. Estou lembrando uma frase de Gilberto Gil, um verso dele naquela música “O jornal”: “Um jornal é tanta gente, tudo frio, tudo quente, tudo preso à corrente, é tanta gente num jornal”. A gente não pode achar que todas as pessoas na Rede Globo agem daquela maneira, ainda que haja um perfil editorial, há uma disputa interna para se colocar pautas que são de interesse do movimento social, do movimento ambientalista, que são do interesse das mulheres. Há uma diversidade de representações e, sendo os meios de comunicação de massas fundamentais na construção do imaginário, não podemos relegar esse espaço aos conservadores, ou aos patrões, temos de fazer a disputa interna. A minha inserção nos meios de comunicação, a começar pelo BBB, responde a esse movimento político. É uma tremenda estupidez quem não consegue entender que não posso deixar somente Silas Malafaia e Feliciano irem ao Ratinho, não posso deixar que só eles ocupem aquele espaço, tenho de estar lá, tenho de plantar essa semente. Aí a gente volta para a parábola do semeador dita por Jesus: “É preciso jogar a semente, ainda que uma parte dela caia em terreno infértil, ainda que uma parte seja comida pelos pássaros, uma ou outra semente vai cair em terrenos onde ela vai dar frutos.” Fórum – Você é a favor da legalização das drogas? Jean Wyllys – Sou a favor, e militei bastante contra esse projeto de lei que traça uma política nacional de drogas, de autoria de Osmar Terra, o Psol foi o único partido que militou contra. É um retrocesso em termos de política de drogas, vai na contramão da revisão que os países têm feito na substituição da guerra às drogas por um tratamento na perspectiva da saúde pública e das liberdades individuais de enfrentamento do narcotráfico. Sou a favor da descriminalização do consumo, e sou radicalmente a favor da legalização de todas as drogas, porque acho que a única maneira de enfrentar o narcotráfico e toda a violência decorrente dele é legalizar. Para as pessoas entenderem, basta pensarem no álcool. Quase toda a população consome álcool, mas nem toda a população é alcoólatra, então os alcoólatras precisam ser tratados no sistema de saúde. Os usuários recreativos têm de ter sua liberdade respeitada, se alguém tem o direito de encher a cara num bar ou encher a cara em casa, também tem o direito de fumar maconha em casa, isso está dentro da liberdade individual e a pessoa tem de estar consciente dos danos que aquela droga pode causar. A gente pode criar uma política de prevenção aos males do fumo, porque o fumo é legal, quem fuma hoje sabe que o fumo pode provocar câncer de pulmão a longo ou a médio prazo, mas a pessoa tem o direito de fumar se ela quiser, é um direito dela. Fórum – O PLC 122 está tramitando há dois anos e existem outros 28 projetos relativos à causa que também estão parados. Você acha que a mídia tem um papel importante no fato de essa agenda estar travada? Jean Wyllys – Sou otimista e costumo sempre ver o que existe de positivo. Acho que a minha presença naquela casa, o fato de eu ter recomposto a frente parlamentar pela cidadania LGBT mantém essa peteca no ar. Posso não garantir a conquista legislativa, mas garanto o espaço político da discussão, isso já é muito bom, porque tem efeitos em outras esferas do poder ou em outros poderes da República. Temos tido conquistas: no Judiciário, no que diz respeito a ampliar a cidadania LGBT, e a gente vê conquistas tímidas no plano do Executivo. Podemos não ter, ainda, a conquista legislativa, mas sou otimista quanto ao casamento civil, acho que a decisão do CNJ de regulamentar no Brasil inteiro o casamento entre pessoas do mesmo sexo pavimenta o terreno e amplia a possibilidade de o casamento ser garantido na legislação, alterando a Constituição e o Código Civil, que é a batalha para ser enfrentada agora. Sou otimista quanto ao PL 122, mas na perspectiva de estarmos construindo esse relatório junto com o Paim, que é o relator. Estamos dando um subsídio para ele, não queremos que a homofobia seja tratada só como matéria penal, porque ela é sistêmica e deve ser sistematicamente enfrentada, não só como tipo penal. Não sou a favor da ampliação do Estado penal, que sempre foi utilizado para gerir a pobreza. Quem está preso? São negros e pobres da periferia, essa é a verdade. Acho que o Estado penal brasileiro já é suficientemente duro, não precisamos de mais penas e de tipos penais, já temos muitos, se vacilar, nós dois aqui somos criminosos e não sabemos. Não precisamos ampliar mais, o Código Penal que temos já contempla a homofobia como matéria penal, temos lá a lesão corporal prevista como crime e o homicídio por motivo torpe previsto como crime, basta que as pessoas encarregadas na investigação dos crimes com motivação torpe sejam sensíveis para colocar a homofobia como motivação torpe. O Ministério Público, as delegacias, os delegados e detetives que investigam os crimes e as Secretarias de Segurança Pública precisam entender que a homofobia é um dado e que o ódio homofóbico motiva, sim, a lesão corporal e o homicídio. A nossa luta vai continuar, dentro do Congresso vou continuar sendo uma pedra no sapato dos conservadores de direita, sou uma pedra no sapato não só deles, como do próprio movimento LGBT, porque o movimento LGBT tem caído na armadilha de defender a criminalização da homofobia com a ampliação do Estado penal, e isso é uma estupidez porque o Estado penal já se voltou contra nós, acaba de se voltar contra os homossexuais na Nigéria, onde foi aprovada a lei que pune com 14 anos de prisão a prática da homossexualidade. E sabendo que a homofobia é praticada mais largamente – não que ela não seja praticada por pessoas com instrução, é também – em espaços com nível de educação mais baixo, a gente já sabe quem vai ser punido com a criminalização da homofobia, né? Fórum – É assustador o número de homicídios, ainda mais na Bahia, seu estado. Jean Wyllys – Ele é realmente muito alto. Mas, não é só uma resposta penal que vai minimizar os homicídios, porque a resposta penal dada ao racismo não minimizou o problema, o racismo é uma estrutura, a homofobia também, e eles devem ser desestruturados com políticas de educação, de saúde, de segurança pública… Política cultural é fundamental, política de comunicação também. A gente precisa de um marco legal para a comunicação, não podemos permitir que pastores fundamentalistas tenham espaço na TV, e, se tiverem, não se pode permitir que esse espaço seja utilizado para difamar, desqualificar e desumanizar um segmento da população inteira. Fórum – Você pretende se manter como deputado em 2014? Jean Wyllys – Ser deputado não é uma decisão fácil de tomar, amigo. E tenho uma relação ótima com meu partido e com meus eleitores, e existem pessoas que não votaram em mim, mas se sentem representadas por mim, então, não posso tomar uma decisão sem ouvir todos esses lados, mas não digo para você que estou convicto de que vou me reeleger. Ser deputado com esse perfil, que toca essa agenda dos direitos humanos, não é fácil. Não é fácil ser deputado com esse perfil num país em que as pessoas não têm uma educação politica para entender qual é o papel do Legislativo federal. Uma população que em sua maioria confunde o papel do deputado federal com o do deputado estadual e com o do vereador, não é fácil falar de direitos humanos quando a noção de direito humano é direito de bandido e quando as pessoas demandam por vingança, e não por justiça. Não é fácil ler os insultos e as injúrias, não é fácil enfrentar as difamações em curso nas redes sociais, não é fácil lidar com a estupidez, não é fácil lidar com a inveja, não é fácil lidar com a dificuldade das pessoas de ver o homossexual no lugar de sujeito e não de objeto, tudo isso traz angústias. Fórum – Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff. Você pode me dar sua opinião sobre esses três governos? Jean Wyllys – Bom, se não houvesse o governo de FHC não teria havido estabilização da economia, por mais neoliberal que tenha sido seu governo, por mais que ele tenha privatizado serviços essenciais tocados pelo Estado. Privatizações sem muito critério, vendeu algumas de nossas empresas estatais a preço de banana, mas, por mais que os bancos tenham saído fortalecidos por essa politica neoliberal, a verdade é que ele estabilizou a economia, e sem essa estabilidade Lula não teria as condições para tocar as políticas sociais nos governos dele. Por outro lado, não tinha muitas esperanças no governo FHC, mas depositei muitas no governo Lula, que teve, em relação ao governo FHC, duas diferenças. Uma positiva, que foi empreender mais políticas sociais, com destaque para o Bolsa Família, que é um programa de distribuição de renda mesmo, que tirou milhões de pessoas da miséria. Mas os governos Lula engessaram os movimentos sociais, transformando os líderes dos movimentos em gestores públicos e, portanto, tirando dos movimentos sociais a capacidade de crítica e de pressão sobre o governo, criando quase uma cumplicidade entre governo e movimento social, que é algo pernicioso à democracia. No segundo turno de 2010, apesar da experiência com Lula, votei na Dilma, e, mesmo recebendo criticas dentro do Psol, fiz campanha para ela, porque achava uma melhor alternativa do que o Serra. Acreditava que a marca de gênero traria uma diferença em relação ao governo Lula, Dilma sairia do discurso, porque o Lula ficou no discurso, achava que ela partiria para a ação e votei com essa esperança. Quando assumiu, ela disse que faria uma defesa intransigente dos direitos humanos e acreditei, e me decepcionei. O governo Dilma é um retrocesso em relação ao governo Lula no que diz respeito até mesmo a criar fóruns de discussão, no plano do discurso ou dos simples atos, há uma simbologia quando Lula abraça a bandeira do arco-íris, isso tem um efeito político enorme, a Dilma não faz isso. Então, a primeira mulher eleita se comporta como se fosse um homem, e isso não é um elogio, ao contrário. Queria que ela se comportasse como uma mulher, trazendo essa marca de gênero, nesse sentido, Lula foi mais feminino, agiu mais pelo lado feminino que nos compõe, esse princípio feminino da sensibilidade. A Dilma é dura nesse sentido, não cita a expressão LGBT, a não cita a palavra homossexual nos discursos. Se não fosse a secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, que tem uma Coordenadoria da Diversidade Sexual, não fosse ela ser a única ilha no governo Dilma, a causa LGBT estaria ausente das políticas públicas. Fórum – Conversamos com o deputado estadual Marcelo Freixo e ele disse que andava tentando convencer o deputado federal Chico Alencar a sair candidato à Presidência. É um nome que você gosta também? Jean Wyllys – É sim, é um nome que gosto muito, prefiro até o nome do Chico ao do Randolfe. O Randolfe tem um diálogo com o eleitorado, mas ele é controverso dentro do partido, nem todas as correntes fecham no Randolfe, o Chico apazigua mais as questões internas. Vamos ter a Dilma se comprometendo com forças fundamentalistas conservadoras, a gente já tem a Marina dizendo desde já que está comprometida com essas forças, escancaradamente. Fórum – Você não chegou a flertar com a Rede Sustentabilidade? Jean Wyllys – Não, cheguei a ir nas reuniões do Movimento Nova Política, que resultou na Rede, a principio era só um movimento suprapartidário e eu fui em duas reuniões, mas desde o início disse que não sairia do Psol. * Publicado originalmente no site Revista Fórum.


por Igor Carvalho, da Revista Fórum

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