Quais sentimentos nos faz movimentar na vida?

Sociedade

Quais sentimentos nos faz movimentar na vida?


por Leno F. Silva*


Não conheço a Praia do Futuro, mas nos anos 1980/90 ela virou uma importante atração turística por ser um paraíso bruto e pouco frequentado. Um lugar a desvendar e que, provavelmente, deve ter sido cenário de muitas aventuras sentimentais. Foi lá que o diretor Karim Aïnouz decidiu retratar sua mais recente ficção cinematográfica, numa produção que conecta países distintos, Brasil e Alemanha, com universos opostos: o calor do Ceará em contraponto ao frio de Berlim. Nas encruzilhadas da vida tudo pode acontecer, ainda mais quando as emoções diversas são temperadas por encontros, fugas, mortes, buscas e reencontros. Naquela praia de ondas revoltas, qual o futuro para um jovem salva-vidas, que cuida da família, nutre um profundo afeto pelo irmão mais jovem, contudo não se sente livre para, sob a brisa do mar, deixar fluir seus desejos e paixões? Depois de salvar o turista alemão, Konrad, do afogamento, Donato, o cearense, é tocado pela paixão, e ambos seguem juntos para Berlim. Lá, instigado a revisitar suas entranhas, o sensível nordestino decide virar as costas para o seu passado e construir o futuro sem o calor, sem a praia, sem a família, sem nada do que foi, mas com coragem e disposto a viver o que será. Tudo caminha relativamente bem em solo alemão até que o passado, ou melhor, seu irmão Ayrton, decide procurar o salva-vidas na sua nova cidade. Esse reencontro duro, que provoca um dramático embate corporal entre os dois, conduz o drama para um novo caminho, agora enfrentado a três. Praia do Futuro, o filme, é maduro e trata do amor e de tantos outros sentimentos, os quais, independente da temperatura ou do sabor das ondas, são aqueles que nos faz movimentar na vida. Por aqui, fico. Até a próxima. Serviço: Praia do Futuro, Brasil – Alemanha Duração: 90 minutos Direção: Karim Aïnouz Elenco: Wagner Moura (Donato), Clemens Schick (Conrad), e Jesuíta Barbosa (Ayrton) Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos Em exibição nos cinemas Veja o trailer oficial do filme: [youtube]https://www.youtube.com/watch?v=bax6y0Cvs98[/youtube]                   * Leno F. Silva escreve semanalmente para Envolverde. É sócio-diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. É diretor do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, membro-fundador da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade, e da Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra. Foi diretor executivo de sustentabilidade da ANEFAC – Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.

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Um desenho para a São Paulo do século XXI

Como queremos que seja a São Paulo dos próximos 16 anos? Essa é a pergunta que o Plano Diretor deve responder nas próximas semanas, quando passa por audiências públicas antes da votação definitiva no plenário da Câmara Municipal. Em tempos de escassez de água, persistente desigualdade social e eventos climáticos extremos, essa questão depende fatalmente da nossa capacidade de diminuir os efeitos e se adaptar às mudanças do clima. É preciso inverter o saldo: de “buraco negro” sugador veloz dos recursos naturais para uma cidade produtora de serviços ambientais. A transição exige um desenho de resiliência. Foram mais de 724 contribuições da sociedade civil, colhidas em cerca de 50 audiências públicas, e ainda 443 documentos recebidos pela relatoria na Câmara Municipal. Nosso mandato enviou recomendações desde o início da tramitação e testemunhou os avanços na direção de uma cidade mais sustentável e inclusiva. Os eixos de mobilidade levam ao coração de um Plano Diretor Estratégico (PDE) que prevê uma cidade compacta - com o adensamento populacional - e multicêntrica - com estímulos para aproximação entre os locais de emprego e moradia. Ao evitar os deslocamentos e estimular a multimodalidade, o projeto combate a principal fonte de emissão de gases-estufa na cidade: o transporte individual motorizado. Outra fonte de emissões importante, o lixo, também deve ser compulsoriamente reduzida com o acolhimento do Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos. Ao aumentar o número de parques e garantir sua preservação como Zonas Especiais de Proteção Ambiental, o PDE também prepara uma cidade mais capaz de capturar carbono, combater as ilhas de calor e a poluição do ar, além de tornar o solo mais permeável e, assim, aumentar nossa capacidade hídrica. Antes de voltar ao plenário, entretanto, o Plano precisa reincorporar o único parque que havia saído do projeto: o Parque Manancial do Paiol, na região de Parelheiros. A zona sul da cidade, aliás, precisa ser incentivada a conservar sua vegetação e, para isso, o PDE prevê o mecanismo de Pagamento por Serviços Ambientais. Afinal, quem conserva áreas naturais colabora para qualidade do ar e da água na cidade. Outra chance de essa região contribuir para a redução de emissões está no estímulo à produção local de alimentos, através do Plano de Desenvolvimento para a Zona Rural previsto no PDE. Economia local significa mais do que diminuir os deslocamentos e a dependência de recursos externos à região. Resiliente, ela também preza por abundância em vez de escassez. Com isso, implica no incentivo à cultura e aos bens intangíveis. O PDE também responde a essa necessidade ao fortalecer as Zonas Especiais de Preservação Cultural e ao criar territórios culturais na cidade, instituindo o primeiro na região central. Entre tantas conquistas, o PDE ainda merece ajustes. Entre eles, destaca-se a necessidade de aumentar a quantidade de Zonas Especiais de Interesse Social nos eixos de adensamento e pensar seu concílio com as áreas de proteção ambiental, através de critérios de construção sustentável. Afinal, não podemos esperar uma cidade compacta e inclusiva sem uma participação distribuída das diferentes classes sociais. Também é necessário estabelecer prazos e competências para a elaboração dos planos decorrentes do PDE, que, a partir das suas diretrizes, vão legislar sobre abordagens específicas. Será quando deveremos discutir um Código de Edificações com critérios ambientais, um Programa de Recuperação de Fundos de Vale e, obrigatoriamente, um Plano de Mata Atlântica que balize a revisão da Lei de Uso e Ocupação do Solo. Agora, a sociedade precisa fazer vigília por um Plano Diretor que conserve o interesse público ouvido no processo. E tanto as forças políticas que governam a cidade hoje quanto as que pretendem governá-la daqui 16 anos devem se propor a um pacto suprapartidário em prol do melhor Plano Diretor possível. Não podemos permitir que interesses menores de setores do mercado façam mudanças obscuras no apagar das luzes do plenário. Com o reconhecimento de que o espaço urbanizado é gerador de passivos e tem que gerar ativos ambientais, o Plano Diretor é uma oportunidade para São Paulo reduzir sua pegada ecológica e alavancar sua concepção de espaço urbano sintonizado no século XXI. * Ricardo Young, 56, empresário, é vereador de São Paulo pelo PPS. Foi presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.


por Ricardo Young*
futebol Sociedade

‘Copa das Copas’? Ou das lorotas?

Antes mesmo de o escrete canarinho pisar os abastados gramados inacabados, a máquina publicitária do governo federal já entrou em campo. Tomou conta de todos os intervalos comerciais da TV. Com força. Com garra. Com vontade. Com força total. E também com uma dose considerável do que poderíamos chamar de doideira oficialista: em pleno país do futebol, onde supostamente a maioria dos nativos se delicia vendo jogadores dando chutes na bola enquanto um juiz corre atrás deles com um apito na boca, a propaganda do governo quer convencer o povo de que Copa do Mundo vale a pena, é legal, é boa à beça. Coisa estranha, convenhamos. Antes, o governo queria porque queria fazer a Copa no Brasil, pois isso traria a felicidade geral da Nação, sabidamente aficionada desse esporte exótico. Agora, precisa gastar dinheiro público para encorajar a Nação a ficar feliz, feliz no geral e no particular, porque a Copa vai ser uma apoteose. Vai ser, como diz o locutor chapa-branca, “a Copa das Copas”. “Entende?”, diria o Pelé. Aí você pergunta: Mas o que é que está havendo? Será que existe no governo alguma desconfiança de que “não vai ter Copa”? Qual a lógica dessa faraônica operação de marketing? Por acaso o Palácio do Planalto, tão dado a pesquisas de opinião, andou descobrindo que o brasileiro agora começou a odiar futebol? São perguntas que merecem alguns minutos da nossa atenção. As autoridades federais parecem aflitas, o que é esquisito. De um lado, providenciam a força bruta para atuar como leão de chácara dos estádios. De outro, despejam em cima da sociedade este interminável e sufocante blá-blá-blá publicitário, pago pelos cofres públicos. Quanto à força bruta, a Presidência da República mandou convocar milhares de soldados do Exército para vigiar bem de perto os cidadãos que pretendem protestar. Temem que as polícias, sozinhas, não deem conta da repressão. A própria presidente Dilma Rousseff já falou que não quer saber de manifestações atrapalhando o espetáculo. Em Jati, no Ceará, há dois dias, ela declarou que “quem quiser (se) manifestar não pode atrapalhar a Copa”. Com a originalidade retórica que lhe tem sido peculiar, expressou a sua presidencial opinião: “Acho que a Copa tem todas as condições de ser um sucesso. Estamos garantindo a segurança. A conjunção de forças federais com as Polícias Militares dos Estados, a Força Nacional, tudo isso vai assegurar que ela seja feita pacificamente.” Do lado do blá-blá-blá publicitário, o estilo é um pouco menos tecnocrático, embora tente provar, por meio de cálculos devidamente tecnocráticos, que esta Copa – já famosa pela gastança de verba pública e pelo desperdício sem critérios em obras que não ficarão prontas a tempo – tem, digamos, um custo-benefício imbatível. No fim de tudo, você, brasileiro, pode apostar, vai sair no lucro. Entende? Até a alegria é autoritária A matemática da oratória ufanista é a seguinte (vamos transcrever aqui um trecho do discurso oficial): “Com o esforço e o talento do brasileiro, conquistamos o direito de sediar a Copa de 2014. É campeããão! Só com turismo e serviços, a realização da Copa movimenta R$ 142 bilhões na economia.” Sem contestar os R$ 142 bilhões, valeria pedir licença para indagar, com todo o respeito: desde quando “sediar a Copa” é um direito? Se não é, digamos, um direito propriamente dito, por que insistir nessa linguagem meio reivindicatória, meio sindicaleira? Será por que esse palavreado aproxima a publicidade oficial da publicidade partidária do PT, que também está no ar por estes dias? É bem verdade que a propaganda do PT não tem nada que ver com futebol; descamba para um terrorismo simbólico um tanto baixo, afirmando que o brasileiro não vai querer “voltar atrás” porque isso significaria desemprego, tristeza e criancinhas sem sorvete (só faltou, ali, alguém contratar a Regina Duarte para arregalar os olhos e dizer “eu tenho medo”). Ao insistir na tese de que sediar a Copa é um “direito” conquistado, porém, o anúncio do governo ecoa a retórica dos publicitários eleitorais do PT, como se a alegria só estivesse ao alcance daqueles que não voltam atrás e aderem obedientes à euforia oficial, seja na Copa, seja nas eleições. Por esse caminho sutilmente partidário, a investida da comunicação governamental se projeta como um chamamento cívico. E meio assim, de esquerda, entende? Chama o povo para cerrar fileiras com a presidente da República, estigmatizando, segregando e demonizando todos os que não estão de acordo com este circo padrão Fifa. A coisa é muito simples: quem não veste a camisa quando a presidente manda não é bom brasileiro. E, se você quiser saber exatamente o que significa ser brasileiro, fique tranquilo. A publicidade chapa-branca explica direitinho, pedagógica e patrioticamente: “Quando te perguntarem o que é ser brasileiro, diga ‘um povo feliz, muito batalhador. Gente forte e firme, que pega no batente, que não abre mão do que já conquistou. Que cria, que sonha. Que entra em campo e faz o seu papel. Que vence as fronteiras e tem talento pra ganhar o céu’. Eu quero cantar pro mundo inteiro o que é ser brasileiro. O maior espetáculo da Terra vai acontecer aqui, na nossa casa. E dentro e fora de campo vamos encantar o mundo com nosso talento e nossa garra. Isso é ser brasileiro. Porque essa é a nossa Copa. Essa é a Copa das Copas.” Entende? O governo anda em alerta total com as críticas à Copa do Mundo. Quer construir um sólido consenso a favor (dos jogos e da reeleição, tudo de uma vez só). Vai ser por bem (supondo-se que o marketing governista seja o argumento “do bem”, o argumento bonzinho) ou por mal (os garotos fardados de verde-oliva estariam no papel de bad cop). Às vezes, dependendo do clima político, até a alegria é autoritária. * Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP e da ESPM. * Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo e retirado do site Observatório da Imprensa.


por Eugênio Bucci*
Até 2050 seis bilhões de habitantes viverão em cidades. Foto: shutterstock Sociedade

Sufoco!

[caption id="attachment_100752" align="alignleft" width="300"] Em 2030, cerca de 60% da população mundial viverá em cidades. Foto: http://www.shutterstock.com/[/caption] Sente-se um ar carregado, uma espécie de estresse coletivo. Algo não muito bem definido sufoca a gente, criando mal-estar e desencontro. Pensei que isto fosse específico do nosso Rio de Janeiro, onde o tal “choque de ordem” do prefeito Paes por enquanto é sentido como uma grande desordem na coisa mais básica de uma grande cidade, a mobilidade. É uma verdadeira dor de cabeça ir ao trabalho e voltar para casa. Andar na Avenida Rio Branco durante o dia virou aventura diária: há ônibus nos dois sentidos da avenida, mas nem para todos os lugares da cidade. Tenho colegas no Ibase que passaram a se deslocar quilômetros para chegar ao trabalho, ou a tomar a sua condução de volta sem saber o que vão encontrar e nem quando chegarão ao destino. Afinal, as vias principais ficaram restritas e sempre engarrafadas na hora de pico. Trens, então, são um desastre. É notícia todo dia o descalabro do sistema da Supervia, onde viajar já é um ponto além do sufoco. No metrô, na linha mais importante e única para a Zona Norte, as pessoas viajam espremidas. E o governador Cabral ainda achou prioritário gastar uma fortuna para estender a linha de Ipanema à Barra, ao invés de investir tal dinheiro para transformar a Supervia em metrô de superfície, servindo milhões de pessoas. Enfim, no detalhe dos transportes, o Rio de Janeiro sufoca a cidadania de maneira a se temer asfixia completa. Aliás, foi isto que aconteceu na última quinta-feira, com a greve dos rodoviários. A mobilidade no Rio, porém, está longe de ser a única causa do sufoco. Mas nem é só no Rio que as pessoas sentem que de repente as coisas estão fora do lugar e a vida ficou um tanto mais penosa. A mobilidade é uma questão nacional, especialmente nas grandes cidades e suas periferias. A segurança pública volta a perturbar em todos os sentidos. As Polícias Militares, concebidas para reprimir, e não para garantir cidadania, são parte do problema, aliás são uma herança da ditadura, parte do Estado onde a nossa democracia ainda não chegou. Pior que nossas polícias é a crescente intolerância no seio da própria sociedade, com aumento criminoso e inaceitável de atos de justiça pelas próprias mãos. Dá medo. E medo é uma espécie de câncer para a sociabilidade e a convivialidade, tão fundamentais para a cidadania e a democracia. Agora, com a Copa, até as Forças Armadas entram para garantir segurança, e no lugar de segurança trazem um sufoco a mais. A “ocupação” das cidades-sede dos jogos visa dar tranquilidade aos turistas e ao negócio da FIFA, e não exatamente dar segurança à cidadania de todas e todos, tanto que voltarão aos quartéis com o fim dos jogos. As mazelas do cotidiano são muitas, e seria enfadonho ficar aqui lembrando todas. Há porém algo mais sistêmico, estrutural, que está por trás de tudo e alimenta o sufoco. Aparece como distanciamento, como algo de outro mundo. É o sistema político, especialmente nossa representação no Congresso, nas Assembleias, nas Câmaras Municipais, nos Partidos, com sua capacidade de nada ver e perceber. Há, sim, o crescimento de um perigoso descrédito na política e nos políticos em geral. Interesses particulares, disputas de nacos do poder para ter acesso a privilégios, subordinação do interesse público e cidadão a negociatas escusas, desvios de recursos, enfim, a política cheira a coisa suja, que não dá para acreditar e nem suportar. Na prática, o nosso sistema político não é a nobre atividade de disputa dos sentidos e dos projetos de sociedade que precisamos, dos caminhos para tanto, das políticas necessárias e das melhores normas e leis que garantam direitos e cidadania de forma universal. A pequenez que a política real exala, além de sufocante, pode nos levar a matar a própria democracia. O nosso sufocante cotidiano não parece ser do mesmo mundo dos políticos. Eles estão lá e nós cá, com um fosso em crescimento no meio. A vibrante mobilização pela democracia de trinta anos atrás, os grandes movimentos e as grandes disputas, a nova Constituição, as eleições diretas de presidentes, novas políticas, tudo vem perdendo vigor e parece passado distante. Entramos numa democracia de baixa intensidade, com políticos insensíveis aos clamores da cidadania nas ruas, praças e comunidades deste nosso querido país. Até quando vamos suportar isto? Estamos em ano eleitoral. Não vejo sinais de que algo vai acontecer até as eleições, despertando a vontade de participar e decidir a parada, além, é claro, de nos tirar das costas o sufoco. Nem sinais de que projetos estão emergindo para mobilizar o imaginário e dar conta do sentimento profundo de frustrações que sufocam. Os partidos, os políticos e a própria política estão longe demais. Não é bom para a cidadania e a democracia tal estado de coisas. A proposta de reforma política é algo fora do mundo oficial. Todos estão mais preocupados em como financiar as campanhas, pois a política que está aí virou disputa de recursos das grandes empresas, especialmente as empreiteiras. Estas, e não a cidadania, são as grandes votantes, por mais lamentável que isto pode ser para a democracia. As propostas de reforma pipocam entre alguns setores da sociedade civil, mas não se tem revelado capazes de mostrar que a política institucional nos afasta do caminho da cidadania e da democracia, motivando e angariando o apoio necessário para a mudança, tão necessária no entanto. Bem, antes da eleição temos a Copa do Mundo. Mais um sufoco? Ou possibilidade de levantar a nossa autoestima? O certo é que não é a Copa e seu resultado que vão dar a ponte para reaproximar a política do cotidiano da cidadania. Precisamos voltar a construir trincheiras cidadãs para reinventar a democracia. Como fazer isto extraindo, como nos lembra Gramsci, o bom senso do senso difuso de insatisfações reinante nos poros da sociedade e o transformando numa nova grande onda de democratização? Este me parece o grande desafio para a democracia no Brasil neste momento. Saberemos enfrentá-lo? * Cândido Grzybowski é sociólogo e diretor do Ibase. ** Publicado originalmente no site Canal Ibase.


por Cândido Grzybowski*
Manifestação-São-Paulo-Praça-da-Sé-18-6 Sociedade

Manifestações contra a Copa do Mundo: o jeito é gerar cenas de impacto e de interesse da mídia

[caption id="attachment_98068" align="alignleft" width="300"] Foto: Reprodução/Internet[/caption] No final da tarde da última quinta-feira, dia anunciado para manifestações contra a Copa do Mundo da FIFA, passei pela Av. Paulista e constatei que o número de ativistas era menor do que o contingente policial destinado a vigiar o evento. Quando retornei para casa vi pelos sites dos principais veículos de comunicação que havia ocorrido confronto, disparo de bombas de gás lacrimogênio e depredação de estabelecimentos privados. Em relação aos protestos ocorridos em junho do ano passado, articulados inicialmente pelo Movimento Passe Livre, o volume de engajados era bem pequeno. E já que a quantidade de gente não era expressiva, o jeito foi encontrar uma maneira de transformar o fato em cenas de interesse da mídia. Nesse contexto a destruição parcial de bens privados é um grande mote. As imagens dos atos violentos, das vidraças arrebentadas, de veículos danificados, da correria e da fumaça geradas pela investida da Polícia Militar são ingredientes muito bem-recebidos pelos veículos de comunicação que buscam a espetacularização da notícia. Com essa estratégia, as reinvindicações, muitas delas legítimas, perdem importância para as cenas impactantes, que garantem audiência, principalmente nas TVs que ganham “conteúdo cinematográfico” para os seus diversos programas jornalísticos tão profundos quanto um copo d’água. Por aqui, fico. Até a próxima. * Leno F. Silva escreve semanalmente para Envolverde. É sócio-diretor da LENOorb – Negócios para um mundo em transformação e conselheiro do Museu Afro Brasil. É diretor do IBD – Instituto Brasileiro da Diversidade, membro-fundador da Abraps – Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade, e da Kultafro – rede de empreendedores, artistas e produtores de cultura negra. Foi diretor executivo de sustentabilidade da ANEFAC – Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade. Editou 60 Impressões da Terça, 2003, Editora Porto Calendário e 93 Impressões da Terça, 2005, Editora Peirópolis, livros de crônicas.


por Leno F. Silva*
Foto: Reprodução/ Internet Sociedade

Publicidade e crianças

[caption id="attachment_94975" align="alignleft" width="300"] Foto: Reprodução/ Internet[/caption] Poucos se deram conta de que, a 4 de abril deste ano, a presidente Dilma assinou a Resolução 163/2014, do Conselho Nacional da Criança e do Adolescente (Conanda), que proíbe publicidade abusiva direcionada a crianças e adolescentes. Como alertou o jurista Dalmo Dallari, preservou-se o direito constitucional de liberdade de expressão. Limitou-se, porém, o de liberdade de comércio, que deve ser restrito quando ameaça direitos humanos. Pais e educadores sabem o quanto crianças e adolescentes, sem maturidade e discernimento, ficam expostos à publicidade abusiva. Ídolos do esporte são usados em propaganda de bebidas alcoólicas; alimentos com alto teor de gorduras saturadas são apresentados como sadios; guloseimas que provocam obesidade precoce aparecem revestidas de embalagens sedutoras. Enquanto a família e a escola querem formar cidadãos, a publicidade quer formar consumistas, considerando o lucro do anunciante acima da preservação da saúde física e psíquica. Estudos demonstram que crianças e adolescentes aderem às drogas por transferirem para a TV e a internet seu universo onírico. Os sonhos químicos tentam preencher o vazio da mente que não exauriu a fantasia no período da infância. A Constituição brasileira dispõe no artigo 227: "É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida (...), à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-las a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. A aprovação da Resolução foi uma vitória do Conanda e, em especial, do Instituto Alana que, há anos, luta em prol dos direitos desse amplo e frágil segmento populacional com idade inferior a 18 anos. Por força de lei, agora estão proibidas no Brasil publicidade e comunicação mercadológica com intenção de persuadir crianças ao consumo de qualquer produto ou serviço, utilizando-se de "linguagem infantil, efeitos especiais e excesso de cores; trilhas sonoras de músicas infantis ou cantadas por vozes de criança; representação de criança; pessoas ou celebridades com apelo ao público infantil; personagens ou apresentadores infantis; desenho animado ou de animação; bonecos ou similares; promoção com distribuição de prêmios ou de brindes colecionáveis ou com apelos ao público infantil; e promoção com competições ou jogos com apelo ao público infantil.” Nenhum dos recursos acima elencados pode mais ser utilizado "em eventos, espaços públicos, páginas de internet, canais televisivos, em qualquer horário, por meio de qualquer suporte ou mídia, seja de produtos ou serviços relacionados à infância ou relacionados ao público adolescente e adulto.” A lei proíbe também abusiva "publicidade e comunicação mercadológica no interior de creches e das instituições escolares da educação infantil e fundamental, inclusive em seus uniformes escolares ou materiais didáticos.” Tais medidas de proteção da criança e do adolescente "não se aplicam às campanhas de utilidade pública que não configurem estratégia publicitária referente a informações sobre boa alimentação, segurança, educação, saúde, entre outros itens relativos ao melhor desenvolvimento da criança no meio social.” O objetivo da lei promulgada pela presidente é assegurar o "respeito à dignidade da pessoa humana, à intimidade, ao interesse social, às instituições e símbolos nacionais; atenção e cuidado especial às características psicológicas do adolescente e sua condição de pessoa em desenvolvimento; não permitir que a influência do anúncio leve o adolescente a constranger seus responsáveis ou a conduzi-los a uma posição socialmente inferior; não favorecer ou estimular qualquer espécie de ofensa ou discriminação de gênero, orientação sexual e identidade de gênero, racial, social, política, religiosa ou de nacionalidade; não induzir, mesmo implicitamente, sentimento de inferioridade no adolescente, caso este não consuma determinado produto ou serviço; não induzir, favorecer, enaltecer ou estimular de qualquer forma atividades ilegais, a qualquer espécie de violência, a qualquer forma de degradação do meio ambiente; e primar por uma apresentação verdadeira do produto ou serviço oferecido, esclarecendo sobre suas características e funcionamento, considerando especialmente as características peculiares do público-alvo a que se destina.” Resta, agora, estabelecer as punições adequadas a quem insistir em transformar, através da hipnose eletrônica, futuros cidadãos em precoces consumistas. * Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Mário Sérgio Cortella, de "Sobre a esperança” (Papirus), entre outros livros. @freibetto. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Frei Betto*
Sistema Cantareira. Foto: Sabesp Sociedade

O Sistema Cantareira: risco ou oportunidade?

Os moradores da maior cidade do Brasil estão apreensivos com a possibilidade de terem que enfrentar um racionamento de água prolongado, provocado pela baixa recorde no volume do Sistema Cantereira, um conjunto de represas que abastecem a Grande São Paulo. A discussão sobre as possíveis soluções para o abastecimento na capital paulista é urgente e precisa envolver toda a sociedade, por isso, a TNC tem contribuído com esse debate, ao propor alternativas práticas e ambientalmente responsáveis para o problema. Em março, um dos mais importantes jornais do país, O Estado de S. Paulo, publicou o artigo abaixo, que resume a visão da TNC para a segurança hídrica da capital paulista. Confira e participe do debate você também, por meio do Facebook e do Twitter da TNC. [caption id="attachment_110370" align="aligncenter" width="580"] Sistema Cantareira. Foto: Sabesp[/caption]   Os paulistanos vêm sendo confrontados com imagens desalentadoras de leitos de represas rachados que remetem a memória ao semiárido brasileiro. No entanto, elas são do Sistema Cantareira, no estado de São Paulo, um dos maiores sistemas de abastecimento de água do mundo, responsável por atender mais de 12 milhões de habitantes nas Regiões Metropolitanas de São Paulo (RMSP) e Campinas. Nesse momento, o sistema opera com pouco menos de 15% de sua capacidade*, o menor nível registrado desde que foi criado no início da década de 70. Estas imagens que são o símbolo da crise atual também têm evidenciado que a água não tem origem nas torneiras que chegam em nossas casas. As soluções que chamam a atenção dos usuários para a racionalidade do uso da água são respostas necessárias, mas estão longe de ser suficientes para resolver o problema. Fechar a torneira não basta. É necessário cuidar da oferta de água onde ela nasce. Assim, uma resposta sistêmica passa pelo manejo de bacias hidrográficas e recuperação dos seus mananciais que, em grande parte, encontram-se degradados, poluídos e cujo entorno foi severamente desmatado. Apenas o Sistema Cantareira perdeu 70% da sua cobertura florestal original agravando o assoreamento dos rios e represas, diminuindo a vida útil desses ambientes. A degradação da vegetação nativa potencializa ainda o efeito das secas. A interação de todos esses fatores leva a uma situação de risco extremo e representa uma ameaça ambiental, social e econômica. Esse cenário é ainda mais alarmante pois a RMSP e Campinas, juntas, são responsáveis por mais de 22% do PIB do país. Portanto, é mais do que prioritário haver uma resposta estratégica e robusta aos problemas crescentes e urgentes de acesso e fornecimento de água em quantidade e qualidade nos centros urbanos. É premente irmos além das intervenções convencionais, tais como obras de engenharia. Faz-se necessário respostas sistêmicas; e estas não são de responsabilidade exclusiva dos governos. Existe corresponsabilidade das empresas e da sociedade civil na busca de soluções, pois estas criam valor compartilhado. Assim, é correto que o governo exerça papel de protagonista para fomentar e implementar soluções múltiplas que atinjam diversos setores de uma vez. A sociedade civil organizada deve ajudar a criar voz cívica para alertar sobre o problema e trazer ao conhecimento de governos e empresas seus melhores exemplos de projetos. ONGs ambientalistas têm o dever de reportar os resultados de seus projetos inovadores para informar a construção de políticas públicas e também para orientar empresas nos seus esforços de responsabilidade social corporativa para o meio ambiente. Uma das frentes mais importantes de colaboração para se chegar a um equilíbrio entre oferta e demanda de água em São Paulo se dará com o fortalecimento dos Comitês de Bacias Hidrográficas. Damos ênfase ao investimento necessário à recuperação da “infraestrutura verde”, que ocorre por meio da restauração florestal de áreas degradadas, assim como, com a conservação dos remanescentes florestais. Tais iniciativas asseguram a saúde de uma bacia hidrográfica. Essa intervenção, quando bem manejada, minimiza o risco de eventos extremos e reduz a vulnerabilidade de populações a enchentes e estiagens prolongadas. Além disso, reduz a erosão e o assoreamento dos rios e represas e melhora substancialmente a integridade do solo, retendo e armazenando a água. Ou seja, as florestas prestam um serviço ambiental de regulação e segurança hídrica à população. Nova Iorque ilustra bem essa equação. Há décadas a administração da cidade optou por purificar a água filtrando-a naturalmente pelas florestas, a um custo inicial de US$ 1 a 1,5 bilhão no período de dez anos. Esse valor foi sete vezes menor que os US$ 6 a 8 bilhões que seriam gastos na forma tradicional de tratar e distribuir água potável, mais US$ 300 a 500 milhões anuais em custos operacionais. Estudo recente da ONG ambiental The Nature Conservancy (TNC) revelou que recuperando-se 12 mil hectares de áreas desmatadas e corrigindo processos erosivos em 2 mil hectares nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari, Jundiaí e Alto Tietê, o nível de sedimentos que corre para os rios diminuiria em 50%. Ou seja, a capacidade dos reservatórios aumentaria, ao passo que diminuiria os investimentos feitos em dragagem e tratamento para remoção de sedimentos. A oportunidade de aprendermos com a crise atual está posta. Se tivermos discernimento para atuar de forma sistêmica e capacidade política e interinstitucional, poderemos reduzir os riscos de um desabastecimento. E mais do que isso, temos a oportunidade de promover a integridade das bacias hidrográficas e a segurança hídrica para os seus diferentes usuários, fatores indispensáveis para a estabilidade social e econômica de São Paulo. Para saber mais e participar da TNC e dos programas de segurança hídrica acesse a página da campanha “De Onde Vem a Sua Água?” - Nota de atualização: Desde que o artigo foi publicado, o nível de água do sistema Cantareira caiu ainda mais, para cerca de 10% da capacidade. * João Campari é Ph.D. em Economia Ambiental e Diretor de Programas de Conservação da TNC e Samuel Barrêto, especialista em Recursos Hídricos e Coordenador do Movimento Água para São Paulo (MApSP) da TNC. ** Publicado originalmente na TNC e retirado do site Mercado Ético.


por João Campari e Samuel Barrêto*
Foto: Artur Voltolini Sociedade

UPPs, eleições e (mau) jornalismo – Entrevista com Janio de Freitas

[caption id="attachment_113323" align="aligncenter" width="600"] Foto: Artur Voltolini[/caption]   O decano do jornalismo brasileiro Janio de Freitas, de 82 anos, concede uma longa e enriquecedora entrevista ao Favela 247. Morador da favela do Vidigal há 29 anos, Janio discorre sobre as UPPs, as eleições para governador no Rio de Janeiro, a desmilitarização da polícia, a regulamentação das drogas e dá sua dica ao jovem jornalista de favela: "Vá em frente. Descubra o seu mundo e descubra o seu jornalismo. Leia criticamente jornais. Ler livros é fundamental. Ter noção de história é muito enriquecedor. Ler autores críticos é muito importante. Leia, leia, leia e leia. O que pintar na frente, leia". Janio de Freitas, de 82 anos, um dos mais importantes jornalistas políticos vivos do Brasil, recebeu o Favela 247 na varanda de sua casa. Morador do Vidigal há 29 anos, é de seu escritório repleto de livros, revistas e jornais amarelados – e com uma incrível vista para o mar e para a favela –, que Janio trava suas batalhas com Joaquim Barbosa e outras figuras importantes da política nacional em sua coluna para o jornal Folha de São Paulo, que mantém há 31 anos e de onde sai as análises mais coerentes e éticas do jornalismo contemporâneo. Na entrevista Janio discorre sobre o tráfico de drogas: "Essa coisa de pobre contra pobre é uma coisa horrorosa. Pobre armado contra pobre é algo insuportável"; e sobre as UPPs: "A UPP sofre por causa da origem da formação profissional do policial, que continua sendo difícil, viciada. A UPP sofre os efeitos da sociedade que ela faz parte." Janio diz achar ser uma "fantasia" a ideia de resolver a violência policial com a desmilitarização da polícia, e se diz cético em relação à regulamentação da venda de drogas: "O traficante de repente vai dizer: 'Olha, aqui eu paro porque o Mujica resolveu agora que o Estado é o dono da maconha?'". O jornalista ainda reconhece os avanços sociais do governo Lula, critica o neoliberalismo do FHC e faz uma análise sobre os candidatos das eleições para governador do Rio de Janeiro. Uma das vozes mais lúcidas do jornalismo brasileiro, Janio critica a nova geração: "Hoje em dia há esse fenômeno formidável no jornalismo: o jornalista que não lê jornal", e dá dicas aos jovens jornalistas de favelas: "Vá em frente. Descubra o seu mundo e descubra o seu jornalismo. Leia criticamente jornais. E ler livros é fundamental. Ter noção de história é muito enriquecedor. Ler autores críticos é muito importante. Leia, leia, leia e leia. O que pintar na frente, leia". Após uma hora cravada de entrevista, Janio se despediu, precisava almoçar para assistir a mais uma sessão do STF. Como era o Vidigal há 29 anos? Quando eu me mudei para cá, minha rua não tinha nem calçamento nem iluminação. Essas casas aí não existiam [apontando para o alto do morro], aqui ao lado havia um começo de obra. Quem arranjou o primeiro calçamento que houve aqui foi minha mulher. Mas a iluminação pública só veio depois, também em parte pelo esforço dela, e ainda muito precária. Como o senhor conheceu o Vidigal? Eu já conhecia o Vidigal quando vim pra cá. Nos prédios pequenos moraram a Gal, o Caetano eu acho que morou – ou Caetano ou o Gil –, o Lima Duarte. No prédio grande morava minha filha. Ela chegou um pouco depois de mim. Comigo veio meu filho, morou aqui e depois foi para o exterior estudar por sete anos. Quando voltou, morou um tempo nos predinhos, depois foi para uma casa aqui em frente onde morou até recentemente. O senhor frequenta o Vidigal? Não, não vivo o Vidigal. Primeiro porque quando eu vim para cá, e durante muitos anos e até há pouco tempo atrás, eu trabalhava muito. Fazia uma coluna diária, uma coluna de informação de ponta, com uma relação muito complexa com as fontes. Ela me tomava um tempo gigantesco. Começava muito cedo, trabalhava em casa até mais ou menos duas horas da tarde, depois saía para a redação do jornal e aí não tinha hora para voltar. Tanto podia vir para casa quanto ir me encontrar com alguém para apurar alguma coisa. O senhor percebeu um aumento no poder de compra dos moradores do Vidigal nos últimos 10 anos? Percebi pela quantidade de casas construídas. Em parte é bom, e em parte lamentável porque criou-se a indústria da laje, que é uma forma covarde de pobre explorar o pobre. Numa ocasião eu estava comprando material de construção quando chegou um sujeito muito bem-vestido, com um tremendo de um anel de ouro, desses que chamam a atenção. Era nordestino. Fez suas compras, encomendou umas coisas. Quando ele saiu, o vendedor me disse: “Sabe do que ele vive? Ele compra laje aqui, sobre ela levanta mais um andar, manda vir gente do nordeste e os instala nessa laje. Imediatamente ele coloca a laje à venda, e os que estão ali podem morar até que ela seja vendida. Enquanto isso ele está fazendo outras lajes, uns quatro ou cinco segundo andares. Ele vive de explorar laje. Resultou nisso aí [apontando para o alto do Vidigal]. Uma coisa inacreditável. Se você vir umas fotos que eu fiz na década de 1980 desse morro, você não acredita que seja o mesmo. Inclusive as árvores, era um beleza, árvores imensas, lindas, foi tudo abaixo. Quando o senhor se mudou para o Vidigal, o tráfico já estava organizado? Não sei dizer a você o quanto era organizado ou não. Mas não era ostensivo. O clima de tranquilidade existia. A pessoa que veio trabalhar comigo aqui em casa era do Vidigal, conhecia todo mundo. Lourdes me falava muito de um tal de seu Santinho, que ela dizia que era quem mantinha a ordem. Muito antes de o Comando Vermelho entrar. O senhor percebeu a entrada das facções no Vidigal? Eu não tenho muita noção de como as coisas se passaram. Mas isso de ver homens armados demorou a acontecer. Quando eu vim pra cá não existia. A primeira vez em que fui parado numa barricada por traficantes foi muito desagradável, muito chocante. Qual é a sua visão sobre as UPPs? Eu acho que a ideia em si é muito boa, necessária. Mas não pode ser só UPP, só polícia. Com a UPP têm que vir os demais serviços de administração pública. Isso é absolutamente fundamental. A militarização é uma etapa. Quando o nível de exigência dos próprios moradores aumentar, eu acho vai haver um aumento na quantidade se serviços disponíveis. Tem de aumentar. Como morador do Vidigal, o que o senhor vê de impactos pós-UPP? Eu não tenho percebido nada ostensivo e intimidador como havia antes. Não tenho notícias de que tenha o tipo de intimidação que a Lourdes, que trabalhou muitos anos aqui comigo, passou. De vez em quando ela chegava aqui muito triste, aborrecida, por que na véspera um grupo havia subido na laje dela e passou a noite fumando maconha, fazendo barulho, e Lourdes não conseguia dormir. Depois eles foram se tornando mais audaciosos ainda, entravam na casa de Lourdes e retiravam comida da geladeira. E mais tarde, a fizeram cozinhar para eles. E não era só com ela. Eu acho que isso, por exemplo, se não acabou, diminui. Não só aqui, acredito que várias outras UPPs tiveram um resultado semelhante quanto à melhoria da convivência, de certa forma ainda problemática, contudo menos tensa do que era antes. Afinal, essa coisa de pobre contra pobre é uma coisa horrorosa. Pobre armado contra pobre é algo insuportável. Os policiais também são pobres. Policial é pobre, tem a mesma origem social, econômica, ou pelo menos muito próxima. É uma coisa muito violenta, covarde, revoltante. Por essa razão é que a iniciativa da UPP é boa, mas há muito o que fazer para que ela produza bons resultados. Pode não ser o esperado, mas pelo menos melhor. A UPP sofre por causa da origem da formação profissional do policial, que continua sendo difícil, viciada. A UPP sofre os efeitos da sociedade de que ela faz parte. Esse caso do Amarildo... Nós sabemos que há, desde o começo da UPP, um esforço gigantesco para selecionar policiais não viciados pela ação nas ruas. E no entanto, veja o caso do Amarildo, tem até major envolvido, tem capitão, tenente, sargento. É a própria sociedade representada. O senhor é a favor da desmilitarização da polícia? Eu acho que é uma fantasia imaginar que isso vai terminar com o fim da Polícia Militar. Não é por aí. Pura e simplesmente a nova polícia – tenha o nome que tiver, com as armas que já estão aí, com os chefes, capitães, comandantes, com estes delegados – vai continuar praticando a mesma violência. Como se rompe com essa violência policial? Rompe-se com o rigor penal sobre os praticantes de deslizes policiais. Falta perícia? A solução é fazer a perícia. Tá faltando punir? Tem de punir. Não adianta apenas substituir a farda por uma camisa esporte, vai continuar a mesma coisa. O que aconteceu é que a educação não acompanhou o aumento da população. Então temos toda uma deterioração educacional na população de uma geração que cresceu muito mais que o processo educativo e civilizatório. Daí vem toda essa polícia comprometida, ela própria, com o crime. O ex-governador Sergio Cabral se reelegeu em cima do sucesso das UPPs, e colocou a segurança pública no centro do debate eleitoral. Há uma politização da segurança pública? Não foi o Cabral quem trouxe essa discussão. Foi o Moreira Franco, do PMDB. Ele se elegeu em 1986 com o seguinte tema de campanha: “Em seis meses eu acabo com a violência no Rio de Janeiro”. Ele foi eleito com base nessa campanha. Até a Globo, os jornais O Globo e Jornal do Brasil apoiaram intensamente sua candidatura que iria acabar com a violência, que estava começando no Rio. E o Brizola tinha feito algo que irritou profundamente os jornais e TVs. A polícia, antes do governo dele, entrava nas favelas matando gente, cometendo violências. E por se opor a isso Brizola foi acusado de ter provocado o aumento da violência. O Moreira fez a campanha em cima disso pra derrotar o Darcy Ribeiro, candidato do Brizola. Derrotou, e trouxe um advogado chamado Marcos Heuzi, que seria o homem do milagre da segurança pública. Em seis meses ele iria acabar com tudo. Mas a violência cresceu brutalmente, e o Moreira teve que despachar o Marcos Heuzi. E aí foi a degringolada total, ele entregou a segurança pública ao Hélio Saboya, que era um advogado criminalista. Saboya não conseguiu resolveu coisíssima nenhuma. Qual era o plano dele? Nenhum. O plano dele era ganhar a eleição e fazer negócio. E ele se dedicou muito a fazer negócios, e ganhou muito dinheiro. Eu mesmo denunciei resultados prévios de várias obras dele. Só do Metrô eu anulei cinco ou seis concorrências, além do complexo Tabajaras. Enquanto ele ganhava dinheiro, e a violência ficou comendo solta. E claro que a partir daí ela tomou um embalo que dificilmente alguém seguraria. O Renato Meirelles, do Data Popular, diz que as eleições desse ano serão definidas pela classes C, D e E. As favelas irão definir as eleições no Rio de Janeiro? Eu acredito que os analistas que moram na cidade do Rio de Janeiro só olham pro Rio, como os paulistanos só olham pra São Paulo. A eleição é no estado, e a gente não sabe como é que estão as coisas no interior. O PMDB, por exemplo, que é um partido forte no Rio, tem agora uma divisão, algo que não houve na eleição anterior. Tem a corrente Picciani, a ex-corrente Cabral da qual sabemos ainda muito pouco, se ela ainda existe, se deixou de ser, e ainda se ela irá se transformar na corrente Pezão. Até agora não vi nenhum dado que indique a sua dimensão. O Garotinho tem muito eleitor no interior, o quanto essa corrente Garotinho vai influir nessa eleição, eu não sei. O Crivella é muito vivo, não é bobo não, e está trabalhando muito, e com muito dinheiro inclusive. As igrejas evangélicas vão influir mais ainda agora do que nas eleições anteriores. O quanto, e de que maneira, até agora eu não sei. Mas quem quiser analisar a eleição no estado tem que parar de olhar apenas para a cidade do Rio de Janeiro. As favelas vão decidir? Que favela? E o interior ninguém leva em conta? O que o senhor acha da candidatura do Lindbergh? O PT fluminense pode ter com o Lindbergh uma oportunidade de aparecer nessa eleição disputando o governo estadual, caso haja um empenho do Lula, particularmente do Lula e, subsidiariamente, da Dilma. A Dilma prefere o Pezão? Eu não sei. Com franqueza eu acho que ela não pode falar e não pode agir contra o Pezão, porque ela é candidata. Vai chutar o PMDB para a lua e ficar com o risco do PT que, no Rio, tem sido um sucessivo insucesso? O que houve com o PT carioca? Ele se desmontou todo. Teve a oportunidade com a Benedita e chutou pro alto, fez milhões de besteiras. O partido dividiu-se todo, desarticulou-se e focou em pequenas disputas: a corrente Vladimir contra a corrente Gabeira, e foi se desestruturando e caindo aos pedaços. Nunca chegou a se estruturar propriamente no Rio de Janeiro. O senhor acredita nessa definição de nova classe média? Eu não acredito nos índices que determinam essa divisão entre classes: classe C1, C3, média-média. Isso é absolutamente fajuto. Coisa de economista, e economista está em outra, não está pensando na sociedade. Nessas denominações eu não acredito, não adoto e não pratico. Mas é evidente que houve um ganho de salário, um ganho de oportunidade de emprego, um ganho de pequenas iniciativas, e isso resultou numa melhoria econômica de uma grande parte da população. E não só do Rio, mas da população brasileira. No Nordeste, por exemplo, há modificações sensíveis. Quando essas mudanças se deram? Foi durante o governo Lula. O governo Fernando Henrique foi um arrocho desgraçado. Arrocho salarial pesado, sem obra social, apenas propaganda. A política econômica foi inspirada por americanos, pelo Consenso de Washington e pelo neoliberalismo. Nas sociedade latino-americanas onde o neoliberalismo penetrou, ele penetrou cruelmente, de maneira perversa. E o FHC e o Malan são ainda representantes políticos do neoliberalismo. Já que estamos falando em governo FHC, me lembrei da privatização das telecomunicações. O que o senhor achou da ocupação e reintegração do prédio da antiga Telerj? Eu acho muito triste despertar esperanças em pessoas pouco ou nada informadas, incentivando-as a ocupar uma área que você já sabe que vai ser desocupada, e na raça. Porque quando a Justiça diz “desocupa”, a polícia vai para desocupar mesmo. Alguns grupos ficam explorando essa ingenuidade alheia ao invés de definir um programa de trabalho, de ação permanente, de propaganda e de luta política. Falta trabalho de base, eles ficam fazendo esses espetáculos em que se satisfazem muito. A Sininho, por exemplo, vai lá e agita. Mas quem apanha não é ela. Se apanhasse, saberia o que os outros sofrem por conta da agitação que ela faz. Depois ela vai pro apartamento dela, toda elegante quando não está agitando, mantida pelos papais. Aí bota os outros na frente, levando porrada da polícia, para uma coisa que não tem futuro. Qual era o futuro daquela ocupação? Os caras chagam lá e dizem: “Vai ser aqui, vai ser ali”. Você acha que a Justiça ia permitir? Que a polícia ia deixar de ir lá? Para conseguir aluguel social ou inscrição no Minha Casa Minha Vida não precisa disso. É só ir um grupo para a frente da prefeitura e fazer uma fila. No terceiro dia, eles descem e inscrevem todo mundo. O senhor é contra a ocupação de prédios desocupados por movimentos sem-teto? Olhe para experiência do Stédile. Ele deve ser ouvido a respeito de tudo isso, um dos caras que mais devem ser ouvidos no Brasil, e que menos o é. O Stédile parou de fazer invasão de fazenda à toa e mudou o discurso: “Olha, vamos partir pra outra, a briga tem que ser outra. Não é por esse caminho”. E ele está certo porque, as invasões fazem surgir novos Zé Rainhas - que é a Sininho com calça de homem. O que aconteceu no pontal do Paranapanema, que era área comandada pelo Rainha? Nada. Houve gente que sofreu pra burro ali, perdeu o lugar onde morava, o trabalho que tinha, pra ir ocupar a fazenda de não sei quem, e que a Justiça devolveu. A polícia de São Paulo, que é muito mais violenta que a do Rio, foi lá e baixou o cacete pra valer. Morreu gente, aconteceu o diabo. Morreu até criança nas invasões que o Rainha inventava no Pontal do Paranapanema. Até que ele mesmo se picou e foi pro Espírito Santo, e largou o pessoal lá no pepino. E não deu em nada, ninguém ali ganhou nada. Agora veja, o trabalho do Stédile é absolutamente sensacional. Não é à toa que não fazem propaganda do trabalho dele. Dizem que a ocupação do prédio da Oi/Telemar não foi organizada pelo movimento sem-teto, e muito menos pela Sininho. Eu não disse que foi organizada por ela. Eu não sei quem foi, não estive lá. Mas de qualquer modo, naquelas coisas lá mais pra trás, como no ato na Central, ela estava envolvida, e acabou muito mal. Um besteirol total. Invadir a Central do Brasil é ir contra o operário que saiu do trabalho e quer ir para casa. Organizaram um “catracasso” para a população não pagar a tarifa. Sim, e com que resultado? Deu no quê? Quando você age politicamente, tem que olhar antes de tudo o resultado que você quer, definir perfeitamente o resultado que se pretende atingir, e ver se esse resultado justifica a ação que você vai fazer. Isso que é ação política e isso que é ação social. Ação física social. Agora, se você não parte dessa premissa, vai dar em besteira. Ou pelo menos a margem que dê em besteira é enorme. Nesse ato específico morreram duas pessoas. Morreu o cinegrafista, um senhor foi atropelado, e houve gente que apanhou pra burro na Central do Brasil. Um monte de mulher grávida inalando gás lacrimogênio dentro da Central sem poder sair, porque não deixavam sair, e sem pular catraca, porque grávida não vai pular catraca. Idosa vai pular catraca? Essa coisa é muito primária, e é esse primarismo que me incomoda. Me dá uma imensa tristeza ver que a gente não evoluiu em termos de luta política e social no Brasil. A esquerda brasileira esqueceu suas tecnologias políticas? Já se sabia pouco, e aí perdeu-se aquele pouco que se sabia. Eu acho, num certo sentido, natural. Não houve uma transmissão de conhecimento. A ditadura interrompeu tudo. Foi uma coisa devastadora, muito maior do que esses artigos, documentários e os poucos livros sobre a ditadura têm dito. Foi algo gigantesco. Acabou com a Universidade, com o Instituto Oswaldo Cruz... Nesse período de 20 anos, a pesquisa científica foi pro brejo, atrasou 50. Um horror. E com a imprensa? O pessoal que vinha fazendo um jornalismo mais avançado, melhorado, inteligente, técnico. De repente ficou um buraco. As pessoas que foram chegando não puderam recolher o conhecimento, não o receberam dos anteriores. A mesma coisa na luta sindical. Por quê? Porque ficou um buraco. Foram afastados. Eu fiquei anos e anos sem poder trabalhar em jornal. E fui me virando. Por dez anos trabalhei com produção de livros, gráfica. O que o senhor acha da mídia independente que está surgindo nas favelas? Acho muito bom. Despertar interesse por informação é mais importante do que supor que já está informando. Isso porque, até você chegar a produzir a informação que leva à melhoria de nível cultural, de reflexão, de convívio e de aprendizado social, demora. Não é de um dia para o outro. E não é que demore só para o leitor não. Demora também para quem produz jornalismo, leva tempo até entender qual é seu público, como é que esse público elabora uma notícia. Isso tudo se perdeu no jornalismo brasileiro. E os que estão fazendo esse jornalismo independente, não comercial, também sentem falta disso. Mas não falta algo importante: o interesse do leitor por obter informação, o gosto de saber as coisas, o gosto de ser informado. E isso é fundamental. O senhor acredita que essa mídia independente das favelas pode alterar a visão estereotipada que a imprensa tem dos territórios populares? Ela pode começar a pautar a imprensa, mudar a relação de poder. Em certo sentido ela já tem alguma influência. Mas o que se passa nos meios de comunicação brasileiros – televisão, rádio, jornal e revista –, não é só em relação à favela. Veja O Globo, que é esse poderosíssimo jornal do Rio de Janeiro. Se você assistir a um jogo de futebol, e no dia seguinte você for ver as notas que o repórter do Globo dá aos jogadores, você fica besta. Como ele pode dar nota sete para um cara que errou todos os passes? Ele é apenas um garoto que está sentado lá - na redação ou na frente das câmeras da TV- falando como se fosse doutor em futebol há 30 anos, uma experiência fantástica! Começou anteontem, tem de dois a quatro anos de jornal, e de futebol não tem nada. É a mesma coisa que se passa com o assunto favela, com o assunto violência urbana ou com economia. Se você parar pra pensar nesse caso da compra de Pasadena pela Petrobrás, o besteirol que sai a respeito disso é uma coisa inacreditável. E a Polícia Federal deita e rola explorando essa garotada. Essa turma que não estuda nada, não lê nada. Hoje em dia há esse fenômeno formidável no jornalismo: o jornalista que não lê jornal. É uma coisa inacreditável como eles se repetem. Quantas vezes você não vê n’O Globo de hoje uma noticia que já saiu ontem, como se fosse algo novo? E vira manchete de página interna! O jornal impresso está acabando? Não acredito nisso. Quem acreditou nos EUA está caindo do cavalo. A tiragem lá aumentou 3% no ano passado. Se você pensar que em uma grande quantidade de jornais estaduais americanos seus donos deixaram de investir, embarcados nessa onda de que o jornal impresso vai acabar, e ainda assim a média de crescimento foi de 3%, você pode deduzir com facilidade que há um grupo de jornais e uma linha de jornalismo que cresceu expressivamente. Mas dá pra comparar a credibilidade do The New Tork Times com a do O Globo? Dá, porque o nível do leitor também acompanha essa diferença. Para comparar o New York Times com O Globo, temos que comparar os leitores dos dois em relação de confiabilidade. É a classe média brasileira. Vá ao Grajaú e fale mal d’O Globo pra ver se você sai de lá incólume. Qual dica o senhor dá para um jovem jornalista de favela? Eu só diria a ele: Vá em frente. Descubra o seu mundo e descubra o seu jornalismo. Leia criticamente jornais. E ler livro é fundamental. Ter noção de história é muito enriquecedor. Ler autores críticos é muito importante. Leia, leia, leia e leia. O que pintar na frente, leia. E depois você faz a seleção do tipo de coisa que mais te interessa, e vá em frente. Faça o seu jornalismo. E veja o que nele tem melhorado, o que não tem melhorado. O auto-aprendizado em jornalismo é muito importante. Reler e analisar o que você fez. Ouvir o que alguém possa dizer a respeito do que você escreveu. Isso nos orienta. O senhor é a favor da descriminalização e regulamentação da venda de drogas? Eu acho esse tema dificílimo, e não tenho uma posição definida. Eu vejo vantagens possíveis e prováveis desvantagens em proporções pelo menos iguais. Então eu não sei que tipo de projeto pode sair disso. Muitos pesquisadores dizem que o ônus da guerra às drogas é maior que o ônus do consumo de drogas em si. Ninguém sabe calcular esse ônus, é um chute, ninguém tem como avaliar. Como alguém vai saber a quantidade de usuários de drogas no Brasil, um país com 200 milhões de habitantes? Pesquisa científica é igual pesquisa eleitoral, ouve duas mil pessoas... E o consumidor vai responder com honestidade a esse tipo de pergunta? O senhor teme que com a descriminalização aumente o número de pessoas viciadas? Não, não é isso. É que você vai criar mais um mercado capitalista, propriamente instituído capitalistamente. E não vai acabar com o outro mercado não, o outro simplesmente vai baixar o preço, na medida que precisar baixar o preço. Como a margem para os intermediários e produtores é muito grande, e a quantidade de pessoas que não querem entrar no mercado formal de trabalho porque acham que podem viver, pobremente, mas viver sem se aporrinhar com trabalho, carteira e horário é gigantesca num país de 200 milhões de habitantes, e com as condições sociais do Brasil, no meu ponto de vista, o mercado paralelo vai continuar. Pode resolver um problema aqui, outro ali. Um problema de maior conflito com traficante em algum lugar, mas no geral vai continuar, porque os intermediários e os produtores vão continuar. No Uruguai, o Mujica quer que o Estado tenha o controle da produção e venda de maconha. Ele acha que vai ter controle. Até agora não se sabe se vai ter. E eu pessoalmente não acredita que vá. O traficante de repente vai dizer: “Olha, aqui eu paro porque o Mujica resolveu agora que o Estado é o dono da maconha?”. O intermediário vai dizer: “agora perdemos a boca do Uruguai, vamos pra Taiwan?”. É não conhecer o animal humano. O senhor é otimista em relação ao futuro do Brasil? Eu sou cético em relação a tudo, não só ao Brasil, mas ao animal humano. Eu tenho uma impressão, pode ser romântica, de que a geração que virá depois da inclusão social do governo Lula, das cotas raciais e sociais e do Prouni já vai nascer com livros em casa. E essa geração, que receberá o dinheiro do Pré-Sal para educação, será incrível, e que talvez ela consiga transformar até o Congresso. O senhor não divide essa visão otimista? Não. Tomara que você a mantenha, e sobretudo tomara que a realidade justifique o seu otimismo e não o meu ceticismo. Mas eu acho que o Brasil ao mesmo tempo que evolui em vários sentidos, se degrada em outros. A corrupção, por exemplo. Hoje fala-se sempre dos governos. As oposições falam muito dos governos. E os meios de comunicação, se esses governos não são conservadores - sejam estaduais, municipais ou federais – se encarregam de depositar nesses governos todas as responsabilidades por tudo que seja de errado e de ruim. Mas a verdade é que a corrupção varre esse país de cima a baixo. O Brasil está completamente minado pela corrupção. Ninguém sabe a dimensão que isso tem nem a que isso vai levar, mas certamente essa corrupção não leva a nada que preste. Essa corrupção me parece estrutural, como se muda esse quadro? É uma boa pergunta, para a qual seu otimismo deve dar a resposta. Porque meu ceticismo não responde não. * Publicado originalmente no site Favela 247.


por Artur Voltolini, para o Favela 247
Meninos como Hassan Abdullahi Daule, de 11 anos, recebem salários inferiores aos dos adultos, mesmo desempenhando as mesmas tarefas. Foto: Cortesia Alinoor Salad Inter Press Service - Reportagens

Não há esperança para a infância trabalhadora da Somália

  Nairóbi, Quênia e Mogadíscio, Somália, 21/5/2014 – Halima Mohamed Ali tem 12 anos e acorda todos os dias às cinco da manhã, não para ir à escola, mas para trabalhar como babá de cinco crianças. O mais velho deles é apenas dois anos mais novo que ela. Halima começa a preparar o desjejum, depois acorda as crianças, dá banho e as veste para que possam ir à escola ou à madrasa, uma instituição de ensino muçulmano. A guerra e a fome da Somália obrigaram Halima e milhares de crianças como ela a abandonar o sonho da educação e se converterem em trabalhadoras. Metade das meninas e dos meninos de cinco a 14 anos de idade do centro e sul da Somália trabalham, segundo as últimas estatísticas do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), referentes a 2011. Em Puntlândia e Somalilândia, que nos últimos 20 anos gozaram de maior estabilidade do que outras partes desse país do Chifre da África, mais de 25% das crianças trabalham As tarefas estafantes para as quais são contratadas, trabalho manual e doméstico, pagam pouco e exigem muito. Halima trabalha de “sol a sol”, já que cozinha, passa roupa, lava o chão, banha as crianças e por fim os coloca na cama antes de encerrar a jornada. “É um trabalho muito estressante”, disse a menina, que nunca pôs os pés em uma sala de aula. Ela adoraria abandonar esses deveres e se dedicar aos livros, mas seu salário mensal de US$ 50 é imprescindível para o sustento de sua família de cinco membros, sendo que só ela tem emprego remunerado. “Se perco um só dia de trabalho, minha família vai para a cama com fome”, contou Halima à IPS, ao lado de sua mãe e seus irmãos mais novos em um de seus escassos períodos de descanso. É uma tremenda carga para uma menina, mas em comparação com a penúria que a família Ali teve de suportar, Halima trabalhar não é o fim do mundo. A família é originária do distrito de Dinsor, na zona da baía de Somália, a 266 quilômetros de Mogadíscio, capital do país. Em 2011, fugiram dali por causa da fome que matou quase 250 mil pessoas dedicadas ao pastoreio, enquanto uma feroz seca consumia o campo e provocava a morte de centenas de milhares de cabeças de gado. Quando finalmente chegou a Mogadíscio, a família se refugiou em um acampamento improvisado chamado Badbaado, que significa “salvação” em somaliano, junto com outros 50 mil refugiados. No começo, recebiam rações de alimentos, abrigo e assistência médica, contou Halima, mas quando a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou o fim da fome, em fevereiro de 2012, a ajuda praticamente desapareceu. Poucos refugiados conseguiram trabalho, já que carecem de educação formal e não possuem outras habilidades além da agricultura ou criação de gado. Então, recorreram à única opção disponível: enviar os filhos para trabalharem. [caption id="attachment_113404" align="aligncenter" width="529"] O desemprego da Somália é um dos maiores do mundo, com 54% dos somalianos entre 15 e 64 anos sem trabalho. Por outro lado, parece que há muito trabalho para meninos e meninas. Foto: Cortesia Alinoor Salad[/caption]   Embora esteja esgotada ao final de sua jornada de 17 horas de trabalho, Halima se alegra por poder manter sua família. Sua história é semelhante à de tantos nesse país de 10,2 milhões de habitantes, segundo Mohamed Abdi, diretor do programa Somaliano Peace Line, uma organização defensora dos direitos da infância. “Centenas de meninas são trazidas para Mogasdíscio, de zonas rurais onde há pobreza e fome, para trabalhar em casas de famílias da classe média. Trabalham muitas horas em troca de comida, alojamento e salário baixo, que enviam para suas famílias”, detalhou à IPS. “Afortunadas” como Halima recebem seu salário, disse Abdi, pois muitas outras têm o magro pagamento retido durante meses, ficam isoladas de suas famílias, sofrem abusos e tratamento de uma escrava. Abdi acredita que a persistente violência no país, que tem suas raízes na guerra civil iniciada em 1991, assegurará um fluxo constante de meninos e meninas trabalhadores, enquanto as famílias perdem seus empregos e a esperança. “Quando tentamos convencer os pais a não enviarem seus filhos para trabalhar, nos pedem fontes alternativas de renda, que não podemos oferecer-lhes”, admitiu. Mais de 70% da população tem renda baixa e 73% dos somalianos vivem com menos de US$ 2 por dia, segundo informe de 2012 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. O desemprego é um dos maiores do mundo, já que 54% dos somalianos entre 15 e 64 anos de idade estão sem trabalho, acrescenta o documento. Além da vulnerabilidade que supõe o trabalho informal, como a jornada que não respeita as oito horas, meninos como Hassan Abdullahi Daule, de 11 anos, também recebem salários menores do que o dos adultos, ainda que exerçam a mesma função. Quando seu pai morreu, em 2012, em um atentado explosivo em Mogadíscio, Hassan, único varão da família, deixou a escola e começou a trabalhar em uma oficina mecânica, por 12 horas diárias para manter sua mãe e dois irmãos menores. Vestido com seu “uniforme” (camiseta de futebol do clube Arsenal empapada de óleo e calças curtas), Hassan disse à IPS que seu tio lhe conseguiu esse trabalho para sua família poder comer. Apesar da tentação de desistir e voltar a estudar, sente-se responsável. A educação é uma lembrança distante, por isso sua única esperança é fazer carreira como mecânico. No momento, porém, lhe pagam muito menos do que aos seus companheiros de trabalho, e inclusive às vezes os obrigam a fazer tarefas dos demais sem receber uma só moeda adicional. “Quando há muitos carros para consertar ganho, 50 xelins somalianos diários (cerca de US$ 2,5). Nos dias ruins, só recebo o almoço e volto sem nada para casa”, contou Hassan, com gotas de suor correndo pelo rosto. “Os adultos ganham 150 xelins (US$ 7,5) por dia, e às vezes ficam com meu pagamento pela força. Não há nada que possa fazer e ninguém para me queixar, por isso só resta esperar a próxima jornada de trabalho”, acrescentou. [caption id="attachment_113405" align="aligncenter" width="540"] Meninos como Hassan Abdullahi Daule, de 11 anos, recebem salários inferiores aos dos adultos, mesmo desempenhando as mesmas tarefas. Foto: Cortesia Alinoor Salad[/caption] O diretor do Ministério de Desenvolvimento Humano e Serviços Públicos, Aweys Haddad, afirmou que a Constituição somaliana proíbe o trabalho infantil, e acrescentou que o governo ratificou recentemente uma convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que proíbe as piores formas de trabalho juvenil. Mas há muitos problemas para cumprir a lei, por isso os compromissos assumidos ficam no papel. Diversos estudos e informes falam de meninas e meninos de apenas cinco anos de idade trabalhando em quase todos os setores, desde construção até agricultura. No sul do país, crianças são exploradas para a guerra, por exemplo, como guardas em postos de controle ou como terroristas suicidas, e também trabalham na rua, lavando automóveis, engraxando sapatos e vendendo qat, uma planta que contém um estimulante semelhante à anfetamina. “O governo acredita que uma presença maior na escola pode ajudar a eliminar o trabalho infantil. Estamos em vias de aplicar programas destinados a levar mais crianças às aulas”, disse Haddad à IPS. “Pusemos em marcha a iniciativa Volta à Escola, que tem por objetivo dar educação gratuita a um milhão de crianças”, acrescentou. Mas esses planos ainda não dão frutos. O Unicef indica que apenas 710.860 de um total de 1,7 milhão de crianças em idade escolar estão matriculados em uma escola. Sem a interrupção drástica do círculo vicioso que perpetua o trabalho infantil, o futuro não oferece esperanças. Envolverde/IPS


por Muhyadin Ahmed Roble, da IPS
carros Sociedade

Humanidade atropelada

"Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora, vou na valsa...a vida é tão rara” (Lenine) O trânsito de nossas cidades revela o nosso comprometimento pessoal e coletivo com a esquizofrenia e a imposição dos números. Passo Fundo, cidade do norte do Rio Grande do Sul, vive em 2014 a supremacia dos números, de carros. Segundo estudo do arquiteto e urbanista desta cidade, Daniel Bueno, nossa cidade dobrou o número de carros em relação ao número de habitantes, no período de 2006 a 2009. Estarrecedor! Cabe, então, uma singela reflexão sobre o porquê da supremacia das máquinas e dos motores. O fato é que reduzimos nossas vidas a uma competição com o tempo. O que é a pressa senão a pretensão de reduzirmos tempo? O que é a correria senão querer fugir do lugar para chegar a lugares, e mais lugares? O que é a velocidade senão acelerarmos nossa louca correria. Tudo corre muito ligeiro, mas o percurso e o desenrolar da vida segue regular. O tempo foi inventado pelos homens, mas a vida não. Enquanto aceitarmos que os números se imponham ao ritmo natural da vida, continuaremos lamentando o número de vítimas. Aliás, o que são as vítimas além de números? Não nos assusta mais saber que, em apenas 05 meses do ano de 2014, 21 pessoas perderam suas vidas no nosso trânsito. Para ficarmos nos números, em 2013 foram 18 mortos. O que é que são 18 ou 21 pessoas mortas? O que elas representam diante de um total de quase duzentos mil habitantes? Concordo com a afirmação das autoridades do trânsito de nossa cidade, de nosso estado e de nosso país de que os motoristas e pedestres são parte da culpa dos nossos acidentes. Que boa parte dos acidentes poderia ser evitada (sempre se...). Mas não posso ficar na mera constatação sem perguntar pelas causas. As causas, todos nós devemos investigar. Cadê a nossa humanidade? Será que ela foi atropelada pelos números? Será que a organização do trabalho, da economia e do cotidiano das nossas cidades não está nos levando a uma mais completa loucura? Dizemos sempre que estamos correndo, mas nem sempre sabemos para onde nem atrás de que. Fiquei pensando no que é mesmo esquizofrenia. Pesquisei e descobri que "esquizofrenia é uma doença psiquiátrica endógena, que se caracteriza pela perda do contato com a realidade. A pessoa pode ficar fechada em si mesma, com o olhar perdido, indiferente a tudo o que se passa ao redor ou, os exemplos mais clássicos, ter alucinações e delírios. Ela ouve vozes que ninguém mais escuta e imagina estar sendo vítima de um complô diabólico tramado com o firme propósito de destruí-la. Não há argumento nem bom senso que a convença do contrário.”. (Dr. Dráuzio Varella, médico psiquiatra). Concluí, então ,que trânsito pode combinar com esquizofrenia. Não é louco? * Nei Alberto Pies é professor e ativista de direitos humanos. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Nei Alberto Pies*
Foto: http://www.shutterstock.com/ Sociedade

Mudanças climáticas: “a solução técnica é trivial, mas a implementação da solução, não”

[caption id="attachment_100875" align="alignleft" width="300"] Foto: http://www.shutterstock.com/[/caption] “As discussões acerca das mudanças climáticas não entraram na agenda do setor energético brasileiro”, diz o engenheiro Roberto Schaeffer. O Summary for policymakers – SPM do relatório de Mitigações do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas - IPCC, que foi aprovado por representantes de aproximadamente 190 países no mês passado, na Alemanha, “ficou um documento frouxo, sem uma mensagem clara”, avalia Roberto Schaeffer, na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line. O relatório, que tem um viés político, serve como um sumário de cerca de 30 páginas que orienta os tomadores de decisão política, e é elaborado a partir das informações do relatório de Mitigações, finalizado no final do ano passado. De acordo com Schaeffer, “as questões de como as emissões de gases de efeito estufa estão crescendo e como a maior parte do crescimento tem se dado em países de rápido desenvolvimento, como China, Brasil, Índia, foram amplamente relatadas no relatório final. Contudo, no SPM, nem China, nem Brasil, nem Índia deixaram essa informação aparecer no relatório, porque acham que isso poderia ser uma punição ou ter um peso desfavorável para eles nas negociações do clima que vão ocorrer no ano que vem em Paris, quando se negociará um regime que passará a vigorar em 2020 e substituirá o Protocolo de Kyoto”. Para ele, com base no relatório final sobre as Mitigações, é “evidente que há um grupo de países em desenvolvimento, como China, Índia, Brasil e África do Sul, que lidera o aumento das emissões”. Entretanto, ressalta, “essa informação estava no SPM e foi vetada”. O engenheiro Roberto Schaeffer acompanha a elaboração dos relatórios do IPCC sobre Mitigações e explica que hoje a realidade acerca dos países que mais emitem gás carbônico é diferente de anos atrás, quando foi elaborado o Protocolo de Kyoto, e se dividiam os países em Anexo I, os responsáveis pelas emissões, e Não Anexo I, os que não tinham responsabilidade em reduzir emissões. Hoje, esclarece, as discussões acerca das emissões devem ser feitas a partir de dois grupos de países: os desenvolvidos e os em desenvolvimento, mas as nações que mais se desenvolveram nos últimos anos não aceitam essa alteração. “Tivemos de apagar uma série de gráficos nos quais essa informação aparecia, porque China, Índia e Brasil não concordavam que, na linguagem do SPM, aparecesse outra coisa que não fosse Anexo I e Não Anexo I, justamente porque quando se usa essa linguagem todos os países ficam no mesmo ‘saco’. A China, por exemplo, fica no mesmo comparativo que um país pobre da África, da Guatemala, do Haiti, que não emitem nada”, relata. Segundo ele, os representantes brasileiros também não veem com bons olhos “o questionamento à possível sustentabilidade dos biocombustíveis, porque o programa do etanol brasileiro tem um peso bastante grande, apesar de estar em franca decadência”. Na avaliação de Schaeffer, uma das principais conclusões do relatório de Mitigações do IPCC é a de que o setor energético é o mais crítico em relação às emissões. “Se em alguns países a questão do desmatamento era a grande questão anos atrás, hoje, no mundo como um todo, a grande questão é a da energia. Entenda-se como questão da energia em geral, ou seja, a energia do setor de transportes, que é basicamente o petróleo, a energia utilizada na indústria, que tem um pouco de carvão e de petróleo, a energia elétrica, a energia nuclear, etc.”, pontua. Roberto Schaeffer é professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com atuação no Programa de Planejamento Energético da COPPE. Possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, mestrado em Engenharia Nuclear e Planejamento Energético pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, doutorado e pós-doutorado em Política Energética pela University of Pennsylvania. Foi Membro do Comitê Internacional de Avaliação dos programas de pesquisa em Energia - ENE, Transições para Novas Tecnologias - TNT, e Mitigação de Poluição do Ar e Gases de Efeito Estufa - MAG do International Institute for Advanced Systems Analysis, na Áustria. Confira a entrevista: IHU On-Line - Quais são os principais apontamentos do relatório Summary for policymakers - SPM do IPCC acerca das Mitigações, lançado em Berlim nos últimos dias? Roberto Schaeffer – Primeiro, gostaria de esclarecer que o IPCC tem três grupos: o grupo I, sobre “Bases Físicas da Mudança Climática”, o qual foi lançado no ano passado; o grupo II, dos “Impactos, Vulnerabilidade e Adaptação”, que trata das implicações da agricultura e da saúde às mudanças climáticas, o qual foi lançado no Japão alguns meses atrás; e o grupo III, no qual eu trabalho, que é o de Mitigação, e trata do que pode ser feito para reduzir as emissões. Há três semanas, em Berlim, foi publicado o Summary for policymakers – SPM do relatório de Mitigações, que é um sumário para os tomadores de decisões. O SPM é um relatório de não mais de 30 páginas, ou seja, um resumo do relatório completo, o qual tem mais de mil páginas, e não é submetido à aprovação dos Estados. Esse relatório completo é elaborado ao longo dos anos, circula entre cientistas e governos, os governos se manifestam, criticam, e os cientistas acatam ou não as críticas, mas não há nenhum tipo de ingerência política sobre ele. É realmente um relatório técnico, que será lançado em setembro ou outubro, em forma de livro, e nos próximos dias deve estar disponível na internet. Esse relatório final sobre as Mitigações, que foi concluído em dezembro do ano passado, ainda não foi lançado porque o relatório SPM — esse de 30 páginas — tem que ser aprovado, frase por frase, por cerca de 190 governos. Então, na semana em que estive em Berlim, lemos linha por linha do que foi posto pelos governos. Se, durante esse processo, se aprova ou desaprova algo que entra em conflito com o relatório completo, pode-se vir a revisar o relatório completo, mas somente se for demonstrado que há uma incompreensão científica nele. Afora isso, o relatório completo, finalizado em dezembro, é ‘imexível’. O SPM foi aprovado pelos governos com uma série de cortes; não ficou do jeito que os cientistas queriam, mas eles entendem que o sumário tem, de fato, um viés político, mas nada do que foi ou não aprovado entrou em conflito com o relatório final. Então, tem o relatório final que ficou pronto em dezembro e será lançado na forma de livro nos próximos meses, e tem o SPM, que foi aprovado linha por linha e vai virar uma pequena publicação independente, apesar de também ser inserido no livro. Mas esse relatório tem uma ingerência política muito grande. O que estou querendo dizer com isso? Vamos supor — e é verdade — que, nesse SPM original que produzimos, apontamos que um dos problemas dos excessos de emissões de gás carbônico é o subsídio que existe no mundo hoje aos combustíveis fósseis. A Arábia Saudita não gostou do termo “subsídio” e pediu para retirá-lo do relatório. Apesar de essa palavra estar contemplada no relatório completo, o qual a Arábia Saudita não tem poder de vetar, porque se trata de um relatório de cientistas, no relatório SPM ela tem esse poder. Então, esse SPM foi um pouco censurado porque, visto que tem aproximadamente 30 páginas, é o mais fácil de ser difundido e lido pelos jornalistas. Até o final do ano sairá um terceiro relatório, que é o chamado relatório síntese, o qual irá sumarizar em 100 ou 200 páginas os três grupos. Então, o IPCC tem sete relatórios: um relatório completo para cada grupo, um SPM para cada grupo, e um relatório síntese que inclui todos os grupos. Neste último também não há ingerência política; é um relatório técnico. Agora que acabou o processo e foram publicados os relatórios dos três grupos, um grupo pequeno de cientistas — eu não estou incluído nesse processo — irá produzir esse relatório síntese. IHU On-Line - Quais as posições dos governos de modo geral em relação ao SPM? Quais foram os pontos de conflitos? Roberto Schaeffer – Quando se critica o uso de energia nuclear, o governo X não gosta. Quando se faz crítica ao uso de carvão, a China não gosta. Quando se tece algum comentário sobre a sustentabilidade dos biocombustíveis, o Brasil não gosta. Então, de fato, acaba ficando um relatório meio sem graça, porque não se pode falar nada que gere suscetibilidade de um possível governo. IHU On-Line – O SPM se descaracterizou com as intervenções políticas dos Estados? Roberto Schaeffer – Sim. Ficou um documento frouxo, sem uma mensagem clara. Por exemplo, as questões de como as emissões de gases de efeito estufa estão crescendo e como a maior parte do crescimento tem se dado em países de rápido desenvolvimento, como China, Brasil, Índia, foram amplamente relatadas no relatório final. Contudo, no SPM, nem China, nem Brasil, nem Índia deixaram essa informação aparecer no relatório, porque acham que isso poderia ser uma punição ou ter um peso desfavorável para eles nas negociações do clima que vão ocorrer no ano que vem em Paris, quando se negociará um regime que passará a vigorar em 2020 e substituirá o Protocolo de Kyoto. Quando se aprovou o protocolo de Kyoto em 1997 — que de fato entrou em vigor em 2005, para tratar do período de 2005 a 2012, e que foi prorrogado para 2012-2020 —, dividia-se o mundo em países do Anexo I e países Não Anexo I, porque havia um anexo ao protocolo de Kyoto, no qual se listavam países que teriam responsabilidades para reduzir as emissões, ou seja, basicamente os países desenvolvidos, como EUA, Alemanha, Japão, etc. Essa divisão foi feita porque se entendia, naquele momento, e era correto, que se tinham países desenvolvidos e outros em desenvolvimento, e que o verdadeiro ou o grande estoque de gás de efeito estufa que estava levando o clima a se alterar era devido às emissões dos países desenvolvidos. Assim, os países do Anexo I tinham compromisso e os países do Não Anexo I não tinham compromisso; 25 anos depois, tudo mudou, e o país que mais emite gás carbônico é a China e em terceiro lugar é a Índia. Brasil e México são países que emitem bastante. Então, no relatório do IPCC optamos por abandonar essa linguagem de Anexo I e Não Anexo I, e adotar uma linguagem utilizada pelo Banco Mundial, que é de países desenvolvidos e em desenvolvimento de alta renda, de média renda, de baixa renda. Mudanças: os novos emissores de gás carbônico Nesse relatório completo, agrupamos e sinalizamos como as emissões estão se dando segundo os diferentes grupos de países. Fica evidente que há um grupo de países em desenvolvimento, como China, Índia, Brasil e África do Sul, que lidera o aumento das emissões. Essa informação estava no SPM e foi vetada. Tivemos de apagar uma série de gráficos nos quais essa informação aparecia, porque China, Índia e Brasil não concordavam que, na linguagem do SPM, aparecesse outra coisa que não fosse Anexo I e Não Anexo I, justamente porque quando se usa essa linguagem todos os países ficam no mesmo “saco”. A China, por exemplo, fica no mesmo comparativo que um país pobre da África, da Guatemala, do Haiti, que não emitem nada. China e Brasil, portanto, não concordaram que fosse dado esse zoom, que mostra que dentro dos países em desenvolvimento já têm alguns que são grandes emissores, os quais devem ter mais comprometimento com a redução das emissões. O relatório final tem todas essas informações, mas poucas pessoas na vida terão tempo de ler um documento de quase duas mil páginas. Então, a grande negociação a acontecer em Paris pode ser enviesada pelo SPM, quando ele, de fato, não diz muita coisa. IHU On-Line – O Brasil se posicionou contrário a que outras questões apontadas pelo SPM? Roberto Schaeffer – O Brasil não gostou do agrupamento dos países numa formulação que não seja Anexo I ou Não Anexo I. O país não quis sair nessa fotografia. O Brasil também não vê com bons olhos o questionamento à possível sustentabilidade dos biocombustíveis, porque o programa do etanol brasileiro tem um peso bastante grande, apesar de estar em franca decadência. O programa do biodiesel tem um porte razoável, mas não é verdade que todos os biocombustíveis são uma maravilha. Há alguns que têm levado ao desmatamento, por exemplo. Não é o caso do Brasil, e há certo reconhecimento internacional do etanol brasileiro, o qual se destaca em termos de sustentabilidade, porque gera emprego, não implica desmatamento. No SPM não é desejável que se dê um zoom de país por país, mas se fala que os biocombustíveis podem ser uma alternativa aos combustíveis fósseis, porém há de se preocupar com a questão da sustentabilidade. Aí o Brasil já não gostou dessa redação, porque entendeu que alguém poderia interpretar que se estava questionando a sustentabilidade do programa do álcool brasileiro. IHU On-Line – E isso teria uma implicação negativa nas vendas. Roberto Schaeffer – Exatamente. Quando se falou que o carvão é um combustível complicado, que é preciso buscar alternativas que utilizem menos carbono, a China não gostou, porque ela é movida a carvão. As críticas mais duras em relação à energia nuclear, por exemplo, não são bem recebidas pela França, porque isso corresponde a 70% na sua matriz elétrica. O SPM é negociado entre os governos e o relatório completo não se refere a nenhum país específico, porque tem de ser relevante para a formulação de políticas, mas não pode ser prescritivo em relação ao que deve ser feito. Então, nesse sentido, o IPCC elenca quais são os impactos, os custos e potenciais das diferentes alternativas de mitigações possíveis, sem dizer quais devem ser tomadas. Então, no caso do setor elétrico, por exemplo, para se manter a temperatura dentro de certo patamar, tem que começar a descarbonizar o setor elétrico do mundo. O que isso significa? Sair de combustíveis fósseis com alto teor de carbono, como o carvão, e migrar para combustíveis com menos carbono, como o gás natural, ou melhor ainda, para combustíveis ou fontes de energia com emissão zero, como energia eólica ou solar. Essas são opções, e elencamos quanto custa cada uma, quanto se pode esperar de cada uma, qual o potencial de cada uma. Mas é o tomador de decisão de cada país que vai decidir. Vamos supor que a tecnologia mais barata para o Brasil seja a energia eólica, mas o Brasil pode preferir a solar, porque esta vai gerar mais empregos para o país. Então, nesse sentido, o relatório do IPCC toma o cuidado de não ser prescritivo, mas diz que se o país quiser manter a temperatura do planeta considerada segura no século XXI, o setor de transporte terá de mudar radicalmente. Nesse sentido, o setor de transporte precisará ou se tornar mais voltado para o transporte público, ou o setor de transporte em geral terá de se eletrificar; ele se eletrificando, será necessária uma matriz elétrica com baixa emissão de carbono, etc. IHU On-Line – Que relações se estabelecem entre planejamento energético e as mudanças climáticas? Em que consistiria um planejamento energético que leve em conta os relatórios do IPCC? Roberto Schaeffer – Uma das conclusões que se pode tirar do IPCC é que o setor mais crítico é o da energia. Se em alguns países a questão do desmatamento era a grande questão anos atrás, hoje, no mundo como um todo, a grande questão é a da energia. Entenda-se como questão da energia em geral, ou seja, a energia do setor de transportes, que é basicamente o petróleo, a energia utilizada na indústria, que tem um pouco de carvão e de petróleo, a energia elétrica, a energia nuclear, etc. Setor energético: o grande vilão as emissões de gás carbônico No Brasil, até recentemente, o desmatamento era a maior fonte de emissões, mas já não é. Hoje, o setor de energia empata com o setor agrícola e pecuário, e rapidamente vai desempatar — se é que já não desempatou. O Brasil tem de começar a se preocupar com o consumo de energia, porque o setor elétrico começa a se tornar mais térmico: há uma tendência de expansão do setor de carvão e de gás no Brasil, o que significa aumento das emissões. No setor de transportes, há uma tendência de aumento da participação dos derivados de petróleo, dado que o Brasil, equivocadamente, está “matando” álcool, no sentido de que tem havido um aumento absurdo do consumo de gasolina no país. De maneira geral, o setor energético está indo na contramão no sentido de aumentar suas emissões, quando deveria reduzi-las. Claro que há questões técnicas por trás disso: até hoje, aproximadamente 90% da energia elétrica brasileira vinha de hidrelétricas. Mas atualmente não há mais como o Brasil fazer tantas hidrelétricas assim, porque isso implica outros problemas, como a invasão de áreas indígenas, perda da biodiversidade. Obviamente que as restrições para a expansão da hidroeletricidade no Brasil explicam, em parte, a expansão do carvão e do gás natural. Mas também falta incentivo para as fontes renováveis. De fato, as discussões acerca das mudanças climáticas não entraram na agenda do setor energético brasileiro. IHU On-Line – O desmatamento passou a ser um problema secundário no impacto das mudanças climáticas? Isso significa que os governos realizaram ações nesse sentido para conter as emissões? Roberto Schaeffer – Sim, e no caso brasileiro há um reconhecimento internacional do trabalho feito pelo Brasil. O fato é que houve uma crise de desmatamento no Brasil no começo dos anos 2000, e o pico da emissão brasileira foi em 2004, mas uma série de ações tomadas pelos governos, seja de policiar a Amazônia com a Polícia Federal, multar e prender as pessoas que desmatavam, ou ter uma vigilância por helicóptero e por satélite, contribuíram para mudar essa situação. Nesse sentido, segundo a Cartilha da Embrapa, não pode haver agricultura na Amazônia brasileira e isso contribui para a preservação da região. Há um certo entendimento de que o desmatamento no Brasil estaria controlado, o que não quer dizer que se se afrouxar a política de preservação, não se volte a ter um problema nessa área. IHU On-Line – O desenvolvimento econômico é um implicativo às mudanças climáticas? É possível desenvolver e não agravar a situação climática? Roberto Schaeffer – Esse debate surgiu nas discussões do SPM e foi “um pouco vetado”. As duas causas das mudanças climáticas são o crescimento populacional e o desenvolvimento econômico. Mas isso não significa que o desenvolvimento econômico não é desejável. O que gera emissões é o fato de as pessoas terem carro, mas, por outro lado, o fato de elas terem carro dá a elas uma qualidade de vida melhor do que se elas tivessem de se locomover a pé, por exemplo. Então, o diagnóstico é que o desenvolvimento econômico mais o crescimento populacional levam a mais emissão, se nada for feito. Aí entra o IPCC. Dado que essas são as duas forças motrizes para ter mais emissão de gás carbônico, a pergunta do IPCC é: como reduzir as emissões? Nos países em que há desenvolvimento econômico, é preciso buscar ações para que cada dólar do PIB da economia emita menos. O que significa isso? Significa que cada camisa que se produz tem de ser feita com menos energia, ou com energia que emita menos carbono, de maneira que se possa ter desenvolvimento econômico com menos emissões. O IPCC não gira em torno a uma crítica ao desenvolvimento econômico ou à população, mas, dado que existem problemas, como continuarmos fazendo as mesmas coisas com menos emissão? Então, se é para ter carro, tem de ser carro mais eficiente do que o que temos hoje. Se o carro médio brasileiro hoje faz dez quilômetros por litro, ele poderia facilmente fazer vinte ou trinta, só que ele não aceleraria de 0 a 100 em oito segundos, ou talvez não seria um carro de duas toneladas, no qual cabem seis pessoas. Então, se é para ter carro, é para ter carro eficiente, ou carro menor, ou com um motor melhor, ou rodando com um combustível melhor ou com eletricidade. Mas talvez melhor do que carro é ter transporte público. Dentre as opções do transporte público, entre ônibus a diesel e metrô à eletricidade, o metrô à eletricidade é melhor. IHU On-Line – O senhor já transitou por organismos internacionais, órgãos de governo e empresas públicas e privadas. Como a relação entre planejamento energético e mudanças climáticas tem sido tratada nas diferentes esferas? Quais as dificuldades? Roberto Schaeffer – Tecnicamente a solução é muito simples. Não é por falta de tecnologia, por falta de saber o que fazer, que as mudanças não são feitas. É óbvio que todos sabem que Rio de Janeiro, São Paulo ou qualquer outra grande cidade do Brasil estaria muito melhor se tivesse um sistema de metrô sofisticado e bem feito. Agora, como convencer o prefeito do Rio de Janeiro a fazer mais linhas de metrô se o investimento inicial é absurdamente grande, se vai demorar de 5 a 10 anos para concluir a obra, e o metrô só ficará pronto quando ele, prefeito, já não será mais prefeito; e quem vai faturar em cima do fato de que o Rio de Janeiro tem um belo sistema de metrô, é o prefeito que irá inaugurá-lo daqui a 10 anos? Então, ainda que tecnicamente a solução seja quase que trivial, politicamente e economicamente ela é complicadíssima, porque estamos falando de um problema que não se resolve de uma hora para outra, que precisará ter investimentos no curto prazo. Nenhum político faz alguma coisa para entregar de bandeja para o próximo. A discussão acerca das mudanças climáticas vai por aí, porque são decisões que afetam relativamente tudo na economia, porque se é para ter transporte público de qualidade, será preciso mexer nas cidades, se criarão brigas com a indústria automobilística, com a indústria do petróleo, do carvão, etc., e não se verá o resultado no dia seguinte. Os governos em geral estão empurrando o problema das mudanças climáticas com a barriga. A solução técnica é trivial, mas a implementação da solução trivial não é trivial. IHU On-Line – O acordo para substituir Kyoto tende a levar em conta o limite para o aumento da temperatura climática? Roberto Schaeffer – Ninguém sabe qual será a “cara” desse acordo. Há um certo consenso entre os cientistas de que o limite considerado seguro para a temperatura máxima que o planeta ainda pode se elevar é em torno de dois graus em relação ao que era a temperatura do planeta na era pré-industrial. Desses dois graus, já subimos 0,7 graus centígrados. Então, teoricamente, mais 1,3 graus ainda é seguro. O que queremos dizer com a palavra seguro? Entende-se que a agricultura não será tão violentamente afetada, entende-se que a proliferação de doenças como dengue e malária poderão ser controladas, entende-se que a elevação média do nível dos oceanos será razoável para as cidades conseguirem lidar com isso. Para ficar dentro dos dois graus centígrados, há um certo consenso científico de que mais ou menos se teria de chegar em 2050 com emissão entre 50, 80% mais baixas do que são hoje — estou arredondando os dados para ficar mais simples. Mas não são todos os governos que irão querer comprar essa briga de reduzir as emissões pela metade. O que se espera para Paris é algum acordo, sim, mas se será um acordo suficientemente duro para fazer o mundo convergir para os dois graus centígrados, eu duvido um pouco. * Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Patricia Fachin, do IHU On-Line

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