Por que eu mereço

Reflexão

Por que eu mereço


por Manoella Oliveira, da Revista Tato*


[caption id="attachment_30616" align="alignleft" width="300" caption="Imagem: Vanessa Siqueira"][/caption]Lembro bem do dia em que a professora nos enfileirou para escolher quem seria a solista do balé e distribuir, na coreografia, os lugares das cerca de 40 alunas. Quem não gostaria de ganhar o destaque e dançar na parte mais bonita da música? Todas, inclusive eu. De repente, ela me chamou e me colocou na primeira fila, atrás de ninguém, de cara com o público. Fiquei feliz e, em seguida, triste, culpada. Fui andando para o tal lugar sem olhar para ninguém. Não conseguia. Achava que as minhas colegas iriam me odiar até a morte porque eu, afinal, ocupei aquele lugar e não elas – e elas queriam tanto quanto eu.Por outro lado, embora não tenha passado pela minha cabeça à época, sei que se eu não conseguisse a primeira fila, ia me conceder um atestado de incompetência eterna e repetir para mim mil vezes que eu não dançava nada. Era uma briga cruel entre a culpa de ter tirado o lugar das outras 39 meninas contra o sentimento de fracasso de estar em alguma fila tampada por uma fulana em sapatilhas. Ah, sim, acabei sendo escolhida como uma das quatro solistas também.Corta. Passam-se mais de dez anos e vamos à cena em que fui dançar Dom Quixote pela última vez. Ganhei, novamente, um destaque, nada demais, mas o suficiente para despertar, claramente, a raiva de quem mais uma vez queria aquele papel. Foi rápido e direto: “Manoella, ali na frente”. E lá fui eu, cabeça baixa, cara de pedido de desculpa. Um dos colegas chegou a me perguntar por que fui com o pesar de quem estava indo para a forca. “Fiquei sem graça”, respondi ainda mais sem graça com a idiotice que tinha acabado de dizer.É a mesma cara de quando eu passo perto dos moradores de rua comendo alguma coisa supérflua, como sorvete. É a mesma de quando alguém fala que meu pé é lindo, a mesma de quando dizem que vão me dar um aumento ou quando um cara lindo pede meu telefone! Eu não sei se é justo, não sei se alguém merecia mais do que eu, se eu sou mesmo a pessoa certa para ocupar aquele papel e fico me boicotando, talvez para mostrar que consegui, mas eu não sou e nem me acho melhor do que ninguém. Como a gente é idiota, não?Às vezes, nem percebemos, mas conquistamos coisas e ficamos sem saber como lidar com elas. Num nível mais profundo, corremos o risco de não “ganharmos” mais essas chances porque a oportunidade vem e causa um desconforto tão grande que ela é completamente desperdiçada. Quantas vezes eu joguei tudo pela janela por não querer me mostrar melhor do que ninguém! E quem vai dar destaque a quem não sabe ser destaque?Quer saber? Parei com essa bobagem hoje, por vários motivos:O “espiritual”: se a oportunidade é minha, ela é minha por direito. Não tomei nem roubei de ninguém, portanto, é inquestionavelmente minha, merecida, e preciso acolher o que o “universo” me oferece.O racional: se me colocaram ali é porque eu devo ocupar aquele lugar sem polemizar. Isso desgasta a relação com quem te colocou ali.O simples: porque todos nós devemos bancar as nossas escolhas e, acima de tudo, quem somos. É o mínimo.Cuidar de si, acolher, receber são características marcantes do feminino e para não ficar nessa explicação tão mental, racional, masculina (entenda como a Tato enxerga esses dois universos) , e incorporar a nova postura de vez resolvi que vou internalizar que eu mereço muitas coisas. A primeira atitude que vou ter é largar de ser tão pão-dura. Eu realmente preciso comprar a sapatilha mais barata? E se eu merecer aquela um pouco mais cara porque eu trabalho e posso me agradar? A questão de “merecer” é fundamental, tem a ver com amor, mas para sair do mental e chegar ao coração, é preciso colocar em prática, ou seja, saber receber. Esse será meu segundo esforço: receber elogios, presentes, agrados. Contarei os resultados em um post futuro. Até lá, aceito sugestões e dicas. Vamos compartilhar?* A Revista Tato aborda o feminino com respeito à individualidade e escolhas de cada mulher, e é realizada pelas jornalistas Manoella Oliveira e Thays Prado e a designer Vanessa Siqueira. E-mail: contato@maistato.com.br.** Publicado originalmente no site EcoD.

Aziz Ab’Saber,. Crônica

Excursões com Aziz Ab’Saber

A primeira crônica que escrevi para esta coluna foi sobre o geógrafo Aziz Ab’Saber, meu professor na USP nos anos brabos.[caption id="attachment_30621" align="alignleft" width="300" caption="Aziz Ab’Saber."][/caption]Agora, ele ganhou o prêmio “Intelectual do Ano”, da União Brasileira de Escritores, e quero festejar me lembrando de algumas excursões em que ele nos levava para conhecer o Brasil com olhos de geógrafos, não de meros viajantes.Para concluir o curso de Geografia, tínhamos que ter participado de pelo menos dez excursões de estudos, algumas delas para lugares distantes, num ônibus que não era bem um ônibus, mas uma jardineira pequena, parecida com aquelas que eu viajava no interior de Minas antes de vir para São Paulo, a que demos o apelido de De Martonne, nome de um geógrafo “ultrapassado”, do início do século XX.Viajei com muitos professores bons, aprendi muito com eles, mas com o Aziz tinha uma coisa a mais: ele, no topo da carreira, diretor do Departamento de Geografia, virava também nosso cozinheiro. Íamos duros, cozinhando em beiras de rios, em viagens que às vezes duravam mais de duas semanas. E quem cozinhava era o Aziz.O Dito, motorista, obedecia cegamente o professor, e isso era um perigo. Se o mandassem entrar numa rua contramão, ele entrava. Uma vez, um grupo foi estudar o cerrado do norte de Goiás e parou em Brasília, para uma reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em que o Aziz daria uma palestra. Todo mundo – menos o motorista, o professor dizia que a vida de todos nós dependia dele não passar mal – comeu no restaurante universitário da UnB. A comida de lá tinha fama de ser ruim, mas era pior do que a fama.Foi uma fila de gente com dor de barriga a noite inteira, na porta do único banheiro de um hotelzinho de Taguatinga.De manhã, todos entraram alegres no De Martone, e a excursão continuou animada. Mas, aos poucos, foi-se fazendo um silêncio… E por fim o professor Aziz falou com o motorista:– Dito, vai diminuindo a velocidade aos poucos…Ele tinha que falar assim, pois se mandasse o Dito parar ele meteria o pé no freio, e quem ia segurar os intestinos da turma com uma brecada assim?– E quando estiver bem devagar, encoste no acostamento e pare.O Dito fez isso, desceu todo mundo em silêncio, o professor gritou: “Mulher pra lá, homem pra cá” e todos correram para trás das moitas. Isso se repetiu várias vezes. Quando a excursão chegou de volta, perguntei ao Mané Bonilha como tinha sido a viagem e ele respondeu: “Adubamos Goiás inteiro!”Uma vez, fomos a Mato Grosso, estudar os diferentes tipos de cerrado e o arenito das barrancas do rio Paraná. Duros, dormíamos dentro do De Martonne. O professor e algumas meninas dormiam em hotéis. Na volta, paramos no final da tarde perto de Presidente Prudente e jantamos um arroz carreteiro feito pelo Aziz. Chegamos à cidade, o Dito deixou uma turma num hotel e nos levou a uma praça mal iluminada, que era melhor pra gente dormir dentro da jardineira.O problema é que a digestão do arroz carreteiro foi rápida, e lá pelas dez da noite estávamos com fome. Tínhamos usado o dinheiro que restava para comprar dois litros de cachaça. E por isso a fome era maior ainda.Vimos do outro lado da praça uma baita festa numa casa. Era um casamento, com música animada, muita cerveja, peru, frango assado e salgados.Decidimos ir lá. Combinamos: o Ricardinho e a Suemi, que dançam muito bem, iam na frente, dançando, e nós atrás. Se o pessoal não se incomodasse, a gente ficava lá. Se mandassem a gente embora, roubávamos um peru ou um frango assado e sairíamos correndo.O pessoal da festa era hospitaleiro e alegre. Todo mundo parou pra ver o casal dançar. Fizeram até roda. Mas o Ricardinho tinha bebido mais que nós e não entendeu bem o que combinamos. Levou a Suemi dançando até uma mesa, pegou um peru e saiu correndo.Claro que tivemos que sair, sem graça. Fomos pra perto do De Martone e comemos o peru xingando o Ricardinho: “Se você não tivesse roubado o peru, estaríamos lá, comendo de tudo com cerveja”.* Mouzar Benedito é colunista da revista Fórum outro mundo em debate.** Publicado originalmente no blog do autor, no site da Revista Fórum.


por Mouzar Benedito*
1 Cidades

A periferia e sua Primavera de Praga

As periferias do Brasil são hoje marcadamente diferentes do que eram há dez anos e, em muitos sentidos, para melhor.“O brasileiro não confia muito no Brasil, não confia na melhora, não confia no vizinho. Não há sentimento de união”, afirmava Mano Brown na Fórum número 1, dez anos atrás. “Qual das violências? A do revólver? Há vários lados a analisar. Um, é o do desemprego. A tendência é só piorar”, perguntava e respondia, noutro trecho, o líder dos Racionais MC’s e de todo o rap brasileiro.Não é possível dizer que Brown estava errado em seus conceitos, até porque, sabendo disto ou não, ele era um dos homens que trabalhavam, em 2001 e desde muito tempo antes, para modificar a realidade que suas palavras expunham e denunciavam. Ainda que o desemprego tenha diminuído de lá para cá, tampouco é possível dizer que vivamos num mar de rosas no Brasil de 2011. Mas que as previsões do rapper estavam erradas até certo ponto, ah, elas estavam.As periferias do Brasil são hoje marcadamente diferentes do que eram naquele tempo e, em muitos sentidos, para melhor. E há inúmeros depoimentos a corroborar essa evidência. “Vou fazer um filme agora, O Jeito Favela de Ser Feliz. É sobre como a favela é feliz no seu cotidiano”, conta Preto Zezé, um ex-lavador de carros, que hoje é presidente nacional da Cufa, a Central Única das Favelas. Cearense de Fortaleza, ele mora na cidade natal, e isso por si só é um sinal de mudança: a Cufa não acredita que seu presidente precise residir numa das capitais antes fatídicas do Brasil, Rio de Janeiro ou São Paulo.Zezé desenvolve sua tese: “A felicidade aumentou muito na favela, Ave Maria! Eu estava conversando com um amigão do Psol aqui de Fortaleza, que foi candidato a prefeito. Ele dizia: ‘As pessoas estão mais tristes, deprimidas’. Eu falei: ‘Só se for no seu condomínio, cara!’.” Zezé, que também é rapper e prepara estreias como cineasta e escritor, é uma das várias personalidades egressas das periferias que apontam a importância crucial do hip-hop – logo, do trabalho de Mano Brown e correlatos – como marco de partida para essa mudança de sintonia.Outro é o poeta Sérgio Vaz, que há dez anos ajuda a modificar o estado de espírito de comunidades como a Chácara Santana, na zona sul paulistana, com os saraus da Cooperifa, que também há exatos dez anos fazem circular poesia produzida para e pelos cidadãos periféricos de São Paulo. “No começo, eu escrevia poesia de protesto. Com a abertura política, os caras falaram que esse negócio de escrever poesia falando do governo estava fora de moda. Falei: ‘Porra, me fodi, porque só sei escrever sobre isso’”, ele lembra. “E aí veio o hip-hop. Pô, então, as coisas não melhoraram tanto quanto o jornal e a novela dizem. Eu, que pensava em escrever como Chico Buarque, pensei: ‘Pô, minha turma não é o Chico Buarque. Eu estava vendo a banda passar quando o fim de semana no Parque Santo Antônio me pegou à toa na vida’.”A referência aqui é ao rap “Fim de semana no parque”, lançado em 1993 pelos Racionais. “A gente nunca imaginou que o nosso bairro ia estar numa música”, Sérgio evoca, rindo. “A gente está acostumado a ouvir falar de Ipanema, Leblon, ‘dia de luz, festa de sol, e o barquinho a deslizar no macio azul do mar’, que é a realidade da classe média. De repente, você ouve alguém falando do seu bairro. O RZO fala de Pirituba, vem o Sabotage e fala do Brooklin. Peraí, a gente mora aqui. E aí começou todo mundo a falar dos seus bairros, e começou a dar um ar de pertencimento. Quem tem que sentir vergonha da favela é o governo, não é?”Se em setores do chamado “centro” o hip-hop era e é visto com reservas e desdém, Sérgio dá a exata dimensão de como as letras e batidas do rap caíam nos ouvidos das comunidades, que passaram a produzi-las: “Muitos caras foram ouvir falar de Zumbi dos Palmares, Martin Luther King, Malcolm X ou Steve Biko pela primeira vez através de uma música de rap, não na escola. A partir daí, a bússola se inverteu um pouco, um lugar que tinha tudo pra dar errado começa a dar certo... Hoje, há moleques frequentando a universidade, fazendo cursos de cinema, fotografia, noites do sarau da Cooperifa com 300 pessoas pra ouvir e falar poesia. E tudo isso aconteceu por causa do desprezo da classe dominante, que nem sabe o que a gente está fazendo.”O rap é vetor notável desse fenômeno, mas não é o único. Na década que passou, esse modelo de orgulho e autonomia proliferou por diversas periferias do Brasil. A paraense Gaby Amarantos, cantora e compositora de tecnobrega, fala em alto e bom som de sua origem indígena, paraense e, mais especificamente, de filha de Jurunas, bairro pobre de Belém. Em diversos estados do Nordeste, pedreiros, motoristas, empregadas domésticas e zeladores de edifícios de classes média ou alta abandonam seus empregos para cantar e/ou trabalhar na movimentada indústria do novo forró. No Rio, funkeiras inventam um feminismo de características próprias e originais, e a Cidade de Deus vira sede disseminadora de literatura, funk carioca, cinema, hip-hop e ativismo social – pelo rap e pela militância na Cufa, MV Bill vira herói de sua comunidade, invertendo paradigmas negativos seculares.“Quando eu morava na Piraporinha, nos anos 1970, a gente tinha que mentir que morava no Socorro ou em Santo Amaro pra conseguir emprego. Na TV, era época do Gil Gomes, esses caras que a cada semana pegavam um bairro pra satanizar, e esse bairro ficava judiado”, lembra Sérgio. “Hoje tem Datena, eles continuam lá, só que o alcance que têm é muito menor. Hoje, a juventude não para pra assistir Datena. O vício da TV é uma coisa dos mais velhos. A geração nova, da internet, sabe que tem coisa muito mais interessante acontecendo no YouTube.”O orgulho do artista-cidadãoOutro caso exemplar é o de Heliópolis, na zona sul paulistana, hoje mais citada na mídia por conta de sua orquestra sinfônica que por relatos de violência nas páginas policiais. Numa noite em que o bairro é visitado pelo repórter, há oito festas ocorrendo simultaneamente, todas elas gratuitas, incluindo festas de funk e forró ao ar livre, show do sambista Almir Guineto e a Balada Black, assim definida por seu organizador e DJ, Reginaldo Gonçalves: “Cerca de 800 jovens participam e seguem à risca algumas regras, como não consumir qualquer tipo de bebida alcoólica ou drogas. A balada é produzida e fiscalizada pelos próprios jovens, que, além de mostrar que têm como se divertir de cara limpa, promovem a valorização da comunidade e o respeito às diversas tribos, através dos diferentes estilos musicais que tocamos.”Patrocinado mais ou menos invisivelmente pela cervejaria Ambev, o projeto desincentivador do consumo de álcool antes dos 18 anos se chama Jovens Alconscientes. É uma iniciativa da Unas, Associação de Moradores de Heliópolis, da qual Reginaldo é diretor. Ele também dirige a Rádio Comunitária Heliópolis, experiência bem-sucedida (e, de início, bastante perseguida pelos poderes oficiais) de mídia alternativa e cidadã, uma das muitas que têm ajudado habitantes das periferias a prescindir de informações tendenciosas oferecidas pela “grande” mídia – os locutores, moradores da comunidade, são estudantes universitários. O sistema todo foi alçado à condição de Ponto de Cultura, na gestão anterior do Ministério da Cultura.As cotas nas universidades, por sinal, são outro elemento notável de transformação – mais uma vez, sob fortes resistências da sociedade dita de “centro”. “O cara da periferia faz uma faculdade inferior, e mesmo assim o outro cara está com raiva dele”, ironiza Sérgio. “É aquele que come três refeições e está incomodado com quem come uma. Agora os caras estão comendo! Se soubessem que o cara que come uma refeição não tem tanta vontade de morder o que come três... ‘Reacionário’ é mesmo a palavra, eu não consigo entender o ódio que o cara tem de alguém que faz uma coisa diferente da dele.”Reginaldo avalia, de dentro, as mudanças em sua comunidade: “Vejo que Heliópolis avançou muito nesses dez anos. Na minha infância e adolescência, não tínhamos praticamente nenhuma opção de lazer ou cursos de formação ou de profissionalização. As nossas referências infelizmente vinham das ruas. Não tínhamos referências positivas. Os jovens de hoje têm muitas opções, o acesso à informação é fácil e temos vários exemplos de pessoas que moram em nossa comunidade e hoje são referências positivas para nossa juventude.” A profusão de lan-houses, democratizando até certo ponto o cyber-espaço nas comunidades é citada indiretamente na ponderação de Reginaldo: “Hoje temos mais acesso à informação, por meio da internet e de outras mídias. Mas infelizmente, por outro lado, em alguns pontos ainda não tivemos muitos avanços, como a questão da educação de qualidade.”Sérgio também faz o balanço entre o que melhorou e o que não: “Algumas coisas mudaram, algumas continuam as mesmas. Às vezes, muda-se alguma coisa pra não se mudar coisa alguma. A educação ainda é falha, não por culpa dos professores, mas porque a escola está a mil e os alunos estão a milhão. O sistema de saúde ainda é muito falho, a segurança é muito falha. O que mudou pras pessoas é a condição financeira, que melhorou um pouco, é inegável.”Mais uma vez, o poeta da Cooperifa traça um paralelo entre épocas distintas: “Nos anos 1980, pra ir até o Bexiga assistir um cineclube ou dar um rolê, a gente atravessava a cidade. Pra voltar, tinha que esperar o primeiro ônibus passar às 5, 6 horas da manhã. Hoje, um jovem aqui da nossa quebrada não precisa ir pra lugar algum pra ir ao cinema. Nós temos Cinema na Laje, Cine Becos, Cine Escadão, Cine Viela, Cine Palmarino. Se ele quiser ouvir e falar poesia, tem 50 saraus espalhados por aí. Tem grupos de teatro se apresentando em espaços como praças, escolas. Estamos vivendo a nossa Primavera de Praga, a nossa bossa nova, a nossa tropicália. E o que está sendo bacana é que é a nossa primeira vez, e a primeira vez cê tá ligado como funciona, né?”Como funciona, Sérgio? “É muito mais forte. A gente nunca teve uma literatura que nos representasse, uma música que nos representasse além do samba. No máximo o cara ia pro centro e voltava famoso pra quebrada. Hoje, não, o cara quer ser reconhecido na quebrada dele, é um artista-cidadão.” Chame-se bossa negra (como chamava Elza Soares, 50 anos atrás), pretropicália, Cooperifa ou o que for o fenômeno, ele bate às nossas portas em 2011 – e a cegueira da “grande” mídia em percebê-lo é mais um sinal a legitimar a primavera.De volta ao começo, talvez as formulações de Mano Brown dez anos atrás fossem algo descrentes num futuro para os seus. Dez anos depois, o artista-cidadão Mano Brown continua em sua quebrada, mantém-se dentro de seus princípios. E assiste ao seu redor às transformações que suas palavras, mesmo eventualmente pessimistas, ajudaram bravamente a construir.* Publicado originalmente no site da Revista Fórum.


por Pedro Alexandre Sanches, para a Revista Fórum
Ataque do grupo Al-Shabab, lidado a al-Qaeda, na terça-feira 4, em Mogadíscio, deixou 100 mortos. Foto: AFP Mundo

As razões da guerra

[caption id="attachment_30715" align="alignleft" width="300" caption="Ataque do grupo Al-Shabab, lidado a al-Qaeda, na terça-feira 4, em Mogadíscio, deixou 100 mortos. Foto: AFP"][/caption]Os conflitos internos perduram há décadas na Somália, tendo derrubado inclusive o último governo oficial do país em 1991. A derrocada do então presidente Siad Barre, aliado da União Soviética e propagador de uma política autoritária com perseguições e tortura a opositores, deu-se pela ação de clãs rivais.No entanto, os mesmos foram responsáveis pelo atual estado de anarquia vivido pelo país africano. A discordância sobre o substituto de Barre provocou uma batalha pelo poder entre os grupos, ameaçada apenas pela recente ascensão de grupos islamitas, como o Al-Shabab, lidado a al-Qaeda.Nas duas últimas décadas ocorreram 14 conferências para tentar estabelecer um novo poder central, capaz de selar a paz entre as milícias armadas. Contudo, o insucesso desperta a atenção, pois, além de razões políticas, não há aspectos claros para manter os conflitos.Afinal, como é comum na África, o país não possui fartas riquezas naturais a fomentar a discórdia, a exemplo do que ocorre no Sudão. Há, porém, reservas de minério de ferro, estanho, gipsita (gesso natural), bauxita, urânio, cobre e sal inexploradas, além de uma vaga suspeita da existência de reservas de petróleo e gás.Uma eventual rivalidade étnica também não poderia ser atribuída aos conflitos, pois 85% dos habitantes da Somália são somalis, divididos entre clãs que brigam pelo poder.PobrezaCriada em 1960, a partir da fusão de um protetorado britânico e de uma colônia abdicada pela Itália, a Somália é um dos países mais pobres do mundo. Devido à falta de dados confiáveis, sequer figura no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.Segundo a organização, a expectativa de vida no país em 2010 era de 50,4 anos, menor que no Níger, 167º colocado no ranking que reúne 169 nações.O país de 637,6 mil quilômetros quadrados, o equivalente ao tamanho dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro juntos, possui 9,9 milhões de habitantes vivendo com um PIB per capita de 600 dólares (1.068 reais), ou 1,6 dólar por dia (cerca de 2,8 reais). No Brasil, esse valor chega a 10 mil dólares por ano (17,8 mil reais).Sem constar no quadro de integrantes da Organização Mundial do Comércio, a Somália produziu 5,09 bilhões de dólares (cerca de 9 bilhões de reais) em riquezas em 2010, basicamente com as indústrias de telecomunicação, têxtil e de pesca, segundo estimativas da CIA, agência de inteligência norte-americana. Esse valor, no entanto, é inferior a 10% do PIB gerado apenas pela cidade de São Paulo em 2008: 102,4 bilhões de dólares (cerca de 182,2 bilhões de reais).A baixa produtividade da economia somali está também ligada ao alto percentual da população na faixa etária entre 0 a 14 anos (44,9%), a mais vulnerável e que não gera riqueza. A mortalidade infantil é uma das mais altas do mundo: 109,6 a cada mil nascimentos, contra 2,8 da Suécia.Mergulhado na pobreza e enfrentando a pior seca dos últimos 60 anos, a Somália assiste ainda ao crescimento das milícias islâmicas, que desde 2006 tomaram o Sul do país, região que conta com 99,9% de muçulmanos.Na terça-feira 4,  o Al-Shabab realizou um atentado na capital Mogadíscio, deixando ao menos 100 mortos e centenas de feridos. O ataque seria uma retaliação pela sua expulsão da cidade em agosto por forças do governo de transição e das tropas de paz da União Africana, no país para estabilizar a nação e estabelecer um governo democrático permanente em agosto de 2012.Enquanto isso, a ONU alerta para as consequências da crise de fome que atinge mais de 4 milhões de pessoas e pode matar outras 750 mil nos próximos meses.Além da falta de recursos para solucionar a crise de fome no Chife da África – composto ainda por Etiópia, Djibouti, Quênia e Uganda -, estimados em 2,5 bilhões de dólares, dos quais faltam 671 milhões, a ajuda humanitária não consegue chegar a todas as regiões do país por causa dos bloqueios e ataques de milícias islâmicas.A seca também provocou o aumento de 260% nos preços de cereais em relação a 2010 e impulsionou uma migração em massa para Mogadíscio, que chegou a receber mais de 400 mil pessoas em busca de alimentos em agosto.Os países vizinhos também recebem um elevado fluxo de refugiados somalis fugindo da fome e dos conflitos internos. Segundo o ACNUR, Alto Comissário da ONU para refugiados, há cerca de 850 mil somalis sob os cuidados da organização, além de 1,5 milhão de deslocados internos.PiratasEm meio aos problemas sociais e políticos, a Somália também virou alvo da atenção internacional nos últimos anos pela atuação violenta de piratas. O país está em uma das mais importantes rotas navegação do mundo e responde por 30% dos ataques deste tipo.Com o sequestro de diversos navios comerciais e até de um petroleiro saudita, as Marinhas de vários países deslocaram forças para a região e a Organização do Tratado de Atlântico Norte (OTAN) também passou a realizar operações de controle para evitar novos ataques.Segundo o diário americano The New York Times, os lucros da pirataria somali em 2008 chegaram a 50 milhões de dólares. Os piratas possuem equipamentos avançados para suas operações, como lança granadas, fusis AK 47, GPS e telefones por satélite. Os pedidos de resgate geralmente ficam entre 1 a 2 milhões de dólares.* Publicado originalmente no site da revista Carta Capital.


por Gabriel Bonis, da Carta Capital
Ignacy Sachs. Desenvolvimento

A era das grandes responsabilidades

Manter a qualidade de vida para mais de 9 bilhões de habitantes vai exigir da humanidade uma visão mais pragmática de suas responsabilidades diante do planeta.[caption id="attachment_30018" align="alignleft" width="250" caption="Ignacy Sachs."][/caption]Tudo indica que antes da Rio+20, programada para meados de 2012, a Comissão Estratigráfica Internacional vai oficialmente proclamar que desde o início da revolução industrial no século XVII, entramos numa nova era geológica – o antropoceno – caracterizada por um forte impacto das atividades humanas sobre o porvir da Nave Espacial Terra. Não que sejamos “mestres da natureza”, como o pensava Descartes. O recente tsunami que assolou as costas do Japão, nos arredores de Fukushima, nos lembrou a nossa impotência frente eventos naturais deste porte: três enormes ondas de quase 40m de altura, avançando a 300Km/h e entrando 10Km no interior das terras, destruindo portos, aldeias, derrubando casas, carregando barcos e carros, danificando uma central nuclear, acabando com a safra de arroz desta importante província agrícola do Japão e com 80 mil empregos.Necessitamos de uma postura pró-ativa, avaliando com realismo a nossa capacidade de atuar, valendo-se da qualidade única à espécie humana representada pela nossa capacidade de imaginar o futuro. Em outras palavras, devemos aprender a difícil profissão de “geonautas”, neologismo proposto por Erik Orsenna. Assim, 2012 vai passar à história como uma censura duplamente importante na história imediata e na “longue durée”, ou seja, na longa coevolução da nossa espécie com a Nave Espacial Terra. Provavelmente, historiadores futuros deixarão de lado a dicotomia “antes e depois de Cristo” e falarão da época anterior ao antropoceno, e o antropoceno, salientando que o reconhecimento tardio da nossa entrada do antropoceno foi precedido de uma forte aceleração da história imediata durante o breve século XX que, segundo Eric Hobsbawm, começou com a primeira guerra mundial em 1914 e terminou com a queda do muro de Berlim em 1989.Os geonautas nunca devem perder de vista a absoluta necessidade de enfrentar simultaneamente as questões de sustentabilidade ambiental e de justiça social. Ao sacrificarmos no altar da sustentabilidade ambiental o postulado da justiça social, corremos o risco de aprofundar ainda mais as distância abissal que já separam as minorias abastadas ocupando os camarotes de luxo no convés da Nave Espacial Terra das massas que se disputam o triste privilégio de labuta nos seus sótãos. Por outro lado, a busca da justiça social não nos deve levar a comportamentos destrutivos do meio ambiente ao ponto de provocar mudanças climáticas deletérias, pondo em risco a própria sobrevivência a termo de nossa espécie.Mais do que nunca, como geonautas, devemos elaborar e pôr em prática estratégias de desenvolvimento ambientalmente sustentável e socialmente includente, dando-lhes a forma de planos plurianuais. No que diz respeito às mudanças climáticas, o nosso poder é limitado, por isso não devemos nos omitir de reduzir ao máximo as mudanças de origem antropogênica. Por contraste, as nossas margens de liberdade para diminuir a dívida social acumulada são muito maiores, conquanto saibamos fazer bom uso dos conhecimentos já acumulados e dos progressos futuros da ciência, combinando-o com investimentos que ampliarão o aparelho produtivo e com uma organização social capaz de assegurar o trabalho decente para todos.Para avançar na direção de um desenvolvimento socialmente includente e ambientalmente sustentável, vamos precisar de paradigmas energéticos baseados em três princípios: sobriedade, eficiência e substituição das energias fósseis, responsáveis pela emissão de gazes de efeito estufa; por energias renováveis. No que diz respeito ao leque das energias renováveis, devemos explorar cuidadosamente o potencial da energia solar, eólica, maremotriz e, no caso do Brasil, das bioenergia de origem terrestre e aquática, esta última produzida a partir de algas. Isto nos leva a uma questão fundamental: até que ponto a utilização das bioenergias compete com a produção dos alimentos necessários, hoje para quase 7 bilhões e, em meados deste século, para 9 milhões de seres humanos, muitos dos quais por enquanto vão dormir de barriga vazia.Sem perder de vista a prioridade que, por razões sociais, deve ser dada à produção de alimentos para todos aqueles que continuam passando fome ou são subalimentados, dispomos de conhecimentos e temos condições para que uma parcela importante de biocombustível se origine nos resíduos da produção alimentar, transformando dessa maneira os alimentos e os biocombustíveis em coproduto. Em todo caso, tanto a produção de alimentos como a produção de biocombustíveis estão intimamente ligadas as progressos da revolução verde e da revolução azul, sem esquecer o potencial econômico representado pelo adensamento em espécies arbóreas úteis ao homem das florestas mantidas em pé por razões ambientais.A primeira revolução verde, associada com o nome de Norma Borlaug, privilegiou as produções de alimentos com sementes selecionadas, grandes quantidades de adubos e água abundante, condições essas não acessíveis a uma grande parte dos agricultores dos países emergentes. Um passo importante para a frente foi dado pela agrônoma indiana, M. S. Swaminathan, ao postular uma “revolução sempre verde” (evergreen revolution), voltada primordialmente às possibilidades e aos interesses dos pequenos agricultores.Em paralelo, devemos avançar na conceitualização de uma revolução azul, abrangendo as águas litorâneas dos mares e as águas interiores (rios, lagos, lagoas, açudes, etc.), substituindo gradualmente a piscicultura à pesca (ou seja à  caça ao peixe), sem esquecer as algas o seu potencial energético. O objetivo presente a todas essas iniciativas é a geração do maior número passível de oportunidades de trabalho decente.Um tema da maior importância é a implantação de unidades de produção intensiva horti-pisci-arbórea em e a redor de açudes, igarapés, lagos, ao longo dos rios e nas extensas áreas protegidas pelo recife no litoral marítimo. Uma unidade de meio hectare pode atender o consumo de 200 brasileiros. Obviamente, podemos trabalhar com unidades de produção maiores de um ou mais hectares. Não deveríamos ser limitados, pelo menos no Brasil, pela falta de espaço para implantação dessas unidades. Um uso tão intensivo dos solos se justifica pela necessidade de manter em pé por razões ambientais e sociais grandes extensões de floresta. Por outro lado, elas geram um potencial apreciável de oportunidades de trabalho decente (uma a duas famílias de dois adultos por unidade).A título preliminar, generalizando os dados disponíveis e adequando-os a uma população mundial de 9 bilhões de habitantes, para assegurar o consumo de 50Kg por habitante/ano de peixe, necessitaríamos de 4,5 milhões de hectares de açudes. Supondo que o consumo anual de hortaliças requer 10m² por pessoa/ano, precisaríamos de 9 milhões de hectares de hortas. Ao crescimento ainda 9 milhões de pomares e plantações arbóreas, chegaríamos a um total de 22,5 milhões de hectares, ou seja, menos metade da superfície da França, isto pata atender uma parte significativa do consumo da população mundial!À primeira vista pode parecer fácil. Sem ceder a esta visão otimista, nos limitaremos a dizer: Yes, we can (ou talvez Yes, we should), sim esta meta deveria estar ao nosso alcance, enquanto nos mobilizamos para tanto e saibamos organizar uma cooperação internacional eficiente. Esta deverá se pautar por uma nova geografia, ou seja privilegiar as relações entre países que enfrentam o mesmo desafio de aproveitar melhor os recursos renováveis dos diferentes biomas.Nesta visão, o Brasil e os países amazônicos têm uma responsabilidade especial no que diz respeito à cooperação entre países detentores de grande superfície de floresta tropical úmida nos três continentes, América Latina, África e Ásia. Podemos repetir o mesmo raciocínio para os demais biomas  - o semiárido, as savanas, as regiões temperadas, etc. – sem esquecer o caso especial das zonas litorâneas dos mares e oceanos, tema no qual o Brasil aparece outra vez como um protagonista de primeiro plano.Concluindo, ao finalizarmos a nova Cúpula da Terra podemos ainda esperar uma aterrissagem segura se soubermos respeitar o princípio da responsabilidade e organizar uma cooperação internacional efetiva, capaz de reequilibrar o balanço das forças em favor dos países emergentes. O Brasil e a Índia têm uma responsabilidade histórica como locomotivas potenciais deste bloco. Não há razão para que a entrada no antropoceno freie o desenvolvimento da nossa espécie, bem ao contrário, conquanto os geonautas se entendam com respeito ao rumo que a Nave Espacial Terra deve tomar.* Ignacy Sachs é economista e professor da  École des Hautes Études en Sciences Sociales, da Paris.


por Ignacy Sachs*
A maioria dos candidatos a pais querem crianças brancas e sem irmãos. Foto: Agência de Notícia do Acre Infância

Quase 5 mil crianças aguardam adoção no Brasil, mas perfil dos futuros pais é entrave

[caption id="attachment_29976" align="alignleft" width="300" caption="A maioria dos candidatos a pais querem crianças brancas e sem irmãos. Foto: Agência de Notícia do Acre"][/caption] O Brasil possui, atualmente, 4.856 crianças aptas a serem adotadas. Os dados, revelados no último balanço do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), apontam que ainda que o país possui cerca de 30 mil crianças em abrigos de instituições governamentais e não governamentais. O cadastro foi criado pelo Conselho em abril de 2008 para concentrar informações de todos os tribunais de justiça do país referentes ao número de pretendentes e crianças disponíveis para encontrar uma nova família, bem como acompanhar este tipo de procedimento judicial nas varas da infância e juventude espalhadas pelo Brasil. As informações visam auxiliar os juízes na condução dos procedimentos de adoção. O cadastro do CNJ também revelou o perfil exigido pelos pretendentes que, na opinião de especialistas, continua a ser o grande entrave para a adoção dessas crianças. Dos 27.264 pretendentes cadastrados para adotar, apenas 585 declararam aceitar somente crianças da raça negra. Afirmaram aceitar somente crianças brancas 10.173 dos adotantes, e somente crianças da raça parda, 1.537. Aqueles que se manifestaram indiferentes à raça somam 9.137. Os pretendentes também deixaram claro o desinteresse em adotar crianças com irmãos. De acordo com o CNA, 22.702 inscritos manifestaram o desejo por apenas uma criança. O número de interessados em adotar até duas crianças cai para 4.461. "Trata-se de preferência que temos que trabalhar para mostrar aos pretendentes que tal perfil não significa maior efetividade do vínculo que se irá estabelecer com a adoção. Já sentimos melhora, mas muito ainda deverá ser feito por todos que devem garantir os direitos das crianças e adolescentes", opinou o juiz Lupianhes Neto. Novas regras para adoção Em agosto de 2009, o então presidente Luíz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei que modificou as regras para a adoção no país. Na ocasião, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) lançou o Guia Comentado – Novas Regras para a Adoção. O documento, que você baixar na Biblioteca do EcoD, detalha as alterações realizadas pelo Senado Federal no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), especificamente no que se refere ao direito à convivência familiar e à adoção. Além do texto legal, o guia também apresenta breves comentários aos dispositivos mais importantes. Veja abaixo algumas questões relacionadas ao processo de adoção no Brasil, extraídas da cartilha Adoção Passo-a-Passo, feita pela AMB: O que é adoção de crianças e adolescentes? A adoção é um procedimento legal que transfere todos os direitos e deveres de pais biológicos para uma família substituta e dá a crianças e adolescentes todos os direitos e deveres de filho, quando forem esgotados todos os recursos para a manutenção da convivência com a família original. É regulamentada pelo Código Civil e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Quem pode ser adotado? Crianças e adolescentes com até 18 anos à data do pedido de adoção, cujos pais forem falecidos ou desconhecidos, tiverem sido destituídos do poder familiar ou concordarem com a adoção de seu filho. Maiores de 18 anos também podem ser adotados. Nesse caso, a adoção segue outro processo e depende de sentença constitutiva. Todas as crianças que vivem em abrigos podem ser adotadas? Não, pois muitas têm vínculos jurídicos com a sua família de origem e, por isso, não estão disponíveis à adoção. Nesses casos, deve-se priorizar o retorno dessas crianças para o convívio com sua família. Qual o caminho para se inscrever como pretendente a adoção? Primeiramente, o interessado deve se dirigir ao Fórum de sua cidade ou região, com RG e comprovante de residência, para receber informações iniciais a respeito dos documentos necessários para dar continuidade ao processo. Após análise e aprovação dos documentos, entrevistas serão realizadas com a equipe técnica das varas da Infância e da Juventude. Após ser considerado apto para adoção, quanto tempo leva até que o candidato encontre uma criança? Varia muito. Primeiro, o candidato passa a integrar o cadastro de habilitados. Quando a Vara encontra uma criança que atenda às expectativas do adotante, acontece o encontro. A partir disso, ocorre o estágio de convivência. Quando a criança tem menos de um ano ou já tem vínculo afetivo com o adotante este estágio é dispensado. No caso de adoção internacional, este estágio deve ser cumprido em território nacional e é de até 30 dias. Depois disso, é lavrada a sentença judicial de adoção. E então a criança passa a ter uma certidão de nascimento com o nome escolhido e na qual os adotantes constam como pais. A criança tem o direito de consentir ou discordar da adoção? Quando o adotando tiver mais de 12 anos, a adoção dependerá de ele concordar com o processo. Mas, independentemente da idade, sempre que possível, deve-se considerar a opinião da criança. É possível escolher a criança que se quer adotar? O candidato deve ser o mais sincero possível ao explicitar suas expectativas e motivações em relação à criança que venha a adotar e quanto a suas restrições para que a Vara da Infância e Juventude ache um melhor arranjo possível, evitando desentrosamentos. Quem pretende adotar pode optar por aguardar até que apareça uma criança que melhor corresponda às suas expectativas. A criança adotada perde o vínculo jurídico com os pais biológicos? Sim, todos os vínculos jurídicos com os pais biológicos e parentes são anulados com a adoção, salvo os impedimentos matrimoniais (para evitar casamentos entre irmãos e entre pais e filhos consanguíneos). Qualquer pessoa tem acesso aos dados de um processo de adoção? Não. O processo de adoção tramita em segredo de Justiça. Apenas o adotado pode ter acesso às suas informações, assim mesmo, somente após autorização judicial. Pais biológicos destituídos do poder familiar não têm acesso a esse material. A adoção depende do consentimento dos pais biológicos? Em princípio, a adoção depende do consentimento dos pais ou dos representantes legais, mas o consentimento será dispensado se os pais da criança forem desconhecidos ou tiverem desaparecido, se tiverem sido destituídos do poder familiar ou se o adotando for órfão e não tenha sido reclamado por qualquer parente por mais de um ano. A família biológica pode conseguir seu filho de volta depois da adoção? Não. Depois de dada a sentença da adoção pelo juiz, ela é irreversível, e a família biológica perde todo e qualquer direito sobre a criança. Mas a família biológica poderá ter sua criança de volta se a sentença não tiver ainda sido dada e se, por ato judicial, provar que tem condições de cuidar de seu filho. A adoção é para sempre? Sim, a adoção é irrevogável, mas os pais adotivos estão sujeitos à perda do poder familiar pelas mesmas razões que os pais biológicos: por abandono, castigar imoderadamente o filho, praticar atos contrários à moral e aos bons costumes, descumprir determinações judiciais, etc. Pobreza e miséria não são motivos suficientes para a destituição do poder familiar. O que é "adoção à brasileira"? A expressão é usada para designar uma forma de procedimento que desconsidera os trâmites legais do processo de adoção, no qual uma criança é registrada como filha biológica sem que ela tenha sido concebida como tal. Nesse caso, a mãe biológica tem o direito de reaver a criança se não tiver permitido legalmente a adoção ou não tiver sido destituída do poder familiar. O que é adoção pronta? É a adoção em que a mãe biológica determina para quem deseja entregar o seu filho. Na maioria dos casos, a mãe procura a Vara da Infância e da Juventude acompanhada do pretendente à adoção para legalizar uma convivência que já esteja acontecendo de fato. É um tema bastante polêmico. Para alguns juízes, a adoção pronta é desaconselhável, pois é difícil avaliar se a escolha da mãe é voluntária ou foi induzida, se os pretendentes à adoção são adequados ou se é uma situação de tráfico de crianças. Mas para outros, o direito da mãe biológica de escolher para quem entregar seu filho deve ser considerado. O que é "adoção tardia"? A expressão é usada em referência à adoção de crianças maiores ou de adolescentes. Remete à ideia de uma adoção fora do tempo "adequado" e reforça o preconceito. O que são grupos de reflexão? Os profissionais da Vara às vezes percebem que a vontade de adoção deriva, por exemplo, de um desejo que o filho salve um casamento que está em crise ou de que o filho substitua a perda de outro. Embora não sejam necessariamente motivos impeditivos para se adotar, o psicólogo e a assistente social avaliam se é necessária uma maior reflexão sobre o desejo de adoção e encaminham os candidatos para esses grupos. O candidato reprovado pode se inscrever novamente? Os candidatos reprovados estão subdivididos em dois grupos: inaptos e inidôneos. Os inaptos são aqueles considerados insuficientemente preparados para a adoção. Estes poderão ser indicados para alguns serviços de acompanhamento e poderão ser reavaliados futuramente. Já os inidôneos são aqueles que cometeram faltas ou delitos graves e não podem se inscrever novamente. Em que condições um parceiro pode adotar o filho do outro? Casais que tenham uma união estável podem adotar filhos de seus parceiros quando as crianças não tem o reconhecimento paterno ou materno ou quando o pai ou mãe biológicos tiverem sido destituídos do poder familiar ou concordarem com a adoção em depoimento judicial. A pessoa que encontra um bebê abandonado pode adotá-lo? Um bebê encontrado em situação de abandono não está automaticamente disponível para adoção. Nesse caso, o procedimento adequado é procurar os órgãos competentes para localizar os pais e saber se o bebê foi de fato abandonado. Somente se os pais estiverem desaparecidos ou forem destituídos do poder familiar é que esse bebê poderá ser adotado. A pessoa que o encontrou não terá garantia da adoção, que dependerá da avaliação da Vara da Infância e da Juventude sobre os possíveis candidatos. Brasileiros que moram no exterior podem adotar crianças brasileiras? Sim. Deve-se, neste caso, seguir os procedimentos de uma adoção internacional. Estrangeiros residentes no Brasil podem adotar crianças brasileiras? Sim, desde que tenham visto de permanência. O procedimento é igual ao de uma adoção feita por brasileiro. * Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação EcoD
1 Tecnologia

Google e nossa memória

Olhe a imagem abaixo, que está neste link em muito maior resolução. Neste outro link, há uma afirmação radical sobre a imagem acima: google está destruindo sua memória. Será? O argumento é que os serviços de google, destinados a organizar e encontrar toda a informação do mundo [inclusive a sua e a minha, pessoais] estão mudando, de forma radical, o que costumamos chamar de memória. Este tipo de discussão não começou por causa de computadores e internet. Vem de longe, desde quando nossos cérebros, depois de começar a criar ferramentas para estender as capacidades intrinsecamente físicas do corpo [pense facas, espadas, alavancas...] começou a pensar em ferramentas para estender o próprio cérebro. Como a escrita, por exemplo. A escrita [lá no começo dos tempos] fez com que parte de seu cérebro pudesse ir a lugares… sem ir lá fisicamente. Como assim? Cartas, por exemplo. Sem escrita, a única forma de você dizer algo a alguém distante era ir até a pessoa com quem você queria se comunicar. Mais: a escrita passou a levar partes de seu cérebro a tempos onde ele não iria. O que você escreve, hoje, representa parte do que você pensa e, com um pouco de sorte, vai sobreviver a seu próprio corpo por muitos anos. Milênios, talvez. Escrita é memória. Um diário é uma memória. eu e você escrevemos um blog para registrar o que pensamos sobre coisas que nos interessam. É muito provável que, no longo prazo, a importância de um blog seja muito maior para [ou sobre] quem escreve do que para quem lê. O debate sobre o impacto da escrita na memória existe pelo menos desde a grécia antiga. Em fedro, platão mostra um diálogo entre theuth [o "inventor" da escrita] que vai promover sua criação para thamus, o deus-faraó que reinava sobre o egito. Diz theuth: "Essa invenção, ó rei, tornará os egípcios mais sábios e promoverá sua memória, pois isso que descobri é um elixir (phármakon) para a memória (mnémes) e para a sabedoria (sophías).” Ao que thamus responde: “Ó muito inventivo Theuth, alguns têm a habilidade de descobrir as artes, outros têm a habilidade de saber qual o benefício e malefício para aqueles que as utilizam. E tu, que és o pai da escrita, foste conduzido pela tua afeição a atribuir-lhe um poder oposto ao que realmente possui. Pois isso vai produzir esquecimento na mente daqueles que a aprendem: eles não vão exercitar a memória por causa da sua confiança na escrita, que é algo exterior (éksothen), provinda de caracteres alheios, e não vão eles mesmos praticar a lembrança interior (éndothen), por si mesmos. Tu inventaste um elixir da lembrança (hypomnéseos), e não da memória (mnémes), e tu ofereces aos teus discípulos uma aparência de sabedoria, não verdadeira sabedoria, pois se tornarão muito informados (polyékooi [...] gignómenoi), sem instrução, (áneu didakhês) e terão, assim, a aparência de que sabem de várias coisas (polygnómenes) quando na verdade são, na maior parte, ignorantes e difíceis de conviver, já que não são sábios, mas apenas aparentam ser. A citação acima, com ênfase do blog, está em "o fedro e a escrita", de marcus reis pinheiro, leitura importante pra quem quiser entrar nos detalhes desta conversa. Como se vê, o debate sobre ferramentas que estendem o cérebro vem de longe. E hoje? Será que o business insider pode simplesmente afirmar, qual thamus, que google está "destruindo" sua memória? não. google, e todo o ambiente informacional baseado na internet ao nosso redor, é parte de um longo e complexo processo [r]evolucionário que [re]cria métodos, técnicas, ferramentas e ambientes que estendem as capacidades humanas em todas as direções. Se fazemos o exoesqueleto robótico parcial que ajuda a levantar e carregar peso, aumentando nossa força física, porque não fazemos um conjunto de ferramentas como as de google, para nos lembrar de nossos compromissos, encontrar a informação [seja qual for, inclusive caminhos] no mundo, guardar todos os nossos textos, livros e arquivos? Claro que esta informaticidade vai mudar nosso mundo e nos mudar. deve estar mudando o que costumávamos chamar de humanidade, inclusive. mas, sendo tudo baseado em tecnologia [como a escrita!...] e sendo tecnologia o domínio do possível… se for possível ser feito, será. Depois, como no caso da escrita, veremos as consequências. PS: se thamus tivesse proibido a escrita e se isso valesse até hoje, que seria do imaginário [e do] brasileiro sem [por exemplo] machado de assis, ariano suassuna, guimarães rosa, nélson rodrigues… * Silvio Meira é fundador do www.portodigital.org e cientista-chefe do www.cesar.org.br, escreve mensalmente para a Folha de S.Paulo. ** Publicado originalmente no site EcoD.


por Silvio Meira*
1 Copa do Mundo

Pátria de chuteiras e o caso da razão

Aprendi ao longo de alguns textos sobre a Copa do Mundo de Futebol que o preço de questionar uma conquista nacional é o de ser acusado de torcer contra o Brasil.Isso não é exclusivo do atual governo.Desde a ditadura militar, com seu famoso slogan "ame-o ou deixe-o", a tendência é inibir certas críticas, associando-as à falta de patriotismo. Neste caso, e em muitos outros, o patriotismo não é simplesmente um refúgio de canalhas, como na célebre citação. Ele faz parte de um processo complexo de acúmulo de poder e dinheiro, no qual um dos elementos sempre impulsiona o outro: mais dinheiro traz mais poder, que, por sua vez, traz mais dinheiro.Da maneira como está sendo conduzida, a preparação para a Copa não é racional. Notícias de bastidores relatam a insatisfação da Fifa, que poderia em outubro cancelar a escolha do Brasil como sede. O que a Fifa parece querer é pior ainda do que se está fazendo por aqui. A entidade quer eliminar o meio ingresso para estudantes e idosos, algo que, correto ou não, representa direitos conquistados.O governo enfatiza esse detalhe da disputa com a Fifa porque sabe que o deixa bem com a opinião pública.Outros anéis já se foram, sem grandes protestos. O Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC), denunciado pela Procuradoria- Geral da República, foi o primeiro grande passo para conformar a legislação brasileira ao desígnios dos que se querem aproveitar da Copa.E o relator do projeto do novo Código Florestal no Senado, Luiz Henrique (PMDB-SC), afirmou que seria introduzida uma emenda no projeto permitindo desmatar para obras da Copa.O Brasil tem pressa, disse ele.Quando se trata de conformar uma legislação aos seus desígnios, o Brasil deles tem pressa.Quando se trata de avançar com obras essenciais para a Copa, o Brasil deles é devagar. Aparentemente, são movimentos contraditórios, mas no fundo se complementam: mais pressa significa menos controle sobre os gastos.Estou convencido de que muitos desses gastos são irracionais.No capítulo dos estádios esportivos, tenho mencionado dois exemplos: o do Maracanã, no Rio, e o do Machadão, em Natal. Só para a reforma do Maracanã o governador Sérgio Cabral pretendia gastar quase R$ 1 bilhão. O Tribunal de Contas apertou o controle e conseguiu abater R$ 84 milhões. O governo do Rio, que esta semana contraiu um empréstimo de US$ 126,6 milhões com o Banco Interamericano, resolveu fazer marketing e reduziu mais R$80 milhões no custo do Maracanã.O mecanismo foi sutil: isentar de ICMS o material de construção destinado à obra, construída pela empresa Delta, de Fernando Cavendish, amigo de Cabral.Nem os fluminenses nem sua imprensa se deram conta, na plenitude, de que estavam sendo enganados: os custos são os mesmos, mas pagos de forma diferente.Tudo foi feito em concordância com a legislação federal que também isenta estádios de alguns impostos. A conta da Copa ficará um pouco como as pessoas cujas fotos são processados no Photoshop e parecem ter 10kg a menos.O caso do Machadão, em Natal, que se vai chamar Arena das Dunas, também é típico. O estádio será reconstruído para ampliar sua capacidade. Pesquisas sobre sua trajetória indicam que só lotou uma vez, durante a visita do papa João Paulo II. Suponhamos que a ampliação sirva aos jogos da Copa. Mas, e depois? Teríamos de esperar nova visita de um papa para encher o estádio outra vez.A solução para os aeroportos também me parece irracional. O aumento do número de passageiros das linhas aéreas é constante no País. Como usem Copa, precisamos de novos aeroportos.A solução apresentada: construir terminais provisórios.Se há uma necessidade estratégica de crescimento, o arranjo provisório atrasaria a solução definitiva e drenaria parte dos seus recursos.Serviria à Copa e aos torcedores, mas atrasaria o passo de novas levas de viajantes.As famosas obras de mobilidade urbana não serão concluídas.O empenho na construção do trem-bala parece maior do que a preocupação com as massas metropolitanas que, às vezes, passam quatro horas do dia se deslocando de casa para o trabalho e vice-versa. A solução para esse complexo problema já foi anunciada pela ministra Miriam Belchior: sai o legado, entra o feriado.Nos dias de jogo, as cidades param e o Brasil arca com um imenso prejuízo, sentido na carne pelos trabalhadores autônomos.Nunca se falou tanto em transparência quanto na época em que o Brasil foi escolhido para sediar a Copa e a Olimpíada. Políticos de vários horizontes formaram comissões, ONGs se posicionaram no front da vigilância e, no entanto, os dados não aparecem com toda a sua clareza. O empréstimo de US$ 126,6 milhões no exterior e a redução de custos no Maracanã com base em isenção de impostos são faces de um drama que escapa até aos grandes órgãos de comunicação do Rio, considerados os lucros que a Copa lhes trará.Porém a vida continua no seu implacável ritmo. A insensatez joga em inúmeras posições, mas os governantes calculam que os prejuízos serão recompensados por uma vitória nacional no futebol.Em caso de derrota e insatisfação, há sempre o recurso de mais um feriado para aplacar a fúria.A proposta do Brasil é sediar a Copa do Mundo para projetar sua nova importância internacional.Para essa tarefa estratégica a interface cosmopolita do País são os Ministérios do Esporte e do Turismo.O primeiro é dirigido pelo Partido Comunista do Brasil, que há alguns anos era fascinado pela experiência da Albânia. O segundo é feudo do senador José Sarney e procura atender, prioritariamente, ao Maranhão, um belo Estado, porém mantido no atraso pelos seus dirigentes.Os patriotas que me perdoem, mas não posso repetir o slogan do McDonald"s, amo muito tudo isso. E já vai muito longe o tempo em que o dilema, pela força da repressão, era amar ou deixar.Nos tempos democráticos, é preciso demonstrar a racionalidade das ações do governo. E a Copa do Mundo de 2014 pode ser a amarga taça da improvisação e cobiça na qual bebem apenas políticos empresários.* Fernando Paulo Nagle Gabeira é um escritor, jornalista e político brasileiro.** Publicado originalmente no site EcoD.


por Fernando Paulo Nagle Gabeira*
1 Reflexão

Dançar a vida

A primavera é o sorriso da natureza que dança a vitória da vida. Em regiões tropicais, não se percebe muito a entrada da primavera que chegou ao hemisfério sul no dia 21 de setembro. No entanto, no Centro-oeste, mesmo se as chuvas atrasaram e as queimadas ainda continuaram a ferir o coração da nossa terra, a paisagem começa a mudar. Aqui e ali, as árvores florescem, os cajus começam a dar fruto e o campo verdejante celebram a renovação da vida. Grupos indígenas sobem montanhas para celebrar ritos de cura da terra. A primavera é o sorriso da natureza que dança a vitória da vida. Por isso, as religiões antigas expressam sua adoração ao Espírito, não apenas com palavras, mas com dança. Para as tradições hindus, a dança é caminho para a sadhana, integração do ser humano no cosmos. Dançar é expressar o mistério divino, presente em nós, através da libertação do corpo e do espírito. Nas tradições afrodescendentes e indígenas, a dança é elemento de união com Deus. Na Bíblia, a Páscoa significa passos e começou como dança de primavera. Essa festa da natureza é sinal da ressurreição de Jesus, de todos nós e do universo. Vários salmos bíblicos foram compostos para ser dançados. Profetizas como Miriam, irmã de Moisés e Débora, juíza de Israel, expressaram a luta de libertação do povo através de cânticos e danças. Mesmo se não sabe, toda pessoa carrega no mais íntimo de si uma dança que é só sua. Já nascemos com essa dança no coração, mesmo se, muitas vezes, a sociedade dominante e algumas tradições religiosas a reprimem. Por isso, muita gente não associa dança com espiritualidade. Entretanto, quando vencemos os preconceitos e permitimos que a energia da dança que está em nosso ser mais íntimo se expresse, estamos trabalhando para nos unificar interiormente. Ao mesmo tempo, como nas tradições mais antigas, ninguém dança sozinho, através da dança comum, colaboramos para que as relações humanas sejam mais afetuosas e o mundo se torne mais lúdico e feliz. Atualmente algumas comunidades cristãs e de outras tradições espirituais redescobrem a dança como expressão de espiritualidade. Entretanto, é preciso que essa dança não seja apenas rito externo. Deve despertar em nós uma renovação do nosso ser e possibilitar que nossas comunidades eclesiais vivam, como desejou em seu tempo o papa João XXIII, uma primavera nova de diálogo e abertura a toda humanidade. Essa nova primavera da Igreja e do mundo pode contribuir para que a sociedade atual reencontre caminhos de esperança para a crise civilizacional em que se debate. O próprio diálogo aberto e sincero será como a expressão de uma dança interior e libertadora. Que essa dança de uma vida nova se espalhe pelo mundo, ajude as pessoas a construir uma profunda renovação ética da sociedade e seja sinal e instrumento de união com todo o universo. * Marcelo Barros é monge beneditino. ** Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Marcelo Barros*
Ilustração: Paulo Von Poser Crônica

A saideira e a conta

Venâncio do chapéu florido, das fitas coloridas, que agradeceu com uma vela cada graça concedida.[caption id="attachment_29989" align="alignleft" width="300" caption="Ilustração: Paulo Von Poser"][/caption]Venâncio do manancial de todas as graças. Venâncio dos pés descalços, da laranjeira, do pau-a-pique. Venâncio de Bom Jesus da Lapa, que correu atrás da bola improvisada e sentou ao pé da cadeira de palha, esculpindo rostos na casca da macaxeira, enquanto a mãe talhava a raiz para torrar a farinha amarela. Venâncio banhado à margem do Velho Chico. Já lavei toda essa roupa, já fiz minha oração. Jesus limpa meus pecados, que o sabão não limpa não. Venâncio que cresceu entre grutas e recebeu na testa em cruz a água do rio. Venâncio que caminhou pela terra batida até a escola e lá aprendeu o fê, o guê, o lê, o mê. Venâncio do chapéu florido, das fitas coloridas, que agradeceu com uma vela cada graça concedida. Venâncio que ouviu o canto do preto e do branco da Gralha-cancã. Venâncio que quase aprendeu os oito baixos, que ouviu as histórias de Dona Maria, sentindo o cheiro da lenha queimando, da querosene do lampião. Venâncio que soube de cor o causo de Seu Izaías e, hoje, o conta como se fosse ele o menino que olhou para a cabeça de Virgulino, naquela escadaria em Piranhas. Venâncio, que se fartou de mugunzá, que tirou garapa da cana, que passou férias na capital envolta em mar e acarajé.Venâncio que correu estrada afora, sacolejando em um ônibus da Itapemirim. Venâncio, dos olhos curiosos, das malas no Tietê. O que sentou nos degraus da Igreja da Sé e ouviu o improviso do pandeiro de Teodoro, a pregação inflamada do pastor dentro de um terno suado, o estalar dos fios do ônibus elétrico, seguindo seu trilho invertido. Venâncio da fila da agência de emprego, na República. Venâncio, o da cama de cima do beliche do canto, da vaga alugada na pensão no Largo do Arouche. O que economizou dois anos de ordenado para trazer Teresa e Dinho. Venâncio que ajeitou seu canto no Sacomã, que subiu tijolo, empurrou carrinho de milho, que vendeu bala e chocolate na porta da estação Artur Alvim. Venâncio, que pagou, boleto por boleto, as vinte e quatro prestações das Casas Bahia. Que subiu, com Otacílio, a laje para puxar o quarto do bacuri que vai chegar. Venâncio que decidiu terminar os estudos à noite e tomou por sua a alegria de Dinho ao ver, pela primeira vez, as luzes do parque de diversões na Barra Funda.Venâncio, agora, é o das bandejas, do avental, das comandas amarelas. Venâncio, o chefia, o amigão, o companheiro, entre o leva e traz de tulipas transparentes, do dourado da cerveja, do cheiro de fritura da macaxeira que um dia viu sair da terra. Venâncio, que carrega em seus gestos involuntários, em sua coreografia certeira por entre as mesas, o trejeito do menino que subiu e desceu ribanceira, que se lambuzou de siriguela, que cheirou a açucena e a murcha flor do mandacaru. A cada vogal aberta de seu sotaque manhoso, a cada sorriso caloroso, a cada Assum Preto assobiado baixinho, em meio ao falatório indiferente do bar na Aclimação, Venâncio, sem saber, reveste de humanidade a palidez dessa grande São Paulo. Venâncio e todos os seus conterrâneos.* Marina Tavares é estudante de Letras** Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Marina Tavares*
Foto: Thalles Gomes Cultura

Forró eletrônico: Festa, amor e sexo

Nova roupagem do gênero popularizado por Luiz Gonzaga é fenômeno da indústria cultural no Nordeste.[caption id="attachment_29992" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Thalles Gomes"][/caption]Nos primeiros quinze dias de setembro serão doze apresentações em nove estados diferentes, começando por Rio Grande do Norte e passando por Bahia, Ceará, Paraíba, Piauí, Acre, Rondônia e Pará, de onde partirão rumo a Alagoas para dois shows numa mesma noite, em Maceió e Anadia. Rotina comum para os integrantes da banda Aviões do Forró que, nos últimos sete meses, realizou 148 apresentações, uma média de mais de 21 espetáculos por mês.Não se trata de caso isolado. Se somarmos os compromissos de outras cincobandas do gênero, ultrapassaremos a casa dos 110 shows somente no mês de setembro. De fato, as apresentações de forró eletrônico ocorrem por todo o território nordestino em todas as épocas do ano. E não é de hoje que vêm avançando para outras regiões e, inclusive, continentes – no início desse ano, a banda Aviões do Forró fez sua segunda turnê européia, com apresentações em Amsterdã, Zurique e Porto. Surgido no início dos anos 1990, o forró eletrônico se propôs a modernizar o universo do forró tradicional difundido e consolidado em todo o Brasil por Luiz Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos e Trio Nordestino. Essa modernização buscava aproximar o forró da música pop nacional e internacional.Para tanto, zabumba e triângulo perderam espaço para baixo, bateria, metais e teclado. A sanfona foi mantida, no intuito de preservar o DNA musical, mas sua importância sonora foi reduzida.A mudança mais significativa, entretanto, seria na temática. Buscando superar o referencial nostálgico e sertanejo característico do forró tradicional, as letras das bandas de forró eletrônico incorporaram o urbano, o sensual, o duplo sentido, a diversão. “O eletrônico canta o urbano, o jovem e está constantemente em busca de festa, diversão, alegria e sexo, com amor ou sem amor”, completa o professor da UFPE, Felipe Trotta. Para ele, a temática do forró eletrônico pode ser resumida no trinômio festa, amor e sexo.“Nossas músicas falam mais de amor, não do sertão como os forrós de antigamente, para fazer uma reciclagem do público, acompanhando as gerações e falando a mesma língua da galera”, confirma Carlos Aristides, um dos empresários da Aviões do Forró.E é justamente no espaço da festa que as bandas de forró eletrônico melhor expressam sua sonoridade e temática, conquistando público cada vez maior. Mesmo com boa vendagem de discos e presença constante nas rádios – são duas músicas do gênero por hora, de acordo com pesquisa feita por Paulo Camêllo nas três maiores emissoras de Recife em 2008 – são nos shows que a experiência musical do forró eletrônico se concretiza e fortalece.Repletas de brilho e iluminação, com equipamentos de ponta e dezenas de dançarinos reforçando a sensualidade das músicas, as apresentações destas bandas se tornaram cada vez mais disputadas, não perdendo em grandiloquência e público para shows de artistas nacionais e internacionais – até porque, os grandes hits estrangeiros costumam ganhar versão dançante em português. Aviões do Forró, por exemplo, reuniu mais de 70 mil pessoas em Salvador para a gravação de seu DVD lançado em abril deste ano.Felipe Trotta explica que os empresários e produtores deste nicho investem cada vez mais no que ele chama de economia da experiência e da performance, “um sistema comercial no qual o consumidor paga não para adquirir um produto ou um serviço, mas para passar algum tempo participando de uma série de eventos memoráveis, o que se torna algo único e altamente lucrativo”.Empresários ao centroDe fato, os empresários têm papel central no universo do forró eletrônico. Controlam não somente o planejamento comercial e as estratégicas de divulgação, mas a própria construção do estilo, a escolha do nome e os integrantes da banda. No forró eletrônico, todos os músicos são trabalhadores contratados, inclusive os cantores.Desde os primórdios do gênero esse modelo impera – a primeira banda de forró eletrônico, Mastruz com Leite, foi organizada pelo empresário Emanoel Gurgel. Atualmente, a principal empresa do setor é a A3 Entretenimento.Capitaneada pelos empresários Carlos Aristides, Zequinha Aristides, Isaias Duarte e Cláudio Melo, a A3 Entretenimento surgiu em 2006 no estado do Ceará e, de acordo com informações de seu site oficial, “atua como um conglomerado de empresas que objetiva atuar na promoção de eventos e bandas”. Reúne em seu “casting” as bandas Aviões do Forró, Forró do Miúdo, Forró dos Plays, Solteirões do Forró, Forró Balancear, Chicabana, Boca a Boca, A Comandante e Forró Pé de Ouro. Além disso, fazem parte da empresa cinco casas de show e duas emissoras de rádio.Esse caráter forjado, somado à temática erotizante e a sonoridade pasteurizada são os principais argumentos dos que criticam o forró eletrônico e veem nele um desvirtuamento da cultura e identidade nordestina.Nesta linha, causou polêmica a atitude do secretário de cultura da Paraíba, Chico César, ao declarar às vésperas dos festejos juninos deste ano que o estado não iria “contratar nem pagar grupos musicais e artistas cujos estilos nada têm a ver com a herança da tradição musical nordestina, cujo ápice se dá no período junino”. O secretário paraibano argumentou que “não faz muito tempo vaiaram Sivuca em festa junina paga com dinheiro público aqui na Paraíba porque ele, já velhinho, tocava sanfona em vez de teclado e não tinha moças seminuas dançando em seu palco”. E completou: “Nunca nos passou pela cabeça proibir ou sugerir a proibição de quaisquer tendências. Quem quiser tê-los que os pague, apenas isso”.Para além da discussão sobre as prioridades do financiamento público, há na atitude de Chico César uma posição implícita acerca da identidade e cultura nordestina, reverberada por outros artistas e intelectuais preocupados com uma possível degeneração e sepultamento de certos valores e tradições regionais.Entretanto, mais do que aceitar ou negar a legitimidade do forró eletrônico como gênero musical, trata-se de compreender as razões e estratégias de sua ascensão e sucesso. E para isso, é preciso ir mais além dos debates sobre gosto ou qualidade musical e desvendar as mudanças socioeconômicas pelas quais passou a região nas últimas décadas.Ao construir um universo musical direcionado a um público jovem e urbano, copiando e recriando os elementos do imaginário da cultura pop transnacional, os empresários do forró eletrônico criaram uma resposta da indústria cultural a um processo de urbanização e empoderamento monetário que teve início nos anos 80 em todo o Nordeste.Sem “sofrimento”De acordo com dados do IBGE, em 1980 a população nordestina estava dividida quase que por igual em urbana (50,7%) e rural (49,3%). Desde então, o ritmo de urbanização da região superou a média das regiões mais desenvolvidas do país. Em 1990, a população urbana já chegava a 60,6%, passando para 69% na virada do século, até chegar aos atuais 73,1%, de acordo com o Censo 2010.Trata-se, dessa forma, de uma população urbana e jovem - de acordo com o mesmo IBGE, 50% da população nordestina têm menos de 30 anos. Se somarmos essa urbanização tardia ao fato de que nos últimos anos há um aquecimento da economia local, com aumento da renda dos assalariados e elevação de consumo entre as classes C e D, teremos um quadro socioeconômico que ajuda a entender a preferência de boa parte do público pelo estilizado e moderno do forró eletrônico, em detrimento do saudosismo rural do forró tradicional.Os empresários da A3 Entretenimento parecem ter compreendido e aproveitado como ninguém essas mudanças. Em seu site oficial, ao falar da banda Aviões do Forró, eles explicam que “as letras trazem uma linguagem diferente do forró clássico, se distanciando de temas como o sofrimento do nordestino. Mas não esquecem as raízes do ritmo, tendo como referência músicos como Luiz Gonzaga. O repertório popular atinge um público jovem por falar sobre relações amorosas, sem deixar de lado o ritmo dançante e animado”.* De Maceió (AL).** Publicado originalmente no site Brasil de Fato.


por Thalles Gomes*, para o Brasil de Fato

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Utilize uma bacia ou a própria cuba da pia para lavar frutas e legumes. Lavando-os sob uma torneira aberta, muitos litros de água serão gastos sem necessidade. Fonte: Viva mais verde.
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