Pinheirinho: ex-moradores da comunidade estão em situação precária

Moradia

Pinheirinho: ex-moradores da comunidade estão em situação precária


por Raquel Rolnik*


A batalha diária dessas famílias se estende, além da moradia, para outros tantos problemas causados pela remoção.[caption id="attachment_50036" align="alignleft" width="300" caption="Polícia e moradores se medem durante operação no assentamento Pinheirinho. Foto: Roosevelt Cássio/Folhapress"][/caption]Em 18 de abril fui a São José dos Campos, a convite de ex-moradores da comunidade do Pinheirinho, para acompanhar a situação das famílias removidas em janeiro deste ano. Embora a Prefeitura da cidade afirme que fez tudo que foi possível para dar atendimento às famílias, o que eu vi é que ainda há muita gente vivendo em condições extremamente precárias de moradia. A principal iniciativa implementada pelo poder público municipal, o bolsa-aluguel, tem se mostrado extremamente limitada. O primeiro efeito que o lançamento de mais de 1.500 benefícios causou foi o aumento imediato do valor da locação de imóveis populares na cidade. Segundo ex-moradores do Pinheirinho, é impossível alugar uma casa adequada somente com o valor da bolsa.Conversando com eles, deu para perceber que cada família tem se arranjado do jeito que pode. Algumas dividem imóveis com outras e racham o aluguel, outras pedem a parentes para alugar em seus nomes – ou porque há muito preconceito contra ex-moradores do Pinheirinho (ouvi relatos de que muitos locatários se recusam a alugar para estas famílias) ou porque, simplesmente, estes moradores não têm documentos nem renda necessários para atender à burocracia exigida pelas imobiliárias. Mulheres solteiras com filhos também enfrentam preconceito. No fim das contas, muitas famílias terminam alugando imóveis em condições insalubres ou situados em áreas de risco, em fundos de serralherias…A batalha diária dessas famílias se estende, além da moradia, para outros tantos problemas causados pela remoção. É a busca por uma escola para seus filhos (algumas crianças, de janeiro para cá, já passaram por mais de três escolas diferentes), é a reivindicação de atendimento médico em postos de saúde que se recusam a atender pacientes que não tenham comprovante de residência na região, enfim, é a tentativa de reconstruir um ambiente familiar e social marcado pelo grave trauma do que ocorreu.Objetivamente, o processo de desocupação da área descumpriu com uma série de diretrizes internacionais voltadas a orientar ações de remoção. Ocorreu antes de terem sido encerradas todas as negociações em andamento e antes de serem esgotadas todas as alternativas viáveis à remoção. Foi cumprida em data e horário impróprios (iniciada às 6h da manhã de um domingo) e sem uma pactuação prévia com a comunidade. Muitas famílias sequer tiveram tempo de retirar os seus pertences – móveis, eletrodomésticos, roupas, documentos – que foram destruídos juntamente com as casas. Por fim, e ainda mais grave, a remoção aconteceu com o uso da violência e sem que houvesse sido planejada e construída uma alternativa concreta de moradia que atendesse à necessidade habitacional desta população.O momento, agora, é de construir uma solução definitiva para a situação vivenciada atualmente por tantas famílias que não podem seguir nas condições que estão. É urgente a abertura de um espaço de diálogo entre os atores envolvidos na questão – poderes públicos municipal, estadual e federal, lideranças e moradores, câmara de vereadores, Ministério Público, Defensoria Pública – para construir coletivamente uma solução adequada e definitiva para aquelas famílias. Somente por meio de um processo pactuado será possível superar os efeitos desse trágico acontecimento e constituir uma rede de atenção social que realmente assegure a efetivação do direito à moradia das famílias removidas.* Raquel Rolnik é arquiteta urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas e coordenadora da área de urbanismo do Pólis - Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais. Blog da autora: http://raquelrolnik.wordpress.com/.** Publicado originalmente no site Brasil de Fato.

Ilustração: H. Mourato Reflexão

Ter ou ser: eis a questão

[caption id="attachment_50039" align="alignleft" width="300" caption="Ilustração: H. Mourato"][/caption]Entre as múltiplas definições de cultura que hoje circulam no mundo do saber, uma delas é "o conjunto dos traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social, e que abarca, além das artes e das letras, os modos de vida, as maneiras de viver juntos, os sistemas de valores, as tradições e as crenças”.Isto que se convencionou chamar cultura, mas pode ter várias definições, segundo a área de especialidade desde onde se fala, é algo que tem sofrido grandes e profundas mutações na passagem da modernidade para a pós-modernidade. A tal ponto que passou a constituir área maior de interesse do ser humano hoje. O que era o "social” para a segunda metade do Século 20 é o cultural para este início de Século 21. Porém, a primeira dificuldade com esse estado de coisas é que o conceito de cultura não é mais tão unívoco.A importância dos problemas culturais se enquadra em um amplo contexto caracterizado pela lógica de uma sociedade produtivista que respondeu às necessidades elementares da população mais abastada e que, para continuar mantendo seu ritmo de crescimento e consumo, deve desenvolver e satisfazer as necessidades "culturais” de sua clientela. Assim, a cultura se torna, mais que "valores” a defender ou ideias a promover, um trabalho a empreender sobre todo o tecido da vida social, a fim de manter a máquina do consumo azeitado. Trata-se de uma sociedade feita de "homens e mulheres que querem ter alguma coisa” e cada vez menos de homens e mulheres que "querem ser alguém”.Quando falamos, portanto, dessa cultura não mais hegemônica, mas plural como é a nossa, estamos, obviamente referindo-nos ao contexto no qual vivemos toda a nossa vida e cujas rápidas transformações das últimas décadas por isso mesmo nos espantam.Trata-se de uma cultura da passividade exatamente por ser uma cultura do espetáculo. Instalada nos lazeres como compensação do trabalho, a cultura consumista desenvolve nos espectadores, que são os homens e mulheres de hoje, a passividade da qual ela já é o efeito.A cultura serve para ajudar o indivíduo a escapar das questões mais candentes e mordentes da sociedade e consumir o vazio que vai nadificá-lo. As formas atuais de conscientização e, portanto, de aglutinação se fragmentaram e suas fronteiras já não são mais definidas. Encontram-se, sim, abertas, fazendo inúmeras interfaces e provocando um novo recorte social onde os atores são dificilmente situáveis.Finalmente, a cultura se tornou instrumento de poder. Tal como o que era ontem o folclore ou a cultura popular, a cultura de massa hoje permanece afetada pelo coeficiente social que a distingue de uma cultura operacional, sempre reservada. Ela não tem mais uma função colonizadora (tanto no bom como no mau sentido da palavra: ao mesmo tempo civilizadora e conquistadora) como foi o caso durante longo tempo da educação que vulgarizava e difundia as concepções de uma elite. Na verdade, a cultura se tornou um objeto rentável e maleável, segundo as necessidades da produção e do consumo, antes que uma arma de combate.O poder, então, se serve da cultura sem se comprometer com ela. Não está mais comprometido nos discursos que fabrica. Seu centro de atenção não está mais substantivamente na produção cultural, ou na difusão cultural, mas apenas tangencialmente. E os produtos culturais servem à classe daqueles que os criam e são pagos pela massa daqueles que deles não usam nem aproveitam.A grande questão que isso levanta é se os membros de uma sociedade como a de hoje, afogados que estão no anonimato de discursos que não são mais os seus, e submetidos a monopólios cujo controle lhes escapa, encontrarão, juntamente com o poder de se situar em algum lugar, num jogo de forças assumidas, a capacidade de expressar-se.Parece que a questão não é mais a mesma que atormentava o Hamlet de Shakespeare: ser ou não ser. Mas sim ter ou ser. Se continuar alugando-se e vendendo-se a si mesma para que o consumo reine soberano, dominando e monopolizando a atenção dos indivíduos, seguramente a cultura não cumprirá seu papel de testemunha da maravilha que é o ser humano. Rastejará em nível das necessidades artificiais e não permitirá que apareçam os desejos que libertam e apontam para a Transcendência.* Maria Clara Lucchetti Bingemer é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de Deus amor: graça que habita em nós (Editora Paulinas), entre outros livros.** Publicado originalmente no site Adital.


por Maria Clara Lucchetti Bingemer*
1 Aborto

Dupla de filósofos defende aborto de recém-nascidos

Ideia é que a morte de bebês é moralmente equiparável à que se pratica no útero materno.Pensar em aborto após o nascimento do bebê parece uma ideia no mínimo confusa, mas a prática foi defendida por um artigo publicado no Journal of Medical Ethics (Jornal de Ética Médica), ligado ao grupo Jornal Médico Britânico (BMJ). O texto causou polêmica ao dizer que a morte do recém-nascido seria “moralmente equiparável” à que se pratica ainda no útero. Os autores, os doutores em Filosofia, Alberto Giublini e Francesca Minerva, argumentam que é justificável a morte de um bebê que já ao nascer apresentar malformação ou doenças que acarretem situações de estresse para sua família.Para eles, “nem os fetos nem os recém-nascidos podem ser considerados pessoas no sentido de que têm um direito moral à vida”. Giublini e Francesca defendem que o aborto pós-parto não deve ser considerado infanticídio, que, segundo eles, se produz contra crianças já consideradas pessoas. A classificação como eutanásia também é descartada já que “o que mais interessa à pessoa que morre não é necessariamente o principal critério”. Assim, na avaliação dos dois, o “aborto pós-nascimento” é legítimo e deveria ser permitido em qualquer caso, até quando o “recém-nascido tem potencial para uma vida saudável, mas põe em risco o bem-estar da família”. Ou se, embora não apresente doença qualquer, nasça no seio de uma família que não lhe assegurará boas condições de vida, sendo a morte considerada a melhor opção para o bebê.A dupla ainda descarta a possibilidade de adoção, justificando que a mãe que sofre pela morte da criança deve aceitar a irreversibilidade da perda, mas a mãe que entrega um filho para adoção sonha que ele vá voltar: “Isto torna difícil aceitar a realidade da perda porque não se sabe se ela é definitiva”, diz o texto.O artigo causou tanta polêmica que o editor do jornal, Julian Savulescu, que também é diretor do Centro de Neuroética da Universidade de Oxford, afirmou que os autores receberam ameaças até de morte. Ele publicou um artigo defendendo a postura do jornal de publicar o texto dos filósofos e afirmando que cruéis foram as cartas enviadas por diversas pessoas ao jornal: “O que é preocupante não são os argumentos apresentados neste artigo, nem a sua publicação em uma revista ética. São as hostis, abusivas e ameaçadoras respostas que suscitaram. Mais do que nunca, a discussão acadêmica adequada e a liberdade estão sob ameaça de fanáticos opostos aos valores próprios de uma sociedade liberal”.Segundo ele, os argumentos apresentados não são, em grande parte, novos e têm sido repetidamente expostos na literatura acadêmica e em fóruns públicos por filósofos e bioeticistas de renome, como Peter Singer, Tooley Michael e John Harris: “A nova contribuição deste trabalho não é um argumento a favor do infanticídio – o papel repete os argumentos apresentados pelos famosos Tooley e Singer –, mas sim a sua aplicação em consideração dos interesses maternos e da família”.Ele ressaltou ainda que o objetivo do Jornal de Ética Médica não é apresentar a verdade ou promover algum ponto de vista moral e sim apresentar um argumento bem fundamentado: “Os autores afirmam provocativamente que não há diferença moral entre um feto e um recém-nascido. As suas capacidades são relevantemente semelhantes. Se o aborto é permitido, o infanticídio deve ser permitido. Os autores procedem logicamente a partir de premissas que muitas pessoas aceitam e chegam a conclusões que muitas dessas pessoas rejeitam”.Há quem acredite que o artigo, na verdade, não busca defender o aborto, mas sim chocar a população e levá-la a rejeitar a prática com base numa comparação radical. Para Maurílio Castro de Matos, autor do livro A criminalização do aborto em questão e professor da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a publicação de artigos como esse pode dificultar o andamento do debate em torno da descriminalização do aborto, já que abrange os casos em que ele seria permitido. “Entendo que o artigo em nada contribuiu para a necessária legalização do aborto. Ele mais confunde do que informa a população”, afirma o professor.Segundo Maurílio, no entendimento ético de especialistas, em geral, feto e recém-nascido são distintos, pois a gravidez é um processo. Ele ressalta, por exemplo, que a Organização Mundial de Saúde e a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia definem que a gestação que termina até a 22ª semana, quando o peso do feto gira em torno de 500 gramas, é um aborto. Já a gestação que se encerra após a 23ª semana é considerada um nascimento prematuro.No dia 12, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que no Brasil não é mais crime o aborto de fetos anencéfalos (com má-formação do cérebro e do córtex – o que leva o bebê à morte logo após o parto). Já era permitida a interrupção da gestação em casos de estupro ou claro risco à vida da mulher. Todas as demais formas de aborto continuam sendo crime, com punição prevista no Código Penal.“A anencefalia é diagnosticada no processo de pré-natal da gestante por meio de exames. Quando a descobre, a mulher pode ter tanto a reação de querer seguir com a gestação como de interrompê-la. Nada a pressiona à interrupção: ela pode continuar a gestação mesmo sabendo que não terá o filho que anteriormente imaginava que teria. Contudo, para aquelas que vivem tal quadro como um sofrimento, a resolução do STF contribui para a melhoria das suas condições de vida”, afirma Maurílio.Já a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lamentou a decisão. Em nota, os bispos afirmam que “legalizar o aborto de fetos com anencefalia, erroneamente diagnosticados como mortos cerebrais, é descartar um ser humano frágil e indefeso”.* Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.


por Fernanda Dias, para o Opinião e Notícia
1 Aborto

Aborto: o grande tabu no Brasil

Anos de pesquisas permitem-me dizer: criminalização perdura porque atinge mulheres pobres: aquelas que não contam, nem são vidas a preservar…Joana, que se casara grávida aos 15 anos e tinha dois filhos, me contou, em segredo e sussurrando, sobre a relação violenta e tumultuada que vivia com seu marido, e como havia, certa vez, “tomado um remédio para a menstruação descer”, pois não podia imaginar ter mais um filho naquelas condições. Negava que tinha interrompido uma gravidez, afirmando que era contra o aborto. Laura me disse sem meias palavras que tinha “tirado” quando engravidou pela terceira vez e o marido estava internado numa clínica para deixar as drogas. Ela cuidava sozinha de seus dois filhos pequenos, e não tinha com quem mais contar, não tinha condições de ter outro filho, não naquela hora. Tomou um “remédio” e posteriormente foi internada com uma terrível hemorragia, mas tudo acabou bem.Noutro contexto, Lúcia e Regina contaram que engravidaram muito jovens, mas ainda não era hora de ter filhos, uma viveu isso quando ainda estava no colégio e se dizia “contra o aborto”, justificando o seu caso pela precocidade da gravidez (com o primeiro namorado). Regina afirmava que queria terminar a faculdade, ter uma vida profissional, escolher melhor com quem se casar e é totalmente favorável à legalização do aborto. Lúcia e Regina abortaram em uma clínica em São Paulo, não sofreram nenhuma complicação, ainda que uma delas se queixasse pela forma como foi tratada pelo médico. Todas essas histórias me foram contadas como segredos e todas são mulheres que podemos definir como de classe média, embora as duas últimas tenham mais posses que as primeiras. Os nomes são fictícios. Mas há outras histórias muito mais dramáticas de mulheres que perderam ou a saúde, ou a vida tentando abortar com agulhas de tricô, “curetagens” mal feitas, “remédios” que não deram certo e que resultaram crianças com terríveis malformações.Apesar da ilegalidade, há um número expressivo de abortos voluntários no Brasil por ano, feitos de modo clandestino – mas nem sempre precário. Ainda assim, o tema permanece um tabu na sociedade brasileira, ainda que o debate esteja se ampliando novamente. A ilegalidade leva inúmeras pessoas (ironicamente, algumas das quais afirmam publicamente serem contra o aborto) a recorrerem a métodos inseguros de interrupção da gravidez, o que gera números elevados de internações no SUS. Segundo dados oficiais, cerca de 244 mil internações no SUS, no ano de 2004, referiam-se a curetagem pós-aborto, apontando para uma estimativa de um milhão de abortos anuais.Laura foi uma dessas internações, mas há muitas mais que decorrem de métodos abortivos muito violentos e brutais, gerando mortes maternas e sequelas. Tais internações poderiam ser evitadas, tendo se tornado, portanto, uma questão evidente de saúde pública. Há mais abortos e mais complicações nos locais e nas camadas sociais em que o acesso aos métodos de contracepção e o atendimento médico são mais precários, com uma grande diversidade regional e de classe.A morte materna também é bem mais alta entre mulheres negras. Trata-se, portanto, também de uma questão de justiça social, já que para camadas médias e altas o aborto seguro é acessível, mas as mulheres de camadas populares em todo o país (especialmente, reitero, onde há menos acesso a meios contraceptivos e a atendimento médico) estão sujeitas a um verdadeiro massacre. Para os pesquisadores, a ilegalidade torna o tema difícil de pesquisar e de medir. O aborto voluntário é um crime e um tabu – certamente o veremos ser tratado novamente como tabu quando chegarmos perto das eleições.Apesar de as pessoas se declararem explicita e majoritariamente “contra o aborto” nas pesquisas de opinião pública, muitas das que recorreram a essa prática (mulheres e homens cujas parceiras sexuais o fizeram) justificam suas experiências por uma “circunstância especial” e muitas vezes dramática. “Em princípio” são contrários à prática. Embora vejam sua decisão acoplada a essa circunstância particular, o que os dados de inúmeras pesquisas nos mostram é que essas “circunstâncias” são muito comuns, e mais regularmente oscilam entre dois tipos reiterados. Ainda que contem em segredo tais relatos a uma pesquisadora, amiga, conhecida, muitas vezes, no entanto, não conseguem declarar-se sequer a favor da descriminalização.Especialmente, em público, em voz alta, o tema ainda é tabu. Menciono aqui informações que tive também em etnografias, onde o fato da pesquisadora viver certo tempo com as pessoas que estuda leva a uma maior intimidade – vários relatos de aborto chegaram aos meus ouvidos, contados como “segredos” pessoais, em pesquisas antropológicas que fiz e faço sobre família, gênero, sexualidade.Ainda que educação e prevenção (o crescente acesso a informação e métodos mais seguros de contracepção) sejam fundamentais (a gravidez “não planejada” é mais frequente entre mulheres de baixa escolaridade), não há nenhum método 100% seguro. Mesmo mulheres muito bem informadas e com acesso a medicamentos engravidam sem o desejar. Os dados de pesquisa recente da UnB/Anis [Diniz, Débora e Medeiros, Marcelo: “Aborto no Brasil: uma pesquisa domiciliar com técnica de urna” Ciência & Saúde Coletiva, 15 (supl. 1), 959-966, 2010], indicam que entre mulheres com até o 4º ano do ensino fundamental cerca de 23% abortaram, mas com ensino médio completo a taxa é de 12% – portanto, menor, mas não nula. Por outro lado, os dados da pesquisa Gravad revelam que a própria gravidez adolescente é muito mais comum nas camadas de baixa renda. Porém, quando engravidam sem planejar, as jovens com mais anos de estudo e situação social de classe média ou alta optam mais pelo aborto do que as jovens de baixa renda, para as quais muitas vezes a gravidez adolescente não é vista como problema e nem como impeditivo de outros planos de vida, tais como educação e profissão.É possível vislumbrar, no entanto, alguns padrões: grande parte desses abortos não são apenas as imaginadas jovenzinhas inexperientes e “levadas” em sua vida sexual que engravidam cedo e “tiram”. Se parte das moças de camadas populares assumem esses filhos precoces, nas camadas médias e altas o aborto voluntário parece ser mais comum, num modelo de decisão de aborto em que a jovem calcula seus planos de educação superior, seus desejos de carreira profissional ou de evitar uma união repentina. Mulheres de camadas médias e altas fazem abortos razoavelmente seguros em clínicas e consultórios, ou recorrem ao uso do Cytotec.Segundo a pesquisa da UnB/Anis calcula-se que “ao final da vida reprodutiva, mais de uma em cada cinco mulheres já fez aborto”, a maior parte deles no período entre 18 e 29 anos.Essa mesma pesquisa mostra, também, uma outra faixa etária de abortos – nem todas as mulheres que abortaram o fizeram no início de sua vida sexual e reprodutiva. Essas e outras pesquisas, qualitativas e quantitativas, apontam para o fato de que há uma proporção de abortos feita noutro(s) momento(s) da vida, ou seja, quando as mulheres já têm filhos para criar.São mulheres acima dos 25 anos. Em alguns casos, inclusive, provocaram aborto de modo “escondido” de seus parceiros (como Laura e Joana, que citei acima), como uma dura e dolorosa decisão pessoal considerada a única possível. Às vezes, uma decisão desesperada, diante de uniões conjugais violentas e/ou abusivas, ou quando elas já eram as responsáveis pelo sustento de outros filhos e parentes, ou tinham parceiros ausentes e incapazes de ajudá-las por algum motivo, ou mesmo quando se viam abandonadas. Aqui, a justificativa para o aborto é também uma decisão muito difícil, mas necessária e mesmo considerada racional – nesta casa, não “cabe” mais uma criança.Seja qual for o caso, o que está em jogo é o direito destas mulheres, jovens ou nem tão jovens assim, de decidir se querem ou não interromper a gravidez. É uma decisão difícil e delicada, mesmo para quem tem acesso ao aborto seguro. Mas é urgente levar em conta que elas – as mulheres que engravidam “sem planejar” (como se só competisse a elas evitar a gravidez) – também são uma vida, uma vida completa e vivendo na labuta cotidiana, tentando estudar, trabalhar, criar seus filhos, com vidas mais ou menos precárias, mas com vidas reais, já sendo vividas e muitas delas cuidando de outras vidas (filhos, idosos, doentes).Sim, e aqui temos a polêmica sobre quando começa o que chamamos de uma vida humana. Não simplesmente uma vida, pois as plantas e animais também são vivos, mas aquilo que vemos como “vida de um ser humano”. Os contrários ao aborto consideram o momento da concepção – para eles, portanto, a pílula do dia seguinte ou o DIU são abortivos. Aqueles que defendem a legalização da prática, no entanto, separam a vida do embrião (12 semanas) da vida daquilo que a medicina chama de “feto”, ou seja, um ser humano em formação após o início da constituição do sistema nervoso central e do cérebro.Porém, há outra hierarquia em jogo. Por que imaginar que uma vida em estágio inicial é “mais vida” – superior à da mulher que se descobre, de repente, com uma vida em formação dentro de seu corpo, totalmente dependente de seu corpo e de sua vida? Por que alguns países a consideram como cidadã plena e outros não? Por que se defende que uma mulher tenha que levar a gestação até o fim e ter toda a preocupação que é criar um filho se ela não pode, não quer, não tem condições? E lembremos, as mulheres de classe média terão acesso a uma interrupção relativamente segura, mas e as mulheres pobres?Não contam? Não são “vidas” a se preservar, já que é entre elas que o aborto inseguro gera mais consequências graves de saúde pública, inclusive a morte? E os outros filhos que elas já têm para cuidar, não são também uma questão de “vida”? Me parece haver aqui uma grande preconceito social no Brasil – pobre não conta como “gente”, como vida humana?Toda opção pelo aborto é uma dura e triste decisão; não é, quase nunca, algo “comum” e feito sem pensar. Muitas vezes é feito no momento do desespero. E os dados apontam que quanto mais se amplia a rede de saúde pública e acesso a educação, há certamente menos abortos. É preciso ampliar ainda mais os bons serviços de saúde e educação públicas, mas é também urgente que se amplie o acesso ao aborto seguro, inclusive para garantir que essas mães possam criar os filhos que já têm vida.* Heloísa Buarque da Almeida é professora no Departamento de Antropologia da USP e pesquisadora colaboradora do Pagu - Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).** Publicado originalmente no site Outras Palavras.


por Heloisa Buarque de Almeida*
Cultura

Indígenas e não indígenas se unem pela revitalização de oito aldeias guarani no RS

Um projeto de revitalização socioambiental desenvolvido conjuntamente entre indígenas e não indígenas vem trazendo bons resultados para oito aldeias guarani no Rio Grande do Sul. Chamado de Ar, Água e Terra: Vida e Cultura Guarani, o projeto promove ações de recuperação e conservação ambiental e etnodesenvolvimento em aldeias localizadas nos municípios de Porto Alegre, Viamão, Palmares do Sul, Riozinho, Maquiné e Caraá.As ações desenvolvidas promovem a reconversão produtiva, recuperação de áreas degradadas e conservação de florestas e matas, abrangendo uma área de mais de três mil hectares nos biomas Mata Atlântica e Pampas (Campos) Sulinos. As atividades, realizadas desde fevereiro de 2011, contribuem para a sustentabilidade socioeconômica dessas comunidades por meio do intercâmbio de sementes e mudas entre as aldeias; plantio nas áreas indígenas; reintrodução de espécies vegetais nativas utilizadas na alimentação, na saúde e na confecção do artesanato; atividades de educação ambiental (reciclagem, compostagem e agrofloresta) e do desenvolvimento do eco e etnoturismo nas áreas guarani.Até o final do ano, mais de 20 mil mudas de espécies vegetais nativas serão reproduzidas e plantadas nas aldeias, em áreas produtivas e em recuperação, contribuindo para o aumento da biodiversidade (flora e fauna) e para a preservação dos recursos hídricos, já que nestas áreas indígenas se encontram mais de 70 nascentes que fazem parte das bacias hidrográficas do Gravataí, Litoral Leste (Lagoa dos Patos), Sinos e Tramandaí.Todo o trabalho, desde sua elaboração, é feito de forma conjunta entre não indígenas e indígenas, que são os “atores” (protagonistas) e coexecutores do projeto, intervindo quando as dificuldades surgem e buscando soluções de forma conjunta, a partir das duas lógicas: índios e não índios. As técnicas utilizadas constituem-se de observação participante, realização de reuniões, encontros, oficinas, entrevistas e registro audiovisual. Também estão sendo inventariadas as emissões e reduções das emissões de gases do efeito estufa, chegando, no primeiro ano de desenvolvimento das ações, a mais de mil toneladas de CO2 reduzidas. O projeto é financiado pelo Programa Petrobras Ambiental, tendo sido aprovado no edital de 2010.* Publicado originalmente pelo Iecam (Instituto de Estudos Culturais e Ambientais) e retirado do site EcoAgência.


por Elson Schroeder, do Iecam
1 Entrevista

Igreja: de regente a terceiro violino. Entrevista especial com Sérgio Coutinho

“Enquanto cada vez mais a sociedade trabalha para encontrar formas mais participativas, inclusive propondo o debate por um Estado mais democrático, a Igreja deu pouquíssimos passos na direção de uma verdadeira sinodalidade”, constata o historiador Sérgio Coutinho.Este ano eleitoral deve ser o pano de fundo para a Igreja lançar novos debates acerca do Estado e da sua função social a fim de “estimular os movimentos sociais a continuarem nas lutas reivindicativas por políticas públicas que possam atender verdadeiramente aos interesses da sociedade como um todo”, declara Sérgio Coutinho à IHU On-Line.Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina analisa os rumos e os desafios da Igreja no Brasil e é enfático: "ela quer contribuir para um debate mais profundo sobre o papel do Estado democrático, mas internamente nunca se viu tanto ‘verticalismo’ e controle da ‘opinião pública’ na Igreja, de modo especial do laicato mais crítico”.Para Coutinho, a Cristandade, que ainda “permeia mentes e corações”, está com os dias contados. E para que possa fomentar um diálogo maduro, enfatiza, a Igreja precisa “reconhecer que ela não possui mais ‘poderio territorial’ (e isso já faz tempo, desde as campanhas de Garibaldi e do Tratado de Latrão em 1929) e ‘poderio espiritual’ da época da Cristandade. É como aquela metáfora: ‘Durante pelo menos dez séculos a Igreja foi a regente de uma grande orquestra. Agora ela é chamada a ser o ‘terceiro violino’ dessa mesma orquestra’”.Sérgio Ricardo Coutinho dos Santos é mestre em História pela Universidade de Brasília (UnB) e doutorando na mesma área pela UFG. É professor do curso de pós-graduação lato-senso em História do Cristianismo Antigo da UnB e presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (CEHILA) - Brasil. Segundo o Diretório da Liturgia e da organização da Igreja no Brasil, 2012, ele é assessor nacional da Comissão Episcopal para o Laicato - CEBs.Confira a entrevista.IHU On-Line - O ano de 2012 começou com uma novidade para a Igreja do Brasil: a indicação de Dom João Braz de Aviz ao cardinalato. O que essa nomeação indica em termos de conjuntura eclesial, tanto no Brasil como na Cúria?Sérgio Coutinho - Este último Consistório revelou bem que a Cúria em nada é “católica”, ou seja, “universal”. O que assistimos foi uma chuva de nomeações de novos cardeais europeus e, principalmente, italianos, sendo que muitos deles são ainda membros da própria Cúria Romana. No momento em que é noticiado, pela imprensa, o cotidiano das intrigas curiais (conhecido por "Vatileaks"), o Papa Bento XVI não teve a força política necessária para “esvaziar” o poder dos chefes dos diversos dicastérios e que, em certo sentido, são eles mesmos os que tramam em segredo (agora não mais, depois do vazamento dos documentos) por sua saída e, até mesmo, por sua morte (!).Por outro lado, não deixa de ser interessante, nesse contexto, as declarações de D. João Avis após o Consistório, em que foi bastante firme, e até surpreendente, pois fez críticas quanto ao perfil por demais eurocêntrico da Igreja.Além disso, a nomeação de D. João Braz Avis também revela uma tendência eclesial, já sentida desde o pontificado de João Paulo II: a força dos movimentos e das novas comunidades. Dom João nada entende de “Vida Religiosa consagrada” (dicastério do qual é reponsável), mas é membro do Focolares. Isso nos indica que o Vaticano deseja mesmo é valorizar as “novas formas” de vida religiosa consagrada e, nesse sentido, um membro desses movimentos dentro da cúria romana, e ainda mais como cardeal, terá um peso inegável no próximo conclave.IHU On-Line - Com a nomeação de D. Aviz, como o senhor analisa a composição do Colégio dos Cardeais “brasileiro”? Como essa nova composição pode influenciar a vida da Igreja no Brasil?Sérgio Coutinho - A nomeação de D. João Braz de Avis não significa nada em termos de valorização da importância da Igreja e do catolicismo no Brasil e América Latina, no contexto mais amplo da Igreja Católica. Como membro da Cúria, não podia deixar de ser nomeado cardeal. Alguém poderia dizer que o que o papa está fazendo não é nada mais do que respeitar as orientações de não nomear novos cardeais para algumas das principais arquidioceses onde ainda estão vivos seus cardeais eméritos. Mas o certo mesmo é que o Brasil ficará sem novos cardeais ainda por um tempo – a não ser que vá alguém trabalhar na Cúria.IHU On-Line - Outra novidade recente é que D. Lorenzo Baldisseri, núncio apostólico no Brasil, foi recentemente nomeado novo secretário da Congregação para os Bispos. Seu substituto já foi anunciado. Qual a importância desse cargo na atual conjuntura da Igreja brasileira?Sérgio Coutinho - Para o caso da Igreja brasileira, não podemos nos esquecer do trabalho importante de D. Armando Lombardi na colaboração e indicação do episcopado brasileiro no período imediatamente anterior e posterior ao Concílio Ecumênico Vaticano II. O resultado foi uma geração de bispos excepcional e que levará muitos anos para se repetir algo semelhante. Um quadro episcopal que levou a cabo as intuições e determinações desse Concílio, fazendo da Igreja do Brasil uma das que mais criativamente trabalhou na sua recepção, sendo inclusive vista por Roma como uma Igreja “rebelde” em muitas vezes.Dom Baldisseri, seguindo seus sucessores e a política eclesial de “concentração católica” (Danielle Hervieu-Leger) iniciada pelo Papa João Paulo II, e aprofundada por Bento XVI, procurou escolher candidatos não tanto por sua formação teológica, mas por sua fidelidade ao projeto de fortalecer a “identidade católica” diante de uma sociedade cada vez mais secularizada e relativizada. Na verdade, esse perfil foi mais procurado para aqueles que pudessem ocupar as arquidioceses brasileiras, nas grandes e médias cidades onde estão as maiores concentrações populacionais e nas quais o processo de destradicionalização é acelerado. Paradoxalmente foram nomeados arcebispos mais preocupados com as questões morais do que propriamente questões pastorais (o grande desafio de evangelizar as cidades) e que pudessem ser vozes “proféticas”, denunciando os “males” do mundo (pós) moderno.Peso político eclesiásticoPor outro lado, para as grandes dioceses, no sentido territorial da palavra, e de baixa densidade demográfica, foram nomeados, em um número razoável, bispos mais pastoralistas, com “baixa escolaridade” e preocupados com a falta de políticas sociais para aquelas populações. Diríamos, os bispos com forte sensibilidade pela causa dos pobres. No fim, o que temos mesmo é um episcopado muito preocupado com as questões burocrático-econômicas e com os temas da moral católica.No entanto, no geral, os arcebispos acabam sempre por ter um peso político eclesiástico grande no conjunto do episcopado, mas muitas vezes assistimos a articulações e posições que nem sempre são previstas pelo Núncio, como foram as duas últimas eleições da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).Tenho esperança que o novo Núncio, o jovem D. Giovanni D’Aniello (57 anos!), possa contribuir para que tenhamos um quadro novo no perfil do episcopado brasileiro. Sua experiência diplomática se concentra principalmente em regiões em que os católicos são minoria e perseguidos; por outro lado, lugares onde a pobreza desumaniza o projeto de Deus (Burundi, Tailândia, Líbano, Congo e Camboja). Espero que o convívio com tal realidade traga, para a Igreja no Brasil, verdadeiros pastores comprometidos com a causa do Reino.IHU On-Line - 2012 também será o grande ano de preparação para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), no Rio de Janeiro, com a presença do papa, em julho de 2013. O que espera desse encontro? Por outro lado, como analisa os primeiros passos da organização?Sérgio Coutinho - Do ponto de vista da organização, parece que as coisas vão indo dentro do cronograma estipulado. Como também vemos uma boa participação da juventude católica na recepção da Cruz e do Ícone. No entanto, ainda não conseguimos visualizar os resultados propriamente pastorais ou de evangelização de todo esse processo. Não se vê (ou se viu) nada que enfrentasse de forma aberta e corajosa os grandes desafios da juventude atualmente: desemprego, violência, exploração... Nada se fala sobre a falta de políticas públicas voltadas para a juventude. Alguns dizem que a Campanha da Fraternidade de 2013 provocará essas questões. Espero que sim.Mas o que podemos concluir já de imediato com a preparação desse evento é aquela mesma impressão que tenho da escolha de D. João Aviz: a presença majoritária, e até dominante, nos encaminhamentos da JMJ dos movimentos e novas comunidades, em detrimento dos grupos das Pastorais da Juventude (Pastoral da Juventude, Pastoral da Juventude Rural, Pastoral da Juventude Estudantil e Pastoral da Juventude do Meio Popular). A questão é se queremos uma pastoral de massa, de eventos, ou uma pastoral verdadeiramente evangelizadora. Vamos acompanhar melhor os próximos passos.IHU On-Line - Além disso, 2012 será um ano de duas grandes celebrações: os 50 anos da inauguração do Concílio Vaticano II e os 40 anos da publicação do livro Teologia da Libertação. Perspectivas, de Gustavo Gutiérrez. Começando pelo Concílio, no contexto brasileiro, o que é necessário retomar com mais força depois desses 50 anos dos debates conciliares e o que ficou “esquecido”? Por outro lado, onde é preciso “reatualizar” o Concílio para o momento atual da Igreja no Brasil?Sérgio Coutinho - Parece-me que uma temática conciliar que necessitaria aprofundar é a da “horizontalidade” na Igreja.Já o Sínodo de 1985 compreendeu essa questão na forma do conceito de “comunhão”. Porém, o problema é como entender este termo. Lembro-me da comparação feita por João Batista Libanio numa palestra que assisti: “Se eu trago para vocês aqui um bolo, parto em vários pedaços e distribuo para todos... Vocês estarão em comunhão comigo, não é!? Mas, por outro lado, se digo para vocês assim: ‘Vamos fazer um bolo!? Quem vai trazer a farinha? Quem vai trazer os ovos? Quem vai amassar a massa?...’ Depois de preparado, colocamos no forno e depois de pronto, todos nós comemos juntos. Pois bem, a primeira forma é o que chamamos de ‘comunhão hierárquica’ e o segundo jeito é o que chamamos de ‘comunhão e participação’”.“Comunhão e participação” foi a compreensão dos bispos nas conferências de Medellín e Puebla da eclesiologia conciliar de “povo de Deus”. Foi também a compreensão dos bispos da CNBB no momento de recepção do Concílio. Foi por isso mesmo que, aqui, desenvolvemos e aprofundamos uma série de instâncias participativas, mesmo em contextos políticos de pouquíssima ou nenhuma participação democrática. Assembleias gerais do episcopado, assembleias diocesanas, paroquiais, comunitárias, assembleias dos organismos, conselhos pastorais diversos, equipes de liturgia, ministérios laicais. Enfim, uma série de práticas que favoreciam a participação e a “opinião pública” dentro da Igreja.Obediência às rubricasO que assistimos nos últimos 25 anos foi um processo cada vez mais exacerbado de “clericalização”, ou de “verticalização” na Igreja. O estudo de Direito Canônico passou a ser o carro-chefe da formação dos futuros presbitérios, mesmo os de Institutos Religiosos. Isto significa que se vêm enfatizando muito mais a obediência às rubricas e normas eclesiásticas do que propriamente na construção de caminhos de evangelização. Conselhos paroquiais cada vez mais centralizados e cumprindo papel meramente figurativo, marcadamente consultivo. Quando for deliberativo, cumpre a função dos membros apenas apertarem a tecla de “confirmar” o que pensa o padre.Desse modo, os institutos de formação presbiteral insistem numa formação para o exercício do culto e para o exercício do poder administrativo-burocrático-canônico, em detrimento do evangelizador-pastoral. É como um padre diocesano, vestido de batina preta, de uma cidade de periferia do Distrito Federal (que por sinal foi ex-aluno meu!) me disse certa vez quando fui conhecer sua comunidade paroquial: “Padre, como estão as coisas aqui?”, respondeu ele de forma muito reveladora: “Estão ótimas! Aqui eu sou o Papa! É melhor ser padre do que bispo, porque aqui todos me respeitam e o bispo nem sempre é respeitado”.O que temos são jovens presbíteros com forte formação estético-disciplinar e pouco ético-pastoral. E é justamente neste nó que passam os conflitos com o laicato, cada vez mais desejoso de participar da vida eclesial, e das muitas propostas pastorais diocesanas, e até das iniciativas da CNBB, que ficam emperradas por “pequenos príncipes” mais parecidos com o de Nicolau Maquiavel do que de Saint-Exupéry.Outro sinal evidente desse sintoma é o esvaziamento das Assembleias dos Organismos do Povo de Deus, sem contar com a quase nenhuma participação do laicato nas Assembleias Gerais da CNBB.Parece que enquanto a sociedade cada vez mais trabalha para encontrar formas mais participativas, inclusive propondo o debate por um Estado mais democrático, a Igreja deu pouquíssimos passos na direção de uma verdadeira sinodalidade.IHU On-Line - Com relação à Teologia da Libertação (TdL), o Brasil desponta como um dos seus principais “polos produtores” de reflexão e publicações, com grandes teólogos relevantes nesse debate. Como o senhor vê o papel da TdL no contexto eclesial brasileiro contemporâneo? O discurso está defasado, ainda pensando com categorias sociopolíticas do contexto das ditaduras? Ou há novas perspectivas sendo desbravadas?Sérgio Coutinho - Independentemente do contexto histórico latino-americano geral e brasileiro, em particular, a TdL centra toda a sua energia reflexiva e, principalmente, prática em dois polos: os pobres e o Reinado de Deus.Os pobres são o “lugar teológico”. Onde houver pobres, onde houver seres humanos que não tenham “vida e vida em abundância”, Deus estará se revelando, colocando-se ao lado deles por meio de homens e mulheres que denunciarão o “pecado social” que ainda teima em ceifar a vida de muitos dos “pequeninos”.O Reino e os pobresNesse sentido, a TdL ainda tem muito a contribuir não só num “discurso sobre Deus”, mas principalmente sensibilizando os cristãos para dar testemunho daquilo pelo qual Jesus deu sua vida: o Reinado de Deus.Há uma relação direta entre o Reino e os pobres, pois é a eles que pertence “o governo soberano de Deus”. O Reinado de Deus é um reinado de justiça, misericórdia, paz e de vida plena. Este foi o sonho de Jesus e deve ser o sonho de todos e todas que se dizem seus discípulos (as): lutar para a construção de uma sociedade justa e fraterna, no campo e na cidade, e, de modo especial, para os pobres.IHU On-Line - Tendo em vista o panorama político, econômico e social que desponta para o Brasil em 2012, quais serão, em sua opinião, as grandes questões que a Igreja deveria abordar neste próximo ano?Sérgio Coutinho - Sem dúvida nenhuma que a grande questão em que a Igreja poderá contribuir muito está expressa na temática da 5ª Semana Social Brasileira: “Um novo Estado, caminho para uma nova sociedade do bem viver”.A Igreja quer dar sua contribuição neste ano eleitoral para discutir “Estado para que e para quem?”. O que temos é um Estado a serviço do capitalismo e dos grupos de pressão vinculados às grandes organizações monopolistas. Nesse sentido, a Igreja pretende estimular os movimentos sociais a continuarem nas lutas reivindicativas por políticas públicas que possam atender verdadeiramente aos interesses da sociedade como um todo: educação e saúde de qualidade, valorização do pequeno agricultor, por uma reforma agrária e por uma distribuição de renda mais justa entre outras mais.IHU On-Line - Em diversos âmbitos, veem-se obstáculos para uma interlocução fecunda da Igreja com a cultura e a sociedade brasileiras contemporâneas. O que se vê são embates ou censuras. Como fomentar um diálogo interreligioso e intercultural mais maduro no Brasil?Sérgio Coutinho - De fato, é contraditória a posição da Igreja em muitos momentos. Como disse acima, ela quer contribuir para um debate mais profundo sobre o papel do Estado democrático, mas internamente nunca se viu tanto “verticalismo” e controle da “opinião pública” na Igreja, de modo especial do laicato mais crítico. Todos os anos, ela coloca na “pauta do dia” temas de relevância nacional por meio das Campanhas da Fraternidade, mas luta para manter seus privilégios seculares por meio do Acordo Brasil-Santa Sé.Minha hipótese, e que pode ajudar na resposta à sua pergunta, é a seguinte: a “ideia” de Cristandade que ainda permeia mentes e corações. No entanto, a Cristandade está com seus dias contados, mas muitos “eclesiásticos” (clérigos e até leigos) ainda não se deram conta de que ela já não tem mais sentido nos dias de hoje.O terceiro violinoPara fomentar um diálogo mais maduro, como você pergunta, é fundamental a Igreja reconhecer que ela não possui mais “poderio territorial” (e isso já faz tempo desde as campanhas de Garibaldi e do Tratado de Latrão em 1929) e “poderio espiritual” da época da Cristandade. É como aquela metáfora: “Durante pelo menos dez séculos a Igreja foi a regente de uma grande orquestra. Agora ela é chamada a ser o ‘terceiro violino’ dessa mesma orquestra”. Para alguns dentro da Igreja, isto é um absurdo e ela precisa lutar por sua “verdadeira” identidade. Para outros, essa é a grande oportunidade da Igreja viver mais próximo do seu mestre e ser fiel ao seu projeto.É necessário que a Igreja “vá para águas mais profundas”, mergulhe nas profundezas da sociedade contemporânea; sem medo, como fez Paulo e suas “comunidades de base” que conseguiram transformar aquela sociedade. Somente uma Igreja parecida com seu mestre poderá ser uma Igreja convincente.* Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Redação IHU
cies Coluna

Saúde em movimento

Gastroenterologista cria carreta que leva atendimento médico de alta tecnologia a regiões de maior vulnerabilidade social.A dor de um adeus despertou em Roberto Kikawa a maior motivação de sua vida. Pouco antes de morrer vitimado por um câncer, seu pai o chamou para uma conversa."Quero que você me prometa que será médico", disse. "Um médico amoroso, que entenda bem o doente."Nessa época, Kikawa, 40, estudava medicina em Londrina (PR). A carreira fora escolhida ainda na infância, no escotismo, que o ensinou a "cuidar de pessoas".Desde pequeno, Roberto acostumou-se a provações. Em Diadema (Grande São Paulo), familiarizou-se com o meio hospitalar pela fragilidade dos pulmões.Aos 13 anos, quando, com incentivo do pai, treinava futebol de salão, quebrou o pé e ficou imobilizado por três meses. Desenvolveu então uma de suas especialidades: transformar um problema em oportunidade.Impossibilitado de se exercitar nas quadras, começou a jogar xadrez – treinado pelo pai. Sempre o pai. A proximidade dessa relação foi determinante em todas as realizações de Roberto, que é filho único.Até no caratê, em que, a despeito de "detestar brigar", conquistou a faixa preta para provar ao genitor que era capaz de vencer.Mas largou tudo para dedicar-se exclusivamente aos estudos em retribuição ao esforço da família para bancar o Colégio Bandeirantes. "Foi o maior legado que meu pai me deixou", revela.No terceiro ano do colegial, seu percalço foi uma hérnia, que o impediu de passar no vestibular da USP.Maior carinhoNesse tempo, o pai ficou doente; a mãe parou de trabalhar. A família vendia salgadinhos para manter a casa.Londrina surgiu como a chance de cursar a faculdade. Uma greve no campus permitiu que acompanhasse em São Paulo o tratamento do pai: foi quando tiveram aquela conversa, e a súplica paterna o "foi queimando".A ela se somou a visita de um missionário japonês a seu pai; como último recurso diante do paciente desenganado, ele cantou para consolá-lo. "Eu o vi chorar pela primeira vez", diz. Ali notou "o maior carinho" de sua vida.Voltou ao Paraná com o pesar do adeus e convicto de sua missão. Resolveu cursar teologia para "ser um médico missionário na África". Uma grave infecção renal pôs à prova sua fé, mas, assim que um pastor acalmou-lhe o espírito, a doença se foi.Em São Paulo, Kikawa tornou-se cirurgião-geral. Um tremor nas mãos o afastou desse trabalho, mas não abalou sua firmeza de propósito. No Hospital Sírio-Libanês, voltou-se ao cuidado de pacientes sem perspectiva de cura e à endoscopia.A descoberta de "Áfricas" escondidas na periferia paulistana o iluminou com a ideia do sistema móvel para exames preventivos.Ao buscar patrocínio, falou de renúncia fiscal e responsabilidade social, mas o argumento mais convincente foi sua fé no sucesso da iniciativa.As despedidas na vida de Roberto deram lugar aos acenos de até breve que a carreta deixa nas cidades por onde passa.Dado o ceticismo que a saúde pública suscita, pode-se dizer que o projeto ganhador do Prêmio Empreendedor Social 2010 é uma realização digna de um médico, além de amoroso, vencedor.* Edson Valente é editor-assistente de imóveis.** Publicado originalmente no site Empreendedor Social.


por Edson Valente*
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Rio+20 – a ausência de uma agenda positiva

A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro em 1992 (Rio-92) mobilizou governos e organizações da sociedade civil de uma forma extraordinária: mais de cem chefes de Estado participaram e cerca de cem mil pessoas compareceram aos eventos que se desenvolveram na ocasião em torno dela. Essa Conferência – também chamada Cúpula da Terra – foi preparada por personalidades carismáticas, como Maurice Strong, e contou com o apoio entusiástico do governo federal. Havia na época um senso de urgência quanto à necessidade de agir diante dos problemas ambientais que ameaçam o bem-estar da humanidade, como o aquecimento da Terra e as consequentes mudanças climáticas.Como resultado, a Rio-92 adotou documentos importantes, como a Convenção do Clima, a Convenção da Biodiversidade e a Agenda 21, um roteiro bastante detalhado para um desenvolvimento sustentável. A palavra-chave que entrou no vocabulário de todos desde então foi sustentabilidade, que significa crescimento econômico de um tipo que não comprometa o futuro.Sucede que "futuro" pode ter significados diferentes: para um político eleito, futuro significa quatro ou talvez oito anos, que dificilmente podem ser prorrogados, e preocupações imediatistas têm prioridade nas suas ações. Não são comuns os dirigentes que apresentam nos seus quatro ou oito anos de exercício no cargo visões de longo prazo. No caso brasileiro, talvez o presidente Juscelino Kubitschek seja o exemplo mais favorável que tivemos, com a criação de Brasília e a implantação da indústria automobilística no país, por mais controvertidas que fossem.Em 1992, os chefes de Estado presentes no Rio concordaram que o aquecimento global e a perda da biodiversidade – que tem origem na ação do homem – representavam uma séria ameaça à humanidade e providências urgentes tinham de ser tomadas para enfrentá-las. Esse senso de urgência, porém, se perdeu ao longo dos últimos anos por causa das guerras no Oriente Médio, das crises econômicas e da falta de liderança.Por essas razões a Rio+20, convocada pela Organização das Nações Unidas, corre o risco de ser um evento sem maior significado histórico, diferentemente do que foi a Rio-92, e não atrair um número significativo de chefes de Estado. Para ser realista, é o caso de perguntar: por que razão chefes de Estado, enfrentando as turbulências da crise econômica nos seus países, se deslocariam para o Rio de Janeiro? Para tirar belas fotografias do Pão de Açúcar e não adotar resoluções que sejam relevantes para a população dos seus países?Os problemas imediatos que esses governantes enfrentam ocupam suas agendas e prioridades. E preocupações com mudanças climáticas podem parecer menos urgentes. Esta visão, contudo, é completamente equivocada e se não for alterada a tempo vai transformar a Rio+20 num evento medíocre e possivelmente embaraçoso para o governo brasileiro.A verdade é que as ameaças à sustentabilidade do desenvolvimento, que foram reconhecidas em 1992, não só não desapareceram, como se tornaram ainda maiores. É esta realidade que acaba de ser relembrada por um eminente grupo de laureados com o Prêmio Planeta Azul – considerado por muitos o Prêmio Nobel da área ambiental –, que se reuniu recentemente em Londres. Só para dar um exemplo, os cientistas dizem claramente em sua análise ser inevitável o aumento da temperatura do planeta em mais de 3 graus Celsius até 2050, superando o limite até agora aceito de 2 graus, com todas as suas graves consequências.No caso do Brasil, esse aumento de temperatura vai implicar maior precipitação de chuvas na Região Sudeste e menor na Amazônia, que ficará mais seca. Mais ainda, a precipitação será mais intensa em períodos de tempo menores, o que já está acontecendo em São Paulo, com as chuvas torrenciais todas as tardes no verão. Vale a pena mencionar também o aumento dos eventos climáticos e hidrológicos extremos, como enchentes, secas, temperaturas extremas, cuja frequência anual era de 400 em 1980 e dobrou nos últimos 30 anos.O grupo reunido em Londres identificou também uma série de medidas que precisam ser implementadas com urgência, mas não estão contempladas no documento preparado pelas Nações Unidas e que será a base das discussões na Rio+20. A ideia central constante nesse importante documento é a de que a linguagem prevalente nas empresas – para as quais o desenvolvimento sustentável tem três pilares: econômico, social e ambiental – não se aplica a governos, para os quais o pilar ambiental é o essencial. Isto porque, se esgotarmos os recursos naturais com a exploração predatória, não haverá desenvolvimento econômico e muito menos justiça social. Daí a ideia de uma transição para uma "economia verde", que foi proposta como caminho a seguir, no qual as causas do aumento de temperatura da Terra seriam removidas.A posição do governo brasileiro nessa questão é ambígua, reformulando a ideia da economia verde para uma "economia verde abrangente", com o objetivo de incluir suas atividades na área social como "bolsa-família".Finalmente, aqueles mesmos cientistas apontam para o fato de que promover o desenvolvimento sustentável não pode ser apenas tarefa dos ministérios do meio ambiente, mas dos governos como um todo, os quais precisam entender que não existe conflito fundamental entre crescimento econômico e preservação ambiental.A proposta atual em discussão para a Rio+20 apenas reafirma as decisões do passado, principalmente as tomadas em 1992, mas não avança nem olha para o futuro. É preciso incluir nessa proposta uma agenda positiva, que o Brasil poderia liderar.* José Goldemberg, professor emérito da Universidade de São Paulo, é um dos laureados com o prêmio Planeta Azul.


por José Goldemberg*
070212_Deismo+teismo+e+panteismo Artigo

Panteísmo versus Panenteísmo

Uma visão cosmológica radical e coerente afirma que o sujeito último de tudo o que ocorre é o próprio universo. É ele que faz emergir os seres, as complexidades, a biodiversidade, a consciência e os conteúdos desta consciência, pois somos parte dele. Assim, antes de estar em nossa cabeça como ideia, a realidade de Deus estava no próprio universo. Porque estava lá, pôde irromper em nós. A partir desta compreensão, se entende a imanência de Deus no universo. Deus vem misturado com todos os processos, sem perder-se dentro deles. Antes, orienta a seta do tempo para a emergência de ordens cada vez mais complexas, dinâmicas (portanto, que se distanciam do equilíbrio para buscar novas adaptações) e carregadas de propósito. Deus comparece, na linguagem das tradições transculturais, como o Espírito criador e ordenador de tudo o que existe. Ele vem misturado com as coisas. Participa de seus desdobramentos, sofre com as extinções em massa, sente-se crucificado nos empobrecidos, rejubila-se com os avanços rumo a diversidades mais convergentes e inter-relacionadas, apontando para um ponto Omega terminal.Deus está presente no cosmos e o cosmos está presente em Deus. A teologia antiga expressava esta mútua interpenetração pelo conceito "pericórese", aplicada às relações entre Deus e a criação e depois entre as divinas Pessoas da Trindade. A teologia moderna cunhou outra expressão, o "panenteísmo" (em grego: pan=tudo; en= em; theos=Deus). Quer dizer: Deus está em tudo e tudo está em Deus. Esta palavra foi proposta pelo evangélico Frederick Krause (l781-1832), fascinado pelo fulgor divino do universo.O panenteísmo deve ser distinguido claramente do panteísmo. O panteísmo (em grego: pan-tudo; theos=Deus) afirma que tudo é Deus e Deus é tudo. Sustenta que Deus e mundo são idênticos; que o mundo não é criatura de Deus, mas o modo necessário de existir de Deus. O panteísmo não aceita nenhuma diferença: o céu é Deus, a Terra é Deus, a pedra é Deus e o ser humano é Deus. Esta falta de diferença leva facilmente à indiferença. Se tudo é Deus e Deus é tudo, então é indiferente se me ocupo com uma menina estuprada num ônibus no Rio ou com o carnaval, ou com indígenas em extinção ou com uma lei contra a homofobia. O que é manifestamente um erro, pois diferenças existem e persistem.Tudo não é Deus. As coisas são o que são: coisas. No entanto, Deus está nas coisas e as coisas estão em Deus, por causa de seu ato criador. A criatura sempre depende de Deus e sem Ele voltaria ao nada de onde foi tirada. Deus e mundo são diferentes. Mas não estão separados ou fechados. Estão abertos um ao outro. Se são diferentes, é para possibilitar o encontro e a mútua comunhão. Por causa dela superam-se as categorias de procedência grega que se contrapunham: transcendência e imanência. Imanência é este mundo aqui. Transcendência é o mundo que está para além deste. O Cristianismo por causa da encarnação de Deus, criou uma categoria nova: a transparência. Ela é a presença da transcendência (Deus) dentro da imanência (mundo). Quando isto ocorre, Deus e mundo se fazem mutuamente transparentes. Como dizia Jesus: "quem vê a mim, vê o Pai”. Teilhard de Chardin viveu uma comovente espiritualidade da transparência. Dizia: "O grande mistério do Cristianismo não é a aparição, mas a transparência de Deus no universo. Não somente o raio que aflora, mas o raio que penetra. Não a Epi-fania mas a Dia-fania” (Le milieu divin, 162).O universo em cosmogênese nos convida a vivenciarmos a experiência que subjaz ao panenteísmo: em cada mínima manifestação de ser, em cada movimento, em cada expressão de vida estamos às voltas com a presença e a ação de Deus. Abraçando o mundo, estamos abraçando Deus. As pessoas sensíveis ao Sagrado e ao Mistério tiram Deus de seu anonimato e dão-lhe um nome. Celebram-no com hinos, cânticos e ritos mediante os quais expressam sua experiência de Deus. Testemunham o que Paulo disse aos gregos de Atenas: "Em Deus vivemos, nos movemos e existimos” (17, 28).* Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor, autor de Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito, Vozes, 2005.** Publicado originalmente no site Adital.


por Leonardo Boff*
Joaquín Roy Coluna

França na encruzilhada

[caption id="attachment_49338" align="alignleft" width="292" caption="Joaquín Roy"][/caption]Miami, abril/2012 – Os recentes assassinatos (três estudantes judeus, seu professor e três paraquedistas) não só têm um impacto nas eleições na França, no dia 22, como removerão o tecido social neste país, sempre em delicada situação.Porém, outros fatores podem fazer uma nova vítima no contexto europeu mais amplo. Estas eleições presidenciais extrapolam o cenário gaulês. Muito dependerá de como se comportar a dupla de candidatos principais (Nicolas Sarkozy e François Hollande), sobretudo quando Marine Le Pen e outros desaparecerem, no inevitável segundo turno do dia 6 de maio.O reaparecimento do fantasma do racismo pode piorar com a divisão da França diante da empresa europeia e com uma repetição do “não” diante do projeto constitucional.Os incidentes racistas que ressuscitaram em diversos países da União Europeia (UE) são uma ameaça contra a essência da reabilitação do continente após a debacle da Segunda Guerra Mundial. Parece que não houve cautela.O holocausto começou culpando convenientemente umas minorias pelas sérias crises da década de 20 no século passado. Além dos casos concretos de discriminação e violência exercidas contra imigrantes, não por casualidade de raízes africanas e ciganas, também o racismo se reflete nos estádios de futebol, sem que os clubes nem as federações demonstrem saber como atacar o câncer.O fenômeno é complexo. Mas as leis são cristalinas e é imperativo cumpri-las e punir as violações de maneira contundente.A debilidade das instituições europeias para enfrentar os casos explícitos do governo francês foi um aviso do que pode vir. O fato de não ter respondido com firmeza às deportações coletivas de Sarkozy, decretadas há meses contra cidadãos romenos, foi um sinal de que o crime não compensa.Curiosamente, as vítimas de ataques em outros países são precisamente os imigrantes que deveriam constituir a força de trabalho necessária para equilibrar a envelhecida demografia europeia com salvaguarda fiscal do Estado de bem-estar.A pergunta principal para o contexto amplo da democracia europeia (que cremos incólume) é a avaliação do possível impacto deste crime racista nas eleições francesas. A resposta preliminar é que o mais prudente será esperar seu desenvolvimento, a contagem final e a pesquisa científica da atitude dos eleitores.No momento, podemos apenas especular sobre duas dimensões. Uma é o manejo que Sarkozy faz das circunstâncias. É evidente que saiu fortalecido ao enfrentar de frente o desafio. Outra é a atitude, prudente e corretíssima, que seu adversário Hollande apresentou até agora. A nenhum convém usar o grave crime com arma no que resta antes das eleições.Agora, se o desenrolar da campanha revelar para Sarkozy um efeito negativo do manejo posterior dos atentados, então se poderá meditar sobre o uso que os socialistas poderão fazer, lembrando ao presidente que certos comentários e certas ações do passado foram graves para as minorias e os imigrantes.Seria interessante, então, estudar a fundo se fatos aterradores como estes servem de catapulta para a volta dos social-democratas não somente na França, mas no restante da UE. No momento, o setor perdedor é a família Le Pen e organizações afins, já que seu perfil nacional fundamentalista afasta os eleitores moderados.A facilidade com que se recorre ao bode expiatório da suposta insegurança provocada pela imigração, sobretudo a procedente da África, já representa um desafio para a governança europeia em plena crise econômica, que tem um impacto considerável na trama institucional da UE, que se percebe como ineficaz.As decisões agora são tomadas diretamente pela colaboração franco-alemã ou, pior, seguindo o roteiro dos chamados eufemisticamente “mercados”, que são precisamente os mesmos interesses que fracassaram em prever a crise, e que agora não conseguem proporcionar melhores remédios além de reclamar mais empréstimos e insistir nas medidas de austeridade, desprezando o crescimento.Hollande já explorou o divórcio entre a direção europeia e a sociedade quanto à ratificação (parlamentar, não esqueçamos) do minitratado para solucionar os problemas derivados do sistema presidido pelo euro. Sua promessa de reclamar uma revisão dessa decisão o deixa, paradoxalmente, lado a lado com a atitude britânica de David Cameron diante do acordo de 25 dos 27 membros da UE.Se for eleito, segundo as estimativas em um segundo turno, o candidato socialista abriria uma brecha na UE difícil de fechar. Animaria outros partidos destituídos a acrescentarem sua oposição ao tratado. E também se colocaria em evidência diante de seus colegas social-democratas que defendem uma dose maior de Europa.No momento, as perspectivas da mudança já começam a preocupar Berlim. Angela Merkel conseguiu impor suas teses financeiras pelos argumentos de seu poder geopolítico e econômico. No entanto, esteve abrigada na aliança com seu colega no Eliseu. O desaparecimento de “Merkozy” faria variar o cenário europeu consideravelmente. A resposta, nos dias 22 e 6 de maio. Envolverde/IPS* Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).


por Joaquín Roy*
Trapenard, da Telefônica/Vivo, fundação que investirá R$ 5 milhões na erradicação do trabalho infantil. Foto: Divulgação Coluna

Números mostram que o trabalho infantil está subdimensionado

[caption id="attachment_49302" align="alignleft" width="300" caption="Trapenard, da Telefônica/Vivo, fundação que investirá R$ 5 milhões na erradicação do trabalho infantil. Foto: Divulgação"][/caption]"Se o trabalho que enobrece condena o futuro de alguém, ele enobrece quem?", questiona o presidente da Fundação Telefônica/Vivo, que está investindo R$ 5 milhões em projeto de erradicação do trabalho infantil no Nordeste.Inhapi é um dos menores municípios do semiárido alagoano e um dos mais pobres. Lá, 83% das crianças e adolescentes trabalham, segundo pesquisa elaborada pela Fundação Telefônica/Vivo com 2.398 meninos e meninas de até 16 anos em 2011.Mas a empresa de telefonia quer reduzir esse número. Aliou-se à ONG Visão Mundial na oferta de atividades fora do horário de aulas no intuito de diminuir a evasão escolar e proporcionar o desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais e emocionais. Também estão no escopo do projeto a sensibilização da sociedade e o apoio às famílias, por meio de geração de oportunidades econômicas. Serão investidos no programa, que terá duração de dois anos, R$ 5 milhões.A cidade não é a única na mira das instituições – três comunidades de Recife (PE) também abrigam o projeto. No total, a estimativa é que 5.127 crianças e adolescentes sejam beneficiados.Boa parte deles está no trabalho doméstico e na agricultura, mas há ainda os que atuam em vendas e na produção de carvão. "É uma causa opaca na sociedade, que está escondida dentro de casa", diz Françoise Trapenard, presidente da fundação.Apesar de ser uma amostra pequena, os números mostram que o trabalho infantil está subdimensionado, segundo a diretora de programas sociais da Fundação Telefônica/Vivo, Gabriella Bighetti.Dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada em 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apontavam 908 mil crianças de 5 a 13 anos empregadas no país. A legislação brasileira permite a contratação a partir dos 14 anos.Outras frentesA fundação tem trabalhado ainda em outra base para a erradicação do trabalho infantil. Elabora um projeto-piloto para fortalecer políticas públicas e criar uma metodologia de integração entre diversas instâncias para reduzir o número de crianças e adolescentes que trabalham. A proposta é que essa ação possa ser replicada para outras localidades.A seleção de cidades está em condução e a ideia é que o trabalho seja conduzido em três municípios paulistas.Segundo Trapenard, a fundação tem investido ainda na mobilização da sociedade. Entre as iniciativas estão seminários e criação da Rede Pró-Menino, antigo portal da fundação, voltado a crianças e adolescentes, que ganhou ares de rede social.É preciso, completa ela, haver discussão e questionamento. "Se o trabalho que enobrece condena o futuro de alguém, ele enobrece quem?"** Publicado originalmente no site Empreendedor Social.


por Raquel Bocato, colaboração para a Folha de S. Paulo

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sustentabilidade

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Procure não deixar roupas penduradas atrás da geladeira, isso aumenta bastante o consumo.
Ande a pé. Isso evita a queima de combustível e o lançamento de gás carbônico na atmosfera e, consequentemente, diminui o efeito estufa.
Reduza. Reutilize. Recicle. Três ‘Rs’ indispensáveis para preservar o meio ambiente e contribuir com o desenvolvimento sustentável em todo o mundo.
Aproveite o sol como fonte de energia limpa. Instale painéis fotovoltáicos em sua residência ou empresa.
Na hora de comprar, escolha produtos com rótulos ecológicos e com menos embalagem, assim você estará escolhendo poluir menos o planeta.
Utilize lâmpadas de baixo consumo, elas economizam até 80% de energia e duram bem mais.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Ao consumir bebidas e alimentos no carro ou na rua guarde o lixo até encontrar uma lixeira apropriada. Melhor ainda se ela for seletiva, separando o lixo orgânico do seco.Mais importante que limpar é não sujar. Fonte: Blog da Gisele.
Utilize uma bacia ou a própria cuba da pia para lavar frutas e legumes. Lavando-os sob uma torneira aberta, muitos litros de água serão gastos sem necessidade. Fonte: Viva mais verde.
Os aeradores são dispositivos que podem ser instalados nas torneiras para misturar a água corrente com o ar. Assim, menor volume de água é utilizado com a mesma eficiência. Fonte: Viva Mais Verde.

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Observações

 
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Os três componentes principais da biomassa da cana-de-açúcar são a celulose, a hemicelulose e a lignina. Foto:EcoD

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O Zoológico Skazka, na Ucrânia, exibe imagem de filhotes de tigresa albina ‘Tigrylia’, que nasceram no complexo. Um dos bichinhos puxou a mãe e também é um raro tigre albino.

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Frases a laser são projetadas nos prédios gêmios da Câmara dos Deputados, em Brasília. Foto: Divulgação

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Foto: Organização Earth We are one.

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Imagem da campanha Veta Dilma.

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Arte Sustentável de Daniel Murgel.

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Xingu. Foto: Dal Marcondes

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Marta Azevedo, a primeira mulher no cargo de presidenta da Funai. Foto: José Cruz/ABr