Fisiologismo mata

Política

Fisiologismo mata


por Ricardo Young*


"A maior traição que se pode cometer com o eleitor é ser eleito para integrar a oposição e migrar para a base governista. Vivemos num momento em que muitos políticos se intimidam diante da maioria e se tornam travestis políticos."Com esse desabafo em recente entrevista, o senador Demóstenes Torres expressa sua revolta diante da corrosão pelo qual o seu partido, o DEM, passa. O fenômeno a que se refere não é isolado e assola a maioria dos partidos.Como disse o expurgado dirigente do PV estadual de São Paulo, Mauricio Brusadin: "Vivemos um período em que o Estado virou um condomínio de partidos, onde o partido no poder faz o papel de síndico".E é isto mesmo, não há partido de oposição de verdade. O comportamento geral é "bovino" e patrimonialista.A única coisa que interessa à maioria dos partidos é assegurar-se das condições necessárias para saírem-se bem nas próximas eleições. Danem-se os compromissos assumidos com a sociedade.Dane-se o eleitor. Vale até o estelionato eleitoral.Vota-se na esquerda, e ela serve aos interesses inconfessáveis da direita ruralista, como no caso do Código Florestal. Ignora-se que mais de 80% dos eleitores clamam pela defesa de nossas florestas.Vota-se pela reforma política, e o que se vê são os condôminos discutindo seus arranjos, deixando intacta a estrutura que perpetua maus políticos e má política. Vota-se em uma nova forma de fazer política, e, assustados com o enorme apoio do eleitorado à candidatura Marina, passa-se à operação desmonte de sua imagem.Medo, oportunismo, fisiologismo, desfaçatez, cinismo e patrimonialismo parecem ser os adjetivos que descrevem melhor o descompromisso dos partidos com seus eleitores e militantes.Tenho perguntado às militâncias do PT, do PV, do PSDB, do PPS, do PDT, do PTB e do DEM se se reconhecem em seus dirigentes ou nas propostas defendidas pelos seus partidos para o país.As respostas...? Pergunte leitor, você mesmo, e confira a desesperança.O caso que estamos observando nestas semanas é exemplar. Após conquistar 20 milhões de votos e incendiar a juventude com suas propostas inovadoras, Marina Silva e todos os seus apoiadores estão sendo pressionados a sair do PV. A maioria dos dirigentes nacionais preferiu se tornar linha auxiliar dos partidos no poder. Renunciaram à responsabilidade de se tornar protagonistas de uma nova etapa da história política.Fim do PV para a Marina?Esperança extraordinária para aqueles que acreditam que a construção da maioridade política brasileira está em curso e não se curva à estreiteza fisiológica que decompõe a maioria dos partidos.* Ricardo Young é empresário e foi candidato ao Senado pelo PV nas últimas eleições.** Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo e retirado do site IHU On-Line.

1 Religião

Fé cega, faca amolada

O episódio envolvendo o projeto Escola Sem Homofobia do MEC  e a marcha cristã contra o PLC 122 (que revê punições para quem viola a dignidade e os direitos de minorias vulneráveis, como idosos, pessoas com deficiências e LGBTs) me suscitaram uma questão que está ligada ao crescimento do fundamentalismo religioso e aos esforços deste para converter seus dogmas em leis para todos. A questão nos leva a crer que o Estado laico e de direito, as liberdades civis e o humanismo estão ameaçados pelo fundamentalismo cristão (católico e, sobretudo, evangélico neopentecostal).Em primeiro lugar, quero ressaltar que não estou me referindo à totalidade dos crentes cristãos, mas apenas aos fundamentalistas. Conheço muitos crentes católicos e evangélicos que comungam do respeito (e até se sacrificam) pelas liberdades, pela justiça e pela humanidade. Eu mesmo fui educado no cristianismo católico e herdei, do catecismo e das comunidades eclesiais de base, o humanismo e o amor pelo outro que hoje defendo, embora não seja mais católico. Há muitos outros crentes que defendem o mesmo. Mas não é o caso dos fundamentalistas.Cristãos fundamentalistas são aqueles que creem na Bíblia sem interpretá-la. Acreditam nos fundamentos de sua religião como verdades absolutas e inquestionáveis – e a Bíblia, como um texto literário escrito em contexto histórico e social bastante diferente do nosso, na maioria de suas passagens não deve ser tomada ao pé da letra. O fundamentalismo religioso tem, então, total identidade com o fanatismo e com o obscurantismo.As ideias de cristãos fundamentalistas acerca da homossexualidade – de que esta é uma doença ou um “pecado mortal” e que os homossexuais vivem em pecado e que, portanto, “não herdarão o reino dos céus” – são obscurantistas e fanáticas e abrem mão da razão. Esses “cristãos” – muitos deles ocupando espaços na tevê, nas Assembléias Legislativas, Câmaras de Vereadores e no Congresso Nacional – querem que mulheres e homens vivam segundo leis e valores descritos em um livro (a Bíblia) escrito dezenas de séculos antes de nós. Querem que joguemos fora todas as descobertas científicas e argumentos filosóficos acumulados nos últimos dois mil anos de discurso humano, para vivermos conforme vivem os personagens da Bíblia. Não! Mulheres e homens precisam desenvolver suas virtudes e possibilidades humanas, precisam ser humanistas e lutar pelas liberdades civis.Não se calar diante da tagarelice desses parlamentares e de outros fundamentalistas é, portanto, lutar pelo respeito mútuo entre os diferentes, pela solidariedade entre os seres humanos, pela liberdade de crença e de descrença (sim, ateus e agnósticos têm o direito de não crer e nem por isto devem ser considerados pessoas sem ética) e pela laicidade. Em seu Artigo 19, a Constituição afirma que o Estado brasileiro é laico e que, como tal, não deve nem pode estabelecer preferências entre as religiões. O texto constitucional dá à pessoa humana o direito de acreditar ou não em um ser divino, mas afirma que o Estado não tem sentimento religioso.A história nos mostra que o fundamentalismo em qualquer religião só leva as pessoas ao autoritarismo, à escravidão e à violência. Fundamentalistas não têm compromisso com a ética que assegura a vida nem com o bem-estar de todos. Essa gente quer estabelecer a paz dos cemitérios. Como diz a letra da canção, “fé cega, faca amolada”.* Jean Wyllys é jornalista e linguista, deputado federal pelo PSOL-RJ e integrante da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos LGBT.** Publicado originalmente na coluna do autor, no site da revista Carta Capital.


por Jean Wyllys*
1 Brasil

Assassinato na Amazônia

Com a febre do desenvolvimento se espalhando pelo Brasil, parece que está aberta a temporada de caça, não só à ffloresta Amazônica, como também às pessoas que tentam protegê-la.[media-credit name="Ranpazzo" align="alignright" width="212"][/media-credit]Numa visita recente ao Rio de Janeiro, estive como convidado em um almoço oferecido por Israel Klabin, industrial brasileiro que é um importante ambientalista (também é amigo meu). Klabin tem uma longa carreira de serviço público, incluindo períodos como prefeito do Rio de Janeiro e organizador da Cúpula da Terra de 1992. Como presidente da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, está agora envolvido ativamente nas preparações da Cúpula da Terra Rio+20, programada para junho de 2012. Klabin estava decepcionado com as mudanças propostas para o Código Florestal, que a Câmara aprovou no mês passado (a votação foi 410 a 63). Um consórcio de grupos do agronegócio, assim como o Partido Comunista do Brasil, haviam feito lobby pesado pela lei. Klabin a caracterizou como uma “catástrofe” ambiental.A lei propõe, entre outras coisas, anistia oficial à destruição florestal anterior a 2008, relaxamento nas restrições ao corte de madeira e a concessão de maior autoridade aos Estados brasileiros para o estabelecimento de metas de conservação. Klabin estava esperançoso de que algumas das medidas da lei pudessem ser emendadas no Senado, onde ela será debatida na sequência. No entanto, é prevista a sua aprovação. Enquanto isso, a mera expectativa da aprovação parece ter inspirado uma atitude “vamos que vamos” entre fazendeiros, latifundiários e madeireiros na Amazônia. Em março e abril, ocorreu um aumento de 500% na queima de matas e desmatamento em relação ao mesmo período do ano passado.A nova presidenta brasileira, Dilma Rousseff, uma tecnocrata desenvolvimentista que assumiu o governo no dia 1º de janeiro, terá a última palavra. Até agora, ela tem dito que se oporia à medida de anistia da lei, apesar de as outras serem potencialmente até mais calamitosas (num email enviado esta semana, Klabin escreveu: “o potencial completo das novas regras poderia ir de 17 a 28 bilhões de toneladas de emissão de CO2, dependendo dos cenários. O impacto seria tremendo.”).A julgar pelas atuais tendências políticas, os preservacionistas brasileiros devem se preparar para uma dura batalha. No dia 1º de junho, apenas uma semana depois da votação da lei, o governo de Dilma Rousseff aprovou o projeto da Hidrelétrica de Belo Monte. O projeto, de três anos e US$ 17 bilhões, envolve a construção de uma megabarragem no Rio Xingu, um dos principais afluentes do Rio Amazonas e um dos grandes rios selvagens da América do Sul. Quando estiver completa, em 2015, Belo Monte será a terceira maior hidrelétrica do mundo, inundando cerca de 120 mil hectares de floresta equatorial no Estado do Pará, incluindo parte da morada tradicional dos índios caiapó. A construção da barragem foi detida durante décadas pela oposição de ambientalistas, dos próprios caiapó e de outros grupos indígenas. Os defensores de Belo Monte argumentam que somente 20 mil pessoas serão afetadas e que elas serão compensadas financeiramente. Belo Monte, dizem eles, é necessária para salvaguardar a “soberania nacional” do Brasil, fornecendo suficiente energia para atender as demandas de uma economia em expansão, que cresceu, no ano passado, a uma taxa de 7,5%.Com a febre do desenvolvimento se espalhando pelo Brasil, parece que está aberta a temporada de caça, não só à Floresta Amazônica, como também às pessoas que tentam protegê-la. Em 24 de maio, dia em que se debatia a nova lei, chegou a notícia de que dois assassinos de motocicleta haviam emboscado e matado José Cláudio Ribeiro da Silva, ativista ambiental, e sua esposa Maria. Naquele estilo típico das execuções contratadas, os assassinos deram a Zé Cláudio, como ele era conhecido, e a Maria, os tiros de misericórdia na cabeça e cortaram uma orelha de cada um. Zé Cláudio era um opositor firme e carismático dos latifundiários grileiros e dos queimadores de carvão. Em novembro do ano passado, em um discurso feito num colóquio TEDx em Manaus, ele disse que estava recebendo ameaças de morte. Quando um parlamentar anunciou a notícia dos assassinatos na Câmara e pediu uma investigação, uma rodada de vaias irrompeu das galerias de ruralistas do agronegócio.Três dias depois, em Rondônia, Adelino Ramos, outro importante ativista ambiental, foi assassinado na frente de sua mulher e de seus filhos. No dia seguinte, a alguns quilômetros de onde Zé Cláudio e Maria haviam sido mortos, um jovem chamado Eremilton Pereira dos Santos foi assassinado, em estilo execução. Seus parentes disseram que ele pode ter presenciado a morte de Zé Cláudio. No dia 9 de junho, no mais recente desses incidentes, outro ativista camponês foi assassinado no Pará. [youtube width="640" height="390"]http://www.youtube.com/watch?v=XO2pwnrji8I&feature=player_embedded[/youtube] “Tudo isto é parte do mesmo triste padrão”, me disse, em um email, Scott Wallace, autor de um livro ainda no prelo, Os Inconquistados, sobre as últimas tribos não contactadas da Amazônia."O assassinato está no mesmo registro de muitos outros que já aconteceram na Amazônia, e no Estado do Pará em particular, nos últimos vinte anos. Você tem criminosos descarados grilando terra pública, cortando árvores, desmatando, como se fosse deles … Se não são prefeitos, vereadores ou deputados, são amigos íntimos daqueles, e contribuem generosamente para suas campanhas eleitorais … Raramente se processam esses crimes. É por isso que parte tão grande da devastação da floresta avança de mãos dadas com a ausência da lei."Em 2005, a freira Dorothy Stang, natural de Ohio, defensora da conservação da floresta, também foi assassinada no Pará, outra morte contratada por madeireiros e latifundiários locais. A Comissão Pastoral da Terra anunciou que Zé Cláudio, Maria e Adelino Ramos estavam, todos eles, na lista de ativistas em perigo. A CPT disse também que mais 125 militantes eram alvos potenciais de assassinato. Alguns dias atrás, depois de uma série de reuniões ministeriais de emergência, o governo federal enviou uma unidade de 60 policiais de elite ao Pará para proteger alguns dos ativistas ameaçados. Mas o Pará é conhecido no Brasil como “estado sem lei”, por sua falta de investigação de crimes. Das centenas de homicídios registrados no Estado, pouquíssimos acusados já foram apreendidos.O jornalista brasileiro Felipe Milanez, que era amigo de Zé Cláudio e de sua esposa Maria e que tem pesquisado a busca policial no caso dos seus assassinatos, me escreveu para dizer que um latifundiário local é um foco de investigação da polícia. “Esperamos que façam seu trabalho”, ele disse. “Mas não sabemos se o farão.”Outro amigo brasileiro, José Júnior, fundador da ong AfroReggae, com sede em uma favela, esteve recentemente no Pará. Por coincidência, ele tinha se programado para entrevistar Zé Cláudio no dia de seu assassinato, e participou do velório de Eremilton Pereira dos Santos alguns dias depois. Júnior, que se criou em uma das favelas mais violentas do Rio, escreveu: “Nunca havia estado num velório como aquele na minha vida. As pessoas tinham medo de chorar”.Tradução: Idelber Avelar.* Para mais informações sobre o autor clique aqui.** Publicado originalmente no The New Yorker e retirado do site da Revista Fórum.


por Jon Lee Anderson*
Entidades assistenciais se utilizam cada vez mais da rede para atrair novos doadores, seja através de interação com os beneficiados ou de aplicativos do Facebook. Tecnologia

A internet revoluciona (também) as causas sociais

Os meios tradicionais de arrecadação, que aceitam apenas doações físicas ou por depósito em conta, ainda são a maioria – o Instituto Caritas e a Ação da Cidadania são exemplos famosos. Mas a mudança é cada dia mais perceptível. A chave não está apenas na criação de softwares e aplicativos, mas na capacidade do usuário em deixar-se levar pelas múltiplas possibilidades do universo virtual. A quantidade de estratégias de comunicação inovadoras é imensa. A maioria é baseada em sites já existentes, como Twitter e Facebook, mas algumas empresas desenvolvem novos aplicativos.[caption id="attachment_17519" align="alignright" width="300" caption="Entidades assistenciais se utilizam cada vez mais da rede para atrair novos doadores, seja por meio de interação com os beneficiados ou de aplicativos do Facebook."][media-credit name="Bruñel Galhego" align="alignright" width="300"][/media-credit][/caption]Procurando aprimorar sua imagem e, ao mesmo tempo, angariar fundos, o Projeto Guri, entidade governamental focada no ensino de música para crianças e adolescentes, criou um aplicativo online que utiliza música e interatividade simultaneamente. Para isso, o projeto convidou artistas renomados da MPB que gravaram sons – batidas, vocais, bases – que podem ser combinadas de inúmeras formas. O internauta monta sua própria música a partir desses pedaços disponíveis no site.  Depois de pronta, é possível pagar de R$ 0,50 a R$ 16 para compartilhar a criação, dependendo do número de trechos usados.Os fragmentos musicais foram feitos a partir de uma canção de Arnaldo Antunes em parceria com o produtor Antonio Pinto, com colaboração de Naná Vasconcelos, Jaques Morelenbaum, Edgar Scandurra, Siba, Fernando Catatau, Toninho Ferragutti, Teco Cardoso, Guilherme Kastrup e grupo Ensemble e alunos do projeto. Outros produtos também estão à venda na página – alguns com valores de R$ 79.A maior parte do financiamento do projeto (95%), no entanto, é feito pelo governo do Estado. Segundo a presidente da Associação Amigos do Projeto Guri, Alessandra Costa, o site MixerGuri visa, mais do que angariar fundos, a dar visibilidade ao projeto. A equipe constatou a demanda de uma estratégia de comunicação e marketing que conversasse com as atividades do Guri, ou seja, relacionadas com o universo da música e voltada para uma faixa etária mais jovem – apesar do MixerGuri ter público de nove a 40 anos. Iniciativa que exigiu financiamento, uma vez que os músicos que participaram foram todos remunerados. “É uma forma da música chegar para o usuário”, diz Alessandra.Ações “viralizadas”Na área da saúde, uma forma de solidariedade sutil, mas não menos valiosa, foi o cerne para a iniciativa do Instituto Mario Penna. O projeto #doepalavras desenvolvido pelo Instituto em parceria com empresas de comunicação e tecnologia, criou uma plataforma para compartilhar mensagens de apoio e perseverança para pacientes que enfrentam o câncer. Via Twitter ou pelo site da iniciativa, colaboradores postam seus recados, que aparecem em telas instaladas nos hospitais e casas do instituto, sempre usando a hashtag #doepalavras. Depois de um ano, as mensagens foram compiladas em um livro, distribuído nos hospitais. “Tivemos muito pouco trabalho para fazer com que a ação se viralizasse”, comenta o idealizador Ricardo. Eles enviaram a ideia para alguns contatos próximos e em pouco tempo a iniciativa havia se espalhado. O último relatório, criado em 13 de junho, mostrava um total de 2.117.155 de visitas e 653.470 mensagens enviadas pelo site e 54.035 pelo Twitter.Como o projeto lida com pacientes terminais, há um funcionário responsável por filtrar as mensagens para vetar posts que tenham alguma conotação ambígua. Hoje, é um projeto aberto: qualquer hospital pode visualizar os recados em uma tela de computador e compartilhar com seus pacientes. Outra novidade é a “realidade ampliada”, tecnologia que permite visualizar na última página do livro do projeto as novas mensagens do site, apenas colocando o livro na frente da tela e filmando a cena com uma webcam.Cliques que valem dinheiroJá famoso por ajudar a derrubar governos na Tunísia e no Egito e por concentrar a organização de protestos por toda a Europa e no Brasil, o Facebook também tem um aplicativo que une a lógica de compartilhamento entre amigos, própria do site de relacionamento, com uma estratégia de arrecadação de recursos e pessoas para causas variadas. Chamado “Causes”, ele reúne interessados em torno de uma mesma iniciativa. São as causas mais variadas, desde grupos conservadores para tornar o aborto “impensável” até apoio a manifestações e projetos de assistência a países subdesenvolvidos.O usuário pode colaborar ajudando na divulgação ou com doações financeiras. Petições, quantias de dinheiro e números de compartilhamentos dos links ficam expostos para os “amigos”, seguindo a mesma lógica da rede.  “Liberdade aos bombeiros de RJ”, “Contra o novo projeto de Código Florestal”, “Ajude 5000 meninas no Malawi”, “Não ao ato médico! Contra o PL 7703/2006” “Contra a liberação dos maus-tratos aos animais no Brasil – PL 4548/98”, “Legalize o Cultivo Caseiro no Brasil”, “Ajude a tornar o aborto impensável” são alguns dos nomes de causas disponíveis.Segundo dados do próprio Facebook, o aplicativo possui 150 milhões de membros, 500 mil causas criadas e 35 milhões angariados para 27 mil entidades. Em algumas páginas, como a das meninas no Malawi, ao assistir um vídeo disponível, o internauta doa automaticamente US$ 1 por meio de uma entidade que angaria doações de pessoas e empresas. O usuário não desembolsa, mas seu clique vale dinheiro.A lógica do “a cada clique, US$ 0,50 doados” se multiplicou na rede e é utilizada por diversas entidades. Geralmente, uma empresa se propõe a doar certa quantia de dinheiro para uma entidade não governamental, mas o valor varia de acordo com o número de vezes que o público acessou a página e clicou em determinado vídeo, áudio ou imagem.* Publicado originalmente no site da revista Carta Capital.


por Clara Roman, da Carta Capital
1 Preconceito

União gay: tem juiz e deputado precisando de carinho

Detesto fazer cobranças de apostas em público – até porque o jogo é (oficialmente) ilegal no Brasil –, mas gostaria de pedir para separarem meu engradado de suco de manga. Banquei que algum espertinho no Congresso Nacional, de alguma bancada ligada à religião, ia contestar, em menos de um mês, a decisão do Supremo Tribunal Federal que reconheceu a união estável homoafetiva no dia 5. E eis que João Campos (PSDB-GO) vai tentar no Parlamento derrubar a decisão dos ministros. Seu pedido foi apresentado em nome da Frente Parlamentar Evangélica.Não me orgulho em ganhar as garrafinhas, pelo contrário. Preferiria pagá-las mil vezes a ter que ler notícias desse naipe. E olha que já tinha dobrado a dose de Omeprazol desde que, no dia 17, o juiz Jerônymo Pedro Villas Boas anulou uma união estável celebrada entre dois homens e proibiu registros desse tipo em qualquer cartório de Goiânia. O STF terá que, agora, se reunir de novo para fazer valer seu entendimento.A preguiça que tenho desse pessoal é de um tamanho que vocês não imaginam. Isto sem contar a ação abnegada dos autointitulados representantes das forças do universo aqui na Terra para travar a legislação que tornaria crime a homofobia. Querem ter o direito de continuar dizendo que “ser viado é coisa do diabo e, por isso, precisa ser extirpado a todo o custo”, como bem me explicou um ex-comentarista deste blog tempos atrás.Ah, mas você é cientista político e não defende a separação de poderes e não critica quando a Justiça usurpa a função que deveria ser dos eleitos democraticamente para isso? Sim e não. O país tem uma Constituição que garante direitos iguais para todos, mas no vácuo da inação do Parlamento de efetivar esses mesmos direitos, a Suprema Corte, instada a partir de casos reais sobre dúvidas reais que não podem esperar, deve sim se manifestar. Se algum nobre político reclamar que isto soa como um atestado de incompetência do Congresso, ótimo. Pegue uma senha e entre na fila.Um casal gay não pode ficar no limbo da cidadania só porque alguém acredita que uma força sobrenatural não gosta de duas pessoas que se amam independentemente se têm pinto ou vagina. Tenho certeza que Deus – se existe – deve tomar Frontal nessas horas para aguentar os argumentos dessa turminha. De certa forma, ele está acostumado, pois é uma forma de Inquisição. Com os evangélicos tendo aprendido bem o modus operandi católico.“E o meu direito à liberdade de expressão, de poder reclamar dos gays? Você não defende essa liberdade para os maconheiros que marcham?” Desculpe, mas se você está usando esse argumento, peço encarecidamente que procure outro blog. Vai. Mas vai mesmo e não olha para trás para não virar estátua de sal, ok? Não pela sua opinião, que por mais bizarra que seja é sempre bem-vinda neste amável circo, mas pela incapacidade de entender o que estamos discutindo aqui há anos. Que por nascerem seres humanos, todos compartilham do direito à dignidade, que precisa ser garantida a todo o custo e acima de qualquer coisa. Obrigação do Estado que, lembremos, é (ou deveria ser) laico, defendendo a liberdade de culto, mas protegendo as minorias do absolutismo bisonho dos Torquemadas contemporâneos.Tanto o nobre magistrado quanto o excelentíssimo deputado não lograrão êxito em suas buscas pelas trevas, pela desigualdade e a intolerância. Toda ação gera uma reação, já diria São Newton. Isso já era de se esperar e não vai abalar a decisão. Mas vale lembrar que os dois não são casos únicos, e representam uma parcela da sociedade que ficou com sangue nos olhos com a decisão do STF. Não digeriram ainda o que aconteceu e devem vomitar por um bom tempo uma série de tentativas de voltar atrás, alimentando o querido Festival de Besteiras que Assola o País, lembrando nosso saudoso Stanislaw Ponte Preta/Sérgio Porto.Enquanto isso, o que fazemos? Simples, tratamos esse povo como a mesma complacência com a qual se trata uma criança que não entendeu ainda que não pode machucar o amiguinho só porque ele é diferente. Educando, com amor e carinho, um dia vão entender.* Publicado originalmente no Blog do Sakamoto.


por Leonardo Sakamoto*
internet_578167044 Entrevista

Porque a banda larga (ainda) não é de todos

Para Marcos Dantas, falta ao plano do governo ambição de universalidade. Sem ela, acesso à internet reproduzirá desigualdades brasileiras.Um “tuitaço” marcou, no dia 21, mais uma etapa da mobilização da sociedade brasileira pela garantia de banda larga de internet para todos (veja como participar). A rede de organizações sociais que promove a iniciativa considera que o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), proposto pelo governo federal em maio de 2010, é insuficiente e caminha a passos muito lentos — em especial após uma série de decisões políticas recentes. Para reativá-lo, e transformá-lo em política pública democratizante de fato, há uma campanha em marcha.Ela envolve um esforço de compreensão da conjuntura política e formulação de alternativas — relativas, entre outros aspectos, a garantia de universalização do acesso, preço e qualidade dos serviços. Reconhecido pelo conhecimento profundo em telecomunicações, e por amplo trânsito entre movimentos sociais, governos e empresas, o professor do programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Marcos Dantas, avalia o desempenho do governo até o momento e os novos rumos sinalizados pela nova gestão do Ministério das Comunicações.As últimas intervenções do governo no Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) têm frustado a sociedade?Estou sentindo nas pessoas que a expectativa otimista, inicial, caiu bastante. Existe o sentimento de que o governo teria recuado em suas propostas originais. Particularmente, sempre fui crítico de como o PNBL foi formulado. Tenho impressão de que agora estamos caindo na realidade sobre o Plano.O pessoal ficou muito entusiasmado, o que se justifica. O fato de o governo ter uma política para ampliar o acesso da banda larga merece aplausos de todos. E acabou por permitir uma articulação social e política favorável. Mas o plano tem problemas sérios, antes, ainda no governo Lula, e continua tendo.Quais são os principais problemas?O principal problema é a não definição do Plano em regime público. Isto é uma questão estrutural. Minha expectativa é que, do jeito que está formulado, teremos dois tipos de atendimento banda larga. Os que podem pagar vão ter acesso em melhores condições. E quem só pode pagar R$ 35,00 vai acessar um sistema de má qualidade. O que é muito típico de nossa sociedade. É a mesma situação que temos na educação. Os pais que podem pagar escola, acreditando que darão melhor formação aos filhos, pagam! Só vai para a pública quem não tem condições e sabemos que a escola pública no Brasil é de péssima qualidade.O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, acena com a ampliação da concorrência no mercado, como forma de acelerar o Plano. Quais as consequências desta iniciativa?As iniciativas de Paulo Bernado vão resultar num aprofundamento do modelo herdado por Fernando Henrique Cardoso. Qual foi o modelo? Tem um serviço em regime público (a telefonia fixa) que vai acabar. Uma porção de tecnologias está nascendo, algumas bem visíveis, como o celular e a internet, outras coisas vão surgir, como o wi-fi. Tudo que surgir daqui para frente será resolvido pelo mercado por ser regime privado. E o regime público acaba por morte.Poderíamos esperar que os governos Lula e Dilma restaurassem o princípio do regime público. Mesmo que continuasse o regime privado em muitas áreas, as que fossem consideradas essenciais para a sociedade ou estratégicas para o país, serem de regime público. O celular é um exemplo: hoje ele não é mais apenas de elite. Mas a maioria das pessoas usa pela metade. Como os celulares pré-pagos têm tarifas proporcionalmente mais caras que os pós-pago, acaba fazendo com que o rico pague menos que o pobre. Numa situação desta, é preciso uma política que aponte regime público, tarifário, universalize e acabe a necessidade ter três ou quatro telefones para receber ligação.A Telebrás não está citada no documento “Brasil Conectado” – publicação do governo com o diagnóstico e estratégias do PNBL. Porém, ocupa espaço relevante na agenda política em relação aos rumos do Plano. Como você enxerga o papel da Telebrás?A Telebrás, por ser ferramenta que criaria essa dicotomia (usuários que podem pagar acesso de qualidade x usuários com internet de má qualidade por falta de renda) já é passível de questionamento. Qual o princípio dela? Fomentar a concorrência. Primeiro, não se faz política de universalização com concorrência. O governo nunca quis fazer política de universalização: ele propõe massificação, ampliação do acesso. Ao permitir essa massificação, a Telebrás teria um papel de dar acesso a quem só pode pagar R$ 35,00.Quais os impactos da saída de Rogério Santana da Telebrás?Isto é disputa de poder. Não é essencial. É muito mais aquela coisa: “dois bicudos não se beijam”. O mais importante nessa história é a manutenção da concepção de que é preciso aumentar a concorrência para gerar massificação e a repulsa do governo em discutir o regime público para a banda larga.A decisão da Anatel de considerar o backhaul um bem reversível é demonstração de que a Agência tem avançado para ações mais progressistas?Lamento, acho que não. Todas as críticas que a sociedade faz às concessionárias são justas, mas elas deviam ser endereçadas à Anatel. A concessionária é uma empresa privada que detém concessão do Estado para executar determinadas tarefas. O conceito é de uma empresa que está fazendo algo por delegação do Estado. Cabe ao Estado, que tem o poder de delegar, acompanhar para saber se os concessionários estão cumprindo as tarefas.Havia hipertrofia no papel da Anatel, ao formular e executar a política. Isto tem sido atenuado pelo Ministério das Comunicações (Minicom)?O Minicom está querendo assumir o protagonismo na formulação. Para isso, ele precisa ter capacidade de pensar, coisa que rigorosamente não tem. Porque foi esvaziado no governo Fernando Henrique Cardoso e não foi reconstruído no governo Lula. Então a Anatel acaba cumprindo esse papel. A Agência tem hoje, mal ou bem, uma equipe técnica que permite que pense em algumas coisas.Atualmente, não dá para afirmar que o Minicom vai se reconstruir e assumir o papel formulador, parece que tem essa intenção, mas não dá para afirmar. Daqui um ou dois meses, será possível um diagnóstico melhor.Este problema não está ligado apenas ao esvaziamento do Minicom, o problema também está na lei (Lei Geral de Telecomunicações) criada no governo Fernando Henrique. Ela dá ao Executivo poder de fazer decretos sob algumas mínimas questões, como criar uma modalidade de serviço público. Na verdade, nas condições que a lei está, o poder executivo só pode baixar o decreto se receber da Anatel um estudo necessário. O que deixa o Minicom refém da iniciativa da Agência, quando deveria depender apenas dele. Deveria ter a máquina trabalhando para formular política. Infelizmente, no governo Lula não se avançou nisso. Vamos ver o que a Dilma pretende fazer de fato.O PNBL tem realmente revitalizado o parque tecnológico brasileiro na indústria das tecnologias da informação e comunicação?Isso foi o grande ponto positivo deste projeto: utilizar o poder de compra do Estado brasileiro para desenvolver a indústria nacional. Nas primeiras licitações da Telebrás, tentou-se aplicar esse princípio, isto é fato. Tentou-se organizar os remanescentes dos antigos membros da área, para que pudessem entrar na disputa. Até onde eu sei, existe um esforço nesse sentido. Se esse esforço vai em frente, é uma questão a se avaliar mais depois. Tenho expectativa de que isto avance.* Publicado originalmente no Observatório do Direito à Comunicação e retirado do site Outras Palavras.


por Pedro Caribé, do Observatório do Direito à Comunicação
A cena se repete todos os anos, ainda que parte do lixo seja retirada diariamente pela prefeitura. Cidadania

Amazônia: tempestades, lixo e a mudança de hábito

Todo período de chuva é igual na capital paraense. Os canais da cidade transbordam e inundam ruas. A água leva, para dentro de centenas de casas, lixo, animais como insetos, ratos e cobras, além da possibilidade do contágio por doenças. Meteorologistas apontam que hoje chove mais na Amazônia em comparação há cem anos. Mas as mudanças climáticas não são a única justificativa do transtorno que o excesso de água causa em várias cidades amazônicas. O lixo é um dos principais causadores das enchentes.[caption id="attachment_17544" align="alignright" width="250" caption="A cena se repete todos os anos, ainda que parte do lixo seja retirada diariamente pela prefeitura."][media-credit name="Raphael Alves" align="alignright" width="250"][/media-credit][/caption]Uma pesquisa realizada pelo Fantástico, programa da Rede Globo, identificou Belém como a terceira capital mais suja do Brasil, perdendo apenas para Fortaleza e Salvador, que ficou em primeiro lugar. O Rio de Janeiro ocupa a quarta posição no ranking. “O lixo continua sendo o principal causador das enchentes. Ele impede o escoamento da água da chuva. No futuro, as cidades ficarão inundadas por mais tempo”, anuncia o meteorologista e coordenador do Segundo Distrito do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), José Raimundo Souza.As cidades ficam mais tempo debaixo d’água porque também, hoje, o índice pluviométrico aumentou. De 1900 até o ano passado, choveu mais de 500 milímetros (mm), ou seja, 30% a 40 % a mais em comparação a cem anos atrás. “As chuvas se intensificaram por causa do aumento da temperatura. Está 0,7ºC, 0,8ºC, mais quente”, aponta o meteorologista. O calor intensifica a evaporação (das águas) dos rios e baias, formando nuvens, fato que justifica a ocorrência das tempestades em Belém. As interferências do homem na natureza também provocaram a mudança do horário da chuva que, das tradicionais duas horas da tarde, mudou para as quatro da tarde. De acordo com o meteorologista, até julho, o belenense conviverá com chuvas intensas.José Raimundo Souza acredita que o homem interfere muito pouco no aquecimento do planeta. Segundo ele, o aumento de CO2 na atmosfera é um processo natural. Há um século, quando a atividade industrial e o número de automóveis era menor em comparação a hoje, a concentração do gás poluente na atmosfera era muito próxima da atual. Na opinião dele, o aquecimento global é uma resposta natural do planeta. “É discutível que o aquecimento global tenha interferência do homem. Até 1980, não existia desmatamento grande. Emissão de gases poluentes, desmatamento não contribuem para o aquecimento do planeta”, justifica.Mas a população de Belém contribui para a reincidência das enchentes ao não se preocupar com o destino do lixo. Qualquer lixo que seja jogado na rua, o destino dele é se tornar um entrave para o fluxo da água pelas áreas de escoamento. A Prefeitura Municipal de Benevides se preocupou com o destino das garrafas descartáveis de refrigerantes e organizou uma campanha de arrecadação no Município.Estudantes de todas as escolas de Benevides e a comunidade se mobilizaram para arrecadar garrafas pet. A matéria-prima é utilizada anualmente na confecção da decoração natalina da cidade. No último Natal, cerca de um milhão de garrafas viraram arranjos de flores, guirlandas, pinheiros, bengalas, estrelas e até um presépio. Os enfeites são confeccionados na Fábrica dos Sonhos, um galpão onde trabalharam 150 pessoas contratadas pela Prefeitura. Além de reaproveitar o material tradicionalmente jogado fora, a atitude ecologicamente correta também gera emprego e renda.Os funcionários, na maioria mulheres, aprenderam a técnica com decoradores responsáveis pela decoração natalina de Gramado, no Rio Grande do Sul. Anualmente, a partir de junho, os artesãos da Fábrica dos Sonhos participam de minicursos mensais sobre a confecção dos arranjos. Membro da coordenação, Izi Noronha disse que a população local já se mostra mais preocupada com o destino do lixo. “A conscientização do Município aumentou bastante (desde o evento realizado em 2009, primeiro ano da iniciativa)”, avalia. Para o artesão Rafael Silva, 19 anos, além de fonte de renda extra, o trabalho é uma forma de contribuir para a preservação do meio ambiente. “Além de me ajudar, ajuda o meio ambiente e eu fico muito orgulhoso com a decoração da cidade”, disse.A ação da Prefeitura também contribui para a arrecadação de receita do Município. No último Natal, foram cerca de 200 mil turistas que visitaram Benevides para conhecer a decoração natalina, que contou também com programação cultural. Um coral e o desfile do Papai Noel realizado durante o mês que a decoração enfeitou a cidade. Um público convidativo para os moradores da Benevides que se esmeram na preparação de comidas e bebidas comercializadas, além dos brindes e produtos natalinos. A mesma proposta de um Natal ecologicamente correto foi adotada pela Prefeitura Municipal de Belém, que também incluiu os distritos de Outeiro, Icoaraci e Mosqueiro.Cada vez mais é maior o número de pessoas preocupadas com hábitos ecologicamente corretos. Em vários pontos de Belém, a sociedade civil se organiza para separar o lixo, reciclar e reaproveitar os materiais descartados. A aposentada Antonieta Campos da Silva, de 82 anos, separa o lixo em casa há pelo menos cinco anos. “Não custa nada fazer uma boa ação que dura poucos minutos. Tem gente que sobrevive da venda de latas e papelão”, diz.Na casa do engenheiro civil, Marcus Vinícius Neto, 45 anos, a utilização de energia solar para aquecer a água do chuveiro demonstra a preocupação com o meio ambiente. “A caixa d’água recebeu a cobertura de uma capa térmica que aquece com a luz solar. O engenheiro também planta vegetais no quintal para a alimentação da família. “Planto o que for possível, mesmo sem muito espaço reservei uma área para plantar temperos e algumas verduras, reutilizo a água da chuva para irrigar”, diz.Para Marcus, a soma das condutas ecologicamente corretas beneficia o meio ambiente. Segundo ele, o consumo sustentável também é uma forma de poupar os recursos naturais. “Se cada um fizer sua parte todos contribuiremos para a melhoria da qualidade de vida no nosso planeta, mas infelizmente não basta só ter força de vontade. Existem diversas formas de contribuirmos para o desenvolvimento sustentável, mas infelizmente ainda não temos o apoio necessário para isso. Além dos custos altos de materiais como placas de energia solar, é difícil separarmos o lixo em casa quando ainda não existe coleta seletiva no nosso bairro. E também é importante investir na educação.”As amigas Luciana Bezerra, Alina Gomes e Diana Leão são fundadoras de um grupo de voluntários que realiza mutirões de limpeza em Belém. Quando morava na Alemanha, Diana Leão participou de um ato de limpeza coletiva em uma praia do país. Adolescentes e jovens tiraram um dia de folga para livrar a areia branca de madeira, vidros, plásticos e de objetos que foram levados para lá pela correnteza. Lixo que veio de várias cidades litorâneas da Europa.O exemplo ela trouxe para Belém nas últimas férias. A estudante de design convidou voluntários pela internet. Cerca de 20 pessoas limparam um terreno baldio no bairro da Cremação. “Aquele terreno fica no caminho da faculdade. Passei várias vezes por ali e me incomodei. Pensei ‘não vou esperar a Prefeitura para fazer algo’. Foi então que tive a ideia do mutirão”, lembra.* Andressa Gonçalves e Isis de Mello são jornalistas recém-formadas pela Universidade da Amazônia (Unama), Belém (PA). Trabalho produzido para a disciplina Jornalismo Científico e Ambiental, ministrada pelo professor Rogério Almeida.** Publicado originalmente pelo Ecodebate e retirado so site Mercado Ético.


por Andressa Gonçalves e Isis de Mello*
1 Violência

Alguém quer agir

Um dos muitos efeitos negativos do caso Palocci foi obscurecer, no seu longo domínio da atenção jornalística, alguns fatos relevantes, dos quais dois retornam aqui. É a onda de mais assassinatos sucessivos na luta da terra e da madeira no Pará e, no Mato Grosso do Sul, o ataque com fogo a um ônibus que levava 35 estudantes índios.Lá pelo quarto ou quinto assassinato em série, o Ministério da Justiça decidiu mandar algumas dezenas de integrantes da Força Nacional para a região, com agentes da Polícia Federal.Se a ida se destinava a conter os assassinatos, não conteve. Se deveria proceder a investigações, identificar e prender assassinos e mandantes, não há informação de que sequer se aproximasse disso, com a suposição de pistas. Não houve informação alguma, aliás, de coisa nenhuma por lá, a não ser um assassinato a mais. Silêncio ou sigilo também?, cuja permanência se deve, em comum, ao Ministério da Justiça e aos meios de comunicação.Dentro de uma aldeia terena, em Miranda, a monstruosidade do crime é assombrosa: foi jogado um coquetel molotov no ônibus dos estudantes. O incêndio queimou quantidade não informada de índios, mas de quatro houve a notícia de internação em estado muito grave, na Santa Casa de Campo Grande. Desde então, começo do mês, nenhuma notícia sobre alguma providência do Ministério da Justiça. Ou sobre a exceção de uma descoberta da polícia estadual quanto à autoria ou ao mandante. Ou notícia nos meios de comunicação sobre o crime mesmo ou sobre o que veio a se passar com as vítimas.Nos dois Estados, os crimes se deram em focos de conflito bastante conhecidos. E, como induz a tradição, sem medidas preventivas dos governos estaduais e do federal. Muito antes de sua inclusão nos fatos atuais, Eldorado do Carajás celebrizara-se, há 15 anos, com o massacre de 19 sem-terra, episódio ao qual se juntou o assassinato da irmã Dorothy Stang. Eldorado, Marabá, Bico do Papagaio, a geografia regional foi se tornando conhecida, em Brasília, no Sudeste e no Sul, como as guerras ensinam um pouco de geografia ao Ocidente. Conhecimento, também este, inútil.A violência que se passa em um foco de conflito apenas difere em grau, ou nas ondas de intensidade, do que é vivido nos outros focos. Centenas, e é provável que milhares de focos. Nem por isso, cumprida já metade do seu primeiro ano de mandato, soube-se de uma só palavra no governo Dilma sobre essa desgraça nacional.Ao menos de um setor institucional vêm uma ideia e a disposição de agir. Alarmados com a constatação de que, de 219 assassinatos no meio rural do Pará, só quatro, nos últimos dez anos, tiveram processos judiciais, a Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil) lança a ideia de federalização dos processos de crimes contra direitos humanos. Ou seja, de transferência, para a Justiça Federal, dos processos e julgamentos de tais crimes.A Justiça Federal não está sujeita às pressões das circunstâncias que agem sobre as polícias e instâncias judiciárias estaduais, assim como o Ministério Público Federal.A Ajufe quer levar ao Congresso a proposta de emenda constitucional para definir os crimes contra direitos humanos e fazer a transferência inovadora. Merece todo o apoio possível – mas, sabe-se, incerto.* Jânio de Freitas é jornalista.** Publicado originalmente pelo jornal Folha de S.Paulo e retirado do site IHU On-Line.


por Jânio de Freitas*
1 Comunicação

O efeito Al Jazeera

Em poucos anos, a rede de televisão Al Jazeera alterou profundamente a paisagem midiática nos países árabes e criou um espaço público transnacional, transformando-se num protagonista decisivo das mudanças drásticas que vêm abalando a região desde o final do ano passado.[media-credit name="Scott Peterson / Getty Images" align="alignright" width="300"][/media-credit]No dia 2 de março, em discurso perante os membros da comissão de relações exteriores do Senado norte-americano, Hillary Clinton pronunciou as palavras que o emir do Catar e os dirigentes da Al Jazeera esperavam desde 2001. Os Estados Unidos, explicou a secretária de Estado, “estão perdendo a guerra da informação” no mundo por causa dos grandes canais de TV privados norte-americanos, “que difundem milhões de spots publicitários e debates entre especialistas”, ao passo que “a audiência da Al Jazeera nos Estados Unidos vem crescendo porque ela oferece verdadeiras informações”. E Hillary acrescentou, dirigindo-se precisamente aos senadores: “Gostem disso ou não, (a Al Jazeera) é realmente poderosa”. Ela está no processo de 'mudar as mentes e os comportamentos'”(1).Ainda que motivada por interesses específicos – Hillary Clinton estava defendendo o orçamento de seu Ministério –, tal reconhecimento do papel e do impacto internacional da Al Jazeera adquire uma ressonância particular dentro do contexto das transformações atuais do mundo árabe. No plano regional, o canal impôs seu ritmo e suas regras de funcionamento no contexto midiático, marginalizando dessa forma alguns de seus concorrentes de língua árabe e perturbando o jogo dos outros. Nesse sentido, o desafio lançado ao vivo a seus empregadores por Hafez Al-Mirazi, o apresentador-estrela do canal saudita Al-Arabiya, o principal concorrente da Al Jazeera(2), reveste-se de um significado de peso. Ao comentar a queda do regime de Hosni Mubarak, o jornalista egípcio lamentou que o veículo para o qual ele trabalhava não se atrevia a “dizer uma palavra sequer a respeito do rei Abdala e do regime saudita”. Ele concluiu seu discurso com um ultimato: “Se nós não podemos expressar nossa opinião, é melhor parar com tudo. No próximo programa, faremos uma experiência: falaremos a respeito do impacto (da revolução no Egito) sobre a Arábia Saudita. Se der certo, a Al-Arabiya é mesmo um canal independente, se não, eu agradeço e me despeço de todos vocês”(3). Aquela foi sua última aparição no canal controlado pelos interesses sauditas. Sua revolta revela o impasse no qual desembocou a estratégia midiática de Riad e a incapacidade dos responsáveis se adaptarem às novas realidades políticas. Mas esse episódio também anuncia o retorno do Egito, emancipado da tutela paralisante do presidente Hosni Mubarak, ao jogo midiático árabe, o que constituirá provavelmente o principal evento na região ao longo dos próximos anos.Desde sua fundação, em novembro de 1996, o canal de informação 24 horas Al Jazeera revolucionou o sistema midiático regional, transformando sua estrutura e suas regras de funcionamento e questionando o equilíbrio de forças políticas que o sustenta(4). Não faltam aqueles que lhe atribuem um papel mais importante que o das redes sociais no processo que desencadeou as revoltas que abalam o mundo árabe. Assim, segundo Julian Assange, o cofundador do WikiLeaks, as redes Twitter e Facebook “exerceram de fato um papel, mas este não é comparável àquele da Al Jazeera”(5).Fim do monopólio sauditaOs veículos de comunicação árabes singularizam-se pela existência – tornada possível por uma língua comum – de uma esfera compartilhada que transcende os Estados e os públicos nacionais, e cuja gênese remonta ao final do século 19. As rivalidades interárabes passaram pelo controle desse espaço público, um campo no qual os países do Golfo, entre outros a Arábia Saudita e o Catar, tomaram a iniciativa. Após a saída de cena do Egito, em decorrência da morte, em 1970, do presidente Gamal Abdel Nasser, e do Iraque, em consequência da invasão do Kuait em 1990, a Arábia Saudita assumiu o controle da maior parte dos veículos de comunicação pan-árabes. Em meados dos anos 1990, o lançamento da Al Jazeera pelo emir do Catar, o xeque Hamad bin Khalifa al-Thani, caracterizou o fim do monopólio saudita.Em função da escolha do local para estabelecê-la, das modalidades de recrutamento de seus jornalistas e de suas opções ideológicas, a Al Jazeera introduziu uma tripla ruptura em relação à fórmula saudita. Até então, dominava a ideia segundo a qual apenas os veículos árabes instalados no exterior podiam gozar de uma liberdade relativa. A emigração de uma parte da imprensa libanesa rumo à Europa após o advento da guerra civil, em 1975, havia reforçado essa tese. O império midiático saudita estava radicado em Londres e na Itália, e tirava proveito da presença maciça de jornalistas árabes, sobretudo libaneses, que se tornaram os aliados – alguns dirão os mercenários – dos emires sauditas. A Al Jazeera pôs em xeque esse pressuposto, demonstrando que um veículo de comunicação pan-árabe instalado num país da região podia beneficiar-se de uma grande liberdade. Progressivamente, os veículos sauditas começaram a retornar para a região, entre outros para os Emirados Árabes Unidos – mas não para a Arábia Saudita.Para motivar a simpatia e a identificação do público, os criadores da Al Jazeera quiseram que o conjunto dos funcionários do canal fosse representativo das diversas nações árabes. Com isso, estava encerrada a era de dominação dos jornalistas libaneses e das estruturas sauditas.De modo previsível, as dissensões no âmbito das equipes jornalísticas são frequentes, conforme demonstra a demissão coletiva de cinco apresentadoras do canal, ocorrida no dia 25 de maio de 2010. Alguns veículos de comunicação árabes repercutidos pela imprensa internacional enfatizaram a existência de práticas de assédio moral, além da vontade do canal de impor um código de vestimenta rigoroso(6). Segundo explica uma das jornalistas demitidas, Joumana Namnour, as verdadeiras razões dessa revolta nada têm a ver com o modo de se vestir, sendo de ordem profissional(7), pois as apresentadoras achavam lastimável o pouco poder que lhes era dado. Assim como, por exemplo, nenhum dos numerosos programas políticos do canal é atribuído a uma mulher.Um exame minucioso da identidade ideológica da Al Jazeera e de sua linha editorial revela a prevalência de um equilíbrio sutil entre três tendências: pan-árabe, islamizante e liberal.O sucesso da Al Jazeera, o interesse e até mesmo a paixão que ela suscita nos públicos de língua árabe podem ser explicados não apenas pela maneira inovadora com a qual ela aborda a atualidade, mas também pela liberalidade em seus procedimentos. Ao dar a palavra à oposição, em cada país árabe, para comentar as verdades oficiais, a Al Jazeera oferece aos telespectadores verdadeiros debates contraditórios. A diversidade dos participantes, tanto do ponto de vista de sua nacionalidade, de sua sensibilidade ideológica e política, quanto de seu local de residência, permitiu a circulação das ideias e dos pontos de vista, promovendo a abolição das fronteiras nacionais e driblando todas as censuras. Assim, o canal participou de maneira decisiva da formação de um espaço público árabe transnacional(8). Estruturado por canais de TV por satélite e por jornais pan-árabes, aos quais se acrescentam a internet, os blogs e as redes sociais, esse espaço tornou-se um centro de gestação onde se formam opiniões e preferências políticas a respeito de todas as questões que agitam a região.Este pluralismo, decorrente da multiplicação dos meios de informação transfronteiriços criados por Estados concorrentes, quer pela Arábia Saudita (Al-Arabiya), pelos Estados Unidos (Al-Hurra) ou pelo Irã (Al-Alam), resultou numa configuração político-midiática inédita, na qual se sobrepõem uma esfera midiática pluralista relativamente livre e regimes políticos nacionais autoritários. Exacerbada pela audácia e influência da Al Jazeera, essa contradição exerceu uma pressão constante sobre poderes desestabilizados por essa circulação da informação. A maturação dos processos revolucionários no mundo árabe deve muito a essa tensão entre a ordem política e a ordem midiática.Em razão do caráter artificial e até mesmo da inexistência de estruturas partidárias e sindicais suscetíveis a organizar o debate público, a Al Jazeera deixou progressivamente de ser um canal de TV ordinário. Ao longo dos últimos dez anos, foi na sua tela que foram debatidas todas as grandes questões que interessam aos povos da região. Ela passou a ser objeto de disputa em todos os conflitos, como, por exemplo, no Afeganistão e na Palestina.Daqui para frente, quer ela emane do interior(9), quer do exterior do mundo árabe(10), a crítica das orientações do canal é parte integrante do jogo político no Oriente Médio. Na maioria dos casos, ela objetiva pôr na defensiva o governo do Catar, pressupondo que a linha editorial da TV nada mais é do que a tradução midiática da diplomacia do Estado do Catar. No entanto, tudo indica – nem que seja por sua cobertura das revoluções desses últimos meses – que a Al Jazeera tornou-se um fenômeno árabe, um espelho da evolução regional que extrapola muito amplamente a vontade de Doha.Tratamento militante das revoluçõesEmbora a Al Jazeera seja popular, ela não deixa de ser um canal controverso por razões que, aliás, não raro revelam ser contraditórias. Alguns deploram sua abertura para os israelenses (ela foi o primeiro canal por satélite a entrevistar dirigentes do Estado hebreu), outros, suas “tendências islâmicas”. Seu “antiamericanismo” é contrabalançado pela presença no Catar do comando da 5ª Frota norte-americana, o que faz do emirado uma das ferramentas de domínio que os Estados Unidos exercem sobre o Oriente Médio.Sua cobertura militante das revoluções árabes, sobretudo na Líbia e no Iêmen, e seu apoio à intervenção militar da Otan foram denunciados como sendo uma ingerência nos assuntos internos dos países árabes. A ausência da oposição saudita ou catariana em sua programação, sua timidez ao abordar os eventos ocorridos no Bahrein(11), além de sua crítica incipiente da intervenção das forças sauditas e aliadas nesse reino são interpretadas como uma vontade de preservar o status quo no Golfo. Mostra da sensibilidade da Al Jazeera às evoluções regionais foi o anúncio, no final de abril, da demissão do responsável pelo escritório do canal em Beiruth, Ghassan Ben Jeddou, por divergências com relação à cobertura da Líbia e da Síria, que ele julgava muito parcial.A tese dos detratores que apresentavam o canal como uma mera “oficina islâmica” foi abalada por sua abordagem favorável das revoltas nos países da África do Norte e do Oriente Médio, nas quais os islâmicos são quase invisíveis. Além disso, o lançamento da Al Jazeera em inglês, em 2006, contribuiu para desmentir a imagem construída pelas traduções parciais e os trechos fora de contexto difundidos pelo Instituto de Pesquisa sobre a Mídia do Oriente Médio (Memri – Middle East Media Research Institute), com o objetivo de apresentar a Al Jazeera como um veículo de comunicação antiocidental e até mesmo antissemita(12).1 Cf. “Hillary Clinton, ‘Viewership of Al Jazeera is going up in the United States because it’s real news’”, YouTube.com, 2 de março de 2011.2 Mohammed El Oifi, “Le face-à-face Al-Arabiya/Al-Jazeera: un duel diplomatico-médiatique”, Revue Moyen-Orient, n.6, Paris, junho de 2010.3 Programa Studio Al Qahira, Al-Arabiya, 12 de fevereiro de 2011.4 Yves Gonzalez-Quijano e Tourya Guaaybess (dir.), Les Arabes parlent aux Arabes: La révolution de l’information dans le monde arabe, Actes Sud, Arles,2009.5 Le Monde, 11 de março de 2011.6 Ver artigo do jornal saudita Al Hayat publicado em 30 de maio de 2010, http://international.daralhayat.com/internationalarticle/146817.7 Ver http://wn.com/Talk_of_the_Town__Joumana_Nammour, consultado em 21 de abril de 2011.8 Mohammed El Oifi, “Influence without power: Al Jazeera and the Arab public sphere”. In: Mohamed Zayani, The Al Jazeera Phenomenon Critical Perspectives on New Arab Media, Pluto Press, Londres,2005.9 Mamoun Fandy, "(Un)Civil War of Words: Media and Politics in the Arab World",  Praeger Security International, 2007.10 Zvi Mazel, “Al Jazeera et le Qatar: le sombre empire des Frères musulmans?”, Controverse, www.controverses.fr, Paris, n.13, março de 2010.11 Ler “Al Jazeera a perdu sa fièvre révolutionnaire au Bahreïn”, 13 de abril de 2011.12 Ler “Désinformation à l’israélienne”, Le Monde Diplomatique, setembro de 2005.* Publicado originalmente no site Le Monde Diplomatique Brasil.


por Mohammed El Oifi*
1 Brasil

Memória brasileira: sigilo ou vergonha?

Há 141 anos terminou a Guerra do Paraguai. Durou de 1864 a 1870. Ao longo de seis anos, Brasil, Argentina e Uruguai, instigados pela Inglaterra, combateram os paraguaios. O pretexto era derrubar o ditador Solano López e impedir que o Paraguai, país independente e sem miséria, abrisse uma saída para o mar.O Brasil enviou 150 mil homens para o campo de batalha. Desses, tombaram 50 mil. Do lado paraguaio foram mortos 300 mil, 20% da população do país. E o Brasil abocanhou 40% do território da nação vizinha.Até hoje o acesso aos documentos do conflito está proibido a quem pretende investigá-los. Por quê? Talvez o sigilo imposto sirva para cobrir a vergonhosa atuação de Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro, que comandou nossas tropas na guerra. E do Conde D’Eu, genro de Dom Pedro II, que sucedeu o Duque no massacre aos paraguaios.Os arquivos ultrassecretos do Brasil podem permanecer sigilosos por 30 anos. O presidente da República pode prorrogar o prazo por mais 30, indefinidamente. Eternamente.Em 2009, Lula enviou à Câmara dos Deputados projeto propondo o sigilo eterno periodicamente renovado. Cedeu a pressões dos Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores. Os deputados federais o aprovaram com esta emenda: o presidente da República poderia renovar, por uma única vez, o prazo do sigilo, e os documentos considerados ultrassecretos seriam divulgados em, no máximo, 50 anos.O projeto passou para o Senado. Caiu em mãos da Comissão de Relações Exteriores, cujo presidente é o senador Fernando Collor. E, para azar de quem torce por transparência na República, ele próprio assumiu a relatoria. E tratou de engavetá-lo. Não deu andamento ao debate nem colocou o projeto em votação.A presidente Dilma decidira sancionar a lei do fim do sigilo eterno no dia 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Naquela data, o relator Collor foi a plenário e declarou ser "temerário" aprovar o texto encaminhado pela Câmara dos Deputados.Na véspera de ser empossada ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti declarou que Dilma estaria disposta a atender pedidos dos senadores José Sarney e Fernando Collor, e patrocinar no Senado mudança no decreto para assegurar sigilo eterno a documentos oficiais. A única diferença é que, agora, o sigilo seria renovado a cada 25 anos.O Congresso está prestes a aprovar a Comissão da Verdade, que vai apurar os crimes da ditadura militar. Como aprovar esta Comissão e vetar para sempre o acesso a documentos oficiais? Isto significa impedir que a nação brasileira tome conhecimento de fatos importantes de sua história.Collor e Sarney não gostam de transparência por razões óbvias. Seus governos foram desastrosos e vergonhosos. Já o Ministério das Relações Exteriores alega que trazer à tona documentos, como os da Guerra do Paraguai, pode criar constrangimentos com países vizinhos. Com países vizinhos ou com nossas Forças Armadas e personagens que figuram como heróis em nossos livros didáticos?O sigilo brasileiro de documentos oficiais não tem similar no mundo. Se não for quebrado, a presidente Dilma ficará refém da chamada base aliada. Ontem foi o "diamante de 20 milhões de reais", hoje o sigilo eterno, amanhã...No dia 14 de junho, retornaram ao Brasil os arquivos do livro Brasil Nunca Mais (Vozes), que relata os crimes da ditadura militar brasileira. A publicação, patrocinada pelo Conselho Mundial de Igrejas, foi monitorada pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e o pastor Jaime Wright.O mérito do Brasil Nunca Mais é que não há ali nenhuma notícia de jornal ou depoimento de vítima da ditadura. Toda a documentação se obteve em fontes oficiais, retirada, por advogados, de auditorias militares e do Superior Tribunal Militar. Microfilmada, foi remetida ao exterior, por razões de segurança. Agora retorna ao Brasil para ficar disponível aos interessados. Muitas informações ali contidas não constam da redação final do livro, da qual participei em parceria com Ricardo Kotscho.Os arquivos da Polícia Civil (DOPS) sobre a ditadura militar já foram abertos e se encontram à disposição no Arquivo Nacional. Falta abrir o arquivo das Forças Armadas, o que depende da vontade política da presidente Dilma, ela também vítima da ditadura. As famílias dos mortos e desaparecidos têm o direito de saber o que ocorreu a seus entes queridos. E o Brasil, de conhecer melhor a sua história recente.Um país sem memória corre sempre o risco de repetir, no futuro, o que houve de pior em sua história.* Frei Betto é escritor, autor de "Diário de Fernando – nos Cárceres da Ditadura Militar Brasileira" (Rocco), entre outros livros.** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Frei Betto*
1 Violência

Bala perdida, bala certeira

Para dourar a pílula, toda vez que uma bala alcança um cidadão comum, fala-se que morreu devido a uma bala perdida. Assim, a mãe que se deparou com seu filho morto no sofá pela manhã, teve o consolo de saber que ele foi morto por uma bala perdida.De onde vem a bala pouco interessa. Ela pode vir de um "bandido" ou de um policial. O fato é que ela tem um endereço certo: um inocente.Domingo estive numa capela, periferia de Juazeiro, para participar da celebração de Santo Antônio e Pentecostes. Bairro pobre, insalubre, dormitório de cortadores de cana e empregados da fruticultura. Quando estávamos na liturgia da palavra, escutamos alguns estampidos na porta da capela. Pensávamos que eram fogos de artifício. Mas, um apavorado sujeito invadiu a celebração, escondeu-se entre os participantes, que começaram uma corrida desembestada para fugir das balas de quem o perseguia.Pelo menos dessa vez a Igreja ainda foi um lugar seguro. Por respeito, ou sei lá o que, o perseguidor parou na porta e fugiu. O sujeito levou dois tiros de raspão nas costas e saiu ileso. Foi preciso interromper a celebração, chamar um camburão da polícia para dar proteção ao fugitivo e permitir que a celebração fosse reiniciada.Assim, de costas para a rua, se uma das balas tivesse acertado nossas cabeças, morreríamos sem saber como, quando e onde.Quando a celebração terminou, uma mulher dizia ao fugitivo: "você agradeça a Deus porque foi salvo por Santo Antônio e pelo Espírito Santo".O que temos não são algumas balas perdidas, mas uma sociedade violenta, tanto no meio urbano como no meio rural. A companheirada da CPT do Norte anda com a corda no pescoço, ameaçada de todas as formas, quando não fazendo enterro de lideranças populares que fazem a defesa das pessoas e da natureza.Pois bem, o Brasil é violento desde sua gênese. Não conseguimos superar esse pecado original. Ainda mais porque a violência provém da dinâmica do próprio modelo de desenvolvimento, justificado por gente como Aldo Rabelo. Em seu artigo na Folha de S.Paulo diz textualmente que "o Brasil perdeu mais de 23 milhões de hectares de agricultura e pecuária, em dez anos, para unidades de conservação, terras indígenas ou expansão urbana" (Folha de S. Paulo, 14/6/2011). Ele não fala dos 80 milhões de hectares degradados que o agronegócio deixou por onde passou.O raciocínio do deputado é daquelas cartilhas marxistas dos anos 1970 do milênio passado. Para ele, a produção pode e deve passar sobre tudo que nos proporciona bem-estar ambiental e, sobretudo, sobre as nações indígenas que atravessam os caminhos do capital. Esse já era o raciocínio do Borba Gato e outros bandeirantes.Essa esquerda acaba pensando e agindo identicamente a Kátia Abreu, Ronaldo Caiado, Taradão e similares.Desse jeito, só podemos ser salvos por Santo Antônio ou pelo próprio Espírito Santo.* Roberto Malvezzi é membro da Equipe Terra, Água e Meio Ambiente do Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano).** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.


por Roberto Malvezzi (Gogó)*

Para enviar sua dica ou opinião, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Dica/Opinião

agenda

dica de
sustentabilidade

anterior | próxima
Procure não deixar roupas penduradas atrás da geladeira, isso aumenta bastante o consumo.
Ande a pé. Isso evita a queima de combustível e o lançamento de gás carbônico na atmosfera e, consequentemente, diminui o efeito estufa.
Reduza. Reutilize. Recicle. Três ‘Rs’ indispensáveis para preservar o meio ambiente e contribuir com o desenvolvimento sustentável em todo o mundo.
Aproveite o sol como fonte de energia limpa. Instale painéis fotovoltáicos em sua residência ou empresa.
Na hora de comprar, escolha produtos com rótulos ecológicos e com menos embalagem, assim você estará escolhendo poluir menos o planeta.
Utilize lâmpadas de baixo consumo, elas economizam até 80% de energia e duram bem mais.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Ao consumir bebidas e alimentos no carro ou na rua guarde o lixo até encontrar uma lixeira apropriada. Melhor ainda se ela for seletiva, separando o lixo orgânico do seco.Mais importante que limpar é não sujar. Fonte: Blog da Gisele.
Utilize uma bacia ou a própria cuba da pia para lavar frutas e legumes. Lavando-os sob uma torneira aberta, muitos litros de água serão gastos sem necessidade. Fonte: Viva mais verde.
Os aeradores são dispositivos que podem ser instalados nas torneiras para misturar a água corrente com o ar. Assim, menor volume de água é utilizado com a mesma eficiência. Fonte: Viva Mais Verde.

imagem do dia

|
Para enviar sua imagem, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Arquivo

Observações

 
imagem do dia

Os três componentes principais da biomassa da cana-de-açúcar são a celulose, a hemicelulose e a lignina. Foto:EcoD

tigresa

O Zoológico Skazka, na Ucrânia, exibe imagem de filhotes de tigresa albina ‘Tigrylia’, que nasceram no complexo. Um dos bichinhos puxou a mãe e também é um raro tigre albino.

veta-tudo-gr

Frases a laser são projetadas nos prédios gêmios da Câmara dos Deputados, em Brasília. Foto: Divulgação

imagem do dia

Foto: Organização Earth We are one.

imagem do dia

Imagem da campanha Veta Dilma.

artesustentaveldanielmurgel15

Arte Sustentável de Daniel Murgel.

imagem do dia

Xingu. Foto: Dal Marcondes

imagem do dia

Marta Azevedo, a primeira mulher no cargo de presidenta da Funai. Foto: José Cruz/ABr