Operação Tapajós: “Os Munduruku não querem guerra” - Entrevistacom Roani Valle

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Operação Tapajós: “Os Munduruku não querem guerra” – Entrevistacom Roani Valle


por Redação do IHU On-Line


[caption id="attachment_83132" align="alignleft" width="300" caption="Foto: Telma Monteiro"][/caption] “Ficamos desolados com a constatação de que, efetivamente, a Convenção 169 da OIT neste país é inoperante pelo alto grau de obstruções que ela sofre”, diz o antropólogo. “Os Munduruku não querem guerra. Eles querem ser consultados aberta e coletivamente e querem que sua opinião tenha poder vinculante para a interrupção dessas obras”, diz Roani Valle à IHU On-Line, após visitar os indígenas Munduruku contrários à construção do complexo hidrelétrico do Tapajós, no Pará. O antropólogo esteve na aldeia Sawe Muybu no final de março e pôde visualizar a atuação da Força Nacional de Segurança na região. “Fiquei muito assustado com a situação. Tinha conhecimento da Operação Tapajós e sabia da tensão na área, só não imaginava tanto. Presenciei uma incursão noturna na aldeia perpetrada por homens estranhos, não identificados, fazendo algo semelhante ao que batedores fazem, observação sub-reptícia, sondagem, espionagem furtiva; eles atracaram no porto da aldeia por volta das 22h30 do dia 29 de março”, relata em entrevista concedida por e-mail. Segundo ele, 250 homens da Força Nacional de Segurança – FNS encontram-se entre o Médio e o Alto Tapajós, mas somente 60 fazem a escolta dos biólogos envolvidos com o EIA-Rima da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós. “Quanto aos outros 190 homens do efetivo da FNS, que também estariam na região, as informações são controversas. Há uma versão que afirma estarem estacionados no 53º Batalhão de Infantaria de Selva, em Itaituba-PA, fazendo revezamento da escolta semanalmente; há outra versão segundo a qual teriam se dirigido para a localidade de Machado, no Mangabal, no local da segunda hidrelétrica do complexo, Jatobá, ou seja, a operação não se restringiria à hidrelétrica de São Luiz do Tapajós; e ainda há uma terceira versão que sustenta que esse contingente foi ou será direcionado para o município de Jacareacanga-PA, na vizinhança imediata da terra indígena Munduruku”. E acrescenta: “Se essas informações estiverem corretas, teriam ocupado postos estratégicos na área, não se tratando, portanto, de um processo de militarização geograficamente pontual, mas que se espalha regionalmente entre o Médio e Alto Tapajós, com um amplo perímetro cercado”. Roani Valle é doutor em Arqueologia e professor-adjunto no Programa de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal do Oeste do Pará. Confira a entrevista: [caption id="attachment_83134" align="alignright" width="300" caption="Fernanda Ligabue"][/caption] IHU On-Line – Em que contexto e por que acontece a operação Tapajós em Itaituba, no oeste do Pará? Roani Valle – Até onde me é possível entender, isso se dá no contexto de criar garantias para a execução do complexo hidrelétrico do Tapajós. Todos com quem converso – indígenas, movimentos sociais, intelectuais, acadêmicos, organizações não governamentais etc. – batem nesta mesma tecla. IHU On-Line – Qual a necessidade da presença militar na região e quantos militares participam da operação? Roani Valle – Até onde me é dado saber, real necessidade não há. Isso foi desencadeado por arbitrariedades de não indígenas, governo e pesquisadores, que não conduziram uma interlocução adequada com os indígenas e entraram nas áreas de uso da aldeia sem a devida autorização. Nesse caso, eram os pesquisadores da primeira fase do EIA-Rima biológico da hidrelétrica São Luiz do Tapajós, que, ao serem flagrados dentro da área, foram convidados a se retirar, pois estavam invadindo território indígena. Os Munduruku, até onde consegui entender, tomam decisões coletivas, possuem um sistema político centralizado que permeia cerca de 116 aldeias, e apenas querem uma coisa: serem consultados no processo com antecedência da efetiva implantação do complexo hidrelétrico. Não foram. Para o governo, penso que a presença militar se faz necessária para reprimir qualquer possível reação do povo Munduruku contra a implementação do Complexo Hidrelétrico do Tapajós, em detrimento de um processo de consulta correto, que se faz necessário. Fui informado que os militares da Força Nacional de Segurança – FNS encontram-se no momento entre o Médio e o Alto Tapajós, com um efetivo de 250 homens. Também há participação do 53º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército, mas não sei quantos deles estão em área. Justificativa A Advocacia Geral da União – AGU justifica a operação militar na região como necessária para concluir o EIA-Rima da usina São Luiz do Tapajós ainda em 2013. As informações que me constam dizem que apenas 60 homens da FNS fazem a escolta dos biólogos que estão envolvidos no EIA-Rima da hidroelétrica São Luiz do Tapajós. Quanto aos outros 190 homens do efetivo da FNS, que também estariam na região, as informações são controversas. Há uma versão que afirma estarem estacionados no 53º Batalhão de Infantaria de Selva do em Itaituba-PA fazendo revezamento da escolta semanalmente; há outra versão segundo a qual teriam se dirigido para a localidade de Machado, no Mangabal, no local da segunda Hidrelétrica do Complexo, Jatobá, ou seja, a operação não se restringiria à hidrelétrica de São Luiz do Tapajós; e ainda há uma terceira versão que sustenta que esse contingente foi ou será direcionado para o município de Jacareacanga-PA, na vizinhança imediata da terra indígena Munduruku. Portanto, se essas informações estiverem corretas, teriam ocupado postos estratégicos na área, não se tratando, portanto, de um processo de militarização geograficamente pontual, mas que se espalha regionalmente entre o Médio e Alto Tapajós, com um amplo perímetro cercado. IHU On-Line – A presença militar na região gerou algum conflito? Roani Valle – Conflitos diretos, propriamente ditos, nenhum até o momento. Mas a tensão e o medo que eu testemunhei na área é grande, e pode escalonar para uma conjuntura mais crítica, dependendo das decisões que o governo federal tomar de agora em diante (lembremos do que ocorreu em Teles Pires meses atrás). A permanência na atual situação é insustentável. A mensagem entendida é que haverá uma consulta pública pela força das armas da FNS e do BIS. Queremos todos evitar a repetição do conflito de Teles Pires em novembro de 2012, o que é absolutamente indesejável. Entre a flecha e o fuzil há completa consciência de quem sai perdendo, e os Munduruku sabem disso. A meu ver, não haverá confronto nesses termos, porque a luta é jurídica sobretudo pela legalidade do processo. Os Munduruku não querem guerra. Eles querem ser consultados aberta e coletivamente e que sua opinião tenha poder vinculante para a interrupção dessas obras. Quem está decidindo por um conflito, com implicações talvez genocidas que se avizinha toda vez que um fuzil FAL, AR 15 ou HK 33 é apontado para uma flecha, é o governo brasileiro. Isso porque não se trata de guerra stricto sensu, que se dá entre exércitos formais de estados nacionais. Ao primeiramente criar conflitos socioambientais e, posteriormente, militarizá-los no intuito resolutivo, reprimindo as reações de parcela considerável da sociedade brasileira, que se encontra privada de recursos naturais indispensáveis à sua sobrevivência, o governo brasileiro promove a escalada no terror, na violência psicológica e na insegurança alimentar. Nesse sentido, é possível falarmos num escalonamento para uma guerra de baixa intensidade em instalação ou já instalada. Esta doutrina militar desenvolvida em Washington nos anos 1970 envolve terror, humilhação, coerção, ameaça, supressão de acesso a recursos naturais e dos próprios recursos, controle da acessibilidade e deslocamento físico-espacial, supressão informacional e conflitos armados sub-reptícios, camuflados (como o de operações para coibição de crimes ambientais), pontuais e rápidos com ações localizadas e orientados para obterem o máximo de impacto emocional e simbólico em suas vítimas, é covarde mas extremamente eficiente. Nesse caso, repito, um possível conflito armado seria apenas de um lado, pois apenas um lado tem armas. E reitero: a natureza do que parece se avizinhar é melhor caracterizável na versão mais branda como uma guerra de baixa intensidade de curta duração e, na pior das hipóteses, como um genocídio em médio prazo. Esta palavra é horrorosa e causa calafrios. Mas infelizmente o que podemos pensar se a relação fuzil X flecha se tornar lugar comum na resolução de problemas socioambientais? IHU On-Line – O senhor visitou recentemente a aldeia dos Munduruku. O que pode observar nessa visita? Roani Valle – Conduzo um projeto de arqueologia colaborativa com professores indígenas Munduruku nas aldeias Munduruku do médio Tapajós, e visitei a aldeia Sawre Muybu entre os dias 29 e 30 de março. Fiquei muito assustado com a situação. Tinha conhecimento da operação Tapajós e sabia da tensão na área, só não imaginava tanto. Presenciei uma incursão noturna na aldeia perpetrada por homens estranhos, não identificados, fazendo algo semelhante ao que batedores fazem, observação sub-reptícia, sondagem, espionagem furtiva; eles atracaram no porto da aldeia por volta das 22h30 do dia 29 de março (com o gerador de energia ligado não é possível ouvir aproximação de embarcação motorizada), portanto, supomos que tenham se esgueirado pela trilha que leva até a aldeia e iluminaram com lanterna uma das casas, o que assustou os moradores desta residência, que deram o alerta geral imediatamente. Os Munduruku são habilidosos caçadores acostumados a rastrear caça na floresta à noite e, ao perceberem a aproximação, foram ao encalço dos invasores que se evadiram rapidamente. Houve, de fato, uma tentativa de invasão do perímetro doméstico da aldeia por elementos desconhecidos. Identificamos marcas de voadeira e de botas numa área adjacente ao porto da aldeia, o que nos sugeriu se tratar de uma incursão furtiva de militares. Mas não podemos provar tal fato, com as evidências encontradas. Independentemente disso, o medo e o terror foram grandes na aldeia e na noite de 29 para 30 de março ninguém dormiu. As pessoas, principalmente crianças e idosos, passaram muito mal, houve desfalecimentos, choro e desespero infantil. Somando-se a isso as incursões da aeronave militar sobre a aldeia nos dias 26 e 27 de março, relatadas pelas pessoas, em que um helicóptero militar ficou parado acima do campo de futebol da aldeia, dando voltas ao redor do perímetro por 30 minutos, enquanto dezenas de voadeiras apinhadas de militares passavam, não por acaso, em frente à aldeia pelo rio (no dia 26). Entende-se bem a medida do terror que aquelas pessoas passaram entre 26 e 30 de março de 2013. Um fato relevante constatado é que todas as atividades produtivas (caça, pesca, agricultura, produção de farinha) estavam paralizadas ou reduzidas a níveis insuficientes para atender às demandas de sobrevivência da aldeia, em função do estado de medo lá instaurado, gerando uma situação de insegurança alimentar preocupante. Todos temiam Teles Pires e sua semiótica da morte, o helicóptero e a incursão furtiva noturna reimplantaram as memórias aterrorizantes daquela situação nos Munduruku desta aldeia, neles e em nós não indígenas. Estamos todos nós traumatizados. IHU On-Line – De acordo com o Ministério Público Federal, os Munduruku não aceitam estudos para usinas em suas terras enquanto não for feita a consulta prévia que a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho obriga. Como essa questão tem sido discutida entre os envolvidos? Roani Valle – Os indígenas têm muita clareza do que pesa sobre eles e de seus direitos; sabem que a convenção n. 169 da OIT, embora no papel tenha sido assinado pelo Brasil desde 2004, na prática não tem tido efeito: não há precedente para ela, não há jurisprudência em solo brasileiro para tal dispositivo internacionalmente aplicado. O que há é uma série de dispositivos instituídos como a Portaria n. 303, a PEC 215, a presidência da comissão de meio ambiente do senado brasileiro na mão do maior sojeiro do país, e mais recentemente o decreto n. 7.957-2013, que institui o Gabinete Permanente de Gestão Integrada para a proteção do Meio Ambiente e regulamenta a atuação das forças armadas na proteção ambiental. Na prática, isso parece se reduzir à militarização de todas as questões socioambientais no Brasil. Com base nisso, ficamos desolados com a constatação de que, efetivamente, a convenção n. 169 neste país é inoperante pelo alto grau de obstruções que ela sofre. Não é aplicada na atual conjuntura por se tratar, em meu entendimento, de um “mal negócio” para o grande capital (inter) nacional que atua ostensivamente por trás e pela frente das hidroelétricas amazônicas, e do grande projeto nacional de desenvolvimento. IHU On-Line – Quais as maiores dificuldades no diálogo entre os Munduruku e representantes do governo federal? Roani Valle – Poderíamos atalhar uma resposta para essa questão por diversos caminhos, mas ontologicamente, em sua essência, acredito que representam projetos de existência humana, que se antagonizam por escolha deliberada de um dos projetos. O modelo do governo brasileiro, e da agenda internacional ao qual se submete, é predatório, baseado na acumulação e no consumo industrial de bens e comportamentos insustentáveis para a biosfera planetária em curto prazo. Os Munduruku representam uma filosofia humana milenar em quasi-estase socioambiental com os ecossistemas amazônicos. A meu ver, são sistemas cognitivo-epistemológicos incompatíveis e em competição pela mesma parcela de recursos naturais. Fenômenos como esse já se repetiram outras vezes na história da ecologia humana desde a especiação de homo sapiens sapiens na África há 200.000 anos. Somos a única espécie de nosso gênero viva nos últimos 25 mil anos. Uma anomalia biológica. Por que será? Mas não se trata de relativizar através de reducionismos biológicos os conflitos humanos; trata-se de uma guerra (em sentido amplo) entre cosmovisões que já dura 513 anos, cujo aspecto interexcludente é artificial, é uma construção cultural, política e econômica, mas não uma inevitabilidade. Enquanto a inexorabilidade do processo de construção das hidroelétricas for defendida – uma invenção perversa da criatividade humana perseguindo um caminho deliberadamente equivocado embriagado por uma cegueira simbólica, cognitiva –, e o governo atuar unilateralmente em territórios Munduruku, com presença militar ostensiva, o diálogo será no mínimo reduzido a trocas de acusações. Em meu entendimento, desde que tenham sua terra e seu rio, os Munduruku conseguem sobreviver neste mundo quase tranquilamente. O problema somos nós, ou melhor, o Estado brasileiro e suas ramificações determinantes extranacionais. IHU On-Line – Em encontro com os Munduruku, Gilberto Carvalho disse que o complexo de Teles Pires é necessário. De fato é? Roani Valle – Não sou especialista no tema, mas é possível que isso se encaixe na mesma falácia de inexorabilidade desenvolvimentista acima mencionada. Não é, não foi e nunca será a única alternativa. Não existe um único caminho na vida, nos processos vitais. Afirmar isso em termos culturais é uma falácia equivalente; inevitabilidade é uma falácia biológico-cultural e filosófica. Outro processo questionável é a irreversibilidade quando coadunado à inexorabilidade nas escolhas humanas. Nesse nível ambos os argumentos, quando operam juntos, são falaciosos, embora a irreversibilidade exista no mundo físico e, portanto, biológico-cultural, pois se trata de uma propriedade da matéria, em seu conceito físico, um estado, ou condição, possível de existência das coisas, dos sistemas e de seus processos transformativos. Atingi-la, porém, é relativamente raro. Processos irreversíveis são normalmente de magnitude catastrófica, erupções vulcânicas, impactos de meteoro e hidroelétricas, por exemplo, têm essa capacidade de afetarem processos ecossistêmicos em níveis irreversíveis. A diferença em relação às duas primeiras catástrofes é que não as escolhemos. Portanto, não se trata de necessidade como condição sine qua non, pois há uma escolha política muito explícita nisso. Não é necessário para o Brasil, é escolhido para o Brasil, para desempenhar um papel instrumental de fornecedor de matérias-primas baratas (energia), porém de alto custo social e ambiental, num mundo em que não temos autonomia muito menos hegemonia (esta segunda totalmente dispensável). Assustadora é a ausência de debate qualificado na população brasileira, em todas as classes e níveis de instrução, e sua complacência e adesão generalizada a essa alucinação coletiva de inexorabilidade desenvolvimentista. IHU On-Line – Quais as implicações da construção da hidrelétrica São Luiz do Tapajós para os indígenas Munduruku? Roani Valle – Existem várias possibilidades, todas preocupantes. Num cenário extremo, porém realista e plausível, podemos falar em extermínio no médio prazo por supressão de recursos naturais como uma delas, além de insegurança alimentar e fome. Se houver ação militar mais incisiva e continuada decorrendo em conflito aberto, então pode-se pensar em morte física de um contingente populacional de maneira mais rápida. Por fim, um cenário de genocídio, isto é, sensu stricto, extermínio de uma linhagem genética específica de homo sapiens sapiens ou redução significativa e perigosa de sua variabilidade genética (efeito de gargalo), pode ser ventilado como possibilidade derivada das outras. Pode-se pensar em outro cenário extremo, porém plausível, mas com menos morte física, ou seja, um grande contingente populacional indígena sendo obrigado a adotar um padrão de vida alienígena, um padrão de vida semelhante ao da parcela da sociedade nacional não indígena mais pobre. Sem autonomia em recursos de sobrevivência econômico-social sofrem um processo de mudança cultural rápida e profunda, descaracterização de padrões socioambientais, simbólicos, linguísticos, filosóficos “tradicionais” Em outras palavras, etnocídio pode ser outro processo menos extremo que o genocídio, mas não menos terrível como preço a ser pago pelo atual modelo desenvolvimentista. Fato é que a mudança ambiental abrupta e profunda terá um efeito catastrófico para a adaptabilidade humana tapajônica (amazônica) e, nesse caso, a irreversibilidade não é falaciosa, é real e imposta. Eventos de extinção biocultural são plausíveis. Se são implantados do jeito que estão sendo planejados e praticados, esses dois cenários tenebrosos são factíveis em médio prazo. Mas, como cientista, não acredito em inexorabilidade, e tenho pouca fé na irreversibilidade banalizada. Portanto, é possível construirmos outro caminho. Os povos indígenas nas Américas, em boa parte dos casos – e aqui na Amazônia não é diferente –, passaram a maior parte dos últimos 20.000 anos (e essa é uma visão arqueologicamente conservadora) fazendo isso, construindo simultaneamente múltiplas possibilidades desenvolvimentistas. IHU On-Line – Deseja acrescentar algo? Roani Valle – Quero retomar o ponto do engajamento coletivo da sociedade brasileira nessa alucinação coletiva de inexorabilidade desenvolvimentista. É possível que o fenômeno “Lula” tenha sido um fator causal dessa homogeneização. Me pego pensando se, em certo sentido, este fenômeno não representou uma sofisticação na tecnologia de controle social, político e emocional do sistema capitalista internacional. Teria sido, portanto, mais do que uma concessão do sistema, foi realmente um salto evolutivo dentro da biotecnosfera do capital. Um exemplo político-cultural de punctuated equilibria, em que se opera uma microrrevolução, abrupta, intensa e pontual nos mecanismos de dominação e poder, depois do que se segue uma reestabilização controladora amplificada, o atual governo. Ou podemos pensar numa espécie de exaptação política, em que uma brilhante mente articuladora popular e sindical se torna uma ferramenta valiosa e sofisticada de controle social e ideológico do capital, como a caneta que serve para escrever mas pode servir para rebobinar fitas cassetes, ou prender cabelos. Seja de uma forma ou de outra, resulta na preparação do terreno para um novo processo de expansão do sistema, uma nova geração dos mecanismos de controle e dominação. Um exemplo tão bem sucedido que a segunda maior força capitalista da Terra representada num estado nacional, os EUA, tentaria replicar uma experiência semelhante, adaptada a sua conjuntura específica, com o fenômeno Obama. Mas isso é apenas uma especulação de que esses dois processos representariam uma homologia política. Fato é que estamos vivendo tempos difíceis, sobretudo para os povos indígenas e populações tradicionais, e pode piorar. Mas são escolhas. E escolhas não são inexoráveis por natureza; algumas podem ser irreversíveis, como é o caso das hidroelétricas. Terríveis irreversibilidades escolhidas por poucos e impostas a muitos com o argumento falacioso da inevitabilidade desenvolvimentista necessária. * Publicado originalmente no site IHU On-Line.

Delegados do Fórum Social Mundial participam da marcha de abertura, no dia 26 de março, em Túnis Foto: AP Sociedade

Fórum Social Mundial: “O que aconteceu em Túnis foi uma sinergia”

[caption id="attachment_83114" align="alignleft" width="300" caption="Delegados do Fórum Social Mundial participam da marcha de abertura, no dia 26 de março, em Túnis. Foto: AP"][/caption] “O que teve maior efeito imediato foi o espírito cheio de energia e debate da primavera árabe, que deu novo impulso ao Fórum”, avalia o teólogo Luiz Carlos Susin. “Uma aventura de superação”. É assim que Frei Luiz Carlos Susin descreve o 13º Fórum Social Mundial e o Fórum Mundial de Teologia e Libertação, que foram realizados na Tunísia na última semana de março. Em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, após retornar do país que originou a Primavera Árabe, ele diz que “Túnis foi uma lição para o Fórum Social Mundial”. Dignidade, a palavra-chave do encontro, inspirada nas manifestações da Primavera Árabe, foi “uma direção para o lema do Fórum – ‘Outro mundo é possível’ –, pois se trata de um mundo onde reine a dignidade: das mulheres, das minorias, no exercício da política, no respeito à diversidade etc. É algo muito inspirador, e que tem uma grande tradição na história do reconhecimento do que seja realmente humano”, assinala. De acordo com Susin, discussões recorrentes do Fórum Social Mundial, como a relação dos movimentos sociais e as políticas de governo, ganharam um novo contexto: “Quando os movimentos conseguem uma mudança de governo em direção a uma maior democracia, devem participar dele para que se mantenha e se consolide? Ou deve ficar em posição livre e crítica para que o governo tenha uma interlocução válida?”, exemplifica. A 13º edição do Fórum Social Mundial ensinou que o “fórum deve fazer parceria com regiões e países que estejam em ebulição, onde a energia de uma base popular e de movimentos sociais esteja posta na busca de transformação”, acrescenta. Luiz Carlos Susin (foto abaixo) é frei capuchinho, mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Leciona na PUCRS e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana – Estef, em Porto Alegre. É autor de inúmeras obras, dentre as quais citamos Teologia para outro mundo possível (Paulinas, 2006). Confira a entrevista: IHU On-Line – Quais são suas impressões do Fórum Social Mundial que aconteceu na Tunísia? Qual a importância de o Fórum ter acontecido naquela região africana? Luiz Carlos Susin – A realização desta edição do Fórum Social Mundial em Túnis, capital do país que deu origem ao movimento de democratização chamado Primavera Árabe, foi uma aventura de superação. Havia, algum mês antes, com as manifestações após o assassinato do principal opositor do atual governo, o temor de que algo imponderável pudesse acontecer. E isso foi amplamente desmentido pelo clima de segurança e tranquilidade. Mas o que realmente possibilitou o Fórum se superar foi o clima favorável de muito debate, muita participação universitária, jovens e mulheres muito presentes e cheios de energia e empatia. Túnis foi uma lição para o Fórum Social Mundial. IHU On-Line – Qual a diferença entre o 13º Fórum Social Mundial e do Fórum Mundial de Teologia e Libertação realizado na Tunísia em relação à edição que aconteceu em Dakar? Luiz Carlos Susin – Em Dakar tivemos uma boa recepção do governo da cidade, mas na última hora o governo do país retirou o apoio ao não disponibilizar a universidade como espaço de realização e instalou um caos logístico. E os universitários tiveram que prestar exames justamente na semana do Fórum! Foi uma perda muito grande. Mesmo assim a criatividade dos movimentos locais foi grande e se conseguiu o essencial pretendido. Já em Túnis houve um apoio maciço, uma participação de jovens universitários, de movimentos da região árabe, de mulheres com participação intensa. A marcha inaugural beirou cem mil participantes. Quanto ao Fórum Mundial de Teologia e Libertação, que veio acontecendo sempre junto do Fórum Social Mundial, ganhou uma estruturação diferente: tornou-se uma delegação. É que as avaliações anteriores mostravam que havia certo paralelismo, e era necessário entrosar de forma mais completa o Fórum de Teologia ao Fórum Social, pois o que sempre se pretendeu foi buscar no ambiente do Fórum um contexto de inspiração teológica assim como colaborar com ele oferecendo a reflexão teológica. Então dessa vez radicalizamos: reunimo-nos um dia antes para uma preparação presencial, depois de um processo de preparação por internet, e nesse dia traçamos nossas estratégias de participação. Dentro do Fórum Social oferecemos oficinas e participamos como membros de mesa em oficinas (workshops) de outros, alguns em parceria. Além disso, conforme os eixos de reflexão que temos, buscamos e aproveitamos outras atividades que foram oferecidas. Cada final de dia fazíamos reunião de avaliação com perspectivas para nosso trabalho. Realizamos uma avaliação global ao encerrar, traçando os passos seguintes, sobretudo de produção teológica. IHU On-Line – Qual foi a especificidade do 13º Fórum Social Mundial realizado na Tunísia? Entre os temas, discutiu-se a questão da dignidade humana, a soberania dos povos e o futuro dos movimentos sociais. Como esses temas foram relacionados? Luiz Carlos Susin – A palavra-chave que se incrustou no Fórum, vinda justamente da revolução começada na Tunísia dois anos antes, foi a palavra “dignidade”. Ela estava inscrita por toda parte. De certa forma é uma direção para o lema do Fórum – “Outro mundo é possível” –, pois se trata de um mundo onde reine a dignidade: das mulheres, das minorias, no exercício da política, no respeito à diversidade etc. É algo muito inspirador, e que tem uma grande tradição na história do reconhecimento do que seja realmente humano. Há discussões que são recorrentes, mas que ganharam novo contexto, como, por exemplo, a relação entre movimentos sociais e políticas de governo. Quando os movimentos conseguem uma mudança de governo em direção a uma maior democracia, devem participar dele para que se mantenha e se consolide? Ou deve ficar em posição livre e crítica para que o governo tenha uma interlocução válida? Há boas razões para ambas as tendências. IHU On-Line – Que avaliação faz da trajetória do Fórum Social Mundial, especialmente em relação aos temas abordados ao longo desses 13 anos? Em que medida os temas que estavam na base do seu surgimento há 13 anos continuam atuais e que novas problemáticas foram assumidas? Luiz Carlos Susin – Desde a sua origem, o Fórum Social Mundial vem debatendo recorrentemente certos assuntos básicos. Digamos que, de forma negativa, sobre o que não serve e o que deve ser denunciado, é de fácil consenso. A carta final deste Fórum mostra mais uma vez isso. Mas juntar as experiências e propor um caminho alternativo é algo ainda penoso, e quando se tenta é fácil cair no idealismo. Mas se há algo em que o Fórum vem ganhando, este é a socialização para grupos sempre novos, para mais gente em diferentes lugares. Dessa vez, por exemplo, a conexão entre o Fórum e a região árabe fortalece e aumenta a “ideologia” – no melhor sentido – do Fórum, criando um horizonte mais claro para as ações políticas necessárias. IHU On-Line – O Fórum Social Mundial ainda continua sendo um ator importante para pensar um outro mundo possível? Luiz Carlos Susin – Creio que não temos outro ator que ajude a pensar tanto e a recolher experiências populares, de movimentos com energia de transformação. Os governos ou a ONU não conseguem ocupar este espaço. O Fórum Social Mundial é o que temos de melhor num mundo pluralista com necessidade de real democracia e internacionalidade. IHU On-Line – Como o Fórum dialogou com a Primavera Árabe? Luiz Carlos Susin – Por um lado, os movimentos árabes que se comprometeram com o Fórum quiseram a sua realização na região porque isso ajudaria a levar adiante a consolidação das democracias. E só assuntos que mais polarizaram o Fórum foram os que interessam de forma candente a região árabe, desde o Saara Ocidental até a Palestina e a Síria. Mas o que acredito que teve maior efeito imediato foi o espírito cheio de energia e debate da primavera árabe, que deu novo impulso ao Fórum. De certa forma, quem ganhou mais talvez tenha sido o Fórum mesmo. IHU On-Line – Qual é a mensagem da carta de encerramento do Fórum Social Mundial deste ano? Luiz Carlos Susin – A carta, como já mencionei, é muito clara em denunciar o que não pode mais seguir sendo modelo de política, de organização das sociedades, de convivência e de dignidade. Mas tem dificuldade em mencionar um caminho onde se somam as experiências e se deem saltos de qualidade. Talvez isso seja inerente à história: os saltos têm algo de imponderável, embora normalmente aconteçam em ambiente sob muita pressão. O mais importante da carta é a renovação de compromisso em seguir o caminho de criação de consensos pela soma de experiências. IHU On-Line – Quais são as perspectivas para a continuidade do Fórum? Luiz Carlos Susin – Esta edição de Túnis ensinou que o FSM deve fazer parceria com regiões e países que estejam em ebulição, onde a energia de uma base popular e de movimentos sociais esteja posta na busca de transformação. O que aconteceu em Túnis foi uma “sinergia”, uma soma de energias, a regional e a do Fórum. Assim, muitos compreenderam que no futuro deve-se buscar este clima. Não falta quem esteja convicto que seria importante consolidar o caminho que a América Latina veio tomando. Mas hoje se pode constatar uma movimentação planetária. Poderia ser até a Europa, na Grécia, por exemplo. É importante que o Fórum continue a atrair debates de alto nível e que tematize numa perspectiva de política viável as experiências que ele vai somando. Para o futuro do próprio Fórum, será necessário buscar alguma estratégia de maior difusão. A mídia geral continua não dando importância ao Fórum, o que é muito sintomático. E sem notícia, sem comunicação, perde-se muito. Será necessário trabalhar mais com mídias de todo tipo. IHU On-Line – Quais foram os temas teológicos mais candentes que emergiram do Fórum Mundial de Teologia e Libertação? Quais as tendências teológicas apresentadas? Luiz Carlos Susin – Nós fomos estreitando os eixos de oito para três áreas que interessavam mais no ambiente da primavera árabe: 1) a relação entre religião e política democrática; 2) a relação entre gênero, democracia e religião; e 3) a construção de processos de paz no mundo pluralista contemporâneo. IHU On-Line – Como o Fórum Mundial de Teologia e Libertação contribui para as questões discutidas no Fórum Social Mundial? Qual a relevância de um debate teológico com o Fórum Social Mundial? Quais foram as grandes questões que o Fórum Social Mundial apresentou para a teologia? Luiz Carlos Susin – Em Túnis, dadas as circunstâncias da Primavera Árabe e da revolução da dignidade, o próprio Fórum Social Mundial abrigou muitos debates sobre a relação entre religião e política democrática. E quando se fala de democracia, faz-se necessário falar de reconhecimento, respeito, liberdade, inclusive de consciência e de religião. Por outro lado, é impossível pensar uma boa democracia sem amplos consensos, sem somar energias. Portanto, do ponto de vista da religião, tivemos diálogos entre muçulmanos e cristãos em torno de assuntos como a igualdade de gênero, a liberdade de consciência, a relação com a tradição religiosa, o diálogo de religiões. No espaço do Fórum Social Mundial tivemos experiência de rezar, cantar e dançar juntos, gente de diferentes tradições religiosas. Isso é também uma mútua contribuição! * Publicado originalmente no site IHU On-Line.


por Redação do IHU On-Line
Banner de 10 metros de comprimento em passarela da Radial Leste, São Paulo, cobrou a implementação de corredor de ônibus no local. Foto: Greenpeace/Otavio Almeida Sociedade

São Paulo: Cadê o Plano de Mobilidade Urbana?

[caption id="attachment_83110" align="aligncenter" width="500" caption="Banner de 10 metros de comprimento em passarela da Radial Leste, São Paulo, cobrou a implementação de corredor de ônibus no local. Foto: Greenpeace/Otavio Almeida"][/caption]   Com protesto em diversos pontos de São Paulo, Greenpeace cobra início da elaboração do Plano de Mobilidade Urbana e soluções para o ir e vir na cidade. Era só mais uma manhã de trânsito em São Paulo, mas ativistas do Greenpeace mudaram a rotina e chamaram a atenção da população para o tema da mobilidade urbana. Em um banner de dez metros de extensão estendido no Viaduto Guadalajara no sentido bairro-centro da Radial Leste, a mensagem “Cadê o corredor de ônibus que poderia estar aqui?” lembrou os pedestres e motoristas que há uma demanda antiga por um corredor nesse local. Na Avenida Paulista e na Praça da Sé, homens-placa sinalizaram a necessidade de melhorias na mobilidade da cidade: desde mais ciclovias, bicicletários, ônibus e calçadas sem buracos e atitudes por um trânsito melhor. Além desses locais, a campanha também relembrou outros pontos como a ciclovia na Avenida Eliseu de Almeida com entrega prevista para 2010, o corredor de ônibus da Vila Sônia (prometido pelo ex-prefeito Gilberto Kassab e reiterado por Haddad) e áreas com ausência de faixa de pedestres, como no acesso à Ponte da Cidade Universitária, próximo à Marginal Pinheiros. “São pontos da cidade que já poderiam ter recebido atenção do governo, mas que continuam deixando o cidadão sem o que lhe é de direito”, afirma Iran Magno, Coordenador da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil. O lançamento da campanha acontece no dia em que os prefeitos completam cem dias de gestão das cidades brasileiras. Relembrando a data, o Greenpeace endereçou hoje,10, uma carta ao prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, cobrando o compromisso do governo municipal com a elaboração de um plano democrático e consistente. Com o tema Cadê o Plano de Mobilidade Urbana? A campanha incentiva que os cidadãos acompanhem a elaboração do Plano de Mobilidade de suas cidades, reivindiquem transparência, participação e melhorias, e também revejam seus hábitos cotidianos. Para isso, o Greenpeace oferece a partir de hoje uma ferramenta ao cidadão: um site que contém, além de informações sobre o tema, um panorama de como estão sendo construídos os Planos de Mobilidade Urbana das capitais brasileiras. Fica também disponível um guia prático de como participar ativamente e como e cobrar ações efetivas. Acesse aqui o site da campanha. Os Planos de Mobilidade Urbana devem orientar e regulamentar o transporte e a mobilidade de uma cidade. Municípios com mais de 20 mil habitantes devem elaborar de forma participativa seus Planos de Mobilidade Urbana a partir de um diagnóstico realista sobre a cidade e integrado com os outras políticas. Os Planos devem garantir que todas as pessoas tenham as mesmas condições de locomoção, priorizando os transportes não-motorizados e coletivos. É necessário também que sejam contempladas metas a curto e longo prazo, promovendo a diversificação e integração dos meios de transporte e controle à poluição e emissões de gases do efeito estufa. Um bom plano deve ser planejado de forma participativa e transparente, proporcionando melhorias de ordem econômica, social, de saúde e ambiental. Hoje, o setor de transportes representa um quarto do total de consumo de energia global. O último inventário brasileiro de emissões de gases de efeito estufa mostra o setor como o segundo maior emissor do país. O governo federal estima que em 2020 se emita 60% a mais de CO2 do que em 2009. Investimentos para melhoria do transporte coletivo e incentivo ao uso de transporte não-motorizado são fundamentais para evitar o aumento da temperatura média global em mais do que 2 graus Celsius e, consequentemente, os impactos perigosos no planeta e para toda a sociedade. * Publicado originalmente no site Greenpeace.


por Redação do Greenpeace
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Propaganda de governo, gastos sem limite?

[caption id="attachment_83106" align="alignleft" width="259" caption="Foto: http://www.novonarede.com.br/"][/caption] Na edição de segunda-feira (1/4) o Estado de S. Paulo publicou uma reportagem de página inteira (A4) sobre gastos com publicidade oficial no governo de São Paulo. Com o título “Estatais paulistas respondem por metade dos gastos do governo com propaganda“, o texto de Fernando Gallo mostra que as empresas públicas de São Paulo (Dersa, Metrô, Sabesp e outras) despenderam, de dez anos para cá, nas gestões de Geraldo Alckmin e José Serra, a soma de R$ 1,24 bilhão em campanhas promocionais. No mesmo período, outro R$ 1,2 bilhão foi consumido em divulgação da administração direta. A soma total (R$ 2,44 bilhões) seria suficiente, como anota a reportagem, para “construir, por exemplo, mais de metade da segunda fase da linha 5 do metrô, que vai ligar o Largo Treze à Chácara Klabin, ou custear o Instituto do Câncer por sete anos”. Um dado capital: a apuração do Estado só foi possível graças à Lei de Acesso à Informação. Os números não foram fornecidos espontaneamente pelas autoridades, eles chegaram à redação em decorrência de um pedido juridicamente fundamentado na nova lei, que obriga a administração pública, quando solicitada, a repassar informações aos cidadãos. Não fosse a Lei de Acesso à Informação – que, é bom lembrar, tem apoiado reportagens em diversas cidades brasileiras –, nós não saberíamos até agora quanto dinheiro público é queimado nas ruidosas e vistosas peças publicitárias que inundam o rádio e a televisão. Outro dado capital: o gasto com publicidade de governos (federal, estaduais e municipais) disparou no Brasil. É a rubrica que mais cresce. Para se ter uma ideia, veja-se a seguinte comparação: de 2003 a 2006 o governo paulista (gestão Alckmin) destinou R$ 188 milhões da administração direta à propaganda paga, de 2007 a 2010 (Serra) torrou R$ 756 milhões. O agigantamento dos gastos das estatais (administração indireta) é igualmente vertiginoso: somente a Sabesp, que não gastou R$ 10 milhões ao longo de 2003, ultrapassou a casa dos R$ 98 milhões em 2012. Limite constitucional Não se trata de uma deformação exclusiva do PSDB. É assim no Brasil todo. A Prefeitura paulistana é outro bom (quer dizer, péssimo) exemplo. Recentemente, a Rede Brasil Atual divulgou um levantamento da liderança do PT na Câmara Municipal sobre os gastos da Prefeitura com publicidade. Em 2005 o orçamento do Município previa R$ 9,7 milhões para essa rubrica. No ano de 2011 a cifra havia saltado para R$ 126,4 milhões. Isso mesmo: algo como 13 vezes mais. Outro levantamento, este do jornal Folha de S.Paulo, publicado em 27 de fevereiro, informa que nos Estados menores o gasto com publicidade oficial é proporcionalmente maior. E conta mais. “Entre 2004 e 2011, os 26 Estados e o Distrito Federal desembolsaram R$ 10,5 bilhões com propaganda, em valores corrigidos pela inflação”, revela a reportagem de Natuza Neybreno Costa. “O Distrito Federal é o que mais gastou. Em oito anos, a despesa atingiu R$ 1,34 bilhão, o equivalente a 1,75% de seu orçamento.” E então? Qual a justificativa para a festança bilionária que vem estatizando fatias cada vez mais expressivas do mercado publicitário no Brasil? Qual o benefício público? Voltando às estatais paulistas, seria bom saber por que motivo a Sabesp, o Metrô e a Dersa precisam de tanta publicidade. Por acaso estão disputando clientela com algum concorrente? Para que serve, afinal, tanta publicidade oficial? A resposta vai soar desagradável, mas é muito simples. Ela serve para fazer campanha eleitoral (à custa do erário) fora do período eleitoral autorizado por lei. Sem nenhuma exceção, toda publicidade governamental tem a finalidade de ganhar corações e mentes de eleitores. Estamos falando de uma prática indevida, distorcida, que emprega o dinheiro de todos para beneficiar o partido da situação, que é de uns poucos. O resto é esperteza engravatada. Chega a ser risível a “explicação” dada pelo governo paulista às perguntas do jornalista Fernando Gallo, do Estado. Em nota o governo afirmou que sua comunicação “cumpre rigorosamente a obrigação constitucional de dar visibilidade às ações governamentais, com caráter educativo, informativo e de orientação social”. Como assim? Qual artigo da Constituição obriga os governantes a “dar visibilidade” a uma escola sem professores ou a uma inauguração antecipada de ambulatório? Nenhum artigo. A palavra “visibilidade” não entrou no texto constitucional. A Carta Magna não obriga ninguém a fazer propaganda oficial. Bem o contrário, no seu artigo 37 (inciso XXII, § 1.º) impõe um limite expresso a quem queira fazer divulgação: “A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”. Escândalo duplo Pois nem mesmo a impessoalidade é respeitada. Por meio de logotipos que simbolizam a gestão, como o slogan “Brasil, um País de Todos”, que era usado nos governos Lula, a propaganda oficial aprendeu um truque para identificar o mandatário de que fala tão bem. Diante do selo “Brasil, um País de Todos” ninguém tinha dúvida de que se tratava do governo Lula. Desse modo a propaganda, ainda que indiretamente, faz, sim, promoção pessoal do chefe. Contraria – mesmo que de forma não afrontosa – o princípio da impessoalidade que a Constituição pretendeu adotar. Vivemos um duplo escândalo. Um escândalo financeiro (de dispêndios galopantes), que também é um escândalo de cinismo (de cavalgaduras igualmente galopantes). A lei deveria limitar essa escalada. O que, já sabemos, é improvável. Os parlamentares são diretamente interessados no aumento dos gastos com publicidade oficial. De outro lado, os órgãos de imprensa no Brasil estão tomando gosto pela dinheirama que ganham de presente dos anunciantes oficiais. Vai ser difícil. * Eugênio Bucci é jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). ** Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, em 4/4/2013, e retirado do site Observatório da Imprensa.


por Eugênio Bucci*
Congo Sociedade

Será possível usar um smartphone sem culpa?

Há quase duas décadas, fabricantes dos telefones sabem que extração das matérias-primas, no Congo, envolve crimes brutais. Quase nada fizeram. Quem se conecta demais, para de pensar. Os apelos, o imediato, a tendência de absorver rapidamente o pensamento de outras pessoas, interrompem a abstração profunda, necessária para encontrar seu próprio pensamento. Essa é uma das razões pelas quais ainda não comprei meu smarthphone. Mas é cada vez mais difícil resistir aos avanços tecnológicos. Talvez eu acabe sucumbindo este ano. Por isso, lancei a mim mesmo uma questão simples: posso comprar um smartphone produzido eticamente? Há dezenas de questões envolvidas na pergunta, como salários de fome, bullying, 60 horas de trabalho semanais nas fábricas, a servidão por dívidas a que alguns trabalhadores são submetidos, energia utilizada e resíduos perigosos produzidos. Mas vou focar em apenas um: os componentes usados para fabricar os celulares estariam manchados de sangue de pessoas da região leste da República Democrática do Congo? Há 17 anos, grupos rivais e milícias armadas têm lutado pelo domínio dos minerais da região. Entre eles estão os metais críticos para a fabricação de certos aparelhos eletrônicos. Sem tântalo, tungstênio, estanho e ouro, não existiriam smartphones. Embora estes elementos não sejam a única razão para o conflito, eles ajudam a financiá-lo, sustentando uma guerra que se desdobra em diversos conflitos e que já matou milhões de pessoas – vítimas de mortes diretas, deslocamento populacional, doenças e desnutrição. Milícias rivais forçam a população local a minerar em condições extremamente perigosas, extorquindo minérios e dinheiro de mineradores autônomos. Torturam, mutilam e assassinam quem resiste, espalhando terror e violência – inclusive estupros e sequestro de crianças. Eu não gostaria de participar disso tudo. Nenhuma dos grupos de ativistas que denunciam o problema querem que as empresas ocidentais parem de comprar os minerais do leste do Congo. A Global Witness e a FairPhone, por exemplo, lembram que a mineração é meio de vida de muitas famílias, num país onde se tem 82% da população desempregada. Porém, elas também frisam que que a atividade pode ser desassociada da violência: se, e apenas se, as companhias ocidentais assegurarem que não estão comprando minerais das milícias. Pensando no potencial dano a reputação, seria de esperar que as empresas levassem a sério o problema. Mas, exceto em alguns casos, este raciocínio está errado! Entre os fabricantes, a Nokia parece ter ido mais longe, e seus esforços são bastante impressionantes. Desde 2001 – muito antes da maioria das empresas começarem a se preocupar – ela tentou remover, de sua cadeia de fornecedores, o tântalo extraído ilegalmente. Agora, instrui seus fornecedores a mapear a origem dos metais minerados no Congo, antes que cheguem às fábricas. Entretanto, o problema esta longe de ser resolvido: eles me disseram que “não há nenhum sistema confiável na insdústria eletrônica que permita, à companhia determinar as fontes do seu material”. Há seis iniciativas por parte de governos, grupos voluntários e empresas esforçando-se para produzir telefones sem sangue e a Nokia esta envolvida em todos eles. A resposta da Apple foi menos detalhada e persuasiva. Para dar uma ideia de quão complexo se tornou o problema, ela descobriu que seus metais são fornecidos por 211 fundições, generosamente distribuídas ao redor do planeta. Qualquer um deles poderia estar usando minerais apreendidos por milícias no Congo. Mas o fato da Apple ter mapeado sua própria cadeia de abastecimento é um bom sinal. Dois anos atrás, a Motorola lançou um programa — aparentemente confiável — cuja finalidade é comprar tântalo de regiões sem conflito no Congo. Este tipo de projeto, que começa pela longa cadeia de fornecedores, garante uma renda para a população local, assegurando que as milícias armadas não tenham tanto lucro com a venda de seu celular. É difícil entender por que nem todos os fabricantes possam participar. As outras empresas, escondem-se atrás da suas associações comerciais, e fazem de tudo para minar este tipo de esforço. Há dois meses, entrou em vigor uma nova decisão da lei norte-americana Dodd Frank, que obriga as empresas a descobrir se os minerais comprados no Congo financiam grupos armados. Ela deveria ter sido aprovada antes, mas o lobby corporativo atrasou em 16 meses sua votação. Graças a um grande esforço, as empreas, que passaram 17 anos ignorando o tema, poderão continuar a fugir de suas responsabilidades por mais dois – desde que afirmem não saber a origem do material que compram. Mesmo este período de “adaptação” não foi suficiente para elas. Três grupos de lobby — a Câmara Nacional da Indústria [National Association of Manufacturers], Câmara Norte-americana de Comércio [US Chamber of Commerce] e a Mesa Redonda dos Negócios [Business Roundtable] estão pressionando judicialmente o governo norte-americano a deixar a nova lei de lado. A Global Witness tem apelado para que certas empresas – entre as quais, Caterpillar, Dell, Honeywell, Motorola, Siemens, Toyota, Whirlpool e Xerox – afastem-se de tal lobby – porém, sem sucesso… Suspeita-se que algumas empresas estejam “usando do anonimato oferecido pelas associações para tentar corroer a lei”, enquanto fazem declarações públicas sobre sua suposta gestão ética. Não tive tempo de me aprofundar nessa questão: talvez passamos destrinchá-la colaborativamente. Vamos contatar as os fabricantes de telefone para saber se pertencem a esses grupos de lobby; e questionar se vão denunciar publicamente a ação judicial e suspender a participação no lobby, até que a iniciativa seja descartada. Isso seria um bom teste para saber até onde eles realmente chegam. Ainda não tomei minha decisão. Existe todas as outras questões a investigar, incluindo a vida extremamente curta desse telefones (uma pesquisa que fiz no twitter sugere que a maioria das pessoas substitui seus aparelhos depois de um a quatro anos). Talvez eu espere até a FairPhones fabricar um aparelho. Ou talvez eu não me importe em ter um smartphone. Poderia me contentar com menos imediatismo, menos acessibilidade e um pouco mais de espaço para pensar. * Tradução: Cauê Ameni. ** Publicado originalmente no The Guardian e retirado do site Outras Palavras.


por George Monbiot, do The Guardian
Foto: http://www.diarioliberdade.org/ Sociedade

‘95% do dinheiro dado pelos EUA ao Haiti já voltou à origem’

[caption id="attachment_83082" align="aligncenter" width="400" caption="Foto: http://www.diarioliberdade.org/"][/caption]   No dia 12 de janeiro, cumpriu-se o terceiro aniversário do terremoto que assolou o Haiti. Mais de 300.000 mortes, milhares de pessoas feridas e mais de um milhão e meio de deslocados, em um país de quase 10 milhões habitantes. Mas como se encontra a população haitiana? O que houve com todas aquelas doações dos países ricos? Falamos com François Kawas, escritor e teólogo haitiano, referência dentro do tecido social deste país e líder comunitário reconhecido por seu carisma e por sua luta pelos direitos humanos. Na atualidade, é diretor do Observatório de Políticas Públicas e da Cooperação Internacional do Haiti. O papel da mídia foi crucial depois do terremoto e também muito criticado por seu tratamento sensacionalista após a tragédia. Falou-se de tudo sobre o Haiti. O que você acredita que tenha faltado? É verdade que o terremoto de 2010 colocou o Haiti na mira internacional. Isso é algo positivo porque deu visibilidade ao país e também às suas necessidades. Ainda assim, o ponto negativo é como se apresenta o Haiti; sempre a partir de um ângulo de miséria, de pobrezinhos. Nos pintam como um país incapaz de se resolver, e o Haiti é muito mais que isso. Somos um povo valente, com uma história importante porque somos a primeira nação negra do mundo que tomou sua independência, que sacudiu o jugo da escravidão. Somos um povo muito religioso, que encontra em sua fé muitos recursos de resiliência. Somos um povo que tem muita capacidade de luta, as pessoas acreditam no futuro apesar de tudo. Definitivamente, o Haiti tem os recursos necessários para prosperar, uma sociedade que pouco a pouco vai se organizando e umas paisagens maravilhosas. Por dar um sentido pedagógico e positivo ao terremoto, que leitura e aprendizagem a população haitiana faz, três anos depois do ocorrido? A população está um pouco desiludida. Depois do terremoto, experimentou-se uma compaixão muito forte, em muitos países do mundo houve gestos de solidariedade como nunca antes. Eu pessoalmente pensei que com toda essa ajuda o país se lançaria na via do desenvolvimento econômico e social, que esse apoio seria um fator importante, mas depois de três anos não temos a mesma esperança. O povo se vê desiludido também porque nota que a ajuda internacional oficial não chega a ele. O dinheiro de muitos dos grandes países doadores, como os Estados Unidos e os europeus, não fica no Haiti. Os EUA, que deram ao redor de 1,3 bilhão de dólares, e segundo estudos que realizamos no Observatório de Políticas Públicas e da Cooperação Internacional do Haiti, 95% desse dinheiro doado voltaram aos EUA. Isso ocorre porque tal dinheiro ficou nas ONGs e não chegou ao governo haitiano para que o gerisse de forma a fortalecer as estruturas do Estado e da Administração Pública. Não, o dinheiro ficou nas ONGs de países doadores, nem sequer em ONGs haitianas. Isso enquanto Cooperação Internacional, porque a Ajuda Humanitária é outra coisa, foi importante, pois o que seria do Haiti depois desse terremoto quando tudo estava destruído e não havia medicamentos, água e alimentos? Uma crítica forte à Cooperação Internacional, não? Sim, a Cooperação Internacional pública responde a mecanismos viciados que não ajudam realmente a desenvolver um país, neste caso o Haiti. Para fazer uma crítica assim há que se conhecer os mecanismos clássicos da Cooperação; às vezes essa cooperação contempla mais os interesses políticos e econômicos dos doadores que as necessidades reais das populações locais. Observa-se nos contratos, nos valores salariais. Nesse sentido, acredito mais na Cooperação particular porque apoia mais a comunidade através de ONGs locais, haitianas. Quais são os desafios da reconstrução estrutural de longo prazo? Como a comunidade internacional pode contribuir? A comunidade internacional teria que ajudar mais o Estado haitiano, reforçar suas instituições públicas para que assumam suas funções dentro de sua sociedade e sirva a ela. Um Estado não pode estar sempre sob mando de outros Estados. Não se trata de isolar-se, mas de abrir-se, e isso não tira a soberania do Estado. Também é necessário ter um plano de reconstrução que proporcione um marco jurídico institucional para a ação de ONGs e organizações internacionais, que precisam de um marco de trabalho. Se não, cada um trabalha por conta própria, não há uma coordenação e parcerias de trabalho e isso não ajuda a reconstrução de longo prazo do Haiti. Te preocupa como pode afetar o Haiti a crise econômica que estamos vivendo e os sucessivos cortes em relação à Cooperação para o Desenvolvimento? A crise financeira dos países ocidentais teve impactos muito negativos em nossos países, não só no Haiti. Muitos organismos têm muito menos recursos econômicos e isso, obviamente, repercute nos atores que diretamente trabalham no Haiti. Mas não só afeta a Cooperação, a crise também traz desemprego, o que é um problema para a diáspora haitiana que se encontra trabalhando fora do país. Sabemos que as remessas são importantes pra qualquer pessoa. Tomara que os governos daqui, com os recursos intelectuais e financeiros que possuem, ajudem a superar a crise e ajudem sua população, e também suas empresas a permanecerem. Porque se não for assim, corre-se o risco de elas se realocarem pra conseguir mão de obra barata. Falando de realocações e mão de obra barata, tenho entendido que o setor ‘maquilero’ (indústria têxtil precarizada) está proliferando no Haiti. Como está esse fenômeno? Que perigos ele traz? É verdade que o fenômeno está se instalando. O problema da cooperação é igual ao das Organizações financeiras internacionais; o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial têm suas visões próprias de desenvolvimento e determinadas prioridades, que não são as das populações locais. Os empréstimos que dão vão tentar favorecer as grandes empresas internacionais, e agora no caso do Haiti a prioridade está nas ‘maquiladoras’ e as empresas de montagem, não na produção agrícola, que além de tudo é a base do Haiti. Porque a necessidade dessas grandes empresas é deixar os países ricos para irem aos países pobres, deixando de pagar impostos e obtendo mão de obra barata. Isso explica que agora no Haiti se tenha aberto uma zona industrial grande, que haja muita propaganda política, que a União Europeia e Clinton, entre outros, tenham estado na inauguração do parque industrial. Mas, e o salário? E as terras que se estão destinando a tal uso, em vez de outros usos? E as condições das pessoas que trabalham? Gera mais miséria, não é um fator de desenvolvimento para o país. Acredita ser possível romper o binômio formado por Haiti e Estados Unidos? Até quando irá essa relação? O que dizem do México e EUA vale para Haiti e EUA. Há um ditado que diz: “oh, México, tão perto dos Estados Unidos, tão longe de Deus”. O caso do Haiti seria: “Oh, Haiti, tão perto dos Estados Unidos e tão, mas tão, longe de Deus”. Eu não posso entender que um país que tem tantos recursos, tanto poder econômico, político e militar, possa subjugar uma população tão pequena. De fato, os EUA têm todas as cartas políticas pra intervirem. E mais: intervêm quando dá na telha de seus militares, e para tirar um governo que não lhes agrada ou impor ao Haiti a importação de arroz da Flórida por parcelas, matando assim a produção agrícola. Agora, o país importa alimentos dos EUA porque não pode produzir, porque nem sequer existe uma política econômica que favoreça a produção nacional, e isso é uma consequencia direta das políticas dos EUA para com o Haiti. Sim, é assim mesmo. Por isso tenho muitos problemas com o que fazem os EUA no Haiti (não tenho problemas com o povo estadunidense, muito generoso e de boa vontade). Talvez com o novo presidente, Michel Martelly, as coisas podem mudar? Sou muito otimista por natureza, mas neste caso concreto nem um pouco (risos). Eu também sou músico, toco guitarra e gosto muito de música, mas também sou cientista político e me dou conta da complexidade do fazer político e das questões administrativas. Eu não posso me improvisar de chefe de Estado em uma manhã, porque posso não ter o preparo, a experiência e os conhecimentos adequados para fazê-lo. E seus desejos por mudança? Tampouco Martelly os tem. Apesar de tudo, uma pessoa pode não ter nada disso que citei antes, mas pode estar aberta a escutar, com uma boa equipe, e deixar-se aconselhar. Porém, não é o caso, porque sua equipe não é formada por pessoas de transição, são pessoas mais próximas à ditadura de Duvalier. Poderia ter honestidade, mas também tenho dúvidas, conhecemos sua história. Não quero dizer tudo aqui, mas apesar de seu discurso de mudança, de querer educação para todo mundo, dizer que o Haiti está aberto aos negócios, uma frase muito importante e repetida, não creio que vá haver mudança real a partir desse governo. É um governo que continuará se posicionando ao lado da oligarquia; no fim das contas, ela financiou sua campanha eleitoral. E de passagem digo que a oligarquia está muito vinculada ao processo de reconstrução do Haiti, no sentido de impedi-la, porque o governo não pode reconstruir, não tem terras, a maioria das terras na região metropolitana e na costa, até a República Dominicana, pertence às grandes famílias com mais capital. São essas famílias as que não querem se desfazer de suas terras para a reconstrução do país e, como sabemos, a aquisição de terras é um dos principais problemas do Haiti. * Itziar Pequeño é jornalista do Diagonal Periódico. ** Publicado originalmente no site Diagonal Periódico e retirado do site Correio da Cidadania / Tradução: Gabriel Brito, do Correio da Cidadania.


por Itziar Pequeño*
Wikileaks lança biblioteca de documentos diplomáticos. Foto: AFP Sociedade

WikiLeaks lança Biblioteca de Documentos Diplomáticos

[caption id="attachment_83065" align="alignleft" width="300" caption="Wikileaks lança biblioteca de documentos diplomáticos. Foto: AFP"][/caption] "Espero não ler essa conversa daqui a 25 anos na mídia”, disse o ex-secretário-geral do Itamaraty Jorge de Carvalho e Silva, a um diplomata americano no começo de 1973, em plena ditadura militar. Carvalho e Silva reclamavam da política americana de liberação de documentos oficiais, quase 40 anos antes da Lei de Acesso à Informação brasileira ser aprovada. O tema da desclassificação de documentos era “muito sensível” para a ditadura brasileira, relatou o então embaixador americano John Crimmins em um despacho diplomático no qual comentava o diálogo. Segundo Crimmins, o Itamaraty e o Conselho de Segurança Nacional haviam decidido que documentos secretos do Brasil só deveriam ser liberados após 50 anos, e ainda assim, os pedidos seriam analisados “caso a caso”. Carvalho e Silva não podia imaginar que, quatro décadas depois, não apenas sua conversa poderia ser publicada pela mídia, mas estaria disponível para 2 bilhões de usuários da internet pelo mundo. O relato em questão pode ser facilmente acessado através do projeto PlusD, Biblioteca de Documentos Diplomáticos dos EUA, lançado pelo WikiLeaks em parceria com 18 veículos internacionais, incluindo as agências de notícias AP e AFP e os jornais La Repubblica, da Itália, La Jornada, do México, Página 12, da Argentina – e a Agência Pública, no Brasil. Pela primeira vez, a organização de Julian Assange traz não um vazamento, mas uma nova maneira de buscar documentos que já estavam em domínio público. O PlusD agrega 1,7 milhão de documentos diplomáticos de 1973 a 1976 – quando Henry Kissinger dirigia a política externa americana – e 250 mil de 2003 a 2010, constantes no vazamento mais famoso da organização, o Cablegate. ”Não se pode confiar no governo americano para registrar a história das suas interações no mundo. Ainda bem que uma organização com tradição de resistir à censura agora tem uma cópia dos arquivos”, diz Assange, fundador do WikiLeaks. Os documentos da era Kissinger constantes no PlusD foram desclassificados e colocados online pelo National Archives and Records Administration (NARA), o arquivo nacional americano, a partir de 2006, após passarem por uma detalhada revisão do Departamento de Estado e do próprio National Archives. Cerca de 320 mil são documentos originalmente classificados – cerca de 250 mil confidenciais e 70 mil, secretos. Dentre 1,7 milhão de documentos, mais de 300 mil estão em formato microfilme na sede do National Archives em Washington (não disponíveis no site); e há entre eles 250 mil “cartões de retenção”, indicando os documentos que não foram liberados para desclassificação por serem, ainda hoje, considerados sensíveis para os EUA. Para o Brasil, o novo projeto do WikiLeaks tem especial importância. Embora parte dos documentos já tenha sido publicada pela imprensa brasileira, o arquivo completo expõe em detalhe as ações de Kissinger em relação à ditadura brasileira entre 1973 e 1976 – em especial, durante o governo do general Ernesto Geisel. Até agora não se sabia a real dimensão deste arquivo. São mais de 8.500 documentos enviados pelo Departamento de Estado dos EUA para o Brasil e mais de 13.200 documentos enviados da embaixada americanas em Brasília e consulados a Washington – mais de 1.400 são confidenciais, e mais de 115 secretos. Dezenas de despachos mostram que a missão americana acompanhava de perto os relatos de tortura e de censura à imprensa. Também há dezenas de registros de treinamentos policias e militares, sempre encorajados pelo próprio Crimmins e por Henry Kissinger, que primava por ter uma relação próxima com o Brasil – em especial nos temas hemisféricos, como o embargo a Cuba. Também há detalhes sobre como a embaixada lidou com a prisão e tortura de dois cidadãos americanos, o ex-deputado estadual Paulo Stuart Wright, que tinha dupla cidadania, e o missionário Frederick Morris. Facilitando a liberação de novos documentos americanos “Esses documentos são difíceis de acessar, então, na verdade, ainda estão envoltos em uma cortina de segredo”, explica o porta-voz do WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson. “Eles também dão uma visão geral do que ainda está escondido”. O PlusD traduz na prática premissas defendidas pelos ativistas de dados governamentais abertos – em suma, que as informações devem ser disponibilizadas a todos, de maneira aberta, não proprietária e em formato facilmente pesquisável e manuseável na web. “Isso deveria ser trabalho dos governos, mas eles têm tendência de fazer o oposto”, diz. Segundo a equipe do WikiLeaks, além dos documentos do National Archives estarem disponíveis em arquivos de PDFs isolados – de difícil busca e manuseio – havia imperfeições técnicas que dificultavam a busca por um público amplo. No site do NARA, grafias diferentes para as mesmas palavras levavam a erros na busca. Kissinger, por exemplo, estava escrito de 10 formas diferentes. A equipe do WikiLeaks realizou uma “engenharia reversa” de todos os PDFs, além de uma análise de campos individuais, através de programas desenvolvidos para lidar com o grande volume de dados e corrigir os erros. “É uma expansão do Cablegate. O projeto mostra que o WikiLeaks aprimorou sua capacidade técnica para processar e apresentar ao público grandes bases de dados”, explica o porta-voz. O PlusD permite busca em formato de texto, permitindo uma maior variedade de campos de pesquisa, como por tipo de documento (despachos diplomáticos, memorandos, relatórios de inteligência), agência que o produziu, classificação original e tamanho do texto. Os telegramas contêm links para todas as outras comunicações que fazem parte da correspondência. O Plus D também está aberto para pessoas que possuem documentos diplomáticos dos EUA e queiram incorporar a essa biblioteca, através do email plusd@wikileaks.org. “Esses documentos cobrem um período muito turbulento da história contemporânea – em especial em países que sofreram com ditaduras diretamente apoiadas ou endossadas pelos EUA, como na América Latina. É importante que esses países tenham um acesso rápido e fácil para todas as informações relevantes na busca de entender o que acontecer”, diz Kristinn. “O WikiLeaks quer ver isso acontecer no Brasil e em outros países”. No Brasil Um dos principais objetivos do PlusD é facilitar os pedidos pela Lei de Acesso à Informação americana para liberar documentos que ainda são mantidos em segredo, o que pode ser feito através das informações nos milhares de “cartões de retenção” constantes no site. Entre os documentos da embaixada no Brasil ainda não liberados – o total é de 2.108 – que podem ser úteis à Comissão da Verdade estão, por exemplo, um telegrama secreto de Brasília, de 26 de abril de 1973, intitulado “Aumento em prisões relacionadas a subversão e alegações de tortura”; outro, do consulado do Rio de Janeiro de 15 de dezembro de 1976 intitulado “Terrorismo da direita: acontecimentos relativos à aliança anti-comunista no Brasil”, de 15 de dezembro de 1976; e outro, do consulado de São Paulo de 6 de agosto de 1975, chamado “Mortes e desaparecimentos de extremistas chilenos”. Os documentos já liberados sobre o Brasil traçam uma detalhada narrativa histórica das relações bilaterais. Há por exemplo dezenas de trocas de correspondência entre Henry Kissinger e o ministro do exterior Azeredo da Silveira, além de relatos de conversas com altos membros do governo militar, como o ministro da Justiça Armando Falcão, jornalistas e religiosos como o Cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. O público pode ver na íntegra o documento que relata as ameaças recebidas pelo adido político do consulado dos EUA em São Paulo Claris Halliwell, que costumava frequentar a sede do Departamento de Ordem Política e Social entre 1971 e 1973. Halliwell era identificado como “cônsul”, segundo o registro de visitas do DOPS e chegou a ir ao prédio no Largo General Osório – onde ocorriam torturas – duas vezes por mês. A ligação foi feita por um anônimo com sotaque paulista, segundo um telegrama de 26 de outubro de 1973, que disse: “se você não parar de nos atacar, nós vamos tomar medidas contra você”. A Comissão Estadual da Verdade de São Paulo pediu ao Itamaraty que interceda junto aos EUA para pedir mais informações sobre Halliwell. Outros documentos são particularmente intrigantes, como um breve e ríspido despacho confidencial enviado pelo embaixador americano durante o período, John Crimmins, ao Departamento de Estado em 22 de dezembro de 1976, com o aviso “não distribuir”, no qual ele afirma que “um oficial da embaixada viu Vernon Walters no estacionamento do Ministério do Exterior ontem”. Segundo Crimmins, “o oficial conhece Walters bem e não há absolutamente nenhuma dúvida da sua cabeça de que a pessoa que ele viu foi Walters”. Indignado, o ex-embaixador pergunta a Kissinger: “Walters não deu a conhecer sua presença à embaixada. Qual é o propósito da sua visita?”. Vernon Walters, que foi adido militar da embaixada brasileira entre 1962 e 1967 – em pleno golpe militar – acabava de deixar o cargo de vice-diretor da CIA, que ocupou de maio de 1972 a julho de 1976. Não há nenhum registro oficial de sua visita ao Brasil em dezembro daquele ano. * Publicado originalmente no site Agência Pública.


por Natalia Viana*
Francisco Sociedade

Francisco se fez nu para cobrir o nu do Papa

Sabem os historiadores que o Papa do tempo de São Francisco, Inocêncio III (1198-1216), levara o Papado a um apogeu e esplendor como nunca houve antes nem haverá depois. Hábil político, conseguiu que todos os reis, imperadores e senhores feudais, a exceção de apenas alguns, fossem seus vassalos. Sob a sua regência estavam os dois poderes supremos: o Império e o Sacerdócio. Era pouco ser sucessor do pescador Pedro. Declarou-se "representante de Cristo”, não do Cristo pobre, andando pelas poeirentas estradas da Palestina, profeta peregrino, anunciador de uma radical utopia, a do Reino do amor incondicional ao próximo e a Deus, da justiça universal, da fraternidade sem fronteiras e da compaixão sem limites. Seu Cristo é o Pantocrator, o Senhor do Universo, cabeça da Igreja e do Cosmos. Esta visão favoreceu a construção de uma Igreja monárquica, poderosa e rica mas absolutamente secularizada, contrária a tudo o que é evangélico. Tal realidade só podia provocar uma reação contrária entre o povo. Surgiram os movimentos pauperistas, de leigos ricos que se faziam pobres. Por sua conta pregavam o evangelho na língua popular: o evangelho da pobreza contra o fausto das cortes, da simplicidade radical contra a sofisticação dos palácios, da adoração do Cristo de Belém e da Crucificação contra a exaltação do Cristo Rei todo poderoso. Eram os valdenses, os pobres de Lyon, os seguidores de Francisco, de Domingos e dos sete Servos de Maria de Florença, nobres que se fizeram mendicantes. Apesar deste fausto, Inocêncio III foi sensível a Francisco e aos doze companheiros que o visitaram, esfarrapados, em seu palácio em Roma, pedindo licença para viverem segundo o Evangelho. Comovido e com remorsos, o Papa lhes concedeu uma licença oral. Corria o ano 1209. Francisco nunca esquecerá este gesto generoso. Mas a história dá as suas voltas. O que é verdadeiro e imperativo, chegado o momento de sua maturação, se revela com uma força vulcânica. E se revelou em 1216 em Perúgia para onde fora o Papa Inocêncio III a um de seus palácios. Eis que ele morre subitamente, depois de 18 anos de pontificado triunfante. Logo sons lúgubres de canto gregoriano se fazem ouvir, vindos da catedral pontifícia. Executa-se o grave planctum super Innocentium ("o pranto sobre Inocêncio”). Mas nada detém a morte, senhora de todas as vaidades, de toda a pompa, de toda glória e de todo o triunfo. O esquife do Papa jaz à frente do altar-mor: coberto de ouropeis, joias, ouro, prata e os signos do duplo poder sagrado e secular. Cardeais, imperadores, príncipes, monges filas de fiéis se sucedem na vigília. É o bispo Jacques de Vitry vindo de Namur e depois feito Cardeal de Frascati que o conta. É meia-noite. Todos se retiram pesarosos. Apenas o bruxulear das velas acesas projetam fantasmas nas paredes. O Papa, outrora, sempre cercado por nobres, está agora só com as trevas. Eis que ladrões penetram sorrateiramente na catedral. Em poucos minutos espoliam seu cadáver de todas as vestes preciosas, do ouro, da prata e das insígnias papais. Aí jaz um corpo desnudo, já quase em decomposição. Realiza-se o que Inocêncio III deixara exarado num famoso texto sobre "a miséria da condição humana”. Agora ela é demonstrada com toda a sua crueza em sua própria condição. Um pobrezinho, fétido e miserável, se escondera num canto escuro da catedral para vigiar, rezar e passar a noite junto ao Papa. Ele tirou a túnica rota e suja, túnica de penitência. E com ela cobriu as vergonhas do cadáver violado. Sinistro destino da riqueza, grandiosidade do gesto da pobreza. A primeira não o salvou do saque, a segunda o salvou da vergonha. Concluiu o Cardeal Jacques de Vitry: ”Entrei na igreja e me dei conta, com plena fé, quanto é breve a glória enganadora deste mundo”. Aquele que todos chamavam de Poverello e de Fratello nada disse nem pensou. Apenas fez. Ficou nu para cobrir o nu do Papa que um dia lhe aprovara o modo de vida. Francisco de Assis, fonte inspiradora do Papa Francisco de Roma. * Leonardo Boff é filósofo, teólogo, escritor e comissionado da Carta da Terra. ** Publicado originalmente no site Adital.


por Leonardo Boff*
caderno Inter Press Service - Reportagens

Deixar jovens na rua cria um “desastre social”

[caption id="attachment_83054" align="alignleft" width="231" caption="Carl Siciliano, fundador e diretor do Centro Ali Forney. Foto: Cortesia do Centro Ali Forney."][/caption] Nova York, Estados Unidos, 10/4/2013 – Os jovens sem lar levam uma vida brutal nas ruas, sofrem problemas psicológicos, abuso de drogas e violência sexual. Apesar de custar apenas US$ 6 mil resgatar um deles dessa situação, é pouco o que se faz para ajudá-los. Como fundador e diretor-executivo do Centro Ali Forney, uma organização que ajuda jovens lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT), Carl Siciliano viu com seus próprios olhos como é difícil para eles viver nas ruas. Siciliano criou o centro em 2002 e o batizou com o nome de Ali Forney, um jovem assassinado na rua que ele chegou a conhecer. “Quando jovem eu era muito religioso e trabalhei com pessoas sem lar. Quando saí do armário, quis encontrar a forma de integrar meu trabalho com o fato de ser gay”, contou. A IPS conversou com Siciliano sobre o Centro Ali Forney, sobre os jovens que abriga e sobre o que é preciso para melhorar a situação da comunidade LGBT. IPS: Quais serviços sua organização oferece e o que gostaria de oferecer mas não pode? CARL SICILIANO: Temos gente que entra em contato com os jovens nas ruas e apresenta o nosso programa. Também contamos com um centro no Harlem (bairro do norte da ilha de Manhattan), que oferece alimentação, roupa e banhos, além de atenção psicológica, médica e, em especial, para abuso de drogas. Além disso, podem ficar entre três e seis meses no contexto de nossa iniciativa de moradia de emergência, enquanto buscam um lugar permanente. Também temos um programa para jovens que conseguem um trabalho ou estudam. Estes podem ficar até dois anos. Cerca de 90% dos jovens estão empregados e 75% estudam. Costumam conseguir um trabalho e mudar para sua própria casa. Tenho outras ideias que gostaria de implantar, como um programa de moradia específico para jovens transgênero, que são os mais vulneráveis e sofrem maior grau de violência e assédio nas ruas. Também gostaria de criar um modelo de apartamentos do tipo estúdio com muita supervisão para jovens com problemas psicológicos ou atraso no desenvolvimento, que têm dificuldade para lidar com residências coletivas. Um jovem de Uganda se aproximou de nós e nos disse que seus pais o jogaram na rua e temia por sua vida. Gostaria de criar uma rede internacional que possa ajudar os jovens a abandonarem países onde suas vidas correm perigo para se aproximarem de nós ou de outras iniciativas. IPS: Os jovens LGBT representam 40% dos que vivem nas ruas. Como pequeno abrigo, quais os maiores desafios que o Centro Ali Forney enfrenta? CS: O maior problema é a falta de recursos. Temos apenas 250 camas para os 3.800 jovens sem lar que há em Nova York. Na lista de espera temos entre 150 e 200 jovens. É muito duro ter que dar as costas a muitos deles todas as noites. Nosso trabalho cotidiano é muito difícil. Às vezes temos que lidar com situações de violência. Os jovens LGBT têm um alto risco de suicídio e os vigiamos constantemente. Procuramos protegê-los, mas gostaria que houvesse um compromisso maior da cidade em oferecer-lhes segurança. IPS: O que costuma atrair o jovem para o Centro Ali Forney? Que tipos de ameaças sofrem? CS: O maior denominador comum costuma ser a rejeição familiar. Cerca de 75% denunciam assédio ou abuso em suas casas por serem LGBT. Alguns são colocados na rua. Outros sofrem tanta violência e crueldade que se torna intolerável permanecer em casa. Muitos pais não sabem como lidar com um filho gay. Em comparação com outros jovens sem lar, os LGBT sofrem o dobro de violência nas ruas porque apanham por serem gays. Apanham de jovens em outros abrigos, ou em um centro católico, por exemplo, são taxados de pecadores e lhes dizem que irão para o inferno. Muitos se voltam para a prostituição, o que aumenta o risco de sofrerem violência e contraírem o vírus HIV, causador da aids. Quase 20% dos jovens LGBT sem lar de Nova York são portadores do vírus. O estresse e a pressão de não ter um lar e o trauma da rejeição familiar deixam sequelas psicológicas. IPS: O que deveriam fazer organizações políticas e internacionais como as Nações Unidas para melhorar a situação dos jovens LGBT? CV: Nova York tem um sistema de abrigo para crianças e adultos, mas os que estão na faixa dos 16 aos 24 anos não se ajustam a esses sistemas. Os dirigentes políticos devem compreender e reconhecer que é um desastre deixar estes jovens nas ruas. Se conseguem apoio adequado podem encontrar emprego, ir à escola e se converterem em adultos independentes e saudáveis. Se são deixados nas ruas, se tornam viciados e contraem HIV/aids. Passarão a representar um custo enorme e uma carga para a sociedade. Ainda que os dirigentes considerem essa situação do ponto de vista de uma política pública inteligente e não em termos de decência humana, simplesmente não tem sentido deixá-los nas ruas. Estão criando um desastre social. Quanto às organizações internacionais, o mais importante é compreender que a homofobia cria um ambiente de abuso e rejeição. As organizações que tentam combater a homofobia devem se concentrar mais em como afeta os jovens, como os deixa inseguros em suas casas e coloca em risco o bem-estar infantil. Seria mais difícil para instituições conservadoras que promovem a homofobia, como a Igreja Católica, fazê-lo se essas conexões estivessem mais claras. Envolverde/IPS  


por Mathieu Vaas, da IPS
Obama em visita a Israel.Foto: Pablo Martinez Monsivais / Associated Press Inter Press Service - Colunistas

Obama, Israel e Palestina

[caption id="attachment_83047" align="aligncenter" width="500" caption="Obama em visita a Israel.Foto: Pablo Martinez Monsivais / Associated Press"][/caption]   Bogotá, Colômbia, abril/2013 – O que tanto o mundo esperava da primeira visita de Barack Obama a Israel e Palestina? Não muito. As negociações de paz estão paralisadas e a situação do povo palestino, sob ocupação israelense, piora na medida em que a colonização judia em seus territórios avança inexorável, sem que os Estados Unidos consigam detê-la. Shlomo Ben Ami, ex-chanceler israelense e supostamente especialista na resolução de conflitos, entrevistado pelo jornal El Espectador, da Colômbia, comentou a visita, negando que os assentamentos judeus sejam um obstáculo para a paz. O “centro” da visita do mandatário norte-americano ao seu país foi uma “ofensiva de carinho e empatia” com os israelenses, para tentar “apagar” a “equivocada imagem que existia em Israel sobre sua pessoa”, e sua atitude em relação à “narrativa do povo judeu”, acrescentou. Ben Ami qualificou de “equívoco” a demanda apresentada por Obama ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de “suspender” seu programa de construção de novos assentamentos na Cisjordânia e em Jerusalém oriental, para permitir o reinício dos diálogos de paz. Netanyahu, sionista de ultradireita, ignorou tal demanda, e Obama engoliu a ofensa. A comunidade internacional condena cada vez mais essa política de ocupação e anexação ilegal que viola o direito internacional, das convenções de Genebra e de numerosas resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Tal política de colonização foi empreendida por Israel a partir de seu “triunfo” na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Contudo, poucos mencionam que essa foi uma guerra “preventiva”, que não obedeceu a nenhum enfrentamento com os países árabes Israel ignora, por mais de 60 anos, os mandatos da ONU e, segundo a Carta das Nações Unidas, isto seria motivo para sua expulsão. Mas Washington a vetaria. Obama reiterou os “laços inquebrantáveis” de seu país com Israel, apoiou sua aspiração a um “Estado judeu” (20% de sua população é árabe-israelense), criticou os assentamentos chamando-os de “obstáculo” para a paz, mas vetou as resoluções do Conselho de Segurança que os condenavam. Em Ramalá reiterou seu compromisso com a solução de dois Estados e a criação de um Estado palestino “independente e soberano, vivendo em paz com Israel”. Porém, as condições impostas por Netanyahu ao eventual Estado palestino, que Obama não questiona, o tornam inviável. A Cisjordânia está invadida por assentamentos judeus, com mais de 200 mil colonos, postos militares e estradas que unem as colônias, proibidas ao trânsito de palestinos. Além disso, Israel construiu o muro de separação em território da Cisjordânia e anexou 20% mais de suas terras. O Tribunal Internacional de Justiça o condenou e exigiu sua demolição. Mas nada aconteceu e sua construção continua. Netanyahu impede que a Palestina possa ser um Estado independente e soberano, como quer Obama. Em seu magistral discurso no Cairo, em junho de 2009, Obama deu um giro substancial no tradicional enfoque de Washington sobre o conflito Israel-Palestina. Pronunciou palavras nunca ouvidas da boca de um mandatário norte-americano. Mencionou o “inegável sofrimento” e as “humilhações” que sofre o povo palestino sob a ocupação, as qualificou de “intoleráveis” e se referiu aos “deslocamentos” (foram expulsões) e às “deportações” de sua gente, “como consequência da criação do Estado de Israel”. Mas continuou vetando as resoluções do Conselho de Segurança que os condenam. Também se opôs à aspiração Palestina ao reconhecimento como Estado observador não membro da ONU e puniu a Unesco com o corte de suas contribuições quando sua Conferência Geral, de forma esmagadora, acolheu a Palestina como membro. Em represália a tais decisões da ONU e da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o primeiro-ministro israelense anunciou a construção de novos assentamentos. Obama serviu de mediador no conflito entre Turquia e Israel. O primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan, havia cortado relações depois dos ataques israelenses à Flotilha da Liberdade, condenados pela comunidade internacional, que tentou aliviar o brutal bloqueio contra a empobrecida população de Gaza. Morreram nove ativistas e 30 pessoas ficaram feridas. Obama insiste em relançar as negociações de paz em conversações diretas entre as partes, mas não oferece soluções viáveis. A Autoridade Nacional Palestina se nega a reiniciá-las enquanto continuar a expansão dos assentamentos. Centenas de manifestantes palestinos rechaçaram em Ramalá sua visita e o receberam com gritos de protesto: “Pare de apoiar os crimes de guerra israelenses”, “Estados Unidos, Israel e Grã-Bretanha são o triângulo do terror”. As promessas feitas no Cairo ficaram para a história. Obama ofereceu solucionar esse conflito e teria conseguido impor sua vontade, obter a criação do Estado palestino livre de assentamentos, o regresso às fronteiras existentes em 1967 e o restabelecimento dos direitos desse povo. Entretanto, inclinou-se diante da vontade férrea de Netanyahu, recentemente reeleito. A suposta segurança de Israel continua sendo a bússola da política de Washington no Oriente Médio. Com Síria e Irã, considerados países inimigos, está disposto a usar a força. Em uma guerra desigual, perdoou os ataques militares israelenses contra Gaza, que causaram enorme destruição e milhares de mortos civis, como retaliação aos foguetes lançados pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamás) contra Israel. Este país “tem direito de se defender”, afirmaram Obama e seus altos funcionários. Com essa política de Washington de apoio irrestrito a Israel, condenada pelo mundo muçulmano, e com a oposição de Netanyahu a fazer concessões, é difícil uma solução justa, que reconheça os direitos e interesses palestinos, o desmonte dos assentamentos, o regresso de seus refugiados e das fronteiras de 1967, como exigem a ONU e a Liga Árabe. Esse é o desafio que Obama terá que enfrentar daqui em diante. Envolverde/IPS * Clara Nieto é escritora e diplomata, ex-embaixadora da Colômbia na ONU e autora do livro Obama e a nova esquerda latino-americana.


por Clara Nieto*
As obrigações estabelecidas começarão a valer a partir de 23 de junho de 2013. Foto: The U.S. Army Sociedade

Afeganistão assina Protocolo de Kyoto

[caption id="attachment_82406" align="aligncenter" width="450" caption="As obrigações estabelecidas começarão a valer a partir de 23 de junho de 2013. Foto: The U.S. Army"][/caption]   Enquanto o Canadá apresenta sinais de abandono da defesa ambiental, o Afeganistão dá mais um passo para a implementação de sua estratégia climática nacional. Nesta terça-feira, 2 de abril, o país assumiu os compromissos do Protocolo de Kyoto. As obrigações estabelecidas começarão a valer a partir de 23 de junho de 2013. Classificado como um país em desenvolvimento, o Afeganistão não terá que adotar metas de emissões dos gases de efeito estufa (GEE), porém precisará elaborar planos para desenvolver setores como energia de baixo carbono e sistema de transporte. A inclusão no protocolo também permitirá ao país a participação em eventos internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU), além de aumentar as possibilidades de investimentos na região. Apesar do maior problema do país não ser as emissões de GEE, já que, segundo o Banco Mundial, o Afeganistão emite cerca de 0,2 toneladas de GEE por pessoa (enquanto que nos EUA as emissões chegam a 17,3 por cidadão), a nação passa por um problema considerado grave: as mudanças climáticas. Devido aos conflitos sofridos por mais de três décadas, a região sofre com mais intensidade às adversidades climáticas, como redução das chuvas. Com isso, as secas são cada dia mais severas no local, onde aproximadamente 80% da população depende de recursos naturais para viver. O vice-diretor da Agência Nacional de Proteção do Meio Ambiente, Ghulam Malikyar, afirmou que a desertificação e o desmatamento sofrem efeitos significativos há um tempo, e destaca: "A perda de produtividade do ecossistema obriga as pessoas das áreas rurais a migrarem para as áreas urbanas, e nós não temos onde abrigá-las. Este é o principal problema que estamos sofrendo agora", declarou ao portal RTCC. Durante a 18ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-18), o Protocolo de Kyoto foi renovado até 2020. Porém, é possível que novas metas sejam estabelecidas já em 2014. * Publicado originalmente no site EcoD.


por Redação do EcoD

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