TERRAMÉRICA - Afogadas em poluição sem saber

Ambiente

TERRAMÉRICA – Afogadas em poluição sem saber


por Emilio Godoy*


[caption id="attachment_90360" align="alignleft" width="340" caption="Vista aérea de um bairro do sul da Cidade do México com seus edifícios semi-ocultos pela poluição. Foto: Emilio Godoy/IPS"][/caption] Corrigir a poluição atmosférica é um componente vital para a saúde da população e o bom desempenho da economia nas grandes concentrações urbanas. Cidade do México, México, 17 de junho de 2013 (Terramérica).- As cidades do México com mais de 500 mil habitantes enfrentam importantes barreiras para medir a qualidade do ar e frear a poluição. Porém, as autoridades locais deverão fazê-lo e divulgar os relatórios a respeito, obrigatoriamente, a partir de julho. Especialistas consultados pelo Terramérica consideram que os principais obstáculos a serem superados para realizar essa tarefa, segundo o que foi determinado no ano passado pelo governo mexicano, são financeiros e de recursos humanos que saibam lidar adequadamente com os aparelhos de medição, frente à urgente necessidade de reduzir os níveis de poluição atmosférica. As redes de acompanhamento existentes “não funcionam de maneira desejável”, segundo Ricardo Torres, pesquisador do Centro de Ciências da Atmosfera da Universidade Nacional Autônoma do México. “Não há apoio dos governos estaduais, para os quais não são prioridade a saúde ambiental e a poluição do ar”, afirmou ao Terramérica. Metade dos 118 milhões de mexicanos se distribui em 32 cidades com 500 mil ou mais habitantes, muitas delas carecendo de sistemas de acompanhamento ambiental. Nas grandes cidades do país são problemas crescentes a presença de ozônio, dióxido de enxofre, monóxido de carbono, dióxido de nitrogênio e material particulado (PM10), gerado pelo consumo de combustível de origem fóssil e por atividades industriais, como processamento de hidrocarbonos e produção de cimento, que implicam graves efeitos para o meio ambiente e a saúde humana. “Não é  possível melhorar o que não se mede. A única forma é conhecendo as condições de cada cidade. Contudo, falta regulamentar o monitoramento e as barreiras econômicas são as principais”, disse ao Terramérica o especialista Gerardo Moncada, da organização não governamental O Poder do Consumidor. O México conta com 28 redes para medir a qualidade do ar, das quais apenas 18 entregam informação válida e confiável, acrescentou. O Sistema Nacional de Informação da Qualidade do Ar possui mais de 80 estações de acompanhamento e controle atmosférico, mas seus dados devem ser validados, para atender a legislação. “É primordial monitorar a qualidade do ar, mas falta vontade para fazê-lo bem, devido às carências de equipamentos e pessoal especializado”, afirmou ao Terramérica o ativista Agustín Martínez, integrante da Bicitekas, um grupo social dedicado a promover a mobilidade não motorizada. A Organização Mundial da Saúde indica que mais de 14.700 pessoas morrem anualmente no México vítimas de enfermidades provocadas pela poluição atmosférica. Desde 2009, o governo nacional destinou cerca de US$ 15 milhões para instalação de centros de acompanhamento e medição, que utilizam equipamentos avaliados em US$ 38 mil, embora o lado mais caro seja a operação e manutenção desses aparelhos. Proposta para avançar Diante deste problema, oito organizações da sociedade civil, entre as quais O Poder do Consumidor e Bicitekas, propõem, no plano denominado Para Cidades Saudáveis e Competitivas: Movendo-se Por Um Ar Limpo, uma série de medidas para melhorar a qualidade do ar neste país. Entre elas se destacam regulamentações para combustíveis limpos, emissões contaminantes e demais componentes da poluição; eliminação dos subsídios para combustíveis; redução do uso do automóvel nas zonas metropolitanas; melhorar o transporte urbano; e fortalecer os programas de acompanhamento atmosférico. O estatal Instituto Nacional de Estatística e Geografia estima em mais de US$ 40,5 bilhões os custos ambientais da poluição atmosférica. “É necessária uma coordenação intermunicipal, porque há um fluxo importante de tráfego nas zonas metropolitanas. É um problema macro. As estratégias de controle não devem ser locais”, opinou Torres. Este especialista prepara a publicação dos resultados de uma pesquisa sobre o fluxo de poluentes procedentes de fontes como indústria e transporte na região que agrupa o Distrito Federal e os vizinhos Estados de México, Morelos, Hidalgo e Puebla. Também realiza outra pesquisa sobre os efeitos dessa poluição na vegetação da região. Este ano, a Cidade do México emitiu pelo menos seis alertas ambientais devido aos altos níveis de poluição, o que desaconselha atividades físicas ao ar livre. Porém, essa figura não é comum nas demais grandes cidades do país. “Os relatórios têm de ser em tempo real, por hora, por poluente, para se construir um registro histórico. Além disso, fica claro que as ações de medição e redução devem ser simultâneas”, ressaltou Moncada. Os governos dos Estados da região central já criaram a Comissão Ambiental Metropolitana para que aborde assuntos como os citados e trabalhe em soluções compartilhadas, instância que deve ser replicada em outras grandes localidades, segundo os especialistas. O relatório A Qualidade do Ar na América Latina: Uma Visão Panorâmica, divulgado em março e atualizado em maio pelo norte-americano Clean Air Institute, enfatiza a necessidade de se medir os níveis atmosféricos. “Não há técnicas de monitoramento, de coleta de dados ou protocolos de cálculo de médias padronizadas na região. E há evidência limitada de controle de qualidade ou atividades de garantia da mesma”, afirma o documento, que analisa 42 grandes cidades latino-americanas em relação a cinco poluentes. Por essa razão, a instituição sugere definir metas de qualidade do ar baseadas em padrões nacionais, garantir um ótimo acompanhamento da qualidade do ar e estabelecer inventários detalhados das emissões. “Precisamos que o assunto esteja na agenda pública, e debatê-lo. As autoridades já têm nossa proposta, que pode ser um ponto de partida”, ressaltou Martínez. Envolverde/Terramérica * O autor é correspondente da IPS.   ARTIGOS RELACIONADOS Tempo de questionar o futuro das cidades mexicanas, em espanhol Municípios mexicanos desprevenidos diante do desafio da mobilidade, em espanhol “O mundo ocidental tende a dissolver a cidade” A capital mexicana se veste de cinza Cirurgia regenerativa para uma cidade em crise, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Um mundo com temperatura mais alta será mais propenso a eventos meteorológicos extremos. Foto: Naseem Ackbarally/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Paralisia contra mudança climática

[caption id="attachment_90357" align="alignleft" width="340" caption="Um mundo com temperatura mais alta será mais propenso a eventos meteorológicos extremos. Foto: Naseem Ackbarally/IPS"][/caption] A suspensão de tratativas por um acordo mundial para enfrentar as cada vez mais recorrentes tragédias relacionadas com o clima deixam os países pobres mais expostos. Uxbridge, Canadá, 17 de junho de 2013 (Terramérica).- Enquanto o mundo se dirige para um catastrófico aumento das temperaturas de entre 3,6 e 5,3 graus, as negociações sobre um novo tratado climático estão em ponto morto e os países ricos não concretizam o financiamento prometido para ajudar os mais vulneráveis. “A mudança climática deslizou claramente para um segundo plano das prioridades políticas”, disse a diretora-executiva da Agência Internacional de Energia (AIE), Maria van der Hoeven, na apresentação de um informe, no dia 10 deste mês. O novo informe especial das Perspectivas da Energia no Mundo, Redrawing the Energy-Climate Map (Redesenhando o Mapa de Energia-Clima), afirma que a humanidade caminha para um aumento de três graus nas temperaturas mundiais até 2100 (em comparação com os níveis pré-industriais) e de entre 3,6 e 5,3 graus em mais longo prazo. Esta elevação será, provavelmente, duas a três vezes maior nos polos, liderando a perda de boa parte dos gelos do planeta e aumentando em um metro o nível do mar até 2100 ou, inclusive, muito mais nas décadas seguintes. Todos os países acordaram trabalhar para manter as temperaturas mundiais abaixo de dois graus no contexto da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática. Encontrar maneiras de conseguir isto implica negociações mais complexas jamais tentadas pela humanidade, disse a secretária-executiva da Convenção, Cristiana Figueres. Em uma declaração na qual comentou o informe da AIE, Figueres declarou: “Uma vez mais nos recordam que existe uma brecha entre os esforços atuais e o compromisso necessário” para que as temperaturas mundiais não aumentem além de dois graus. Essa brecha ficou dolorosamente em evidência na conferência sobre mudança climática que a Convenção organizou em Bonn. Embora este seja o 19º ano de negociações, uma disputa técnica por parte de Bielorússia, Ucrânia e Rússia em torno da agenda paralisou um dos temas mais importantes, que inclui a assistência financeira para ajudar os países a enfrentarem os impactos da mudança climática. Por fim, as negociações foram suspensas no dia 11, segundo comunicado da Convenção. A maioria das emissões de carbono que esquentam a atmosfera procede do mundo industrializado. Reconhecendo esse fato, os países ricos acordaram na 15ª Conferência das Partes (COP 15) da Convenção Marco, realizada em 2009 em Copenhague, fornecer ajuda financeira aos pobres, que, apesar de terem menor responsabilidade na mudança climática, experimentarão muitos de seus impactos. Supõe-se que esses fundos serão “novos e adicionais” para não ser preciso desviar os que entregam para os muito necessários programas de assistência ao desenvolvimento. Entretanto, não está claro se são novos fundos ou apenas ajuda ao desenvolvimento reetiquetada como finanças climáticas, observou Laetitia de Marez, analista de políticas na organização não governamental alemã Climate Analytics. “Não há consenso sobre uma definição do significado de ‘novas e adicionais’. Cada país decide por si mesmo”, destacou Marez ao Terramérica, de Bonn. A maior parte dessas finanças climáticas foi usada em projetos de redução de emissões contaminantes (mitigação), como plantio de árvores ou em energias renováveis em países em desenvolvimento. Isto pouco faz para ajudar as nações mais vulneráveis, que carecem do dinheiro necessário para enfrentar os impactos da mudança climática que já estão experimentando, afirmou Marez. “Deveria haver uma divisão meio a meio entre mitigação e adaptação”, acrescentou. Contudo, tudo isso pouco importa se não existe financiamento climático para dividir. Em Copenhague, as nações industrializadas prometeram aumentar para US$ 100 bilhões anuais até 2020 o dinheiro que alimentaria o Fundo Verde para o Clima. Esse gradual aumento teria que começar este ano. Felix Fallasch, da Climate Analytics, disse ao Terramérica que “até agora há compromissos por apenas US$ 10,8 bilhões, e parte disso cobre o período 2013-2015”. Japão e Estados Unidos não assumiram compromissos para 2013 e dizem não estar em posição de fazê-lo, acrescentou. Para Marez, “não é muito útil falarmos isto. Dá a outros países, como Índia e China, uma desculpa conveniente para evitar tomar medidas fortes em relação ao clima”, pontuou. Está previsto que o Fundo Verde seja um organismo independente que administre o financiamento climático, mas ainda não está operacional. Sem esses recursos, que somem milhares de milhões de dólares, é muito improvável que haja um novo tratado climático, como se esperava, para 2015, opinou Marez. A coalizão Climate Action Network, que reúne mais de 700  organizações da sociedade civil, exorta os países industrializados a comprometerem US$ 20 bilhões anuais em 2013 e nos próximos dois anos na 19ª Conferência das Partes COP 19 da Convenção Marco, que acontecerá em novembro em Varsóvia, na Polônia. Os países doadores esperam que a maior parte deste dinheiro proceda do setor privado. Isso será difícil, com os preços muito baixos que dominam os mercados de carbono e as poucas perspectivas de ir além de US$ 10 ou US$ 15 a tonelada, segundo a Associação Internacional de Comércio de Emissões. O Fundo Verde ajudará a reduzir o risco dos investimentos privados, entretanto, é provável que os retornos sejam muito maiores na velha “economia marrom” do que na nova “economia verde”, ressaltou Marez. Alguns países em desenvolvimento e boa parte da sociedade civil são contrários aos investimentos privados e à aplicação de enfoques de mercado à crise climática. “Não estamos falando de ganhar dinheiro. Tentamos abordar a mudança climática”, disse Bernarditas Muller, negociadora do governo das Filipinas. O dinheiro do Fundo Verde deveria ser entregue aos Estados que mais precisem dele e não usado com o olhar posto nos retornos dos investimentos, enfatizou Muller por ocasião da conferência de Bonn. Como atualmente as condições econômicas nos países industrializados são deficientes, em termos gerais, seus governos têm pouca avidez para assumir novos compromissos financeiros, indicou Sivan Kartha, da divisão norte-americana do Instituto de Estocolmo para o Oriente Médio. “Isso não mudará enquanto o público não se alarmar mais e forçar seus governos a apoiarem países que precisam de assistência e, assim, ajudar a tornar verdes suas economias”, afirmou Kartha aos jornalistas em Bonn. “Necessitaremos um compromisso público muito maior”, ressaltou. Envolverde/Terramérica * O autor é correspondente da IPS.   ARTIGOS RELACIONADOS América Latina o crédito verde é cinza e escasso Fundo verde escuro Criação de fundo global climático começa entre disputas Fundo Verde também pode ser transparente Mudança climática – Cobertura especial da IPS, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Stephen Leahy*
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Chile: Ambientalistas querem que candidatos parlamentares rejeitem represas Brasil: Forte queda nas emissões de gases-estufa Cuba: Novo parque fotovoltaico   *************************************** CHILE - Ambientalistas querem que candidatos parlamentares rejeitem represas Santiago, 17 de junho de 2013 (Terramérica).- Organizações ambientalistas do Chile exortam os candidatos ao Congresso a se comprometerem a lutar por uma Patagônia livre de represas hidrelétricas e a se manifestarem sobre as energias renováveis não convencionais e a eficiência energética. A campanha Vote sem Represas foi lançada poucos dias antes das eleições primárias que, em 30 de junho, definirão os candidatos para a eleição presidencial de 17 de novembro deste ano, quando também se renovará os 120 integrantes da Câmara de Deputados e 20 dos 38 senadores. O dirigente da Coalizão Cidadã por Aysén Reserva de Vida, Patricio Segura, explicou ao Terramérica que a campanha busca “incidir nas posições dos candidatos”, e também deixar claro sua proposta de que “a cidadania vote com informação”. A campanha inclui uma “forte ofensiva” em meios de comunicação digitais, mídia impressa, cartas personalizadas e outdoors, destinada a tornar visível o que opinam os diferentes candidatos em matéria energética. Envolverde/Terramérica   *************************************** BRASIL - Forte queda nas emissões de gases-estufa Rio de Janeiro, 17 de junho de 2103 (Terramérica).- O Brasil reduziu suas emissões de gases poluentes na atmosfera em 38,7% entre 2005 e 2010, segundo dados do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. A queda no desmatamento, principalmente na Amazônia, impulsionou esse bom desempenho, já que as emissões cresceram nesse período em setores considerados isoladamente, como a produção de energia (21,4%), processos industriais (5,3%), agricultura e pecuária (5,2%), e resíduos sólidos (16,4%). O resultado permitiu ao país alcançar 62% da meta total de redução das emissões de gases-estufa projetadas para 2020, anunciada pelo governo em 2009, durante a 15ª Conferência das Partes (COP 15) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática. “As novas tecnologias na agricultura e o maior uso de fontes renováveis na área energética contribuíram também para que o aumento das emissões fosse inferior em relação à expansão desses dois setores”, destacou ao Terramérica o secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério, Carlos Nobre. Envolverde/Terramérica   *************************************** CUBA - Novo parque fotovoltaico Havana, 17 de junho de 2103 (Terramérica).- As autoridades cubanas preveem que, em dezembro deste ano, estará concluída a construção do parque fotovoltaico Santa Teresa-Los Guïros, localizado em Guantânamo, 929 quilômetros a leste da capital do país. Esta obra, que terá potência de 2,5 megawatts (MW) e estará vinculada ao Sistema Eletroenergético Nacional, elevará os 11 MW gerados atualmente em Cuba com este tipo de fonte energética, informou ao Terramérica o especialista Alejandro Montesinos, da editora da Sociedade Cubana para a Promoção das Fontes Renováveis de Energia e o Respeito Ambiental. Montesinos recordou que, na província de Cienfuegos, já funciona um parque fotovoltaico, que deve ampliar mais sua capacidade, e mais de oito mil subsistemas isolados em toda a ilha, instalados, sobretudo, com fins demonstrativos e experimentais. Cuba realiza investimentos para que, em 2030, ao menos 10% da energia que o país consumirá provenha de fontes limpas. Envolverde/Terramérica   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Um pedaço de selva no Estado de Campeche. Foto: Emilio Godoy/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Ciência mede dióxido de carbono

[caption id="attachment_89571" align="alignright" width="340" caption="Um pedaço de selva no Estado de Campeche. Foto: Emilio Godoy/IPS"][/caption] O papel dos ecossistemas de selva como sumidouros de carbono é motivo de investigações focadas no sudeste do México. Cidade do México, México, 10 de junho de 2013 (Terramérica).- Florestas, marismas, mangues e lagoas são depósitos naturais de carbono nas zonas do Caribe mexicano. No entanto, agora se procura medir sua capacidade de absorver o dióxido de carbono que é abundante na atmosfera. Esses ecossistemas são próprios da faixa costeira que inclui os Estados de Veracruz, Tabasco, Yucatán, Campeche e Quintana Roo. “A recomendação de evitar a deterioração e o desmatamento das florestas é uma medida de mitigação (redução) de quase 20% das emissões de gases-estufa por essas práticas”, afirmou ao Terramérica José Andrade, acadêmico do estatal Centro de Pesquisa Científica de Yucatán (Cicy). “Por outro lado, é necessário reduzir emissões da indústria e do transporte com energias alternativas. A conservação de florestas não é uma solução para reduzir emissões globais”, acrescentou. No estudo As Folhas: Parte Fundamental do Armazenamento de Carbono em uma Floresta de Yucatán, Andrade e quatro de seus colegas avaliaram fatores com as correntes de ar, a biomassa e o fluxo de carbono do ecossistema na reserva de Kiuic, em Yucatán, com 1.800 hectares de extensão. Das espécies vegetais estudadas, o almácigo (Bursera simaruba) mostrou capacidade para absorver 730 gramas de dióxido de carbono (CO2) por metro quadrado, o jabín (Piscidia piscipula), 680 gramas, e o kitinché (Caesalpinia gaumeri), 1,32 quilos. Estas duas últimas são nativas do México. “Os dados sugerem que as espécies da região utilizam a água eficazmente para promover a regeneração de folhas novas, o que lhes permite continuar assimilando CO2 e assim armazenar o carbono em forma de biomassa”, explicou Andrade. O Caribe mexicano está exposto a furacões e tempestades cada vez mais destruidoras e à ameaça do aumento do nível do mar, que inundaria extensas faixas costeiras, afirmam especialistas. Além disso, a riqueza biológica está ameaçada pelo avanço da indústria do turismo, pelo desmatamento, pela pecuária intensiva e pelas atividades petroleiras. O México emite anualmente cerca de 748 milhões de toneladas de CO2, um dos gases responsáveis pelo aquecimento da atmosfera. A agricultura responde por 12,3%, a indústria por 8,2%, e a mudança no uso do solo e a silvicultura por 6,3%, segundo o Ministério de Meio Ambiente e Recursos Naturais. “A mudança climática intensifica nossa incerteza sobre o futuro das florestas. Não estamos certos do que vai acontecer”, disse ao Terramérica o especialista do Serviço Florestal do Ministério da Agricultura dos Estados Unidos, Richard Birdsey. “Em alguns lugares, as florestas crescem mais e em outros, menos. Influem muitos fatores que temos de estudar”, acrescentou Birdsey, membro da CarboNA (North American Carbon Program), um programa de pesquisa do ciclo do carbono nos países da América do Norte. Os projetos da CarboNA, um dos quais é desenvolvido em Yucatán, se dirigem a construir modelos de monitoramento de CO2 na região, com sensores remotos e mapas. “É difícil calcular o CO2 no solo, mas estamos tentando medi-lo. Processamos ecossistemas em pequena escala para gerar curvas de fator de emissões do gás”, explicou Birdsey. Em 2011, um grupo de cientistas criou no México a rede MexFlux, de fluxos de água e carbono, com o mesmo esquema da norte-americana AmeriFlux e que conta com pelo menos sete locais de estudo desses intercâmbios de massa e energia. Os ecossistemas do Caribe mexicano prestam valiosos serviços para o equilíbrio ambiental da região e funcionam como proteção diante de fenômenos meteorológicos como secas, tempestades, ressacas do mar e inundações. Entretanto, “a península de Yucatán está muito degradada. Há muita pressão sobre os ecossistemas. É preciso analisar as áreas de sumidouros (de CO2). As florestas tropicais fixam mais dióxido de carbono do que liberam”, detalhou ao Terramérica o estudante de pós-graduação Rodrigo Valle, do Cicy. Valle e dois colegas trabalham na Estimativa da Distribuição Espacial da Biomassa Florestal na Península de Yucatán, Usando Percepção Remota e Dados de Campo. Na pesquisa encontraram uma biomassa de 229 mil toneladas por hectare na área estudada, medindo a radiação eletromagnética refletida pela matéria verde. Com base no Inventário Nacional Florestal e de Solos 2009-2013, duas instituições governamentais, a Comissão Nacional Florestal e o Programa Mexicano do Carbono, calcularam uma reserva de 9,146 bilhões de toneladas de carbono nos solos do México. A península de Yucatán é a região com maiores níveis de CO2 enterrado, devido à natureza calcária de sua superfície. A concentração de gases-estufa na atmosfera este ano ultrapassou 400 partes por milhão, um nível crítico para o termômetro do planeta e sinônimo de que as medidas aplicadas até agora não funcionam e que a solução é reduzir drasticamente as emissões desses gases. Como “parte do dióxido de carbono se armazena nas plantas, uma alternativa é diminuir o desmatamento e incentivar o manejo e a conservação de florestas como reservatórios”, disse ao Terramérica a acadêmica Luisa Cámara, da pública Universidade Juárez Autónoma de Tabasco. A especialista encabeça o estudo Carbono Armazenado na Floresta Mediana de Quercus oleoides e Plantações de Eucalyptus urophylla e Gmelina arborea em Huimanguillo, Tabasco, sobre azinheiros, melinas e duas plantações comerciais de eucalipto, nenhuma delas autóctone do México. Nas áreas analisadas de savana, Luisa Cámara e seus colegas mediram 14,75 toneladas de CO2 por hectare no caso de eucaliptos, 15,54 no de melinas, e 63,51 toneladas no de encinos. Os números indicam que o desenvolvimento de plantações comerciais não representa uma solução para capturar CO2. (Envolverde/Terramérica) * O autor é correspondente da IPS. LINKS Biodiversidade e qualidade de vida Pescadoras mexicanas na captura da mudança climática, em espanhol Cancún, impensável sede de uma cúpula climática, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Emilio Godoy*
Após lavar a roupa no açude ao pé da ferrovia, Ana Rosa Figueras cruza a via férrea carregando as peças molhadas. Foto: Álvaro Pardo – Colômbia Punto Medio/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Quando o trem passa, mas não chega

[caption id="attachment_89565" align="alignleft" width="340" caption="Após lavar a roupa no açude ao pé da ferrovia, Ana Rosa Figueras cruza a via férrea carregando as peças molhadas. Foto: Álvaro Pardo – Colômbia Punto Medio/IPS"][/caption] O incessante transporte de carvão para a exportação no norte da Colômbia deixa pouco mais que pó e ruído para os habitantes rurais que veem o trem passar. Tucurinca, Colômbia, 10 de junho de 2013 (Terramérica).- Goyo, como José Hernández é chamado, conta que não recebe uma máscara para não aspirar pó de carvão dispersado pelos 13 trens que, durante suas 12 horas de turno de trabalho, atravessam esta aldeia do município Zona Bananera, no departamento colombiano de Magdalena. Os trens passam a 80 quilômetros por hora, sem nada cobrindo as 160 mil toneladas diárias do mineral negro extraído de jazidas a céu aberto 226 quilômetros a sudeste, no vizinho departamento de Cesar. A extração é feita pelas empresas Drummond (norte-americana), Glencore Xstrata (suíça, Prodeco na Colômbia) e Colombian Natural Resources, do banco de investimento norte-americano Goldman Sachs. Goyo veste o uniforme de uma empresa de segurança privada a serviço da Fenoco S. A. (Ferrovias do Norte da Colômbia Sociedade Anônima), concessionária da estrada de ferro Atlántico desde 1999 e que tem entre seus sócios as próprias corporações. O vigilante cuida da passagem do trem de carvão pela principal rua de Tucurinca. Letreiros em inglês nos 120 vagões puxados por três locomotivas indicam que cada um pesa 19,1 toneladas e seu limite de carga é de 60.750 quilos. Estão lotados até o topo de carvão térmico de alto grau, submetido, em obediência à lei ambiental, a um sistema de umectação (ligeiramente úmido) da camada superior, para minimizar a dispersão de partículas pelo vento. Um relatório técnico da Controladoria Geral da República, de dezembro de 2012, considera que a umectação não é suficientemente efetiva “para neutralizar as perdas de partículas de carvão”. Existem estudos apenas sobre “as operações e atividades em terra nos portos”, acrescenta o órgão controlador, o que não permite “conhecer o impacto sinérgico e de área de todas as atividades relacionadas com a exportação de carvão, isto é, transporte por ferrovia ou caminhões, armazenamento e transporte dos navios”. Quando o trem vem, Goyo coloca ao lado da linha férrea dois cones de plástico alaranjados, unidos por uma corda com uma pequena placa de metal vermelha onde se lê “PARE”, escrito com letras brancas feitas à mão. Nada parecido com uma barreira fechando a passagem de nível. Apenas um aviso de um metro quadrado, a seis metros da ferrovia, alerta para o perigo. Goyo é querido pelas pessoas de Tucurinca. Dizem que ele e seu colega no turno salvaram a vida de três desesperados que tentaram se atirar na frente do trem. Tucurinca não tem rede de esgoto, mas aqueduto, que funciona apenas seis horas a cada dois dias. Por isso é comum as mulheres lavarem roupa às 10h20 da manhã no canal que corre ao pé da ferrovia. A essa hora começa o abrasador calor, que ao meio-dia chegará aos 34 ou 36 graus centígrados. Elas entram até a cintura na água e ensaboam, esfregam e enxaguam. Também lavam os cabelos. Sorriem. De dentro da água, Amparo Padilla diz que o pó do carvão não produz fuligem, que a roupa colocada para secar não suja. Ana Rosa Figueras não tem água encanada em sua choça, também ao pé da ferrovia mas do outro lado do canal. “Vivo sozinha, como vou trazer a água”, disse ao Terramérica. Em seu jardim há um medidor da qualidade do ar, com um pequeno tacho metálico. Alguns homens “vêm a cada dois dias, destapam a casinha, olham um papel e fazem anotações. Vêm olhar o pó do carvão”, contou. “Estudam para ver se causa doença”, acrescentou, apressada, como se a água do canal também fosse acabar. Conforme lava a roupa, esta pequena mulher cruza com dificuldade a via férrea, carregando as peças molhadas para pendurar no andaime onde fica o medidor e que ela aproveita como varal. María Josefa Arteaga, uma idosa de camiseta alaranjada, considera que as gigantes do carvão não pagam nada por alterarem a vida da aldeia. As pessoas se queixam de problemas que não eram tão comuns antes, “quando havia trem”, isto é, quando este era para passageiros e trazia e levava mercadorias. Agora o trem passa, mas não chega. Passa de longe com carvão. Na região afirmam que o trem está transmitindo “doença” ao meio ambiente e que tudo está contaminado pelo pó, que provoca asma e bronquite crônica. Contudo, não há estatísticas, ou não são confiáveis, como evidencia a Controladoria quanto aos estudos sobre diferentes impactos desta indústria. As licenças ambientais não impõem requisitos para o monitoramento de partículas em suspensão de menos de 2,5 micras, algo “indispensável para a adoção de medidas para reduzir ou mitigar os possíveis efeitos sobre a saúde da presença de material particulado proveniente das atividades de exportação de carvão”, afirma a Controladoria. Outros impactos, mais evidentes, são a vibração repetitiva, que causa rachaduras nas casas, e o barulho. Os decibéis que o trem produz ficam entre dez e 85 vezes acima do ruído aceitável. “Tremem portas e janelas. Há casas que estão rachadas. Tapam as rachaduras e vão embora”, disse o comerciante de gado Luis González, encostado no muro de sua casa diante da ferrovia. “À noite, passa um trem a cada 15 minutos, 20, no mais tardar. Já me acostumei e não acordo. Antes apitava no meio da noite. Se sentia quando vinha”, disse González. “Claro que o trem me causa problemas”, afirmou sua vizinha Ramona María Moreno, que nasceu em 1924, acrescentando que, protestando sozinha, não teria chegado a ser velha. “Se o povo não se mexe, não há nada a fazer. O que faço me queixando se os demais não me acompanham?”, ressaltou. A Colômbia exporta entre 92% e 95% do carvão que produz, e é o quinto produtor mundial. Do carvão consumido na Europa, 35,3% é colombiano, segundo a Statiscal Review of World Energy 2012, da British Petroleum. Mas esta indústria estabelece mínima cadeia produtiva e, portanto, não dinamiza de forma direta a economia, “ao menos de maneira apreciável em relação ao valor explorado”, segundo o estudo da Controladoria intitulado Mineração na Colômbia: Fundamentos para Superar o Modelo Extrativista, apresentado em maio de 2013. Por isso, em Tucurinca, como em outros povoados ao longo da viagem do carvão até o mercado global, o trem passa, mas não chega. (Envolverde/Terramérica) * A autora é correspondente da IPS. LINKS Informe sobre a Colômbia, um país que se tornou minerador, em espanhol Greve a céu aberto em Cerrejón, em espanhol Mineração, uma locomotiva sobre trilhos retorcidos, em espanhol Depredadora extração carbonífera   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Constanza Vieira*
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Brasil: Extinção de aves agrava perda de Mata Atlântica Argentina: Terraços verdes podem mitigar inundações México: Economia verde para combater a pobreza ************************************** BRASIL - Extinção de aves agrava perda de Mata Atlântica Rio de Janeiro, 10 de junho de 2103 (Terramérica).- A extinção de grandes aves que se alimentam de frutos, como o tucano, coloca em risco espécies vegetais nativas da Mata Atlântica, bioma característico do litoral brasileiro, afirma uma pesquisa. O estudo, desenvolvido por pesquisadores brasileiros, em associação com mexicanos e espanhóis, coletou cerca de nove mil sementes de palmito juçara (Euterpe edulis) em 22 áreas da região. As análises mostraram que, nas regiões onde os tucanos estão extintos há mais de 50 anos, essas palmeiras geravam frutos significativamente menores do que em regiões de floresta preservada, onde esta ave ainda está presente. “Em zonas onde só há aves menores, que têm bico pequeno e por isso conseguem comer frutos e carregar sementes pequenas e mais frágeis, estas ressecam mais facilmente e têm menos chance de germinar”, explicou ao Terramérica o especialista da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Mauro Galetti. Assim, “a espécie vegetal vai desaparecendo lentamente”, acrescentou Galetti, coordenador da pesquisa. Envolverde/Terramérica   ************************************** ARGENTINA - Terraços verdes podem mitigar inundações Buenos Aires, 10 de junho de 2103 (Terramérica).- Uma equipe da Universidade de Buenos Aires (UBA) trabalha no desenvolvimento de terraços verdes em edifícios, que favoreçam a retenção de água da chuva e reduzam o impacto das inundações em áreas urbanas. O engenheiro agrônomo Héctor Rosatto, da Faculdade de Agronomia da UBA, explicou ao Terramérica que se trabalhou com dois tipos de substrato orgânico – para construções pré-existentes e para as novas – e se estudou sua capacidade de absorção. Após três anos de experimentos, a equipe liderada por Rosatto concluiu que os terraços verdes podem reter entre 70% e 100% da água em uma precipitação de 20 milímetros, e 65% se chover o dobro. Em caso de uma chuva mais intensa – de 100 milímetros – a absorção cai para 25% ou 30%, mas, de todo modo, “contribui para reduzir a água que flui para os bueiros”, ressaltou o engenheiro. Envolverde/Terramérica   ************************************** MÉXICO - Economia verde para combater a pobreza Cidade do México, 10 de junho de 2103 (Terramérica).- O desenvolvimento de uma economia verde poderia aumentar a renda das comunidades pobres onde existem importantes recursos naturais, afirma um estudo que é preparado pelo governo mexicano. “Há discrepância entre a presença de recursos naturais e de população de alta ou muito alta marginalidade. Então, é preciso combinar alta produtividade potencial e atividades econômicas”, disse ao Terramérica Alejandro Guevara, acadêmico da Universidade Ibero-Americana. O especialista participa da elaboração do Estudo sobre Economia Verde, a cargo do governo mexicano com apoio de organismos multilaterais e privados. Os resultados preliminares indicam que há potencial no aproveitamento do capital natural e no ramo agropecuário. No entanto, são necessárias medidas como eliminar subsídios nocivos – por exemplo, à gasolina –, executar políticas sociais que conservem e ampliem o capital natural, fomentar o uso eficiente da água e conseguir a inclusão das famílias rurais. Envolverde/Terramérica   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  

Foto: Tarso Serraf/ Anauni.org Ambiente

TERRAMÉRICA – “O Estado não perde soberania se respeita os direitos indígenas”

[caption id="attachment_88755" align="alignright" width="340" caption=" Quando o Estado respeita os direitos humanos, exercita sua soberania, afirma James Anaya. Foto: Milagros Salazar/IPS"][/caption]  “Com a experiência se aprende porque no Peru está sendo construído um processo adequado” para consultar e dialogar com os povos indígenas, afirmou James Anaya em entrevista ao Terramérica. Darwin, Austrália, 3 de junho de 2013 (Terramérica).- “Acredita-se que o consentimento é dizer sim ou não, e quem vence”, afirmou o relator da Organização das Nações Unidas (ONU) para assuntos indígenas, James Anaya. Consultar estes povos “é criar processos abertos nos quais os indígenas possam opinar, influir nas decisões e haja boa vontade para buscar consensos”. Anaya, advogado e relator especial das Nações Unidas sobre a Situação dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais dos Indígenas, deu ênfase na diversidade de rostos, idiomas, culturas e experiências que coincidiram na conferência da WIN (Rede Indígena Mundial), realizada entre 26 e 29 de maio em Darwin, na Austrália. Em 30 minutos de exposição, Anaya destacou a importância de os Estados respeitarem e aplicarem medidas relacionadas com a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, adotada em 2007. Em sua rápida passagem por Darwin, Anaya conversou com o Terramérica sobre a polêmica implantação da consulta prévia aos povos indígenas e o desafio de conceber modelos de desenvolvimento que permitam aos países acesso à prosperidade e respeito aos direitos das comunidades nativas. Em sua opinião, o Peru é o país latino-americano com mais progressos normativos para aplicar a consulta prévia, estabelecida no Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), diante de projetos ou atividades que afetem o território e a cultura de um povo aborígine. Contudo, falta o país demonstrar na prática sua capacidade de respeitar os direitos indígenas. “Com a experiência se aprende porque no Peru está sendo construído um processo adequado”, afirmou. Equador, Bolívia, Brasil e Colômbia estão discutindo esses mecanismos, embora ainda não contem com normas e protocolos internos para realizar as consultas. Para Anaya, não é “exigível” que os Estados aprovem leis e somente então começarem a consultar. O maior requisito é ter “vontade” de respeitar os direitos, ressaltou. TERRAMÉRICA: Existe a percepção de que alguns governos da América Latina lidam com um duplo padrão: assinam instrumentos internacionais para proteger os direitos indígenas, mas não aplicam medidas para respeitá-los. Concorda com essa ideia? JAMES ANAYA: Considero um avanço que quase todos os países latino-americanos tenham votado a favor da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e ratificado o Convênio 169. São passos importantes. Agora falta implantar esses processos, mas é muito complexo. Os Estados têm que fazer esforços para enfrentar o desafio. São vários os assuntos a considerar: primeiro, a educação dos funcionários estatais para entender que tais normas não são apenas de relação internacional, mas de aplicação interna porque se dirigem a povos indígenas que estão em seus territórios. O segundo é ter a vontade política para fazê-lo, e isso, às vezes, é o problema porque há várias forças políticas e econômicas a enfrentar. O terceiro é estabelecer mecanismos de colaboração com os povos indígenas para implementar as normas. TERRAMÉRICA: Um dos assuntos com mais resistências das autoridades é a implantação da consulta prévia. Como vê os critérios que estão sendo considerados pelos governos para estabelecer qual é um povo indígena com direito a ser consultado? JA: Isso varia muito nos países, depende de qual Estado. TERRAMÉRICA: Por exemplo, o Peru. JA: No Peru estão apenas começando a aplicar a lei e sua regulamentação. Sei que há todo um debate sobre o registro (dos povos indígenas), mas ainda é necessário ver como vão aplicar a lei. Espero que o façam segundo os padrões internacionais. Por outro lado, deve-se reconhecer que a consulta se baseia em direitos fundamentais que de alguma forma se aplicam a todos. No caso dos povos indígenas, por suas características, se trata de procedimentos diferenciados e especiais. Não é questão de considerações abstratas, é preciso ver no terreno. TERRAMÉRICA: Falando de casos concretos, no Peru existe consenso em consultar os povos indígenas da Amazônia, mas não ocorre o mesmo quando se fala de comunidades camponesas localizadas precisamente em áreas de atividades extrativistas. JA: Sempre se deve proteger os direitos dos povos indígenas. É preciso avançar no desenvolvimento para benefício de todos, mas protegendo os direitos indígenas. E conseguir as duas coisas é possível, não são incompatíveis. TERRAMÉRICA: Talvez esse seja o problema: os Estados considerarem que é preciso deixar de respeitar os direitos indígenas para promover o investimento privado sem suas terras... JA: O que acontece é que os modelos que existem mostram isto (os direitos e o desenvolvimento econômico) com algo incompatível. Talvez seja o caso de criar novos modelos baseados em direitos humanos, modelos que respeitem os direitos dos povos indígenas. Não é questão de frear o desenvolvimento. TERRAMÉRICA: Isso que parece tão simples de entender gera resistências. JA: Há muita polarização entre as partes e seria preciso dialogar mais. TERRAMÉRICA: Acredita que o Estado perde soberania se um povo indígena tem a última palavra sobre realizar, ou não, um projeto de investimento em seu território? JA: O Estado não perde soberania se respeita os direitos humanos ou os direitos indígenas. Tem que acatar estas normas para respeitar os direitos, o Estado não pode fazer o que quer. Eu diria que o respeito destes direitos é uma forma de garantir que esta soberania seja exercida. Quando o Estado respeita os direitos humanos, exercita sua soberania porque favorece os cidadãos e os povos. TERRAMÉRICA: Mas existe uma perda de confiança nos governantes. Como garantir processos de consultas legítimas que permitam destravar o debate? JA: É necessário superar a desconfiança, os preconceitos. Trata-se de criar processos abertos, nos quais os povos indígenas possam opinar, influir nas decisões e haja boa vontade para buscar consensos. O que acontece é que às vezes acredita-se que o consentimento é dizer sim ou não, e quem ganha. O consentimento está vinculado à consulta, da consulta com finalidade de chegar a um consentimento, a um consenso. Não é questão de uma parte impor sua opinião à outra. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Entre vaivéns avança primeira consulta aos indígenas do Peru, em espanhol Estreia a consulta a indígenas na Amazônia petroleira Indígenas somam críticas a regulamentação da lei de consulta – 2012, em espanhol Defesa do território indígena ausente na conferência de Darwin, em espanhol Viagem ao centro dos saberes e da tradição ancestral Conferência dos guardiões da terra e do mar Direitos indígenas – Cobertura especial da IPS, em espanhol Conferência da Rede Indígena Mundial, em inglês Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, pdf em espanhol Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Milagros Salazar*
Rã cutín (Pristimantis orcesi), espécie que habita o páramo equatoriano. Foto: Amphibian & Reptile Conservation/Página no Facebook Ambiente

TERRAMÉRICA – No vórtice da mudança climática

[caption id="attachment_88750" align="alignleft" width="340" caption="Rã cutín (Pristimantis orcesi), espécie que habita o páramo equatoriano. Foto: Amphibian & Reptile Conservation/Página no Facebook"][/caption]  Os páramos do Equador, os mais extensos da América do Sul, estão desaparecendo. Quito, Equador, 3 de junho de 2013 (Terramérica).- Os páramos do Equador, fontes cruciais de água, dão sinais de fragilidade extrema para sustentar a sobrevivência de suas espécies e a conservação do precioso recurso hídrico. O páramo é um ecossistema de alta montanha (entre 3.200 e 4.200 de altitude) e um dos mais vulneráveis do Equador. A ameaça provém das alterações climáticas, do desmatamento e das mudanças no uso do solo. O sapo jambato negro (Atelopus ignescens) já desapareceu dos páramos, e teme-se pela sobrevivência de várias espécies de mamíferos. A ciência descreve o páramo como “uma esponja” orgânico-mineral, que armazena grande quantidade de água doce e a libera de forma contínua, fornecendo recursos hídricos e impedindo grandes variações nos caudais dos rios. Contudo, o páramo tem capacidade limitada para recuperar sua estrutura e biodiversidade originais, explicou ao Terramérica o fundador da organização científica EcoCiência, Patricio Mena. “É intrinsecamente muito frágil, por isso qualquer intervenção, e mesmo chuvas e ventos, causam efeitos notáveis no curto, médio e longo prazos. Portanto, é preciso tratá-lo de uma maneira muito suave”, acrescentou. Os páramos vão desaparecendo ou simplesmente são absorvidos pela permeabilidade dos solos vulcânicos, conforme foi dito no VII Seminário Ibero-Americano de Jornalismo Científico, realizado nos dias 16 e 17 de maio na cidade de Loja. Uma questão delicada é sua “exploração como zona petrolífera”, disse ao Terramérica nessa reunião o espanhol Seber Ugarte, professor de comunicação da Universidade Abat Oliba CEU e pesquisador convidado da Universidade Técnica Particular de Loja (UTPL). Por isso é importante “preservar estes ecossistemas em função dos recursos hídricos, bioenergéticos e sua biodiversidade, acima de interesses econômicos e políticos”, pontuou Ugarte. Por sua vez, Mena apontou que o páramo é provedor hídrico de comunidades indígenas e das grandes cidades. Quito “depende quase 100% das águas geradas e armazenadas nos páramos vizinhos”, ressaltou. Um estudo do Projeto Páramo Andino (PPA) afirma que 18 das 24 províncias equatorianas têm páramos. Os mais importantes são os de Napo, no centro-norte, e os de Azuay e Morona Santiago, no sul. O PPA foi uma iniciativa, concretizada em 2012, do Fundo para o Meio Ambiente Mundial e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Foi aplicado no Equador, Venezuela, Colômbia e Peru, onde foram realizados trabalhos de pesquisa e manejo participativo das comunidades. A Ecociência foi a contraparte equatoriana. De acordo com o documento Distribuição Espacial, Sistemas Ecológicos e Caracterização Florística dos Páramos no Equador, estes ecossistemas ocupam 1,33 milhões de hectares, cerca de 5% do território nacional. Aproximadamente 40% dos páramos estão protegidos. A maior superfície que goza desse status fica no Parque Nacional Sangay, nas províncias de Morona Santiago, Tungurahua, Chimborazo e Cañar, com 261.062 hectares. Dos 60% restantes, 30% encontram-se sob intervenção e 30% estão degradados. Porém, Mena, que integrou a equipe do PPA, opinou que “é difícil precisar uma porcentagem” ou calcular um número exato de hectares degradados. Teria que se considerar que “todo o páramo está afetado, porque a mudança climática afeta todo o ecossistema”, afirmou. Contudo, os páramos da cordilheira oriental, por serem mais úmidos e estarem intactos em sua biodiversidade original, têm maior capacidade de responder a alterações ambientais, enquanto os ocidentais estão mais afetados. Por isso Mena prefere falar de um “mosaico que vai de páramos perfeitamente bem conservados até ecossistemas em profundo estado de degeneração que praticamente se converteram em desertos muito frágeis, como os páramos secos da província de Chimborazo”. Os páramos deste país se caracterizam por uma fauna e flora endêmicas. Há cinco espécies de répteis, 24 de anfíbios e 88 de aves, das quais 24 são únicas do lugar. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos, há 565.858 hectares cultiváveis nos páramos, 4,85% dos 11,6 milhões de hectares da superfície agropecuária nacional. Por outro lado, “a superfície de páramo entregue em concessão para atividade mineradora diminuiu ostensivamente, de 40,46% em 2008 para 12,53% em 2009”, disse ao Terramérica o engenheiro Fausto López, do Departamento de Ciências Naturais da UTPL. Essas concessões se concentram no sul, nas províncias de Azuay, Loja e Zamora Chinchipe. López acredita que “o custo ambiental é alto, devido à ameaça ao habitat de espécies de flora e fauna”. As mais suscetíveis são “a anta de montanha, o urso de óculos e o lobo do páramo, além de anfíbios”, afirmou. Como estas espécies exigem amplas áreas para sua sobrevivência, “a estratégia de corredores ou redes de áreas protegidas é uma das melhores para conservá-las”, ressaltou o engenheiro. Entretanto, o biólogo e pesquisador da UTPL Carlos Iván Espinosa observou que “um problema nos trópicos é a falta de informação histórica sobre espécies e inclusive sobre o comportamento do clima”. E “existem muitas espécies que ainda não foram descritas e que podem estar desaparecendo pelos efeitos da mudança climática”, acrescentou. O grande desafio é conscientizar de que “o páramo está todos os dias em nossa vida de uma maneira indireta, mas fundamental: por meio da água”, ressaltou Mena. Envolverde/Terramérica. * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Páramos peruanos em desamparo legal – 2010, em espanhol Cartografando a riqueza dos Andes tropicais – 2009, em espanhol Distribuição espacial, sistemas ecológicos e caracterização florística dos páramos no Equador, PDF em espanhol VII Seminário Ibero-Americano de Jornalismo Científico, em espanhol EcoCiência, em espanhol Projeto Páramo Andino, em espanhol Fundo para o Meio Ambiente Mundial, em inglês Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em espanhol e inglês Universidade Técnica Particular de Loja, em espanhol Parque Nacional Sangay, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Leisa Sánchez*
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ECOBREVES

Cuba: Indústria do níquel aposta na secagem natural Chile: Criticada sanção contra Pascua Lama Venezuela: Planta-se árvores e desmata-se florestas   *************************************** CUBA - Indústria do níquel aposta na secagem natural Havana, 3 de junho de 2013 (Terramérica).- A estatal Empresa Produtora de Níquel e Cobalto Comandante Ernesto Che Guevara, do município cubano de Moa, aplicará a secagem natural a partir de 2014 para reduzir o consumo de energia na produção metalúrgica. “A secagem ao Sol do material extraído das minas a céu aberto, antes de passar para a indústria, faz a umidade diminuir até 10%”, explicou ao Terramérica o diretor do Centro de Estudo de Energia e Tecnologia Avançada (Ceetam), Yoalvis Retirado. Também diminuirá a quantidade de hidrocarbono usado nessa fase e, portanto, as emissões de gases-estufa, acrescentou. O Ceetam e o Centro de Pesquisa do Níquel acumulam desde a década de 1990 resultados científicos que avalizam a incorporação desta técnica ecológica em escala industrial. Envolverde/Terramérica   *************************************** CHILE - Criticada sanção contra Pascua Lama Santiago, 3 de junho de 2013 (Terramérica).- A sanção que as autoridades do Chile impuseram à mineradora canadense Barrick Gold é “socioambientalmente criminosa”, segundo grupos ecologistas. A autoridade ambiental chilena aplicou à companhia multa de US$ 16,4 milhões, por descumprimento ambiental “gravíssimo”, que causou danos irreparáveis em seu projeto aurífero Pascua Lama, e ordenou sua paralisação temporária. Entretanto, segundo os ambientalistas, a medida desconhece o histórico de denúncias e sanções e a voz de organizações que por mais de dez anos denunciaram a inviabilidade do projeto localizado na fronteira entre Chile e Argentina. “Manter funcionando um projeto incompatível com a zona alta da Cordilheira dos Andes e suas geleiras nos parece criminoso”, disse ao Terramérica o diretor do Observatório Latino-Americano de Conflitos Ambientais, Lucio Cuenca. “Existem antecedentes para revogação da autorização ambiental de todo o projeto”, acrescentou. Envolverde/Terramérica   *************************************** VENEZUELA - Planta-se árvores e desmata-se florestas Caracas, 3 de junho de 2013 (Terramérica).- A governamental Missão Árvores plantará 20 milhões de árvores nos próximos dois anos, informou o ministro do Meio Ambiente da Venezuela, Dante Rivas. Desde o início do programa de reflorestamento, em 2006, foram plantados mais de 27 milhões de exemplares em mais de 34 mil hectares. Rivas e o ministro da Defesa, Diego Molero, abriram a campanha plantando um ipê-amarelo (Tabebuia chrysantha), a árvore nacional, na montanha Waraira Repano que separa Caracas do Mar do Caribe. Porém, o programa “recupera entre 2% e 4% da superfície desmatada da Venezuela na última década”, disse ao Terramérica o professor de ciências florestais Julio César Centeno, da Universidade de Los Andes. “A destruição de florestas avançou a uma taxa de 140 mil hectares por ano”, ressaltou Centeno. Envolverde/Terramérica   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

O Lago Botella, uma zona da austral Ilha Riesco, acessível apenas por mar, que foi habitada por indígenas. Ambiente

TERRAMÉRICA – Outra batalha energética

[caption id="attachment_88165" align="alignleft" width="340" caption="O Lago Botella, uma zona da austral Ilha Riesco, acessível apenas por mar, que foi habitada por indígenas. Foto: José Antonio de Pablo/IPS"][/caption] A exploração de carvão de baixa qualidade em uma área austral abre nova frente na guerra social e ambiental que vive o complexo setor energético do Chile. Santiago, Chile, 27 de maio de 2013 (Terramérica).- Um megaprojeto de exploração de cinco jazidas de carvão a céu aberto acontece na chilena Ilha Riesco, no extremo sul da América do Sul, habitat de cervos, pumas, baleias-jubarte e mais de cem espécies de aves. A Ilha Riesco fica no limite sul da Patagônia chilena, na margem norte do Estreito de Magalhães. As minas Invierno, Elena, Área Oeste, Adele e Río Eduardo formam o investimento da Companhia de Petróleo do Chile (Copec) e da empresa de navegação Ultramar para realizar uma das explorações carboníferas de maior envergadura na América Latina. A primeira mina foi aprovada pelo Serviço de Avaliação Ambiental da região de Magalhães no dia 15 de fevereiro de 2011 e ratificado em agosto do mesmo ano pelo Conselho de Ministros para a Sustentabilidade, apesar de mais de 1.500 observações apresentadas por organizações ecologistas e da sociedade civil. A mina Invierno, que já está funcionando, representa investimento de US$ 530 milhões para extrair cerca de seis milhões de toneladas de carvão por ano. De acordo com estudos preliminares, suas reservas totais somam 73 milhões de toneladas, permitindo uma operação contínua durante pelo menos 12 anos. Ilha Riesco fica mais de três mil quilômetros ao sul de Santiago. Sua superfície de cinco mil quilômetros quadrados faz dela a quarta maior ilha do Chile. Abriga a reserva nacional Alacalufes, com grande parte de território virgem, além de populações de cervos, pumas e 136 espécies de aves, muitas delas em perigo de extinção. Suas costas são habitat de quatro espécies de golfinhos, pinguins e da baleia-jubarte, que se alimenta no Parque Marinho Francisco Coloane, próximo à ilha. Tem pouco mais de 150 habitantes, divididos em 30 propriedades, que vivem da pecuária ovina e bovina, do turismo de aventura, de observação e rural, da pesca e da piscicultura. No entanto, a região de Magalhães possui a principal reserva carbonífera do Chile, estratégica para um país cuja demanda energética está em alta e que depende das importações. Porém, a ecologista Ana Stipicic, porta-voz do grupo Alerta Ilha Riesco, disse ao Terramérica que se trata de um carvão de má qualidade. “É um carvão sub-betuminoso B e C, de baixa lei e poder calorífico, por isso deve ser queimada maior quantidade para obter o calor necessário e é um dos mais contaminantes”, acrescentou. “O carvão da Ilha Riesco quebra facilmente, o que provocará toneladas de dispersão de pequenos pedaços de carvão no meio ambiente”, alertou Ana. A mina Invierno, a céu aberto, é um grande buraco de quase 500 hectares e 180 metros de profundidade. Afeta de forma mais direta uma área de 1.500 hectares, que inclui a parte perfurada e três locais de depósito para resíduos de 60 metros de altura. O projeto conta com um porto, que já funciona, onde são feitos trabalhos de trituração, armazenamento, carga e transporte do carvão. A empresa Minera Isla Riesco – cujos acionistas são a Copec e a Ultramar – realizou, no dia 22 de março, seu primeiro carregamento-teste no porto, com resultados desastrosos, segundo Ana. Enquanto eram carregadas 30 mil toneladas de carvão, inesperadamente começou a emanar uma cortina de pó negro que cobriu o navio Tatio. Os executivos da mineradora admitiram que o fato passou “uma imagem desastrosa e indesejada”. O gerente de Sustentabilidade, José Manuel Aguirre, atribuiu o problema a uma série de más coincidências do sistema de carga. O carvão foi igualmente despachado para centrais termoelétricas do norte do Chile e para a Europa, embora a Ásia seja o mercado que absorverá entre 40% e 50% da produção da mina. A deputada por Magalhães, Carolina Goic, do opositor Partido Democrata Cristão, garantiu ao Terramérica que o episódio evidenciou os pontos negativos do projeto e confirmou parte dos temores de seus críticos. Nós, os legisladores da região, “fiscalizamos as normas ambiental e trabalhista, que aponta vários compromissos estabelecidos pela empresa que não são cumpridos”, afirmou. Estes descumprimentos provocaram, por exemplo, uma prolongada greve dos trabalhadores da mina, apontou. No dia 2 deste mês, a empresa anunciou em seu site um segundo carregamento-teste, que aconteceu “com toda normalidade e altos padrões ambientais”. Ana denunciou erros no estudo de impacto ambiental da mina Invierno porque, em um informe de seis mil páginas, “omitiu uma boa análise do tipo de carvão que será extraído e a soma de todos os impactos que o projeto terá”. A ativista acrescentou que “o modelo de dispersão de contaminantes foi realizado para rajadas de vento uma média de 30 quilômetros por hora, mas em Magalhães, somente na semana passada, tivemos ventos de quase 180 quilômetros por hora”. Flavia Liberona, da Fundação Terram, disse ao Terramérica que a Ilha Riesco é “uma região de ecossistemas únicos, valiosos, primitivos e, portanto, o impacto da mineração, mesmo pensando que estamos no primeiro projeto, é gravíssimo”. Além disso, acrescentou, “há antecedentes de que todo este carvão, que será transportado por embarcação, também vai gerar um nível de acidificação das águas da costa”, advertiu. Estima-se que o carvão da Ilha Riesco abastecerá 30% da demanda nacional deste mineral. Atualmente funcionam 13 centrais termoelétricas movidas a carvão, outras dez estão sendo construídas, e mais cinco aguardam aprovação dos respectivos projetos. “Nossa matriz energética está carbonizada”, opinou Ana. Com a capacidade instalada e em construção, o país chegará a 55% de geração elétrica à base de carvão, um dos hidrocarbonos cuja combustão libera mais gases-estufa. “É muito”, destacou. Porém, é possível melhorar o consumo de carvão e de outros combustíveis sólidos mediante uma normativa que regule as usinas termoelétricas, “mas isso não existe no Chile”, ressaltou Flavia. O Alerta Isla Riesco apresentou uma demanda judicial que busca paralisar a mina Invierno. “Entramos com processo contra a mina, a ministra do Meio Ambiente (María Ignacia Benítez), por ser a presidente do Conselho de Ministros, e o governador de Magalhães (Mauricio Peña y Lillo), por ser o presidente da Comissão Regional do Meio Ambiente”, explicou Ana. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Desenvolvimento chileno atado à sua liderança no comércio de cobre, em espanhol Em busca de mais vida Peru, ameaça infundada no horizonte mineiro do Chile, em espanhol Chile discute quem controla o lítio, em espanhol Minera Isla Riesco, em espanhol Companhia de Petróleo do Chile, em espanhol Ultramar, em espanhol e inglês Serviço de Avaliação Ambiental de Magalhães, em espanhol Conselho de Ministros para a Sustentabilidade, em espanhol Alerta Ilha Riesco, em espanhol Fundação Terram, em espanhol e inglês   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Marianela Jarroud*
Um prato delicioso que honra uma cenoura “diferente”. Foto: Cortesia Culinary Misftis Ambiente

TERRAMÉRICA – Ao resgate das hortaliças feias

[caption id="attachment_88171" align="alignleft" width="340" caption="Um prato delicioso que honra uma cenoura “diferente”. Foto: Cortesia Culinary Misftis"][/caption] Cozinhar com verduras saudáveis, mas com formas antiestéticas, segundo critério dos supermercados, é uma das muitas formas de reduzir o alarmante desperdício de alimentos. Berlim, Alemanha, 27 de maio de 2013 (Terramérica).- As críticas e o grito de alerta pelo desperdício de comida na Europa, por parte da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e de numerosas entidades não governamentais, parecem gerar seus primeiros efeitos, sobretudo em iniciativas privadas. Em Berlim, Tanja Krakowski e Lea Brumsack, especializadas em desenho de produtos e convertidas em cozinheiras, criaram a Culinary Misfits (algo como “inadaptados culinários”) para promover o consumo de vegetais que, por sua aparência, não se enquadram nos critérios estéticos que imperam em supermercados e grandes lojas de alimentação. Esses tubérculos, hortaliças e outras verduras “não aptas” para o consumo são abobrinhas muito grandes, batatas com formas variadas, como um coração, repolho cujas primeiras folhas foram destruídas por excesso de umidade, ou cenouras com duas ou mais raízes. Embora sejam alimentos em bom estado e de boa qualidade, são descartados para a venda. “Os habitantes das cidades adotaram critérios de consumo completamente equivocados”, opinou Christian Heynmann, um agricultor próximo à cidade de Berlim. “Uma abobrinha não pode ser maior do que a palma da mão, um repolho com folha marcada pelo excesso de umidade não é comestível e cenouras com três raízes curtas em lugar de uma longa e perfeitamente cônica não têm lugar na cozinha”, afirmou Christian. “Porém, se você abre e come uma abobrinha de 30 centímetros e a compara com outra de dez da mesma colheita, ou uma cenoura com três raízes com outra longa e cônica, verá que têm o mesmo aspecto e o mesmo sabor”, ressaltou ao Terramérica. Christian colabora com Tanja e Lea fornecendo vegetais que de outra forma descartaria, porque os supermercados e as lojas especializadas não os aceitam para venda. “Criamos a Culinary Misfits para usar estes produtos descartados no cotidiano da cozinha, e mostrar ao público o verdadeiro rosto da natureza, além de desmentir essa falsa concepção que impera na cidade de que os bons vegetais têm de ser simétricos, pequenos e redondos”, detalhou Tanja ao Terramérica. “Queremos que as pessoas aprendam a comer toda a colheita”, acrescentou. “Não somos cozinheiras profissionais, mas podemos demonstrar ao nosso público que é possível preparar pratos deliciosos com vegetais que não têm boa aparência”, explicou Lea. “Nossa intenção é recriar uma cultura culinária sustentável”. Lea, Tanja e Christian são apenas três rostos deste movimento emergente na Europa, que se rebela diante da insensatez do desperdício de alimentos. Muitos agricultores utilizam vegetais “disformes” para elaborar sucos ou vender para restaurantes vinculados a redes de supermercados. Tal movimento parece resultado, entre outros, do alarme que causou o informe Perdas e Desperdício de Alimentos no Mundo, que a FAO divulgou em maio de 2011. “Cerca de um terço dos alimentos produzidos a cada ano no mundo para consumo humano se perdem ou é desperdiçado”, afirma o estudo. “Os países industrializados e em desenvolvimento dilapidam mais ou menos a mesma quantidade: 670 e 630 milhões de toneladas, respectivamente”. Na Alemanha são jogadas no lixo 11 milhões de toneladas de comida por ano, o que representa cerca de 135 quilos por pessoa, segundo dados do Ministério de Proteção dos Consumidores de março de 2012. Cada pessoa em sua casa descarta aproximadamente 81,6 quilos, e o restante é jogado no lixo pela indústria, pelo comércio e por grandes consumidores, acrescenta o Ministério. Frutas e hortaliças, além de raízes e tubérculos, são os alimentos que mais se joga fora. Com a crise econômica europeia, multiplicaram as pessoas, sobretudo jovens, que recuperam alimentos em bom estado dos depósitos de lixo de supermercados e restaurantes. Isto fez com que governos e organizações supranacionais lançassem campanhas de conscientização. O comissário da União Europeia (UE) para o Meio ambiente, Janez Potočnik, alertou que, se não houver mudança em seus hábitos alimentares e de escolha de seleção de comestíveis, o bloco poderá desperdiçar mais de 120 milhões de toneladas de alimentos em 2020, 30% da produção regional. Porém, o desperdício de comida foi detectado muito antes. Em 2007 teve início na Grã-Bretanha a campanha Love Food Hate Waste (Ame a Comida, Odeie o Desperdício), conduzida por uma entidade sem fins lucrativos e financiada pelos governos de Escócia, Gales, Inglaterra e Irlanda do Norte, em cooperação com empresas e organizações não governamentais. A iniciativa inclui um rigoroso inventário de alimentos jogados no lixo diariamente nos restaurantes. Como consequência, muitos desses comércios modificaram rotinas e começaram a reduzir o tamanho dos pratos e das guarnições. Alguns restaurantes, em particular aqueles especializados em serviço de bufês, e que baseavam sua promoção na generosidade das porções, passaram a cobrar um adicional dos clientes que não consomem totalmente os pratos dos quais se servem. Esses passos e o efeito da inflação alimentar parecem colaborar. Segundo dados do Waste & Resources Action Programme (WRAP – Programa de Ação Sobre Recursos e Resíduos), administrado pela Love Food Hate Waste, o desperdício de alimentos e bebidas nos lares britânicos passou de 8,3 milhões de toneladas para 7,2 milhões, entre 2008 e 2011. A quantidade de alimentos que não foi desperdiçada “tem um volume semelhante ao que seria necessário para encher o estádio de Wembley até o último degrau”, disse ao Terramérica o diretor de projeto e prevenção de resíduos da WRAP, Richard Swannell. Entretanto, o desperdício e a quantidade de lixo, especialmente de embalagens de comestíveis, seguem sendo enormes, advertiu Richard. “O lixo afeta toda a cadeia de fornecimento, por isso temos que trabalhar com todas as empresas e com os consumidores para reduzir embalagens sem afetar a qualidade e o frescor dos alimentos”, acrescentou. Em outras palavras, não basta comer toda a colheita; também é preciso revolucionar a comercialização, reduzir embalagens e reeducar o público, para que compre somente a quantidade de comida que de fato necessita. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Comida não se descarta, em espanhol Desperdício de água “comestível” ameaça o planeta O planeta sufoca Alimentação e agricultura – Cobertura especial da IPS, em espanhol Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em espanhol Culinary Misfits, em alemão Informe da FAO Perdas e Desperdício de Alimentos no Mundo, em espanhol Love Food Hate Waste, em inglês Dados do WRAP sobre Grã Bretanha, em inglês   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Julio Godoy*

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