TERRAMÉRICA - Lições de uma década singular

Agronegócio

TERRAMÉRICA – Lições de uma década singular


por José Graziano da Silva*


Uma oferta abundante de alimentos não é garantia de segurança alimentar; e o grande negócio agrícola chegou para ficar, alerta neste artigo o brasileiro José Graziano da Silva. Roma, Itália, 1 de outubro de 2012 (Terramérica).- A superação da pobreza e da fome não pode perder tempo em escalas. São urgentes as iniciativas públicas e privadas: não se pode prescindir da agricultura familiar e tampouco do chamado agronegócio. Cabe aos governos e à cooperação internacional harmonizar esse esforço ecumênico para que os ganhos da oferta se traduzam em redução de carências. Os destinos humanos estão em jogo. A forma como uma sociedade enfrenta este desafio define não somente a sorte dos que vivem do lado de fora da cidadania. Ela contribui para ordenar o modelo de desenvolvimento e influi nas relações entre mercado, Estado e democracia. Não são opções teóricas nem ideológicas as que devem nos guiar nestas decisões. O melhor critério para avaliar estas escolhas é ouvir a voz da experiência. A América Latina tem, por exemplo, um avançado campo de provas sobre a necessária convivência entre grandes e pequenos agricultores. Dez anos de políticas sociais e produtivas em um entorno de expansão econômica criaram um repertório singular na trajetória regional. Até que ponto esse impulso combinado gerou uma aderência estrutural desejável para desmontar o ciclo de reprodução da pobreza? A pergunta e sua resposta são de interesse para a agenda mundial de luta contra a fome e a miséria. Na década de 1980 o fim de um ciclo de liquidez internacional desnudou a fragilidade do modelo latino-americano de crescimento econômico. Na década seguinte, a adesão ao cânon da autossuficiência dos mercados expôs as economias regionais a sucessivos episódios de colapso financeiro e desmentiu a existência dos contrapesos autorreguláveis que o laissez-faire prometia. O custo social foi devastador: 31 milhões de latino-americanos caíram na miséria na década de 1990. A contabilidade de perdas e danos deu lugar a políticas retificadoras, que foram progressivamente incorporadas à agenda regional de desenvolvimento. Um dado resume o alcance desse novo contexto: um em cada cinco habitantes da América Latina e do Caribe, cerca de 113 milhões de pessoas, participa hoje de programas de transferência condicionada de renda. Embora inconclusa, esta travessia teve um efeito amortizador dos impactos da crise mundial iniciada em 2007. O produto interno bruto regional por pessoa retrocedeu 3% em 2009. Contudo, ao contrário do que ocorria em outras crises, desta vez o saldo dos avanços não se pulverizou: 41 milhões de pessoas deixaram a pobreza e 26 milhões escaparam do torniquete da miséria desde 2002. Apenas nove milhões retrocederam aos graus que haviam superado. Ainda persistem fragilidades estruturais, que favorecem retornos de miséria e fome, sobretudo no espaço que concentra o núcleo duro da exclusão regional: o universo rural. O contingente dos que vivem na miséria hoje representa cerca de 13% da população regional: 35 milhões no espaço rural e outros 35 milhões nas cidades. Porém, a aparente simetria é enganosa. A indigência rural equivale a uma porção de 30% dos habitantes do campo, proporção quase quatro vezes maior do que a urbana, de 8%, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Os dados radiografam uma realidade que desautoriza ilusões sobre a eficácia dos automatismos econômicos para corrigir a iniquidade social. Entre 1980 e 2010, mas sobretudo na primeira década deste século, as exportações agrícolas da região se catapultaram a sucessivos recordes de preços e volumes, impulsionadas pela demanda mundial de produtos básicos. Em meio a este ciclo, no entanto, a pobreza rural apresentou uma queda insignificante na América Latina e no Caribe: de 60% em 1980, para 53% em 2010. Isto é o que mostra o estudo Boom Agrícola e Persistência da Pobreza Rural, realizado em conjunto pela Cepal, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). O fato de a maior proporção de população miserável viver no campo nos coloca diante de dois registros paralelos. E ambos são corretos. Primeiro, uma oferta abundante não é garantia de segurança alimentar nem mesmo para os que vivem em seu entorno físico. Segundo, o grande negócio agrícola chegou para ficar, ocupa um papel estratégico na geração de divisas nos países em desenvolvimento e é imprescindível para o abastecimento mundial. No entanto, na América Latina e no Caribe, o agronegócio demonstrou mais uma vez que a oferta não é sinônimo de acesso. A fome pode conviver perversamente com a abundância. Este paradoxo evidencia a relevância de consolidar uma terceira perna para harmonizar o conjunto. Este atributo pertence às políticas públicas. A elas cabe consolidar os direitos trabalhistas no campo, erradicar a precariedade, respeitar a posse dos pequenos proprietários, realizar e incentivar investimentos que promovam a segurança alimentar dos vulneráveis, derrubar as barreiras de gênero, fomentar a produção familiar, formar cooperativas em pequena escala e elevar a produtividade para gerar excedentes, renda e abastecimento do mercado interno. A coagulação da pobreza e da fome no campo latino-americano e caribenho não é um fenômeno estranho, razão pela qual as lições da experiência regional têm um alcance mais amplo. De quase 900 milhões de pessoas que sofrem fome no planeta, 75% vivem em zonas rurais. Entretanto, a vulnerabilidade de quem gravita em torno da terra é maior. Um terço da população mundial esta constituído por pequenos agricultores que trabalhem áreas inferiores a dez hectares: apenas 2% estão modernizados e mais de 70% contam apenas com a força de seus músculos como única ferramenta. No Século 21, a agricultura ainda é o principal empregador do mundo, e 40% da humanidade gira em torno dela. Portanto, a agenda latino-americana de combate à fome e à pobreza faz eco de carências transcontinentais. O mesmo se pode dizer do requisito de políticas públicas para estender para o campo os direitos trabalhistas, o fomento e a cidadania. Envolverde/Terramérica. * José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). LINK Boom agrícola e persistência da pobreza rural, pdf em espanhol Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  

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Brasil: Perda de 80% de arrecifes de coral Honduras: Comunidades vencem a seca Uruguai: Azeite de oliva de qualidade   ********************************************* BRASIL - Perda de 80% de arrecifes de coral Rio de Janeiro, 1 de outubro de 2012 (Terramérica).- Nos últimos 50 anos, o litoral do Brasil perdeu 80% de seus arrecifes de coral, afirma um estudo feito entre 2002 e 2010 pela Universidade Federal de Pernambuco e pelo Ministério do Meio Ambiente. O estudo, divulgado no final de setembro no VII Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, comparou dados obtidos nos últimos anos com os de pesquisas anteriores. “As principais causas dessa degradação são contaminação, sedimentação provocada pelo desmatamento e efeitos da mudança climática”, explicou a coordenadora do projeto, Beatrice Padovani Ferreira, ao Terramérica. “A extração dos arrecifes para produzir cal, feita com picaretas ou explosivos, e frequente na década de 1980, também ocasionou grande parte dessa destruição”, acrescentou. Apesar da grave deterioração, algumas áreas ainda mantêm boa cobertura de corais, segundo o Projeto de Monitoramento de Recifes de Coral no Brasil”. Envolverde/Terramérica.   ********************************************* HONDURAS - Comunidades vencem a seca Tegucigalpa, 1 de outubro de 2012 (Terramérica).- Três comunidades camponesas do departamento de Choluteca, no sul de Honduras, se destacam pelas boas práticas que adotaram, em um programa promovido pela FAO, para resistir à seca e adaptar-se à mudança climática. Os habitantes de El Obrajito, Caulote e San Juan Bosco,  no município de San Isidro, trabalham, com orientação, em manejo e conservação de águas e solos, cultivando grãos básicos, desenvolvendo um banco de sementes e mercearias. Graças a essas práticas, a seca, pelo prolongado verão deste ano, não impediu as colheitas de batata, mandioca, cebola, chili e outros legumes, contou ao Terramérica uma das beneficiárias do projeto, Suyapa Baquedano. Agora os camponeses registram em um livro os dias de chuva e a quantidade de água para prevenir e armazenar o líquido em grandes depósitos, acrescentou. O programa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) tem por objetivo a segurança alimentar e funciona há três anos. Envolverde/Terramérica.   ********************************************* URUGUAI - Azeite de oliva de qualidade Montevidéu, 1 de outubro de 2012 (Terramérica).- O azeite de oliva extra virgem do Uruguai, uma agroindústria com menos de uma década de auge, já está entre as dez melhores do mundo, segundo um ranking de qualidade de empresas que participam de concursos internacionais. A qualidade “tem a ver com o cuidado na elaboração do azeite”, explicou ao Terramérica o presidente da Associação de Olivicultura Uruguaia, Daniel Davidovics. “É preciso tratar bem a azeitona e levá-la à unidade processadora em menos de 24 horas após a colheita. Como os vinhos, os azeites mais cuidados são os monovarietais ou bivarietais”, acrescentou. Na última colheita, correspondente ao outono austral, o Uruguai produziu 550 mil litros, um importante aumento em relação aos 120 mil litros da temporada anterior. No ano passado, o Uruguai consumiu 1,3 milhão de litros de azeite de valiosas propriedades para a saúde, dos quais 1,2 milhão foram importados, informou Davidovics. Envolverde/Terramérica.   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  

Terreno onde o Movimento de Desempregados de Málaga plantou duas mil mudas de estévia. Foto: Inés Benítez/IPS Mundo

TERRAMÉRICA – Estévia, um negócio que prospera

[caption id="attachment_66347" align="alignleft" width="340" caption="Terreno onde o Movimento de Desempregados de Málaga plantou duas mil mudas de estévia. Foto: Inés Benítez/IPS"][/caption] A estévia, um adoçante natural com notáveis propriedades para a saúde, pode criar oportunidades de renda na deprimida economia espanhola. Málaga, Espanha, 24 de setembro de 2012 (Terramérica).- Em uma área de poucos quilômetros da cidade de Málaga, ao sul da Espanha, crescem duas mil mudas de estévia, um arbusto herbáceo que os indígenas guaranis usaram durante séculos como adoçante natural e que desperta cada vez mais interesse na Espanha. A estévia (Stevia rebaudiana bertoni) ou erva doce, como a chamam os guaranis, é originária da Cordilheira de Amambay, entre Paraguai e Brasil. Os glicósidos extraídos da planta, esteviósido e rebaudiósido A, adoçam 300 vezes mais do que o açúcar, não têm calorias e são aptos para diabéticos, segundo vários estudos. “Esta área é um teste-piloto para ver como evolui, recopilar nossos próprios dados e ganhar experiência”, descreve Diego López, do Movimento de Desempregados de Málaga, que promove o projeto entre pessoas sem trabalho. A China é o maior produtor e consumidor mundial desta alternativa aos adoçantes artificiais. Também é origem da maior parte dos extratos da planta exportados para outros países, confirma a Associação Europeia da Estévia (Eustas). A estévia também é cultivada em grandes áreas no Paraguai, Chile e Colômbia. E na Espanha começam a surgir plantações. Enquanto rega ao cair da tarde um terreno de 300 metros quadrados, López, formado em ciências do mar, assegura que “a estévia tem mais potencial do que parece”. Este projeto, acredita, pode animar os agricultores da província a plantá-la. Há alguns anos a estévia se limitava a determinados coletivos da população espanhola, como os diabéticos. “Saltou para o grande público” em 2011, quando foi autorizada sua comercialização como aditivo em diversos alimentos, explicou ao Terramérica o membro da Eustas, José Cruz Cavero. No dia 2 de dezembro do ano passado, a Comissão Europeia autorizou o uso dos glicósidos de esteviol extraídos das folhas como ingrediente alimentar. A Eustas, entidade sem fins lucrativos que reúne acadêmicos, empresas fabricantes e importadoras, foi a primeira a solicitar o uso da estévia como aditivo alimentar, no dia 26 de setembro de 2007, junto à Autoridade Europeia de Segurança Alimentar. Devido a esta aprovação, as empresas norte-americanas Coca-Cola e Cargill registraram cerca de 20 patentes para uso dos extratos de setévia em seus produtos. Mediante uma aliança de distribuição com a Cargill, a Açucareira Espanhola introduziu este ano no mercado deste país o adoçante de mesa Truvía, que tem apenas 1% de estrato de estévia e o restante de eritritol, um poliálcool edulcorante. O resultado da extração de glicósidos da planta deve ser um produto contendo no mínimo 95% de esteviósido, segundo as normas aprovadas pela União Europeia, disse ao Terramérica o químico Andrés García-Granados, da empresa SteviGran e professor na Universidade de Granada. A SteviGran, criada em 2010, com plantações no centro paraguaio e em Granada, sudeste espanhol, desenvolveu uma biofábrica “para produzir mudas de forma maciça” e conta com 20 produtos derivados, disse García-Granados. “A demanda por estévia é explosiva”, destaca Miguel Arrillaga, dono da empresa De Pr1mera, de Málaga, que conta com cerca de dois milhões de plantas em várias localidades do sul espanhol e fatura mensalmente mais de US$ 26 mil com a venda de folhas secas, extrato líquido e em pó, cápsulas e geleia. A De Pr1mera foi criada há 11 meses e tem 15 hectares plantados de estévia, mas importa o extrato em pó da China e do Paraguai. “O próximo passo é instalar uma unidade de extração de esteviósido no sul, e com procedimento ecológico”, disse Arrillaga, um engenheiro de telecomunicações. Em uma cafeteria, o empresário segura alguns envelopes de açúcar e prevê que este logo será substituído por estévia, “porque temos alternativas naturais às impostas pelas multinacionais da alimentação” e há novas tendências de consumo. A comercialização europeia de folhas secas de estévia como novo alimento, por exemplo, em envelopes para fazer infusões, ainda não está autorizada. Essa solicitação foi apresentada em julho de 2007 ao Comitê Científico da Alimentação Humana da Comissão Europeia, mas “está parada”, disse Mónica Lorenzo, da empresa Anagalide, integrante da Eustas. Mas é possível encontrar embalagens de folhas secas em lojas de ervas e em lojas virtuais. Vários estudos avaliam seu efeito benéfico na diabete e na hipertensão e também seu poder antioxidante e bactericida. Arrillaga considera “ridículo” não ser permitida a venda das folhas como alimento, mas sim o extrato como aditivo alimentar, o que, a seu ver, beneficia as grandes empresas. “É a erva dos diabéticos”, disse ao Terramérica a encarregada de uma floricultura no centro de Málaga apontando para vários vasos nos quais cresce estévia, na porta de sua loja. A gerente da Federação de Diabéticos Espanhóis, Mercedes Maderuelo, garante que a estévia, “por ser acalórica e não conter gorduras saturadas, é uma alternativa ao adoçante artificial que foi bem aceita pelo coletivo”, com mais de 5,3 milhões de pessoas. Lorenzo disse que o “extrato verde tem maior efeito em ajudar a regular os níveis de insulina no sangue”. Especialistas consultados concordam que a estévia cristalizada da China não é segura. “Chegou-se a encontrar metais como chumbo e pesticidas”, disse o químico García-Granados. “Há muitíssima estévia no mercado, mas pouca é adequada e às vezes de má qualidade. Este é o principal problema”, alerta Lorenzo. A Eustas espera criar um banco de genes internacional que reúna informação e possa ser “material de uso para pessoas que queiram cultivar”. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS. Com colaborações de Humberto Márquez e Estrella Gutiérrez (Caracas), e Patricia Grogg (Havana). LINKS A rica erva dos guaranis O maguey adoça a economia de mulheres indígenas “O aspartame é cancerígeno, sim" Movimento de Desempregados de Málaga, em espanhol Associação Europeia da Estévia, em espanhol, inglês e alemão União Europeia autoriza glucósidos de esteviol, pdf em espanhol Solicitação da Eustas ante a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar - 2007, pdf em inglês Solicitação da Eustas ante o Comitê Científico de Alimentação Humana - 2007, pdf em inglês Federação de Diabéticos Espanhóis, em espanhol Associação Espanhola de Estévia Rebaudiana, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Inés Benítez*
Luiz Alberto de Jesus junto dos canteiros recém-plantados em seu terraço na favela Babilônia. Foto: Fabíola Ortiz/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Agricultura urbana brota nas favelas

[caption id="attachment_66338" align="alignleft" width="340" caption="Luiz Alberto de Jesus junto dos canteiros recém-plantados em seu terraço na favela Babilônia. Foto: Fabíola Ortiz/IPS"][/caption] A agricultura orgânica marca tendência nas grandes cidades do mundo e da América Latina. E as favelas brasileiras não poderiam estar ausentes. Rio de Janeiro, Brasil, 24 de setembro de 2012 (Terramérica).- Para praticar a horticultura não é preciso viver no campo. Sabem disso, desde Havana até Buenos Aires, centenas de milhares de pessoas que se dedicam à agricultura urbana. Agora a tendência chega às favelas do Rio de Janeiro. A horta pode prosperar no centro da cidade, em jardins, terrenos elevados, terraços, sacadas e varandas das casas de comunidades pobres do Brasil, as favelas. Uma iniciativa pioneira ganha força em duas delas. Babilônia e Chapéu da Mangueira, no bairro do Leme, zona sul da cidade do Rio de Janeiro. A horta faz parte do programa Rio Cidade Sustentável, realizado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que hoje tem 16 moradores que se ofereceram como voluntários para aprender, durante cinco meses, as técnicas de cultivar um canteiro doméstico. A agricultura orgânica marca tendência nas grandes cidades, disse Marina Grossi, presidente do CEBDS. “Não só pela busca de uma alimentação orgânica, mas porque encurtam distâncias e geram renda”, acrescentou. Em Cuba, a experiência tem mais de duas décadas e é um grande sucesso. No ano passado, sua colheita de hortaliças e ervas aromáticas superou um milhão de toneladas, enquanto o total nacional de produção hortense foi de 2,2 milhões de toneladas. O setor emprega cerca de 300 mil pessoas, e os produtos são vendidos sem intermediários. Também são criados animais de granja e a capacitação inclui melhoria do solo, gestão da água e manejo agroecológico de pragas. A partir de 2007, o governo cubano decidiu estender esta produção a áreas suburbanas, principalmente em pequenas propriedades organizadas em cooperativas. O Brasil, com 192 milhões de habitantes, é uma potência agropecuária mundial, impulsionada por seu dinâmico agronegócio exportador. E há apenas 120 mil agricultores urbanos, e pouco mais da metade recebe apoio do governo para manter suas hortas e cobrir seu próprio consumo e mercados locais. “Fizemos um levantamento para saber o que comem os moradores da Babilônia e do Chapéu da Mangueira. E decidimos por um sistema de produção contínua em agroecologia”, sem fertilizantes nem pesticidas, químicos, explicou ao Terramérica o coordenador do curso de agricultura orgânica, Suyá, Presta. Em um mesmo canteiro se consegue a máxima diversificação. “A cada semana são colocadas várias mudas para que nunca falte produção”, detalhou. Luiz Alberto de Jesus, de 52 anos, morador da Babilônia, é um dos alunos do curso. Tem um terraço onde compartilha a horta com quatro vizinhos. “Quando ouvia falar de alimentação orgânica, não sabia do que se tratava. A produção não tem mistérios, em uma superfície mínima se pode fazer um canteiro. Eu pensava que era preciso um terreno grande para plantar”, contou. Em sua horta tem alface, rúcula, agrião, pimenta, alecrim, menta e tomate cereja. A primeira colheita será em fevereiro, e os aprendizes de agricultor a esperam com ansiosos. “Quero conscientizar as pessoas para que usem produtos orgânicos. Vou transmitir essa informação aos jovens e às crianças”, afirmou. Em 1990, a Argentina inaugurou o programa Pró-Horta, de pequena agricultura orgânica urbana e rural de grande sucesso. Em 2005, a experiência foi implantada no Haiti e, graças a ela houve famílias que driblaram a fome quando o terremoto de 2010 demoliu a capital e outras cidades. Entre as estratégias de soberania alimentar da Venezuela, grande importadora de alimentos, a tentativa começou em 2004. Não há dados consolidados do volume de alimentos das unidades de produção agrícola (UPA) urbana e periurbana, nem da quantidade de consumidores ou de pessoas que trabalham nelas. Mas os volumes nacionais de produção hortense para um mercado de 29 milhões de habitantes permitem estimar que a agricultura urbana abastece não mais do que alguns milhares, ou talvez, algumas dezenas de milhares, de famílias. Diferentes dados oficiais indicam cerca de 20 mil UPA urbanas registradas, das quais 2.400 estariam consolidadas e outras quatro mil em processo de consegui-lo. Em 2011, o governo investiu neste setor US$ 2,5 milhões, segundo o Ministério de Agricultura e Terras. Na capital Caracas e em oito Estados, sobretudo do norte, planta-se hortaliças, ervas aromáticas e medicinais. Algumas incursionam em frutas – banana, papaia, laranja, tangerina – e em elaboração de adubo orgânico. Mas, na equação venezuelana jogam outros fatores. O Banco de Desenvolvimento da Mulher da Venezuela (Banmujer) decidiu financiar este tipo de esforço para combater a feminização da pobreza e a perda das raízes agrárias das populações pobres que se mudam do campo para povoados ou cidades. Em 2010, 47% de seus microcréditos eram agrários e “muitos são urbanos e periurbanos”, disse sua presidente, Nora Castañeda, ao Terramérica. “Já temos produtoras cujo trabalho é esse e o fazem com uma força incrível”, destacou a presidente do Banmujer. “Uma delas, uma camponesa violentada por mais de 20 anos por seu marido, veio dar um curso sobre produção de húmus”, contou. “Para ela, o mais importante não é ser a produtora que é hoje, mas ter superado a situação de violência, graças a uma base econômica que a fez forte e a valorizou, inclusive por si mesma”, explicou. A autoestima também foi apontada pela carioca Reina Maria Pereira da Silva, de 58 anos, que se inspirou no curso do CEBDS e planeja uma horta em sua casa. “É um aprendizado novo. Nunca é tarde e isto até aumenta minha autoestima. Já me sinto mais capaz. É uma delícia colher alimentos saudáveis que eu mesma plantei”, afirmou. “Sempre gostei de plantar, mas não sabia como. Há técnicas e planejamento até da hora em que se deve colher no verão e no inverno. Tudo vai ser para consumo próprio e em doação para escolas”, disse ao Terramérica. Em 2050, 90% da população da América Latina viverá em cidades. Hoje, 111 milhões de pessoas da região moram em bairros com um número grande de habitantes, como as favelas, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A demanda por alimentos será maior e haverá menos gente produzindo nas zonas rurais. Assim, a horta citadina é uma “estratégia de emancipação e parte do eixo da curva social” para melhorar a qualidade de vida das cidades, afirmou o coordenador de agricultura urbana e periurbana da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Brasil, Hélio Tomaz Rocha. Ele defende sua implantação em áreas ociosas de regiões metropolitanas, que, quando não são aproveitados, acabam acumulando escombros, lixo e assentamentos informais, ou se tornam alvo de especulação imobiliária. Contudo, admite que a agricultura urbana não se consolidou como política pública. “Sabemos que funciona, há espaço nas cidades, mas não está formalizada. Embora siga o caminho da sustentabilidade, requer fomento inicial”, opinou. O governo federal começou a financiar estes projetos em 2003, e muitos beneficiários estão incluídos no programa de transferência de renda Bolsa Família. Até 2010 foram investidos quase US$ 20 milhões, mediante convênios com prefeituras e governos estaduais que beneficiaram 74 mil pessoas que trabalhavam em hortas urbanas. Dos projetos, 38% se concentram em Estados do sudeste, 30% no sul e o restante se divide em outras regiões, exceto norte e nordeste. Este ano serão investidos aproximadamente US$ 5 milhões em 42 iniciativas selecionadas em uma convocação anual. A maior parte estará no nordeste, onde 17 municípios se inscreveram. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS. Com colaborações de Humberto Márquez e Estrella Gutiérrez (Caracas), e Patricia Grogg (Havana).   LINKS Agricultura europeia lança raízes na cidade Couve e pimentão ao pé de arranha-céus Uma horta saudável O sustento vem do jardim, em espanhol Agricultura orgânica produz alimentos da Argentina até o Haiti - 2010, em espanhol Agricultura sustentável nos subúrbios, em espanhol Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentáve Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Brasil Banco de Desenvolvimento da Mulher - Venezuela, em espanhol Fundação para a Capacitação e Inovação em Apoio à Revolução Agrária, em espanhol Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Fabíola Ortiz*
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México: BID financia competitividade empresarial sustentável Honduras: Produção sustentável Brasil: Cinzas de carvão limpam efluentes de termoelétricas   ********************************************* BRASIL - Cinzas de carvão limpam efluentes de termoelétricas Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2012 (Terramérica).- Pesquisadores brasileiros descobriram que a cinza da queima do carvão é eficaz para eliminar metais pesados dos efluentes líquidos produzidos pelas mesmas indústrias que exploram este mineral. A cinza, resíduo das termoelétricas que queimam carvão, “tem a propriedade de reter metais pesados com o manganês”, explicou ao Terramérica o pesquisador Paulo Sérgio Soares, do Serviço de Tecnologias Limpas do Centro de Tecnologia Mineral, vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. “Todo o líquido empregado no processo de mineração fica contaminado. Fazemos uma primeira etapa de tratamento químico. E na segunda incorporamos as cinzas, que reduzem os resíduos a um nível aceitável, antes de devolver o líquido ao meio ambiente”, explicou. Até agora as cinzas eram jogadas fora ou usadas na indústria de cimento. Envolverde/Terramérica   ********************************************* HONDURAS - Produção sustentável Tegucigalpa, 24 de setembro de 2012 (Terramérica).- Cerca de 300 empresários do norte de Honduras aprenderam tecnologias limpas nos setores de energia, agricultura e manejo da água. Chegou o momento de o setor privado conhecer a fundo os benefícios econômicos e ambientais que este tipo de atividade representa, disse ao Terramérica Daniel Ayes, do Centro Nacional de Produção Mais Limpa, responsável pela capacitação. “Uma gestão correta da água, dos insumos apropriados para a agricultura ou as vantagens da energia renovável são coisas que devem ser conhecidas por nossos empresários e também acadêmicos, os quais estamos envolvendo neste tipo de capacitação”, acrescentou. O Centro Nacional de Produção Mais Limpa assessora empresas em sistema de gestão ambiental e de qualidade, e em tecnologias limpas. Envolverde/Terramérica   ********************************************* MÉXICO - BID financia competitividade empresarial sustentável Cidade do México, 24 de setembro de 2012 (Terramérica).- Cerca de três mil pequenas, médias e micro empresas mexicanas receberão financiamento para melhorar sua produção sustentável. Estas empresas “frequentemente são incapazes de capitalizar os benefícios dos sistemas de administração ambiental, carecem de diretrizes e apoios e usam tecnologias inapropriadas”, disse ao Terramérica a gerente-geral do Fundo Multilateral de Investimentos (Fomin) do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Nancy Lee. O Fomin colocará US$ 4,3 milhões em quatro anos no programa-piloto para melhorar a competitividade por meio de práticas sustentáveis. No projeto também intervêm o Instituto Tecnológico de Monterrey, o banco mexicano Banorte, a engarrafadora Femsa e a filial mexicana da rede norte-americana Walmart. As médias, pequenas e micro empresas geram seis em cada dez empregos e representam mais de 60% do produto interno bruto deste país. Envolverde/Terramérica Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

“Samsung Smart é indecente e miserável”, afirmam ativistas. Corporações sob rigoroso exame no congresso da UICN. Foto: Amantha Perera/IPS Empresas

TERRAMÉRICA – Empresas calculam sua dívida

[caption id="attachment_65560" align="alignleft" width="300" caption="“Samsung Smart é indecente e miserável”, afirmam ativistas. Corporações sob rigoroso exame no congresso da UICN. Foto: Amantha Perera/IPS"][/caption] Desde a Revolução Industrial o mundo empresarial opera sem estimar economicamente os recursos naturais. Jeju, Coreia do Sul, 17 de setembro de 2012 (Terramérica).- Grandes devoradoras de recursos naturais, as empresas começam a reconhecer que têm uma dívida em dólares com o planeta, e apontam o lápis para calculá-la. Em 2004, quando a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) realizou seu quarto congresso mundial, em Bangcoc, participaram apenas dois empresários importantes, recordou Peter Bakker, presidente do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD). “Em 2008, em Barcelona, houve mais alguns. Desta vez, o que se via primeiro, ao entrar na sede do último congresso da UICN, era o pavilhão empresarial”, conta Bakker ao Terramérica. A notável presença dos negócios no Congresso Mundial da Natureza, que aconteceu entre os dias 6 e 15 deste mês em Jeju, ilha vulcânica da Coreia do Sul, é um indicador da responsabilidade que cabe ao empresariado na tarefa de salvar o meio ambiente e criar desenvolvimento sustentável. Quando, em 1992, foi realizada a Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, a grande novidade foi o WBCSD, que garantiu a presença do setor privado nas discussões ambientais. A ideia dominante na época postulava que os negócios eram os piores inimigos da natureza. Duas décadas mais tarde, esse pensamento evoluiu. Corporações como a gigante do cimento Holcim e firmas de porte médio como a elaboradora de chá Dilmah, do Sri Lanka, mostraram no Congresso seu rosto mais amigável com a natureza. Porém, as boas intenções não bastam. Especialistas como Bakker afirmam que o setor tem que se atualizar e recalibrar suas operações. Grande parte da transformação consiste em considerar o impacto no entorno como elemento fundamental das decisões. Uma das principais mudanças é avaliar e atribuir um valor à pegada que cada empresa, grande ou pequena, deixa na natureza. “Muitas companhias apresentaram um alto ciclo de aprendizagem”, afirmou Bakker. O dirigente do WBCSD alertou que, na medida em que as empresas levarem em conta essa pegada, é provável que tenham seus custos aumentados, especialmente se realizarem mudanças. “Um dos maiores desafios será analisar os efeitos sobre o capital natural. Como vamos avaliar isso?”, acrescentou. Não será fácil em um mundo onde recursos como a água costumam ter valor zero. Pavan Sukhdev, autor do livro Corporation 2020 – Transforming Businesses for Tomorrow’s World (Corporação 2020 – Transformação das Empresas para o Mundo de Amanhã), afirmou que, desde a Revolução Industrial, o mundo empresarial opera sem estimar economicamente os recursos naturais. É necessária uma reforma regulatória para que as normas contábeis reflitam os efeitos de cada empresa em seu entorno. “Os órgãos contábeis devem exigir das companhias que registrem esse impacto sobre o capital natural”, disse Sukhdev ao Terramérica. Mesmo com grandes corporações, como o Walmart, realizando uma mudança semelhante, o efeito chega a uma porção limitada da população mundial, mas, se forem modificados os sistemas regulatórios, o efeito será visto em todas as partes, ressaltou Sukhdev. O autor tocou no ponto nevrálgico ao afirmar que o setor privado deve orientar-se para um modelo empresarial que não gere apenas lucro, mas ganhos humanos, sociais e naturais. Um dos gigantes mundiais que asseguram estar nesse caminho é a Puma, companhia de calçados e roupas para esportes que está atualizando seus métodos contábeis para incluir “os custos naturais de fazer negócios”, declarou seu representante, Holly Dublin. A corporação contratou as consultorias PricewaterhouseCoopers e Trucost para desenvolverem a Conta de Ganhos e Perdas Ambientais, aplicada pela primeira vez em 2011. Em uma primeira fase, foram quantificadas as toneladas de gases causadores do efeito estufa emitidas e os metros cúbicos de água consumidos em seus negócios e operações em toda sua cadeia de fornecimento, e depois foi atribuído um valor monetário a estes itens. Os primeiros resultados apresentaram a quantia de US$ 185 milhões em efeitos causados nos ecossistemas e no meio ambiente durante 2010. O consumo de água e os gases-estufa geraram um impacto de quase US$ 121 milhões. O restante, calculado em uma segunda instância, correspondeu a mudanças no uso do solo, pela produção de matérias-primas, contaminação do ar e produção de resíduos, quase todos na cadeia de fornecimento. A Puma planeja adotar uma conta completa de perdas e ganhos ambientais e sociais na qual também calculará chuva ácida, fontes de névoa tóxica, compostos orgânicos voláteis, salários justos, geração de empregos e pagamentos de tributos. A partir de sua primeira estimativa de impactos, a empresa se comprometeu a que 100% de suas embalagens e seus invólucros sejam sustentáveis e a reduzir em 25% sua produção de carbono e seu consumo de energia e de água, até 2015. Dublin afirmou que, desde a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), em junho, a Puma se viu admirada pelo interesse de outras empresas neste sistema informatizado. Por isso acredita que, para todos disporem desse instrumento, seu “código deve ser aberto”. Entretanto, as repercussões destes esforços devem ser maiores e isso exige um ator principal, segundo Bakker: o setor empresarial de economias emergentes como Índia, China e Brasil. Com uma população de quase três bilhões de habitantes, esses gigantes devem adotar uma posição firme para não colocar em jogo o bem-estar natural em troca de um rápido desenvolvimento. “Se não conseguirmos que estes países se desenvolvam de modo sustentável, não teremos esperanças”, destacou Bakker. Ele considera que as nações emergentes podem passar para uma via mais avançada de tecnologias verdes, com a telefonia móvel em lugar da fixa, ou fontes alternativas de energia, como o vento e o Sol, em lugar da contaminante geração térmica. “Se copiarem o consumismo do Ocidente estaremos perdidos”, enfatizou. E o WBCSD já calculou os danos desse consumismo. Nos últimos 50 anos, se degradaram 60% dos serviços e bens que os ecossistemas naturais prestam, como água potável, fibras, alimentos, regulação do clima, controle das inundações e tratamento e purificação das águas, afirma um estudo divulgado em Jeju pelo WBCSD. O custo dessa degradação é descomunal: somente pelo desmatamento, perdemos anualmente entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões, diz o informe Biodiversity and Ecosystem Services – Scaling Up Business Solutions (Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas – Incrementando as Soluções Empresariais). De fato, parece que a natureza tem um preço exorbitante. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Talento a serviço de empresas sustentáveis Pequenas empresas sem horizonte verde O negócio verde Uma aposta no negócio limpo Consumismo e depredação colocam o planeta em risco ONU cobra responsabilidade de corporações Em busca do efeito dominó da responsabilidade corporativa, em espanhol Congresso Mundial da Natureza da UICN, em inglês, espanhol e francês União Internacional para a Conservação da Natureza, em inglês, espanhol e francês Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, em inglês Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas – Incrementando as Soluções Empresariais, em inglês Holcim, em inglês Dilmah, em inglês Environmental Profit and Loss Account, pdf em inglês   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Amantha Perera*
Uma criança trabalha no cultivo de subsistência da propriedade familiar em Quiché, Guatemala. Foto: Danilo Valladares/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Pouca ecologia em acordo

[caption id="attachment_65564" align="alignleft" width="300" caption="Uma criança trabalha no cultivo de subsistência da propriedade familiar em Quiché, Guatemala. Foto: Danilo Valladares/IPS"][/caption] O Acordo de Associação entre a UE e a América Central poderá agravar os problemas de sustentabilidade desta região latino-americana. Cidade da Guatemala, Guatemala, 17 de setembro de 2012 (Terramérica).- O Acordo de Associação entre América Central e União Europeia (UE) elevará a pressão ambiental e social no istmo, alertam especialistas e ativistas. Contudo, nem tudo é espinho. “Pode-se esperar um aumento na operação de indústrias extrativistas”, que trazem consigo “repercussões ambientais e sociais negativas”, disse ao Terramérica Juventino Gálvez, diretor do Instituto de Agricultura, Recursos Naturais e Meio Ambiente da jesuíta Universidade Rafael Landívar. Este foi um aspecto delicado em vários países. Na Guatemala, por exemplo, a empresa Montana Explotadora, subsidiária da canadense Goldcorp, foi acusada de contaminar rios e afetar o fornecimento de água de 18 comunidades indígenas no departamento de San Marcos, por explorar ouro na mina Marlin. Em maio de 2010, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos solicitou ao Estado a suspensão da operação da mina, mas esta continua funcionando. “A institucionalidade nacional é precária, e é conhecida a tendência de desrespeitar a legislação, por si só vaga e permissiva”, destacou Gálvez. A entrada em vigor do Acordo de Associação, assinado em 29 de junho por União Europeia, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá, depende da ratificação no Parlamento Europeu e nos poderes legislativos dos seis países centro-americanos. O Acordo implica compromissos mútuos em três áreas: diálogo político, cooperação e comércio. Em matéria comercial, habilita o ingresso recíproco sem tarifas alfandegárias de produtos agrícolas (café, frutas, vegetais e carnes), têxteis e industriais; investimentos em serviços como finanças, comunicações e transporte; e compras governamentais, entre outros. Em cooperação, promove a assistência técnica e o intercâmbio no uso de energias limpas, mineração, turismo, pesca, transporte, desenvolvimento sustentável e meio ambiente. A parte mais significativa sobre temas ambientais se encontra neste capítulo, cujo Título V compreende também desastres naturais e mudança climática, dois aspectos cruciais para o istmo. Em diálogo político, propõe-se impulsionar interesses comuns no Estado de direito, a boa governança, a democracia, os direitos humanos, a igualdade de gênero, os direitos dos povos indígenas, a redução da pobreza e as migrações. Para Gálvez, se for somada a “potencial” expansão das monoculturas, aumentarão os conflitos derivados da “competição entre projetos agroindustriais e comunidades rurais pelo acesso a recursos estratégicos”. O cultivo de palma, cuja superfície plantada triplicou entre 2003 e 2010, gerou violentos conflitos agrários, sobretudo no norte guatemalteco, com centenas de camponeses abandonando suas terras e vários mortos em confrontos com a polícia. Para Miguel Mira, do não governamental Centro de Pesquisa sobre Investimento e Comércio, de El Salvador, “o único interesse destes tratados é abrir para as grandes empresas transnacionais mais mercados para o comércio e os investimentos, enquanto os temas trabalhista e ambiental não são relevantes”. Na América Central, com 43 milhões de habitantes, quase metade da população é pobre. E a pobreza é mais profunda nas zonas rurais. A assimetria é evidente com a UE, de 500 milhões de habitantes e uma das zonas mais ricas do planeta, que até agora representa apenas 10% do comércio exterior centro-americano. No ano passado, o bloco europeu vendeu ao istmo produtos no valor de US$ 36 bilhões e importou o equivalente a US$ 31,6 bilhões, com superávit de US$ 4,4 bilhões a favor da UE, segundo dados da Comissão Europeia. As vendas centro-americanas se centraram em equipamentos de telecomunicações e escritório (53,9%) e produtos agrícolas (quase 35%, em 2010), enquanto os bens mais importantes comprados da UE são maquinário e transporte (48%) e produtos químicos (12%). “A lógica do Acordo de Associação é a do livre comércio e todos os demais aspectos de relações interacionais a ela sujeitos”, explicou o ativista Erik Van Mele, da organização não governamental internacional Oxfam Solidariteit. Embora no acordo se aborde o desenvolvimento sustentável e o meio ambiente, não está garantida a proteção da América Central, uma das regiões do mundo mais ricas em biodiversidade. O Artigo 284 sobre comércio e desenvolvimento sustentável “estipula que estes temas ficam excluídos dos procedimentos para resolver conflitos eventuais”, detalhou Erik. Além disso, há interpretações diversas sobre o desenvolvimento sustentável, acrescentou. Por exemplo, a promoção de agrocombustíveis como “energia verde” para substituir combustíveis fósseis “pode se traduzir em desmatamento para dar lugar a monoculturas, ou em fome derivada da alta de preços do milho, de consumo básico na região, por sua alta demanda para transformá-lo em etanol”, alertou. Uma avaliação do acordo, solicitada pela Comissão Europeia em 2009, concluiu que, além de seus benefícios econômicos e comerciais, geraria maior pressão sobre a terra, os recursos costeiros e marítimos, e alertou para o aumento das monoculturas. Também sugeriu medidas para minimizar os impactos, a serem adotadas no contexto da cooperação. Gustavo Hernández, coordenador em Bruxelas da representação da não governamental Associação Latino-Americana de Organizações de Promoção do Desenvolvimento, disse ao Terramérica que os mecanismos de sanção “não são vinculantes” e há “escassa participação da sociedade civil, sobretudo das populações majoritárias que serão mais afetadas” pelo acordo. Para Luiz Muñoz, do Centro Guatemalteco de Produção Mais Limpa, a experiência do Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos, vigente na Guatemala desde 2006, mostra que foram geradas exigências positivas. “Quando se vincula a questão ambiental com a econômica, se torna atraente para as empresas o investimento de tempo e recursos no ambiental”, explicou. Além disso, deve-se considerar o intercâmbio de tecnologia e o desejo de competitividade, acrescentou Muñoz. “Antes, a pressão para aprovar leis ambientais era muito baixa, mas do TLC com os Estados Unidos surgiu o regulamento de águas residuais”, ressaltou. Também admitiu que toda indústria gera impactos, mas se deve “buscar um equilíbrio”, lembrando que, “sem os benefícios do café, por exemplo, quanta gente ficaria sem renda? E não falo dos proprietários”. Envolverde/Terramérica * O autor é correspondente da IPS.   LINKS Grandes desafios do acordo com a União Europeia, em espanhol América Central busca diminuir efeitos da crise europeia, em espanhol Europa tem em suas mãos a assinatura do acordo, em espanhol Comunicado da União Europei anunciando o Acordo de Associação, em espanhol, inglês, francês e alemão Instituto de Agricultura, Recursos Naturais e Meio Ambiente - Universidade Rafael Landívar, em espanhol e inglês Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em português, espanhol, inglês e francês Centro de Pesquisas sobre Investimentos e Comércio de El Salvador, em espanhol Ministério de Economia de El Salvador, em espanhol Avaliação do impacto na sustentabilidade do Acordo de Associação a ser negociado entre a UE e a América Central, pdf em inglês Associação Latino-Americana de Organizações de Promoção do Desenvolvimento, em espanhol Centro Guatemalteco de Produção mais Limpa, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Danilo Valladares*
Uma tartaruguinha-oliva, observada e fotografada em seu esforçado caminho até o mar. Foto: Luis Romero/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Esperança para tartarugas marinhas

[caption id="attachment_64800" align="alignleft" width="340" caption="Uma tartaruguinha-oliva, observada e fotografada em seu esforçado caminho até o mar. Foto: Luis Romero/IPS"][/caption] Desde 2009 vigora em El Salvador uma proibição total ao aproveitamento de ovos, carne, óleo, ossos, carcaça e inclusive exemplares dessecados de tartarugas marinhas. Ilha La Pirraya, Usulután, El Salvador, 10 setembro de 2012 (Terramérica).- Um rincão escondido do Oceano Pacífico, a salvadorenha Baía de Jiquilisco, está se convertendo em um paraíso de quelônios ameaçados. “Os moradores dizem que era uma onda de dez metros de altura, que arrasou com tudo”, diz o ecologista Emilio León sobre um sismo na costa pacífica, cuja onda destruiu vários viveiros com 45 mil ovos de tartaruga, no dia 26 de agosto. O maior dano aconteceu na Ilha de Méndez, sul do departamento de Usulután, na Baía de Jiquilisco, lugar favorito de desova das quatro espécies que visitam El Salvador: de pente (Eretmochelys imbricata), de couro (Dermochelis coriacea), oliva (Lepidochelys olivacea) e verde (Chelonia mydas agassizii). Os criadouros destruídos na Ilha de Méndez estão a cargo da não governamental Fundação Zoológica de El Salvador (Funzel). Pela importância da Baía de Jiquilisco para as tartarugas, várias organizações ambientalistas mantêm projetos de conservação ali. “Contra a força da natureza nada podemos fazer, a não ser continuar trabalhando para levantar o que foi destruído”, disse León, diretor do Programa de Conservação da Tartaruga Marinha da Funzel. O tremor, de 6,7 graus na escala Richter, foi pouco percebido pela população, mas jogou por terra meses de trabalho para preservar as quatro espécies, todas em risco de extinção. Nas atividades conservacionistas participam autoridades, entidades ambientalistas nacionais e estrangeiras, e os pescadores da área, que mantêm incubadoras de ovos de tartaruga e concebem mecanismos para que as comunidades se envolvam em seu cuidado. “Ali se vê uma”, disse Obed Rodríguez em sua pequena lancha no meio do mar, apontando a cabeça de uma tartaruga-de-pente que emerge das águas. O animal se deixa ver por completo durante alguns segundos e submerge novamente. O pescador faz parte da equipe que desde maio desenvolve um programa de cuidado de ovos, patrocinado pela Iniciativa Carey do Pacífico Oriental (Icapo), um projeto regional com sede nos Estados Unidos para pesquisar e proteger as populações da espécie nesta região do oceano. “Esta é a zona onde as de pente fazem seus ninhos, e não é raro vê-las nadando”, contou ao Terramérica. Sobre a tartaruga-de-pente pende a ameaça maior. É capturada para aproveitamento de sua carne e seus ovos, mas, sobretudo, para uso de sua carapaça – de escudos translúcidos nas cores amarela, âmbar, vermelho, marrom e preto – na elaboração de objetos de decoração, pentes, armação para óculos e joias. Entre 200 e 300 fêmeas continuam fazendo ninho nas praias do Pacífico entre o México e o Peru, e metade delas o fazem na Baía de Jiquilisco, indicam pesquisas do Icapo e do Southwest Fisheries Science Center (Centro Científico para as Pescas do Sudoeste) do Escritório Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos. Já não há incentivos para que os pescadores vendam ovos de tartaruga para os restaurantes. Desde 2009 vigora total proibição do aproveitamento desse produto, bem como da carne, do óleo, dos ossos, da carcaça e de exemplares dessecados. Por medo de terem os ovos apreendidos pelas autoridades, os pescadores preferem entregá-los ao projeto do Icapo, que paga US$ 2,5 por 14 unidades, e uma ninhada pode ter até 160, explica Rodríguez. A penetração do mar na costa de Usulután determina a forma característica do mapa salvadorenho nesta baía do sudeste. Os indígenas a chamavam Xiriualtique, ou baía das estrelas, porque suas águas tranquilas refletiam o céu estrelado. Ali se encontra a maior extensão de mangues do país. Em 2005, esta região foi incluída na lista Ramsar de mangues de importância internacional, e em 2007 a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a declarou Reserva da Biosfera Xiriualtique-Jiquilisco a Baía das Estrelas. Pouco a pouco, seus habitantes assumem que a região deve ser preservada, apesar da forte presença hoteleira em áreas vizinhas, que coloca em dúvida a capacidade local se mantê-la a salvo. Contudo, no ano passado foram postos 1,7 milhão de ovos, e deles nasceram e foram liberadas para o mar 1,5 milhão de tartaruguinhas, a maioria de pente e oliva, as de maior presença neste país, segundo o Ministério do Meio Ambiente e de Recursos Naturais. No final de agosto, o explorador e documentarista francês Fabien Cousteau, neto do famoso Jacques-Yves Cousteau, chegou a esta costa para rodar um filme. “Não se trata apenas de filmar o progresso que houve na proteção das tartarugas marinhas em El Salvador, mas também de contar uma história de esperança”, declarou em uma entrevista coletiva. A organização não governamental que fundou, Plant a Fish (Plante um Peixe), e sua iniciativa local Vivazul trabalham, a partir deste ano, com comunidades das praias El Amatal e Toluca, onde estabeleceram áreas para incubar até 200 mil ovos e liberar a maior quantidade possível no mar. A Funzel persegue uma meta mais ambiciosa: que a população local organize suas próprias atividades econômicas em torno da conservação de tartarugas, sem intermediação de organizações ambientalistas. Por exemplo, que desenvolvam seus próprios viveiros e cobrem dos turistas pelo privilégio de libertar uma tartaruga no mar. “Fazemos isto em um plano-piloto na Ilha de Méndez, e a ideia é ampliá-lo cada vez mais”, assegurou León. O preço deste serviço é de US$ 7 por visitante. “O futuro é promissor”, enfatizou. Envolverde/Terramérica * O autor é correspondente da IPS. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.   LINKS Couraças marinhas Tartarugas marinhas presas no frio repentino do inverno uruguaio Pescadores resgatam tartarugas Praias mortais para as tartarugas Fundação Zoológica de El Salvador, em espanhol Iniciativa Carey do Pacífico Oriental, em espanhol e inglês Plant a Fish, em inglês Vivazul, em espanhol e inglês


por Edgardo Ayala*
Telefones celulares destinados à reciclagem. Foto: Cortesia Entreculturas Ambiente

TERRAMÉRICA – Sangue no seu celular

[caption id="attachment_64796" align="alignleft" width="300" caption="Telefones celulares destinados à reciclagem. Foto: Cortesia Entreculturas"][/caption] Os consumidores de telefones celulares são chamados a refletir sobre a exploração sangrenta na República Democrática do Congo de uma matéria-prima para esses aparelhos, o tântalo. Málaga, Espanha, 10 de setembro de 2012 (Terramérica).- “Pode ser que duas crianças tenham morrido para você ter esse telefone celular”, disse Jean-Bertin, um congolense de 34 anos que denuncia o “silêncio absoluto” sobre os crimes cometidos em seu país pela exploração de matérias-primas estratégicas como o coltan (columbita-tantalita). A República Democrática do Congo (RDC) possui pelo menos 64% das reservas mundiais de coltan, nome popular na África central para designar as rochas formadas por dois minerais, columbita e tantalita. Da tantalita se extrai o tântalo, metal duro de transição, de cor azul acinzentado e brilho metálico, resistente à corrosão e que é usado em condensadores para uma enorme variedade de produtos, como telefones celulares, computadores e tablets, bem como em aparelhos para surdez, próteses, implantes e soldas para turbinas, entre muitos outros. “A maldição da RDC é sua riqueza. O Ocidente e todos que fabricam armas metem o nariz ali”, lamenta Jean-Bertin, que chegou há oito anos à cidade espanhola de Málaga, procedente de Kinshasa, onde vivem seus pais e dois irmãos. A extração de coltan contribui para manter um dos maiores conflitos armados da África, que causou mais de cinco milhões de mortos, êxodo em massa e violações de 300 mil mulheres nos últimos 15 anos, segundo organizações de direitos humanos. Isto foi reconhecido em 2001 pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que confirmou a existência do “vínculo entre a exploração ilegal dos recursos naturais e a continuação do conflito na República Democrática do Congo”. Um grupo de especialistas convocado pelo Conselho registrou até 2003 cerca de 157 empresas e indivíduos de todo o mundo vinculados, de um modo ou de outro, à extração ilegal de matérias-primas valiosas na RDC. A exploração de coltan em dezenas de minas informais, salpicadas na selva oriental da RDC, financia os grupos armados e corrompe militares e funcionários. A extração artesanal, sem nenhum controle de qualidade, comporta um regime trabalhista próximo da escravidão e um grande dano ao meio ambiente e à saúde dos trabalhadores, incluindo crianças, segundo o documentário de 2010 Blood in the Mobile (Sangue no Celular), do diretor dinamarquês Frank Piasecki. No entanto, fontes da indústria, como o Tantalum-Niobium International Study Center (TIC), alertam que as jazidas de coltan na RDC e de toda a região da África central estão longe de serem a fonte principal de tântalo. A Austrália foi o principal produtor desse mineral durante vários anos e mais recentemente cresceu a produção sul-americana e asiática, além de outras fontes, como a reciclagem. O TIC estima que as maiores reservas conhecidas de tântalo estão no Brasil e na Austrália, e ultimamente há informações sobre sua existência na Venezuela e na Colômbia. A RDC tem outras riquezas naturais igualmente contrabandeadas, como ouro, cassiterita (mineral de estanho), cobalto, cobre, madeiras preciosas e diamantes. Contudo, está em último lugar no Índice de Desenvolvimento Humano 2011. Neste cenário, as denúncias da sociedade civil organizada apelam cada vez mais aos consumidores de produtos que contêm estes materiais. Na Espanha, a Rede de Entidades para a República Democrática do Congo – uma coalizão de organizações não governamentais e centros de pesquisa – lançou em fevereiro a campanha Não com o meu Celular, para exigir dos fabricantes o compromisso de não usarem coltan de origem ilegal. O surgimento de novas fontes de tântalo e a reciclagem deveriam ajudar a reduzir a pressão da demanda sobre o coltan congolense. A organização Entreculturas e a Cruz Vermelha Espanhola promovem desde 2004 a campanha nacional Doe seu Celular, para incentivar a entrega de aparelhos velhos para serem reutilizados ou para reciclagem de seus componentes. Os fundos obtidos são investidos em projetos de educação, meio ambiente e desenvolvimento para setores pobres da população. Até julho foram coletados 732.025 aparelhos e arrecadados mais de um milhão de euros, contou ao Terramérica a coordenadora da campanha na Entreculturas, Ester Sanguino. Entretanto, fundações e empresas dedicadas à reciclagem, ouvidas pelo Terramérica, concordam que seria impossível abastecer com esta fonte uma porção significativa da crescente demanda mundial por tântalo. A pressão do mercado faz com que as pessoas troquem o celular por outro mais moderno de tempos em tempos, por isso a reciclagem, mesmo feita em grande escala, não daria conta, disse ao Terramérica uma fonte da BCD Electro, empresa de reutilização e reciclagem informática e eletrônica. E a telefonia móvel é apenas um segmento das aplicações atuais do tântalo. Apple e Intel anunciaram, em 2011, que deixariam de comprar tântalo procedente da antiga colônia belga. Nokia e Samsung fizeram declarações similares. A Samsung assegura em sua página corporativa que tomou medidas para garantir que seus terminais “não contenham materiais derivados do coltan congolense extraído ilegalmente”. Na verdade, os códigos de conduta empresariais vieram preencher o vazio de normas taxativas. O esforço maior é o das Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais, pois compreende todas as nações industrializadas sócias da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Porém, o longo e opaco circuito do coltan congolense torna difícil demonstrar que tais códigos são cumpridos. Os minerais explorados ilegalmente são contrabandeados através de países vizinhos, como Ruanda e Uganda, para Europa, China e outros destinos. “Os grupos rebeldes proliferam pela riqueza das terras em coltan, diamantes ou ouro”, disse ao Terramérica o coordenador da organização humanitária Farmamundi na RDC, Raimundo Rivas. Os governos vizinhos são “cúmplices” e “até o momento tudo é apoiado e encoberto pelas empresas beneficiárias, em seu último destino, dessas riquezas”, ressaltou. “Há muitos interesses econômicos em torno do negócio do coltan”, alertou Jean-Bertin, que se define como um dos “combattant congolais”, congoleses da diáspora que denunciam violações dos direitos humanos em seu país. Enquanto isso, na RDC “as matanças são reais. O sangue está por toda parte, e, no entanto, é como se o país não existisse”. Por isso gera expectativas a decisão da Comissão de Valores dos Estados Unidos (SEC), que, no dia 22 de agosto, regulamentou um capítulo da Lei de Proteção do Consumidor e Reforma de Wall Street, referente aos “minerais de conflitos”. A Lei 1.502 estabelece que todas as empresas nacionais ou internacionais já obrigadas a entregar informação anual à SEC e que manufaturem ou contratem a manufatura de produtos que contenham um dos quatro minerais de conflito (estanho, tântalo, tungstênio, ouro) deverão adotar medidas para determinar sua origem mediante a análise da cadeia de fornecimento. Contudo, o primeiro informe deverá ser apresentado em 31 de maio de 2014, prazo considerado excessivo por defensores dos direitos humanos, que denunciam os crimes que continuam sendo cometidos na RDC, apesar da presença desde 2010 de uma missão de paz da ONU. Com o olhar dominado pela raiva e sua filha de seis meses nos braços, o congolense Jean-Bertin insiste que os grupos armados “dão armas a muitas crianças e as obrigam a entrar para um ou outro bando”. Para Rivas, “a única solução é um governo forte na RDC, que possa responder aos ataques, e um apoio internacional real que penalize aquelas empresas suspeitas de importar minerais de zonas em conflito”. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.   LINKS Diamantes venezuelanos minuciosamente vigiados Indústrias verdes impulsionam busca por terras raras na Argentina Ativistas comemoram regras para indústria extratora A miséria caminha sobre metais preciosos, em espanhol Bênçãos contraditórias - Cobertura especial da IPS, em espanhol Informe final do Grupo de Especialistas encarregado de examinar a exploração ilegal de recursos naturais na RDC, em inglês e francês Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais, tradução do Ministério da Economia da Espanha, PDF em espanhol Tantalum-Niobium International Study Center, em inglês Blood in the Mobile, em inglês Índice de Desenvolvimento Humano 2011, em inglês, espanhol e francês Entreculturas, em espanhol Cruz Vermelha da Espanha, em espanhol Doe seu Celular, em espanhol Samsung: Políticas relativas ao coltan, em inglês Farmamundi, em inglês, espanhol e francês Norma da Comissão de Valores dos Estados Unidos sobre minerais de conflitos, PDF em inglês


por Inés Benítez*
Eco1111111 Terramérica

ECOBREVES

Brasil: Regras para baterias Argentina: Alerta sobre os guanacos México: Eficiência veicular ************************************************ BRASIL - Regras para baterias Rio de Janeiro, Brasil, 10 de setembro de 2012 (Terramérica).- Os fabricantes de pilhas e baterias do Brasil deverão acompanhar todo o ciclo destes produtos, desde sua produção, transporte e armazenagem, até seu descarte seguro, segundo novas normas adotadas pela autoridade ambiental. O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) informou que as empresas produtoras e importadoras deverão apresentar relatórios anuais detalhando os procedimentos adotados, e as embalagens deverão informar as alterações feitas para adequar-se às novas exigências. “Esta medida aperfeiçoa normas anteriores e pretende dinamizar a forma de receber as informações e melhorar o controle. Agora o consumidor terá que ajudar com o descarte correto”, disse ao Terramérica o diretor de Qualidade Ambiental do Ibama, Fernando da Costa Marques. Envolverde/Terramérica ************************************************ ARGENTINA - Alerta sobre os guanacos Buenos Aires, 10 de setembro de 2012 (Terramérica).- A possível declaração do guanaco (Lama guanicoe) como “espécie prejudicial” para a pecuária na Patagônia argentina poderia provocar seu extermínio, alertam conservacionistas e acadêmicos. A resolução sobre esta espécie autóctone foi apresentada pela legislatura da província de Santa Cruz ao governo provincial, que a analisa. Claudio Bertonatti, diretor do Zoológico de Buenos Aires, disse ao Terramérica que o guanaco é um herbívoro fundamental para a saúde dos ecossistemas áridos e semiáridos como a estepe e que contribui para seu atrativo turístico. “Entendemos que compete com o gado pela pastagem, mas declará-lo prejudicial equivale a permitir a caça que objetiva o extermínio. Depois pode vir uma resolução contra a raposa cinza ou o puma”, alertou. Envolverde/Terramérica ************************************************ MÉXICO - Eficiência veicular Cidade do México, 10 de setembro de 2012 (Terramérica).- Uma norma de eficiência veicular deverá entrar em vigor no México em 2013. O prazo de consultas públicas do projeto, aberto em julho, terminou no dia 9. A lei “incentiva uma indústria mais competitiva e a adoção de melhor tecnologia, e o consumidor se protege diante de cenários de escassez e preços altos de combustível”, afirmou ao Terramérica o coordenador de Economia Ambiental do não governamental Centro de Transporte Sustentável, Jorge Macías. A norma 163 da Comissão Federal de Melhora Regulatória estipula, entre outras coisas, uma eficiência de 14,9 quilômetros por litro de combustível para veículos novos, diante dos atuais 11 quilômetros por litro. Para 2013, a norma seria de cumprimento voluntário. Estima-se que até 2030 sua aplicação redundaria na economia de 440 milhões de barris de petróleo. No México há mais de 24 milhões de automotores. Em 2011, fabricou 900 mil veículos, dos quais exportou 80%. Envolverde/Terramérica Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  

Os guarani-kaiowá já não esperam que o governo proteja suas terras. Foto: Cléber Buzatto Ambiente

TERRAMÉRICA – Uma guerra anunciada

[caption id="attachment_64191" align="alignleft" width="350" caption="Os Guarani Kaiowá já não esperam que o governo proteja suas terras. Foto:Cortesia do Cimi/Cléber Buzatto"][/caption] Pelo Youtube, fazendeiros ameaçam com uma guerra os indígenas guarani-kaiowá. São Paulo, Brasil, 3 de setembro de 2012 (Terramérica).- O conflito agrário entre indígenas Guarani Kaiowá e fazendeiros do Mato Grosso do Sul é um paiol prestes a explodir. Nísio Gomes, Genivaldo Vera, Rolindo Vera, Teodoro Ricardi, Ortiz Lopes e Xurete são apenas alguns nomes de uma longa lista de assassinados nos últimos anos nesse Estado, segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). As estatísticas da entidade, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), registram 279 mortes de indígenas desde 2003, cometidas no contexto de lutas agrárias com proprietários e fazendeiros. O caso mais recente é o de Eduardo Pires, desaparecido em 10 de agosto quando homens armados atacaram um grupo do povo Guarany Kaiowá no território de Arroio Korá, no município de Paranhos, sul do Estado, perto da fronteira com o Paraguai. O Arroio Korá, de aproximadamente sete mil hectares, foi oficialmente reconhecido como terra indígena em 21 de dezembro de 2009 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Porém, uma semana depois, uma decisão do Supremo Tribunal Federal, em resposta ao pedido de um fazendeiro, exonerou dessa condição uma área de 184 hectares. “Mesmo com esse embargo parcial, o governo não previu que o restante fosse entregue efetivamente aos Guarany Kaiowá. A comunidade, de aproximadamente 600 integrantes, ocupa atualmente menos de 700 hectares. Quando resolveram retomar o resto das terras, houve uma reação violenta” dos fazendeiros, explicou ao Terramérica o coordenador regional do Cimi no Mato Grosso do Sul, Flávio Machado. Segundo Eliseu, um dos líderes Kaiowá, que estava no local quando houve o ataque, na manhã de 10 de agosto, cerca de 400 indígenas montaram um acampamento em uma parte das terras homologadas onde está instalada uma fazenda. Pouco depois, chegaram vários homens armados. “Ouvi os tiros e saí correndo. Somos um povo com cultura de paz, não temos armas, mas não deixaremos de lutar por nossas terras. Se vamos morrer, preferimos morrer em nossa terra”, declarou ao Terramérica. Depois disso, ninguém voltou a ver Eduardo Pires. “Creio que está morto”, afirmou o indígena. A Polícia Federal (PF) do Mato Grosso do Sul está encarregada do caso. “Os indígenas dizem que um deles está desaparecido. Estamos investigando, mas não temos nada de concreto. Devemos ser imparciais”, disse ao Terramérica o superintendente da PF, Edgar Paulo Marcon. Segundo o Cimi, na semana seguinte a polícia retirou da área alguns fazendeiros e o gado. Desde então os Kaiowá vêm sofrendo ameaças. A mais explícita é uma declaração filmada de Luis Carlos da Silva Vieira, conhecido como Lenço Preto, que circula no Youtube. “Vamos nos organizar e nos preparar para o confronto. Eles querem a terra apenas para incomodar. Nós temos armas. Eles querem guerra, então terão guerra”, afirma Lenço Preto mais de uma vez no vídeo. Em resposta a comunidade Guarany Kaiowá divulgou uma carta pedindo atenção urgente do governo. “Diante da ameaça de morte coletiva feita publicamente na imprensa pelos fazendeiros, solicitamos a investigação e o castigo rigoroso desses mentores do genocídio/etnicídio dos povos indígenas”. “Todos sabem que eles têm armas de fogo sofisticadas e temíveis, que têm dinheiro que produziram sobre o sangue indígena para comprar mais armas e contratar pistoleiros. Nós não temos armas e, sobretudo, não sabemos utilizá-las”, diz a carta. “Queremos reiterar e evidenciar que nossa luta por nossos territórios ancestrais é apenas para garantir a vida humana, a fauna e a flora do planeta Terra, (que) nosso objetivo não é assassinar ninguém”, acrescenta. O Ministério Público estadual também investiga o caso e visitou a área no dia 28 de agosto. Em nota divulgada em seu site, deixou claro que durante a visita foram ouvidos cinco disparos que, segundo a entidade, tiveram o objetivo de intimidação. Os Guarany Kaiowá sempre viveram da agricultura de subsistência, cada vez mais difícil por não disporem de seus territórios ancestrais. Agora contam com apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai). Colonos e fazendeiros ocuparam essas terras há décadas. No Cerrado, bioma de savana tropical típico do Mato Grosso do Sul, se estendem as plantações de grãos e a pecuária. Suas terras também são cobiçadas para plantar cana-de-açúcar destinada à produção de etanol. Alguns líderes indígenas estiveram em Brasília no dia 24 de agosto, se reuniram com autoridades da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e conseguiram que o governo os incluísse no programa de proteção de pessoas ameaçadas. Contudo, para o Cimi, a medida é insuficiente. “Muitos indígenas assassinados estavam nesse programa. Foram colocados na lista, mas isto não significa nenhuma proteção efetiva. O que fazem é enviar gente para constatar o que já aconteceu”, lamentou Machado. Mas os Kaiowá vêm a proteção com bons olhos. “Pelo menos (as autoridades) sabem quem nos ameaça, e, se nos acontecer alguma coisa, saberão quem foi”, opinou Eliseu. A decisão de ocupar o território de Arroio Korá foi tomada pelos chefes da comunidade em uma grande assembleia, a “Aty Guasú”. Apesar dos últimos ataques, os indígenas já não estão dispostos a suportar a demora do governo e afirmam que vão retomar todas as suas terras já homologadas. “É que a demora também está matando o povo. Ninguém decide. Vamos ocupar todas as terras mesmo sabendo que não há segurança, que vamos morrer. O povo decidiu”, explicou ao Terramérica o Guarani Kaiowá Tonico. Sobre as ameaças dos proprietários, Tonico afirmou que “estão falando em público que vão fazer o que já fazem. Aqui, no Mato Grosso do Sul, os direitos humanos dos indígenas não existem. Índio não é gente”, ressaltou. A decisão foi reforçada com a indignação gerada pela Portaria 303 da Advocacia Geral da União (que exerce a defesa legal do Estado), publicada no dia 17 de julho, que determina que as terras indígenas podem ser ocupadas por projetos hidrelétricos, vias de comunicação e de transporte e instalações militares sem necessidade de consulta prévia aos povos que as habitam. “Isto é um retrocesso”, ressaltou Tonico. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.   LINKS Indígenas do Pantanal acossados pelo desmatamento Guaranis fora de ambiente Guaranis buscam valor turístico de sua cultura Justiça concede liberdade ao assassino de Dorothy Stang Luis Carlos da Silva Vieira ameaça iniciar guerra contra os guarani-kaiowá, no Youtube Conselho Indigenista Missionário, em português e inglês Supremo Tribunal Federal de Brasil, em português, espanhol e inglês Polícia Federal de Mato Grosso do Sul Ministério Público do Mato Grosso do Sul


por Alice Marcondes*

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