TERRAMÉRICA - A resposta está no vento

Ambiente

TERRAMÉRICA – A resposta está no vento


por Inés Acosta*


[caption id="attachment_63464" align="alignleft" width="340" caption="Parque eólico em Sierra de los Caracoles, no departamento de Maldonado, sudeste do Uruguai. Foto: Cortesia UTE"][/caption] O Uruguai vive um boom de investimentos para o desenvolvimento de energia eólica. Montevidéu, Uruguai, 27 de agosto de 2012 (Terramérica).- O Uruguai necessita reforçar e ampliar suas linhas de transmissão elétrica para absorver os 1,2 mil megawatts (MW) de energia eólica que planeja gerar até 2015. O objetivo faz parte de outro maior, e para o mesmo ano: que metade da matriz energética nacional seja composta por fontes renováveis. Multiplicam-se os investimentos em geração a partir do vento. E a Administração Nacional de Usinas e Transmissões Elétricas (UTE) se vê diante da necessidade de melhorar a infraestrutura de sua rede de transmissão. No momento, o vento produz apenas 1% da eletricidade do país, com três parques eólicos que geram 43 MW no sudeste: um público, no departamento de Maldonado, e dois particulares, no departamento de Rocha. Quando se chegar aos 1,2 mil MW, estes representarão 29% da oferta de eletricidade, explicou ao Terramérica o presidente da UTE, Gonzalo Casaravilla. Já há contratos para gerar 930 MW, “que serão instalados nos próximos anos, dos quais assinamos seis e estamos para assinar outros 12”, acrescentou. Esses planos incluem 21 novos parques em 11 departamentos no noroeste, oeste, centro, sul e sudeste do país. Segundo Casaravilla, as construções começarão no final do ano e se prolongarão por 12 a 18 meses. Além disso, a UTE planeja gerar outros 180 MW em convênio com a brasileira Eletrobras. Todo o território do Uruguai tem bom potencial eólico, mas a densidade de sua rede elétrica não é homogênea. “A rede foi projetada há muitos anos para levar eletricidade onde estão as pessoas e não para trazer eletricidade desses lugares”, explicou ao Terramérica o doutor em física e diretor Nacional de Energia do Ministério da Indústria, Energia e Mineração (Miem), Ramón Méndez. O Uruguai é o país de maior eletrificação da América Latina, com 98,8% de cobertura. Contudo, com pouco menos de 3,3 milhões de habitantes e quase metade deles concentrada na capital, tem extensas áreas pouco povoadas. Ali “as redes elétricas são projetadas apenas para atender as necessidades desses poucos clientes”, destacou. No entanto, quando são instalados grandes parques eólicos, “são necessárias linhas mais longas para conectar-se ao primeiro ponto de modo suficientemente potente para descarregar toda essa energia. Portanto, um bom projeto é o que está em um lugar onde ao mesmo tempo há bons ventos e boa rede elétrica”, indicou Méndez. Esse foi o desafio. “No começo era fácil porque havia lugar em todos os lados, mas na medida em que foi se tornando mais densa a geração distribuída, a escolha dos lugares adequados foi mais complicada”, descreveu Casaravilla. Dois dos 18 projetos eólicos licitados e aprovados se mostraram difíceis de serem conectados às redes existentes nos lugares previstos dos departamentos de Tacuarembó e Florida. Porém, foram instalados em locais com melhor conexão, acrescentou Casaravilla. “Conseguimos colocar todos os projetos que se apresentaram para o processo de licitação com a UTE. Na verdade, ficaram pouquíssimos lugares com capacidades residuais”, ressaltou. Por essa razão a UTE planeja desenvolver as redes necessárias para instalar novos projetos nos próximos dez anos. “Temos prevista a ampliação da rede do norte, que permitirá continuar incorporando geração distribuída de acordo com a demanda”, pontuou Casaravilla. Para os próximos cinco anos o investimento em linhas e subestações será de US$ 1 bilhão. No momento, seis empresas querem construir oito parques eólicos em Pueblo Peralta, no departamento de Tacuarembó, no norte. Trata-se de um investimento de US$ 20 milhões que permitirá gerar 300 MW em uma área com “excelente potencial de ventos”, declarou ao Terramérica o diretor de uma dessas empresas, a PTZ Bioenergia Uruguai, Ricardo Pretz. Esses ventos “permitem instalar aerogeradores com pás muito maiores para produzir mais energia. Isto resulta em projetos muito mais rentáveis, possibilitando à UTE comprar a energia elétrica a preços menores”, afirmou Pretz, cuja empresa faz parte do grupo brasileiro PTZ Bioenergy. No entanto, na região “não há possibilidades de conexão à rede, já que a subestação mais próxima está saturada”, acrescentou. Os empresários querem manter o local e para isso se reuniram com Casaravilla e com o ministro da Energia, Roberto Kreimerman. Casaravilla disse que “hoje não se pode dar uma resposta”, já que é preciso “ver como evoluirão os contratos que já estão assinados”. Depois de 2015, será preciso continuar instalando parques “e haverá a necessidade de analisar qual a melhor forma de fazer isso”, acrescentou. Méndez não acredita que as limitações da rede afetem o interesse privado na energia eólica, que qualificou de “enorme”. “Somente neste período de governo (iniciado em 2010), estamos superando os US$ 6,5 bilhões em investimentos”. Em cada licitação são apresentados cerca de 20 projetos por intermédio de várias empresas multinacionais. “São licitados contratos de 20 anos e em razão dessa disputa do mercado temos obtido preços muito bons, que estão 50% abaixo da média na Europa”, acrescentou Méndez. Isto determina custos de “aproximadamente US$ 60 o MW/hora, sem nenhum tipo de subsídio, que é o tema central”, explicou. Segundo suas estimativas, estes investimentos permitirão que os custos elétricos do país seja reduzidos em 30% até 2015. A atual política energética uruguaia foi adotada em 2008 para os próximos 25 anos, e em 2010 foi referendada por todos os partidos políticos. “As transformações começaram no setor elétrico com as primeiras incorporações de energia eólica (em 2008 havia apenas um moinho eólico) e com a forte incorporação da biomassa”, enfatizou Méndez. “Em pouco tempo percorremos um caminho muito significativo, porque fechamos o ano passado com 46% de renováveis no total de nossa matriz energética”, ressaltou. A hidreletricidade fornece 20%, a geração com biomassa de resíduos 12%, a lenha 12%, e os 2% restantes são fornecidos pelos biocombustíveis e pelas fontes solar e eólica. Atingir 50% de fontes renováveis em 2015 é uma meta “extremamente ambiciosa”, segundo Méndez, pois no momento “as renováveis não superam os 12% da matriz mundial”. Este desenvolvimento é estratégico para um país que carece de hidrocarbonos e depende de importações de petróleo para se abastecer de combustíveis. Entretanto, também neste campo multiplicam-se as empresas internacionais que exploram em busca de petróleo e gás em diferentes formações geológicas. (Envolverde/Terramérica) * A autora é correspondente da IPS.   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde. LINKS Os parapentes também movimentam barcos Camponeses e cientistas vêem riscos na expansão eólica Energia eólica para o mundo de amanhã A América Central promove a energia eólica Objetivo Uruguai - Cobertura especial da IPS, em espanhol Energia - Cobertura especial da IPS, em espanhol UTE, em espanhol Direção Nacional de Energia, em espanhol Programa de Energia Eólica, em espanhol Eletrobras Associação Uruguaia de Energia Eólica, em espanhol    

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ECOBREVES

América Latina: Contra poluentes causadores do aquecimento Brasil: Consciência ecológica Honduras: Surto de dengue Argentina: Proibição do endosulfan   ************************************************ AMÉRICA LATINA - Contra poluentes causadores do aquecimento Cidade do México, 27 de agosto de 2012 (Terramérica).- Organizações ambientalistas do México, Chile, Brasil, Paraguai e Argentina, mais um grupo de cientistas formaram uma rede contra os poluentes causadores das mudanças climáticas de vida curta, como a fuligem, o metano, o ozônio troposférico e os hidrofluorocarbonos. Estas substâncias afetam a saúde humana e aquecem a atmosfera, onde permanecem por até 15 anos. A nova Rede Latino-Americana para a Redução de Poluentes Causadores das Mudanças Climáticas de Vida Curta espera “trabalhar com os governos para encontrar e aplicar soluções efetivas o mais rápido possível”, declarou ao Terramérica a codiretora da Associação Interamericana para a Defesa do Meio Ambiente, Astrid Puentes, fundadora da entidade. Dela participam o Centro Mexicano de Direito Ambiental, o Centro de Direitos Humanos e Meio Ambiente (que coordenará a rede nos três primeiros anos) e o Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral, entre outros. (Envolverde/Terramérica)   ************************************************ BRASIL - Consciência ecológica Rio de Janeiro, 27 de agosto de 2012 (Terramérica).- A quantidade de brasileiros que acreditam que o país não tem problemas ambientais caiu de 47%, em 1992, para 11% em 2012. Os dados são de uma pesquisa do Ministério do Meio Ambiente que analisa a percepção da população sobre a natureza e o consumo sustentável. O estudo mostra que 48% dos entrevistados separam o lixo reciclável e que 28% consideram o lixo o pior problema ambiental do Brasil. Além disso, 28% disseram ter orgulho da natureza do país, e 53% afirmaram não saber o que é desenvolvimento sustentável. “Desde 1991, fizemos cinco edições desta pesquisa. Vemos que houve uma boa evolução, mas ainda nos resta o desafio de informar e convencer mais pessoas sobre as questões ambientais”, ressaltou ao Terramérica a secretária de Articulação Internacional e Cidadania Ambiental do Ministério, Samyra Crespo. (Envolverde/Terramérica)   ************************************************ HONDURAS - Surto de dengue Tegucigalpa, 27 de agosto de 2012 (Terramérica).- As autoridades de saúde de Honduras atribuíram o surto de dengue às variações meteorológicas, com altas temperaturas diurnas e copiosas chuvas noturnas, além do acúmulo de lixo em diversos bairros. As mudanças bruscas da temperatura propiciam a formação de focos de infecção que permitem a propagação do mosquito transmissor da dengue, explicou ao Terramérica o diretor de Promoção da Saúde no Ministério da Saúde, Mario Nájera. Já foram registrados mais de quatro mil casos e 13 de dengue hemorrágica, uma variante que pode ser fatal. (Envolverde/Terramérica)   ************************************************ ARGENTINA - Proibição do endosulfan Buenos Aires, 27 de agosto de 2012 (Terramérica).- Uma organização ecologista da Argentina busca proibir imediatamente a importação, elaboração e venda do endosulfan, inseticida bastante tóxico que este país prevê eliminar em julho de 2013. O Centro de Proteção da Natureza, que integra a campanha “Parem de Fumigar”, pediu apoio para um projeto de lei proibindo seu uso. “Devido ao consenso sobre sua periculosidade, não é razoável estender a autorização para seu uso até julho do ano que vem”, destaca o Centro. Seu vice-presidente, Carlos Manessi, explicou ao Terramérica que o projeto, elaborado pela equipe do legislador Antonio Riestra, é decorrente “da campanha, que o vem reclamando”. Segundo Manessi, a vigência do endosulfan “é uma grande incongruência. Parece que se deve esperar que acabe o estoque para proibi-lo, porque o comércio é colocado acima da saúde das pessoas”, afirmou. (Envolverde/Terramérica)   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  

Maquete 2 Entrevista

TERRAMÉRICA – “O mundo ocidental tende a dissolver a cidade”

Uma região aonde se vai apenas para dormir é a negação da cidade, afirma nesta entrevista o especialista espanhol Jordi Borja. Cidade do México, México, 20 de agosto de 2012 (Terramérica).- As tendências em boa parte do mundo capitalista ocidental tendem a destruir a cidade, dissolvê-la”, o que atenta contra a democracia, “porque a cidade é o lugar onde nasceram as liberdades públicas”, disse o destacado urbanista Jordi Borja em entrevista ao Terramérica. O modelo urbano atual confina os habitantes em áreas onde o transporte urbano não chegará e deixa espaços públicos abandonados, acrescentou Borja, cientista político, sociólogo, geógrafo e diretor da Área de Gestão da Cidade e Urbanismo na estatal Universitat Oberta, na Catalunha. Borja (Barcelona, 1914) viveu exilado na França entre 1961 e 1968, assessorou a remodelação de cidades como Buenos Aires, Rio de Janeiro, Santiago e Bogotá, e é autor de livros com A Cidade Conquistada. O Terramérica conversou com Borja por ocasião do Fórum Internacional sobre o Direito à Mobilidade, realizado este mês na capital mexicana, do qual foi um dos palestrantes. Justamente sobre a megalópole que é a Cidade do México, Borja recomendou um governo metropolitano regional para gerenciar assuntos como manejo da água em uma cidade que se espalhou do Distrito Federal para Estados vizinhos. [caption id="attachment_62698" align="alignleft" width="300" caption="Cuidado com os efeitos perversos de revalorizar o centro histórico da Cidade do México, alerta Borja. Foto: Emilio Godoy/IPS"][/caption] TERRAMÉRICA: Quais são suas críticas ao modelo urbano atual? JORDI BORJA: As tendências imperantes em muitos países do mundo capitalista ocidental tendem a destruir a cidade, dissolvê-la, e isto é um atentado à convivência, à democracia, ao progresso, porque a cidade é o lugar onde nasceram as liberdades públicas. É onde pessoas diferentes podem conviver, onde surgem a inovação e o progresso, pela diversidade de pessoas que se encontram no mesmo lugar. É a negação da cidade uma região onde somente se vai para dormir, ou que haja cidades fechadas, tão em moda entre as classes média e alta. TERRAMÉRICA: Se o futuro é urbano, como ter cidades sustentáveis? JB: O futuro pode ser urbano ou pode ser considerado urbano com cidades débeis. Há um texto escrito há 20 anos, que fala do reino do urbano e da morte da cidade, um pouco apocalíptico. Mas, não há tendências fatais. No México existe uma operação interessante, positiva, que é a regeneração do centro histórico. O que estão fazendo está certo, mas atenção para os efeitos perversos das coisas boas, porque estão revalorizando muito e se não preverem que depois o mercado terá de lançar moradias de baixa renda, para os jovens – porque haverá mais comércio de qualidade, mais escritórios – então se perderá a essência do centro histórico, que é a convivência entre pessoas diferentes e a multipolaridade. Pode haver uma operação de grande sucesso para uma população do setor popular no bairro do centro e depois o mercado pode expulsá-la gradualmente e se terá um centro muito segmentado, unicamente comercial ou unicamente turístico. O solo não pode ser objeto de lucro. Pode-se aplicar um imposto de certa taxa sobre seu valor como terreno rústico, por exemplo. TERRAMÉRICA: Como administrar uma cidade como a Cidade do México, com quase nove milhões de habitantes, com problemas de água e tráfego excessivo? JB: Bem, a cidade tem um governo, que alguma coisa faz. Haver um governo democrático é importante. Quando existe um aglomerado, deve-se fazer um governo para esse conjunto, o que tem a ver com a descentralização, porque depois da aplicação das políticas concretas se vincula com centenas de habitantes, não com milhões. Esta pirâmide pode funcionar, mas teria que ser feito um redimensionamento dos Estados e criar um Estado que unifique o governo da cidade com o do Estado do México (limítrofe da capital mexicana) e dos Estados vizinhos, um governo regional metropolitano para grandes projetos e grandes temas, como a água. E depois, responsabilidades municipais e uma autoridade específica para o Distrito Federal. Mas é preciso haver uma estratificação que tenha um governo que decida grandes projetos e orientações e, na medida em que se tem de concretizar as coisas, o governo vai descendo. TERRAMÉRICA: Como concebe o direito à cidade? JB: Que os cidadãos necessitam de um conjunto de direitos. Portanto, o direito à cidade vem a substituir ou expor o direito à mobilidade, à moradia ou à educação, em separado. TERRAMÉRICA: O senhor vê a favelização do mundo, como afirma o norte-americano Mike Davis em seu livro Planeta de Favelas? JB: É um livro muito exagerado. Outra coisa são as periferias, as áreas periurbanas. Nas cidades há autoconstrução, como uma primeira fase na criação de bairros. Em si mesmo, isso não é mau. Mas soa muito mais lógico que haja um apoio e uma regulação disto e depois levar os mínimos. A melhoria de bairros na Cidade do México vai nessa direção, aqui é preciso melhorar o espaço público e a moradia. Foi feito um plano que, com ajuda dos habitantes, regula estes bairros. Creio que tampouco podemos favorecer um crescimento ilimitado de cada área. No caso do México, há um sistema de cidades suficientemente potente para redistribuir esse crescimento. Durante anos houve um fracionamento excessivo (de “colônias” ou bairros). É preciso reorientar os fluxos migratórios para um sistema de cidades. (Envolverde/Terramérica) * O autor é correspondente da IPS.   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.   LINKS   Revolução das bicicletas completa cinco anos em Paris Buenos Aires perdida diante de tempestades extraordinárias Retirada compulsória de favelas ressuscita fantasmas Quando a cidade te deixa doente Cartão vermelho para Porto Alegre? Megacidades se esvaziam A capital mexicana se veste de cinza, em espanhol Cirurgia regenerativa para uma capital em crise, em espanhol Universidade Aberta da Catalunha, em espanhol, catalão, inglês e francês Fórum Internacional sobre o Direito à Mobilidade, em espanhol Comissão de Direitos Humanos do Distrito Federal, em espanhol Instituto de Políticas para o Transporte e o Desenvolvimento – México, em espanhol


por Emilio Godoy*
No muro que rodeia a subestação Rigolleau ficou estampada a rejeição dos vizinhos. Foto: Juan Moseinco/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – População contra campos eletromagnéticos

[caption id="attachment_62689" align="alignleft" width="340" caption="No muro que rodeia a subestação Rigolleau ficou estampada a rejeição dos vizinhos. Foto: Juan Moseinco/IPS"][/caption] Os limites argentinos à radiação emitida por instalações de transformação e transmissão elétrica não respeitam o princípio da precaução. Buenos Aires, Argentina, 20 de agosto de 2012 (Terramérica).- A incerteza científica sobre o impacto dos campos eletromagnéticos na saúde justificam questionamentos de cidadãos da Argentina que preferem as usinas transformadoras de energia longe de seus bairros. A Organização Mundial da Saúde (OMS) não descarta que as radiações dos campos eletromagnéticos de frequência extremamente baixa tenham efeitos nocivos na saúde, inclusive como fator desencadeante de leucemia infantil, porém considera que as evidências não são suficientes para fazer recomendações taxativas. Desde 2004, vizinhos da subestação transformadora Rigolleau no município de Berazategui, sudeste da capital, reclamam a mudança dessa central por medo de seus efeitos. Segundo denúncias apresentadas na justiça, outra subestação, instalada desde 1978 na vizinha cidade de Ezpeleta, também na província de Buenos Aires, teria feito aumentar o número de casos de câncer na população próxima. Em 2000, uma empresa química solicitou que fosse ampliado o fornecimento para sua fábrica, o que fez a administradora da subestação, a companhia Edesur, duplicando o abastecimento. Os moradores denunciaram que isso também multiplicou a poluição eletromagnética. A justiça reivindicou o princípio precatório e suspendeu as operações até ter certeza quanto à relação entre produção e transmissão elétrica e os casos de câncer. Entretanto, a subestação continua funcionando. Com esse antecedente, moradores de Berazategui exigem que Rigolleau seja levada para outro lugar antes de começar a funcionar. Mas suas ações até agora não tiveram sucesso, e há suspeitas de que a transformadora já esteja funcionando. “Nos dizem que precisamos provar que Rigolleau contamina, mas é o contrário, o Estado e a empresa que devem nos dar certezas científicas de que não haverá impacto na saúde no longo prazo”, disse ao Terramérica Vanesa Salgado. Vanesa integra o Fórum pelos Direitos da Infância, Adolescência e Juventude de Berazategui, e seus dois filhos frequentam uma escola que fica a 150 metros da subestação. Os cabos subterrâneos de Rigolleau passam por baixo dessa e de outra escola. Em 2004, quando a Edesur decidiu instalar nesse local seu projeto, os vizinhos ficaram alertas. Haviam sido advertidos por moradores de Ezpeleta sobre perigos imperceptíveis da exposição a radiações magnéticas e elétricas que variam de intensidade segundo a demanda de energia ao longo do dia. A Edesur nunca respondeu aos pedidos de informação. De acordo com Vanesa, “dizem que estão dentro dos limites legais” de emissão. O Organismo Nacional Regulador da Eletricidade (Enre), órgão estatal de controle, avaliza a posição da empresa e, se faz as medições periódicas às quais está obrigado, não informa a comunidade. A Edesur e o Enre se amparam na Resolução 77/98 da Secretaria de Energia, assinada em 1998, que estabelece o limite máximo de 25 microteslas (µT) para este tipo de radiação. A µT é a unidade usada para medir os campos magnéticos. “Contudo, esta resolução é uma norma técnica, não leva em conta o impacto na saúde da população que vive próxima da subestação”, afirmou Vanesa. O Fórum e a Assembleia de Moradores Autoconvocados pela Vida de Berazategui decidiram, então, apelar para a justiça. E exigem a aprovação de uma lei sanitária que fixe critérios preventivos em relação aos campos magnéticos, e que está em sendo estudada por alguns legisladores. Em 2011, um protesto de moradores foi reprimido pela polícia com o resultado de 11 feridos. Em fevereiro deste ano, quando foi instalada uma barreira em volta da subestação com forte segurança policial, voltaram os incidentes e a repressão. Segundo Vanesa, a estação já funciona, mas não há certeza. As cartas que enviam à Edesur e ao Enre não são respondidas. A OMS implantou em 1996 o Projeto Internacional sobre Campos Eletromagnéticos para investigar os riscos sanitários vinculados às tecnologias que produzem estas radiações. Nesse contexto, em 2005 foi criado um grupo de trabalho que produziu, dois anos mais tarde, o estudo Campos de Frequência Extremamente Baixas, que analisou testes científicos de diferentes efeitos sanitários. Este estudo não encontrou substanciais consequências na saúde decorrentes da exposição geral do público a campos elétricos. Por outro lado, referiu-se a efeitos de curto e longo prazos pela proximidade a campos magnéticos. No curto prazo, uma exposição a radiações muito elevadas (acima de 100 µT) origina “no corpo humano correntes e campos elétricos que (...) causam estímulo neural e muscular (e) mudanças na excitabilidade neuronal do sistema nervoso central”. Quanto aos efeitos de longo prazo, o estudo ratificou a qualificação da OMS de 2002: os campos magnéticos são “possivelmente carcinógenos para as pessoas. Esta qualificação se aplica àqueles agentes cuja ação cancerígena está escassamente provada nas pessoas e insuficientemente provada em experimentos com animais”. Análises de estudos epidemiológicos demonstram “um quadro sistemático de aumento em dobro da leucemia infantil associada a uma exposição média a campos magnéticos de frequência de rede doméstica superior a 0,3 µT e 0,4 µT”, acrescentou a OMS. Porém, as evidências epidemiológicas se debilitam por problemas metodológicos, se desconhece se há um mecanismo biológico que desate o câncer diante da exposição a um campo magnético e os testes com animais deram resultados negativos. Quanto à incidência dos campos eletromagnéticos em outros tipos de câncer, depressão, suicídio, transtornos cardiovasculares, disfunções reprodutivas, transtornos do desenvolvimento e modificações imunológicas, entre outros problemas, os testes científicos foram muito mais fracos do que na leucemia infantil, concluiu o grupo de trabalho da OMS. Em entrevista ao Terramérica, o engenheiro Jorge Sinderman, diretor da cadeira de engenharia eletrônica da Universidade Nacional de San Martín, insistiu em afirmar que “os dados sobre possíveis efeitos nocivos para a saúde humana não são concludentes”. E, “para as radiações eletromagnéticas, que incluem frequências de distribuição elétrica, não se pode afirmar categoricamente sua inocuidade nem sua periculosidade. A prática habitual é empregar o princípio da cautela e estabelecer um máximo para a exposição”, ressaltou. O doutor Guillermo Sentoni, da Escola de Ciência e Tecnologia da mesma universidade, explicou ao Terramérica que os dados de câncer entre os indivíduos que vivem perto das linhas de força “são consistentes em indicar um risco levemente mais alto de leucemia em crianças”. Porém, “estudos mais recentes questionam a débil associação previamente observada”, acrescentou, enfatizando que, “na ausência de uma base de estudos de laboratório, os dados epidemiológicos são escassos para estabelecer recomendações”. A incerteza persiste. (Envolverde/Terramérica) * A autora é correspondente da IPS.   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.   LINKS   Antena celular ameaça parque Doentes litigam contra curtume na Argentina O câncer do petróleo, em espanhol Antenas de celulares movem ondas de temor e protestos, em espanhol Aumentam os celulares e o temor a suas antenas – 2005, em espanhol Fórum pelos Direitos da Infância, a Adolescência e a Juventude de Berazategui, em espanhol Edesur, em espanhol Organismo Nacional Regulador da Eletricidade, em espanhol Secretaria de Energia, em espanhol Extremely Low Frequency Fields – 2007, PDF em inglês Projeto Internacional Campos Eletromagnéticos, em espanhol, inglês e francês Universidade Nacional de San Martín, em espanhol Resolução 77/98 da Secretaria de Energia, PDF em espanhol


por Marcela Valente*
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Venezuela: Mulheres aprendem a reciclar Chile: Rejeitados anúncios sobre Pascua Lama Honduras: Aeroporto em zona maia Cuba: Energia eólica   VENEZUELA Mulheres aprendem a reciclar Caracas, 20 de agosto de 2012 (Terramérica).- Cerca de 200 mulheres do leste de Caracas se beneficiam de um programa que permite que se formem em reciclagem de materiais, elaboração e venda de roupas, bolsas, estojos, bijuterias e artesanato variado. Os produtos são elaborados com material reciclado de latas, papéis e papelão. O programa Meu Negócio Sustentável compreende uma dupla aprendizagem, ambiental e financeira. As participantes, na maioria chefes de família, adquirem “múltiplos conhecimentos, como noções ambientais e de reciclagem, exploração da criatividade e destreza artesanal, educação financeira, manejo de pequenos capitais e comercialização”, explicou ao Terramérica Diego Hernández, diretor-executivo adjunto da Provita, a organização ambientalista promotora. A iniciativa tem apoio da prefeitura de Sucre, município que cobre parte do leste de Caracas, e do grupo Citibank, que participa dos painéis de educação financeira e mantém créditos rotativos para pelo menos 30 das empreendedoras. (Envolverde/Terramérica)   CHILE Rejeitados anúncios sobre Pascua Lama Santiago, 20 de agosto de 2012 (Terramérica).- Ecologistas chilenos rejeitaram o anúncio da empresa canadense Barrick Gold de adiar por um ano a execução do projeto binacional de mineração Pascua Lama e aumentar o investimento inicial em US$ 3 bilhões. A mineradora anunciou, no final de julho, que o custo da construção da mina será de US$ 8 bilhões, sob o argumento de uma alta na inflação. O diretor do Observatório Latino-Americano de Conflitos Ambientais, Lucio Cuenca, afirmou ao Terramérica que a companhia tenta “ocultar a instabilidade” do projeto de exploração de ouro, prata e cobre. Esta situação obedeceria, em parte, à entrada em vigor na vizinha Argentina da lei que protege as geleiras e a decisão de seu governo de acabar com o tratado de dupla tributação. “Um projeto imposto à força e que é mal gerido necessariamente acabará mal, e isto é uma amostra”, observou Cuenca. (Envolverde/Terramérica)   HONDURAS Aeroporto em zona maia Tegucigalpa, 20 de agosto de 2012 (Terramérica).- O governo de Honduras construirá um aeroporto perto do Parque Arqueológico de Copán, garantindo que não haverá impacto ambiental sobre o Rio Amarillo, que corta a área. A ministra do Turismo, Nelly Jerez, afirmou ao Terramérica que após a elaboração de um plano de impacto e uma opinião favorável da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a construção do aeroporto “será uma realidade no curto prazo”. Em 2004, a Unesco se pronunciou contra essa construção, mas, segundo Jerez, “sua última resolução não é desfavorável, só pede que sejam cumpridos requisitos e dadas garantias de que não haverá impacto ecológico nem arqueológico”, acrescentou. O governo busca incentivar o turismo em Copán, uma das principais áreas da cultura maia neste país centro-americano. (Envolverde/Terramérica)   CUBA Energia eólica Havana, 20 de agosto de 2102 (Terramérica).- Cuba pretende desenvolver a energia eólica e projetá-la até o Caribe, disse ao Terramérica o especialista Conrado Moreno, organizador de uma conferência mundial sobre essa fonte que pela primeira vez acontecerá na América Latina. Moreno disse que Cuba tem instalados 11,7 megawatts (MW) em quatro parques eólicos. O governo planeja mais oito até 2020, com potência total de 80 MW. A XII Conferência Mundial de Energia Eólica e a Exposição de Energias Renováveis acontecerá em Havana entre 3 e 5 de junho de 2013, e será uma ótima oportunidade para que a região caribenha “mostre seus progressos e suas projeções”, sobretudo considerando sua alta dependência do petróleo importado, ressaltou Moreno. (Envolverde/Terramérica)   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

pegada Entrevista

TERRAMÉRICA – Hospitais diminuem sua pegada ecológica

Os hospitais dos Estados Unidos são o terceiro maior usuário de energia no setor de prédios comerciais. Santiago, Chile, 13 de agosto de 2012 (Terramérica).- A cura está associada a imagens de limpeza e saúde. Entretanto, os hospitais de nossos dias são pontos quentes de contaminação e de elevado consumo de recursos valiosos, como a energia. Frequentemente esta contaminação se reverte em doenças, que são tratadas pelos mesmos hospitais que contribuíram para causá-las, disse ao Terramérica a coordenadora da Saúde sem Dano dos Estados Unidos, Kathy Gerwig. É que “a saúde ambiental não é ensinada nas escolas de medicina”, acrescentou Kathy, que é vice-presidente de segurança do trabalho e encarregada de gestão ambiental da Kaiser Permanente, um dos sistemas de saúde sem fins lucrativos mais importantes desse país. Porém, os hospitais estão começando a notar sua própria pegada ecológica. A Saúde sem Dano conseguiu atrair mais de 3,5 mil instituições de todo o mundo para a Rede Global de Hospitais Verdes e Saudáveis. No Chile aderiram os hospitais Illapel, de Salamanca, e Los Vilos e o Departamento de Saúde Provincial do Choapa, província da região Coquimbo. Para ser membro da rede basta se comprometer com pelo menos dois dos dez objetivos de sua agenda global: liderança, substâncias químicas, resíduos, energia, água, transporte, alimentos, produtos farmacêuticos, edifícios e compras verdes. A agenda global é de adesão voluntária. Uma de suas metas inclui a eliminação total do mercúrio, metal neurotóxico usado em termômetros e aparelhos para medir a pressão arterial, entre outros dispositivos médicos. À campanha contra o mercúrio aderiram sistemas hospitalares e autoridades nacionais e estaduais de vários países da América Latina, como Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, Nicarágua, contou ao Terramérica a bióloga Verónica Odriozola, coordenadora da Saúde sem Dano para a região. Kathy e Verónica conversaram com o Terramérica durante a conferência Hospitais do Futuro, realizada no dia 9, em Santiago. TERRAMÉRICA: Quais os impactos ambientais mais importantes dos sistemas hospitalares? [caption id="attachment_61970" align="alignright" width="199" caption="Os hospitais gastam energia 24 horas ao dia, sete dias por semana, disse Kathy Gerwig. Foto: Marianela Jarroub/IPS"][/caption] KATHY GERWIG: Na Kaiser Permanente definimos cinco áreas: energia e mudança climática, substâncias químicas e produtos mais seguros, resíduos, água e alimentação sustentável. Há doenças que são resultado da exposição ambiental, como o câncer. Os hospitais às vezes têm piso de vinil ou PVC, e o vinil, quando incinerado, produz dioxinas que são substâncias cancerígenas. Outro exemplo é a energia. A proveniente do petróleo e seus derivados é responsável pela mudança climática e os efeitos desta na saúde incluem mais enfermidades infecciosas e manifestações meteorológicas severas que podem prejudicar as pessoas, como ondas de calor, incêndios e inundações. Os hospitais gastam energia 24 horas por dia, sete dias na semana. Nos Estados Unidos, são o terceiro maior consumidor de energia no setor de edifícios comerciais. Então, esse consumo causa a mudança climática e esta provoca doenças... Devemos fazer um uso mais sábio da energia para prevenir enfermidades. TERRAMÉRICA: O que a Saúde sem Dano propõe em matéria de resíduo hospitalar? KG: Estamos interessados em dois aspectos: o tratamento e o volume desse lixo. Sobre o tratamento, a incineração é perigosa para a saúde ambiental, e buscamos alternativas. Por exemplo, em minha organização a maior parte dos resíduos médicos é tratada com esterilização por vapor. Quanto ao volume, fazemos três coisas: melhorar o processo de compras, para evitar adquirir produtos que serão jogados fora rapidamente, maximizar a reciclagem e utilizar os materiais o mais possível. TERRAMÉRICA: Quais práticas se aplicam em energia e alimentos? KG: O nosso foco está em reduzir o consumo elétrico e empregar mais fontes renováveis, como a solar. Um exemplo específico é a adoção de iluminação LED em todas as salas de cirurgia dos hospitais da Kaiser Permanente. Estas lâmpadas não consomem menos eletricidade, mas geram menos calor, o que leva a um menor uso de refrigeração. Na alimentação, nossos hospitais fazem compras semanais de frutas e verduras na feira. Assim apoiamos os agricultores locais, que têm a chance de conseguir ganhos no fornecimento local, porque cada hospital é um grande consumidor. O pessoal hospitalar também pode adquirir esses produtos e, em muitas comunidades, a feira abastece de alimentos locais também as pessoas que vivem próximas. Nos Estados Unidos, 3% das frutas e verduras são orgânicas, mas aproximadamente 6% dos alimentos que servimos aos nossos pacientes o são. Além disso, todos os produtos lácteos em nossos hospitais são de animais livres de hormônio do crescimento agregado, e elaboramos cardápios com menos carne. TERRAMÉRICA: Que porção de sistemas hospitalares do mundo aderiu à rede? [caption id="attachment_61971" align="alignright" width="202" caption="Às vezes as mudanças funcionam melhor de baixo para cima, afirma Verónica Odriozola. Foto: Marianela Jarroub/IPS"][/caption] VERÓNICA ODRIOXOLA: É difícil dizer agora, porque estamos na fase de somar e os novos membros o fazem como fundadores. Mas há muitos grandes, como o sistema público de saúde da capital do México, ou o sistema nacional de saúde da Inglaterra. Depois há hospitais avulsos ou associações hospitalares. TERRAMÉRICA: E na América Latina? VO: Alguns países se destacam porque não tivemos oportunidade ou capacidade de chegar a todos. Há bastante progresso no Brasil, na Argentina e no México, no Chile com a campanha contra o mercúrio, que começou com alguns hospitais-piloto e depois levou o Ministério da Saúde a adotar um compromisso de gestão que inclui 90% das instituições públicas. Também estamos trabalhando na Costa Rica e na Nicarágua, onde o sistema de saúde já está livre de mercúrio graças ao nosso trabalho. TERRAMÉRICA: Na recente reforma da saúde norte-americana, estes temas estiveram presentes? KG: Alguns deles. Talvez não de forma explícita, mas há uma boa quantidade de oportunidades na nova lei. Por exemplo, exige-se histórico clínico eletrônico. Isto permite não apenas economia de papel, mas também um cuidado da saúde mais eficiente. Se você pode se comunicar com seu médico por email pode economizar uma viagem de carro até o consultório. Outro elemento interessante da reforma é que proporciona incentivos para prevenir doenças. Quanto melhor formos em prevenção, menos recursos precisaremos para tratar enfermidades. TERRAMÉRICA: Suas campanhas se destinam a mudar políticas públicas ou se conformam com a adesão voluntária? VO: Trabalha-se com os atores do sistema e também procurando fazer com que a mudança se converta em uma política pública, porque mal poderíamos ir atrás de cada um dos hospitais para gerar transformações. Entretanto, às vezes essas mudanças funcionam melhor de baixo para cima, como ocorreu no Chile com o mercúrio. Neste caso, nosso trabalho agora é procurar fazer essa voz chegar às atuais negociações internacionais de um convênio sobre mercúrio, nas quais o setor da saúde diga “estes produtos contêm mercúrio e podem ser proibidos em nível global; nos já o provamos e comprovamos”. * A autora é correspondente da IPS.   LINKS   A terapia dos terraços verdes Pediatras descobrem o risco ambiental Estado chileno financia serviço de medicina mapuche Entrevistas de mãos dadas - Cobertura especial da IPS, em espanhol Saúde sem Dano – América Latina, em espanhol e português Saúde sem Dano, em inglês Agenda Global para Hospitais Verdes e Saudáveis, pdf em espanhol Rede Global de Hospitais Verdes e Saudáveis, em espanhol Iniciativa de Hospitais Saudáveis, em inglês Kaiser Permanente, em inglês e espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.    


por Marianela Jarroud*
“Sou verde”, diz a bolsa de etileno da Braskem. Foto: Cortesia Braskem Ambiente

TERRAMÉRICA – Biopolímeros, o sonho da petroquímica verde

[caption id="attachment_61957" align="alignleft" width="300" caption="“Sou verde”, diz a bolsa de etileno da Braskem. Foto: Cortesia Braskem"][/caption] Os plásticos obtidos de etano de cana-de-açúcar podem gerar menos contaminação climática do que os derivados de petróleo. Contudo, como estes, tampouco são biodegradáveis. Rio de Janeiro, Brasil, 13 de agosto de 2012 (Terramérica).- O Brasil é o maior produtor mundial de biopolímeros, cuja produção emite menos gases-estufa do que os derivados dos hidrocarbonos. Mas os “plásticos verdes” obtidos da cana-de-açúcar também têm seu sabor amargo. A fábrica que marcou o salto na produção para escala industrial do polietileno verde foi instalada em 2010 no Polo Petroquímico do Sul, localizado em Triunfo, no Rio Grande do Sul, com capacidade anual de 200 mil toneladas. Desenvolvido com tecnologia da empresa brasileira Braskem, uma das maiores petroquímicas do mundo, o plástico verde é uma resina termoplástica feita a partir do abundante etanol produzido no país a partir da cana-de-açúcar. A Braskem, que continua tendo no petróleo sua principal matéria-prima, garante que o polietileno verde possui as mesmas propriedades de seu primo petroquímico, e que sua diferença é ambiental. “O plástico verde captura e fixa até 2,5 toneladas de gás carbônico da atmosfera para cada tonelada produzida”, explicou ao Terramérica o diretor de químicos renováveis da Braskem, Marcelo Nunes. Além disso, esse material tem grande versatilidade para aplicações em produtos de higiene e limpeza, alimentícios, cosméticos e automotivos. “É feito a partir de uma matéria-prima 100% renovável como a cana-de-açúcar”, acrescentou. A empresa garante que, com a produção desse polietileno e de outros produtos da mesma linha sustentável, contribui para reduzir mais de 750 mil toneladas anuais de dióxido de carbono, o que equivale a plantar e manter mais de cinco milhões de árvores a cada ano. O próximo passo é construir e pôr para funcionar, em 2013, sua primeira fábrica de polipropileno verde, que também utiliza etanol. O polipropileno, que em sua versão petroquímica é a segunda resina termoplástica mais consumida no mundo, terá as mesmas vantagens ambientais que o polietileno, pontuou Nunes. O volume de produção de plástico verde é pouco significativo em relação ao de outras resinas convencionais. Porém, segundo acrescentou, é de grande importância para a Braskem, que “deseja ser líder mundial em química sustentável até 2020”. O ambientalista José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, disse que investir nestes plásticos verdes é positivo porque substituem matérias-primas básicas da indústria petroquímica como a nafta (benzina ou éter de petróleo). A nafta é a principal fonte da petroquímica, e responde por quase 50% da produção mundial de etileno, embora em regiões como Oriente Médio e América do Norte o gás seja mais utilizado. “Usar cana-de-açúcar para substituir produtos obtidos com nafta é um importante passo na direção da sustentabilidade”, destacou o professor ao Terramérica. Opinião igual tem Eduardo Atahyde, diretor da filial no Brasil do Worldwatch Institute, que em seu artigo de 2009 Polietileno Verde, um Sinal Positivo, afirma que esse plástico com tecnologia brasileira prepara “a estreia da petroquímica sob as novas regras de jogo da economia baixa em carbono”. “Embora ainda não seja biodegradável, porque ao substituir a nafta fóssil pelo etanol renovável o polímero resulta idêntico ao de origem petroquímica, dá um passo adiante em acordo com as recomendações de diminuição de emissões”, acrescentou. A cana-de-açúcar ainda não tem impacto no mercado da indústria petroquímica, comparada com o petróleo. No entanto, “ao longo do tempo haveria essa necessidade de encontrar um substituto do petróleo e do gás natural para fazer polímeros. Quanto antes melhor”, declarou ao Terramérica o especialista em mudança climática e uso sustentável de recursos naturais, Roberto Kishinami. A objeção de Kishinami, consultor de organizações como Instituto Democracia e Sustentabilidade e ActionAid, é que, ao se massificar o uso da cana para combustível ou para a petroquímica, se exacerbe sua condição de monocultura extensiva. Nunes rebate, destacando que “o cultivo de cana-de-açúcar para a produção do plástico verde utiliza cerca de 0,02% de todas as terras aráveis do país. Além disso, não há competição com o setor alimentício, como ocorre com alguns plásticos originados do milho, por exemplo”. Entretanto, o engenheiro agrônomo e ativista ambiental do Rio Grande do Sul, Luiz Jacques Saldanha, advertiu que “chamar de verde este processo apenas porque a fonte de carbono vem da agricultura é um grande engano. E acrescentou que “há mudança na produção de alimentos e será outra ‘commodity’ (produto básico), como já se faz com a soja, a grande tragédia do Século 21 em termos de uso da terra produtiva em todo o planeta, com imensas monoculturas”. Saldanha vê os biopolímeros como outra “maquiagem verde” (greenwashing), termo usado para descrever novas práticas de comercialização de produtos que buscam mostrar uma suposta contribuição ambiental para o planeta. Não é a fonte de carbono (seja petróleo, carvão, etanol ou qualquer outra) que “faz, ou não, estas moléculas verdes”, detalhou o agrônomo. “Como não são biodegradáveis, não podem ser consideradas verdes porque continuam por tempo indeterminado no meio ambiente, contaminando os ecossistemas”, ressaltou. Saldanha também questiona os plásticos utilizados no processo de industrialização do polietileno e do polipropileno verdes. “Entre todas as resinas, estas ainda são consideradas as menos problemáticas como monômeros. Contudo, como todas as resinas de uso final para produtos de consumo, possui plastificantes como o bisfenol A”, um aditivo também contaminante. Todo plástico, verde ou não, “deve ser reciclado e nunca liberado no meio ambiente”, alerta. Doces ou amargas, as consequências ambientais dos plásticos verdes poderão ser medidas se no futuro a cana-de-açúcar se converter na matéria-prima estrela da petroquímica brasileira. No momento, uma indústria “sucroquímica” brilha distante. * A autora é correspondente da IPS.   LINKS   Cana-de-açúcar fertiliza sua própria terra Brasil quer dominar mercado do etanol Potencial da cana fomenta a ciência Brasil desperdiça potencial elétrico da cana-de-açúcar Polo Petroquímico do Sul Braskem Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo Instituto Democracia e Sustentabilidade Site de Luiz Jacques Saldanha Polietileno verde, um sinal positivo   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Fabiana Frayssinet*
Eco1111 Terramérica

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México: Direito à mobilidade Honduras: Primeira usina de lixo sólido Argentina: Julgamento por fumigação tóxica Brasil: Biofiltro diminui poluição em aterros sanitários   *********************************************** MÉXICO  - Direito à mobilidade   Cidade do México, 13 de agosto de 2012 (Terramérica).- Organizações da sociedade civil promovem, na capital do México, o direito à mobilidade, o que envolve políticas sociais, econômicas e ambientais. “A mobilidade deve ser um tema mais valorizado e de melhor qualidade”, disse ao Terramérica o diretor para a América Latina do não governamental Instituto de Políticas para o Transporte e o Desenvolvimento, Bernardo Baranda. “Deve haver normas mais rígidas que desestimulem o uso do automóvel e encareçam o estacionamento, e mais opções de transporte público”, destacou. Em setembro essa organização entregará recomendações ao governo da capital e à estatal Comissão de Direitos Humanos do Distrito Federal, que divulgará no final do ano um relatório sobre o estado da mobilidade. Na capital mexicana, habitada por quase nove milhões de pessoas, são feitas 22 milhões de viagens diárias, das quais 16 milhões não são no transporte público.   *********************************************** HONDURAS - Primeira usina de lixo sólido   Tegucigalpa, 13 de agosto de 2012 (Terramérica).- O município de Marcovia, no sul de Honduras, será em setembro o primeiro do país a contar com uma unidade para tratar e reciclar resíduos sólidos. Os produtos da reciclagem serão vendidos a empresas de El Salvador e Guatemala. Com custo de US$ 500 mil, a obra pretende beneficiar cerca de 47 mil pessoas que não têm serviço de coleta de lixo em Marcovia, sul do departamento de Choluteca, explicou ao Terramérica seu prefeito, Nahúm Cálix. Marcovia é uma das principais zonas turísticas da costa do Oceano Pacífico, por suas praias, conservação da tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) e praias de mangue. O município produz 19 toneladas de lixo por dia.   *********************************************** ARGENTINA  - Julgamento por fumigação tóxica   Buenos Aires, 13 de agosto de 2012 (Terramérica).- Familiares de afetados pela fumigação aérea com agrotóxicos na província argentina de Córdoba querem que o processo contra dois agricultores e um executor de fumigação crie um precedente. “Pela primeira vez se julga a contaminação ambiental por fumigação. As pessoas agora têm mais consciência disto e será criado um precedente”, disse ao Terramérica uma das litigantes afetadas, María Godoy. O grupo pertence ao bairro Ituzaingó Anexo, que desde 2001 denuncia a fumigação com endusulfan e glifosato sobre campos limítrofes e o dano que causou à saúde da população local, apoiado em informes médicos. O litígio levou a um julgamento oral contra os dois agricultores e um executor de fumigação. A promotoria pediu, no começo deste mês, penas de prisão para dois dos acusados e absolvição do terceiro por falta de provas. O veredito será conhecido no dia 20.   *********************************************** BRASIL - Biofiltro diminui poluição em aterros sanitários   Rio de Janeiro, 13 de agosto de 2012 (Terramérica).- Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um biofiltro que utiliza uma bactéria para reduzir o volume de gases contaminantes emitidos pelos aterros sanitários. Utilizados como destino final de 30% do lixo no Brasil, os aterros sanitários são locais projetados para minimizar os impactos do lixo no meio ambiente, mas seu solo libera gases como o metano, produzidos pela fermentação do material enterrado, que chega à atmosfera ao vazar por rachaduras na superfície. O sistema desenvolvido consiste em induzir a multiplicação de um tipo de bactéria capaz de consumir o metano. Essa bactéria é misturada com material retirado do próprio solo, que é colocado de volta para que forme uma camada cobrindo a superfície do aterro. “Alguns desses locais transformam o metano emitido em energia, mas essa opção não é economicamente vantajosa. O novo método significa ganhos ambientais sem gerar grandes custos”, ressaltou ao Terramérica o engenheiro coordenador da pesquisa, Fernando Marinho.   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  

Tranquilidade da Vila Zacarias e da Lagoa de Maricá não reflete as ameaças que vivem suas populações. Foto: Mario Osava/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Pescadores em luta contra a própria agonia

[caption id="attachment_61147" align="alignleft" width="340" caption="Tranquilidade da Vila Zacarias e da Lagoa de Maricá não reflete as ameaças que vivem suas populações. Foto: Mario Osava/IPS"][/caption] Não se pode obrigar o pescador a se transformar em aquicultor, afirma uma das dirigentes de uma campanha para estabelecer territórios protegidos para a pesca artesanal no Brasil. “Sou pescadora, não sei fazer outra coisa, e não quero.” Pescadores resistiram com foice, enxada e outros instrumentos de trabalho quando 40 anos atrás homens armados a mando do suposto proprietário dos terrenos que queriam desalojá-los. Mas, depois chegaram policiais militares e derrubaram oito casas. A indignação chegou ao máximo com o despejo de uma família com cinco filhos paralíticos, “jogados ao sol na rua”, contou Vilson Correa ao Terramérica. Felizmente, o prefeito ordenou a suspensão da operação e mandou reconstruir as casas, “porque tinha um compadre” na comunidade desalojada. Vilson tinha nove anos naquele 1970, quando sua casa foi uma das destruídas. Foi seu batismo de fogo na luta para manter a comunidade pesqueira de Zacarias, no município de Maricá, a 60 quilômetros do Rio de Janeiro, diante de sucessivas tentativas de desalojá-la com ameaças e atentados. Hoje, como presidente da Associação Comunitária de Cultura e Lazer dos Pescadores de Zacarias, fundada em 1943, enfrenta um desafio envolvente: a construção de um grande complexo turístico, residencial e comercial que pode extinguir o modo de vida tradicional de seu povo. A Vila de Zacarias, com suas cem famílias, é exemplo da pressão que sofrem os pescadores artesanais no Brasil, ampliada nos últimos anos por uma expansão econômica que se assenta em grandes projetos energéticos, logísticos e turísticos. Hidrelétricas que se conta às dezenas em alguns rios e agora invadem a Amazônia deslocam populações ribeirinhas e alteram a ecologia fluvial, acabando com as condições para a pesca tradicional. Portos e complexos industriais e turísticos são instalados em baías e outros ecossistemas propícios para a reprodução de peixes e mariscos. O petróleo, que no Brasil é extraído principalmente do fundo do mar, é outro carrasco, não apenas por seus frequentes vazamentos, como também pela extensa infraestrutura que exige em portos, dutos e embarcações. Diante dessa ofensiva contra seus espaços, o Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil, que se organizou na primeira conferência nacional do setor em 2009, iniciou em junho uma campanha pela criação de Territórios das Comunidades Tradicionais Pesqueiras. Trata-se de conseguir 1,38 milhão de assinaturas para propor um projeto de lei que reconheça e garanta o direito dos pescadores a um território, que inclua terras e água, onde possam viver de seu trabalho e sua cultura. As propostas de iniciativa popular devem ser recebidas pelo Poder Legislativo quando contam com apoio de pelo menos 1% dos eleitores, segundo a Constituição de 1988. Quatro projetos apresentados dessa forma já foram aprovados. Ao contrário dos indígenas e dos quilombolas (descendentes de escravos africanos que vivem em comunidades remanescentes), os pescadores não contam com uma legislação que permita demarcar uma área exclusiva e comunitária, embora seus direitos sejam reconhecidos como um dos povos tradicionais deste país com mais de 192 milhões de habitantes. O desenvolvimento impulsionado pelo governo estimula “a privatização dos corpos de água” e a aquicultura em escala empresarial, em detrimento dos pequenos pescadores, disse Maria José Pacheco, do Conselho Pastoral dos Pescadores, que apoia o movimento desde Olinda, no Estado de Pernambuco. Segundo ela, a pesca tradicional responde por cerca de 70% do pescado consumido no Brasil. Sua defesa também é uma questão de segurança e soberania alimentar. Os territórios de pesca garantiriam a “reprodução física e cultural” das comunidades pesqueiras, em sua “lógica de visão de mundo, de não acúmulo, mas de relação harmoniosa com a natureza”, acrescentou Maria José ao Terramérica. No Brasil, há 1,5 milhão de pescadores, de acordo com o Conselho Pastoral, enquanto o Ministério de Pesca e Aquicultura tinha registrados 853.231 até o final de 2010. As estatísticas são precárias, inclusive sobre produção pesqueira, e excluem muitas mulheres que se dedicam a essa atividade, destacou Maria José. “Resistir já é uma vitória”, afirmou ao Terramérica a pescadora Marizelha Lopes, da Bahia, uma das coordenadoras da campanha pelos territórios. O petróleo, as represas e a indústria do camarão são os grandes inimigos do Nordeste. A criação de camarões se expandiu destruindo mangues vitais para a vida marinha, explicou Marizelha, de uma família de 11 irmãos pescadores na Ilha da Maré, onde “80% dos oito mil habitantes” se dedicam à pesca. A ilha fica perto de Salvador, capital baiana e um grande mercado consumidor. “Não somos contra o progresso, desde que não seja excludente” e a aquicultura e os grandes projetos não impossibilitem a pesca artesanal, esclareceu, acrescentando que não se pode obrigar o pescador a se transformar em aquicultor. “Sou pescadora, não sei fazer outra coisa e não quero”, ressaltou. As reservas extrativistas (Resex), áreas em que os povos tradicionais aproveitam produtos naturais de maneira sustentável e limitada, são uma alternativa para os pescadores. Nasceram da luta dos seringueiros contra o desmatamento dos madeireiros e agricultores. Em Arraial do Cabo, norte do Estado do Rio de Janeiro, foi criada uma Resex Marinha que beneficia 300 famílias, destacou o secretário estadual de Meio Ambiente, Carlos Minc, em resposta aos pescadores que o criticam por ter autorizado projetos que afetam a atividade. Entretanto, tanto as Resex quanto as terras de indígenas e quilombolas já demarcadas sofrem invasões de latifundiários e empresas, afirmou José Carlos Feitosa, pescador que enfrenta conflitos diferentes na Amazônia. Ele vive em Aveiro, às margens do Rio Tapajós, grande afluente do Amazonas, onde o governo planeja construir cinco grandes centrais hidrelétricas nos próximos anos. “Será a morte do Tapajós”, teme José Carlos, membro de uma colônia de aproximadamente dois mil pescadores, cuja presença certifica “uma bacia ainda abundante em peixes”. Maricá era o grande fornecedor de pescado na cidade do Rio de Janeiro há três décadas, quando entregava de 60 a 70 toneladas por semana. Hoje, dificilmente alcança cinco toneladas, disse Roberto Ferraz, secretário-geral da Federação das Associações de Pescadores Artesanais do Estado. Mesmo assim, Vilson persiste na resistência em Zacarias, que começou com seus avós, antes de 1940, quando apareceu um proprietário da terra com documentos oficiais, embora a comunidade pesqueira vivesse ali há “três séculos”, segundo afirmou. A ameaça atual é a construção de quatro hotéis, um conjunto residencial, centros comerciais e campos de golfe e hipismo na propriedade conhecida como Fazenda São Bento da Lagoa, que inclui a vila dos pescadores. O novo dono da terra e do projeto, a empresa de negócios imobiliários IDB Brasil, administrada pelo grupo espanhol Cetya, em sua publicidade promete a “regularização dos terrenos da comunidade de pescadores de Zacarias” e melhorias ambientais, como reflorestar a área com espécies nativas e tratar todo o esgoto. Os pescadores veem no projeto uma ameaça de extinção. E seus aliados ambientalistas temem que seja destruída a biodiversidade da restinga, o ecossistema que separa a grande Lagoa de Maricá do mar. (Terramérica/Envolverde) * O autor é correspondente da IPS.   LINKS   Pescadores do Rio de Janeiro a caminho da extinção Tubarões atestam pecados ambientais de Suape Produtoras de camarão entre a certificação e a maquiagem
 Rio Xingu entre a eletricidade e a diversidade Aquicultura entre o entusiasmo e a cautela Pesca sem controle – Cobertura especial da IPS, em espanhol Prefeitura de Maricá Ministério de Pesca e Aquicultura do Brasil IDB Brasil   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Mario Osava*
Os sistemas desérticos são muito frágeis, sem amortização possível diante de mudanças bruscas do clima. Foto: Juan Moseinco/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – A pré-história verde de Puna

[caption id="attachment_61145" align="alignright" width="340" caption="Os sistemas desérticos são muito frágeis, sem amortização possível diante de mudanças bruscas do clima. Foto: Juan Moseinco/IPS"][/caption] A mudança do clima em Puna há milhares de anos pode ter sido determinante para que os povos caçadores adotassem a agricultura. Buenos Aires, Argentina, 6 de agosto de 2012 (Terramérica).- A árida Puna do noroeste da Argentina era mais verde há milhares de anos. Transformações climáticas forçaram seus moradores originários a desenvolverem estratégias de adaptação que poderiam servir de lição, afirmam cientistas. “Puna sempre foi uma área desértica, mas até cerca de cem anos atrás havia maior cobertura vegetal e os lugares produtivos eram muito mais abundantes porque chovia o ano todo”, explicou ao Terramérica o arqueólogo Hugo Yacobaccio, da Universidade de Buenos Aires (UBA). No transcurso de alguns milhares de anos ocorreram mudanças que acabaram impondo condições de extrema aridez. Segundo os registros do clima antigo, um dos fatores foi o fenômeno El Niño/Oscilação do Sul (Enos), que ocorre há pelo menos três mil anos. Parte do sistema que regula o calor no trópico oriental do Oceano Pacífico, o Enos está pautado por mudanças na temperatura da superfície oceânica e na pressão atmosférica. O período entre os anos 6000 e 2000 antes de Cristo se caracterizou por uma intensa aridez nas latitudes baixas do planeta. “É o momento em que se forma o Deserto do Saara no norte da África, que antes era uma savana”, destacou Hugo. As populações precisaram se adaptar aos novos desafios. “Os grupos de caçadores-coletores diminuíram sua mobilidade – aumentou a densidade populacional relativa – e se agruparam em torno de pequenos oásis ou refúgios ecológicos”, acrescentou Marcelo Morales, também arqueólogo da UBA. Diferentes estudos paleoambientais apresentam evidências de que nessa etapa diminuiu muito a presença humana nesses cenários, mas não desapareceu. “O objetivo final destes estudos é entender melhor como funcionava a sociedade há milhares de anos em torno das variações climáticas, e resgatar isto como experiência diante do aquecimento global atual, muito mais acentuado”, ressaltou Marcelo. Os dois pesquisadores trabalham no Instituto de Arqueologia da UBA e no Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas, e se dedicam à arqueologia ambiental, que estuda as relações entre as sociedades do passado e o uso que faziam do meio ambiente. Já publicaram diversos trabalhos, concentrando-se em um cenário e uma conjuntura que é fundamental por diferentes motivos. Puna é uma meseta de alta montanha que, com diferentes nomes e características, se estende pelo sul do Peru, nordeste do Chile, ocidente da Bolívia e noroeste da Argentina. As áreas do lado argentino, salpicadas por “salares” (superfícies de puro sal), estão entre as mais áridas dos cenários de Puna. Hugo também explicou que é uma das poucas regiões do mundo onde se pode registrar um processo autóctone de transição de grupos de caçadores-coletores para sociedades mais sedentárias e complexas dedicadas ao cultivo e ao pastoreio. “Esta passagem pode ser detectada em cinco ou seis lugares do mundo, e desses poucos locais se expandiu para o restante”, acrescentou. Os outros lugares onde se documenta essa transição são Oriente Médio (Israel, Turquia, Síria), China, Mesoamérica (sul do México e norte da América Central) e Peru, acrescentou. Os sistemas desérticos são muito frágeis, sem amortização possível diante de mudanças bruscas do clima. “Por isso acreditamos que há um seguro impacto destas mudanças sobre as populações, porque desaparecem riachos e mangues”, afirmou Hugo. A flora foi rareando e os animais de caça se dispersaram. Alguns moradores migraram e outros começaram a ver que lhes convinha permanecer mais tempo em locais mais aptos, onde era mais seguro obter recursos básicos como água, alimento e fontes de energia, acrescentou Marcelo. Esses lugares estavam quase sempre a mais de quatro mil metros de altitude, onde subsistiam mangues e cursos de água. “Se antes se moviam em grupos de 15, agora confluirão em grupos de 70 pessoas em torno destas áreas, e isso marca o começo da experiência com certas práticas econômicas como a domesticação de camélidos, guanacos e vicunhas que eram os mamíferos silvestres por excelência”, detalhou Marcelo. Em menor medida, adotou-se o cultivo de espécies como abóbora, quinoa, batata e outros tubérculos, e “tudo isto gera mudanças de hábitos porque estes refúgios onde se pode pastorear e cultivar, e onde se consegue lenha, agora são áreas isoladas entre si e separadas por desertos”, pontuou. Em suas pesquisas de campo, encontraram evidências de aldeias incipientes, restos de instrumentos, bolsas tecidas com fibra vegetal e cultivos adaptados dos vales. “Até se caminha por diferentes lugares”, observou Hugo. Com a mudança de clima também variaram as estratégias de caça, que passou de ser solitária para em grupo. Começou um processamento mais intensivo das presas e maior planejamento no geral. Os grupos assentados em áreas úmidas “começam a intervir mais na seleção de animais para domesticar, deixando de lado os mais ariscos, e isso tem um impacto sobre o recurso”, definiu o arqueólogo. Outros pesquisadores que trabalham em zonas muito áridas na parte salgada de Puna estão aplicando um sistema de manejo de irrigação que tem milhares de anos em cultivos atuais, e está sendo eficaz, contou Marcelo. “Há uma ideia de extrapolar a experiência passada, para somar alternativas e melhorar o manejo atual diante de condições climáticas que acentuaram suas características”, concluiu. * O autor é correspondente da IPS.   LINKS   Povoados solares se acendem em Puna Terras indígenas se transformam em desertos Mulheres indígenas reativam economia local, em espanhol Incansáveis guardiões da terra, em espanhol O deserto é das tenazes, em espanhol Males da altura ao norte do paraíso, em espanhol Universidade de Buenos Aires, em espanhol e inglês Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Marcela Valente*
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Chile: FAO promove bioenergia Honduras: Plebiscito sobre mineradoras Brasil: Reivindicada avaliação conjunta de hidrelétricas amazônicas Venezuela: Reciclagem de cadernos usados   CHILE FAO promove bioenergia Santiago, 6 de agosto de 2012 (Terramérica).- O Escritório Regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) recomendou ao Chile que incorpore a bioenergia à sua matriz energética. A FAO reconheceu que o Chile possui uma baixa disponibilidade de matérias-primas agrícolas e de áreas cultiváveis para bioenergia, mas afirmou que há novas possibilidades de incorporar áreas a esta indústria, com matérias-primas alternativas. O ecologista Juan Pablo Orrego afirmou ao Terramérica que o espectro da utilização de biomassa em termos energéticos é muito amplo “e que se deve levar em conta que na natureza nada se perde”. Reconheceu que há algumas alternativas que são muito ecológicas e eficientes, como produzir biogás a partir do esterco. Entretanto, opinou que “nos parece complicado utilizar biocombustíveis, usar terra e cultivar para produzir combustível”.   HONDURAS Plebiscito sobre mineradoras Tegucigalpa, 6 de agosto de 2012 (Terramérica).- A figura do plebiscito se incorporou ao projeto da Lei de Mineração que deve ser aprovado no final do ano em Honduras. Se uma comunidade é contra a instalação de uma exploração de minério, pode-se convocar um plebiscito, instrumento que também poderia ser aplicado para outros tipos de regulamentações ambientais, disse Aldo Santos, da Direção Executiva de Fomento à Mineração, do Ministério do Meio Ambiente. A nova proposta de lei sobre mineração já conseguiu consenso em cinco das oito regiões do país, e esse processo deve terminar no final deste mês, informou Santos ao Terramérica. Os governos locais e municipais terão protagonismo nesta nova legislação, defendida há oito anos por grupos da sociedade civil, governo central e deputados.   BRASIL Reivindicada avaliação conjunta de hidrelétricas amazônicas Rio de Janeiro, 6 de agosto de 2012 (Terramérica).- Um exame profundo dos impactos da construção de 30 hidrelétricas amazônicas é uma necessidade urgente para acompanhar recursos públicos e privados aplicados na região, destacou o Observatório de Investimentos na Amazônia do Brasil. O governo considera estratégicas as centrais para dinamizar a economia e ampliar a geração elétrica, mas os custos sociais e ambientais que esse conjunto de obras provoca estão longe de serem efetivamente medidos e incorporados ao custo da energia, afirma uma nota técnica do Observatório, do não governamental Instituto de Estudos Socioeconômicos. “Entre os inúmeros impactos que estas obras podem gerar está principalmente o fluxo migratório, que afeta a infraestrutura das cidades e aumenta o desmatamento, entre outras consequências”, disse ao Terramérica Alessandra Cardoso, coordenadora do Observatório. Os orçamentos governamentais preveem investimentos superiores a US$ 45 bilhões em hidrelétricas na Amazônia até 2014.   VENEZUELA Reciclagem de cadernos usados Caracas, 6 de agosto de 2012 (Terramérica).- O governo do Estado venezuelano de Miranda lançou a campanha “Doe seu caderno usado”, para que crianças e jovens entreguem em suas escolas esse material que usaram em seus estudos e não voltarão a utilizar, para ser reciclado. “Em um teste que fizemos no ano passado, coletamos em uma escola 487 quilos de papel com estes cadernos e 152 em outra. Isto nos amimou a dispor agora de centros de coleta nas escolas públicas”, disse ao Terramérica a bióloga Evelyn Pallotta, diretora de Meio Ambiente no governo. “Quando reciclamos o papel usado, consumimos um terço da energia necessária para sua fabricação inicial e cem vezes menos água. Por isto, a contribuição dos alunos é substancial”, acrescentou Pallotta.   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.    


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