Chovem críticas à economia verde

Terramérica

Chovem críticas à economia verde


por Clarinha Glock*


Ativistas que chegaram ao Brasil de diferentes partes do mundo, para participar do Fórum Social Temático, não creem na vontade dos governos de atacar a crise ambiental e exigem uma mudança drástica do sistema de produção e consumo. Porto Alegre, Brasil, 30 de janeiro de 2012 (Terramérica).- As vozes contra o que chamam “discurso salvador do capitalismo verde” ressoam em cada debate e manifestação de rua do Fórum Social Temático, que reuniu milhares de ativistas na capital do Rio Grande do Sul. Com a crise econômico-financeira global como motor, participantes desta edição temática do Fórum Social Mundial, que aconteceu entre os dias 24 e 29, cobraram dos governos mudanças no sistema de produção e consumo, embora não acreditem que um compromisso desse tipo venha a ser obtido na Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), no mês de junho no Rio de Janeiro. O professor Edgardo Lander, da Universidade Central da Venezuela e integrante do Fórum Social desse país, disse que há “uma espécie de tentativa de recomposição do capitalismo com uma nova fachada: a do capitalismo verde”. Neste contexto, o “capitalismo verde” busca uma saída para a grave situação, fundamentalmente do setor financeiro, pelo caminho da crescente mercantilização de tudo, como educação, saúde, conhecimento dos povos tradicionais, acrescentou Edgardo. E lembrou que é necessário avançar para a ruptura deste modelo. Reunidos na mesma mesa de debates no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, um integrante do movimento Ocupe Londres, outro do Fórum Social do norte da África, um líder da Via Camponesa e ativistas brasileiros, franceses, tailandeses e venezuelanos simbolizaram este novo período histórico marcado por levantes populares, como a Primavera Árabe, e por uma das mais graves crises do sistema capitalista. A situação pela qual passa o mundo industrializado pode ser comparada com a debacle de 1929, ressaltou João Pedro Stédile, fundador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e membro da organização social Via Camponesa. “Contudo, a diferença é que pela primeira vez envolve de fato todos os países”, destacou. Stédile entende que o capital internacional não respeita mais as decisões dos governos. “Ninguém dá importância às resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU) e por isso a Rio+20 será uma piada de mau gosto”, afirmou. Uma parte do problema está nas “ânsias do grande capital internacional de se proteger para o próximo período de acúmulo”, assegurou Stédile. Existe uma ofensiva desmedida neste âmbito para apoderar-se das matérias-primas, terra, água, petróleo e outros, advertiu. “Eles sabem que os recursos naturais têm um extraordinário potencial lucrativo”, afirmou. Por sua vez, o economista Marcos Arruda entende que é preciso pensar saídas de médio, curto e longo prazos. Por isto, espera ampliar redes como a de 24 mil empreendimentos de economia solidária no Brasil, que atualmente envolvem pelo menos 1,5 milhão de pessoas, segundo um primeiro mapeamento. “A economia solidária muda aqui e agora, no espaço vital das famílias e das comunidades, e também em nível governamental, criando novas legislações que facilitam e promovem cooperativas e associações”, disse ao Terramérica. “O direito à propriedade é dado pelo trabalho, não pelo capital”, afirmou Marcos, coordenador do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul, membro do comitê facilitador da sociedade brasileira para a Rio+20 e um dos fundadores da Rede Global de Socioeconomia Solidária. Entretanto, este especialista teme que os grandes desastres ambientais sejam mais rápidos do que a capacidade de organização da população. Sua experiência lhe diz que as mudanças necessárias não virão da parte dos governos na Rio+20. “Nossa impressão é que eles (governos) virão a esse encontro novamente sem nenhuma vontade política de assumir compromissos com as metas de emissão de carbono, de gases-estufa, de desmatamento, tudo o que implicar obrigação de produzir resultados concretos”, destacou Marcos, que usou os dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) para mostrar, em nível geral, como o sistema global do capital tem a capacidade de concentrar riqueza. Citou como exemplo que na Rio 92 (Cúpula da Terra realizada em 1992 no Rio de Janeiro) apareceram os dados que graficamente ganharam a forma de uma “taça de champanhe”. Nessa época, 20% da população mundial mais rica controlavam 82,7% do total da renda global, mas 20 anos de liberalismo posteriores fizeram com que chegassem a ter em mãos 91,5%. Já os 20% mais pobres do mundo, que em 1992 tinham 1,4% de toda a renda, passou a ter atualmente apenas 0,07%, acrescentou o economista. O enriquecimento de uma minoria cada vez mais reduzida é uma das duas consequências do capitalismo globalizado. A segunda é a crescente destruição do meio ambiente para obter um crescimento econômico ilimitado, fingindo que não há limites na natureza e na terra, e que se pode explorar sempre o que elas nos oferecem, ressaltou Marcos. “Então, uma economia solidária chega e diz: não pode ser!, este é um mundo suicida. Temos que pôr freio ao crescimento, planejar para que se consiga responder às necessidades e criar o bem viver e a felicidade para todo o mundo, considerando as gerações futuras e a importância de continuar respondendo a estas necessidades”, concluiu Marcos. * A autora é colaboradora da IPS. LINKS Sociedade civil busca salvar a Rio+20 Sociedade civil deve assumir as rédeas da Rio+20 “O Brasil não precisa de venenos para sustentar a produção alimentar” Sociedade civil, a nova superpotência – Cobertura especial da IPS, em espanhol Río+20 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em português, espanhol, francês, alemão e inglês Via Campesina, em espanhol, francês e inglês Universidade Central da Venezuela, em espanhol Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul, em português, espanhol e inglês Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.   (Terramérica)

Foto: Claudius/IPS Terramérica

De olho no Rio de Janeiro

[caption id="attachment_40933" align="alignleft" width="292" caption="Foto: Claudius/IPS"][/caption] A Conferência do Rio+20 será a oportunidade para chegar a acordos que evitem passar o limite, sem volta, do uso sustentável dos recursos naturais. Washington, Estados Unidos, 30 de janeiro de 2012 (Terramérica).- Após as negociações de dezembro sobre mudança climática em Durban, na África do Sul, há espaço para seguir avançando no curto e médio prazos. Agora, a atenção da América Latina e do mundo está voltada para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), em junho, no Rio de Janeiro. Em Durban os delegados de 194 países assentaram as bases para desenvolver um compromisso global para 2015, com validade jurídica em 2020. Durban também deu origem a acordos substanciais em outras duas áreas críticas para o progresso na luta contra a mudança climática: um novo período de compromisso de execução do Protocolo de Kyoto e passos específicos para a formação do Fundo Verde do Clima. Naquela ocasião houve maior atenção para as medidas combinadas de mitigação e adaptação à mudança climática na agricultura, bem como progresso nas discussões técnicas sobre programas de proteção de florestas no contexto do clima. A comunidade internacional também reconheceu na África do Sul a urgente necessidade de fazer mais para reduzir as emissões de gases-estufa, manter o aumento da temperatura média abaixo dos dois graus e ajudar os países em desenvolvimento a adaptarem-se aos efeitos inevitáveis da mudança climática. Em junho, no Rio de Janeiro, será analisada a proteção do meio ambiente como parte do processo de desenvolvimento. Esta cúpula acontecerá duas décadas depois que, em uma reunião semelhante, os países se comprometeram com o conceito de desenvolvimento sustentável como a única maneira para construir uma humanidade mais justa e viável. Isto inclui as dimensões relacionadas com saúde, moradia, contaminação do ar, gestão dos mares, florestas e montanhas, desertificação, gestão dos recursos hídricos e saneamento, e a gestão de resíduos. O mundo aproxima-se de maneira perigosa do limite do uso de recursos naturais de maneira sustentável e podemos chegar a um ponto a partir do qual não haja retorno. Estes temas têm impacto na qualidade de vida e na luta que ainda se deve travar contra a pobreza e a desigualdade, sobretudo na América Latina e no Caribe. Apesar de a América Latina produzir energia de maneira relativamente limpa na maioria de seus países, e proporcionalmente contribuir substancialmente menos do que outras regiões para a mudança climática, é uma das zonas mais afetadas por suas consequências. Nesse sentido, vários países da região demonstraram, com o exemplo próprio, grande liderança para ser parte da solução global que deve levar o mundo para um caminho de desenvolvimento com baixa emissão de carbono. O Brasil já se comprometeu por si só com alguns ambiciosos objetivos voluntários para reduzir suas emissões em 39% até 2020. Outros países latino-americanos também assumiram promessas voluntárias, entre eles, Chile, Colômbia, Costa Rica e México. Em nível mundial, 90 países registraram seus planos de mitigação até 2020 com a Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, 78 dos quais em vias de desenvolvimento. Segundo o estudo do Banco Mundial “Desenvolvimento com menos carbono: respostas latino-americanas ao desafio da mudança climática”, a América Latina produz apenas 6% das emissões mundiais de gases-estufa no setor energético, e 13% se forem considerados o desmatamento e a agricultura. Entretanto, se prevê que esta situação mude nos próximos 25 anos na medida em que se expandam os setores de transporte e indústria. Por exemplo, mantidas as tendências atuais, projeta-se que as emissões de dióxido de carbono (CO²), derivadas do consumo de energia, aumentarão na região, até 2030, em 33% por pessoa, superior à média mundial de 24%. Estas tendências representam um desafio para a América Latina, em sua busca por um desenvolvimento sustentável de crescimento mais verde e equitativo. Muitas das medidas que podem ser consideradas no caminho para o crescimento econômico verde têm importantes benefícios ambientais e sociais locais. Maior eficiência energética frequentemente economiza dinheiro; menor desmatamento e melhor manejo dos recursos florestais têm benefícios sociais e ambientais; melhor transporte público pode reduzir o congestionamento e a contaminação local, e ter um efeito benéfico para a saúde, a produtividade e a qualidade de vida. A próxima década trará grandes oportunidades para a sinergia entre sustentabilidade ambiental e econômica. Por exemplo, os países em desenvolvimento podem adotar uma atitude “verde” em seus novos investimentos em infraestrutura e, ainda, podem desenvolver a agricultura e outros recursos naturais para melhorar os meios de subsistência, gerar empregos e reduzir a pobreza. O acordo de Durban representa um passo adiante, mas estão previstas duras negociações nos próximos anos para alcançar um acordo global. Contudo, deve-se avançar na execução de programas com benefícios locais e globais, projetos que demonstrem a melhor maneira de se adaptar às mudanças climáticas do futuro e aos desastres climáticos de hoje, e nas inovações tanto tecnológicas quanto institucionais que permitem um crescimento verde e inclusivo. * Ede Ijjasz-Vásquez é diretor de desenvolvimento sustentável para América Latina e Caribe do Banco Mundial. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Ede Ijjasz-Vásquez*
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ECOBREVES

Honduras: Ações para mitigar transbordamentos Argentina: Primeiro bairro energeticamente eficiente México: Futuro urbano passa por sustentabilidade Brasil: Analisados impactos e degradação de sacos plásticos ************************************** HONDURAS - Ações para mitigar transbordamentos Tegucigalpa, 30 de janeiro de 2012 (Terramérica).- Moradores da Costa de los Amates, uma região de Honduras próxima à fronteira com El Salvador, se preparam para iniciar os trabalhos para enfrentar eficazmente o transbordamento do Rio Goascorán na época do inverno. Luz Arely Valdés, governadora do departamento de Valle, onde fica Costa de los Amates, disse ao Terramérica que os trabalhos devem se concentrar antes que “comecem as chuvas. Vamos coordenar as comunidades fronteiriças com El Salvador para realizarmos juntos esta iniciativa”. Cerca de 16 comunidades ficam isoladas quando o rio transborda. Algo semelhante ocorre “do outro lado da fronteira”, disse Luz Arely, ao anunciar uma reunião entre autoridades dos dois países para levantar as coordenadas sobre as quais começarão as obras. A primeira será dragar e limpar os setores que impedem que a água corra por seu curso normal. ************************************** ARGENTINA - Primeiro bairro energeticamente eficiente Buenos Aires, 30 de janeiro de 2012 (Terramérica).- Um fórum de organizações sociais, empresas, pesquisadores e governo se propôs criar na Argentina um bairro com cem casas alimentadas com energia solar. O chamado Projeto 100 já instalou coletores solares em 33 casas do bairro La Perla, na localidade de Moreno, 37 quilômetros a oeste de Buenos Aires, onde não chega o gás natural distribuído por tubulações. Por isso, os moradores têm de comprar esse combustível envasado, por preço muito maior. O plano avança por iniciativa do Fórum de Moradia Social e Eficiência Energética e busca ser “o primeiro bairro energeticamente eficiente do país”, disse ao Terramérica a coordenadora María Fernanda Miguel. “O objetivo é incidir na agenda pública para que sejam pensados em conjunto três temas nos quais hoje se trabalha em separado: moradia, energia e sustentabilidade”, acrescentou. O projeto tem apoio das autoridades municipais de Moreno e é financiado com doações. “Os primeiros resultados mostram que com mínimos custos se reduz em até 50% o consumo de energia doméstica”, assegurou María Fernanda. ************************************** MÉXICO - Futuro urbano passa por sustentabilidade Cidade do México, 30 de janeiro de 2012 (Terramérica).- A sustentabilidade é decisiva para o futuro das cidades mexicanas, segundo o livro Cidades mexicanas. Desafios em concerto. “Nos perguntamos até onde as cidades estão capacitadas para enfrentar enormes desafios, como sustentabilidade, serviços públicos, agenda urbana”, disse ao Terramérica o coordenador da obra, Enrique Cabrero. Apresentado no dia 24 e publicado pelo selo estatal Fundo de Cultura Econômica, o trabalho aborda assuntos como meio ambiente, processos de democratização, segurança e serviços públicos. Quase 78% dos mais de 112 milhões de mexicanos vivem em áreas urbanas, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa e Geografia. “Uma questão central é se as cidades podem manter a agenda urbana, que não tem sido prioritária”, destacou Enrique, diretor-geral do Centro de Pesquisa e Docência Econômicas. ************************************** BRASIL - Analisados impactos e degradação de sacos plásticos Rio de Janeiro, Brasil, 30 de janeiro de 2012 (Terramérica).- Estudo do Instituto de Pesquisa Tecnológica de São Paulo (IPT) avaliará os impactos dos sacos plásticos no ambiente tipicamente brasileiro. Atualmente, as estatísticas sobre o tema usadas no país provêm de pesquisas estrangeiras. Os testes, que simulam condições de abandono de 40 sacos de quatro tipos distintos no meio urbano, começaram em outubro e vão durar um ano. Os resultados permitirão comparar os processos de degradação. Os sacos usados são de polietileno comum (tradicional), polietileno com adições para degradação, de papel e TNT (retornáveis, feitos de tecido-não-tecido, basicamente de polipropileno). “Esse trabalho pode servir de base para pesquisas mais profundas. Hoje empregamos dados de experiências feitas na Europa, que podem não representar a realidade brasileira e gerar conclusões equivocadas”, disse ao Terramérica a pesquisadora Mara Lúcia Siqueira Dantas, do Laboratório de Vasilhames e Acondicionamento do IPT. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Porto Alegre concentra este mês os olhares da sociedade civil mundial. Foto: Clarinha Glock/IPS Terramérica

TERRAMÉRICA – Sociedade civil busca salvar a Rio+20

[caption id="attachment_40689" align="alignleft" width="283" caption="Porto Alegre concentra este mês os olhares da sociedade civil mundial. Foto: Clarinha Glock/IPS"][/caption] Porto Alegre se prepara para receber milhares de ativistas do Fórum Social Temático, que discutirão o modo de impedir que a reunião ambiental de junho no Rio de Janeiro seja uma nova decepção mundial. Rio de Janeiro, Brasil, 23 de janeiro de 2012 (Terramérica).- Uma ampla mobilização social, com manifestações de rua e atividades paralelas, é o único fator que pode evitar uma nova frustração na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), alertam ativistas e analistas. Parece inevitável a repetição do fracasso que pautou os últimos encontros anuais, nos quais se negociou um acordo para mitigar a mudança climática, disse ao Terramérica o diretor-geral do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Cândido Grzybowski, um dos fundadores do Fórum Social Mundial, o maior encontro mundial da sociedade civil. Cândido fundamentou sua postura negativa na crise econômico-financeira do mundo rico, neste que é um ano de muitas eleições, inclusive na França e nos Estados Unidos, o que afasta os governantes influentes dos compromissos internacionais, e também no fraco poder de convocação da presidente Dilma Rousseff, especialmente em questões ambientais. Apenas uma forte pressão da sociedade civil, como “uma expressão unitária” nos eventos paralelos à Rio+20, poderá “arrancar compromissos mais claros” dos governos contra os desequilíbrios globais, que começam pela “hegemonia financeira”, acrescentou. O Fórum Social Temático, que reunirá, entre os dias 24 e 29 deste mês, representantes de movimentos e organizações sociais na cidade de Porto Alegre, preparará a participação de seus ativistas para a conferência mundial climática que acontecerá de 20 a 22 de junho no Rio de Janeiro. O encontro na capital gaúcha é um dos muitos encontros locais ou sobre temas específicos que acontece nos anos pares, vinculados ao Fórum Social Mundial (FSM), que agora tem sua edição global a cada dois anos. Contudo, as referências do FSM “perderam força” e não conseguiriam convocar uma marcha tão maciça como a que é necessária para fazer com que a Rio+20 não seja apenas “um megaencontro declaratório” e tenha “um impacto importante no Brasil” em termos de consciência ambiental, afirmou Eduardo Viola, professor da Universidade de Brasília que analisa as consequências da mudança climática nas relações internacionais. Juntar “um milhão de manifestantes nas ruas, uma façanha pouco provável, mas não impossível”, renovaria os efeitos da Cúpula da Terra de 1992 (Rio 92), a primeira reunião que fez com que a sociedade brasileira tivesse um alto nível de adesão aos assuntos ambientais, disse Eduardo ao Terramérica. Este catedrático descartou que a Rio+20 terá um impacto mundial relevante. Será uma conferência “reiterativa” de objetivos “difusos” em um momento de “gigantescos impasses internacionais”, ponderou. No entanto, os atos populares não devem se limitar ao Rio de Janeiro. O Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS) pensa em impulsionar manifestações em muitas outras cidades do mundo, para isto utilizando a internet e as redes sociais. “A Rio+20 tem um significado global” e já se acumulou experiência de sucesso em mobilizações via redes sociais, afirmou Rubens Born, do FBOMS. O Fórum Social Temático de Porto Alegre ajudará a articular essas iniciativas, com a presença de representantes de movimentos civis, como os indignados da Espanha e os Ocupe dos Estados Unidos, contou ao Terramérica. A presença da sociedade civil na Rio+20 deve se beneficiar das facilidades que o governo brasileiro pretende oferecer, interessado em contar pelo menos com uma forte participação popular diante da provável ausência de chefes de governo e de Estado nas atividades oficiais da conferência. A Cúpula dos Povos, nome dado ao encontro paralelo que acontecerá de 15 a 23 de junho, convocará o triplo de participantes da conferência intergovernamental, estimam observadores. O lema é “Justiça social e ambiental”, a mesma do Fórum Social Temático deste mês. “Propor uma nova forma de viver, em solidariedade, contra e mercantilização da natureza e em defesa dos bens comuns” é o objetivo, segundo o Comitê Facilitador da Sociedade Civil Brasileira para a Rio+20, que organiza esse grande encontro. O encontro, que terá como fórum central uma Assembleia Permanente dos Povos, busca “reinventar o mundo” com convergência de diversificadas lutas contra o capitalismo, a divisão de classes, o racismo, o patriarcalismo e a homofobia. Por isso, considera “insatisfatória” a agenda da conferência oficial, concentrada na economia verde a na institucionalidade global. Entretanto, este discurso não obtém consenso. Rubens, fundador do Vitae Civilis, uma organização não governamental ativa na questão climática, se queixa de divisões ideológicas com os que consideram “soluções falsas” as ações ambientais que não contemplam primeiro a derrubada do capitalismo. Cândido identifica enfoques divergentes entre os que priorizam a justiça ambiental ou social, situando sua organização, Ibase, entre os segundos. Chico Whitaker, outro fundador do Fórum Social Mundial e radical defensor de seus princípios igualitários e participativos, se preocupa com o nome. “Cúpula dos Povos” mantém a visão hierarquizada, negando a horizontalidade defendida desde o começo pelo FSM”, criticou. Porém, todos coincidem em rechaçar a ordem mundial atual, que é o “modelo industrial de grande produção” para Chico, que é o capitalismo para os membros do Comitê Facilitador, e que é a hegemonia financeira para Cândido, que lhe acrescenta “desordens” acumuladas, como transportar milhões de toneladas de minério de ferro brasileiro para a Ásia e trazê-los de volta em forma de aço. Todos também concordam em criticar a Rio+20 oficial e seu “rascunho zero”, divulgado recentemente como ponto de partida para o documento final, porque entendem que evita os verdadeiros desafios. O formato das grandes cúpulas da Organização das Nações Unidas (ONU) “está esgotado”, defendeu Eduardo. É impossível que mais de 190 países que têm “diferentes percepções da vulnerabilidade” e interesses diversos cheguem a um consenso em relação ao tema climático, explicou. Em outra vertente, os indígenas se propõem a expressar sua identidade cultural e ética na Rio+20 com a convocação de representantes de todo o mundo, no que chama de Aldeia Carioca, a ser instalada no Rio de Janeiro. Nela se concentrarão cerca de 350 aborígines procedentes de diferentes regiões do país e 700 do exterior, em quatro ocas, uma delas servindo para reuniões plenárias e outra com equipamentos eletrônicos que permitirão videoconferências com indígenas em outros países ou continentes, informou ao Terramérica Marcos Terena, um dos organizadores da participação indígena na Rio+20, repetindo o papel de 20 anos atrás. * O autor é colaborador da IPS. LINKS Sociedade civil deve assumir as rédeas da Rio+20 Ambientalistas reclamam sistema multilateral poderoso Sociedade civil, a nova superpotência – Cobertura especial da IPS, em espanhol ONGs brasileiras criticam indefinição de proposta para a Rio+20 “Rio+20 deve dar um impulso sustentado” Conferência Rio+20, em inglês e português Cúpula dos Povos, em português, inglês, espanhol e francês Fórum Social Temático Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, em português, inglês e espanhol Fórum Brasileiro de ONG e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, em português e inglês Vitae Civilis Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde. (Terramérica)


por Mario Osava*
Foto: Fabricio Vanden Broeck/IPS Terramérica

TERRAMÉRICA – Os riscos de se buscar energia nas profundezas

[caption id="attachment_40683" align="alignleft" width="231" caption="Foto: Fabricio Vanden Broeck/IPS"][/caption] A utilização de novas tecnologias para extrair hidrocarbonos das entranhas da Terra, até agora inacessíveis, pode dar início a um pesadelo ecológico definitivo. Helsinque, Finlândia, 23 de janeiro de 2012 (Terramérica).- O geólogo norte-americano Marion King Hubbert previu, já em 1956, que a produção de petróleo alcançaria seu nível máximo quando a humanidade tivesse usado a metade das reservas mundiais até então comprovadas. Esta postura se baseia no fato de os geólogos tenderem a encontrar primeiro os poços maiores e a estes ficarem “exaustos” antes de realmente se ter extraído todo o óleo. É possível que a oferta de petróleo tenha chegado ao seu máximo histórico em julho de 2008, e, assim, já tenhamos passado o temido teto sem que ninguém se desse conta. Isso teria sua explicação no fato de a produção de gás natural continuar aumentando e cada vez mais substituindo derivados do petróleo. As coisas seguramente vão piorar quando a extração combinada de petróleo e gás natural alcançar o máximo possível no planeta. Depois disto, o fornecimento de hidrocarbonos começará a baixar e já não poderá atender a demanda, e os preços dispararão. Quando isso ocorrer, começará um período de depressões severas da economia, com recuperações curtas e intermitentes. A produção de alimentos também sofrerá, pois 80% de nosso consumo é produzido com ajuda de fertilizantes nitrogenados, cujos preços dependem do valor de mercado do gás natural. Os governos e as empresas se tornaram muito conscientes do problema e enormes quantias de dinheiro são investidas em várias soluções alternativas. Uma opção possível é expandir as reservas de gás natural acessível, com uma tecnologia conhecida como fratura hidráulica, ou fracking. A técnica consiste em bombear, sob alta pressão, dezenas de milhões de litros de água tratada quimicamente dentro de profundas formações de relativamente impermeáveis rochas sedimentares, conhecidas como xisto. O líquido quebra estas pedras ou expande fraturas existentes, liberando os hidrocarbonos de modo que possam fluir para um poço. Outra opção é um método conhecido como gaseificação subterrânea do carvão, ou UCG. Neste procedimento, os veios de carvão são convertidos em syngas (gás sintético), uma mistura de metano, hidrogênio e monóxido de carbono, mediante a injeção de oxidantes na profundidade do solo. O conceito foi proposto originalmente por Dmitri Mendelejev, cientista russo conhecido como o pai da tabela periódica dos elementos. Os primeiros grandes projetos aconteceram no Uzbequistão na década de 1930, quando esse país integrava a União Soviética. Nos últimos tempos, muitos governos se mostraram interessados em ressuscitar esta ideia. É fácil compreender o motivo de tanto entusiasmo. Relativamente perto da superfície há limitadas quantidades de carvão, mas as reservas situadas nas profundezas da crosta terrestre são enormes. Por exemplo, estima-se que no fundo do Mar da Noruega há três bilhões de toneladas de carvão. Estes depósitos não podem ser explorados economicamente com os meios convencionais atuais, mas a UCG pode convertê-los em syngas. O lado negativo é que tanto o fracking como o UCG podem ser uma receita para o pior pesadelo ecológico definitivo. Apesar de poderem multiplicar os recursos recuperáveis de combustíveis fósseis e produzir muitas vezes mais dióxido de carbono (CO²) do que outro modo, a ação combinada desta técnica teria consequências desastrosas para o clima, por que o dióxido de carbono é um gás de forte efeito estufa. Além disso, um terço do dióxido de carbono que produzimos atualmente se dissolve no oceano, como ácido carbônico. Cada vez mais cientistas afirmam que a acidificação dos oceanos poderia, no longo prazo, ser um problema mais sério do que o aquecimento global. Outro perigo é que parte do metano produzido por fracking ou UCG vaze dos sistemas de coleta para a atmosfera. Se forem considerados tanto os impactos diretos quanto os indiretos, durante os próximos cem anos uma molécula de metano esquentará nosso planeta 33 vezes mais do que uma molécula de dióxido de carbono. Segundo um estudo da norte-americana Cornell University, inclusive agora, até 8% do gás natural vaza para a atmosfera durante a fase de produção ou transporte ou no uso final. É razoável presumir que a UCG e o fracking produzirão perdas ainda maiores do que os métodos atuais. Então, o que podemos fazer para substituir o gás natural e o petróleo se a UCG e o fracking são muito perigosos para nosso clima e nossos oceanos? Uma terceira opção comumente mencionada é usar o óleo do xisto e a areia betuminosa como matérias-primas para produtos substitutos do petróleo, mas isto também produziria muita emissão de dióxido de carbono. Em teoria, os carros elétricos poderiam substituir os movidos a gasolina e diesel, contudo, até agora se difundem muito lentamente e também seria praticamente impossível fabricar navios de carga ou aviões elétricos. Isto nos deixa apenas com duas soluções realistas: com a economia e melhor eficiência energética, por um lado, e o aumento da produção de biocombustívies, por outro. Também não se deve descuidar da produção de insumos para elaborar biocombustíveis, que frequentemente exigem fortes doses de fertilizantes nitrogenados, que, por sua vez, produzem óxido nitroso, outro gás-estufa. Por isso a conversão em grande escala de áreas florestadas e turbas tropicais em plantações destinadas a esse fim constitui um risco para a biodiversidade e para o clima. Para evitar essa ameaça se deveria apelar para a produção de biocombustíveiss por meios ecológica e socialmente sustentáveis. Temos imensas superfícies de campos seriamente prejudicados pela erosão e terras de pastoreio que perderam a maior parte de seu carbono orgânico e sua fertilidade. Podem ser distribuídas a famílias de camponeses sem terras para que produzam alimentos e madeira, bem como de matérias-primas para biocombustíveis. Este pode ser um excelente meio para resolver os problemas relacionados com a futura queda na produção de petróleo e gás de uma maneira que também propicie um sustento decente para centenas de milhões de famílias rurais. * Risto Isomaki é ativista ambiental e premiado escritor finlandês cujas novelas foram traduzidas para vários idiomas. LINKS Febre do gás de xisto esquenta o planeta Mineração de areias negras custa caro Bençãos contraditórias – Cobertura especial da IPS, em espanhol Gás de xisto volta a ser o foco México abraça o mito do gás de xisto, em espanhol Novo método de extração pode fraturar o meio ambiente Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde. (Terramérica)


por Risto Isomaki*
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Venezuela: Triunfos sobre a mariposa peluda Brasil: Informação ampla para proteger animais ameaçados Honduras: Empréstimo regional para tratar esgoto Cuba: Vacina contra o câncer em policlínicas ***************************************** VENEZUELA - Triunfos sobre a mariposa peluda Caracas, 23 de janeiro de 2012 (Terramérica).- O combate à mariposa peluda (Hylesia metabus) conseguiu, no ano passado, importantes resultados em centros povoados da península venezuelana de Paria. Foi possível reduzir seu habitat em mangues do Golfo de Paria, entre este país e Trinidad e Tobago. “Dos vários milhões destas mariposas encontradas há um ano em 13 municípios da área, agora encontramos poucos exemplares e apenas em três localidades, graças aos sistemas de armadilhas, fumigação e aspersão aérea sobre mangues”, disse ao Terramérica o responsável pelo saneamento ambiental na região, Gregorio Alvarado. A mariposa peluda é um inseto alado de aproximadamente cinco centímetros, muito atraído pela luz e que libera a partir de seu ventre farpas que causam reações alérgicas na pele. Esta praga prosperou na região desde 2004, levada com os ventos do Furacão Ivã, e desde então afetou milhares de habitantes do setor agrícola, pesqueiro e turístico no nordeste venezuelano. Gregorio explicou que, na campanha contra a mariposa em 2012, serão instaladas mais armadilhas luminosas e poderão ser usados outros insetos, que são biopredadores de suas larvas. ***************************************** BRASIL - Informação ampla para proteger animais ameaçados Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2012 (Terramérica).- O Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão do governo federal, colocou na internet informação sobre as espécies em risco de extinção e presentes em cada unidade sob sua administração. Para obter os dados basta clicar na unidade de conservação (UC) escolhida. “Só no Amazonas há 19 UCs, onde se encontram animais como peixe boi (Trichechus inunguis), gato-do-mato (Leopardus tigrinus), onça-pintada (Phantera onca), jaguatirica (Leopardus pardalis mitis), tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e outros, todos em risco de extinção”, informou Ugo Vercillo, coordenador de Manejo para Conservação da ICMBio. Cerca de metade das espécies animais ameaçadas está nas áreas de conservação sob responsabilidade do Instituto. “Dados como este mostram a importância das UCs na preservação das espécies”, disse Ugo ao Terramérica. As informações provêm do Atlas da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção em Unidades de Conservação Federais, elaborado pelo ICMBio. ***************************************** HONDURAS - Empréstimo regional para tratar esgoto Tegucigalpa, 23 de janeiro de 2012 (Terramérica).- O Banco Centro-Americano de Integração Econômica (BCIE) aprovou US$ 1 milhão para desenvolver um projeto de manejo de esgoto na capital hondurenha, para combater a contaminação da bacia do Rio Guacerique, uma das fontes de água da cidade. O gerente-geral do Serviço Autônomo Nacional de Água e Esgoto (Sanaa), Danilo Alvarado, informou ao Terramérica que se estuda limpar os lixões nas regiões vizinhas, treinar os moradores da área em manejo de lixo sólido e instalar estações de tratamento de água em locais estratégicos em todo o país. Alvarado recordou que, na época do verão, Tegucigalpa sofre fortes racionamentos de água potável devido à seca que experimentam algumas de suas fontes de abastecimento, devido ao desmatamento e à contaminação por montanhas de lixo em seus arredores. ***************************************** CUBA - Vacina contra o câncer em policlínicas Havana, 23 de janeiro de 2012 (Terramérica).- Cerca de 500 pacientes de 65 policlínicas de Cuba portadores de câncer no pulmão começaram a ser tratados com a vacina terapêutica CimaVax-EGF, desenvolvida pelo Centro de Imunologia Molecular (CIM), uma das instituições líderes do Polo Científico do oeste da capital cubana. Grisel Rodríguez, a gerente desse projeto de inoculação, confirmou ao Terramérica que a escassa toxidade do medicamento permitiu levar, desde 2011, o tratamento para o nível primário de atenção médica. A aplicação do produto melhora a qualidade de vida dos pacientes. Durante todo o ciclo de desenvolvimento da vacina foram tratados cerca de dois mil pacientes na ilha, acrescentou Grisel. Em Cuba, todos os serviços de saúde, por mais complexos que sejam, são gratuitos para a população residente no país. O CIM tem atualmente 45 testes clínicos abertos, com oito produtos para tratamento de câncer, concluiu Grisel. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

A biomassa muitas vezes é combustível básico em Chiapas, no sul do México. Foto: Mauricio Ramos/IPS Terramérica

Economia verde divide águas

[caption id="attachment_39908" align="alignright" width="300" caption="A biomassa muitas vezes é combustível básico em Chiapas, no sul do México. Foto: Mauricio Ramos/IPS"][/caption] Especialistas polemizam sobre os benefícios ou danos que a economia verde pode acarretar, que será o centro das discussões na cúpula Rio+20 em meados deste ano. Cidade do México, México, 16 de janeiro de 2012 (Terramérica).- O desenvolvimento de uma economia verde gera discrepâncias entre especialistas por seus benefícios e riscos potenciais. Enquanto alguns consideram que pode agravar as desigualdades sociais e concentrar a riqueza biológica, outros a consideram protetora do meio ambiente e geradora de empregos. “A economia verde não questiona os sistemas de produção atuais, como o agroalimentar, nem fala de mudar padrões de consumo”, criticou Silvia Ribeiro, diretora para a América Latina do não governamental Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração (ETC). Silvia disse ao Terramérica que, por exemplo, “preocupa o uso maciço da biomassa para produzir combustíveis, e das novas tecnologias, como a biologia sintética, que podem gerar níveis de toxidade.” Em seu informe “Quem controlará a economia verde?”, publicado no dia 15 de dezembro, o Grupo ETC argumenta que o funcionamento de uma economia verde beneficiará especialmente as grandes corporações se não houver mudança nos modelos de produção e consumo de bens e serviços e na governança mundial. Acrescenta que as grandes transnacionais de energia, farmacêuticas, agroindustriais e químicas construíram alianças para explorar a biomassa e apropriar-se do controle de recursos naturais, como terra e água. O estudo se centra em áreas como biologia sintética, bioinformática e geração de dados genômicos, biomassa marinha e aquática, sementes e pesticidas, bancos de germoplasma vegetal, fertilizantes e mineração, silvicultura e papel, farmacêutica veterinária e genética animal. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) define a economia verde como “um sistema de atividades econômicas relacionadas com a produção, distribuição e consumo de bens e serviços que resultam em melhoria do bem-estar humano no longo prazo, ao mesmo tempo em que não expõe as futuras gerações a riscos ambientais e escassez ecológica significativa”. Esta nova variante será o tema preponderante da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que acontecerá entre os dias 20 e 22 de junho na cidade do Rio de Janeiro, quando se completam 20 anos da primeira Cúpula da Terra, realizada também no Rio em 1992. Os objetivos deste encontro global são um renovado compromisso político em torno do desenvolvimento sustentável, avaliação do progresso para os objetivos internacionalmente acordados em torno do assunto e a abordagem dos novos desafios. Além disso, a cúpula se concentrará na construção de uma economia verde no contexto da erradicação da pobreza e do desenvolvimento sustentável, bem como em um contexto institucional para este propósito. O Pnuma defende a vertente que promove desde 2008, embora reconheça a validade das preocupações existentes. “A economia verde é um imperativo. Uma de suas metas é a igualdade social e o bem-estar humano. Se reconhece o meio ambiente como fonte de riqueza”, afirmou ao Terramérica o norte-americano Steven Stone, chefe de Economia e Comércio do escritório do Pnuma em Genebra. Steven visitou o México na semana passada para a apresentação de um estudo prospectivo nacional sobre economia verde, patrocinado pelo Ministério de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Semarnat) e o privado Instituto Tecnológico de Monterrey. “A verdadeira disputa é se os que causam maior dano ao meio ambiente estão realmente contribuindo para o que se deve fazer”, disse ao Terramérica o diretor da Faculdade de Economia da estatal Universidade Nacional Autônoma do México, Roberto Escalante. “Por isso existe o risco de que, no caso de esverdear a economia, aprofundar as desiguladades, jogando sobre os que menos têm o maior custo dos impactos ambientais”, advertiu Roberto. O acadêmico realiza uma pesquisa, que prevê finalizar no primeiro trimestre deste ano, sobre o efeito da agricultura e do desmatamento sobre o meio ambiente, a pedido do Semarnat. Diante do processo da Rio+20, organizações da sociedade civil da América Latina impulsionam o relançamento do desenvolvimento sustentável, com ênfase nos aspectos sociais e ecológicos e em uma nova economia para enfrentar a pobreza e a concentração da riqueza. O Estudo Econômico e Social Mundial 2011, do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, recomenda o investimento de US$ 1,9 bilhão anuais em tecnologias verdes durante os próximos 40 anos, para combater os efeitos da mudança climática. O Pnuma considera que o investimento verde pode contribuir para a redução da demanda de energia e água e da pegada de carbono da produção de bens e serviços. “Há muitas alternativas, a mais contundente é a economia do camponês, que representa 70% da produção agropecuária global”, recomendou Silvia, cuja organização tem foco nos impactos ambientais, sociais e econômicos das novas tecnologias. O informe do Grupo ETC sugere a instauração de regimes antimonopólio, para evitar as concentrações de mercado, o papel central da agricultura e a soberania alimentar e a avaliação. Também defende a divulgação internacional das tecnologias “que não são capazes de enfrentar os problemas sistêmicos das crises de pobreza, da fome ou a ambiental”. “Um dos temas fundamentais é o valor da natureza, que não é considerado. Não faz parte do cálculo econômico. É preciso dar valor a esses serviços com limites e regulações”, destacou Steven. Por sua vez, Roberto, cuja pesquisa busca oferecer alternativas para uma produção agrícola livre de carbono, propôs a utilização das novas tecnologias, a participação de instituições universitárias e a concretização de políticas públicas integrais. “Os temas ambientais são, no fundo, temas fiscais. Esta será a grande discussão da Rio+20. Deve prevalecer uma nova visão, colocar no mundo da economia os preços do meio ambiente e estabelecer um esquema que garanta a equidade”, explicou o acadêmico mexicano. * O autor é colaborador da IPS. LINKS Sociedade civil deve assumir as rédeas da Rio+20 Fábricas de ideias verdes para o México Em busca do adiado desenvolvimento sustentável “Rio+20 deve dar um impulso sustentado” ONGs brasileiras criticam indefinição de proposta para a Rio+20 Quem controlará a economia verde? – Informe do Grupo ETC, em espanhol e inglês Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20, em inglês Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Naturais, em espanhol e inglês Instituto Tecnológico de Monterrey, em espanhol e inglês Faculdade de Economia da Universidade Nacional Autônoma do México, em espanhol Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, em espanhol, francês e inglês Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Emilio Godoy*
Caminhões coletores descarregam lixo no Sítio de Disposição Final de Resíduos Felipe Cardoso, Montevidéu. Foto: Inés Acosta/IPS Terramérica

Montevidéu enfrenta os gases do lixo

[caption id="attachment_39902" align="alignleft" width="300" caption="Caminhões coletores descarregam lixo no Sítio de Disposição Final de Resíduos Felipe Cardoso, Montevidéu. Foto: Inés Acosta/IPS"][/caption] Um acordo entre Montevidéu e o Banco Mundial permitirá aliviar a contaminação de uma cidade que tem nos resíduos sólidos seu principal calcanhar de aquiles ambiental. Montevidéu, Uruguai, 16 de janeiro de 2012 (Terramérica).- O governo da capital uruguaia pretende reduzir os gases-estufa emitidos pelo lixo produzido por seus 1,3 milhão de habitantes. O correspondente plano estará operacional em março e os créditos de carbono que gerar serão comprados pelo Banco Mundial. O Projeto de Recuperação de Gás do Aterro Sanitário, da prefeitura de Montevidéu, consiste em projeto, execução e acompanhamento de uma unidade de coleta, extração, tratamento e queima do gás metano liberado pelo depósito de resíduos urbanos. “As obras devem estar prontas em março, e a empresa responsável, a Aborgama SA, tem um ano para operar o sistema e monitorá-lo, prazo no qual se verá se alcança o rendimento necessário”, declarou ao Terramérica o coordenador técnico do Departamento de Desenvolvimento Ambiental da prefeitura, Jorge Alsina. Aproximadamente 2.200 toneladas de lixo sólido são jogados diariamente no Sítio de Disposição Final Felipe Cardoso, um amplo terreno com várias áreas, localizado no bairro de Malvín, em Montevidéu, onde os caminhões coletores circulam constantemente abrindo passagem entre milhares de gaivotas que buscam seu alimento. Depois, os resíduos são compactados e enterrados por uma máquina especial, o que implica que a área cresça consideravelmente. O monte verde Duas unidades de processamento, ou tanques, do complexo Felipe Cardoso foram fechadas no final da década de 1990 porque atingiram o limite de sua capacidade, formando hoje uma espécie de “monte verde” de 40 metros de altura. Deste depósito inativo se desprende o gás metano, cujo efeito estufa é 25 vezes mais forte do que o do dióxido de carbono (CO²), liberado pela queima de combustível fóssil, segundo afirmam os especialistas no assunto. “O gás metano é capturado por um sistema de poços que se faz no local, depois é extraído e conduzido através de uma tubulação onde posteriormente é limpo e queimado”, explicou ao Terramérica o especialista sênior da Unidade de Carbono do Banco Mundial, Manuel Luengo. Ao queimar, produz CO², que também é liberado na atmosfera mas com um efeito menos nocivo, o que permite reduzir o impacto ambiental que leva à mudança climática. Segundo informou ao Terramérica o diretor de Desenvolvimento Ambiental da prefeitura de Montevidéu, Juan Canessa, “os resíduos sólidos são a segunda principal fonte de emissões (de gases contaminantes na capital uruguaia), depois da geração elétrica”. “O projeto de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) firmado entre a municipalidade de Montevidéu e o Banco Mundial tem o objetivo de reduzir o efeito estufa produzido quando este gás é liberado”, disse Manuel. Tal como estipula o contrato, o Banco Mundial comprará 377.500 créditos de carbono equivalente, que significa 50% do valor projetado da redução de emissões que a prefeitura conseguirá na medida em que começar a extrair e queimar o gás no período 2012-2017. Manuel afirmou que “existe a opção de comprar os 50% restantes se chegar a produzir a quantidade estimada, embora historicamente os projetos MDL de aterro sanitário apresentem uma geração de créditos inferior à prevista”. “Contudo, se produzir os 100% estipulados, o Banco Mundial estaria interessado em comprá-los”, destacou. Jorge explicou que cada tonelada de CO² equivalente que se evita lançar na atmosfera gera um crédito de carbono, cujo preço pode diminuir no final deste ano devido à incerteza que paira sobre o mercado, diante da ausência de um acordo internacional sobre mudança climática. Além disso, existe a possibilidade de geração de eletricidade com o metano capturado, mas, segundo informou Juan, este acordo ainda não se concretizou e depende, em parte, da quantidade de gás que se consiga extrair. Seleção e reciclagem A municipalidade da capital uruguaia leva adiante outros projetos para melhorar a gestão de resíduos. “Este mês começará a construção de uma usina de tratamento de chorume, que custará 75 milhões de pesos”, explicou Juan. Também será construída uma unidade para disposição de lixo industrial perigoso, financiada e gerida pela câmara empresarial do setor, e outra para Resíduos de Obras Civis (ROC), que não podem ser compactados e não são biodegradáveis. Porém, estes avanços não bastam para que as autoridades de Montevidéu fiquem despreocupadas, pois temem pelo pouco espaço para aterro sanitário que resta aterro Felipe Cardoso. Jorge estima que terá lugar para processar resíduos até 2018. Juan, entretanto, garantiu que a prefeitura poderá reduzir a quantidade de lixo que é levada para esse local por meio da coleta seletiva e da separação pelas famílias para, assim, facilitar a reciclagem. Em Felipe Cardoso funciona uma cooperativa de classificadores com essa tarefa. Por dia é processado o conteúdo de “dez a 14” caminhões, disse ao Terramérica o presidente da Cooperativa Felipe Cardoso (Cofeca), Richard Rodríguez. “São montanhas de lixo que deve ser removido a mão, pois falta infraestrutura e maquinário”, queixou-se. “Só temos a mão de obra e a vontade de progredir. Somos guerreiros contra a poluição”, afirmou o líder deste grupo criado há cinco anos, que reúne cerca de 60 pessoas. Consultado pelo Terramérica sobre o alcance social do Projeto de Recuperação de Gás do Aterro Sanitário, Ricardo Schusterman, consultor e especialista social no projeto MDL, declarou que “em tudo que o Banco Mundial financia se verifica que as ações a realizar não signifiquem impactos sociais negativos, ou que sejam minimizados e compensados”. “Entendo que a Cofeca passa por dificuldades em sua organização como cooperativa, que fazem a prefeitura da capital não ter desembolsado a ajuda financeira que lhe destinara, a fim de melhorar suas condições de trabalho”, explicou Ricardo. Segundo ele, “o Banco Mundial continuará supervisionando o fortalecimento da Cofeca para que as melhorias nas condições de trabalho possam ser aproveitadas por seus membros”, e para a própria meta da municipalidade de reduzir os depósitos de lixo. * A autora é colaborador da IPS. LINKS De gás causador do efeito estufa a estrela de mercado Ecologistas questionam a queima de resíduos Objetivo Uruguai – Cobertura especial da IPS, em espanhol Riqueza escondida no lixo, em espanhol Prefeitura de Montevidéu, em espanhol Projeto de Recuperação de Gás do Aterro Sanitário, em espanhol, francês e inglês Câmara de Indústrias do Uruguai, em espanhol Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Inés Acosta*
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Honduras: Inaugurado abrigo contra terremoto no sul Brasil: O mar sobe mais rápido perto de São Paulo México: Exigidas normas para contaminação atmosférica ********************************************************************** HONDURAS Inaugurado abrigo contra terremoto no sul Tegucigalpa, 16 de janeiro (Terramérica).- A Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica) construiu, em conjunto com a população beneficiada, o primeiro abrigo de proteção de terremotos em Honduras. Fica na região de Matapalos Arriba, em El Triunfo, no departamento de Choluteca, sul do país, uma das zonas mais vulneráveis de Honduras. Lisandro Rosales, da Comissão Permanente de Contingências (Copeco), disse ao Terramérica que o projeto é uma iniciativa-piloto que busca capacitar as comunidades diante de desastres imprevistos e oferecer-lhes um local seguro para se abrigar em caso de necessidade. A região de El Triunfo está catalogada como zona de risco pelos constantes deslizamentos de terra em razão de falhas sísmicas, explicou o funcionário ao destacar que cerca de 500 famílias da comunidade serão beneficiadas com a medida. A obra custou US$ 16 mil e sua construção demorou sete meses. BRASIL O mar sobe mais rápido perto de São Paulo Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 2012 (Terramérica).- O nível do Oceano Atlântico sobe cada dia mais rápido no litoral norte do Estado de São Paulo, segundo um estudo da Universidade de São Paulo (USP). “Diagnosticamos uma elevação de 74 centímetros por século, porém mais acentuada nas duas últimas décadas”, informou ao Terramérica o professor Paolo Alfredini, coordenador da pesquisa do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da USP. Foram analisadas medições feitas entre 1944 e 2007. A aceleração se deve ao aumento da temperatura global no período estudado. “Estimamos que o nível do mar subirá cerca de um metro neste século, o que significa a perda de cem metros de praia em áreas de declínio suave”, disse Paolo. Este fenômeno coloca em risco construções na beira da praia e pode provocar problemas de abastecimento de água potável nas cidades costeiras, devido à maior salinização dos rios, alerta a pesquisa. MÉXICO Exigidas normas para contaminação atmosférica Cidade do México, 16 de janeiro de 2012 (Terramérica).- A má qualidade do ar na capital mexicana exige regulamentações de uso de combustíveis limpos e de emissões por veículos, alerta a organização ambiental Centro Mexicano de Direito Ambiental. “Ao aumento de concentrações de partículas PM10 (com menos de dez micrômetros de diâmetro) soma-se o de partículas PM2,5, que são um dos contaminantes mais prejudiciais para a saúde, e uma de suas fontes são os veículos com motor diesel que exige um combustível com alto conteúdo de enxofre”, disse ao Terramérica o diretor-geral da entidade, Gustavo Alanís. Essas partículas provêm da queima de combustíveis fósseis e representam um perigo para a saúde. A contaminação atmosférica está por trás das 38 mil mortes por câncer de pulmão, doenças cardiopulmonares e infecções respiratórias deste país, segundo o Quarto Almanaque de Dados e Tendências da Qualidade do Ar em 20 Cidades Mexicanas (2000-2009), do Instituto Nacional de Ecologia. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.    

René Núñez comemora que a Nasa afirme que sua invenção é o melhor fogão do mundo. Foto: Edgardo Ayala/IPS Terramérica

Fogões inteligentes para aliviar mudança climática

[caption id="attachment_38575" align="alignleft" width="340" caption="René Núñez comemora que a Nasa afirme que sua invenção é o melhor fogão do mundo. Foto: Edgardo Ayala/IPS"][/caption] El Salvador tem à mão uma tecnologia própria para que as famílias pobres rurais cozinhem sem fumaças tóxicas nem gases que provocam o efeito estufa, mas não a aplica maciçamente. San Salvador, El Salvador, 9 de janeiro de 2012 (Terramérica).- O salvadorenho René Núñez buscava aproveitar ao máximo a energia gerada pela combustão da madeira e assim criou um fogão a lenha simples mas muito eficiente, que não produz fumaça e reduz em 95% as emissões de gases causadores do efeito estufa. No turbofogão se cozinha, sem fumaça, uma refeição completa com apenas cinco pedaços de madeira de 13 centímetros, que podem ser obtidos na poda de árvores. Não é um invento novo. O turbofogão já tem 16 anos e, desde então, o professor, inventor e engenheiro elétrico Núñez o vem aperfeiçoando. Em 2010, conseguiu um aproveitamento térmico de 93% e uma redução nas emissões de dióxido de carbono de 95%. Antes, já conseguira reduzir a zero as emissões de óxidos de nitrogênio e monóxido de carbono. O método é a combustão a baixa temperatura, que representa uma drástica redução no consumo de lenha, fundamental para as famílias pobres de El Salvador e de muitos outros países em desenvolvimento. “Ao substituir os fogões tradicionais pelos turbofogões, o que hoje se gasta de lenha em um dia dará para o mês todo”, destacou Núñez em uma apresentação feita em 2005 em seu país. A estrutura tem forma de cilindro, em aço inoxidável e contém um disco de dez injetores de ar, um ventilador interno que funciona com eletricidade e uma placa de aço que regula a entrada e saída do ar. O invento recebeu muitos prêmios. O último foi em novembro: o turbofogão foi selecionado, junto com outras nove inovações mundiais em matéria de energia, pela iniciativa Launch 2011 Energy Innovators, impulsionada pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), pelo Departamento de Estado norte-americano, pela agência espacial norte-americana Nasa e pela corporação de roupa esportiva Nike. “A Nasa dizer que é o melhor fogão do mundo tem um grande valor para mim”, contou Núñez ao Terramérica. Comparativamente, outros fogões a lenha melhorados alcançam redução máxima de 45% de dióxido de carbono, acrescentou. De acordo com dados oficiais, quase 400 mil famílias cozinham com lenha ou fogão aberto, o que equivale a 25% da população deste país de seis milhões de habitantes. A fumaça gerada em cada um desses lares é o pão de cada dia na zona rural, onde estão pouco difundidos os fogões a gás ou elétricos. Os 10% mais pobres das famílias salvadorenhas gastam mais em lenha (3% de seu orçamento) do que em eletricidade, segundo um informe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) de 2010. A proporção de famílias rurais que cozinham com lenha supera os 55%, contra 9% das urbanas. “O consumo de lenha não representa apenas um gasto importante em seu orçamento, mas muitas famílias também dedicam uma fração significativa de seu tempo na busca por lenha”, afirma o Informe sobre Desenvolvimento Humano El Salvador 2010. Além disso, a fumaça da queima da lenha produz doenças respiratórias. Aproximadamente duas mil pessoas morrem a cada ano por esta causa, segundo Núñez, com base em dados do Ministério da Saúde. “O que queremos combater é o uso de fogões tradicionais” neste país que é um dos mais desmatados do continente, ressaltou o inventor. De fato, a combustão em baixa temperatura tem vários usos potenciais, desde fornos e fogões industriais e domésticos até aquecedores de água, máquinas pasteurizadoras de água e leite, geradores de vapor e centrais termelétricas. Contudo, o invento enfrenta um obstáculo para generalizar-se nas zonas rurais pobres. “O principal problema é que exige eletricidade para que funcione” o ventilador interno que fornece oxigênio para a combustão, disse ao Terramérica o ambientalista Ricardo Navarro, do Centro Salvadorenho de Tecnologia Apropriada, afiliado à rede Amigos da Terra Internacional. De acordo com dados do Ministério da Economia, apenas 65,5% da população rural está conectada à rede elétrica, enquanto nas zonas urbanas esse serviço chega a 88,9% dos habitantes. Navarro acredita que o governo deveria incentivar não só o uso do turbofogão, mas de outros métodos alternativos, como os fogões solares. Mauricio Sermeño, coordenador da Unidade Ecológica Salvadorenha, disse ao Terramérica que o próprio inventor deveria fazer um duplo esforço para popularizar o produto. Não há uma loja onde comprar o turbofogão, porque Núñez não pretende fazer negócio com seu invento. Ele busca um mecanismo idôneo para distribuir esses equipamentos gratuitamente entre famílias e comunidades mais pobres do país. Sua meta é entregar cem mil fogões nessas condições, e está afinando detalhes para determinar que instituição e mecanismo permitirão que faça isso. O Ministério da Educação comprou um lote de 1.050 turbofogões que distribuiu em 800 escolas como parte de um programa que oferece merenda diária aos alunos. No entanto, sucessivos governos que em 16 anos conheceram o turbofogão não consideraram pertinente executar um programa estatal para sua distribuição. “Não se vê uma atitude governamental a favor de métodos de energias alternativas”, concluiu o ecologista Sermeño. * O autor é colaborador da IPS. Este artigo é parte de uma série apoiada pela Aliança Clima e Desenvolvimento (CDKN). LINKS Fogões ecológicos para viver melhor Energia-México: Fumaça ecológica Mudança Climática-África: Limpar o fogão, em espanhol Launch 2011 Energy Innovators, em inglês Centro Salvadorenho de Tecnologia Apropriada, em espanhol Unidade Ecológica Salvadorenha, em espanhol Informe sobre Desenvolvimento Humano El Salvador 2010 Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Edgardo Ayala*
Embarcações aproximando-se de uma ilha povoada por biguás imperiais e de pescoço negro. Foto: Gentileza de Ingrid Lucer/FPN Terramérica

Turismo responsável no fim do mundo

[caption id="attachment_38570" align="alignright" width="340" caption="Embarcações aproximando-se de uma ilha povoada por biguás imperiais e de pescoço negro. Foto: Gentileza de Ingrid Lucer/FPN"][/caption] Os guias turísticos foram os primeiros a notar alteração nas valiosas aves das ilhas do austral canal de Beagle, quando se aproximavam com suas ruidosas embarcações lotadas de visitantes. Ushuaia, Argentina, 9 de janeiro de 2012 (Terramérica).- Uma iniciativa nova de turismo responsável no austral canal de Beagle – passagem interoceânica entre as águas do Atlântico e do Pacífico – garante a convivência entre observação e preservação de espécies únicas de aves e mamíferos. Desde dezembro, as embarcações com turistas que cumprem uma série de normas, estabelecidas para não perturbar as aves que habitam as ilhas “do fim do mundo”, recebem o distintivo Compromisso Onashaga, uma certificação de qualidade. As ilhas que emergem no estreito que separa os territórios mais austrais de Argentina e Chile, são Áreas Importantes para a Conservação de Aves, uma categoria definida pela entidade conservacionista BirdLife International e zonas de máxima diversidade destas espécies. Ali fazem seus ninhos e se reproduzem o biguá imperial (Phalacrocorax atriceps) e o de pescoço negro (Phalacrocorax magellanicus), o pinguim patagônico (Spheniscus magellanicus) e o pinguim gentoo (Pygoscelis papua), o gaivotão (Larus dominicanus), a gaivota (Larus scoresbii), o mandrião chileno (Stercorarius chilensis) e o trinta-réis-de-bico-vermelho (Sterna hirundinacea). Também se pode ver das embarcações colônias de leões-marinhos-do-sul (Otaria flavescens), atapetando uma das ilhotas que salpicam este canal cuja largura oscila entre três e sete quilômetros. “A preocupação para regular certas práticas surgiu dos próprios donos das embarcações que percorrem o canal com turistas”, explicou ao Terramérica o ecologista Nicolás Pincol, da não governamental Fundação Patagônia Natural (FPN). A bordo de um catamarã que faz o passeio, Pincol contou que os prestadores desse serviço notaram que, quando vários barcos se aproximavam ao mesmo tempo de uma ilha, as aves se punham em alerta, se assustavam e muitas fugiam deixando seus filhotes. Os empresários afirmam que essa preocupação era transmitida pelos guias de turismo. “Os guias diziam que havia uma invasão que tinha impacto sobre o recurso, e começamos a nos comprometer pela palavra, de maneira um pouco artesanal no começo, para cuidar disso”, contou ao Terramérica o dono de uma das empresas, Moreno Preto. O acordo foi batizado de Compromisso Onashaga (vocábulo indígena que significa “canal dos caçadores” e com o qual o povo originário yámana se referia ao Beagle). Os yámanas, eles próprios caçadores que aproveitavam a diversidade de fauna local, habitavam, antes do Século 19, a costa sul da Terra do Fogo, a província mais ao sul da Argentina, banhada pelas águas do Beagle. O Ministério do Turismo e a prefeitura responsável pela área se interessaram pela iniciativa, e também aderiram a FPN e outras organizações que deram assessoria técnica para a certificação. Entre todos formaram um Comitê de Acompanhamento do Compromisso Onashaga, que organizou painéis de formação e assessoria para as empresas, os guias de turismo e os membros da Prefeitura Naval, entre outros. A FPN agregou esta iniciativa ao Sistema Interjurisdicional de Áreas Protegidas Costeiro-Marinhas, que busca ampliar a proteção da biodiversidade costeira e marinha da Patagônia. O Sistema facilita o trabalho conjunto de autoridades, organizações científicas e técnicas e setor privado para preservar espécies do sul da província de Buenos Aires até a Terra do Fogo. A partir da assinatura do Compromisso de Onashaga, em 5 de outubro de 2005, as embarcações se comprometeram com medidas técnicas para evitar vazamento de combustíveis nas águas e com boas práticas turísticas. Em virtude do acordo, os capitães coordenam a aproximação individual de cada barco a uma ilha, em baixa velocidade para não causar distúrbios, enquanto as demais embarcações aguardam a uma boa distância ou visitam outras ilhotas. Também é desligado o áudio externo da coberta que os guias utilizam para dar as explicações aos passageiros e se recomenda a estes falar em voz baixa e não alimentar os animais. “As empresas têm um manual de referência sobre diferentes práticas e, na medida em que cumprem estas normas, recebem uma pontuação. Com mais de 500 pontos recebem a certificação”, explicou Pincol. Também foram incorporadas recomendações para os passageiros, por exemplo, que reutilizem os copos nos quais são servidas bebidas durante o passeio e que não joguem pontas de cigarro nem nenhum outro resíduo na água. Entretanto, o esforço ainda está longe de cobrir toda a atividade. Das 20 embarcações que navegam em cada temporada pelo Beagle, com cerca de 170 mil passageiros procedentes de todo o mundo, dez se candidataram à certificação e apenas oito a obtiveram. As demais devem continuar trabalhando para melhorar. Em alguns lugares pode-se desembarcar e, como parte da iniciativa, há caminhos sinalizados para que o visitante não pise onde não deve e nem leve plantas ou pedras. * A autora é correspondente da IPS. LINKS Outro modo de viver das baleias Caça às aves, de binóculo As promessas do turismo verde Compromisso Onashaga, em espanhol Áreas Importantes para a Conservação de Aves, em inglês Fundação Patagônia Natural, em espanhol Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Marcela Valente*

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