Tartaruga amazônica em risco

Terramérica

Tartaruga amazônica em risco


por Mario Osava, enviado especial


[caption id="attachment_35781" align="alignright" width="340" caption="Tartarugas capturadas para pesquisa e viradas para não fugir. Foto: Mario Osava/IPS"][/caption] O calor excessivo dos ninhos altera o equilíbrio de sexos das tartarugas amazônicas e pode colocar em risco sua reprodução. Baixo Xingu, Brasil, 5 de dezembro de 2011 (Terramérica).- A preocupação da jovem bióloga crescia na medida em que recopilava dados para sua tese de mestrado. As tartarugas amazônicas que nasceram em dezenas de ninhos examinados em 2008 e 2010 eram todas fêmeas. E em 2007 foi registrado apenas 8% de machos. O sexo dos quelônios amazônicos, dos quais as tartarugas são a espécie maior, é determinado pela temperatura do ninho. Quando o calor supera os 32 graus centígrados nascem mais fêmeas. A pesquisa de Cristiane Costa identificou uma temperatura média de 32,6 graus em 2007, de 34,5 e 35,9 graus em 2008 e 2010, respectivamente, nos ninhos da praia de Juncal, preferida pelas tartarugas para desovar no Tabuleiro do Embaubal, um arquipélago do Baixo Xingu na Amazônia brasileira oriental. “O que será das tartarugas se o aquecimento do planeta tende a ser mais acentuado na Amazônia, segundo vários estudos? No longo prazo, sua reprodução poderia ficar inviável por escassez de machos e morte de embriões pelo calor excessivo nos ninhos. Trata-se de um animal que pode viver muitas décadas, embora não se saiba exatamente quantas. Isto permite reequilibrar sua razão sexual se as altas temperaturas não forem permanentes nem generalizadas, disse Juarez Pezzuti, doutor em ecologia de quelônios e orientador de Cristiane como professor da Universidade Federal do Pará. É necessário “monitorar por muitos anos” e avaliar os diversos fatores que afetam a reprodução, acrescentou. Um aumento de ovos não fecundados indicaria escassez de machos. Juncal, berço conhecido da maior quantidade de tartarugas da Amazônia, vive uma situação singular. Em 2009, foi elevada à categoria de praia e acrescentada areia do rio, para reduzir a mortandade de tartaruguinhas provocada em 2008 pela inundação dos ninhos. Naquele ano, sobreviveram apenas 230 mil filhotes viáveis, 58% menos do que em 2007. Contudo, a areia colocada, de grãos grossos, elevou mais a temperatura dos ninhos ao reter mais calor, a ponto de matar muitos embriões e filhotes. Esse foi, provavelmente, um fator da baixa reprodução de 2010, quando se contou cerca de 320 mil filhotes viáveis, contra os 470 mil de 2009. Os números são conhecidos porque há três décadas se desenvolve no Brasil um programa de proteção de quelônios amazônicos que compreende a coleta de tartaruguinhas nas praias controladas, seu cuidado nos primeiros dias de maior vulnerabilidade à depredação natural, a contagem e a liberação nos rios. Cristiane se preocupa com a possibilidade de as autoridades ambientais repetirem o erro de corrigir um fator de mortandade, as inundações, criando outro, o excesso de calor que, além do mais, não deixa nascer machos. Nesse contexto, o aquecimento global permanece como ameaça futura. Na Amazônia brasileira, há pelo menos outra centena de áreas de desova semelhantes ao Tabuleiro do Embaubal, embora não tão maciços, destacou Juarez. As tartarugas migram muito. O cientista quer evitar alarmismos sobre riscos de extinção, que justificariam uma lei proibindo a caça das tartarugas, o que ele considera irracional. Proibir o aproveitamento extrativo de quelônios e seus ovos contraria costumes arraigados em populações ribeirinhas, por isso é pouco efetivo e dificulta o manejo das espécies com participação das comunidades locais, convidadas a renunciar a uma fonte de alimento sem contrapartida e sob ameaça de repressão, alertou Juarez. Além disso, é permitida a pesca de algumas espécies de peixes de fato quase extintas, acrescentou. As tartarugas amazônicas (Podocnemis expanda) estão em um grupo de baixo risco, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Há três décadas, temia-se por seu destino diante da queda vertical de sua população. E isso levou o governo a iniciar, em 1979, o Projeto Tartarugas da Amazônia, que conseguiu recuperar a reprodução e afastar o risco de extinção. Por quase três séculos, esta espécie foi uma das principais fontes de proteína para a população amazônica, e sua gordura era usada para conservar alimentos e para outros fins variados, inclusive medicinais. Por isso, ganhou o apelido de “gado da Amazônia”. Melhor registrado em documentos históricos, está o consumo de seus ovos, que, além de alimento, são fonte de óleo que servia de combustível para iluminar os povoados amazônicos e para exportar para outras cidades do Brasil e do exterior. As estimativas indicam colheitas anuais de 12 milhões a 48 milhões de ovos entre 1700 e 1860, baixando desde então, segundo constataram Juarez e seu colega George Rebelo, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, com base em documentos. As características desta tartaruga a tornam mais vulnerável do que outras espécies às alterações ambientais e à depredação humana. Chega a pesar mais de 60 quilos e pode pôr mais de cem ovos em um ninho. As fêmeas adultas chegam em massa às praias preferidas para a desova. Por seus hábitos rígidos, “são mais sensíveis às mudanças, ao dependerem de ambientes específicos”, segundo Daniely Félix-Silva, doutora em biologia que realizou pesquisas sobre quelônios em várias partes da Amazônia. Não possuem, por exemplo, “a plasticidade da tracajá” (Podocnemis unifilis, também chamado tercay ou taricaya em outros países amazônicos), detalhou Daniely em referência à capacidade de se adaptar a meios e hábitos alimentares e reprodutivos mais flexíveis. Essa “vantagem” da tracajá se reflete em sua abundância em toda a Amazônia brasileira, sucedendo as tartarugas como espécie mais capturada ilegalmente, apesar de ser menor, chegando a apenas oito quilos. Como faz ninho inclusive em meio à vegetação, pode resistir melhor ao calor. As tartarugas foram vítimas da economia extrativa que conduziu a ocupação da Amazônia, com a da borracha natural. A partir da década de 1960, somaram-se os polos industriais e a expansão agrícola subsidiada que aceleraram a invasão humana. Ampliou-se o mercado para o consumo e comércio ilegais de carne e ovos de quelônios, e também foi disseminada a oferta de carne bovina e de frango, neutralizando parte da pressão sobre os animais silvestres. O novo ciclo econômico da Amazônia multiplicou as ameaças ambientais, como o desmatamento, causado sobretudo pela pecuária, pelas monoculturas com intenso uso de agrotóxicos e pela grande mineração. Os quelônios são vulneráveis às intervenções no ambiente aquático, como as centrais hidrelétricas que são prioridades nos planos energéticos do governo. Alguns rios serão represados em vários pontos para fazer funcionar centrais grandes e pequenas. O pulso de cheias e estiagens dos rios amazônicos é vital para os quelônios, que se alimentam de frutas e vegetação das florestas inundadas durante o “inverno” chuvoso, acumulando reserva para o “verão” menos úmido e dedicado à reprodução, destacou Juarez. As tartarugas também podem sofrer alterações nos areais onde fazem ninhos. As represas, em geral, inundam praias fluviais e podem reter ou modificar os sedimentos transportados pelos rios, alterando os bancos de areia. No caso do Rio Xingu, a hidrelétrica de Belo Monte, agora em início de construção, reduzirá as cheias nos cem quilômetros da Volta Grande, desviando parte de suas águas. Neste trecho, as tracajás ali dominantes serão as mais afetadas. Porém, em Tucuruí, central hidrelétrica inaugurada em 1984 na mesma Amazônia oriental, as tracajás foram as que melhor sobreviveram ao choque ambiental e hoje são abundantes na gigantesca represa, constatou Daniely. * O autor é correspondente da IPS. LINKS Belo Monte e depredadores ameaçam tartarugas amazônicas Rio Xingu entre a eletricidade e a diversidade Enxurrada de pequenas centrais hidrelétricas Leis não ajudam a fauna amazônica Expedição em busca de quelônios amazônicos A via crucis das tartarugas Projeto Tartarugas da Amazônia Universidade Federal do Pará Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia Instituto Brasileiro de Meio Ambiente Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios União Internacional para a Conservação da Natureza, em francês, inglês e espanhol Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Claudius/IPS Terramérica

Os agrocombustíveis não são a solução

[caption id="attachment_35778" align="alignright" width="340" caption="Claudius/IPS"][/caption] Não é novidade que os agrocombustíveis desataram uma nova febre pela África. Foram monopolizados milhões de hectares sem que ninguém se preocupasse com os pobres que vivem nelas, afirma o presidente da Amigos da Terra Internacional, Nnimmo Bassey. Durban, África do Sul, 5 de dezembro de 2011 (Terramérica).- A ciência nos diz que caminhamos direto para uma crise climática, e está em nossas mãos mudar de rumo. Porém, algumas soluções preocupantemente falsas estão na mesa de conversações da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, por exemplo, a promoção os biocombustíveis disponíveis no mercado, como o etanol. O termo biocombustíveis é enganoso. Estes combustíveis elaborados com base em vegetais se ajustam melhor à descrição de agrocombustíveis, porque estão longe de serem verdes. Os que ainda afirmam que os agrocombustíveis emitem muito menos gases-estufa do que os combustíveis fósseis ignoram que suas emissões são liberadas na etapa de produção, devido à mudança no uso da terra e à aplicação de fertilizantes, e no processamento. Entretanto, muitos governos, instituições financeiras internacionais com o Banco Mundial, e empresas multinacionais dedicadas ao agronegócio, ao petróleo e ao transporte promovem os agrocombustíveis como uma solução para as necessidades energéticas mundiais. Passar dos combustíveis fósseis para os agrocombustívies não faz com que os pobres tenham maior acesso à energia, e agrava problemas existentes, como a monopolização de terras. Também cria desafios específicos para a previsão alimentar, pois cultivos antes dedicados a produzir alimentos, como milho e açúcar, agora se destinam ao etanol. E, o que é crucial, os agrocombustíveis podem desviar recursos destinados a energias limpas e renováveis como a eólica e a solar. A agricultura em grande escala para obter agrocombustíveis, ao contrário da pequena, costuma estar acompanhada de atividades negativas como uso intensivo de água, fertilizantes e pesticidas. Comumente, assim se causa contaminação e degradação e se esgota os recursos hídricos disponíveis, abrindo passagem para o perigo da fome. No planeta não há terra agrícola suficiente para que os cultivos destinados aos agrocombustíveis atendam as enormes necessidades energéticas de nosso insustentável modo de vida, afirmam vários analistas. Um informe deste ano sobre o Índice Global da Fome diz que a mudança climática, a crescente demanda de biocombustíveis e o aumento do comércio mundial de matérias-primas a futuro são as principais causas da carestia dos alimentos, que exacerbou a fome que afeta o Chifre da África. Os agrocombustíveis simplesmente não solucionam a crise climática e energética, apesar das evidências de que os biocombustíveis em pequena escala, de produção e capitais locais, podem ser parte da solução quando ajudam a atender as necessidades locais. Em quase todos os 36 Estados do meu país, a Nigéria, a Corporação Nacional Nigeriana do Petróleo (NNPC) e seus sócios estrangeiros adquiriram grandes extensões de terra para produzir etanol a partir de mandioca, sorgo e cana-de-açúcar. Algumas plantações e centrais de produção de agrocombustíveis ficam em lugares que já sofriam falta de água, deixando as comunidades quase sem meios de vida. Pesquisadores do capítulo nigeriano da Amigos da Terra concluíram que o governo nem mesmo consultou, a população local antes da compra das terras comunitárias. A África ocupa um lugar importante no radar dos promotores dos agrocombustíveis, e os governos africanos veem neles benefícios financeiros de enorme potencial para as elites políticas e financeiras. Contudo, cada vez mais pesquisas científicas mostram que os agrocombustíveis estimulam o desmatamento, a perda de biodiversidade e a degradação de solos, bem como a contaminação e o esgotamento da água, e inclusive a mudança climática. Os que tomam as decisões devem reconhecer esta realidade e o fato de que os agrocombustíveis fomentam a carestia alimentar, a fome, as violações de direitos agrários, os conflitos, deslocamentos e abusos. Que os agrocombustíveis desataram uma nova febre pela África já não é novidade. Foram monopolizados milhões de hectares sem que ninguém se preocupasse muito com os pobres que provavelmente enfrentam deslocamentos e com o impacto na agricultura familiar e outros pequenos estabelecimentos rurais. A agricultura contribui com mais de um quarto das emissões mundiais de gases-estufa. Lamentavelmente, o texto da convenção sobre a mudança climática não esclarece que o principal culpado é o agronegócio industrial, que depende de fertilizantes químicos e monoculturas, inclusive os que se destinam aos agrocombustíveis. Os pequenos agricultores aplicam principalmente técnicas agroecológicas que esfriam o planeta. Muitos governos, empurrados pelas empresas, pressionam para que as negociações climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) apoiem soluções falsas para a crise climática, como a adoção dos agrocombustíveis e o comércio das contaminantes emissões de carbono, em lugar de sua redução. Por isso, nosso planeta caminha para um aumento da temperatura média superior a dois graus e para os efeitos catastróficos que –a ciência nos indica – trará consigo. Enfrentar a crise climática exige objetivos obrigatórios de redução de emissões, aplicados sem o mecanismo de compensação de carbono, que não passa de uma cortina de fumaça para ocultar a contaminação de sempre. Os objetivos voluntários de redução de emissões, como os incluídos nos acordos de Copenhague e Cancún, não são eficazes. Deixemos de soluções falsas. Vamos investir com urgência em soluções reais, como reduzir o consumo, melhorar a eficiência energética, mudar para as energias renováveis e limpas e para uma produção alimentar local e sustentável. Enquanto as negociações da ONU caminham a passo de tartaruga, a Conferência Mundial dos Povos sobre Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra, realizada em abril de 2010 em Cochabamba, na Bolívia, lançou um avançado Acordo dos Povos propondo e exigindo verdadeiras respostas. * Nnimmo Bassey é presidente da Amigos da Terra Internacional, e fundador e diretor-executivo da Environmental Rights Action. LINKS Agrocombustíveis: a polêmica se instala na América Central Biocombustíveis brasileiros em uma corrida de obstáculos Foi dada a partida para os agrocombustíveis argentinos Agrocombustíveis, sim ou não? O milho, o etanol, os ricos e a fome Energia – Cobertura especial da IPS, em espanhol Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, pdf em espanhol Índice Global da Fome, pdf em espanhol Environmental Rights Action – Amigos da Terra Nigéria, em inglês Acordo dos Povos, em espanhol e inglês Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Nnimmo Bassey*
1 Terramérica

ECOBREVES

Venezuela: Lago de Valencia transborda e contamina Honduras: Produtores de açúcar ampliam geração de energia limpa Brasil: Poluição do ar prejudica sistema nervoso ************************************* VENEZUELA - Lago de Valencia transborda e contamina Caracas, 5 de dezembro de 2011 (Terramérica).- O Lago de Valencia, no norte da Venezuela, sobe de nível e ameaça dezenas de milhares de famílias em áreas ribeirinhas com sua umidade, impacto nas estradas, danos a encanamentos, e vazamento de esgoto. É uma consequência de sedimentações causadas por anos de desmatamento e ocupação desordenada de sua bacia endorreica de 3.150 quilômetros quadrados, disse ao Terramérica o ecologista Lenin Cardozo. “Estamos formando uma frente para exigir do governo que acelere soluções distintas para a passagem de águas para a represa Pao-Cachinche”, disse ao Terramérica o integrante da Fundação Vida Verde, Manuel Díaz. Essa represa, recarregada com resíduos industriais presentes no Lago, abastece de água cerca de três milhões de pessoas na região. O Ministério do Meio Ambiente estuda levar água do Lago até perto do Mar do Caribe. ************************************* HONDURAS - Produtores de açúcar ampliam geração de energia limpa Tegucigalpa, 5 de dezembro de 2011 (Terramérica).- Produtores de açúcar de Honduras investirão mais de US$ 35 milhões para gerar mais de 30 megawatts (MW) de eletricidade a partir do bagaço de cana. Os seis engenhos do país produzem 126 MW de energia renovável, mas a capacidade nacional é de aproximadamente 300 MW procedentes da cana-de-açúcar, disse ao Terramérica o diretor da Associação de Produtores de Açúcar, Carlos Melara. Desses 126 MW, cem são vendidos para a estatal Empresa Nacional de Energia Elétrica a US$ 0,07 o quilowatt. Com os US$ 35 milhões a serem investidos no ano que vem, “pensamos começar uma expansão gradual para os próximos três anos”, acrescentou. Para seu fornecimento elétrico, Honduras ainda depende da geração térmica. ************************************* BRASIL - Poluição do ar prejudica sistema nervoso Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 2011 (Terramérica).- A exposição excessiva à poluição do ar pode prejudicar o desenvolvimento embrionário do sistema nervoso, revela um estudo feito pela Universidade de São Paulo (USP). Os testes foram feitos com embriões de galinha, em meio ao material particulado de um bairro típico dessa cidade, uma das mais contaminadas do país. A bióloga Paula Bertacin injetou uma suspensão de partículas finas em ovos embrionários. “Posteriormente, analisamos aspectos morfológicos das células do cerebelo, órgão do sistema nervoso central cuja sensibilidade a substâncias tóxicas é muito conhecida”, explicou ao Terramérica. “Os resultados indicaram uma redução do número de células de Purkinje, neurônios com um papel central em várias funções”, acrescentou. As conclusões ainda não podem ser aplicadas a seres humanos. “Agora envolveremos outros animais, como camundongos, e avaliaremos outros parâmetros, inclusive com a possibilidade de relacionar à espécie humana”, concluiu. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Navegação no nicaraguense Rio San Juan.Foto: Germán Miranda/IPS Terramérica

América Latina: impulso integrador não chega ao clima

[caption id="attachment_35122" align="alignleft" width="340" caption="Navegação no nicaraguense Rio San Juan.Foto: Germán Miranda/IPS"][/caption] O esforço integrador da América Latina não chegou ao incerto cenário da adaptação à mudança climática. Cidade do México, México, 28 de novembro de 2011 (Terramérica).- A previsível ausência de acordos obrigatórios para estabilizar o clima terrestre abre a brecha para pactuar espaços latino-americanos de cooperação que permitam a adaptação aos severos efeitos da mudança climática. Algumas iniciativas dão seus primeiros passos. Contudo, os resultados da 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontece entre 28 de novembro e 9 de dezembro na cidade sul-africana de Durban, poderiam funcionar como um acelerador. Em agosto, Belize, Colômbia, Costa Rica. El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá e República Dominicana formaram o Programa Intergovernamental de Cooperação Mudança Climática-Oportunidades e Desafios na Agricultura (Prica-Ado), que busca criar uma rede técnico-científica, fortalecer a capacidade dos órgãos nacionais e regionais, e apoiar os governos na criação e aplicação de políticas públicas. As transformações que já são vistas no agronegócio se traduzem “na necessidade de modelos de gestão do território e da agricultura que tenham capacidade de prever e ajustar-se às mudanças”, disse ao Terramérica a líder do projeto no escritório mexicano do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura, Martha Alviar. “Isto exige políticas públicas para a adaptação em ordenamento territorial, desenvolvimento tecnológico, financiamento do risco, infraestrutura, estratégias de conservação, conhecimento e uso da oferta ambiental”, esclareceu Martha, especialista em geomática para planejamento territorial. O Caribe e a Mesoamérica (sul do México e América Central) estão especialmente expostos a secas fortes e ciclones devastadores. A agricultura está sujeita a novos padrões de frequência e intensidade de chuvas, alterações no estado dos solos e variações nos rendimentos. América Central, México e nordeste do Brasil estão entre as regiões que, segundo evidências que permitem uma certeza mediana, sofrerão secas mais intensas neste século, de acordo com o informe especial sobre manejo de risco de eventos extremos e desastres, aprovado no dia 18 pelos governos integrantes do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC). Há a probabilidade de 66% a 100% de aumento da velocidade dos ventos dos furacões, como os que se formam a cada ano no Mar do Caribe e no Golfo do México, embora seja provável, também, que não cresça e, inclusive, diminua a quantidade de ciclones tropicais, afirma o documento. Em 2012, o Prica-Ado vai elaborar um diagnóstico da sub-região baseado nos sistemas agroecológicos, para gerar unidades que administrem a adaptação. “A definição e a valorização dos agrossistemas, a geração de cenários geoprospectivos e a gestão de políticas públicas constituem as dimensões nas quais o programa impulsionará a tomada de decisões e a ação coletiva dos governos, cientistas e produtores agrícolas dos países”, anunciou Martha. Contudo, os desafios são muitos. “A institucionalidade ainda não evoluiu para assumir o desafio da adaptação ou da redução de riscos e vulnerabilidade”, disse ao Terramérica o economista do Programa Salvadorenho de Pesquisa sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prisma), Nelson Cuéllar. “Temos na região uma forma de abordar a temática de maneira setorial, e a mudança climática não pode ser enfrentada” dessa forma, ressaltou. Em 2008 foi adotada a Estratégia Regional Agroambiental e de Saúde na América Central 2009-2024. Dois anos mais tarde, foi implementado o Plano Ambiental da Região Centro-Americana 2010-2014, e este ano foi a vez da Estratégia Regional de Mudança Climática. Dificilmente a COP 17 adotará um acordo vinculante para reduzir os gases-estufa, ou um segundo período de compromissos do Protocolo de Kyoto, que suceda ao que se extinguirá em 2012, e que é o único tratado obrigatório para mitigar a mudança climática. Baseado em que a liberação de gases-estufa nas atividades humanas está provocando o aquecimento global, o Protocolo obriga os países ricos que o ratificaram a reduzir suas emissões em volumes 5,1% menores aos de 1990. Entretanto, esta meta não será cumprida, como estava previsto, até o próximo ano. Na América do Sul, porém, não se avista um espaço regional para enfrentar o drama climático, apesar das chuvas torrenciais que este ano atingiram Colômbia e Venezuela, do acelerado derretimento de geleiras na região andina e do desmatamento da Amazônia. É que “prevalece o individualismo”, e a potência regional, o Brasil, “como país de desenvolvimento médio, quer desfrutar as vantagens do Grupo dos 77 e dos países desenvolvidos, caminhando pela corda bamba”, disse ao Terramérica o especialista em negociações internacionais sobre mudança climática, Morrow Gaines, da organização não governamental brasileira Vitae Civilis. Para Maureen Santos, especialista em negociações internacionais da Federação de Órgãos de Assistência Social e Educacional, deveria ser criado um fundo para projetos de adaptação na União de Nações Sul-Americanas (Unasul), e uma reunião especializada em meio ambiente no Mercado Comum do Sul (Mercosul) e em outras instâncias de integração. “Ativar no Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e na Unasul a discussão sobre energia” pode ajudar a compor um plano regional para a mudança climática, acrescentou Maureen. De fato, várias propostas de reuniões especializadas do Mercosul se converteram em políticas regionais. “Por que não uma reunião sobre clima?”, questionou. Para Gaines, copresidente do Conselho da Rede de Ação Climática Internacional, “o fórum mais apropriado” para tratar da adaptação seria a comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), porque já promove discussões a respeito. Nas áreas mais vulneráveis, como a América Central, há respostas governamentais destinadas a reduzir danos. El Salvador acolherá, no dia 16 de dezembro, uma reunião do Grupo Consultivo para a Reconstrução, formado pelos presidentes centro-americanos, para abordar os efeitos das chuvas devastadoras que sofreu a região em setembro e outubro. “Muito do que se fizer dependerá de quanto financiamento será possível mobilizar, mas o financiamento não é suficiente. Há desafios institucionais que são uma forte restrição para implementar ações com sentido mais integrado”, disse Nelson. No entanto, o dinheiro também importa. Dos US$ 30 bilhões comprometidos pelos países ricos para medidas de adaptação e mitigação, só foram entregues US$ 8,585 bilhões, segundo o britânico Instituto para o Desenvolvimento em Países Estrangeiros (ODI). Na região, apenas México e Peru receberam recursos para quatro programas. * O autor é correspondente da IPS. Com as colaborações de Edgardo Ayala (El Salvador) e Mario Osava (Rio de Janeiro). Este artigo é parte de uma série apoiada pela Alianza Clima y Desarrollo (CDKN). LINKS Criada rede científica sobre mudança climática Forrageiras contra mudança climática Seguros ambientais contra a mudança climática Uma febre que não cede Ventos brasileiros semeiam empregos verdes Desmatamento amazônico desafia liderança climática brasileira Clima: Cada vez mais quente – Cobertura especial da IPS, em espanhol COP 17, em inglês e francês Programa Intergovernamental de Cooperação Mudança Climática-Oportunidades e Desafios na Agricultura, em espanhol Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura – México Programa Salvadorenho de Pesquisa sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, em espanhol e inglês Plano Ambiental da Região Centro-Americana 2010-2014, em espanhol Estratégia Regional de Mudança Climática, pdf em espanhol Informe especial sobre manejo de risco de eventos extremos e desastres para avançar na adaptação do IPCC, pdf em inglês Instituto para o Desenvolvimento em Países Estrangeiros – Grã-Bretanha, em inglês Comissão Econômica para América Latina e o Caribe, em espanhol, inglês, francês, português Federação de Órgãos de Assistência Social e Educacional Vitae Civilis Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Emilio Godoy*
Área de selva incendiada para eliminar árvores no Estado do Acre. Foto: Mario Osava/IPS Terramérica

O Brasil não pode nadar contra a corrente

[caption id="attachment_35119" align="alignleft" width="340" caption="Área de selva incendiada para eliminar árvores no Estado do Acre. Foto: Mario Osava/IPS"][/caption] O Brasil afastou-se da América Latina em matéria climática e articula suas posições no âmbito do Basic, que forma junto com África do Sul, Índia e China, e com o Grupo dos 77 países em desenvolvimento. Rio de Janeiro, Brasil, 28 de novembro de 2011 (Terramérica).- Sem protestos relevantes, com retrocessos internos e um contexto internacional adverso, o Brasil tem escassas condições de assumir a liderança que se espera de uma potência ambiental na conferência climática que acontecerá na cidade sul-africana de Durban. As responsabilidades do Brasil são maiores porque será anfitrião da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá no Rio de Janeiro em junho de 2012, duas décadas depois da cúpula mundial que aprovou as convenções do clima e da biodiversidade também nesta cidade. Brasília, no entanto, parece estar “renunciando a um papel mais ativo”, a julgar pelo “tíbio” documento, que apresentou no dia 27 de outubro, como base das negociações da Rio+20, disse Luiz Pinguelli Rosa, secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudança Climática, que reúne o governo e a sociedade para contribuir na formulação de políticas públicas. No setor ambientalista teme-se que o governo esteja evitando propostas mais ousadas para garantir uma boa participação de chefes de Estado e de governo, especialmente dos países industrializados, na Rio+20. “Trata-se de uma tática equivocada”, pois os governantes não viriam para discutir amenidades, mas se sentiriam desafiados e atraídos por “propostas fortes e polêmicas”, disse Pinguelli Rosa, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista em energia, em entrevista ao Terramérica. Para Rubens Born, coordenador-adjunto da Vitae Civilis, organização não governamental ativa nas negociações do clima, “o êxito da Rio+20 dependerá dos avanços na 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontece entre 28 de novembro e 9 de dezembro em Durban, na África do Sul. O Brasil sofre contradições internas que podem “manchar” sua imagem e freiam propostas mais audazes, afirmou Pinguelli Rosa ao Terramérica. O parlamento se prepara para aprovar uma reforma do Código Florestal de 1965, que flexibiliza exigências ambientais, o que pode estimular o desmatamento e inverter a tendência de queda no corte de árvores nos últimos anos. Além disso, o Brasil está se convertendo em um grande produtor de petróleo, a partir das jazidas do pré-sal, a mais de cinco mil metros de profundidade no Oceano Atlântico, e tende a “sujar” sua matriz energética, acrescentou Maureen Santos, especialista em negociações internacionais da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional. Com uma política econômica “desenvolvimentista”, baseada em grandes obras de infraestrutura energética e logística, a expansão agrícola nos principais biomas nacionais (Amazônia e Cerrado) e uma crescente exportação de matérias-primas, o Brasil está com problemas para sustentar sua legitimidade ambientalista. Dono de invejáveis recursos naturais, enormes reservas de biodiversidade, água doce e florestas tropicais, o país também ostenta a matriz energética mais renovável e o maior potencial agrícola do mundo. É, portanto, um ator fundamental nas negociações ambientais internacionais. O Brasil, com 192 milhões de habitantes, foi protagonista do debate climático desde antes da Cúpula da Terra de 1992. Conceitos básicos, como as emissões históricas de gases-estufa que definem as responsabilidades diferenciadas dos países na mudança climática, e o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, tiveram origem aqui. Na COP 15, em Copenhague, o Brasil também obteve forte repercussão ao apresentar um compromisso voluntário de reduzir suas emissões de gases-estufa, projetadas para 2020 entre 36% e 39%, e com o dramático discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, prometendo ajudar os países mais pobres. Contudo, as políticas atuais contradizem essas promessas, segundo ecologistas. A revisão do Código Florestal ameaça a meta de reduzir o desmatamento amazônico em 80%, e não se tem notícias de contribuição brasileira para o Fundo Verde para o Clima, destinado a apoiar as nações pobres. Além disso, o país afastou-se da América Latina em matéria climática e articula suas posições no âmbito do Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China) e com o Grupo dos 77 (G-77) países em desenvolvimento, explicou Maureen. A dimensão ambiental não está devidamente contemplada nos processos de integração sul-americanos, lamentou. A Rio+20 será “uma belíssima oportunidade para corrigir e aglutinar para uma região que contrasta com o momento nefasto” que vive o mundo, marcado pela “direitização”, pela volta ao neoliberalismo, e por uma democracia dependente da economia para salvar os banqueiros da bancarrota, destacou Pinguelli Rosa. É uma conjuntura de “véspera do fascismo”, que recorda a crise iniciada em 1929 que culminou em uma guerra mundial, o que agora seria “improvável devido às armas nucleares, esse demônio que dificulta as guerras”, disse o professor e físico nuclear. Este contexto internacional “sufoca” o debate climático, acrescentou. Mas a crise econômica não significa ausência de recursos para ajudar países pobres a mitigarem e adaptarem-se à mudança climática, disse Rubens. Apenas em 2009, o mundo destinou US$ 312 bilhões para subsidiar combustíveis fósseis, segundo o último Informe de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, recordou. Entretanto, a ameaça de recessão no mundo rico não favorece a meta de entregar centenas de milhares de milhões de dólares para reduzir a contaminação responsável pelo aquecimento global e enfrentar a mudança climática nos países em desenvolvimento. A questão prioritária em Durban é a sobrevivência do Protocolo de Kyoto, único instrumento internacional que estabelece metas obrigatórias de mitigação, cujo término em 2012 desmantelaria toda a arquitetura desenvolvida na convenção sobre a mudança climática. Como porta-voz do G-77, o Brasil lidera a luta por um segundo período de compromissos do Protocolo, cuja aprovação parece impossível em Durban. As discussões são intensas, e um acordo é possível, assegurou o negociador Luis Alberto Figueiredo, da chancelaria brasileira. Entre o colapso e o acordo ideal – novas metas para um segundo período –, o mais provável é que seja aprovada uma prorrogação de dois ou três anos do Protocolo, para dar tempo a negociações que hoje enfrentam condições muito desfavoráveis, disse Morrow Gaines, especialista internacional da Vitae Civilis. A COP não tem poder por si só de colocar um fim a esse tratado internacional e do Protocolo de Kyoto dependem vários mecanismos, como o MDL e o mercado de carbono, que consolidou interesses empresariais em todo o mundo, acrescentou. * O autor é correspondente da IPS. LINKS Ventos brasileiros semeiam empregos verdes “O futuro do Brasil é a economia do conhecimento natural” Nova lei florestal pode afetar metas climáticas Desmatamento amazônico desafia liderança climática brasileira ONGs brasileiras criticam indefinição de proposta para a Rio+20 O país das maçãs Uma economia baixa em carbono, em espanhol Rio+20, em inglês COP-17, em inglês e francês Fórum Brasileiro de Mudança Climática Vitae Civilis Rede de Ação Climática da América Latina, em espanhol Federação de Órgãos de Assistência Social e Educacional Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Mario Osava*
Praia do atol de Funafuti em Tuvalu, Estado insular que pode desaparecer devido à elevação do nível do mar. Foto: mrlins CC BY 2.0 Terramérica

O Sul ganha do Norte na luta contra o aquecimento

[caption id="attachment_35116" align="alignleft" width="340" caption="Praia do atol de Funafuti em Tuvalu, Estado insular que pode desaparecer devido à elevação do nível do mar. Foto: mrlins CC BY 2.0"][/caption] O mundo em desenvolvimento chega à conferência de Durban com as credenciais de ter contribuído de modo substancial para reduzir a contaminação que causa a mudança climática. Berlim, Alemanha, 28 de novembro de 2011 (Terramérica).- Os argumentos de alguns países industrializados, que acusam as nações em desenvolvimento de não agirem de maneira consequente na redução de emissões que provocam a mudança climática, são falsos, segundo estudos de renomadas instituições acadêmicas. Os países em desenvolvimento (particularmente os de economia em forte crescimento, como China e Índia) reduziram, desde 1990, suas emissões de dióxido de carbono de maneira considerável e se comprometeram com reduções futuras proporcionalmente maiores do que fizeram as nações desenvolvidas. Estes dados constituem novas bases de negociação para a 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontece entre 28 de novembro e 9 de dezembro na cidade sul-africana de Durban. O informe Comparison of Annex 1 and Non-Annex 1 Pledges Under the Cancún Agreements, preparado por Sivan Kartha e Peter Erickson, do Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), analisa quatro estudos das promessas de redução de emissões de gases-estufa de países industrializados (listados no Anexo 1 do Protocolo de Kyoto) e de nações em desenvolvimento. O informe, apresentado em junho, conclui que “existe amplo consenso de que os compromissos dos países em desenvolvimento implicam mais mitigação do que os dos países desenvolvidos”. Em entrevista ao Terramérica, Sivan, pesquisador decano de manejo de riscos climáticos do SEI, disse que esta conclusão “se aplica a todos os estudos e a todos os casos analisados, apesar da diversidade de suposições e de metodologias empregadas para quantificar as promessas de redução”. Além disso, segundo Sivan, as reduções reais de emissões de nações industrializadas são consideravelmente menores do que as promessas, pois estas incluem regras de medição que distorcem os resultados, como duplicações, transferência de emissões do mundo industrial para países em desenvolvimento por intermédio de importações de bens manufaturados, e falsas estimativas sobre o uso da terra e do desmatamento. O pesquisador alertou ainda que as promessas globais de redução de gases-estufa, acordadas nas conferências de Kyoto (1997), Copenhague (2009) e Cancún (2010), “são insuficientes para limitar o aquecimento global a dois graus centígrados. É muito provável que com tais promessas a temperatura suba até cinco graus”. Os resultados do segundo estudo “Fair Shares: Crediting Poor Countries for Carbon Mitigation”, jogam por terra “o ponto de vista condicional sobre o conflito Norte-Sul que domina as negociações climáticas mundiais, porque mostra que as nações em desenvolvimento, queiram ou não, participam de maneira crucial da mitigação do carbono”. O autor, David Wheeler, especialista em economia ambiental do Centro para o Desenvolvimento Global (CGD), disse ao Terramérica que, segundo suas estimativas, “47% do crescimento mundial da energia de baixa intensidade de carbono, desde 1990, corre por conta dos países em desenvolvimento. Sem os investimentos desses países em energia limpa as emissões globais seriam muito superiores”. Para David, tais investimentos permitiram economizar 1,6 gigatoneladas (1,6 bilhão de toneladas) anuais de gases-estufa até 2008, enquanto as reduções obtidas pelo mundo industrializado alcançaram 1,3 gigatoneladas. A China reduziu 442 milhões de toneladas, enquanto as reduções correspondentes aos Estados Unidos foram de 329 milhões de toneladas, explicou David. Sivan, que participa da COP 17, ponderou que o mundo em desenvolvimento deveria continuar, em essência, as políticas praticadas desde 1990, mas “melhorando sua coordenação, tentando alcançar unanimidade e melhor cooperação em dois aspectos principais”. “O primeiro é a efetividade ambiental. Todos os países em desenvolvimento deveriam apoiar, em Durban, a aprovação de um regime internacional suficientemente ambicioso para frear a mudança climática”, propôs Sivan. Trata-se de apoiar com energia a proposta que coordenaram em outubro o Grupo Africano, os Pequenos Estados Insulares, os Países Menos Adiantados e a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América. “Esse regime teria que ir além das promessas feitas na conferência de Copenhague, que nos colocam no caminho de um aumento de até cinco graus, e muito além da posição do Grupo dos Oito, que implica risco de 50% de que o aquecimento global exceda os dois graus Celsius”, alertou Sivan. O G-8 é integrado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia. O objetivo de Durban deve ser o de manter a elevação da temperatura média abaixo de 1,5 graus, acrescentou. O segundo aspecto é da igualdade, segundo Sivan. “Os países do Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China) reiteraram que o regime internacional para reduzir as emissões de gases deve ser equitativo para que funcione”. Estes países trabalham em um documento que apresentarão em Durban e “que proporciona uma base de dados reais para negociar a contribuição de cada Estado para deter a mudança climática”, destacou. “Um acordo coerente dos países em desenvolvimento”, sobre o que cada Estado, industrializado ou não, deve fazer, tanto em reduções nacionais, como em acesso a meios financeiros e tecnológicos para permitir um regime internacional de mitigação, “representaria um avanço formidável a respeito do impraticável esquema de promessas e revisões de Copenhague e Cancún”, concluiu Sivan. * O autor é correspondente da IPS. LINKS Mercados de carbono requerem resposta política Mudança climática: a esperança das vuvuzelas Clima: Cada vez mais quente – Cobertura especial da IPS, em espanhol Comparison of Annex 1 and Non-Annex 1 Pledges Under the Cancun Agreements, pdf em inglês Rio+20, em inglês COP-17, em inglês e francês Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Julio Godoy*
1265 Terramérica

ECOBREVES

Brasil: Biodiesel prejudica a vida marinha México: Proposta para adaptar transporte à mudança climática Argentina: Bolsas para ativismo ambiental ************************************** BRASIL - Biodiesel prejudica a vida marinha Rio de Janeiro, 28 de novembro de 2011 (Terramérica).- O biodiesel, um agrocombustível parcialmente renovável, gera menos gases-estufa do que o diesel de petróleo, mas pode ter impactos negativos na vida marinha, alerta um estudo da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A pesquisa expôs duas espécies de peixes, a tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) e o cascudo marrom (Pterygoplichthys anisitsi) ao biodiesel puro e a duas misturas com diesel, uma com 5% do agrocombustível (B5) e outra com 20% (B20), em prazos de dois a sete dias. “Os efeitos do B20 foram menores do que os do diesel e o B5, mas mesmo o biodiesel puro ativa respostas biomecânicas”, disse ao Terramérica o responsável pelo projeto, Eduardo Alves de Almeida. “O biodiesel também causa, e de modo mais agressivo, a oxidação das membranas celulares das guelras dos peixes e facilita a entrada de outras substâncias tóxicas”, acrescentou. ************************************** MÉXICO - Proposta para adaptar transporte à mudança climática Cidade do México, 28 de novembro de 2011 (Terramérica).- O México deve aplicar políticas de adaptação e mitigação da mudança climática no transporte, recomenda uma organização não governamental. “Países como o México terão problemas de adaptação dentro de cerca de 20 anos. Se não se fizer algo para reduzir as emissões no transporte, este pode se converter na primeira fonte dos problemas”, disse ao Terramérica a gerente de Mudança Climática e Qualidade do Ar do não governamental Centro de Transporte Sustentável, Hilda Martínez. Entre as medidas a implantar estão a redução de viagens, a mescla de meios de transporte e a introdução de tecnologias mais eficientes. O Centro analisou os programas federais de destruição de veículos de passageiros e de carga, a otimização de estradas no Vale do México, local onde fica a Cidade do México, e o investimento em transporte público do Fundo Nacional de Infraestrutura. O México emite anualmente cerca de 709 milhões de toneladas de dióxido de carbono, das quais 20% correspondem ao transporte. ************************************** ARGENTINA - Bolsas para ativismo ambiental Buenos Aires, 28 de novembro de 2011 (Terramérica).- A organização ecologista Greenpeace da Argentina convoca jovens para treinamento e para financiar uma campanha que os ajude a resolver problemas ambientais desatendidos em suas comunidades. “É a terceira vez que lançamos esta convocação, que acontece apenas na Argentina. Oferecemos treinamento com os melhores especialistas e apoio financeiro”, explicou ao Terramérica o diretor-executivo da filial do Greenpeace, Martín Prieto. A campanha “Greenpeace te Banca” selecionará, até 15 de dezembro, cinco jovens residentes no território argentino que apresentarem projetos sobre quatro temas relativos às províncias de Buenos Aires (centro-oeste), Chaco (nordeste), Rio Negro (sul) e San Luis (centro-oeste). Os selecionados poderão integrar-se à nossa organização” ou estarão preparados “para enfrentar os problemas ambientais em sua comunidade, trabalhando em temas nos quais ninguém trabalha”, destacou Prieto. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Claudius/IPS Terramérica

Mercados de carbono requerem resposta política

[caption id="attachment_34371" align="alignright" width="340" caption="Claudius/IPS"][/caption] São necessários fortes incentivos para as empresas dispostas a investir em um futuro baixo em carbono. Brighton, Inglaterra, 21 de novembro de 2011 (Terramérica).- Os mercados de carbono sofrem fogo cruzado, apesar da confiança em sua capacidade de gerar reduções significativas de gases causadores do efeito estufa. Na medida em que se aproxima a conferência sobre mudança climática, que começará no dia 28 na cidade sul-africana de Durban, e também o fim do período de compromissos do Protocolo de Kyoto, no ano que vem, os mercados de carbono sofrem baixos preços, insuficientes para as quantias exigidas pelas tecnologias limpas, e uma série de escândalos de corrupção. Alguns perguntam se é correto insistir nos mercados de carbono, e não são apenas as organizações não governamentais. O ex-chefe da Associação Internacional de Comércio de Emissões, Henry Derwent, disse há pouco tempo que “o mercado consiste em jogadores individuais, muitos dos quais têm outros lugares aonde ir se este ficar muito complicado para fazer dinheiro ou garantir os investimentos”. Derwent se referia ao Sistema Europeu de Comércio de Emissões, uma fonte de importante demanda por créditos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). O MDL, previsto no Protocolo de Kyoto, é o instrumento central dos mercados de carbono. Trata-se de um sistema de compensação que permite aos países ricos pagar aos pobres para que reduzam, em seu nome, emissões de gases-estufa em lugares onde, ao menos teoricamente, é mais barato fazê-lo. Os projetos devem demonstrar que são “adicionais” – que não seriam realizados sem o financiamento do MDL – e há diferentes métodos para certificá-los. Contudo, vários estudos indicam que até 40% dos projetos são questionáveis neste aspecto. Telegramas publicados pelo Wikileaks mostram autoridades de governo assegurando que nenhum projeto de países como a Índia – segundo maior receptor de iniciativas MDL – pode ser considerado genuinamente adicional. Entretanto, o acordo de Kyoto diz que os países pobres teriam direito a obter benefícios (tecnologia, empregos, saúde) por alojar esses projetos, isto é, reduzir as emissões de gases a um custo baixo em troca de desenvolvimento sustentável. A esmagadora evidência indica que não aconteceu nada semelhante. A menos que os projetos também sejam creditados por padrões privados – como Gold Standard, que conta com 20% do mercado – não há mais dinheiro por entregar benefícios de desenvolvimento sustentável. Os benefícios estabelecidos nos documentos de desenho de projetos do MDL não são certificados quando estes são concluídos. A responsabilidade de avaliar se foram cumpridos os critérios nacionais de desenvolvimento sustentável cabe às autoridades do país, cuja falta de tempo para uma fiscalização eficaz determina que não estejam em condições de fazê-lo. Os defensores do mercado de carbono falam de projetos que conseguiram reduções de gases-estufa e desenvolvimento sustentável: iniciativas de energias solar, eólica, biomassa e fogões eficientes que multiplicaram benefícios ambientais e de saúde em comunidades pobres. Os críticos argumentam que tais projetos podem, e deveriam, ser financiados por outros meios, como ajuda direta, em lugar de criar uma oportunidade de compensação que permite às indústrias do Norte se absolverem da pressão para reduzir de fato a contaminação que produzem. Definitivamente, os projetos com benefícios substanciais e duradouros são pouquíssimos, e seguem em pé poderosos incentivos para ir em busca de ações mínimas, de baixo custo, mas credoras de grandes quantidades de créditos de carbono, como eliminar os hidrofluorcarbonos dos sistemas de refrigeração. Contudo, muitos ainda acreditam que é muito cedo para deixar de lado o MDL. Segundo o Banco Mundial, o financiamento do MDL continua sendo a maior fonte de recursos de mitigação disponível para os países em desenvolvimento, que poderiam obter US$ 18 bilhões em recursos diretos no período 2001-2012. Para resolver os problemas já observados, há propostas de reformar o MDL, mas que não se focam em obstáculos que poderiam ser superados com maior aprendizado institucional e inovação. Por exemplo, elevar a escala dos projetos, reduzir as barreiras aos menores, melhorar as observações dos que concebem as ideias. Isto toca a política profunda do mercado de carbono e o papel que tem na resposta à mudança climática. O desafio, resumidamente, é passar de uma economia de combustíveis fósseis para um “capitalismo climático” no qual o crescimento e o desenvolvimento sejam obtidos com pouca liberação de carbono. Isto exige trabalhar com empresas poderosas e atores financeiros que façam dinheiro com uma economia baixa em carbono. Diante da urgência de evitar que o aquecimento chegue a três ou quatro graus, um argumento a favor da compensação é que ganha tempo para que os países ricos façam a transição para essa economia. O problema é que a maioria deles não está fazendo isso. E os que tentam veem suas ações superadas pelo crescimento econômico que os hidrocarbonos continuam proporcionando. Portanto, cabe perguntar se a compensação de gases-estufa é uma solução permanente ou está destinada a ser temporária. As mudanças de fundo demoram e não são fáceis. No entanto, quanto tempo será necessário continuar confiando na compensação como alternativa para combater as fontes de gases-estufa? São necessários fortes incentivos para as empresas dispostas a investir em um futuro baixo em carbono. No momento, o MDL continua sendo positivo, mas não suficientemente importante para mudar a estratégia de investimentos. Enfrentar a mudança climática também traz consigo uma resposta dura para as empresas que continuam investindo nos combustíveis fósseis, apesar da evidência de seu efeito nocivo. * Peter Newell é professor de relações internacionais na Universidade de Sussex e coautor do informe, publicado no dia 15 deste mês, “Governing Clean Development: What Have We Learnt?” (Governo do Desenvolvimento Limpo: O Que Aprendemos?), com Jon Phillips, da Escola de Desenvolvimento Internacional da Universidade de East Anglia. Direitos exclusivos Terramérica. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Peter Newell*
Trabalhadores da empresa Gestión Ambiental, que coleta, trata e dá disposição final a resíduos elétricos e eletrônicos em Buenos Aires. Foto: Juan Moseinco/IPS Terramérica

Resíduos eletrônicos inundam a Argentina

[caption id="attachment_34367" align="alignleft" width="340" caption="Trabalhadores da empresa Gestión Ambiental, que coleta, trata e dá disposição final a resíduos elétricos e eletrônicos em Buenos Aires. Foto: Juan Moseinco/IPS"][/caption] A Argentina, que vive uma explosão de consumo de bens eletrônicos, estuda uma lei para o correto descarte dos resíduos perigosos neles contidos. Buenos Aires, Argentina, 21 de novembro de 2011 (Terramérica).- A loja está lotada de compradores. Na sua vez, cada cliente segue o vendedor até uma das múltiplas cabines para a venda de um novo telefone celular e recebe abundante informação sobre o aparelho. Contudo, ninguém informa o que fazer com o que será descartado. A cena se repete diariamente em uma loja de dois andares da empresa Personal de telefonia celular do município de San Isidro, província de Buenos Aires, e em outros estabelecimentos de toda a Argentina, que vive um “boom” de consumo de aparelhos eletrônicos. Os telefones já substituídos têm, em média, apenas dois anos de idade. Com 40 milhões de habitantes, a Argentina tem 34,3 milhões de assinantes de telefonia móvel, que chegam a 56 milhões se forem contados os números que não são usados e não foram cancelados, segundo a organização ambientalista Greenpeace. A magnitude do consumo dos últimos cinco anos mobilizou a preocupação pelo volume de substâncias contaminantes liberadas quando os aparelhos são jogados no lixo domiciliar. “O que faço com o aparelho velho?”, perguntou a repórter do Terramérica a uma vendedora da loja de San Isidro. “Guarde como reposição, caso o novo se quebre”, aconselhou. “Mas o velho já não funciona”, explicou a repórter. A resposta, acompanhada de um dar de ombros, foi: “Não sei. Não recebemos aparelhos velhos”. “Aproximadamente 40% do público tem consciência de que estes resíduos contaminam, e os guarda em casa, e outros 30% os jogam em lixões”, disse ao Terramérica a ativista Yanina Rullo, do Greenpeace Argentina. Esta organização é uma das que mais defende o projeto de lei de Orçamentos Mínimos de Gestão de Resíduos de Aparelhos Elétricos e Eletrônicos, já aprovado no Senado. A iniciativa responsabiliza os atores que colocam aparelhos eletrônicos no mercado por sua reciclagem e disposição final segura. No entanto, no momento, a iniciativa está travada na câmara baixa. Segundo o Greenpeace Argentina, em 2010 foram vendidos 12 milhões de celulares, 2,6 milhões de computadores, um milhão de televisores e 1,2 milhões de impressoras. Assim como se compra, se joga fora. Em um ano foram descartados dez milhões de telefones móveis que, ao se quebrarem emanam substâncias muito tóxicas e metais pesados que contaminam o ar, a terra e os lençóis de água. Cada habitante gera três quilos de lixo eletrônico por ano, com um total de 120 mil toneladas de resíduos contaminantes, dos quais menos de 2% são reciclados. Na América Latina, que acumula aproximadamente 800 mil toneladas de lixo eletrônico, há experiências incipientes de disposição final segura para estes materiais. O dado consta do livro “Os resíduos eletrônicos: um desafio para a sociedade do conhecimento na América Latina e no Caribe”, publicado em 2010 pelo escritório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em Montevidéu (Uruguai). Para chegar a essa estimativa foram somados informes de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Venezuela, onde são produzidos mais de 80% do lixo eletrônico regional. Apesar desse volume não, há na região uma legislação integral para dar uma resposta ao problema, apenas experiências isoladas de gestão ou reutilização de produtos. Com o crescimento econômico da última década e pelos esforços para reduzir a brecha digital em países como Argentina, Colômbia ou Uruguai, onde se massifica o uso de computadores portáteis, a sanção de uma lei parece crucial. A iniciativa argentina, que segue o modelo da União Europeia, estabelece a responsabilidade individual do produtor com a disposição final dos resíduos e a reutilização e reciclagem de componentes. Também incentiva o fabricante a criar produtos facilmente recicláveis, livres de substâncias tóxicas e com a maior durabilidade possível, e propõe um sistema de gestão nacional segura dos resíduos. Além disso, prevê a criação de centros de coleta em todos os municípios com mais de dez mil habitantes. Algumas empresas têm programas voluntários para retirar do mercado produtos obsoletos, mas não há divulgação, e nem mesmo seus empregados sabem ajudar os clientes. A empresa Escrap gerencia lixo de grandes empresas, originado em falhas de produção ou mudanças de tecnologia, mas não se ocupa de resíduos de usuários particulares. “Trabalhamos com uma porcentagem muito pequena que inclui produtos danificados no processo de fabricação ou que falharam durante o tempo de garantia, mas para o grosso do descarte falta a lei”, disse ao Terramérica seu proprietário, Gustavo Fernández, um biólogo especializado em gestão ambiental. Fernández, que colaborou na elaboração do projeto, afirmou que há resíduos com valor econômico, como os componentes de ferro, aço, alumínio, cobre, metais preciosos e plástico, e outros que não o têm, como as pilhas recarregáveis. Para alguns resíduos muito contaminantes, como as baterias recarregáveis ou as placas eletrônicas (para as quais não há tecnologia de recuperação na Argentina), a saída é a exportação para empresas especializadas do exterior. Quase 30% do peso das baterias é formado por materiais tóxicos como cádmio, níquel e lítio. Um computador pessoal pode conter mais de 50 compostos prejudiciais. Segundo o especialista, de todo o lixo eletrônico, os celulares estão entre os produtos mais perigosos, pois liberam substâncias cancerígenas e contaminantes orgânicos persistentes. “É como uma bomba atômica, não pode ir para o lixo”, alertou Fernández. * A autora é correspondente da IPS. LINKS O maravilhoso lixo eletrônico Os riscos do lixo eletrônico O lado obscuro do lixo eletrônico, em espanhol México esconde o cádmio debaixo do tapete, em espanhol Lixo eletrônico: uma montanha de problemas Os resíduos eletrônicos: Um desafio para a sociedade do conhecimento na América Latina e no Caribe – Unesco, pdf em espanhol O lado tóxico da telefonia móvel – Greenpeace, pdf em espanhol Lixo informático: A outra cara da tecnologia – Greenpeace, pdf em espanhol Escrap, em espanhol Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Marcela Valente*
Na praia de Junca, no Rio Xingu, as tartarugas põem cerca de 90 ovos por ninho. Foto: Mario Osava/IPS Terramérica

Belo Monte e depredadores ameaçam tartarugas amazônicas

[caption id="attachment_34364" align="alignleft" width="340" caption="Na praia de Junca, no Rio Xingu, as tartarugas põem cerca de 90 ovos por ninho. Foto: Mario Osava/IPS"][/caption] Algumas autoridades, ex-pescadores e ambientalistas asseguram a reprodução das tartarugas amazônicas no Baixo Xingu. Mas agora enfrentam o problema da hidrelétrica de Belo Monte, que represará o rio 40 quilômetros acima. Baixo Xingu, Brasil, 21 de novembro de 2011 (Terramérica).- Luiz Cardoso da Costa se horrorizou ao ver o peixe-boi amazônico, grande e dócil, sangrando por causa da facada, mas engolindo capim avidamente, com se comer evitasse a morte. Não era esperada uma agonia tão dramática. E, por causa dela, renunciou definitivamente à caça desta espécie (Trichechus inunguis). Luiz escolhera a faca buscando o coração, pois lhe parecia muito cruel o método usual, de enfiar varetas nas narinas para asfixiar este mamífero aquático que chega a pesar meia tonelada de carne, gordura e couro, muito valorizados no mercado ilegal. Contudo, ele deixou de ser “o grande predador” que admite ter sido quando assistiu o embarque de “aproximadamente 800 tartarugas” com destino a Manaus, metrópole da Amazônia e capital do Estado do Amazonas. Naquela ocasião, há 13 anos, vendeu “apenas umas 20”, mas aquela quantidade concentrada de quelônios mortos o abalou. Sua conversão foi radical. Hoje ele é a alma da proteção ambiental do Tabuleiro do Embaubal, um conjunto de mais de cem ilhas no trecho final do Rio Xingu, na Amazônia oriental, cujas praias são a principal área remanescente para a reprodução das tartarugas amazônicas. Milhares de fêmeas se juntam aqui em setembro e outubro, especialmente na praia de Juncal, para cavar na areia, jogando-a para o ar, pôr seus ovos, tapar o ninho e voltar para o rio. O espetáculo da desova, com areias que saltam e multidões de grandes quelônios, algum dia atrairá muitos turistas, espera Saloma Mendes de Oliveira, secretária de Meio Ambiente do município Senador José Porfírio, em cujo território fica o Tabuleiro. Será uma fonte de recursos e de adesão popular à defesa da natureza local, afirma. Atualmente, a aglomeração de tartarugas as torna vulneráveis aos caçadores, que insistem em aproveitar os bons preços da sua carne e dos seus ovos, embora retirá-los da natureza seja um crime ambiental punido com pesadas multas e, em alguns casos, até com prisão. Por isso, no “verão”, como os amazônicos chamam o período de estiagem entre junho e novembro, procura-se intensificar o controle das praias. Desde setembro, Luiz conta com 20 colegas para vigiá-las. São pessoas contratadas pela empresa ambiental Biota, resultado de um acordo entre a prefeitura de José Porfírio e o Consórcio Norte Energia, empresa que ganhou a concessão da hidrelétrica de Belo Monte e tem a responsabilidade de vigiar e mitigar os impactos que causarem as duas represas que vai construir. São controvertidos os efeitos que terá o maior projeto energético da Amazônia, cuja potência total de 11.233 megawatts se limitará a 40% de geração efetiva, em média, devido à forte variação do caudal do Rio Xingu. A Norte Energia “não nos explicou nada”, disse Luiz. Seu medo é que baixe o nível das águas, fazendo com que as ilhas do Embaubal tenham “invernos mais secos”, o que deixaria “sem água os igapós” (áreas de floresta inundáveis durante a cheia), onde os quelônios se alimentam de frutas. Como consequência, haverá animais “mais fracos e menos ovos”. Esta hipótese é pouco provável, afirmou Juarez Pezzuti, biólogo da Universidade Federal do Pará, que coordena estudos sobre répteis no Xingu. O caudal do Baixo Xingu, trecho de 220 quilômetros entre Belo Monte, onde termina o forte declive do rio, e a desembocadura é determinado pelo Rio Amazonas, que recebe suas águas e as de toda sua bacia de mais de mil rios, acrescentou. O Amazonas, imensamente mais caudaloso do que seu afluente, funciona como uma barreira ao deságue. Por isso, as águas do Xingu somente baixarão mais que o normal se o mesmo ocorrer no Rio Amazonas. Além disso, os dois cursos sofrem a influência das marés do Oceano Atlântico, apesar da distância em que se encontram, superior a 400 quilômetros. Exatamente isto é o que preocupa Saloma Oliveira, que as águas menos velozes do Baixo Xingu “se tornem mais ácidas” pelo acúmulo maior de matéria orgânica apodrecida, “afetando espécies mais sensíveis e reduzindo a biodiversidade local”. A Norte Energia nega tal impacto, mas parte de bases pouco sérias, segundo a secretária. A empresa reconhece somente uma “influência indireta” de Belo Monte em áreas que não serão inundadas, mas sofrerão graves danos, como a Volta Grande, trecho fluvial rochoso de cem quilômetros que terá parte de seu fluxo desviada para alimentar à represa de Belo Monte, explica a companhia. A represa reterá sedimentos que são importantes para manter as praias do Embaubal, cuja altura é indispensável para o sucesso reprodutivo das tartarugas e de outros quelônios, alertou Juarez. As maiores perdas de ovos se devem a cheias do rio antes dos nascimentos, em razão de chuvas fortes e antecipadas na bacia, os “repiquetes”. Porém, esses são inimigos incertos e incontroláveis para guardiões como Luiz, cuja responsabilidade é evitar a depredação humana e natural da fauna do Tabuleiro do Embaubal. O camponês Manoel Nader viu pela primeira vez a desova das tartarugas no Tabuleiro ao integrar-se ao grupo de guardiões. “Foi uma grande emoção, nunca tive essa oportunidade”, apesar de ter vivido quase todos os meus 48 anos no município, contou. Nader confessa, como vários colegas, ter “pescado” algumas para consumo próprio, apesar da proibição. “É o costume de todos”, justifica, mas agora assume a missão de protegê-las. Além disso, “prefiro carne de vaca”, acrescenta. O grande problema não são os pescadores locais, conhecidos e desarmados, que consomem poucos animais e são suscetíveis ao diálogo, afirma Luiz. A ameaça são os comerciantes “de fora”, que abastecem grandes cidades, como Manaus e Belém (PA). Para reprimi-los falta força policial, ressalta. Os guardiões do Embaubal são civis, empregados da Biota ou da prefeitura, como ele, sem status de policiais. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), que tem essa autoridade, transferiu suas funções no arquipélago para uma fundação privada que abandonou a tarefa há dois anos e meio. Luiz foi, então, um defensor solitário do Embaubal, muitas vezes sem combustível nem barcos para percorrer as ilhas, e outras vezes testemunha impotente da captura de grande quantidade de tartarugas. Dez de seus 47 anos dedicou à missão. Vive na “base”, uma grande casa de madeira com um posto de observação que permite vigiar à luz do dia a praia de Juncal, que fica a 600 metros. Visita pouco sua família, mulher e seis filhos que vivem na cidade. Ganha pouco e já recebeu várias ameaças de morte, mas sente-se gratificado. * O autor é correspondente da IPS. LINKS Rio Xingu entre a eletricidade e a diversidade Leis não ajudam a fauna amazônica Expedição em busca de quelônios amazônicos A integração e o desenvolvimento segundo o Brasil – Cobertura especial da IPS, em espanhol Belo Monte marca mudança radical na política externa Pequenas represas, grandes preocupações Belo Monte diante de obstáculos e polêmicas sem fim Belo Monte e a seca como presente Belo Monte, a terceira invasão do Rio Xingu, em espanhol Biota Brasil Consórcio Norte Energia, em português e inglês Universidade Federal do Pará Instituto Brasileiro de Meio Ambiente Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Mario Osava, enviado especial*
1 Terramérica

ECOBREVES

Honduras: Garífunas reciclarão lixo Brasil: Estudo do impacto climático em aves de estuário Venezuela: Mineração penetra no Parque Canaima *********************************** HONDURAS- Garífunas reciclarão lixo Tegucigalpa, 21 de novembro de 2011 (Terramérica).- Quatro comunidades da etnia garífuna do departamento hondurenho de Atlántida começarão em dezembro um projeto de reciclagem de lixo que contempla educação ambiental, criação de microempresas e venda de produtos reciclados. A iniciativa pretende incorporar as comunidades garífunas em um processo de redução de riscos diante da mudança climática nessas áreas costeiras caribenhas, disse ao Terramérica o diretor da não governamental Organização de Desenvolvimento Étnico Comunitário, Céleo Álvarez Casildo. Nas comunidades Sambo Creek, Corozal, Nueva Armenia e Río Esteban já começaram as gestões para organizar grupos em microempresas, ensinar técnicas de reciclagem e começar e elaboração de um manual nas línguas espanhola e garífuna. O projeto tem apoio do Ministério de Desenvolvimento dos Povos Indígenas e Afro-Hondurenhos e Políticas de Igualdade Racial. *********************************** BRASIL - Estudo do impacto climático em aves de estuário Rio de Janeiro, 21 de novembro de 2011 (Terramérica).- Um projeto do Instituto de Estudos Ambientais Mater Natura, do Brasil, avaliará os possíveis impactos da mudança climática em aves de estuário e proporá formas de conservar seu habitat. Essas aves dependem da influência das marés e fazem seus ninhos em mangues e pântanos. “Por viverem em áreas próximas à costa e úmidas, são sensíveis à mudança climática”, explicou ao Terramérica o responsável pelo projeto, Marcos Ricardo Bornschein. A observação de três espécies em um trecho da Mata Atlântica, no Estado do Paraná, permitirá obter dados sobre as marés, períodos de cheias e estiagem, ciclo reprodutivo das aves e vegetação. “Avaliaremos a reação em determinadas situações climáticas. Com um software simularemos mudanças mais extremas e, conhecendo o comportamento das aves, poderemos adotar medidas preventivas de conservação”, concluiu Bornscheikn. *********************************** VENEZUELA - Mineração penetra no Parque Canaima Caracas, 21 de novembro de 2011 (Terramérica).- Indígenas denunciaram que a mineração ilegal do ouro penetrou no Parque Nacional Canaina, de 30 mil quilômetros quadrados, no extremo sudeste da Venezuela. “Pouco a pouco, os mineradores se aproximaram do Parque e este ano começaram a entrar com suas máquinas, cortando árvores e removendo terra. Isto prejudica os rios e afugenta os turistas”, disse ao Terramérica o indígena Gilberto Calcaño, dirigente de uma comunidade de pemones que opera modestos acampamentos para visitantes. Outra ativista da comunidade pemón, Regina González, destacou que os mineradores obtêm combustível para suas máquinas com anuência dos militares que vigiam a área, enquanto funcionários do Instituto Nacional de Parques frequentemente se veem sem meios para detectar e impedir as invasões. Fronteiriço com Brasil e Guiana, o Parque tem uma grande beleza paisagística. Suas grandes cascatas e tepuyes (montanhas de paredes verticais e picos planos) levaram a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura a declará-lo patrimônio da humanidade, em 1994. Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


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