Terramérica - Onde estão os transgênicos?

Ambiente

Terramérica – Onde estão os transgênicos?


por Inés Benítez*


  [caption id="attachment_81327" align="alignleft" width="340" caption="Campo de milho geneticamente modificado na Espanha. Foto: Amigos da Terra"][/caption] A Espanha, o país com mais plantações transgênicas da União Europeia, não tem um registro público sobre sua localização. Málaga, Espanha, 25 de março de 2013 (Terramérica).- A Espanha é a primeira na União Europeia (UE) em matéria de plantações em grande escala de sementes geneticamente modificadas. Segundo a quantidade de experimentos e a extensão das terras cultivadas, a Espanha responde por 42% dos ensaios experimentais de cultivos modificados ao ar livre do bloco, segundo dados do Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia. “Está sendo realizado um experimento em grande escala sem se conhecer suas consequências na saúde, no entorno e no futuro da agricultura”, disse ao Terramérica a ecologista Liliana Spendeler, diretora da Amigos da Terra Espanha. Esta organização promove a campanha Únicos na Europa: a Televenda dos Transgênicos para informar a sociedade sobre estes cultivos. Os organismos geneticamente modificados são aqueles aos que foram incorporados em laboratório genes de outras espécies, vegetais ou animais, para produzir características desejadas, como resistência a pragas ou a climas adversos. Não há estudos concludentes sobre a inocuidade destes transgênicos para a saúde humana e o meio ambiente. Por isso a Organização Mundial da Saúde recomenda estudar cada caso de forma individual. Em 2012, a Espanha contava com pouco mais de 116.300 hectares de milho transgênico MON 810, da corporação biotecnológica transnacional Monsanto, 20% mais do que em 2011, segundo o Ministério de Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente, com base em dados de venda de sementes. Ecologistas criticam que esses dados sejam estimativas imprecisas e que não exista um registro público sobre a localização dos terrenos plantados com transgênicos. Quando cultivos ecológicos ou orgânicos certificados são “contaminados” com variedades transgênicas, os agricultores perdem essa certificação e não podem processar o dono das plantações modificadas porque não existe o registro, nem reclamar indenização por danos, pois não está prevista nas legislações espanhola e europeia, explicou Liliana. Na Espanha, como em toda a UE, só se permite cultivar milho transgênico. A soja e o algodão modificados são importados de Argentina, Brasil, Canadá e Estados Unidos. “Os alimentos transgênicos produzidos em países em desenvolvimento enchem os estômagos de vacas e porcos dos países industrializados”, disse ao Terramérica o responsável pela campanha sobre este tema no Greenpeace Espanha, Luís Ferreirim. “Entre 1996 e 2011 os cultivos biotecnológicos contribuíram para a segurança alimentar, a sustentabilidade e (para a resposta) a mudança climática”, afirma um informe de 20 de fevereiro do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agrobiotecnológicas (ISAAA). Segundo este órgão, no ano passado foram plantados 170,3 milhões de hectares de vegetais transgênicos em todo o mundo, 6% a mais do que em 2011. Os Estados Unidos são o maior produtor, seguidos do Brasil. Apesar da melhoria na produtividade, eficiência e redução do uso de pesticidas, defendidas pelos defensores dos transgênicos, um número importante de países europeus os proíbem, pontuou Luís. Na Europa, há 11 Estados que dizem não aos transgênicos, oito deles na UE, após a entrada da Polônia em 2013. E em 2012 só foram cultivados em Portugal, Espanha, Romênia, Eslováquia e República Checa, acrescentou. Destas plantações da UE, 95% se concentram na Espanha (88%) e em Portugal (7%). A maior parte do milho modificado é destinada à elaboração de ração animal. “Como a pirâmide de alimentação se inverteu e cada vez demandamos mais proteína animal, isto chega diretamente aos nossos pratos”, observou Luís. A legislação europeia obriga a indicação no rótulo de um alimento se seus ingredientes contêm ou foram elaborados a partir de transgênicos, salvo nos casos em que essa presença não supere 0,9% do ingrediente. A ração animal comercializada na Espanha mistura milho transgênico e convencional, o que constitui um “grave atentado ao direito de escolha” do pecuarista por uma ração não modificada para seus animais, destacou Liliana. A ativista Carmela San Segundo, da organização Ecologistas em Ação, na cidade de Málaga, sul da Espanha, destaca o “grande poder” exercido pelas corporações agroquímicas que vendem sementes modificadas. Esta organização não governamental conseguiu que uma dezena de povoados malaguenhos se declarassem Zonas Livres de Transgênicos, figura legal reconhecida pela UE. “É preciso trabalhar muito: conversar com associação de moradores, agricultores e membros da municipalidade. Não é um problema que preocupe, porque as pessoas o desconhecem bastante”, detalhou Carmela ao Terramérica. Na Espanha a cultivo de milho transgênico começou em 1998 para enfrentar a repercussão econômica das pragas, segundo o Ministério da Agricultura. Mas hoje se ignora a incidência real da praga da broca que afeta o milho. “Justifica-se o uso desta tecnologia sem contar com dados concretos sobre as perdas causadas pelas pragas?”, perguntou Luís. O ativista explicou que a variedade de milho transgênico Bt, da companhia norte-americana Monsanto, evita o uso de veneno contra pragas porque produz em suas flores uma bactéria tóxica para os insetos. Embora nem sempre haja ameaça de pragas, este milho libera constantemente esse gene que, após a colheita, fica no solo prejudicando sua fertilidade, ressaltou Luís. “Foi comprovado em cultivos transgênicos de vários países que com o tempo começam a aparecer pragas secundárias, o que obriga a usar outros pesticidas”, advertiu. Uma pesquisa publicada em 2010 pela União Europeia mostra que 53% dos espanhóis eram contra introduzir genes de outras espécies nos alimentos, enquanto apenas 27% estavam de acordo. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Porta fechada para o milho transgênico Cautelosa reivindicación de los transgénicos Abre-se o debate cubano sobre transgênicos Transgênicos argentinos respondem ao desafio climático Mobilização contra desregulamentação de transgênicos nos Estados Unidos Impacto de alimentos transgênicos ainda desconhecido Amigos da Terra Espanha, em espanhol Únicos na Europa: a teletenda dos transgênicos, em espanhol Estimativa da superfície cultivada de milho MON 810 na Espanha, em espanhol Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações Agrobiotecnológicas, em inglês Ecologistas em Ação – Málaga, em espanhol Monsanto Pesquisa da União Europeia, pdf em inglês   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  

Mulheres e crianças do povo nanti, que se encontra em contato inicial com a cultura ocidental na região peruana Madre de Dios. Foto: Indepa Ambiente

TERRAMÉRICA – Em isolamento voluntário

  [caption id="attachment_81312" align="alignleft" width="340" caption="Mulheres e crianças do povo nanti, que se encontra em contato inicial com a cultura ocidental na região peruana Madre de Dios. Foto: Indepa"][/caption] Um povo indígena em isolamento voluntário é aquele que decide não ter vínculo com a sociedade do país onde se encontra por razões históricas. Lima, Peru, 25 de março de 2013 (Terramérica).- Na densa Amazônia peruana há cinco reservas para povos indígenas que decidiram se manter total ou parcialmente isolados do resto da sociedade. Mas estes territórios não estão delimitados e apenas um possui um posto de controle. As autoridades encarregadas tentam atualmente reverter tantos anos de esquecimento estatal. “Uma reserva é uma ferramenta para proteger os direitos destas populações que foram obrigadas a se isolar por uma série de vulnerações que sofreram, sobretudo na época da borracha. Temos uma dívida histórica com eles”, disse ao Terramérica o diretor-geral de Interculturalidade e Direitos dos Povos no Vice-Ministério da Interculturalidade, Paulo Vilca. A febre da borracha extraída de grandes árvores amazônicas se estendeu nas últimas décadas do século 19 e na primeira metade do 20 e, junto com a prosperidade de seus exploradores, trouxe doenças, morte e extermínio dos indígenas obrigados a trabalhar como escravos. Um povo em isolamento voluntário é aquele que decide não ter nenhum vínculo com a sociedade do país onde se encontra, por razões históricas como, por exemplo, aquele extermínio. Outra categoria é formada pelos grupos com contato inicial: apesar de decidirem se manter isolados, estabelecem algum tipo de relação com o mundo exterior por razões concretas de seu interesse, como cuidados com a saúde. Só depois de vários anos de espera uma comissão multissetorial reconheceu, em agosto de 2012, cinco reservas: Isconahua, Murunahua e Mashco-Piro (as três na região de Ucayali, no leste), Madre de Dios (na região de mesmo nome, no sudeste) e Kugapakori, Nahua, Nanti e outros, em Cusco (no sul). Nesta última estão os povos matsinguenga e yora, e também o Lote 88, uma área com jazidas de gás natural que faz parte do projeto Camisea. Entretanto, as cinco ainda estão em trâmite para passarem de reservas territoriais para indígenas, uma categoria criada em 2007 pela lei 28.736 para dar maior proteção aos povos em isolamento e contato inicial. Para que esse reconhecimento seja oficial, o Poder Executivo deve promulgar um decreto supremo. O vice-ministro de Interculturalidade apresentou na primeira semana de março a proposta, que agora é avaliada pela Presidência do Conselho de Ministros. Dessa forma se habilitará a “categorização” da reserva indígena, o que equivale a delimitar o território necessário para dar maiores garantias a essas populações que vivem ameaçadas de forma permanente, explicou Vilca. Para o advogado Julio Ibáñez, da Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (Aidesep), é necessário que as organizações indígenas façam parte da comissão que avalia estas solicitações, para que os povos tenham “voz e voto”, afirmou. Ibáñez disse à IPS que “isto seria garantia de que os indígenas em isolamento ou contato inicial estejam representados e seus direitos protegidos por organizações verdadeiramente representativas”. Essa comissão é formada por representantes dos governos regionais e nacional e de universidades, mas sem delegados indígenas. Vilca afirmou que sua diretoria elabora a proposta de uma norma para incorporar organizações indígenas à comissão. Desde que foi reativada em meados de 2012 a comissão tem vários temas pendentes, como avaliar solicitações para reconhecer outras cinco reservas, que aguardam há dez a 14 anos. O vice-ministro vai preparar um relatório a respeito, após ter recebido em dezembro os expedientes destes pedidos do Instituto Nacional de Desenvolvimento de Povos Andinos, Amazônicos e Afroperuanos (Indepa). O funcionário reconheceu que o Estado não deu suficiente atenção a estas populações, o que agora se tenta retificar. Das cinco reservas territoriais reconhecidas, apenas as de Kugapakori tem um posto de controle. O Vice-Ministério anunciou a assinatura de convênios com governos locais e com o Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas para garantir a proteção das outras reservas. Entretanto, ao redor delas se fecham ameaças de todo tipo: desde desmatamento ilegal até exploração de petróleo. A empresa Pluspetrol tenta ampliar suas atividades do Lote 88, na área de influência da reserva Kugapakori, onde estão as comunidades em contato inicial Santa Rosa de Serjali, Montetoni e Marankeato, e na zona de amortização do Parque Nacional do Manu. Em 2012, o órgão estatal que promove os investimentos em hidrocarbonos aceitou o pedido da Pluspetrol, e esta apresentou os termos de referência e um plano de participação da sociedade para modificar o Estudo de Impacto Ambiental com a intenção de incluir as novas atividades. Em maio daquele ano, técnicos do Indepa e do departamento dirigido por Vilca disseram que as atividades de exploração colocariam em risco os povos em isolamento. Por isso os mecanismos de participação só poderiam ser aplicados aos três assentamentos mencionados. A Pluspetrol insistiu em perguntar ao departamento de Vilca se deveria apresentar um plano de participação da sociedade para informar suas atividades a esses três assentamentos em contato inicial. A resposta, no final de agosto, dizia que não era necessário, a menos que a própria população requeresse, e que deveria ser feito em coordenação com o Vice-Ministério, já que se tratava de um procedimento ad hoc. A organização Direito Ambiente e Recursos Naturais (DAR) questionou essa resposta, pois abre a possibilidade de serem realizados painéis informativos em territórios que devem ser protegidos. Vilca respondeu que não é função do Vice-Ministério promover investimentos, “mas fazer com que sejam respeitados os direitos dos povos”. Além disso, sua equipe ainda deve avaliar a modificação do Estudo de Impacto Ambiental para ampliar as atividades do Lote 88, e essa avaliação neste caso é vinculante. Após uma denúncia de atividades da Pluspetrol na área de amortização do Parque Nacional do Manu, a empresa informou que não continuará com seus planos na região. Mas a DAR e organizações indígenas acreditam que o panorama não está claro. O Terramérica solicitou suas versões à Pluspetrol e à Direção Geral de Assuntos Ambientais Energéticos. Porém, não obteve respostas até o fechamento desta edição. Enquanto clareia o cenário, US$ 1 milhão destinados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento serão utilizados este ano para dar proteção às reservas indígenas, informou Vilca. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS. LINKS Mineradoras se aventuram na Amazônia peruana Ignorado direito à terra inflama protesto indígena Indígenas isolados enfrentam extinção Vozes da Terra – Cobertura especial da IPS, em espanhol Lei 28736, pdf em espanhol Presidência do Conselho de Ministros, em espanhol Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana, em espanhol Instituto Nacional de Desenvolvimento de Povos Andinos, Amazônicos e Afroperuanos, em espanhol Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas, em espanhol Diretoria-Geral de Assuntos Ambientais Energéticos do Ministério de Energia e Minas, em espanhol Direito Ambiente e Recursos Naturais, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Milagros Salazar*
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ECOBREVES

Venezuela: Milhões de árvores caem em campanha eleitoral Chile: Metade dos entrevistados ignora hábitos sustentáveis Cuba: Suplemento nutricional para adolescentes Honduras: Governo da capital apresenta obras de mitigação **********************************************************  VENEZUELA Milhões de árvores caem em campanha eleitoral Caracas, 25 de março de 2013 (Terramérica).- Cerca de 700 mil toneladas de papéis e cartões foram consumidas na campanha presidencial de outubro de 2012 na Venezuela, equivalente ao desmatamento de uma floresta de 600 quilômetros quadrados ou à derrubada de dez milhões de árvores, segundo a Fundação Azul Ambientalistas. A água e a energia elétrica consumidas equivaleriam às necessárias para atender uma cidade com um milhão de habitantes durante um ano, disse ao Terramérica o engenheiro Lenin Cardozo, integrante da Fundação. A Venezuela encara uma nova campanha eleitoral, desta vez muito mais curta, para eleger em 14 de abril o substituto do falecido Hugo Chávez na Presidência do país. “A justiça eleitoral poderia exigir dos partidos políticos que, assim como obtêm apoio às suas propostas, se comprometam a plantar uma árvore para cada assinatura ou voto obtido, o que geraria consciência social e milhares de empregos em empresas de viveiros em todo o país”, afirmou Cardozo. Envolverde/Terramérica **********************************************************   CHILE Metade dos entrevistados ignora hábitos sustentáveis Santiago, 25 de março de 2013 (Terramérica).- Uma pesquisa do Ministério do Meio Ambiente do Chile mostra que 50,4% dos entrevistados não conhecem ou não se relacionam com o conceito de “hábitos sustentáveis”. No entanto, 55,8% asseguram que praticam a reciclagem em suas casas, enquanto 44,2% disseram que não o fazem. Segundo os resultados do estudo, o que mais preocupa os chilenos é a qualidade do ar e os resíduos. Patricio Rodrigo, secretário-executivo do Conselho de Defesa da Patagônia, estima que a população possui “mais consciência ambiental do que hábitos”. “Nos últimos 30 anos se avançou muito, mas é um longo caminho que ainda resta”, disse ao Terramérica. A mudança cultural “exige uma nova educação que esse país não proporciona”, concluiu. Envolverde/Terramérica  **********************************************************  CUBA Suplemento nutricional para adolescentes Havana, 25 de março de 2013 (Terramérica).- Especialistas do Grupo Empresarial de Produções Biofarmacêuticas e Químicas de Cuba (Labiofam) estudam os benefícios do Nutrisol, um suplemento alimentar à base de banana e mel de abelha, na nutrição de adolescentes. “Nessa etapa da vida ocorrem mudanças muito bruscas no crescimento, e o corpo precisa incorporar mais nutrientes por meio da dieta”, explicou ao Terramérica a farmacêutica Sirley González, integrante do grupo de pesquisa. O estudo é desenvolvido no Hospital Pediátrico William Soler, em Havana, com 60 adolescentes com déficit nutricional. González disse que a equipe recopila evidências clínicas sobre estes efeitos do Nutrisol, destinado, entre outros fins, a pessoas com problemas gastrointestinais. Sua venda, no momento limitada à sede do Labiofam, chegará à rede de farmácias quando estiverem prontos os contratos para ampliar sua comercialização. Envolverde/Terramérica **********************************************************   HONDURAS Governo da capital apresenta obras de mitigação Tegucigalpa, 25 de março de 2013 (Terramérica).- O governo da capital de Honduras apresentou cem pequenos projetos de mitigação que beneficiarão mais de 154 mil famílias de 70 bairros localizados em zonas de risco de deslizamentos e inundações. O prefeito de Tegucigalpa, Ricardo Álvarez, disse ao Terramérica que as obras incluem muros de contenção, canais de água pluvial, pontes, encanamento sanitário e ruas de cimento hidráulico, entre outras. Alvarez acrescentou que as obras são financiadas com parte de um empréstimo de US$ 26,2 milhões, concedido pelo Banco Centro-Americano de Integração Econômica. Tegucigalpa tem mais de um milhão de habitantes, e a maioria vive em zonas muito vulneráveis às chuvas. Envolverde/Terramérica Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  

Painéis solares da unidade fotovoltaica de La Trinidad, no departamento de Carazo, que fornecerá 1,38 megawatts à rede elétrica nicaraguense. Foto: Óscar Navarrete/Cortesia La Prensa Ambiente

TERRAMÉRICA – Boom de energias renováveis

[caption id="attachment_80611" align="alignleft" width="340" caption="Painéis solares da unidade fotovoltaica de La Trinidad, no departamento de Carazo, que fornecerá 1,38 megawatts à rede elétrica nicaraguense. Foto: Óscar Navarrete/Cortesia La Prensa"][/caption] A Nicarágua está apelando ao sol, à água, ao lixo e até aos vulcões para revolucionar sua matriz elétrica. Manágua, Nicarágua, 18 de março de 2013 (Terramérica).- A Nicarágua  desponta como o país mais dinâmico do istmo centro-americano, e o segundo da América Latina, na adoção de energias limpas. Uma mescla de políticas estatais, financiamento de organismos internacionais e cooperação para o desenvolvimento permitiram reduzir notavelmente a dependência nicaraguense do petróleo para gerar eletricidade. Em 2005, apenas 10% da eletricidade não procedia de combustíveis fósseis. Em 2012, as fontes renováveis já forneciam 41%, o que permitiu reduzir em US$ 228 milhões a fatura com importação de petróleo, segundo estatísticas do governo. E as últimas contribuições, de Japão e Alemanha, permitirão maior economia nessa área. No final de fevereiro, o Ministério de Energia e Minas inaugurou o maior parque fotovoltaico do país e da América Central, com capacidade para iluminar 1,1 mil moradias e pequenas propriedades rurais do município de Diriamba, no departamento de Carazo, 55 quilômetros ao sul de Manágua e perto da costa do Pacífico. A central, que iniciou sua fase de testes esse mês, foi financiada com US$ 11,4 milhões doados pelo Japão e US$ 500 mil aportados pelo governo nicaraguense. Os 5,88 mil painéis solares instalados terão capacidade máxima de geração de 1,38 megawatts. Segundo o ministro de Energia e Minas, Emilio Rappaccioli, esse parque permitirá reduzir as emissões de dióxido de carbono (gás-estufa) em 1,1 mil toneladas por ano. “A Nicarágua está empenhada em transformar sua matriz de geração elétrica do petróleo para energias renováveis, como hidreletricidade, geotermia, eólica e biomassa para ajudar a mitigar a contaminação climática”, informou Rappaccioli. Além disso, as autoridades de 12 municipalidades das principais cidades assinaram em fevereiro um convênio com a espanhola Biomasa Investment Nicaragua SA (Binicsa), que investirá US$ 150 milhões nos próximos dois anos para transformar lixões em fontes de biogás para gerar eletricidade. Os estudos técnicos sobre esses 12 lixões a céu aberto indicam que quase todos podem produzir dois megawatts a partir do processamento de sua biomassa, menos Masaya, cujo potencial é de quatro megawatts, e a capital, que poderia gerar entre oito e dez megawatts, disse o representante da Binicsa, Fernando Liaño. “Temos vários projetos em diferentes países, mas nenhum com as condições que encontramos na Nicarágua”, explicou o espanhol à imprensa oficial. O convênio compromete a empresa a construir usinas de produção de biomassa e geração elétrica, transformar os lixões em áreas verdes e contribuir para a coleta de resíduos sólidos nos municípios em questão. Como a Nicarágua se tornou atraente para investimentos em energias renováveis, o governo da Alemanha está financiando oito projetos superiores a US$ 40 milhões, por meio de empréstimos concedidos pelo Banco Alemão de Desenvolvimento (KfW), disse ao Terramérica o embaixador alemão, Karl-Otto König. Neste país, com mais de seis milhões de habitantes, a pobreza afeta 47% da população. Nessa realidade, o salto energético não é apenas “espetacular, mas estratégico”, afirmou ao Terramérica o empresário César Zamora. “Quando se economiza mais de US$ 200 milhões ao ano na compra de combustíveis, é possível usar esse recurso para investir em projetos sociais, e a economia local se torna dinâmica, cria-se fontes de trabalho e se gasta menos em obras para mitigar a poluição ambiental”, acrescentou. Em 2005, 90% da geração elétrica era produzida a partir de combustíveis fósseis. Quando os preços internacionais do petróleo começaram a subir, este país entrou em crise energética, pois não tinha recursos para atender a demanda. A partir de 2007, as autoridades planejaram uma substituição progressiva do petróleo. No ano passado, as fontes renováveis responderam por 41% da energia, e a meta é elevar essa participação a 50% neste ano, a 97% em 2017, e a 100% em 2026, segundo o Plano Nacional de Desenvolvimento Humano. Este plano destina quase US$ 2 bilhões no período 2012-2017 ao item investimentos em centrais hidrelétricas, geotérmicas, solares e eólicas, que deverão fornecer 546 megawatts. Para cumprir essas metas foram forjadas alianças econômicas e técnicas com potências mundiais em novas energias, como Japão e Alemanha, petróleo, como a Venezuela, e hidreletricidade, como o Brasil. Segundo David Castillo, presidente do Conselho Diretor do estatal Instituto Nicaraguense de Energia, o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) permitiu criar uma infraestrutura sólida para o crescimento deste setor. Dos US$ 1,308 bilhão desembolsados pelo BID nos últimos cinco anos, US$ 227,7 milhões foram destinados à energia, US$ 218,3 milhões aos transportes e US$ 225,2 milhões aos investimentos sociais. Graças a isso, desde o ano passado a eletricidade chega a 128.390 pessoas que careciam do serviço em zonas do Pacífico e do Caribe, e este ano chegará a outras 164 mil, destacou Castillo. Entre as opções de fontes renováveis que dispõe esse país se conta também o vapor de seis vulcões ativos na faixa do Pacífico. O desenvolvimento de pelo menos 25 projetos nos últimos oito anos colocou a Nicarágua no segundo lugar, depois do Brasil, no índice Climascópio 2012, desenvolvido pelo Fundo Multilateral de Investimentos do BID para avaliar a capacidade de 26 nações da América Latina e do Caribe de atrair “investimentos para fontes de energia com baixas emissões de carbono e que contribuam para uma economia mais verde”. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Cruzada verde na Nicarágua Metas do Milênio – Cobertura especial da IPS, em espanhol Ministério de Energia e Minas, em espanhol Embaixada do Japão na Nicarágua, em espanhol e japonês Instituto Nicaraguense de Energia, em espanhol Banco Interamericano de Desenvolvimento, em português, espanhol, inglês e francês Climascópio 2012, pdf em espanhol Plano Nacional de Desenvolvimento Humano, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por José Adán Silva*
Minerador artesanal busca ouro na região de El Corpus, Choluteca, na faixa hondurenha sobre o Oceano Pacífico. Foto: Thelma Mejía/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Transparência extrativista turvada

[caption id="attachment_80596" align="alignright" width="300" caption="Minerador artesanal busca ouro na região de El Corpus, Choluteca, na faixa hondurenha sobre o Oceano Pacífico. Foto: Thelma Mejía/IPS"][/caption] As instituições hondurenhas que devem velar pelo cumprimento da legislação relacionada à indústria da mineração “são insignificantes, com um pobre nível técnico e sem poder político”, segundo ativistas. Tegucigalpa, Honduras, 18 de março de 2013 (Terramérica).- O anúncio de adesão de Honduras à Iniciativa para a Transparência das Indústrias Extrativistas (Eiti) desperta expectativas e dúvidas, sobretudo pela velocidade de um processo que, em outros países da região, demorou vários anos. A Eiti é uma coalizão de governos, empresas, sociedade civil, investidores e organizações multilaterais que promove a governabilidade em países ricos em recursos naturais, mediante a publicação e verificação de pagamentos realizados pelas empresas e da arrecadação fiscal procedente de petróleo, gás e minerais. Honduras ainda não tem o status de país candidato alcançado por Guatemala e Trinidad e Tobago em 2011, e muito menos o de cumprimento que o Peru obteve em 2012, após um processo iniciado em 2004. Estes são os únicos Estados da América Latina e do Caribe parte desta iniciativa que conta com 35 países, metade deles africana. Honduras tampouco figura no site da Eiti como país aspirante. Contudo, seu governo informou que pretende completar a fase inicial de adesão em um ano e meio. “Ninguém pode ir contra a transparência, mas nos surpreende como se deu esta adesão, sem consultas aos setores envolvidos, como as comunidades onde se concentra a mineração”, disse ao Terramérica o ativista Pedro Landa, da Coalizão Nacional de Redes Ambientais de Honduras. Landa anunciou para as próximas semanas “uma posição pública, porque a transparência e a prestação de contas são necessárias, e sentimos que até agora esse processo da Eiti não é suficientemente transparente. Quando o Congresso nacional aprovou a nova lei de mineração, em janeiro, incluiu-se no último momento um artigo genérico sobre a Eiti, o que “foi uma surpresa, porque ninguém sabia que o país estava tentando entrar para esta iniciativa”, comentou Landa. A Coalizão, com mais de 40 grupos ecológicos comunitários, teve grande protagonismo no debate da lei, cujo texto foi submetido a consultas com diversos setores por mais de um ano. Quando entrar em vigor, a lei porá fim a uma suspensão de seis anos para autorizações de exploração de minérios, vigente desde que o Supremo Tribunal de Justiça declarou inconstitucionais 11 artigos de uma lei anterior. O deputado Donaldo Reyes Avelar, do governante Partido Nacional, disse ao Terramérica que a novidade da legislação está em que as comunidades terão participação direta na decisão sobre instalar, ou não, uma exploração mineradora. Além disso, aumenta o pagamento que as empresas deverão fazer, de 1% para 2% do produzido. Porém, a Coalizão se retirou da fase final de consultas porque no texto “não há clareza sobre a participação das comunidades na decisão de aprovar, ou não, a instalação de uma mineradora, e os mecanismos de transparência e prestação de contas não estão definidos”, pontuou Landa. Este mês, cerca de 400 pessoas realizaram uma caminhada de dez dias – desde a localidade de La Barca, ao norte, até a sede do Congresso em Tegucigalpa –, para protestar contra a lei. Francisca Valle, do departamento de Santa Bárbara e uma das integrantes da caminhada Dignidade e Soberania Passo a Passo, reclamou “maior transparência quanto aos alcances da nova lei, pois não fomos levados em consideração”. Junto a ela marchavam representantes de povos indígenas, de mulheres e de organizações religiosas. “Nestes dias de caminhada, pernoitando em centros comunitários, percebemos um calor popular incrível, pois o governo fez consultas sobre a lei com seus ativistas em patronatos que controla, mas a gente de base, o povo, está indignado, não foi considerado”, disse ao Terramérica o sacerdote jesuíta Ismael Moreno. Os manifestantes pediram um prazo de 90 dias para sugerir reformas ao texto legal, com ampla participação social, e que o presidente Porfirio Lobo vete o projeto aprovado. No entanto, no parlamento “nos disseram que chegamos tarde”, lamentou o sacerdote. Espera-se que o presidente sancione a lei nas próximas semanas. “O que ocorre é que nem o governo nem os congressistas estão lendo o país, e quando uma mineradora deseja se instalar, por exemplo em Santa Bárbara, onde as pessoas estão indignadas, essa lei em vez de ser solução será fonte de conflito e violência”, alertou Moreno. Além disso, ao chegarem a Tegucigalpa, os manifestantes ficaram sabendo que o governo planejava aderir à Eiti. Omar Rivera, diretor-executivo do Grupo Sociedade Civil, que reúne várias organizações não governamentais, acompanhou de perto o processo da Eiti. O grande desafio é fortalecer as instituições encarregadas de controlar a atividade mineradora, tanto em seus aspectos tributários como em seu impacto ambiental e na potencial transgressão de direitos dos povos onde as jazidas são exploradas, alertou. “Atualmente, as instituições estatais e municipais responsáveis por cuidar do cumprimento da lei relacionada à indústria da mineração são insignificantes, com um pobre nível técnico e sem poder político”, afirmou ao Terramérica. No governo as expectativas diante da Eiti são outras. Roberto Herrera Cáceres, alto representante e coordenador nacional para a Eiti, disse ao Terramérica que se busca tornar mais transparentes as regras de exploração das indústrias extrativistas, e para isso se conta com assessoria do Banco Mundial. A vice-presidente María Antonieta Guillén disse que o governo seguiu todos os requisitos para aderir a essa iniciativa, incluindo a formação de um conselho consultivo com participação de setores acadêmicos, empresariais e da sociedade civil. O objetivo é que se reconheça quanto é pago em impostos e como são investidos esses recursos. “Queremos assentar bases de uma verdadeira transparência nessa área”, disse vice-presidente à imprensa local. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Nova febre do ouro na América Central Exploração mineradora no olho do furacão – 2004, em espanhol Desconfiança na indústria extrativista dura de matar – 2012, em espanhol Indústria extrativista a prova de transparência – 2011, em espanhol Conjuro contra a “maldição” das riquezas minerais – 2009, em espanhol Uma meia rendição – 2008, em espanhol Iniciativa para a Transparência das Indústrias Extrativistas, em inglês e francês Congresso Nacional de Honduras, em espanhol Corte Suprema de Justiça de Honduras, em espanhol American Pacific Honduras, em espanhol e inglês Dignidade e soberania passo a passo, em espanhol Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras, em espanhol Grupo Sociedade Civil, em espanhol   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Thelma Mejía*
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Uruguai: Inaugurada primeira central fotovoltaica Brasil: Medição do ciclo do carbono em águas marinhas México: Plano contra incêndios florestais Argentina: Preservação de espécie endêmica na Patagônia   ****************************************************   URUGUAI Inaugurada primeira central fotovoltaica Montevidéu, 18 de março de 2013 (Terramérica).- A primeira usina de energia solar fotovoltaica do Uruguai, instalada no departamento de Salto, terá caráter piloto e capacidade de meio megawatt. Com a central Asahi (sol da manhã, em japonês) se busca “conhecer a tecnologia, capacitar o pessoal e ver como afeta a rede elétrica”, disse ao Terramérica o diretor nacional de Energia, Ramón Méndez. Em uma etapa posterior, após avaliar os resultados, os interessados serão chamados para instalar até quatro plataformas fotovoltaicas de 50 megawatts cada uma, acrescentou. Inaugurada no dia 15 como parte da Política Energética Nacional, seu custo foi financiado com uma doação do Japão no valor de US$ 7 milhões, divididos entre a Asahi e outra usina que será instalada na cidade de Minas. Envolverde/Terramérica   ****************************************************   BRASIL Medição do ciclo do carbono em águas marinhas Rio de Janeiro, 18 de março de 2013 (Terramérica).- Um projeto de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e de outras 13 instituições busca descrever e quantificar os processos do ciclo do carbono no mar do Brasil. Com o nome de Caracterização Ambiental e Avaliação dos Recursos Biogênicos Oceânicos, da Plataforma Continental Brasileira e da Zona Oceânica Adjacente, o projeto Carbom é coordenado pelo Instituto Oceanográfico da USP. Para obter dados, os pesquisadores contam com o Alpha Crucis, maior embarcação de estudos disponível no Brasil. Quatro expedições coletaram amostras de água oceânica a mais de 370 quilômetros da costa. “Os resultados permitirão quantificar o carbono que entra e sai do oceano e conhecer quanto fica armazenado. Tais dados ajudarão a esclarecer questões relacionadas com a mudança climática, a sustentabilidade da pesca, a biotecnologia e a conservação da biodiversidade marinha”, disse ao Terramérica o coordenador do projeto, Frederico Brandini. Envolverde/Terramérica     **************************************************** MÉXICO Plano contra incêndios florestais Cidade do México, 18 de março de 2013 (Terramérica).- O governo do México colocou em marcha um plano de prevenção e combate de incêndios florestais, diante de uma temporada que se prevê de alto risco. Entre janeiro e março foram registrados dois mil incêndios que queimaram 17.584 hectares. “A maior parte é de herbanários e pastagens. As principais causas são as atividades agropecuárias, fogueiras e razões desconhecidas. Vamos dar seguimento ao plano para identificar as causas e perseguir os responsáveis”, disse ao Terramérica o ministro de Meio Ambiente e Recursos Naturais, Juan Guerra. O Ministério conta com 45 centros de controle, 21 helicópteros, 38 motobombas, 1.300 brigadas, 12 mil apaga-fogo e 249 acampamentos, além de orçamento no valor de US$ 65 milhões para enfrentar os incêndios. Em 2012 ocorreram 7.170 incêndios, que destruíram 347.226 hectares. Envolverde/Terramérica   **************************************************** ARGENTINA Preservação de espécie endêmica na Patagônia Buenos Aires, 18 de março de 2013 (Terramérica).- O Ministério de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Argentina financiará um programa de conservação do mergulhão-de-touca (Podiceps gallardoi), ave endêmica da austral Patagônia, em risco de extinção. A espécie foi descoberta em 1974, quando havia entre três mil e cinco mil exemplares. Porém, “no final dos anos 1990 o total de indivíduos não passava de 800”, disse ao Terramérica o diretor de Conservação da Associação Ambiente Sul, Santiago Imberti. Os salmonídeos e o vison americano, espécies introduzidas, afetaram de maneira negativa estas aves, que também sofrem ataques de gaivotas-cozinheiras. Os temporais de vento são outra causa da destruição de seus ninhos. O programa permitirá enviar guardas para controlar as áreas de nidificação nos meses de reprodução, para garantir as condições que a espécie precisa para seu desenvolvimento. Envolverde/Terramérica   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  

Bactérias litoautotróficas do basalto, fotografadas a mil metros de profundidade. As células são vistas em vermelho e a rocha de basalto da qual se alimentam aparece em verde. Foto: Photostock/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Nas profundezas da Terra

  [caption id="attachment_79963" align="alignleft" width="300" caption="Bactérias litoautotróficas do basalto, fotografadas a mil metros de profundidade. As células são vistas em vermelho e a rocha de basalto da qual se alimentam aparece em verde. Foto: Photostock/IPS"][/caption] O ciclo do carbono na superfície do planeta é bem conhecido. Mas há outro ciclo, que envolve as profundezas terrestres e se desenvolve através de eras geológicas. Os cientistas estão começando a descobrir seus segredos. Uxbridge, Canadá, 11 de março de 2013 (Terramérica).- Cada ser vivente, desde as bactérias até o ser humano, é feito de carbono procedente da explosão das estrelas. Há milhões de anos, as partículas de carbono e outras poeiras estelares formaram a Terra. O carbono é a base da vida, mas a maior parte deste elemento desapareceu nas profundezas do planeta, afirmam os cientistas. E, embora pareça incrível, a vida prospera nas camadas rochosas localizadas vários quilômetros abaixo de nossos pés. “Os micróbios sobrevivem comendo rocha nessas profundidades”, explicou Robert Hazen, diretor-executivo do Deep Carbon Observatory (Observatório do Carbono Profundo), um projeto internacional de pesquisa sobre o funcionamento interno do planeta. “A vida é muito diferente sob essas tremendas pressões e temperaturas”, afirmou Hazen ao Terramérica. A variedade de vida bacteriana em profundidade, onde a pressão é extremamente alta, constitui uma espécie de “Galápagos” subterrâneo, acrescentou. “Faça um buraco de um ou dois quilômetros de profundidade em qualquer parte e encontrará uma comunidade microbiana escassa mas resistente”, destacou Isabelle Daniel, da Universidade Claude Bernard, em Lyon, na França. “Estes micróbios, que vivem nas gretas e fissuras mais diminutas das rochas, sobrevivem graças à energia química dos minerais”, detalhou Isabelle, integrante do grupo de cientistas que participam do Deep Carbon Observatory. As análises genéticas revelam uma diversidade de micro-organismos, a maioria unicelular, embora muito abaixo do solo oceânico vivam organismos com estruturas celulares mais complexas, semelhantes aos fungos. Os pesquisadores estimam que se trate de seres extraordinariamente longevos, que possivelmente vivam milhões de anos. “Também há uma enorme quantidade de vírus”, com sua informação genética “cuidadosamente alojada em células viventes”, explicou Hazen. Estes vírus não matam os organismos nos quais se alojam, mas permanecem adormecidos durante centenas ou milhares de anos, à espera de que uma célula tenha alimento suficiente para se reproduzir e, então, se tornam ativos. Os cientistas inclusive especulam que a vida pode ter começado vários quilômetros abaixo da terra. “As profundidades subterrâneas podem ter sido o laboratório natural para a origem da vida, com múltiplos experimentos simultâneos”, disse John Baross, da Universidade de Washington, com sede em Seattle, nos Estados Unidos, coeditor do livro Carbon in Earth (Carbono na Terra), que resume os primeiros três anos de trabalhos do Observatório. O livro foi apresentado em uma reunião científica internacional realizada entre os dias 3 e 5 deste mês na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em Washington. “O Observatório poderá encontrar formas de vida totalmente novas, na medida em que chegarmos a maiores profundidades e temperaturas, e a pressões mais altas. E é bem possível que a vida mais profunda da Terra não utilize o ADN (ácido desoxirribonucleico) e as proteínas do modo como fazem as células normais”, afirmou Baross em um comunicado. O carbono é o elemento mais importante da Terra. Não só está presente em todas as formas de vida como, praticamente, em todos os materiais dos quais depende a humanidade: plásticos, petróleo, medicamentos, tinturas e materiais de construção, apontou Hazen. “Nenhum outro elemento contribui de modo tão crucial para o bem-estar e a sustentabilidade da vida na Terra, incluída a espécie humana”, ressaltou. O ciclo do carbono superficial é bem conhecido: os animais inalam oxigênio e exalam dióxido de carbono, enquanto as plantas realizam o processo inverso. Mas há outro ciclo do carbono, de duração muito longa, que implica a saída de enormes volumes deste elemento das profundezas do planeta para a superfície, pelos vulcões e afloramentos nas crostas oceânicas. Por sua vez, o carbono é eliminado da superfície da Terra nas zonas de subducção, onde o solo oceânico afunda e as placas continentais deslizam umas sobre as outras, explicou Rajdeep Dasgupta, da Rice University em Houston, Texas, nos Estados Unidos. Por sua vez, nas zonas onde há movimentos tectônicos (terremotos), “o carbono da superfície volta a submergir no manto terrestre”, acrescentou ao Terramérica. Esta forma de sequestro deste elemento tem particular interesse diante do enorme aumento das emissões humanas de carbono na forma de gás lançado na atmosfera, que está causando a mudança climática, disse Dasgupta. Petróleo, carvão e gás são carbono de matéria vegetal afundado nas profundezas durante milhões de anos, e a queima destes combustíveis libera esse antigo carbono. Através das eras geológicas (milhões de anos), o planeta regula a quantidade de carbono que há na atmosfera, enterrando-o profundamente no solo, detalhou Dasgupta. Um dos objetivos do Observatório, que completará seu trabalho em 2020, é determinar quanto carbono se “exala” e se enterra nesse longo ciclo. “O carbono é assombroso, fascinante e fundamental para nosso bem-estar. Precisamos saber tudo o que pudermos sobre ele”, concluiu Hazen. Envolverde/Terramérica * O autor é correspondente da IPS.   LINKS Oceanos assentados sobre bactérias gigantes Vasculhando o mar em busca da matéria criadora da vida Deep Carbon Observatory, em inglês Université Claude Bernard, em francês Universidade de Washington, em inglês Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em inglês Rice University, em inglês   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Stephen Leahy*
Tiago Maranhão Alves mostra um pedaço de plástico solar. Foto: Cortesia de CSEM Brasil/Rafael Motta/Agência Nitro Ambiente

TERRAMÉRICA – Brasil desenvolve plástico solar

  [caption id="attachment_79954" align="alignleft" width="300" caption="Tiago Maranhão Alves mostra um pedaço de plástico solar. Foto: Cortesia de CSEM Brasil/Rafael Motta/Agência Nitro"][/caption] Mediante uma técnica já existente, as células orgânicas solares, mas graças à sua própria fórmula secreta, cientistas brasileiros criaram painéis fotovoltaicos plásticos. Porto Alegre, Brasil, 11 de março de 2013 (Terramérica).- Pesquisadores brasileiros desenvolveram painéis plásticos capazes de gerar eletricidade a partir da luz do Sol. A descoberta é parte de uma tendência em alta no Brasil: o desenvolvimento e a inserção de tecnologias verdes. O plástico é fino e flexível, com aparência bastante comum, mas se trata de um painel de geração de energia fotovoltaica. O material, que em nada se parece com as pesadas e caras placas de silício que imaginamos ao pensar nesta fonte de eletricidade, foi criado por cientistas do CSEM Brasil, instituto com sede em Minas Gerais. Composto por polímeros comuns, aos quais são incorporadas células fotovoltaicas orgânicas, este material é transparente, com pequenas faixas nas quais estão impressos os polímeros orgânicos à base de carbono. A tecnologia para produzir estas células já era conhecida na Europa e nos Estados Unidos, e agora também é no Brasil. O “plástico solar” pode representar, afirmaram seus inventores, uma pequena revolução na forma de gerar energia limpa a partir do Sol. “Embora a capacidade de geração seja bastante parecida, por seu pequeno tamanho pode ter usos quase impossíveis para as placas de silício”, disse ao Terramérica o presidente do CSEM Brasil, Tiago Maranhão Alves, engenheiro físico que participou diretamente das pesquisas. Esta técnica pode ser empregada para fazer funcionar componentes elétricos dos automóveis, em dispositivos eletrônicos como telefones celulares, mouses de computadores e teclados sem fio. Porém, os brasileiros estão concentrados em desenvolver painéis solares, que podem revestir superfícies mais ou menos extensas, como janelas. “Um painel de dois ou três metros quadrados pode ser suficiente para gerar energia em uma casa onde vive uma família de quatro pessoas”, explicou Alves. “Como a relação custo-benefício é boa, pode ser uma opção para levar energia a áreas remotas que não têm serviço elétrico. No Brasil, com mais de 192 milhões de habitantes, há cerca de um milhão de lugares nessas condições”, acrescentou o cientista. A facilidade do transporte é sua principal vantagem em relação às placas de silício. “Como é simples transportá-las, os custos logísticos são baixos. Além disso, a pessoa pode levar com ela quando mudar de casa”, destacou Alves. O plástico pode ser usado ainda para revestir prédios e recintos como aeroportos ou estádios esportivos, evitando a necessidade de reservar uma área para instalar os painéis solares. Para alcançar a fórmula que tem o material brasileiro, foram investidos US$ 10 milhões e se prevê que o investimento duplicará no próximo ano. “Agora vamos estudar a melhor forma de dar escala ao produto. No estado atual já é possível comercializá-lo, mas o preço deve ser analisado caso a caso”, explicou Alves. Os recursos investidos, que também possibilitaram a criação do CSEM Brasil, procedem de uma sociedade entre a administradora de investimentos FIR Capital e o Centre Suisse d’Electronique et de Microtechnique. Além disso, o projeto obteve apoio da Fundação de Fomento à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). O projeto ainda é mantido reservado, pois está sujeito a segredo comercial. “Este é um mercado de milhares de milhões de dólares, e muitos centros estão atrás desta tecnologia”, pontuou o engenheiro. O anúncio dos pesquisadores de Minas faz parte de uma tendência crescente no Brasil: os investimentos em tecnologias limpas. A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa estatal vinculada do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, implantou no ano passado o Programa Brasil Sustentável, que distribuirá o equivalente a US$ 10 milhões em linhas de crédito para iniciativas que considerarem a preservação dos recursos naturais. Segundo a Finep, o programa responde a uma demanda percebida pela instituição, que nos últimos anos destinou US$ 2,3 milhões a 480 projetos com alguma característica verde, 25% deles concebidos para geração de energias limpas. Para o professor e doutor em administração de empresas André Pereira de Carvalho, o aumento de recursos para este tipo de pesquisa se deve a que, tanto os fundos privados de investimento como as instituições públicas, perceberam que esta é uma área lucrativa. “Estas organizações avaliam principalmente se o produto é bom, possui uma fórmula difícil de ser copiada e tem potencial para ser produzido em escala. Isto vale para qualquer versão, seja uma empresa de tecnologias da informação ou de tecnologias verdes”, explicou ao Terramérica Carvalho, que coordena estudos sobre inovação para a sustentabilidade. No entanto, se comparado com Estados Unidos, Japão ou Alemanha, o Brasil está nas fraldas em matéria de negócios verdes, mas promete aprender a caminhar a grande velocidade. “Há alguns anos, o empreendedor que queria investir neste setor encontrava muitas dificuldades. Hoje ainda existe a desconfiança de olhá-lo como um mercado mais caro e de nicho, mas já é mais simples obter financiamento”, ressaltou Carvalho. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Quiosques solares brotam no carnaval de Puna O Sol também está presente à noite A energia solar ainda pode nos surpreender Energia – Cobertura especial da IPS, em espanhol CSEM Brasil, em português e inglês Centre Suisse d’Electronique et de Microtechnique, em inglês FIR Capital, em português e inglês Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais Financiadora de Estudos e Projetos Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação   Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.  


por Alice Marcondes, da Envolverde
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ECOBREVES

Chile: Justiça paralisa projeto termoelétrico Honduras: Mais de três mil hectares queimados em um trimestre Brasil: Investigada evolução da Amazônia em 20 milhões de anos Venezuela: Mercúrio contamina Guayana Cuba: Equipe binacional estuda roedor ameaçado   **************************************** CHILE - Justiça paralisa projeto termoelétrico Santiago, 11 de março de 2013 (Terramérica).- A justiça do Chile paralisou, de maneira indefinida, o projeto termoelétrico Punta Alcade, ao acolher uma liminar contra a iniciativa que poderia contaminar a comunidade de Huasco, localizada 645 quilômetros ao norte de Santiago. Trata-se de um de quatro recursos apresentados contra o projeto da Endesa, que inclui a instalação de um molhe mecanizado e cinco usinas de tratamento de esgoto. “É positivo porque nos assegura que não continuará avançando de maneira invisível em alguns trâmites que têm a ver com a construção de Punta Alcade”, disse ao Terramérica o ecologista Lucio Cuenca, diretor do Observatório Latino-Americano de Conflitos Ambientais. Huasco “é uma das comunidades do Chile mais contaminadas”, e onde já funcionam a termoelétrica Guacolda e uma fábrica de pellet (material compactado para combustão). Em 25 de junho de 2012, o projeto já fora rejeitado pelas autoridades da região de Atacama, mas em 3 de dezembro o Comitê de Ministros aprovou o investimento assegurando que as exigências ambientais foram atendidas. Envolverde/Terramérica   **************************************** HONDURAS - Mais de três mil hectares queimados em um trimestre Tegucigalpa, 11 de março de 2013 (Terramérica).- Aproximadamente 3.500 hectares de floresta foram queimados em Honduras neste ano. Até o começo deste mês, foram registrados 32 incêndios florestais e 123 incêndios em zacateras – zonas com plantas de zacates  (pastagens) –, disse ao Terramérica José Antonio Galdámez, funcionário do estatal Instituto de Conservação Florestal. Somente em Tegucigalpa, um enorme incêndio em meados de fevereiro esteve prestes a arrasar uma importante área florestal do parque nacional La Tigra, principal pulmão ambiental e abastecedor de água para a cidade, acrescentou Galdámez. Fausto Mejía, coordenador do Projeto de Monitoramento Florestal Independente, do estatal Comissão Nacional dos Direitos Humanos, disse ao Terramérica que é difícil reduzir as estatísticas de incêndios em florestas por não haver planos maciços e concretos de educação para a população. No ano passado Honduras registro a perda de mais de 24 mil hectares de florestas por causa de incêndios. Envolverde/Terramérica   **************************************** BRASIL - Investigada evolução da Amazônia em 20 milhões de anos Rio de Janeiro, Brasil, 11 de março de 2013 (Terramérica).- Cientistas brasileiros e estrangeiros investigarão, nos próximos cinco anos, o que ocorreu na Amazônia durante os últimos 20 milhões de anos, para compreender a origem e a evolução da biodiversidade deste enorme ecossistema. O grupo é composto por cerca de 30 especialistas em botânica, biologia e paleontologia, entre outras disciplinas, além de seis instituições brasileiras, oito norte-americanas, uma canadense, uma argentina e outra britânica. Estudo reunirá informações registradas sobre a Amazônia desde o período anterior a 1900 até a atualidade. Começará dividido em quatro áreas: plantas, primatas, borboletas e aves. “Primeiro organizaremos o enorme volume de informação que já existe. Depois pensaremos no que fazer para que os pesquisadores trabalhem de maneira concertada, encarando o projeto em seu conjunto”, disse ao Terramérica a bióloga e professora Lucia Garcez Lohmann, principal pesquisadora brasileira no projeto. Envolverde/Terramérica   **************************************** VENEZUELA - Mercúrio contamina Guayana Caracas, 11 de março (Terramérica) – A busca de ouro praticada por milhares de mineiros na Guayana venezuelana, região da margem direita do rio Orenoco, contamina com mercúrio os rios que correm entre as florestas, afirmaram estudiosos reunidos pela ambientalista Rede ARA. “Estudos em mulheres e crianças de cinco comunidades indígenas do rio Caura (segundo afluente do Orenoco) mostraram mais de 60% deles com níveis de mercúrio superiores a dez miligramas por quilo (mg/Kg) de peso, quando os padrões internacionais toleráveis são de dois mg/Kg”, disse ao Terramérica o toxicologista Salvador Penna. O mercúrio “chega aos rios e contamina os peixes pequenos, que são comidos pelos grandes que pescamos para alimentar-nos até três vezes ao dia. Por isso queremos que nossos irmãos indígenas não trabalhem buscando ouro e que seja proibida a mineração em toda bacia do Caura”, disse Mayraleno Cortés, da organização indígena Yekuana Kuyujani. Envolverde/Terramérica   **************************************** CUBA - Equipe binacional estuda roedor ameaçado Havana, 11 de março de 2013 (Terramérica).- Especialistas de Cuba e do Japão integram um projeto para conhecer o comportamento e contar as populações de almiquí (Solenodon cubanus), um raro mamífero em perigo crítico de extinção que se acredita que habita o Parque Nacional Alejandro de Humboldt. “Contamos vários avistamentos deste roedor em nossa área, por isso o estudo ajudará a conhecer sua situação real”, disse ao Terramérica a especialista Alicia Medina, da estatal Unidade de Serviços Ambientais Alejandro de Humboldt, uma área natural compartilhada entre as províncias orientais de Guantânamo e Holguín. A expedição de 11 pesquisadores do parque, da Faculdade de Biologia da Universidade de Havana e três universidades japonesas terminou uma primeira etapa no dia 28 de fevereiro e espera iniciar este mês a segunda fase, de 20 dias. Este mamífero noturno e endêmico é considerado um fóssil vivente. Envolverde/Terramérica Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Integrantes do povo pukobjê-gavião em Governador, sua terra indígena. Foto: Gilderlan Rodrigues/Cortesia Cimi Ambiente

TERRAMÉRICA – Justiça florestal pelas próprias mãos

[caption id="attachment_79245" align="alignleft" width="340" caption="Integrantes do povo pukobjê-gavião em Governador, sua terra indígena. Foto: Gilderlan Rodrigues/Cortesia Cimi"][/caption] O choque entre madeireiros e indígenas amazônicos do Brasil que capturaram um carregamento de madeira ilegal pode sofrer uma escalada. Os nativos asseguram que a cabeça de um de seus líderes já tem preço. Rio de Janeiro, Brasil, 4 de março de 2013 (Terramérica).- Uma comunidade indígena brasileira decidiu fazer cumprir a lei com suas próprias mãos, ao enfrentar madeireiros ilegais que entram em suas terras em busca de valiosas madeiras. Uma nova modalidade de corte se concentra em terras indígenas, ricas em espécies madeireiras e cuja população se torna alvo de madeireiros ilegais, que apelam tanto para o suborno quanto para a ameaça. O episódio mais recente aconteceu no final de janeiro, na terra indígena Governador, no sudoeste do Maranhão, perto da cidade de Amarante e a 900 quilômetros da capital São Luís. Nesse lugar que marca o limite da Amazônia oriental, nativos do povo pukobjê-gavião confiscaram quatro caminhões e um trator com quase 20 metros cúbicos de troncos de ipê-amarelo (Tabebuia chrysotricha) e sapucaia (árvore do gênero Lecythis). “Cansamos de denunciar e então decidimos tomar nossas providências. Víamos os caminhões dentro da reserva. O que aconteceria se não fizéssemos nada?”, perguntou o cacique Evandro Gavião, da aldeia Governador, uma das seis tribos pukobjê-gavião dessa terra indígena. O jovem líder de 24 anos conversou por telefone com o Terramérica enquanto estava reunido com chefes de outras aldeias para discutir um plano de monitoramento e proteção da reserva. Segundo Gavião, a comunidade havia denunciado em 2009 o desmatamento em suas terras, que incluam uma área de transição entre a Amazônia e o bioma Cerrado e, por isso, são ricas em espécies como ipê-amarelo e sapucaia, aroeira (Schinus terebinthifolius), copaíba (Copaifera sp.) e cerejeira (gênero Amburana). “Mas as árvores estão acabando”, lamentou. Segundo o capítulo brasileiro do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), a extração ilegal de madeira está intimamente ligada à construção de estradas e aos movimentos migratórios. O acesso viário facilita o ingresso na floresta. Entre setembro e novembro de 2012, a Interpol prendeu 200 pessoas em 12 países da América Latina, na primeira operação internacional contra o desmatamento e o comércio ilegal de madeira. A operação aconteceu no Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, Paraguai, Peru, República Dominicana e Venezuela, e foram apreendidos 50 mil metros cúbicos de madeira avaliados em US$ 8 milhões. Na terra indígena de Governador, seus habitantes reclamam a presença da Fundação Nacional do Índio, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e da Polícia Federal para garantir a segurança de mil pessoas distribuídas em seis aldeias. “O que fizemos foi perigoso, mas foi a única forma de chamar a atenção dos órgãos responsáveis”, explicou Gavião. Desde o confisco dos caminhões, a retirada ilegal de madeira não parou, mas mudou de rota. “A sensação é que pode piorar e que as ameaças que sofremos continuarão. Sabemos que já estão negociando a cabeça do cacique da aldeia Nova em R$ 30 mil para matá-lo. Mas o povo gavião não vai parar”, afirmou o cacique. Os indígenas atribuem o aumento de ameaças e pressões à redefinição dos limites da reserva. A terra indígena Governador está em processo de uma nova demarcação desde 1999, após ser homologada em 1980. Os limites de usufruto tradicional dos indígenas não foram respeitados, e estes precisam sair de seu território para ter acesso a recursos naturais para sua alimentação e seus rituais, explicou ao Terramérica Rosimeire Diniz, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Igreja Católica, do Maranhão. Partes do território antes usado pelos pukobjê-gavião ficaram fora da demarcação e foram ocupadas por fazendeiros. Durante anos indígenas tiveram “uma relação mais ou menos amistosa” com esses pecuaristas, mas quando pediram uma revisão dos limites os conflitos e a violência se exacerbaram, pontuou Diniz. A terra indígena Governador tem 42 mil hectares e a nova demarcação pode ampliá-la até 80 mil. Segundo Evandro Gavião, a área atual não é “suficiente”, pois foi determinada pelo regime militar da época “às pressas”. “Os lugares onde nossos antepassados pescavam e caçavam estão fora da terra indígena. Não consultaram os indígenas para saber onde pescavam onde caçavam, onde colhiam. Por isso pedimos a revisão. Sabemos que pode demorar muito tempo, mas temos uma responsabilidade com nosso povo. Por isso estamos lutando”, destacou Gavião. Pelo menos desde a década de 1980, acontece o desmatamento ilegal em terras originárias, mas antes ocorria sem conhecimento de seus habitantes. “Agora é muito mais visível. Por meio do suborno, os madeireiros transferem a autoria do crime ambiental aos indígenas. A situação era insustentável, os nativos decidiram realizar uma ação para se proteger. O corte de árvores era tão visível que os caminhões passavam por dentro das aldeias”, afirmou Diniz. Fábio Teixeira, delegado da Polícia Federal da cidade de Imperatriz, a segunda maior do Maranhão, a cem quilômetros de Governador, disse ao Terramérica que ao longo dos anos só madeireiros migraram para essa parte da reserva e atualmente existem ali pelo menos sete grandes serrarias. “Desmatamento sempre houve, mas era pontual. Depois de uma grande operação de combate em outras localidades, muitos madeireiros se mudaram para Governador”, detalhou. Teixeira também admitiu que a situação é “muito conflitante” entre indígenas e fazendeiros e madeireiros que estão se unindo contra eles. O delegado contou que, no incidente dos caminhões, a própria população do pequeno município de Amarante, a apenas 20 minutos de automóvel de Governador, fez uma barricada com fogo e pedras na estrada para bloquear o acesso dos indígenas à cidade, e a segurança foi reforçada com 20 agentes federais e 30 policiais militares. “Não sabia que a cidade estava tão comprometida com a exploração ilegal”, reconheceu Teixeira. “Sua economia se sustenta na madeira e na atividade pecuária. O próprio poder municipal está implicado. Não posso dar detalhes de nossas operações, mas a fiscalização será intensificada”, assegurou. Para Teixeira, a ação dos indígenas foi “um ato de desespero” que pode terminar em “um banho de sangue”. A partir de então, “os orientamos a registrar com fotos o que considerarem ações ilegais dentro da reserva, pois servirão como material de investigação”, enfatizou. Envolverde/Terramérica * A autora é correspondente da IPS.   LINKS Indígenas do Pantanal acossados pelo desmatamento Ignorado direito à terra inflama protesto indígena A Amazônia pode converter-se em imensa savana Um plano para privatizar a Amazônia? Vozes da terra - Cobertura especial da IPS, em espanhol Fundação Nacional do Índio Instituto Brasileiro do Meio Ambiente Polícia Federal Conselho Indigenista Missionário Fundo Mundial para a Natureza – Brasil Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Fabíola Ortiz*
Um canal no meio do mangue de San Crisanto. Foto: Emilio Godoy/IPS Ambiente

TERRAMÉRICA – Biodiversidade e qualidade de vida

  [caption id="attachment_79232" align="alignleft" width="340" caption="Um canal no meio do mangue de San Crisanto. Foto: Emilio Godoy/IPS"][/caption] “Aqui não combatemos a pobreza, melhoramos a qualidade de vida”, afirma um integrante da comunidade costeira mexicana que há 18 anos estava devastada pelos furacões. Sinanché, México, 4 de março de 2013 (Terramérica).- Os habitantes de San Crisanto, um ejido (campo comum) em uma zona idílica do Estado mexicano de Yucatán, aprenderam o valor dos recursos naturais, e cuidando deles geram empregos e ganham dinheiro. A iniciativa, que combina ecoturismo e outras atividades produtivas, é um modelo para outras comunidades localizadas ao longo da costa mexicana do Mar do Caribe, rica em diversidade biológica e exposta aos imprevistos meteorológicos. O visitante pode percorrer em lancha as vias aquáticas, nadar cenotes (olhos de água doce e cristalina), caçar, se hospedar em cabanas ecológicas e comprar artesanato e alimentos elaborados a partir do coco. Em 2012, receberam 12 mil visitantes, embora sua capacidade seja para 50 mil, segundo os moradores do lugar. Além disso, “se trabalha muito na educação. A maioria das pessoas tem consciência da importância de cuidar dos recursos. Cuidamos em razão da mudança climática, diante dos furacões”, contou ao Terramérica Reyes Cetz, de 44 anos e um dos 35 camponeses que compartilham a área. A ciência não pode determinar se furacões muito fortes e destrutivos ocorridos nos últimos anos podem ser atribuídos à mudança climática, mas é muito provável que o aquecimento da atmosfera incida na intensidade e frequência de eventos extremos. Em 1995, os furacões Opal e Roxanne arruinaram os mangues de San Crisanto, 1.400 quilômetros a sudeste da capital do México. Inicialmente, os moradores se organizaram para reduzir os danos, e depois para fortalecer o ecossistema, traçando canais de água para que esta flua livremente. “Os mangues se refizeram rapidamente, porque as correntes hídricas transportaram os nutrientes. Havendo mais mangues, há mais aves, peixes e crocodilos”, afirma José Loria, de 56 anos e diretor de operação do ejido, que em 2001 criou a Fundação San Crisanto. O ejido é um sistema pré-colombiano, restabelecido na década de 1930, que se baseia na posse e exploração comum de terras públicas. O de San Crisanto começou em 1957, quando um grupo de camponeses solicitou ao governo estadual terras para plantar coco. A autorização só chegou em 1973. A comunidade possui 850 hectares de mangues e outros cem de coqueirais, nos quais desenvolve, além de ecoturismo, agricultura, artesanato e extração de sal. Agora “nos dedicamos a vender paisagem. Criamos um aparato corporativo para aproveitar os recursos. Aqui não combatemos a pobreza, melhoramos a qualidade de vida”, detalhou Loria. A renda média de cada membro do ejido é de US$ 6 mil, proveniente do ecoturismo, da extração de sal e do pagamento por serviços ambientais, como reflorestamento e proteção do mangue. E as atividades dão emprego a 300 pessoas. “Nestes meses (entre fevereiro e maio) nos concentramos em extrair sal e nos preparamos para atender o turista”, explicou Cetz. Este ano já obtiveram 250 toneladas que o ejido vende a US$ 39 a unidade. Desde 2001, foram restaurados 11.300 metros de canais e 45 cenotes alimentados por fluxos subterrâneos. Há menos perigo de inundação e as espécies endêmicas se multiplicaram. A região de San Crisanto, de 570 habitantes, está exposta a furacões e ondas devido à elevação do nível do mar. Por isto, é urgente uma adaptação às variações meteorológicas. Entretanto, Yucatán, vulnerável a estes problemas e muito estudado pelos cientistas, ainda não tem um plano para enfrentar a mudança climática O México perde 10 mil hectares de mangues ao ano. No momento, subsistem mais de 770 hectares destes complexos sistemas costeiros, segundo a Comissão Nacional para o Conhecimento e Uso da Biodiversidade. Mantido o ritmo de destruição, em 2025 Yucatán terá perdido quase 30% dos mangues que tinha em 2010, prevê o Instituto Nacional de Ecologia e Mudança Climática. Os mangues, formados por várias espécies de árvores adaptadas a terrenos inundados e salobres, abrigam grande quantidade de fauna, têm uma função purificadora da água e protegem as costas de ondas, furacões, e da natural erosão marinha. Em seu crescimento podem absorver grandes volumes de dióxido de carbono. Sua destruição se deve à urbanização e à expansão do turismo, em particular o setor hoteleiro. Outros fatores são a fragmentação da superfície e os conteúdos contaminantes – fertilizantes, pesticidas e esgoto – que vão para rios, riachos e canais que chegam até eles. Nesta região “há dois elementos fundamentais” a se proteger, “a barreira de arrecifes costeiros e os mangues”, afirmou o diretor-executivo do não governamental Fundo Mexicano para a Conservação da Natureza, Lorenzo Rosenzweig. “O melhor negócio para proteger a costa é proteger os mangues”, destacou em entrevista ao Terramérica. A entidade participou da criação do Fundo para o Sistema de Arrecifes Mesoamericano, delineado em 2004 para cuidar desses ecossistemas marinhos no México, Belize, Guatemala e Honduras, e elaborou, entre 2009 e 2012, programas de adaptação em quatro complexos naturais do sudeste mexicano, entre eles o Caribe. Os êxitos de San Crisanto atraíram a atenção nacional e internacional. Em 2010, o projeto recebeu do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) o Prêmio Equatorial bianual, e no ano seguinte ganhou o Prêmio Nacional de Mérito Florestal. Além disso, foi objeto do estudo Camponeses-pescadores de Yucatán: uso da biodiversidade e apropriação de recursos naturais costeiros, publicado em 2010 por Luis Arias e Salvador Montiel, do Centro de Pesquisas e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional. Esse estudo identificou 144 espécies aproveitadas em San Crisanto e constatou que o ecoturismo se tornava a atividade dominante, por seu sucesso econômico. O plano estratégico 2009-2029 do ejido intensificará essa tendência. “Nos vemos como uma comunidade que vive do turismo”, ressaltou Loria. “Temos que diversificar e elaborar melhor os produtos, para chegar a um mercado de massa”, acrescentou, alertando que, “se o mangue desaparecer, adeus San Crisanto”. Envolverde/Terramérica * O autor é correspondente da IPS, enviado especial.   LINKS Esforços fragmentados pelos mangues hondurenhos Estrago irreparável de manguezais guatemaltecos Indústria de camarões arrasa mangues Os lucrativos mangues do Golfo da Califórnia, em espanhol Pescadoras mexicanas na captura da mudança climática, em espanhol Cancún, impensável sede de uma cúpula climática, em espanhol Vozes e mãos femininas se levantam em Cancún Fundação San Crisanto, em espanhol Instituto Nacional de Estatística e Geografia, em espanhol Comissão Nacional para o Conhecimento e Uso da Biodiversidade, em espanhol Instituto Nacional de Ecologia e Mudança Climática, em espanhol e inglês Fundo Mexicano para a Conservação da Natureza, em espanhol e inglês Fundo para o Sistema de Arrecifes Mesoamericano, em espanhol Centro de Pesquisas e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional, em espanhol e inglês Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.


por Emilio Godoy*

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