ec7 300x210 A Sombra do Samurai e o comando da economia

Ministro Guido Mantega. Foto: Divulgação

Ocupando o principal posto executivo do governo em três fases bem definidas – os anos Lula até 2008, os anos de crise e aparente recuperação entre 2008 e 2010, e os anos de relativa estagnação, de 2011 para cá –, Guido Mantega se comportou como a Sombra do Samurai, o shogun de Kurosawa, que não precisava se mover enquanto a batalha seguia. Agora, diante da crise e dos desafios estratégicos que vêm junto com ela, temos que buscar respostas heróicas. O shogun terá de sair de seu imobilismo e comandar a batalha! O artigo é de J. Carlos de Assis.

O ministro Guido Mantega sempre está a um passo à frente na história. Para ele, a economia nunca vai mal. Se os números se revelam piores do que o previsto – como os 0,4% de crescimento no último semestre, perfeitamente antecipados por analistas independentes, mas antes descartados como pessimismo por Mantega –, ele logo saca da cartola algum indicador de que as coisas estão melhorando ou vão melhorar no futuro próximo. Assim, nunca há crise. Ou ela não acontecerá, ou já passou. E assim la nave va!

Isso parece ser parte da retórica oficial em qualquer país. A contribuição original do ministro é uma certa dose de academicismo, que se traduz num distanciamento da situação real. Ocupando o principal posto executivo do governo em três fases bem definidas – os anos Lula até 2008, os anos de crise e aparente recuperação entre 2008 e 2010, e os anos de relativa estagnação, que pode tornar-se contração, de 2011 para cá –, ele se comportou como a Sombra do Samurai, o shogun de Kurosawa que não precisava de se mover enquanto a batalha seguia.

Na fase do governo Lula até aproximadamente 2005, Mantega assistiu com incrível frieza a valorização do câmbio que iniciou o processo de desarticulação de nossa indústria de manufaturados, tolerou Meirelles por fazer o que bem quis com a taxa de juros na lua, aceitou extravagâncias do Banco Central como o famoso swap cambial reverso dando-lhe cobertura com uma medida provisória que transferia ao Tesouro os custos dessa especulação com derivativos. (Mais à frente, com a crise, Sadia, Aracruz e Votorantin quase faliram quando a especulação se virou contra elas.)

O que se revelou uma grande performance da economia se deveu aos bons ventos internacionais: por um lado, as quantidades e os preços das commodities puxados pela voracidade da economia chinesa; por outro, o fato de que, embora se valorizando, o câmbio ainda deixava boa margem de estímulo às exportações de manufaturados, tão desvalorizado tinha sido deixado pelo governo FHC. Nosso desempenho externo foi fantástico, nossas reservas subiram à lua, mas Mantega, como a Sombra do Samurai, não precisou fazer nada para isso acontecer.

Na crise de 2008 e 2009, ele se moveu. Mas nem todos os bons resultados de fins de 2009 e de 2010 se deveram à política econômica de Mantega. O principal deles se deveu à disponibilidade de R$ 180 bilhões para investimentos pelo BNDES, os quais foram efetivamente aplicados nos dois anos. Do lado do consumo, a medida mais efetiva foi a elevação do salário mínimo, um acordo com as centrais sindicais que precedera à crise. A desoneração do IPI para automóveis e linha branca foi a ação mais imaginosa do Ministro, mas de efeito limitado, como se vê agora, quando se tenta repeti-la sem maiores resultados de crescimento.

Em fins de 2010, acompanhando a estúpida política econômica europeia – que tomou contornos idênticos à norte-americana, em função, nesse caso, do boicote pela Câmara ao segundo programa de estímulo fiscal proposto por Obama –, o ministro insistiria na velha política de geração de altos superávits primários. Não entendeu que o crescimento de 7,5% do PIB no ano não tinha nada de espetacular: era, na verdade, o retorno à média, para dois anos, de um desempenho que em 2009 representou uma contração de 0,6%. Assim, os 2,7% do ano passado seriam simplesmente a confirmação da mediocridade de uma política econômica sem imaginação.

Este ano está na cara que caminhamos para um desastre. A situação internacional tende a tornar-se cada vez mais grave. O mercado europeu está se fechando a nossas exportações. O norte-americano faz superávits conosco. A China, em desaceleração, tende a importar menos de nossas commodities minerais (as agrícolas foram salvas pela seca nos Estados Unidos). De fato, todos os países industrializados avançados, para sair de sua crise, se esforçam por fazer superávits comerciais conosco, expondo nosso setor produtivo interno a um verdadeiro dumping comercial, com o risco de estrangular nosso mercado de trabalho no que tem de melhor: os empregos industriais.

Diante de tudo isso, nosso shogun econômico se limita a reduzir o IPI de manufaturados. É muito pouco para o tamanho da crise. Os investimentos estão desabando para menos de 17% do PIB. As obras do PAC dão uma ajuda, mas os órgãos fiscalizadores emperram muitas delas, determinando sua paralisação, quando o que teriam de fazer, diante da constatação de fraudes, era trocar as empreiteiras. O Ministério dos Transportes não conseguiu nos últimos meses fazer uma única concorrência de rodovias, o que é um acinte diante do descalabro de nossa infraestrutura rodoviária e da efetiva disponibilidade de recursos.

O governo, por outro lado, anunciou a licitação de concessões para sete mil quilômetros de rodovias e outro tanto de ferrovias. Contudo, para o crescimento econômico, se tudo der certo, só haverá efeito para a economia em fins do próximo ano. Isto sem falar no que representa para a economia, a longo prazo, a privatização de rodovias, tendo em vista o custo do pedágio. (Já temos 4% de rodovias pedagiadas; os Estados Unidos e os países europeus não têm mais que 2%, e na maioria dos casos há uma rodovia pública, gratuita, ao lado das pedagiadas. Com as novas concessões, vamos para 8%. E precisamos de mais cerca de 200 mil quilômetros de rodovias asfaltadas. Assim mesmo, Mantega acabou com a Cide!)

O ex-ministro Delfim Netto, com quem nem sempre estou de acordo, disse no início do atual governo que “Lula tinha encontrado vento a favor, enquanto Dilma teria vento contra”. É um fato. Diante da crise e dos desafios estratégicos que vêm junto com ela, temos que buscar respostas heróicas. O shogun terá de sair de seu imobilismo e comandar a batalha!

* J. Carlos de Assis é economista, professor de Economia Internacional da UEPB, autor do recém-lançado A Razão de Deus, pela Civilização Brasileira. Esta coluna sai também nos sites Rumos do Brasil e Brasilianas, e, às terças, no jornal carioca Monitor Mercantil.

** Publicado originalmente no site Carta Maior.

(Carta Maior)

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