Apesar das medidas de austeridades tão severas quanto na Grécia, portugueses não vão às ruas protestar e se sentem culpados pela crise
“Podia ser pior”. Essa recente avaliação do português Joaquim, Maçalo, dono de uma churrascaria em Lisboa, resume a abordagem de Portugal à crise da zona do euro. Portugal recebeu um resgate de US$ 96 milhões e sofreu com um programa de austeridade doloroso. As projeções mais otimistas apontam para uma contração de 3% da economia em 2012, após o declínio de 1,5% em 2011. Oficialmente, o desemprego está em 14,9%, o mais alto índice em mais de uma década, e mais de 30% dos jovens do país não têm trabalho. Alguns analistas sugerem que o governo está subestimando a verdadeira taxa de desemprego. Hospitais estão fechando. Benefícios estatais, salários públicos e pensões estão sendo cortados. Novos impostos foram adicionados. O governo vendeu sua participação na companhia elétrica nacional a uma empresa estatal chinesa.
Na Grécia, a austeridade nos mesmos moldes que de Portugal, desencadeou o caos e a fúria nas ruas de Atenas e provocou o aumento do extremismo político. Na França, a crise ajudou a população a preterir o candidato Nicolas Sarkozy pelo socialista, François Hollande, que prometeu renovação e crescimento.
Mas apesar de toda a conversa do fascismo e de bombas incendiárias, a maioria das pessoas na zona de austeridade – que inclui a Irlanda, Grécia e Espanha –, mas principalmente em Portugal, parece aceitar a sua sorte. Mesmo os irlandeses, que ocasionalmente se rebelam contra seu próprio governo, aprovaram o tratado fiscal da União Europeia na semana passada por uma margem considerável.
Mas talvez poucas pessoas sejam tão compreensivas como os portugueses. Mês após mês, o governo gentilmente coloca em prática cortes orçamentários, aumento de impostos e brechas nas leis trabalhistas, exigidos por seus credores internacionais – a comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Interacional – com pouca resistência da população.
A Comissão Europeia recentemente citou o sucesso de Portugal no corte orçamentário de 2011 para 3,2% do produto interno bruto e no aumento das exportações a um nível recorde no mesmo ano. Com isso, o saldo comercial de Portugal melhorou significativamente. “Os portugueses são pessoas moderadas, não vão tanto para as ruas”, disse Maçalo.
Essa tolerância será testada nos próximos anos. Apesar do déficit orçamentário do país estar diminuindo, a dívida pública continua a subir devido à contração da economia. Segundo economistas, há pouca perspectiva imediata de crescimento, especialmente com os níveis educacionais muito menores em Portugal do que em toda a União Europeia. De acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, em 2009 apenas 30% dos adultos portugueses tinham concluído o ensino médio. O problema é que a saúde da economia portuguesa depende fortemente de exportações ligadas à demanda na Europa, que está em recessão.
Segundo Miguel Calado, um dos principais investidores da indústria portuguesa, os portugueses sentem alguma responsabilidade pessoal pela situação de Portugal: “Nós somos todos culpados. Todo mundo sabia o que estava acontecendo e todos fecharam os olhos”, disse. Ele não tem planos para protestar e não espera que outros se manifestem: “É uma questão de cultura”.
* Publicado originalmente no jornal The New York Times e retirado do site Opinião e Notícia.
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