Organização, em parceria com outras entidades, afirma que governança, convivência, emprego e finanças são pontos fundamentais para o novo modelo
A economia verde foi assunto de um evento paralelo à programação oficial da Conferência Ethos Internacional 2012. A questão ainda é polêmica porque há muito o que entender e discutir: greenwashing e estratégia de marketing são duas das objeções comuns ao modelo. A verdade é que economia verde ainda é um conceito em construção, mas que pode ser um caminho, se baseado em uma estrutura que respeite os limites do planeta e garanta os direitos humanos.
Na transição para a economia verde, o que já se sabe é que pontos fundamentais devem ser considerados: governança, convivência, emprego e finanças. Pensando nisso, a Vitae Civilis, organização sem fins lucrativos dedicada a contribuir para a construção de sociedades sustentáveis, organizou uma série de debates com outras entidades, entre as quais o Instituto Ethos. O intuito era gerar insumos que servissem de alerta e orientação nos debates sobre a transição para a economia verde, particularmente nos eventos da Rio+20.
Aron Belinky, coordenador de Processos Internacionais da Vitae Civilis, foi taxativo com relação à busca por uma economia verde: “Se a economia não absorver os valores da sustentabilidade, não avançaremos nesse sentido, em grande parte porque a economia seguiu um caminho de desregulamentação”. Belinky explica que o debate procurou construir consensos e desarmar dissidências entre atores e lideranças, aproximar stakeholders de diferentes segmentos e trabalhar o conjunto da sociedade civil a partir de uma nova governança, do ponto de vista da participação social.
Belinky destacou três conclusões resultantes desses debates. A primeira é que a economia verde deve ser acompanhada por uma nova governança da sociedade: mais participativa, equilibrada e transparente. Além disso, o controle social sobre os atores políticos e econômicos, incluindo os mercados financeiros, deve ser uma das bases para uma nova economia. Em terceiro lugar, o entendimento de que questões políticas, sociais e ambientais não podem mais ser analisadas e conduzidas em separado, o que é incompatível com a busca pelo desenvolvimento sustentável. A solução deve ser sistêmica, com perspectivas de um espaço justo e seguro para a humanidade. Além disso, indicadores que forneçam métricas para os vetores ambientais, sociais e políticos devem ser criados e empregados.
Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e membro do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos, menciona um paradoxo: “Nós avançamos na direção de uma economia mais verde. O problema é que, na essência, nada mudou. Discutimos os temas, mas muitas empresas não interiorizaram nem aplicaram esses conceitos em profundidade. Mas sabemos que o mundo em desenvolvimento não pode procrastinar as questões ambientais”. Ele ainda comentou a ausência de indicadores que mostrem o valor agregado para as empresas que adotam condutas sustentáveis, desestimulando um pouco o mercado. “A velha economia já mostrou sua viabilidade: ganhar dinheiro com exploração de mão de obra, usar combustíveis de fontes não renováveis. Mas ainda estamos trabalhando no entendimento de questões críticas envolvidas em uma economia verde. De onde virá o capital para essa transição? Como precificar o risco do envolvimento em uma nova economia? Como a regulamentação induzirá investimentos nessa nova economia?”, questionou Mattar.
Para ele, os elementos da microeconomia acompanham a mesma trajetória: “Antigamente o empreendedor era quem detinha o capital, aplicava-o em função do seu know-how e tinha lucro ou prejuízo nessa empreitada. Hoje, esse empreendedor não possui o capital, toma-o emprestado de bancos, de investidores ou mesmo da família, capta a ideia desenvolvida por um terceiro, e minimiza o risco contratando um executivo para a gestão do negócio. Mas, para a nova economia, precisamos de novas formas de viabilizar negócios, buscando sempre uma contribuição para a sociedade”.
Para Ricardo Young, membro do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos, “a discussão envolve uma questão planetária e de interdependência, que supera todos os modelos que já desenvolvemos. Temos uma grande limitação, na qual o sistema das Nações Unidas não dá conta desse novo padrão civilizatório. Está claro que o sistema de governança global não tem funcionado. O paradoxo é que, na sociedade civil, temos avançado nas articulações em busca de nos aproximarmos dessa nova realidade”.
Young acredita que os governos têm um papel muito especial nesse processo: o da liderança que abre espaço para discussão. “Os governos são reféns dos eleitores e das corporações, mas eu acredito que, quanto pior a crise ficar, mais os governos terão de assumir a liderança e maior será a possibilidade de se ter sucesso. Não podemos viver sem os governos, mas precisamos de um nível de ousadia que não vemos mais neles.”
Quatro temas reúnem as principais conclusões e propostas dos debates da Vitae Civilis: sustentabilidade e convivência digna nos biomas e territórios; governança do desenvolvimento sustentável, integridade ambiental e justiça social; instituições financeiras e instrumentos econômicos; e empregos verdes, trabalho decente, produção e consumo sustentável.
Para mais informações, acesse www.vitaecivilis.org/rosquinha
* Publicado originalmente no site do Instituto Ethos.
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