O que avó sente por neto é difícil de descrever. Parece amor estendido no tempo, para o filho do meu filho, amém. Herança cravada na história, o neto é a continuidade do nome, fruto de uma árvore genealógica que promete perdurar. Dá sentido de perpetuidade, que invade quem se percebe cada vez mais finito e provisório, alertado pela decadência do corpo, morada cada vez mais frágil de um espírito cada vez mais livre.

Parece ser a percepção da finitude da vida que eleva o amor da avó à dimensão de eternidade. Não me venham dizer que avó curte mais o neto porque não tem a obrigação de educar. Isso é fala de filho enciumado, um modo de desmerecer o carinho que seu filho tem por sua mãe, como se dissesse que a causa do carinho pela avó fosse aquelas porcarias que ela compra para ele. Bobagem. Só deseduca quem nunca foi educador. Educador de verdade o é para sempre. E educador maduro deixa de dar importância ao que não tem importância e valoriza o que realmente faz sentido. Se o leite cai sobre a toalha da mesa, a mãe estressa, porque sabe o trabalho de lavá-la. Mas quem sabe que vai morrer também sabe que uma toalha suja é apenas uma toalha suja e que trabalho não é castigo. Quem é avó sabe o quanto errou como mãe, inevitável. Ter neto é a sua redenção. Com o neto, a avó é mãe melhorada. Educa melhor porque tem sabedoria.

A idéia da morte relativiza a importância que damos às coisas. Por mais que se tente enganar, o corpo do velho está a lembrar-lhe continuamente que sua trajetória nesse mundo tem fim. Mas é uma ilusão achar que quanto mais velho mais perto da morte. Não é preciso envelhecer para saber que vamos morrer. É curioso que quem adoeça gravemente esteja “desenganado”. Sugere que quando estamos jovens e saudáveis, estamos enganados, a fingir que a morte não existe, a pensar que só morre quem é velho, neste mundo cada dia mais perigoso.
Pois eu quero fazer um convite: lembremos da morte todos os dias. Da nossa e da dos nossos. Desenganemo-nos já. Creio que o exercício da lucidez sobre a nossa finitude permite-nos tratar o filho com maior leveza e espiritualidade, com mais tolerância e paciência, com mais amor e devoção.

Já estamos perto da morte, não precisamos ficar velhos para lembrar dela. A morte e a idéia da morte renovam a pergunta pelo sentido de viver. Revolucionam o estilo de vida, na medida em que fazem pensar sobre o que é importante, ou seja, o que tem valor. Permitem o difícil exercício de estabelecer prioridades, primeiro passo para ter tempo para o que damos valor. O que significa ter tempo para os nossos filhos.

Podemos antecipar dentro de nós a qualidade do amor que a avó sente pelo neto e vivê-lo com nossos filhos. Saber que um filho doente poderia não estar mais ali a requerer nossos cuidados pode ampliar a espiritualidade necessária para educar com devoção. Priorizar o momento de confraternização familiar no lugar de tolas e inócuas cenas de aparente educação dos filhos é exercício que exige refletir sobre o que de fato educa mais: a experiência de amor ou a palavra vazia de testemunho. Não precisamos ficar velhos para lamentar não ter curtido a infância e a adolescência de nossos filhos. Amemos nossos filhos como se deles fôssemos avós.

 

*Roberto Patrus-Pena é Colunista de Plurale. Pesquisador e Professor do Mestrado e Doutorado em Administração da PUC Minas. É filósofo, psicólogo e psicoterapeuta. Acaba de lançar o livro Ética nos negócios: Condições, Desafios e Riscos, com Paula Pessoa de Castro. Email: [email protected]

**Publicado originalmente no site da revista Plurale.