Texto oficial sendo negociado na Conferência repete 50 vezes a palavra “encorajar”, enquanto “dever” é usada apenas três vezes.
Ambientalistas estão reclamando que o texto elaborado por diplomatas em negociação na Conferência Rio+20 está repleto de palavras como “apoiamos” e “encorajamos” ao invés de “precisamos” ou “faremos”, a linguagem de quem assume compromissos. Para os especialistas do clima, a primeira geração de líderes com a compreensão científica dos novos riscos globais que a humanidade enfrenta deveria reagir com mais firmeza, à medida que está munida de evidências disponíveis para tomar decisões responsáveis e reverter o aquecimento global.
“Não vemos nenhum milagre político à vista”, lamentou Lasse Gustavsson, chefe da delegação do WWF, em relação à primeira tentativa de negociar um acordo final, lançada pelo governo brasileiro no sábado, 16, à noite. ”Embora pensemos que algumas partes do novo texto representem um bom começo, como a linguagem usada em referência à preservação dos oceanos, vemos ao longo do texto o uso desequilibrado de palavras mais fracas em detrimento de palavras afirmativas de ação”, disse Gustavsson. “O texto de negociação foi salpicado por toda a parte com termos como ‘apoiar’, ‘encorajar’ e ‘promover’, e economiza no uso de verbos como ‘dever’ e ‘cumprir’”.
“Encorajar” é usado cerca de 50 vezes, enquanto a palavra “dever” aparece apenas três. Os negociadores não economizaram no uso da palavra “apoiar” – que aparece cerca de 99 vezes – mas evitam uma linguagem mais ativa e direta, como “vamos fazer”, que aparece apenas cinco vezes.
“As palavras fracas aparecem nas partes do texto que mais precisamos endurecer – a seção sobre economia verde inicia um processo que já foi lançado em 1992. A linguagem em torno de muitos objetivos necessários para o desenvolvimento sustentável, como o uso de energias limpas, poderia ter sido escrito pelo setor de petróleo e gás. Deixa muito a desejar”, disse Gustavsson. “Nós não precisamos de páginas e mais páginas sem sentido agora. O que precisamos é de um manual para salvar o mundo.”
A opinião de Gustavsson não difere muito da maioria. O otimismo na Conferência é escasso, e as expectativas não poderiam ser menores. Desde a Eco-92, as emissões globais de carbono aumentaram cerca de 50% – um resultado que aqueles que estavam presentes há 20 anos certamente teriam considerado desastroso. E aparentemente esta infeliz tendência deve continuar: à medida que o Ártico torna-se livre de gelo por causa do aquecimento global, é de se esperar que a região será perfurada para a extração de petróleo.
A maior mudança desde a Eco-92 pode se resumir ao fim de uma presunção de que as ferramentas internacionais, como tratados e acordos, devem ser o foco central dos esforços para impulsionar o progresso ambiental. Dois dos tratados concluídos no Rio há 20 anos – o primeiro destinado a conservar a diversidade biológica, e o outro a reduzir as emissões de gases de efeito estufa – são hoje amplamente vistos como fracassos.
A cena na Rio+20
Os cidadãos – especialmente delegações de ONGs e jovens – estão todos no Aterro do Flamengo, longe do Riocentro, e em pequenas tendas que ficam quase invisíveis – ou seja, a sociedade civil comparece com entusiasmo, mas é mantida à uma distância confortável das negociações. A comunidade empresarial construiu um grande salão de exposição às margens da praia, no Forte de Copacabana, para exibir suas iniciativas verdes, também bem longe do Riocentro, mas visível, para que todas as pessoas saibam que eles estão lá. Do outro lado da rua do Riocentro, na Barra, em um campo de atletismo que não existia quando a cúpula de 1992 foi realizada, foi criado um conjunto de pavilhões para delegações de governos, ONGs e empresas, mas apenas os delegados registrados têm acesso. Palestras oficiais e eventos secundários são realizados lá. O acesso às sessões da conferência no Riocentro será por sorteio, uma vez que o espaço não permite que todos compareçam, de modo que os grupos da sociedade civil têm acesso bastante limitado. Poucas delegações oficiais incluíram a sociedade civil em suas delegações governamentais, em contraste com a inclusão simbólica de representantes da sociedade civil (incluindo os jovens) em delegações da Eco-92.
* Publicado originalmente no site Opinião e Notícia.
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