Havana, Cuba, abril/2012 – O que a visita do papa deixará a Cuba? A pergunta que com tanta insistência precedeu a chegada de Bento 16 à sempre polêmica ilha do Caribe, ficou aparentemente intata ao terminar, no dia 28 de março, sua intensa permanência de três dias no país.
O próprio cardeal cubano Jaime Ortega, nas palavras prévias à homilia do pontífice, na missa realizada na Praça da Revolução, em Cuba, fez a todos essa pergunta… E a deixou aberta, com um grande mistério (palavra tão grata à religião católica).
Antes da passagem do bispo de Roma por Cuba, ficara mais ou menos claro que três setores da trama social e política cubana esperavam obter algo mais ou menos concreto da presença do pontífice e sua carga simbólica no país. De um lado a Igreja Católica local, aspirante a elevar sua presença social e pastoral e que, apesar do espaço obtido nas duas últimas décadas, fortalecido nos anos mais recentes, pretende mais influência nessas duas áreas, de onde clama uma e outra vez pela reconciliação e pelo perdão entre os nascidos na ilha, como ficou evidente nas duas missas celebradas com a presença do papa. Sem dúvida, a onda levantada pelo papa trará areias a estas praias.
Embora nas homilias o papa não tenha se referido explicitamente a temas que teriam agradado muito as autoridades do país (o embargo norte-americano e as relações com outros países, por exemplo), o fez em suas palavras de despedida, quando também clamou pela conciliação. Porém, só o fato de ter chegado a Cuba, e afirmar que partia satisfeito, é um triunfo político para o governo presidido por Raúl Castro, que esteve presente nas duas missas oficiadas pelo papa.
Os diversos grupos opositores internos, também muito interessados na visita pastoral, chegaram a deixar tensa a situação do país com ações concretas, como a permanência em várias igrejas, em uma por 48 horas – contra a vontade do clero cubano –, ou com petições de atenção por parte de Bento 16. Enquanto o governo aumentava de maneira visível (e seguramente invisível) os controles policiais, o crédito para este setor ficava garantido com sua própria visibilidade, sobretudo para o exterior, alcançada graças aos refletores papais.
Em termos populares, especialmente entre os fiéis cubanos, a presença do papa em Santiago de Cuba, o povoado de El Cobre (sede da paróquia que acolhe a imagem original da Virgem da Caridade, padroeira da nação) pode também ter resultados positivos para Havana. Para os católicos cubanos, inclusive os muitos que viajaram dos Estados Unidos para assistir ao histórico evento, a satisfação poderia chegar (ou talvez tenha chegado) por uma via muito mais espiritual do que material e imediata.
Se há 14 anos o papa João Paulo II, fiel ao seu estilo, durante sua visita a Cuba entrou em temas de atualidade para uma sociedade ainda muito afetada pela queda do socialismo na União Soviética e na Europa do leste, agora seu sucessor, também em seu proceder habitual, se referiu muito mais ao teológico e transcendental (sem deixar de falar da caridade mais concreta) do que ao imediato palpável, quando a realidade cubana começa a assimilar certas mudanças econômicas e sociais.
Na homilia de Havana, sem renunciar à sua missão de peregrino da Caridade, o papa dedicou a parte central de sua intervenção aos temas concomitantes da verdade e liberdade, segundo as entende a doutrina cristã, mas também de um modo que afeta toda a conduta social por meio de suas expressões éticas. Sem condenar nem exaltar ninguém, centrado em sua mensagem apostólica e em um sentimento conciliador, o prelado insistiu na busca da verdade como um exercício de autêntica liberdade, um desafio espiritual que afeta não só os católicos, mas todos os cidadãos… E não apenas os cubanos, naturalmente.
Se haverá algum ganho da visita de Bento 16 a Cuba para a grande massa da população, penso que radicaria na validade de sua mensagem ética, que pode ser assumida por todos, com independência de seguir ou não uma fé.
Porque se um problema recorre hoje a sociedade cubana, de uma maneira cada vez mais alarmante, é a deterioração moral que sofre o país, gerada por todas as crises materiais e espirituais vividas nos anos recentes. A palpável erosão de valores ancestrais e universais, a perda do senso de urbanidade e do respeito, todo esse desgaste espiritual da sociedade cubana destes tempos, deveria olhar-se em espelhos como o levantado pelo Papa em sua invocação da verdade. Independente de se crer ou não nos deuses ou em seus representantes na Terra, à margem de afinidades ou antipatias, inclusive, de interesses políticos, sempre tão presentes na vida cubana.
Se esta última fosse o único ganho deixado pela visita do papa a Cuba, valeria bem a pena haver sentido a tensão vivida nestes dias por boa parte da sociedade da ilha. Assim não haveria perdedores, nem empate, mas muitos ganhadores, justo o que a nação mais precisa para superar os ódios, as perdas de valores e as agressividades que tanto a afetam e poderiam afetar o futuro. Envolverde/IPS
* Leonardo Padura Fuentes é escritor e jornalista cubano. Seus romances foram traduzidos para mais de 15 idiomas e sua obra mais recente, O homem que amava os cães, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ramón Mercader.
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