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Novo desenvolvimento recicla velhas ideias

Washington, Estados Unidos, 12/4/2011 – A edição de 2011 do “Informe sobre o Desenvolvimento Mundial”, apresentado ontem, centra-se em como os conflitos interferem com o avanço em um planeta onde 1,5 bilhão de pessoas vivem em meio a uma violência incessante ou recorrente. No entanto, muitos economistas progressistas afirmam que o documento, elaborado anualmente pelo Banco Mundial, não se afasta muito das políticas neoliberais que mantêm um statu quo mundial de desigualdade.

“Embora o Banco Mundial enfatize a necessidade de haver instituições mais fortes, esta retórica nem sempre segue em linha com as políticas reais”, disse à IPS o economista Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Pesquisa em Economia e Política, com sede em Washington. “Na América Latina, por exemplo, muitos governos tentam fazer o correto, mas não têm a capacidade administrativa e isso é algo com que o Banco Mundial realmente pode contribuir”, acrescentou.

“O problema é que o Banco Mundial é parte de um consórcio com o Fundo Monetário Internacional, por isso geralmente acabam apoiando políticas que reduzem a capacidade dos governos, centrando-se na assistência do exterior”, afirmou Mark. “Embora concorde com a prioridade do Banco Mundial de se comprometer com a sociedade civil, é preciso que isto se combine com reformas econômicas mais amplas. Por exemplo, dos 51 países classificados há 40 anos como Menos Adiantados, apenas três progrediram. Isto mostra com que tipo de problema estrutural estamos tratando”, ressaltou o economista.

O relatório 2011, intitulado “Conflito, Segurança e Desenvolvimento”, é essencialmente criação do presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. Nele são retomadas as ideias de um discurso que fez em 2008 no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, intitulado “Estados Frágeis: Garantir o Desenvolvimento”.

Segundo o estudo apresentado ontem, as crianças que vivem em Estados frágeis têm o dobro de probabilidade de sofrer desnutrição e o triplo de abandonar os estudos. Nenhum país considerado “frágil” ou assolado pelos conflitos, cumpriu até agora um só dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, e a pobreza é 20% superior em países afetados por ciclos de violência. Para um país em desenvolvimento médio, os conflitos civis custam cerca de 30 anos de crescimento do produto interno bruto.

Todos estes são indicadores da necessidade de mudanças exaustivas no sistema mundial para superar as condições que prejudicam aproximadamente 17% da população do planeta.

Este ano, o informe do Banco adotou uma singular metodologia de compilação, priorizando os dados coletados em pesquisas locais e nacionais prévias, ao mesmo tempo em que tira suas próprias conclusões e faz recomendações. “Nos demos conta de que a comunidade internacional tem de fazer as coisas de modo diferente”, disse o codiretor do Estudo, Nigel Roberts, em entrevista coletiva dada sexta-feira em Washington.

“A violência do Século 21 é fraturada, intensa, complexa, está arraigada e é difícil de eliminar. Por isto, são necessários esforços nacionais, acima de soluções importadas do exterior; o conhecimento sobre como abordar a violência está nos profissionais locais, não nas agências ocidentais e nas instituições acadêmicas internacionais”, afirmou Nigel.

O informe enumera quatro pontos básicos que devem ser abordados com urgência se a intenção é frear os ciclos de violência e desejar um progresso duradouro nos Estados que por várias gerações sofre os efeitos do terrorismo, da repressão política e das injustiças econômicas.

Esses pontos são: melhorar a legitimidade institucional; investir em segurança civil, justiça e emprego; adotar um enfoque nacional-regional em várias pontas para conseguir a mudança, e ter consciência de um cenário mundial impreciso onde os países emergentes e as instituições regionais devem ser potencializados para desempenhar um papel muito mais importante na definição da agenda do Século 21.

“Pão e liberdade não são questões de e/ou. Cada elemento é requisito para que o outro exista e devemos promovê-los simultaneamente”, afirmou Justin Lin, primeiro-vice-presidente e primeiro economista do Banco Mundial. Omar Dahi, professor de Economia para o Desenvolvimento no Hampshire College, disse à IPS que “na última década, o Banco Mundial tentou reverter sua desastrosa posição neoliberal dos anos 1980 e 1990 centrando-se mais no desenvolvimento humano”. Porém, ainda não está claro “se abandonou o modelo neoliberal no plano macro, ao centrar-se na liberalização comercial e na dependência dos investimentos estrangeiros”, acrescentou.

“Este modelo já não é sustentável”, enfatizou Omar, que considera positivo que agora se volte a atenção para as instituições, em lugar de focar apenas na integração, “mas a criação de instituições é um processo difícil”, disse. “Destaco a necessidade de dar poder às cooperativas e entidades sindicais e camponesas mais do que às organizações não governamentais”, ressaltou.

Embora defenda apoio às instituições democráticas fortes, o “Informe sobre o Desenvolvimento Mundial 2011” não reconhece que o Conselho Executivo do Banco esteja dominado pelos cinco doadores mais ricos: Alemanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Japão. “Este é o momento para que o próprio Banco Mundial se democratize para que os países em desenvolvimento possam ter maior ingerência em seu modo de operar. O Banco não pode impulsionar a boa governança quando é um exemplo de governança autoritária”, disse Omar à IPS.

Em resposta ao debate que o informe gera a propósito do terrorismo, Daniel Gorevan, porta-voz da Oxfam Internacional, declarou que o estudo não aborda “o impacto que pode ter a ajuda internacional centrada em objetivos militares ou de segurança no curto prazo na exacerbação da violência”. E acrescentou que “vivemos um preocupante aumento do grau da assistência militarizada ou politizada. Isso é problemático, especialmente se esta ajuda não aborda as causas de conflito e coloca em risco as vidas das comunidades ou dos trabalhadores humanitários”. Envolverde/IPS