Vai demorar muito tempo até que seja possível controlarmos os fenômenos meteorológicos. Ou seja, atrasos e cancelamentos em aeroportos vão continuar ocorrendo. O que não é justificável é a incapacidade das companhias aéreas para garantir informação correta aos seus clientes nesses momentos. Afinal de contas, grande parte da irritação dos usuários não tem origem no mau humor de São Pedro, mas sim em falhas básicas de comunicação. Não saber o que acontece é pior do que esperar Godot.
Uma amiga jornalista, presa no Santos Dumont (Rio de Janeiro), nesta segunda (2), por conta do abre-e-fecha chuvoso que acometeu o aeroporto, me ligou para contar alguns causos. Por exemplo, após perguntar para dois empregados de uma companhia aérea em que fila ela deveria ficar, ambos apontaram para direções opostas. Em outro momento, uma empresa teve que desmentir o comunicado da Infraero no alto-falante.
É claro que não é só no Brasil que isso acontece. Tive problemas com a nuvem de cinzas vulcânicas na Europa, em 2010, e franceses e ingleses podem ser tão confusos quanto. Mas, por lá, a informação fluía melhor.
Em 2010, o Brasil recebeu 5,16 milhões de turistas. De acordo com a Organização das Nações Unidas para o Turismo, no mesmo período, a França registrou 78,95 milhões de chegadas de turistas internacionais, seguida pelos Estados Unidos (60,88 milhões), China (55,98 milhões), Espanha (53 milhões) e Itália (43,2 milhões).
Tudo bem, estamos em uma região periférica do planeta se considerarmos onde estão os principais consumidores de turismo. Além do mais, há aeroportos de capitais com o teto desabando na cabeça de clientes, falta de terminais e pistas para pousos e decolagens, falta de locais para hospedagem, falta de controladores de voo e tripulantes bem remunerados, falta de atendentes que saibam falar outra língua, falta de transporte público de qualidade e em quantidade, falta de uma indústria real do turismo, noves fora o excesso de violência. Vendo o pacotão de problemas, aquela história de que o “Brasil recebe bem” é tão bizarra quanto o Cristo Redentor ser eleito uma das setes maravilhas do mundo moderno.
Não tenho dúvidas que viveremos dias estressantes na Copa por conta da falta de estrutura para recebê-la. E, em algum momento até lá, começará o discurso do “fim justificam os meios”. E como, neste país panis et circenses, futebol é mais importante do que cidadania, muita coisa já está sendo defenestrada. Começa com a proibição de venda de bebidas alcoólicas, termina com os instrumentos de controle para impedir desvios de recursos ou para frear o uso de madeira ilegal (a construção civil é o principal consumidor de madeira da Amazônia). Vão para o saco, em nome do espetáculo.
O que peço não é muito, apenas informação. Pois o pior não é estarmos completamente ferrados. É não termos certeza disso.
* Publicado originalmente no Blog do Sakamoto.
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