PeixesMariaJoseJuanJorda1 “Pesca de atum exige sacrifícios”

A bióloga María José Juan Jordá no mercado de leilão de pescados de Honolulu (Honolulu Fish Auction). Foto: Angkana Rawichutiwan

Os países vinculados à pesca do atum devem recordar que em troca de terem acesso a esses recursos têm a responsabilidade de gerenciá-los bem, afirma nesta entrevista a pesquisadora espanhola María José Juan Jordá.

Berlim, Alemanha, 2 de janeiro de 2011 (Terramérica).- Há cerca de dez anos é rotina ouvir ambientalistas e biólogos se queixarem da sobrepesca do atum, em particular do vermelho, à beira da extinção. A estas advertências somaram-se denúncias contra sistemas de controle de pesca de atum, incluindo as cotas anuais autorizadas a cada país e o esquema que as controla, a cargo da Comissão Internacional para a Conservação do Atum do Oceano Atlântico (Cicaa).

As denúncias levaram a Cicaa a admitir, em novembro deste ano, que o sistema de controle das cotas, até agora baseado em informes escritos, facilita as fraudes, e a decidir sua substituição por um mecanismo eletrônico que será testado em 2012. Uma equipe de biólogos marinhos espanhóis e canadenses, liderados por María José Juan Jordá, acaba de confirmar as advertências sobre o risco de colapso dos atuns, em uma análise da população global de 26 espécies e outras relacionadas.

María José e os coautores do estudo concluíram que as reduções mais drásticas foram registradas nos atuns de água temperada e nas cavalas. Nos dois casos, as populações são vítimas da sobrepesca e estão à beira da extinção, afirma o estudo “Global Population Trajectories of Tunas and Their Relatives” (Trajetórias Mundiais de População de Atuns e Espécies Relacionadas), publicado no começo de dezembro pela Proceedings of the National Academy of Sciencies, dos Estados Unidos.

“Não há necessidade de reduzir o consumo de pescado”, mas os consumidores precisam ter boa informação e apoiar as indústrias que promovem a pesca sustentável, disse María José, pesquisadora da Universidade da Coruña e da canadense Simon Fraser University.

TERRAMÉRICA: As conclusões de seu artigo confirmam advertências feitas há anos por grupos ambientalistas. Quais são as espécies mais afetadas?

MARÍA JOSÉ JUAN JORDÁ: Nosso trabalho confirma que estão superexploradas várias populações de atuns de águas temperadas, o atum vermelho (Thunnus thynnus) do Atlântico leste, do Atlântico oeste e do sul, e o atum branco (Thunnus alalunga) do Atlântico norte. A biomassa atual destas espécies está em níveis abaixo do que os cientistas consideram seguros, e os níveis de mortalidade por pesca são maiores do que se considera seguro. Também mostramos que a maioria das espécies de atuns de águas tropicais estão “plenamente exploradas”. Isto é, os atuais níveis de biomassa e de mortalidade por pesca são “ótimos” para a maioria dessas espécies. Digo ótimos porque o objetivo da Organizações Regionais de Ordenação Pesqueira (Orop), incluída a Cicaa, encarregada da gestão e conservação das espécies, é reduzir a biomassa das populações ao nível que proporcione o “máximo rendimento sustentável”.

TERRAMÉRICA:- O que quer dizer?

MJJJ: Quando a biomassa de uma espécie diminui em x proporção – dependendo da espécie e de sua biologia particular, normalmente 50% a 60% – a população alcança seu nível mais produtivo, ótimo para maximizar as capturas. Em resumo, as espécies tropicais de atum estão perto do limite da sustentabilidade.

TERRAMÉRICA: Quais as espécies comercialmente mais atraentes?

MJJJ: Estimamos que a biomassa dos atuns de águas temperadas (três espécies de atum vermelho e uma de atum branco) diminuiu, em média, 80% entre 1954 e 2006. A biomassa dos atuns tropicais (patudo, vermelho e listrado) caiu 60% no mesmo período. O total de capturas globais de atuns em 2008 foi de 4,2 milhões de toneladas, das quais 94% correspondem a espécies tropicais, e apenas 6% a capturas de atuns de águas temperadas, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A maioria das capturas procede de pescas “relativamente bem” geridas, mas há assuntos problemáticos que devem ser abordados com urgência.

TERRAMÉRICA: Quais são?

MJJJ: Com o crescimento da população mundial, aumentam a demanda por atum e o esforço pesqueiro. No entanto, nem a maioria das pescarias nem as capturas podem continuar crescendo porque as espécies já estão “plenamente exploradas” ou “superexploradas”. Uma solução, que deve ser abordada por todas as Orop, é reduzir o número de barcos e sua capacidade de retirar peixes do mar. As populações superexploradas precisam de planos de recuperação e, quanto existem, como no atum vermelho do Atlântico, é imperativo que sejam eficazes e cumpridos. Outras ferramentas, com listar as espécies na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres, são necessárias.

TERRAMÉRICA: Não seria também preciso mudar o critério de “otimização” das Orop?

MJJJ: Sim. O objetivo oficial das Orop é conseguir o máximo rendimento sustentável. Teoricamente, isto é muito fácil, mas na prática, para os cientistas, é muito difícil conseguir e inclusive de estimar, porque exige boa informação biológica das espécies, das capturas, o que nem sempre existe. Por isso, os níveis de referência estimados como objetivo para o rendimento máximo sustentável sofrem muita incerteza. Assim, as Orop devem modificar seus objetivos e definir novos critérios, onde haja pontos de referência limites, para evitar níveis de biomassa muito baixos e de mortalidade muito altos, e pontos de referência objetivos, com margens de segurança.

TERRAMÉRICA: A Cicaa admitiu que seu sistema de controle da pesca do atum é muito ineficiente e se compromete a reformá-lo. Acredita que haja vontade política dos países envolvidos para renunciar à pesca e ao consumo do pescado?

MJJJ: A Cicaa deu um passo muito positivo quando decidiu apoiar um sistema eletrônico para documentar as capturas. Entretanto, este passo tem de ser cumprido e tem de proporcionar dados de qualidade e verdadeiros. Para isto, é preciso cooperação de todos os países envolvidos neste tipo de pesca. Isto representa sacrifícios no curto prazo, com benefícios de médio e longo prazos, pois, se a pesca é bem gerida, as populações se recuperam, é positivo para a indústria pesqueira, para as populações de peixes e para os consumidores.

TERRAMÉRICA: E quanto aos consumidores, qual atitude seria ideal?

MJJJ: Não há necessidade de reduzir o consumo de pescado, em geral, mas precisamos de boa informação, um bom rótulo dos produtos, e apoiar as indústrias que apostam em uma gestão sustentável e as marcas ecológicas, com as do Marine Stewardship Council.

* O autor é correspondente da IPS.

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O desafio da capital mundial do atum, em espanhol

Atum de barbatana azul sem proteção

Atum de barbatana azul requer salvação urgente

Site de María José Juan Jordá, em inglês

Global Population Trajectories of Tunas and Their Relatives, em inglês

Comissão Internacional para a Conservação do Atum do Oceano Atlântico, em espanhol, francês e inglês

Simon Fraser University, em inglês

Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres, em espanhol, francês inglês

Marine Stewardship Council, em espanhol e outros idiomas

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

(Terramérica)

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