A Arquitetura da Crueldade: “a banalidade do mal”

Dal Marcondes - O mundo assiste ao impacto sistêmico de um modelo de governança baseado no ódio e na exclusão. A desconstrução dos princípios socioambientais e o ataque deliberado a minorias não são apenas retrocessos políticos, mas sintomas de uma patologia profunda que ameaça a própria teia da vida e a dignidade humana.

Atualizado em 31/03/2026 às 19:03, por Dal Marcondes.

Ilustração japonesa sobre a exterminação do mal

Um das cinco pinturas japonesas do século XII que compõe a série "Exterminação do Mal"

Por Dal Marcondes*

Quando Hannah Arendt escreveu sobre a “banalidade do mal” ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, ela nos alertou para o perigo do burocrata zeloso, do cidadão comum que, ao abdicar do pensamento crítico, torna-se peça de uma engrenagem genocida. No entanto, o que testemunhamos neste primeiro quarto de 2026, sob a égide de uma nova ordem isolacionista e autoritária nos Estados Unidos — com profundos reflexos no Brasil e no mundo —, ultrapassa a banalidade. Estamos diante de uma crueldade programada, um exercício de humilhação que se tornou estratégia de poder.

A ruptura provocada pelo segundo mandato de Donald Trump, impulsionada por um ecossistema de bilionários donos das Big Techs, não é apenas um interregno na caminhada da humanidade. É uma tentativa deliberada de implodir os alicerces éticos construídos desde o pós-guerra. O abandono dos princípios ESG (Environmental, Social, and Governance), o deboche contra o movimento "woke" e a criminalização da diversidade são partes de uma esquizofrenia decisória que separa a biologia planetária da ideologia de mercado.

O Colapso da Governança Global

Em pouco mais de um ano de governo (2025-2026), o cenário global foi redesenhado pelo caos. A saída definitiva dos EUA do Acordo de Paris e o cancelamento da associação à Organização Mundial de Saúde (OMS) não foram apenas atos diplomáticos; foram abandonos de postos de cuidado com a vida. As propostas que outrora pareciam anedóticas — como a anexação simbólica de territórios e a mudança de nomes geográficos — serviram como cortina de fumaça para uma ofensiva real e violenta contra o tecido social.

Os principais aliados desse movimento não estão apenas nos gabinetes, mas nos algoritmos. As redes sociais deixaram de ser praças públicas para se tornarem arenas de linchamento e câmaras de eco de discursos xenófobos. Donald Trump e os donos das redes operam em uma simbiose tóxica: o poder político valida o ódio, e o ódio gera o engajamento que alimenta o lucro das plataformas.

A Anatomia do Ódio: O Caso das Mulheres Trans

A maior evidência de que não estamos diante de um mal "banal", mas de um mal "requintado", reside na política de gênero implementada nos presídios federais americanos. Sob a diretriz biológica simplista de que "só existem dois gêneros", o governo perpetrou um dos atos mais diabólicos deste século: a transferência compulsória de milhares de mulheres trans para presídios masculinos.

Esta decisão não é um erro administrativo; é uma condenação ao inferno de abusos, pânico e violência sexual sistêmica. Ao fazer isso, o Estado abdica de sua função de protetor para se tornar o agente da tortura. Não há como enquadrar essa ação em qualquer senso ético ou religioso que ainda preze pela humanidade. É um crime contra a humanidade perpetrado em rede nacional, celebrado por acólitos que confundem liberdade com o direito de oprimir.

O Custo Econômico da Intolerância

Em março de 2026, a economia dos Estados Unidos já começa a sentir as dores do seu isolacionismo. A perseguição implacável aos imigrantes — a força de trabalho que sustenta desde a agricultura até os serviços básicos — gerou um vácuo de produtividade e um choque inflacionário. O governo descobriu, da pior forma, que o ódio não colhe safras nem limpa hospitais. O contingente de pessoas que Trump quer expulsar é o mesmo que mantém o cotidiano do cidadão médio funcional. A "superioridade branca" imaginada por mentes distorcidas está produzindo, na prática, uma decadência sistêmica e um colapso de infraestrutura.

Essa esquizofrenia é o limite de um paradigma: tenta-se gerir uma nação moderna com uma mente fragmentada que enxerga seres humanos como estorvos e a natureza como um almoxarifado. Quando a bispa de Washington, Mariann Edgar Budde, apelou ao humanitarismo, foi rechaçada como "esquerdista radical". Isso demonstra que, para o poder atual, a empatia é vista como uma fraqueza ideológica, e não como o fundamento de qualquer civilização.

O Desafio da Resistência Ética

Os Estados Unidos nunca foram perfeitos; suas políticas imperialistas e intervenções militares são cicatrizes históricas conhecidas. No entanto, havia um verniz de civilidade, uma busca por legitimidade em fóruns internacionais. O governo que se consolidou em 2025 abandonou esse verniz. É escancaradamente xenófobo, misógino e negacionista.

Para nós, ativistas, jornalistas e pensadores da sustentabilidade, o momento exige mais do que indignação. Exige a reconstrução de uma Consciência Planetária. O mal que hoje se exerce com gozo na humilhação do outro é o mesmo mal que ignora o colapso climático.

Não podemos aceitar a crueldade como o "novo normal". O papel do jornalismo independente, neste cenário, é denunciar cada ato de barbárie, desmascarar o greenwashing das corporações que financiam esse ódio e manter viva a chama de uma utopia necessária. A história não é linear, e a resistência ética é a única força capaz de parar os ponteiros de um relógio que corre contra a vida.


* Dal Marcondes é pioneiro do jornalismo ambiental no Brasil e fundador do Instituto Envolverde. Com sólida trajetória na mídia econômica, traduz a complexidade sistêmica para o mundo dos negócios. Especialista em Ciência Ambiental (USP), atua no letramento de líderes e na curadoria de diálogos éticos. Tem a missão de mudar a "esquizofrenia decisória", reconectando a economia à teia da vida.


Dal Marcondes

Jornalista com especialização em economia, meio ambiente, sustentabilidade e ESG.

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