Brasileiros reconhecem a ameaça climática, desconfiam dos governos e têm dificuldade de mudar
Pesquisa realizada pelo instituto Market Analysis, com mais de mil entrevistados no Brasil, mostra que 82% dos brasileiros concordam que o aquecimento global é uma ameaça séria para a humanidade, percentual alinhado à média global (81%) e ligeiramente abaixo da média das Américas (85%). Na mesma direção, 77% acreditam que os desastres naturais, incêndios, enchentes e furacões aumentaram por causa das mudanças climáticas, também em linha com o cenário mundial (77%) e regional (81%).

PESQUISA ESPECIAL / OPINIÃO PÚBLICA
Mudanças Climáticas e Sustentabilidade no Brasil
Apesar do reconhecimento do problema, há uma tensão entre a intenção e a ação. 78% afirmam acreditar que suas ações pessoais podem trazer melhorias ao meio ambiente, em linha com a média global (77%) e abaixo da média das Américas (83%). Ao mesmo tempo, 67% admitem que gostariam de viver de forma mais sustentável, mas não adotam as mudanças necessárias em seus próprios comportamentos, o que reflete um hiato significativo entre os valores declarados e a prática cotidiana. Já 57% se dizem dispostos a pagar mais por produtos que cuidam do meio ambiente, também abaixo da média das Américas (71%) e do global (65%).
A responsabilidade pela ação climática é percebida como coletiva, mais do que individual. 54% concordam que os esforços reais precisam vir de empresas e governos, não de indivíduos, so que essa opinião está 14 pontos percentuais abaixo da média global (68%) e 10 pontos percentuais abaixo das Américas (65%), sugerindo que os brasileiros distribuem a responsabilidade de forma mais equilibrada entre os atores. Ao assumir mais responsabilidade individual e -proporcionalmente- culpar menos empresas e governo, se exonera esses últimos de obrigações da pressão e das soluções que deveriam implementar.
O ceticismo em relação aos governos é acentuado. Apenas 30% dos brasileiros acreditam que os governos estão tomando as medidas necessárias para cuidar do meio ambiente, bem abaixo da média global (46%). Mas persiste o otimismo sobre a possibilidade de soluções no futuro: apenas 31% concordam que já é tarde demais para conter as mudanças climáticas, percentual inferior ao global (42%), o que indica que a maioria ainda acredita que há tempo para agir.
Análise por Grupos Demográficos
Entre os grupos demográficos, as diferenças mais relevantes surgem em questões específicas. Quanto à percepção sobre desastres naturais, mulheres (80%) concordam mais do que homens (73%) que eles aumentaram devido ao aquecimento global. Dispostas a pagar mais por produtos sustentáveis, as mulheres (60%) superam os homens (54%). Por faixa etária, os mais velhos (55+) têm maior crença na eficácia da ação individual: 85% dos entrevistados com 55 anos ou mais acreditam que suas ações pessoais podem trazer melhorias, contra 73% entre os de 18 a 34 anos. A classe A se destaca negativamente pela desconfiança em relação aos governos: apenas 24% da classe A acredita que os governos estão agindo, o menor índice entre todos os grupos de renda.
Brasil e Meio Ambiente: quatro tendências históricas
1. Queda da agência: pessoal e de consumo
Em 2021, 91% dos brasileiros acreditavam que suas ações pessoais poderiam trazer melhorias ao meio ambiente, percentual que posicionava o Brasil acima da média global (80%) e entre os mais otimistas quanto à eficácia individual. Em 2026, esse número caiu para 78%, uma redução de 13 pontos percentuais que inverteu a posição relativa do Brasil: pela primeira vez, o país ficou abaixo do global (77%).
Essa inversão também ocorre no consumo: a disposição para pagar mais por produtos sustentáveis recuou de 75% em 2021 para 57% em 2026, uma queda de 18 pp, a maior variação registrada em todo o conjunto de perguntas feitas sobre o assunto. Também é muito superior à queda global registrada de disposição a financiar individualmente a sustentabilidade no ato da compra (−4 pp). Juntos, esses dois movimentos sugerem um enfraquecimento estrutural da crença de que as escolhas individuais têm impacto real.
2. Descrédito crescente nos governos
A confiança de que os governos estão tomando as medidas necessárias para o meio ambiente revela uma queda forte e contínua, ilustrando um preocupante ceticismo do brasileiro. O Brasil saiu de 37% de confiança em 2021 e furou o piso de 30% atingindo 29,5% em 2026, o menor nível nos últimos 5 anos. O contraste com os resultados globais é maiúsculo: enquanto o Brasil caiu, a média mundial se manteve estável com viés de suba, de 44% (2021) para 46% (2026). A brecha de confiança entre o resultado para o Brasil e o global chegou a 16 pontos percentuais em 2026, a maior distância registrada na série, e consolida um padrão de descrença institucional que atravessa governos e contextos.
3. Convergência com a média global na percepção da ameaça climática
Desde que iniciamos a medição de preocupações climáticas, o Brasil manteve um diferencial positivo em relação ao mundo na percepção do aquecimento global como ameaça séria: 92,5% em 2019, 92% em 2021, 88% em 2022, sempre entre 4 e 9 pontos acima do global. Em 2026, esse diferencial desapareceu: o Brasil marcou 82%, praticamente igual à média mundial de 81%. A queda brasileira foi de 11 pp entre 2019 e 2026, contra apenas 3 pp no global no mesmo período. Não se trata de negacionismo; a percepção da ameaça segue majoritária, mas há um claro processo de desgaste da narrativa e uma gradual assimilação de complacência que enfraquece o senso de urgência.
4. Aumento do pessimismo sobre reversibilidade
A proporção de brasileiros que concordam que 'já é tarde demais para conter as mudanças climáticas' passou de 20% em 2019 para 33% em 2022, recuando levemente para 30,5% em 2026. O saldo do período é um pessimismo em aumento de 10 pp, expressivo para uma variável que mede fatalismo climático. No resultado global, o movimento foi o oposto: um menor fatalismo, passando de 46% (2019) para 42% (2026). O Brasil ainda está abaixo da média mundial nessa questão, mas a distância com os achados de todos os outros países que antes era de 26 pp reduziu para 12 pp. Esse movimento, lido em conjunto com a queda na agência e no consumo sustentável, sugere um deslocamento da posição brasileira: menos convicção de que o problema pode ser revertido e menos disposição para agir como se pudesse.
Os quatro movimentos apontam na mesma direção: os brasileiros reconhecem o problema climático tanto quanto antes, mas, em 2026, acreditam menos que qualquer ator (eles próprios, as empresas ou os governos) tem capacidade ou vontade de resolvê-lo. É um deslocamento de engajamento para a resignação que a série histórica permite documentar. |
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Ficha técnica: Pesquisa online com 1.011 respondentes no Brasil, ponderada por região, sexo, idade e classe social. Público-alvo: população brasileira online com mais de 18 anos. O estudo faz parte do WIN Worldview Survey 2026 (WIN International), conduzido em 44 países.
O instituto *Market Analysis* é uma empresa brasileira de pesquisa de mercado e opinião pública, amplamente reconhecida por sua especialização em *sustentabilidade, responsabilidade social corporativa e comportamento do consumidor*. Sediada em Florianópolis (SC), a instituição destaca-se há anos por monitorar as atitudes da população e traduzi-las em dados estratégicos de alta credibilidade para o mercado. Como representante exclusiva no país da rede global *WIN International* (Worldwide Independent Network of Market Research), o instituto coordena no Brasil estudos de escala mundial, como o WIN Worldview Survey. Suas análises combinam rigor metodológico quantitativo e qualitativo para rastrear tendências históricas complexas, incluindo comportamentos ambientais e preocupações climáticas, confiança institucional e apoio a políticas de mitigação e adaptação
Market Analysis Brasil





