BYD Song Pro Flex chega com uma cara cada vez mais brasileira
𝙍𝙚𝙞𝙣𝙖𝙡𝙙𝙤 𝘾𝙖𝙣𝙩𝙤 - Lançamento no coração da produção canavieira paulista, reforça a aposta em uma mobilidade que combina eletrificação e um combustível renovável que o Brasil conhece há décadas

Por Reinaldo Canto* -
Há algo de especialmente simbólico quando um carro que pretende apontar caminhos para o futuro da mobilidade é apresentado justamente onde o passado e o presente da energia brasileira se encontram. Foi assim que a BYD escolheu o Museu da Cana, localizado na divisa entre as cidades de Pontal e Sertãozinho, no interior de São Paulo, para lançar oficialmente o novo Song Pro Flex.
A escolha do lugar não foi por acaso. Uma das principais regiões produtoras de cana-de-açúcar e etanol do país. E é justamente o etanol que ajuda a dar ao novo SUV uma característica que faz muito sentido para o Brasil: ele combina a propulsão elétrica com um motor flex, capaz de utilizar gasolina ou etanol.
Mais do que uma novidade da indústria automobilística, o Song Pro Flex representa uma tentativa de juntar duas competências brasileiras que, durante muito tempo, caminharam em trilhas separadas: a experiência acumulada com os biocombustíveis e a rápida chegada da eletrificação.
O resultado é o que a BYD chama de tecnologia DM-i Super Híbrida. O motor a combustão 1.5 litro trabalha em conjunto com o propulsor elétrico e, em boa parte das situações, atua como gerador de energia. A tração é predominantemente elétrica, proporcionando uma experiência de condução próxima à de um carro elétrico, mas sem abrir mão da possibilidade de abastecer em um posto convencional.
Um carro que conversa com a realidade brasileira
Talvez esse seja o principal mérito da novidade. Não se trata simplesmente de importar para o Brasil uma tecnologia desenvolvida para outro mercado e adaptá-la às pressas. O projeto do híbrido flex foi desenvolvido especificamente para as características brasileiras, envolvendo equipes de engenharia do Brasil, China e Alemanha.
Foram apenas dezoito meses de desenvolvimento da propulsão DM-i híbrido flex, com participação da nossa engenharia no Brasil, na China e na Alemanha
A fala ajuda a dimensionar o esforço, mas também revela uma mudança importante na relação da montadora com o mercado brasileiro. O país deixa de ser apenas um destino para veículos eletrificados produzidos em outros lugares e passa a participar do desenvolvimento de soluções específicas.
E, nesse caso, a solução brasileira tem nome e sobrenome: etanol.
A escolha faz sentido. O Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol e possui uma experiência de décadas com o combustível derivado principalmente da cana-de-açúcar. Na safra 2025/26, a produção brasileira de etanol deve chegar a cerca de 37,5 bilhões de litros, somando cana e milho.
É uma infraestrutura energética que não pode ser simplesmente ignorada em nome de uma transição tecnológica que pretende ser sustentável.
Ao contrário, aproveitar uma fonte renovável já consolidada pode ser uma das características mais interessantes da transição brasileira.
Eletrificação sem jogar fora o que já construímos
Existe uma tendência de imaginar a transição energética como uma substituição simples: sai o motor a combustão, entra o motor elétrico. A realidade, porém, costuma ser mais complexa.
No Brasil, onde existe uma das matrizes de combustíveis mais diversificadas do mundo e uma longa história de utilização de etanol, talvez a melhor estratégia seja justamente combinar tecnologias.
É isso que o Song Pro Flex propõe.
O consumidor pode utilizar a energia elétrica armazenada na bateria para deslocamentos cotidianos e, quando necessário, recorrer ao motor flex, principalmente em viagens ou localidades com pouca disponibilidade de carregadores elétricos. A possibilidade de abastecer com etanol acrescenta uma alternativa renovável a esse sistema e deixa o motorista mais tranquilo.
Não significa que um híbrido flex seja automaticamente um veículo de impacto ambiental zero — longe disso. Produção do veículo, fabricação das baterias, geração da eletricidade, produção do combustível e uso do automóvel precisam ser considerados em uma avaliação completa. Mas a possibilidade de combinar eletrificação com um biocombustível cuja produção contribui para a redução das emissões do setor energético é uma característica relevante na realidade brasileira. A própria Empresa de Pesquisa Energética reconhece o papel do setor sucroenergético na redução das emissões de gases de efeito estufa e estuda o potencial de expansão do etanol e de outros produtos energéticos derivados da cana.
É nesse ponto que o local escolhido para o lançamento ganha força simbólica.
Apresentar um carro movido também a etanol dentro do Museu da Cana é quase como estabelecer uma conversa entre diferentes gerações da tecnologia brasileira. De um lado, a história de um país que aprendeu a transformar cana em combustível. Do outro, uma indústria automobilística que aposta em baterias, motores elétricos e inteligência embarcada.
O futuro, nesse caso, não precisa necessariamente apagar o passado. Pode aprender com ele.
Mais tecnologia, conforto e eficiência
O novo Song Pro também chega com mudanças que vão além do sistema híbrido. A linha 2027 recebeu atualização visual, com nova dianteira, grade e para-choque, além de ajustes na suspensão para lidar melhor com as condições das ruas e estradas brasileiras.
“As atualizações foram pensadas para atender necessidades específicas do consumidor brasileiro”, explicou Alexandre Aquino, diretor de Produtos e Treinamento da BYD. Entre as novidades está o teto solar de série, além de melhorias na central multimídia e integração com o Google Automotive Service.
O SUV tem 4,74 metros de comprimento e oferece bom espaço interno para cinco ocupantes. O conjunto híbrido entrega 219 cv de potência combinada e 300 Nm de torque. A bateria é de 13,1 kWh na versão GL e 18,3 kWh na GS. Segundo os dados divulgados pela empresa, a autonomia elétrica pelo padrão PBEV do Inmetro chega a 57 quilômetros na GL e 72 quilômetros na GS, enquanto a autonomia combinada pode alcançar 1.105 quilômetros.
Os preços anunciados são de R$ 179.990 para a versão GL e R$ 199.990 para a GS.
São números que colocam o Song Pro em uma faixa competitiva entre os SUVs híbridos e mostram também como a eletrificação deixou de ser uma promessa distante para se transformar em uma disputa cada vez mais concreta no mercado brasileiro.
A sustentabilidade precisa sair do discurso
É justamente aí que vale olhar para o lançamento com um pouco mais de atenção.
A transição para uma mobilidade de menor impacto não será feita apenas com carros elétricos. Ela dependerá de um conjunto de soluções que considere infraestrutura, fontes de energia, biocombustíveis, transporte coletivo, eficiência, produção industrial e, principalmente, redução efetiva das emissões.
O Brasil tem uma vantagem que poucos países possuem: uma matriz energética relativamente renovável e uma enorme experiência com biocombustíveis.
Usar essa vantagem não significa abandonar a eletrificação. Ao contrário, pode significar encontrar uma maneira brasileira de fazer essa transição.

O Song Pro Flex nasce justamente dessa combinação.
E talvez por isso o lançamento nessa região tenha sido mais do que uma escolha cenográfica. No Museu da Cana, cercado pela história de uma das mais importantes cadeias produtivas brasileiras, um veículo híbrido plug-in flex representa uma espécie de encontro entre duas épocas.
A cana que durante décadas ajudou o Brasil a reduzir sua dependência da gasolina agora pode abastecer também uma nova geração de veículos eletrificados.
É uma boa lembrança de que inovação não precisa significar romper com tudo o que já foi construído. Às vezes, inovar é justamente saber combinar aquilo que temos de melhor com aquilo que está chegando.
E, para um país que produz tanto etanol, talvez seja mesmo bastante lógico que o caminho para uma mobilidade mais sustentável também passe pela bomba de álcool.
*O jornalista viajou a convite da BYD
Envolverde

Reinaldo Canto
Reinaldo Canto é jornalista, consultor e especialista em sustentabilidade, responsabilidade socioambiental e comunicação estratégica no Brasil. Com vasta trajetória dedicada às causas ecológicas, atuou como diretor de comunicação do Greenpeace Brasil e diretor no Instituto Akatu de Consumo Consciente, liderando iniciativas marcantes de engajamento público. Atua como palestrante, professor e colunista em veículos de imprensa relevantes, como o Portal Envolverde e a CartaCapital, onde analisa temas de emergência climática, agenda ESG e transição energética. É consultor para empresas e organizações do terceiro setor, apoiando o desenvolvimento de estratégias socioambientais e relatórios de sustentabilidade. Sua atuação o consolida como uma das vozes de referência no jornalismo ambiental brasileiro, promovendo o debate sobre governança e justiça climática.
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