Deter o tempo
𝙎𝙖𝙢𝙮𝙧𝙖 𝘾𝙧𝙚𝙨𝙥𝙤 - Algumas vezes tentamos. Há toda uma florescente indústria de adiar a velhice, e um marketing poderoso oferece receitas de longevidade saudavel.

por 𝙎𝙖𝙢𝙮𝙧𝙖 𝘾𝙧𝙚𝙨𝙥𝙤 -
Homens e mulheres buscam o tempo que se foi, o que perderam e até o que não viveram.
Em um livro que li há pouco - A Farmácia Mágica em Paris, colhi uma citação que ilustra essa compulsão humana, demasiado humana: "Sempre queremos conservar o tempo. Conservarmos as antigas versões daquelas pessoas que nos deixaram. E também mantermos essas antigas versões de nós mesmos, sob a pele, embaixo das camadas de rugas, experiências e risos".
Essa rebeldia em relação a um tempo que nos escapa, ou consome, se manifesta na maneira como celebramos a longevidade das gerações recentes e atual. Chamamos os quase idosos de "sexalescentes" e as mulheres "sem idade" de "perennials", nome que trai o nosso triunfalismo estéril diante de uma possível vitória (?) sobre o envelhecimento e a morte.
Umberto Eco chama a isso de exarcebação do 'homo hominni', diferente do humanismo e dos seus valores progressistas.
Em outras crônicas ou notas minhas aqui no FB tive ocasião de criticar o que chamo de 'presentismo' - ideologia perniciosa de foco excessivo no 'aqui e agora'.
Para os adeptos dessa espécie de mantra, o futuro não chegou e o passado não retorna: tudo o que temos é o agora.
Certamente parece lógico e até trivial. No entanto, o que nos distingue de outros animais é tanto a capacidade de projetar o futuro, imaginá-lo, e até modificá-lo, quanto a de recordar e rememorar, habilidade que nos permite auferir/conferir cada experiência vivida.
Recordar nos permite, além de reviver emocionalmente experiências que tivemos (boas e más) a possibilidade de aprender com os erros cometidos por nós ou pela sociedade, como foi o caso da escravidão, da opressão às mulheres, e da relação conflituosa que temos com as culturas que não compartilham as mesmas crenças ou "graus de civilização".
Só o aqui e o agora, a pele quente, o calor da experiência em curso, raramente permite a crítica ou a reflexão.
Há uma escola de pensamento na história da economia que afirma ser todas as guerras motivadas, no fundo, pela disputa por recursos naturais e fósseis: metais, petróleo, territórios para caça ou cultivo.
No presente e no futuro, com a "desmaterialização" da economia, as chaves de leitura são outras: acesso ou garantia de serviços ecossistêmicos (ar puro, rios não poluídos, evitar chuvas ácidas, catástrofes climáticas). Soma-se a isso a disputa de mercados (consumo) e de informação (sobretudo a de base tecnológica).
A História, com H maiúsculo está fluindo e seu sentido exige que aperfeiçoemos nossa medida do tempo e das coisas. Do global ao local, do jeito que vamos, estamos perigosamente nos tornando reféns de uma ampulheta defeituosa, aquela que não oferece nenhum padrão no qual possamos confiar ou atuar com eficiência. Uma ampulheta que nos coloca à deriva, ou mergulhados na ilusão nefasta de que poderemos deter o tempo.
Nossa geração está vivendo mais e isto é um fato. Mas estamos, no ganho desse tempo extra, resolvendo melhor nossos desafio? Estamos produzindo mais conhecimento, e esse conhecimento vem produzindo mais justiça? Mais bem estar?
Há um tempo do ser humano, um tempo na natureza, na história da Terra e até na dinâmica do Cosmo. Há descompassos terríveis entre esses tempos em nossa percepção de que tudo podemos.
Neste momento, só prestamos atenção no tempo da produção e do consumo. E o da fruição desse desse frenesi ilusório.
Exaustos estamos e 'sem tempo'. Nossa própria ilusão do tempo nos coloca à deriva: uma nau de insensatos.
Talvez alguns amigos que me acompanham por aqui pensem que seja apenas um 'papo cabeça ' de uma terça feira chuvosa. Pode ser.
Envolverde

Samyra Crespo
Samyra Crespo é historiadora, pesquisadora e uma das pioneiras mais expressivas do movimento ambientalista e da ecologia social no Brasil. Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), construiu uma trajetória marcante na articulação entre ciência, políticas públicas e engajamento da sociedade civil. Destacou-se ao conceber e coordenar por mais de duas décadas a pesquisa pioneira "O que o brasileiro pensa do meio ambiente", estudo fundamental para compreender a percepção pública sobre a pauta ecológica no país. Com participação decisiva na Eco-92 e na construção da Agenda 21 Brasileira, presidiu o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (2013–2016) e atuou como pesquisadora titular do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST). Integrou o Conselho do Greenpeace Brasil, esteve à frente do programa ambiental do ISER e foi professora visitante na Universidade de Colúmbia (EUA). Sua atuação segue como referência central para os debates de sustentabilidade, justiça socioambiental e governança democrática no Brasil.
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