Diálogos sobre Ciência e Natureza: Vilmar Sidnei Demamam Berna

O projeto Diálogos sobre Ciência e Natureza é uma iniciativa de extensão coordenada pelo Professor Dr. Geraldo Majela Moraes Salvio. Biólogo, doutor em Engenharia Florestal e professor do IFSUDESTEMG, Majela idealizou a série com um propósito claro: derrubar os muros da universidade e levar o conhecimento científico ao grande público. Através de entrevistas profundas, ele busca registrar a memória do ambientalismo brasileiro e discutir caminhos para uma nova ética civilizatória. Neste episódio desta série, Majela recebeu o jornalista e escritor Vilmar Berna, em uma conversa que se tornou um dos registros mais completos da filosofia e vida de Berna.

Atualizado em 16/03/2026 às 11:03, por Redação Envolverde.

Foto do jornalista e ambientalista Vilmar Berna

Resumo do depoimento do jornalista e ambientalista Vilmar Berna ao projeto Diálogos sobre Ciência e Natureza -

Sempre perguntam: quem nasceu primeiro, o jornalista ou o ambientalista? Para mim, são dimensões que se somam, embora funcionem de formas diferentes. O jornalista é o exercício profissional da informação, da busca pelo dado; o ambientalismo é o exercício pleno da cidadania. Ao longo de décadas, vivi momentos em que um precisou salvar o outro. Já usei a força do ambientalista na justiça para abrir as portas de usinas nucleares em plena ditadura, e já usei o rigor do jornalista para não cair em "pegadinhas" de denúncias falsas que serviriam apenas a interesses políticos.

Minha trajetória não começou pela ecologia, mas pelo pacifismo e pelo humanismo. Fui um jovem que cresceu sob a ditadura militar e que, aos 14 anos, conheceu o sistema prisional. Pode parecer estranho, mas a prisão foi onde me formei; na solitária, eu tinha acesso à biblioteca e mergulhei na leitura. Meu despertar ambiental veio de um olhar: durante uma caçada com padres salesianos, onde eu me recusava a pegar em armas, vi um "ratão-do-banhado" com seus filhotes. Aquele contato visual mudou tudo. Espantei a caça, parei o passeio e, pouco depois, ao ler a famosa carta do Cacique Seattle, encontrei a fundamentação ética que guiaria o resto da minha vida.

Assista à entrevista/depoimento mediado pelo professor Geraldo Majela com o jornalista e amabientalista Vilmar Berna no âmbito do projeto Diálogos sobre Ciência e Natureza


A Luta e o Legado

Atuei no mercado editorial por anos, mas a causa ambiental foi ocupando cada vez mais espaço. Do ativismo de rua em São Gonçalo, lutando contra lixões em manguezais e depósitos de resíduos tóxicos, passei para a formulação de políticas públicas. Tive a honra de ajudar a escrever o capítulo de Meio Ambiente da Constituição de 1988 e de criar leis fundamentais, como a que garante o direito de permanência de povos tradicionais em unidades de conservação. Não acredito em defender plantas e bichos passando por cima de seres humanos.
Entendi, com o tempo, que o movimento ambiental precisava se profissionalizar. Saímos da academia nos anos 70, ganhamos as ruas nos anos 80 e a gestão pública nos anos 90. Fundei a Rebia (Rede Brasileira de Informação Ambiental) porque percebi que a mudança civilizatória depende de quatro pilares:

Informação de qualidade (para combater a poluição das fake news);

Educação Ambiental (para trabalhar valores e ética);

Ativismo (colocar a mão na massa, pois só saber não transforma);

Engajamento Geracional (preparar quem vem depois, pois nossa luta é como a construção de uma catedral medieval: leva séculos).


O Protocolo e as Baleias

Um dos momentos mais marcantes dessa jornada foi em 1999, quando recebi o Prêmio Global 500 da ONU, no Japão. Disseram-me que eu não poderia falar nem olhar para o Imperador. Ora, eu não atravessei o mundo para ser desrespeitado na casa de um anfitrião. Mais do que isso, eu tinha uma missão: o Japão pressionava para aumentar a cota de caça às baleias.

Escrevi uma carta pessoal ao Imperador, apelando não ao Chefe de Estado, mas ao estudioso da vida marinha que ele é. Quebrei o protocolo, entreguei o documento e dialoguei. A ONU ficou desesperada, tentaram até cassar meu prêmio, mas o resultado veio: a campanha japonesa recuou e milhares de baleias foram salvas. Para um ambientalista, o maior prêmio não é um troféu na estante, é a vida que continua pulsando na natureza.

A Escolha de Ser Feliz

Hoje, aos 50 anos de estrada, vejo que enfrentamos uma crise que é maior que a ambiental: é uma crise civilizatória. O ser humano ainda se acha o centro do universo, quando, na verdade, somos apenas a "natureza que se tornou consciente de si mesma".

Muitos jovens se sentem desesperançados diante de um modelo de desenvolvimento que gera miséria para sustentar o luxo de poucos. Mas eu fiz uma escolha: eu escolhi ser feliz. E ser feliz não é viver alienado; é explorar ao máximo minhas potencialidades para transformar a realidade. A felicidade está no propósito, na luta e na certeza de que estamos colocando o alicerce para que as próximas gerações possam levantar as paredes e o teto de um mundo mais justo, fraterno e sustentável.

A luta mal começou. E nós não viemos a este mundo a passeio.

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Vilmar Sidnei Demamam Berna foi um dos mais influentes jornalistas e ambientalistas do Brasil, reconhecido por sua dedicação incansável à causa ecológica e à educação ambiental.

Trajetória e Legado

Nascido em Porto Alegre (RS), mas radicado em Niterói (RJ), Berna fundou a Rebia (Rede Brasileira de Informação Ambiental) e o Jornal do Meio Ambiente, sendo um pioneiro no jornalismo dedicado exclusivamente à sustentabilidade. Ao longo de sua carreira, escreveu mais de 20 livros, como o célebre O Tribunal dos Bichos, focados em transformar o "ecologês" em uma linguagem acessível para cidadãos e estudantes.

Em 1999, sua luta ganhou projeção internacional ao receber o Prêmio Global 500 da ONU, entregue pelo imperador Akihito, no Japão. Na ocasião, protagonizou um episódio histórico ao quebrar o protocolo para cobrar pessoalmente do monarca o fim da caça às baleias pela frota japonesa.

Falecimento

Vilmar Berna faleceu em 2 de abril de 2021, aos 64 anos, em Niterói (RJ), em decorrência de complicações causadas por uma pneumonia grave no contexto da pandemia. Seu legado permanece vivo através da Rebia e das gerações de jornalistas e ativistas que ele inspirou a ver a ecologia como uma extensão da própria cidadania.

Envolverde


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