Entre o afeto e a omissão: por que ignoramos os animais que não vivem dentro de casa?

Reinaldo Canto - A comoção foi imediata. O caso do cachorro Orelha mobilizou redes sociais, gerou indignação coletiva e pressionou autoridades. Não é um episódio isolado — sempre que um cão ou gato sofre maus-tratos, a reação da sociedade brasileira costuma ser rápida, intensa e, muitas vezes, eficaz. Mas há uma pergunta incômoda que insiste em aparecer: por que essa mesma sensibilidade desaparece quando falamos de animais silvestres ou de produção?

Atualizado em 31/03/2026 às 16:03, por Reinaldo Canto.

Imagem com vários tipos de animais de criação

Por Reinaldo Canto

Os dados mais recentes ajudam a explicar esse paradoxo — e também a escancará-lo. A segunda edição do relatório Termômetro Animal, da ONG Alianima, revela que o Congresso Nacional até ampliou o número de projetos relacionados à causa animal em 2025. Foram 274 propostas na Câmara dos Deputados, sendo 198 classificadas como positivas. À primeira vista, parece um avanço. Mas basta olhar com mais atenção para perceber que o progresso tem dono: metade dessas iniciativas trata exclusivamente de animais de companhia, como cães e gatos, chamados comumente de pets.

Enquanto isso, os animais de produção — frangos, suínos, bovinos — e os silvestres seguem em segundo plano. Pior: são justamente eles os mais afetados por propostas negativas. Dos projetos com teor desfavorável, 40% atingem animais de fazenda e 22% dizem respeito à fauna silvestre ou exótica. É como se, fora do círculo afetivo doméstico, o sofrimento animal perdesse qualquer relevância política ou social.

Essa desigualdade também cresceu. Em 2024, havia 23 projetos negativos; em 2025, o número saltou para 50. No caso dos animais silvestres, a proporção de propostas prejudiciais mais que dobrou, passando de 9% para 22%. Um dos exemplos mais emblemáticos foi o avanço de projetos ligados ao manejo e à caça de javalis, tema que ganhou audiência pública na Comissão de Agricultura da Câmara em agosto do ano passado.

Não se trata apenas de quantidade, mas de prioridade. Entre as 412 proposições analisadas em tramitação, apenas 43 envolvem animais silvestres. E, no caso dos animais de produção, o desequilíbrio é ainda mais evidente: somente 10 projetos tiveram avanços positivos, contra 29 negativos.

O Congresso, nesse sentido, funciona como um espelho da sociedade. O que mobiliza votos e engajamento ganha espaço. O que não sensibiliza, fica para depois — ou sequer entra na pauta. E é justamente aí que mora o problema.

Cães e gatos compartilham nossos afetos

É compreensível que a relação afetiva com cães e gatos gere empatia imediata. Eles compartilham nossas casas, nossas rotinas e, muitas vezes, nossos afetos mais profundos. Mas isso não pode servir como régua única para medir o valor da vida animal. Um javali, uma ave silvestre ou um porco em sistema intensivo de produção não sofrem menos apenas porque estão longe dos nossos olhos.

Há, claro, avanços importantes. Leis recentes proibiram tatuagens e piercings estéticos em cães e gatos, vetaram testes em animais para cosméticos e instituíram campanhas de saúde animal. São conquistas relevantes — mas ainda concentradas no universo doméstico.

Enquanto isso, temas mais complexos, como bem-estar na cadeia produtiva e proteção da fauna brasileira, seguem enfrentando resistência política, econômica e cultural. Como destaca Ícaro Silva, da Alianima, o avanço legislativo “não é homogêneo” e exige mais do que boas intenções: demanda debate técnico, pressão social e engajamento contínuo.

Com as eleições de 2026 no horizonte, a pauta animal tende a ganhar visibilidade nos discursos. Mas há um risco evidente de que isso se traduza apenas em promessas fáceis — aquelas que rendem aplausos rápidos — e não em mudanças estruturais.

No fundo, a questão é menos sobre política e mais sobre coerência. Não se trata de diminuir a importância da proteção aos animais domésticos, mas de ampliar o olhar. De entender que o bem-estar animal é um tema transversal, que envolve ética, meio ambiente, saúde pública e até economia.

A indignação seletiva pode até aliviar a consciência, mas não resolve o problema. Enquanto continuarmos tratando o sofrimento animal como algo que depende de proximidade emocional, seguiremos avançando de forma desigual — e, no limite, injusta.

O Brasil abriga uma das maiores biodiversidades do planeta. Mas proteger essa riqueza exige mais do que carinho por cães e gatos. Exige coragem para olhar também para aquilo que não é tão bonito, tão próximo ou tão conveniente.

Porque, no fim das contas, compaixão que escolhe alvo não é compaixão — é preferência.
 


Envolverde


Reinaldo Canto

LONG BIO Jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente, diretor de projetos especiais do Instituto Envolverde. LONG BIO Jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente, diretor de projetos especiais do Instituto Envolverde. LONG BIO Jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente, diretor de projetos especiais do Instituto Envolverde. LONG BIO Jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente, diretor de projetos especiais do Instituto Envolverde. LONG BIO Jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente, diretor de projetos especiais do Instituto Envolverde.

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