Etarismo como política de Estado
𝗝𝘂́𝗹𝗶𝗼 𝗢𝘁𝘁𝗼𝗯𝗼𝗻𝗶 - As reflexões e informações que seguem neste texto estão longe de serem oriundas de uma obra de distopia ficcional ou uma teoria conspiratória, dessas que surgem para justificar qualquer situação cotidiana. Mas uma avaliação de números, fatores e observações jornalísticas e sociais, além de econômicas, de como o sistema atual pode subverter a realidade – já penosa – e transformá-la em dramática e criminosa.

Por 𝗝𝘂́𝗹𝗶𝗼 𝗢𝘁𝘁𝗼𝗯𝗼𝗻𝗶, especial para a Envolverde -
Na construção deste artigo, se chega logo a uma conclusão: aposentadoria deixou de ser direito para se tornar um privilégio. O Estado brasileiro quer e precisa desta ruptura para manter seus vícios e distorções ativos. O déficit da Previdência Social em 2024 foi de R$ 416,8 bilhões, o que representa 3,45% do PIB, segundo o Instituto de Longevidade MAG. O aumento do déficit é consequência de fatores demográficos, como o envelhecimento da população e a queda na taxa de natalidade. E as projeções de que as receitas da Previdência pública não serão suficientes para cobrir as despesas futuras.
“A loucura em indivíduos é rara, mas em grupos é a regra”. AUTOR
O futuro é o trabalho sem fim
O futuro será, literalmente, morrer de trabalhar. Com o fim da CLT, da Justiça Trabalhista e qualquer possibilidade que interfira na criação do “Estado Mínimo” para muitos e “Estado Máximo” para poucos. Essa é a sombra mais nefasta de um capitalismo exercido com seus ranços escravocrata, baseada em muito na necropolitica.
Entretanto, grande parte da sociedade não morrerá de exaustão dentro de uma empresa ou estrutura estatal, mas na informalidade a partir dos 45 anos. A distopia está longe de existir apenas na ficção. Aliás, ela é mais presente na realidade que em muita obra ficcional. Essa é uma entre várias conclusões que se chega ao buscar informações e a lógica que sustenta o ETARISMO.
Sim, há uma lógica perversa, distópica e alicerçada na conjuntura de Estado. E não é teoria da conspiração, muito longe disto. É política de Estado para manter um sistema falido, carcomido e reacionário em sua essência, que reserva benesses a poucos e segrega milhões. A longevidade do homem atual está intimamente ligada à sua capacidade produtiva e sua permanência dentro do sistema. E isso vai além das fronteiras nacionais.
O etarismo no ambiente profissional
O primeiro ponto a ser observado é o tempo que o preconceito etário se instalou na sociedade. Não faz tantos anos assim, como somos induzidos a pensar. Vejo isso na minha trajetória pessoal com jornalista. Ingressei em meados dos anos 80 na imprensa e conhecia e admirava profundamente os profissionais mais velhos das redações. Ter um ‘mestre’ ao seu lado no jornalismo era mais que um aprendizado, era a possibilidade de entender-se aprendiz, um exercício de superação diária. Não havia chance de se ter preconceito contra esses professores.
Tive essa felicidade de aprender com 'gente muito velha de redação', lotada de experiências e histórias fantásticas. Algo que hoje é ignorado, alguém com 10 anos de jornalismo já se considera um profissional sênior. Risível.
O preconceito contra o idoso tem total relação com a crise previdenciária, com a péssima gestão que o Estado faz de suas responsabilidades. Me recordo dos movimentos para o ingresso do jovem, muitas vezes ainda adolescente, no mercado de trabalho. Renovação é necessária, evidente. A mesclagem de várias faixas etárias apresenta resultados positivos, sem dúvida. Mas quando isso passa a se transformar num mecanismo de mera substituição, começa a complicar. E isso foi proposital. Pensado e calculado para se marginalizar o profissional a partir de uma determinada faixa etária.
Note que o etarismo sempre avança sobre faixas etárias cada vez menores, criando uma pressão absurda em quem está empregado. E cria uma pressão contrária em quem está desempregado, que se esforça para ingressar no sistema a todo custo.
As sucessivas reformas na Previdência
Desde a segunda metade do século passado, as reformas previdenciárias começaram a ocorrer em prazos curtíssimos. Os burocratas do sistema passaram a calcular o ‘custo’ do aposentado e dificultar ao máximo que o trabalhador conseguisse chegar ao benefício. Basta ver a escalada nas idades, tanto para o homem quanto à mulher. Agora o Congresso aprecia uma nova reforma que equaliza as idades em 67 anos.
Mas como subir a idade para aposentar se o profissional não consegue alcançar nem os 50 anos dentro de uma empresa, contratado e recolhendo a contribuição previdenciária? E quem está fora do mercado e não consegue se recolocar exatamente por causa da idade?
Num país que não se contrata ninguém 50 + e apenas 6% das empresas tem em seus quadros alguém acima desta idade, aumentar ainda mais a faixa etária (alguma idade entre 65 e 70 anos) tornará o benefício inalcançável. Algo inviável pela falta do tempo de contribuição. E isso é proposital, pois a arrecadação previdenciária é falha e os burocratas sabem disto. As projeções mostram que menos de 10% dos trabalhadores conseguirão se aposentar nesta distopia repleta de dor e tragédia.
Os ataques aos serviços de assistência
Basta cruzar as informações que circulam diariamente pelos noticiários e falas de governantes e agente do Estado. Não precisa de muito para perceber como se criou uma armadilha tosca e grosseira para abrandar as custas previdenciárias e lançar milhões na mais completa miséria e subemprego. E isso é em função do quanto o indivíduo, já totalmente desumanizado e elencado quanto sua capacidade produtiva, conseguir trabalhar. Mas vem a pergunta necessária: isso não sobrecarregaria os outros serviços do Estado, como da saúde? Quem lhe disse que esse será um serviço estatal dentro dos próximos anos? Veja como o SUS é atacado e sucateado. Exatamente como o INSS e a CLT.
Há pouco mais de um século o mundo dos negócios, que chamamos economia, provou sua eficiência em criar as mais terríveis situações para ‘prosperar’ e manter milhões sob domínio de uma casta, uma elite totalmente insensível a condição do outro. A propósito, o outro não existe, como em qualquer sistema escravista. Se o desenvolvimento civilizatório fosse a busca pela igualdade não se necessitaria de leis trabalhistas, discussões sobre direitos e moderações nesta atividade social - que deveria ser meio e não o fim. Para consolidar e normalizar essa situação, o etarismo é a ferramenta principal.
A distorção etária no trabalho
Por mais bárbaro que pareça, por mais degradante, inexiste qualquer ação efetiva para se corrigir a enorme distorção etária dentro das empresas. Pois o etarismo é fundamental para se manter o sistema econômico inalterável. E o pior, a estratificação social será aprofundada ano após ano. O que não se projetava neste cenário era uma geração que tem promovido uma ruptura neste processo, que resiste em se adequar ao modelo que foi imposto aos seus pais, avós e bisavós.
Surgiu uma ponta solta num imenso novelo da inflexibilidade, da marginalização dos que não querem aderir ao mecanismo da imensa engrenagem econômica. Ao mesmo tempo que o modelo implementado não faz concessões aos milhões que só buscam sobreviver e ficaram invisíveis para o mercado. Beira ao paradoxo! Não, beira a insanidade.

Júlio Ottoboni - Pós em Jornalismo Científico (1ª turma do país ) – Analista de Comunicação e Gestão de Crise. 40 anos de atuação nos jornais e revistas como repórter nacional, entre eles os jornais O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Agência Estado, Vejinha, Scientific American do Brasil, Gazeta do Povo, Gazeta Mercantil e DCI. Tem livros publicados e contos em diversas coletãneas de lingua portuguesa. Estuda a vida e obra do poeta modernista Cassiano Ricardo.
Tem vários cursos no setor de ciências e tecnologia, mudanças climáticas, desastres naturais, sensoriamento remoto e aquecimento global, astronomia e astrofísica no INPE, ITA, ONU, Cemaden, FAAP, Observatório Nacional, Cptec, FGV etc. Foi professor universitário. Atuou também como gestor de crise de imagem institucional em comunicação.
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Júlio Ottoboni
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