Jornalismo: da paixão idílica à utopia existencial

Dal Marcondes - Minha relação com o meio ambiente começou como uma paixão idílica e visceral. Quando criança, troquei o asfalto de São Paulo pelo chão de Goiás; aprendi a nadar em rios, a andar a cavalo e a colher a fruta no pé. Mais tarde, em 1974, a Amazônia me apresentou a força bruta e a delicadeza da floresta no Pará e no Maranhão. No entanto, foi nas redações de economia que essa paixão encontrou sua estrutura racional: compreendi que as questões ambientais são, essencialmente, dilemas econômicos.

Atualizado em 31/03/2026 às 17:03, por Dal Marcondes.

Foto de Dal Marcondes navegando no Rio Tapajós

Navegando pelo rio Tapajós depois de uma visita à FLONA TAPAJÓS e projeto do Saúde & Alegria

Por Dal Marcondes*

Ao longo de décadas como editor de economia em veículos como a Gazeta Mercantil, DCI, Dinheiro Vivo e Egência Estado, percebi que cada problema socioambiental que enfrentamos — da crise climática à poluição urbana — tem origem em decisões de caráter estritamente financeiro. Quando fundei a Envolverde em 1995, muitos colegas julgaram que eu estava jogando uma carreira promissora no lixo. Hoje, em 2026, vejo que apenas antecipei o óbvio: no futuro (que é o agora), o único jornalismo econômico possível é o jornalismo ambiental.

O "Apartheid" Sanitário e a Obra Enterrada

Um dos desafios que mais me inquietam nesta jornada é o saneamento básico. Em pleno 2026, ainda vivemos o que chamo de apartheid sanitário. O Brasil é definido por quem tem e quem não tem acesso a água tratada e esgoto. É um cenário assustador: mesmo com os avanços do Novo Marco Legal, nossos ecossistemas ainda recebem diariamente volumes monumentais de efluentes sem tratamento.

Para a classe política tradicional, o esgoto é a "obra enterrada" que não rende votos, uma mentira histórica que serve para desviar recursos para "bonitezas" superficiais que encantam eleitores que já possuem torneira e chuveiro. A mídia, muitas vezes, dá atenção marginal a esse tema, esquecendo que nenhum país desenvolvido chegou lá sem antes resolver o básico. A dignidade humana escorre pelo ralo enquanto discutimos tecnologias de ponta, esquecendo que o fundamento da civilização é a saúde sistêmica.

Educação Ambiental: Para Além da Reciclagem

Nesse contexto, a Educação Ambiental e a Informação Ambiental são faces da mesma moeda. Tenho defendido que a educação ambiental é o instrumento necessário para decodificar a complexidade para a tomada de decisão. É muito mais do que separar o lixo ou plantar uma flor; é um processo de alfabetização para a vida.

O analfabeto ambiental passará a existência tomando decisões baseadas no desconhecimento e na incapacidade de cognição com o entorno. Já o cidadão — e o líder — que possui uma educação ambiental de qualidade consegue enxergar a teia de relações. Ele entende que o custo do produto na prateleira está conectado à saúde da bacia hidrográfica a mil quilômetros de distância.

Jornalismo vs. Militância

É vital mantermos a distinção: o jornalista ambiental trabalha com dados, fatos, pluralismo e transparência; o militante trabalha com a causa. Nosso papel na Envolverde é tornar transparentes os critérios de cada decisão e seus impactos. Onde há opacidade, o jornalismo deve lançar luz.

Nesta era de modelagem digital e inteligência artificial, o jornalismo nativo digital tem uma responsabilidade estrutural. Não basta apenas informar; é preciso sustentar um ecossistema de confiança em meio a um mar de desinformação programada. A Envolverde, como o projeto de jornalismo digital mais antigo ainda em operação no Brasil, sobreviveu e floresceu porque nunca parou de se reinventar, mantendo a relevância dos temas sistêmicos sobre o ruído do factual superficial.

Uma Espécie na Infância

Estamos vivendo um período decisivo. Em 2026, temos a ciência e a tecnologia para tornar o futuro um bom lugar, mas nos falta, muitas vezes, a maturidade ética. Gosto de lembrar que a humanidade é uma espécie ainda na infância. Temos menos de 5 mil anos de civilização organizada; o automóvel tem pouco mais de um século e o smartphone apenas duas décadas.

Há espécies na Terra que estão aqui há milhões de anos. Temos muito a aprender com a sabedoria biológica do planeta. Nossas decisões cotidianas — o que consumimos, como investimos e como votamos — nos dirão se teremos a maturidade de evoluir do "Eu" para o "Nós" planetário. O tempo do relógio é curto, no entanto a capacidade humana de despertar para a interdependência é a nossa maior esperança.


Dal Marcondes é pioneiro do jornalismo ambiental no Brasil e fundador do Instituto Envolverde. Com sólida trajetória na mídia econômica, traduz a complexidade sistêmica para o mundo dos negócios. Especialista em Ciência Ambiental (USP), atua no letramento de líderes e na curadoria de diálogos éticos. Tem a missão de mudar a "esquizofrenia decisória", reconectando a economia à teia da vida.


Dal Marcondes

Jornalista com especialização em economia, meio ambiente, sustentabilidade e ESG.

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