Mídia e Economia: A Sustentabilidade e o Colapso do Modelo de Consumo

𝘿𝙖𝙡 𝙈𝙖𝙧𝙘𝙤𝙣𝙙𝙚𝙨 - Movimentar a economia por meio do consumo desenfreado foi uma decisão política e social tomada no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, parecia a solução para evitar uma nova Grande Depressão; hoje, sabemos que serviu apenas para acelerar a degradação dos sistemas vitais do planeta. A grande questão hoje não é mais se o modelo vai mudar, mas se a mídia terá coragem de liderar essa transição ou se continuará sendo o último baluarte de um sistema em falência.

Atualizado em 04/07/2026 às 12:07, por Dal Marcondes.

Uma mão feita de elementos da natureza cumprimentando uma mão humana.

Por Dal Marcondes* - 

Neste primeiro quarto do século XXI, a humanidade ultrapassou a marca de 8,2 bilhões de habitantes. O debate sobre os limites da atividade econômica deixou de ser uma preocupação de "eco-xiitas" para se tornar o centro do risco fiscal e corporativo global. O antigo modelo — extração, produção, consumo e descarte — é uma linha reta em um planeta esférico e finito.

O conflito reside no fato de que o financiamento da informação ainda está umbilicalmente ligado a esse ciclo. A publicidade e o marketing, que sustentam as redações desde o século passado, são as ferramentas de indução desse consumo. Vivemos, portanto, um dilema ético e existencial: como o jornalismo pode denunciar a insustentabilidade do sistema se o seu salário é pago pela publicidade que convence o público a consumir cada vez mais?

O Direito à Informação e o "Custo por Mil"

A Constituição Brasileira de 1988, em seu Artigo 5º, garante a liberdade de expressão e o acesso à informação como preceitos fundamentais. Entretanto, o direito à informação no Brasil carece de garantias de sustentabilidade econômica que não passem pelo mercado publicitário tradicional.

A imunidade tributária sobre o papel (hoje estendida a suportes digitais) foi um avanço, mas o modelo de negócio das empresas jornalísticas ainda persegue o "Custo por Mil" (CPM). Nessa métrica, quanto maior a massa atingida, mais valioso é o espaço. Isso cria um incentivo perverso para o "caça-cliques" e para conteúdos superficiais que não desafiam o status quo do consumo, uma vez que a reflexão crítica costuma ser menos lucrativa que o entretenimento passivo.

As Duas Vertentes do Jornalismo Contemporâneo

  1. A informação que o público quer saber: Segue o caminho fácil dos algoritmos, das polêmicas vazias e do reforço à identidade de consumo. É o modelo que as marcas adoram financiar, pois o ambiente é "seguro" e acrítico.
  2. A informação que o público precisa saber: Trata da ética, da justiça climática e da desconstrução de paradigmas. Este modelo enfrenta dificuldades de financiamento, pois questiona a própria base da sociedade de consumo.

O Fantasma de Victor Lebow e a Obsolescência Programada

Para entender como chegamos aqui, precisamos olhar para 1945. O consultor de varejo norte-americano Victor Lebow profetizou: "Nossa economia requer que façamos do consumo o nosso modo de vida... precisamos de coisas consumidas, destruídas, gastas e descartadas numa taxa continuamente crescente".

Essa profecia tornou-se a nossa prisão. Em 2026, a obsolescência não é apenas física (o celular que para de funcionar), mas psicológica. A moda "ultra-fast fashion" e os dispositivos eletrônicos descartáveis geram montanhas de resíduos que o planeta não consegue processar. Como aponta o economista Ladislau Dowbor, planejamos a sociedade de consumo, e agora precisamos — urgentemente — planejar a economia que vai desconstruir essa armadilha.

A Falácia do Mercado e a Necessidade de Planejamento

Ainda persiste, inclusive em setores da mídia, a crença quase religiosa de que "o mercado" encontrará soluções para todos os dilemas ambientais através da tecnologia. No entanto, as curvas de crescimento do PIB global versus a extinção de espécies e as emissões de carbono mostram que a eficiência tecnológica sozinha não basta.

Os carros de hoje são mais eficientes que os de 1970, mas temos bilhões de veículos a mais nas ruas. Como explica o professor Ricardo Abramovay, a ecoeficiência na produção é anulada pela aceleração do volume de consumo.

O Negacionismo Climático e a Mídia

Estudos clássicos do Instituto Reuters já mostravam que, em países como EUA e Reino Unido, a mídia deu voz desproporcional a céticos do clima por décadas, sob o pretexto de "ouvir os dois lados". No Brasil, embora o negacionismo explícito tenha perdido força nas grandes redações, ele foi substituído por um "negacionismo por omissão": fala-se do desastre climático (a enchente, a seca), mas raramente se aponta a conexão direta entre o lucro recorde de setores poluentes e a tragédia humana.

O Escândalo da Desigualdade

A sustentabilidade é indissociável da justiça social. Em 2026, os 1% mais ricos do planeta emitem mais carbono do que os 50% mais pobres. A desigualdade não é um "acidente" do sistema, mas uma métrica de sucesso para quem olha apenas para o valor das ações em bolsa.

Se nos anos 1950 a diferença salarial entre um CEO e um operário era de 50 vezes, hoje essa disparidade ultrapassa a marca de mil vezes em diversas corporações globais. O planejamento do uso de recursos naturais precisa ser redirecionado para garantir direitos universais — água, saneamento, educação e energia — para todos os 8 bilhões, e não apenas para o topo da pirâmide. Como dizia Luiz Pinguelli Rosa, planejar a energia com décadas de antecedência é aceito, então por que planejar a justiça social ainda é visto por alguns como uma heresia econômica?

A Revolução da Vanguarda: Das "Diretas Já" à "Sustentabilidade Já"

A mídia nunca assume posições de vanguarda por vontade própria; ela reflete os padrões da sociedade. No entanto, os movimentos de mudança sempre começam nas margens. Assim como a mídia alternativa brasileira desafiou a ditadura nos anos 70 e 80, hoje as mídias nativas digitais e os veículos especializados em sustentabilidade desafiam a "ditadura do PIB".

O portal Envolverde, desde 1998, é parte dessa guerrilha informativa. Hoje, vemos com otimismo que os cadernos de economia dos grandes jornais começam a incorporar métricas de ESG (Ambiental, Social e Governança), mas é preciso cautela para que isso não se torne apenas greenwashing editorial.

O Brasil em 2026: A Oportunidade da COP30 e Além

O Brasil vive uma janela de oportunidade única. Com a realização da COP30 em Belém, o país foi colocado no centro da governança climática global. Não podemos cometer o erro do passado de investir bilhões em eventos esportivos (como na década de 2010) sem deixar um legado de eficiência e sustentabilidade.

Atualmente, o consumo de matéria-prima global chega a 9 toneladas anuais por pessoa. Para um mundo de 9 ou 10 bilhões de habitantes, esse número precisará cair para 5 ou 6 toneladas. O Brasil, com sua matriz energética limpa e biodiversidade incomparável, tem o dever de ser o laboratório dessa nova economia, focada em cultura, biociência, educação e conhecimento, em vez da dependência excessiva na exportação de commodities brutas.

O Papel Estruturante do Jornalista

Para que essa transformação ocorra, os meios de comunicação devem assumir seu papel de educadores sociais. O paradigma do capitalismo pressupõe que os agentes tomam decisões baseadas em informações de qualidade. Se a informação que chega ao consumidor é incompleta, enviesada ou puramente comercial, as decisões econômicas da sociedade serão desastrosas.

O jornalismo não deve ser isento em relação ao futuro da vida. A escolha de uma pauta carrega um viés ideológico — e escolher a pauta da sustentabilidade é escolher a pauta da sobrevivência humana. Devemos descartar a fantasia da neutralidade quando o que está em jogo é o equilíbrio térmico e biológico do nosso único lar.

O compromisso do jornalista em 2026 deve ser a busca pela verdade complexa. O planejamento e o compromisso com resultados socioambientais não são inimigos da livre iniciativa; são as únicas formas de garantir que haverá um mercado, um planeta e uma sociedade para os jornalistas do futuro noticiarem.

Dal Marcondes é jornalista, fundador e diretor da Agência Envolverde. Com mais de 40 anos de carreira, é mestre em Produção Jornalística e especialista em Ciência Ambiental. Foi premiado diversas vezes por sua liderança no jornalismo de sustentabilidade no Brasil.

Envolverde


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