O Ativo Silencioso: O Capital Ambiental e a Estratégia de Longo prazo do Brasil - Artigo 13

𝙁𝙚𝙧𝙣𝙖𝙣𝙙𝙤 𝙁𝙞𝙜𝙪𝙚𝙞𝙧𝙚𝙙𝙤 - Quando avaliamos a riqueza de uma nação, natural olharmos para indicadores financeiros tradicionais, como o PIB, IDH dentre outros. No entanto, o Brasil possui um patrimônio que não costuma aparecer nos balanços contábeis convencionais, simplesmente porque não tem voz ativa no mercado: 𝗼 𝗻𝗼𝘀𝘀𝗼 𝗖𝗮𝗽𝗶𝘁𝗮𝗹 𝗔𝗺𝗯𝗶𝗲𝗻𝘁𝗮𝗹. A nossa mega biodiversidade e a variedade de nossos biomas são um patrimônio ecológico do nosso País e deste Planeta. Ela representa uma fronteira de inovação, desenvolvimento econômico e liderança geopolítica no século XXI. Apesar disso, assistimos anualmente à depredação desse ativo estratégico devido a escolhas imediatistas, ações criminosas e à exploração ineficiente de nossos recursos.

Atualizado em 17/08/2026 às 20:08, por Redação Envolverde.

Globo terrestre coberto por vegetação

Fernando Figueiredo – Emergência Climática: E nós com isso? 

A nossa biodiversidade e a variedade de biomas não são apenas patrimônios ecológicos, são uma das vocações que temos como país, o Brasil tem a maior biodiversidade do planeta. Nosso território abriga cerca de um terço de todas as florestas tropicais do mundo e o maior sistema fluvial da Terra.

A Flora e Fauna tem mais de 124.000 espécies de fauna catalogadas e mais de 44.000 espécies de flora conhecidas de acordo com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Cada um dos nossos ecossistemas carrega uma riqueza única e adjetivos que traduzem sua grandiosidade: 

  • Amazônia (~4,2 milhões de km²): A maior reserva biológica do planeta, uma floresta tropical densa que abriga uma diversidade gigante de espécies vivas da Terra e regula o clima de nosso continente.
  • Cerrado (~2 milhões de km²): O berço das águas brasileiras é a savana mais biodiversa do mundo, caracterizada por suas árvores de troncos retorcidos e raízes profundas que funcionam como uma imensa floresta invertida.
  • Mata Atlântica (~1,1 milhão de km²): Uma floresta exuberante e resiliente que, mesmo cercada pelas maiores metrópoles do país, abriga altíssimos índices de espécies endêmicas (que não existem em nenhum outro lugar do mundo) e protege os mananciais de água doce que abastecem milhões de brasileiros.
  • Caatinga (~844 mil km²): O único bioma exclusivamente brasileiro. Um semiárido de extrema resiliência, um cenário vibrante de vida ao menor sinal de chuva. Suas espécies altamente adaptadas guardam segredos biotecnológicos valiosos para a medicina e a agricultura do futuro.
  • Pampa (~176 mil km²): Um vasto tapete verde no extremo sul do país. Caracterizado por suas colinas suaves e campos nativos de altíssima biodiversidade herbácea. É um ecossistema pastoril único, essencial para a pecuária sustentável de baixo carbono e para a recarga de importantes aquíferos.
  • Pantanal (~150 mil km²): A maior planície de inundação contínua do planeta. Um santuário aquático pulsante e dinâmico, onde o ciclo das cheias e secas dita o ritmo de uma das maiores concentrações de fauna silvestre das Américas, atraindo os olhos do mundo para o ecoturismo de observação.
  • E temos a "Amazônia Azul" (mais de 5 milhões de km²): Nossa imensa e estratégica fronteira costeira e marinha. Um território oceânico colossal de águas profundas, corais e correntes ricas, que regula o clima, funciona como um gigantesco sumidouro de carbono e abriga uma biodiversidade marinha incalculável, um verdadeiro oceano de oportunidades para a biotecnologia.

E o que está acontecendo ano a ano com estes biomas e nosso maior capital?  

Os dados recentes do MapBiomas

A rede MapBiomas lançou recentemente a sua Coleção 11, um panorama histórico de quatro décadas de transformações no uso da terra do Brasil. Nenhum ativo sobrevive sem uma gestão adequada, os números revelam um processo severo de desgaste e deterioração.

Os dados mostram que a nossa cobertura de vegetação nativa foi reduzida de 79% em 1985 para 65% em 2025, uma perda de 14% em 40 anos, impulsionada principalmente pela expansão agropecuária e urbana desordenada. O relatório alerta para o risco que essa perda de cobertura vegetal nativa expõe ao Brasil. Segundo os cientistas ela é muito mais severa que os eventos climáticos extremos, como os efeitos do El Niño que estamos escutando os alertas agora para os próximos meses.

Cerca de um terço (33%) do território nacional sofreu pelo menos uma mudança de cobertura e uso da terra nas últimas quatro décadas, enquanto 67% permaneceram estáveis. Vale a leitura para quem quer conhecer mais sobre este tema pois o uso da terra e o desmatamento são os fatores que geram as maiores emissões de gases de efeito estufa do nosso país nos colocando com o 6º maior emissor do planeta. Uma colocação lamentável diante do que temos a oferecer para o mundo e para nossa sociedade. 

O Potencial Econômico: A Bioeconomia em Números

A conservação e o uso sustentável desse patrimônio não anulam o crescimento econômico como alguns querem que acreditemos, muito pelo contrário, ele gera valor no curto,  médio e longo prazo com resiliência climática para nosso país. 

A transição para uma economia de baixo carbono, baseada na natureza é uma oportunidade de geração de emprego e renda para o Brasil, e é um dos pontos que nos comprometemos em nossa NDC - Metas Nacionalmente Determinadas no Acordo de Paris em 2015. 

  • A bioeconomia já é uma realidade no país. Ela movimenta cerca de R$ 2,7 trilhões ao ano, o equivalente a 25,3% do PIB brasileiro, segundo estudo inédito da CNI – Confederação Nacional da Industria e pode crescer mais.
  • A chamada "Bioeconomia do Conhecimento" que une a ciência, a tecnologia e a nossa biodiversidade para criar cosméticos, medicamentos, biocombustíveis, novos materiais e soluções agrícolas de alto valor agregado tem o potencial de adicionar mais de R$ 700 bilhões anuais à nossa economia até 2032, de acordo com o mesmo estudo.
  • O fortalecimento de cadeias sustentáveis e da restauração florestal na Amazônia, bioma mais afetado nesta série histórica, por exemplo, pode impulsionar o desenvolvimento regional e adicionar cerca de R$ 45 bilhões ao PIB da região, promovendo inclusão social e mantendo a floresta em pé, de acordo com o estudo "Nova Economia da Amazônia" do WRI Brasil. Dentre outros exemplos e iniciativas que temos e precisam ganhar escala e financiamento.   

As Oportunidades Diante de Nós

Estes são alguns estudos, números e fatos, e eles nos mostram que o Brasil não precisa escolher entre o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental. O nosso caminho para prosperidade com país está justamente na sinergia entre ambos de forma inteligente e estratégica.

Temos uma vocação ímpar, a matriz energética mais limpa do mundo e a oportunidade de liderar a produção global de alimentos de forma regenerativa, de nos tornarmos o maior polo de bioinovação farmacêutica e cosmética do mundo, de atrair bilhões em investimentos verdes e de exportar tecnologia de restauração ecológica. 

Esta agenda caminha em alguns segmentos e organizações, porém estamos perdendo a cada ano nosso maior Capital para fazer isso acontecer de forma consistente.  A biodiversidade está na sala da Emergência Climática e te pergunto, o quanto Nós Brasileiros temos a consciência da importância deste Capital e do tamanho da destruição de valor que está acontecendo em nosso patrimônio dia após dia?

O direcionamento da economia global é claro, a viabilidade dos mercados futuros depende de práticas sustentáveis, regenerativas e de baixo carbono. Embora o Brasil possua a maior vantagem competitiva natural nesta frente, nossa execução de planos e práticas atuais ainda estão aquém do que precisamos e podemos fazer.

Proteger, investir e gerir de forma inteligente o nosso capital ambiental não é uma escolha de ambientalistas, é uma escolha estratégica de negócio e de estado para garantir a nossa soberania, segurança econômica e estabilidade a longo prazo.

Alguns de vocês podem pensar que só estamos usando 1/3 do que temos de nossa vasta biodiversidade, que outros países destruíram suas florestas e recursos naturais, porém existe uma grande diferença. Eles não tinham as informações cientificas que temos hoje e as mudanças climáticas estavam no seu início. O relatório do MapBiomas revela que esta destruição do nosso capital ambiental é antrópica, que significa, “algo relativo ao ser humano ou que resulta da ação humana sobre o meio ambiente”. Nosso modo de consumir e viver estão gerando as Mudanças Climáticas contemporâneas, e isso é um fato que hoje ... Nós sabemos!

Vamos seguir com esta destruição de património, isso é inteligente? Estamos falando de nosso maior Capital e do nosso Futuro, seguiremos nesta situação até quando? 

Refletir e entender a importância estratégica deste tema é de extrema importância para Nós e Nosso País, é muito sério o que está acontecendo e afeta a Todos! 

Organizações e Referencias 

MapBiomas 

MapBiomas Brasil   https://brasil.mapbiomas.org/

Com menos vegetação nativa, uso da terra no Brasil fica mais exposto aos eventos extremos do El Niño – MapBiomas Brasil         https://brasil.mapbiomas.org/com-menos-vegetacao-nativa-uso-da-terra-no-brasil-fica-mais-exposto-aos-eventos-extremos-do-el-nino/

CNI – Confederação Nacional da Industria 

Bioeconomia movimenta R$ 2,7 trilhões no Brasil, mostra CNI - Agência de Notícias da Indústria   https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/sustentabilidade/bioeconomia-movimenta-r-27-trilhoes-no-brasil-mostra-cni/

WRI – World Resource Institute Brasil

Que bioeconomia é essa? | WRI Brasil  https://www.wribrasil.org.br/noticias/que-bioeconomia-e-essa

MMA – Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima

Biodiversidade e Biomas — Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima  https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/biodiversidade-e-biomas

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Fernando Eliezer Figueiredo atua há mais de 30 anos em sustentabilidade, clima e desenvolvimento sustentável. Teve passagens marcantes como diretor do CDP na América Latina, head de Sustentabilidade da Schneider Electric Brasil e presidente da Câmara de Energia e Clima do CEBDS. Atualmente é consultor na Thinker & Associados, diretor de conteúdos de sustentabilidade na Miração Filmes, professor, curador e empreendedor. Como Líder da Realidade Climática, dedica-se a projetos estratégicos, educativos e audiovisuais para ampliar a consciência climática e traduzir essa agenda para públicos além da "bolha" da sustentabilidade.

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