O Caminho Mais Rápido para Frear o Caos Climático: A Estratégia do Metano
𝙈𝙖𝙧𝙘𝙤𝙨 𝙒𝙤𝙤𝙧𝙩𝙢𝙖𝙣𝙣, 𝙃𝙚𝙣𝙧𝙞𝙦𝙪𝙚 𝘽𝙚𝙯𝙚𝙧𝙧𝙖 𝙚 𝙇𝙪𝙞𝙯𝙖 𝘾𝙝𝙖𝙚𝙧 - O mundo ultrapassou os limites de segurança climática, com a temperatura média global excedendo os 1,5°C de aquecimento do Acordo de Paris. Cada fração de grau adicional nos aproxima de pontos de inflexão, como o colapso da Amazônia, o derretimento da Groenlândia, e a alteração das correntes atlânticas. Com a lenta substituição dos combustíveis fósseis, nos perguntamos: há tempo ainda para reverter tal cenário? A resposta é sim.
Molécula de Metano

Por Marcos Woortmann, Henrique Bezerra e Luiza Chaer -
Responsável por mais de um terço do aquecimento global, o metano é um "superpoluente" que permanece na atmosfera por aproximadamente 20 anos, contra séculos do CO2. Seu potencial de aquecimento é 80 vezes superior ao do CO2 neste curto prazo, e aí jaz a chave: reduzir drasticamente as emissões de metano é a estratégia mais eficaz para resfriar o planeta rapidamente nas próximas duas décadas, tempo hábil para evitar um desequilíbrio sistêmico irreversível.
O Brasil, quinto maior emissor de gases de efeito estufa, assinou em 2021 o Compromisso Global do Metano, prometendo redução de 30% até 2030. No entanto, o país ainda patina. Segundo o SIRENE, a agropecuária responde por 73% das nossas emissões de metano, seguida pelos resíduos sólidos (16%). Esses números delimitam onde estão as nossas responsabilidades e, simultaneamente, nossas maiores oportunidades.
No setor urbano, o atraso é vergonhoso. O Brasil deveria ter encerrado todos os lixões até agosto de 2024, mas 45% dos municípios ainda destinam resíduos de forma inadequada e degradante. A decomposição orgânica nesses locais contamina recursos hídricos e torna-se um vetor de crise climática.
Pecuária responde por metade das emissões brasileira
Na pecuária, o desafio é estratégico. O setor responde por 51% das emissões nacionais totais (diretas e indiretas). Contudo, pesquisas da Embrapa Pecuária Sul e do Instituto de Zootecnia de São Paulo (IZ-SP) provam que a redução é tanto tecnicamente viável como pode ser lucrativa. O melhoramento genético de raças como o Nelore pode reduzir as emissões entéricas entre 30% e 40%, aumentando a eficiência metabólica e rentabilidade da pecuária. Somado ao manejo adequado de pastagens e sistemas de integração lavoura-pecuária, o Brasil pode produzir ganhos climáticos significativos enquanto aumenta a produtividade, a renda no campo e preserva a fertilidade dos solos.
Ao demonstrar que é possível reduzir emissões em larga escala com base empírica, o Brasil pode se posicionar para liderar uma agenda global junto ao setor produtivo de países como Austrália e Estados Unidos. Tendo sediado a última COP30, temos a oportunidade de articular a "Missão Belém para 1,5°C", consensuando ação diplomática, financiamento climático e ganhos de produtividade mundiais.
Embora mais de 150 países tenham aderido ao pacto do metano, gigantes como China, Índia e Rússia ainda resistem. Por outro lado, a União Europeia já impõe regras rígidas de controle sobre importações. Neste contexto, o Brasil possui um trunfo: o apoio social. Pesquisa do Global Methane Hub revela que a população brasileira é a que mais percebe os impactos dos eventos extremos e a que mais apoia ações de mitigação do metano.
Reduzir as emissões de metano é proteger a Caatinga da desertificação, é proteger o Sul e o Sudeste de enchentes e de ondas de calor, e é proteger a Amazônia do ponto de não retorno. Reduzir a emissão deste gás é um compromisso ambiental, um imperativo de soberania alimentar e um horizonte de justiça social. A sociedade está pronta. Falta transformar essa disposição em políticas públicas consistentes para enfrentar a crise climática na janela de tempo que resta à nossa geração.
Marcos Woortmann é cientista político formado pela UnB, ambientalista e Diretor Adjunto do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS). Especialista em governança climática e direitos humanos, atua na articulação de políticas públicas e em projetos de advocacy como o Farol Verde.
Henrique Bezerra é advogado e Coordenador de Programas no Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), onde lidera estratégias de advocacy socioambiental no Congresso Nacional. Especialista em Direito Ambiental, sua atuação conecta a justiça social à governança hídrica e ao fortalecimento das políticas climáticas brasileiras.
Luiza Chaer é cientista social formada pela UnB, pós-graduada em processo legislativo e assessora de advocacy no Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS). Especialista em incidência política no Congresso Nacional, atua no monitoramento de pautas legislativas e na produção de subsídios técnicos para políticas públicas socioambientais.
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