O Legado Tóxico das Guerras na Ucrânia e no Irã
Dal Marcondes - O que acontece com a terra, com a água e com o clima quando as bombas param de cair? O cenário das guerras na Ucrânia e no Irã nos mostra que o impacto é de longo prazo e afeta a todos nós.
Guernica, de Pablo Picasso

Por Dal Marcondes -
A guerra é, por definição, a negação absoluta da sustentabilidade. Enquanto as manchetes focam, com justiça, no rastro de dor humana e nas movimentações de tropas, um inimigo silencioso e persistente avança sob o solo e através das correntes de ar e água: a destruição ambiental. O que ocorre hoje na Ucrânia e nas crescentes tensões envolvendo o Irã e o Oriente Médio não é apenas uma sucessão de tragédias humanitárias; é um ecocídio de proporções multigeracionais que ameaça inviabilizar a vida muito depois do cessar-fogo.
Como alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, nossa economia global segue premiando a destruição. Esse diagnóstico se torna literal no campo de batalha. Enquanto o relatório da IPBES aponta que o capital natural do planeta caiu 40% desde 1992, as guerras atuais aceleram essa queda, consumindo em dias o que a natureza levou milênios para construir.
Ucrânia: O Envenenamento do "Celeiro do Mundo"
A invasão da Ucrânia transformou um dos ecossistemas mais produtivos da Terra em um laboratório de toxicidade. A Ucrânia detém um terço das terras negras (Chernozem) do mundo, solos de altíssima fertilidade que são o pilar da segurança alimentar global. Hoje, esse solo está sendo sistematicamente envenenado.
- Metais Pesados e Resíduos Químicos: Cada explosão de míssil ou mina terrestre libera no ambiente chumbo, antimônio, fósforo e mercúrio. Esses metais pesados não desaparecem; eles se infiltram no lençol freático e entram na cadeia alimentar, prometendo casos de contaminação e doenças genéticas por décadas.
- O Desastre de Kakhovka: A destruição da barragem de Kakhovka em 2023 é, talvez, o maior desastre ambiental na Europa desde Chernobyl. A inundação não apenas destruiu vilas, mas varreu parques nacionais, liberou toneladas de óleo lubrificante de turbinas e espalhou produtos químicos agrícolas no Mar Negro, alterando a salinidade e a biodiversidade marinha de forma imprevisível.
- A Sombra Nuclear: A ocupação da usina de Zaporizhzhia mantém o mundo em um estado de "roleta russa" radiológica. Um acidente ali não seria um desastre local, mas um evento de extinção de ativos ambientais em todo o continente europeu e além.
Irã e Oriente Médio: A Militarização da Escassez
No Irã e nas zonas de influência do Oriente Médio, o impacto ambiental da guerra e da instabilidade política assume uma face diferente, mas igualmente devastadora: a destruição da resiliência hídrica e marinha.
- A Água como Alvo e Arma: O Irã enfrenta uma das piores secas de sua história. Em tempos de paz, isso exigiria cooperação técnica internacional massiva. Sob sanções e tensões militares, a gestão das bacias hidrográficas é negligenciada. Lagos como o Urmia estão desaparecendo, transformando-se em desertos de sal que, soprados pelo vento, salinizam terras agrícolas a centenas de quilômetros.
- Ecosistema Marinho sob Ataque: O Golfo Pérsico e o Mar Vermelho são artérias vitais de energia, mas também santuários de biodiversidade marinha. Ataques a navios petroleiros e infraestruturas de refino causam vazamentos de óleo que devastam recifes de coral únicos, que já lutam contra o aquecimento das águas. A poluição por hidrocarbonetos nessas águas fechadas tem um tempo de residência longuíssimo, afetando a pesca e a vida marinha por gerações.
As Consequências de Longo Prazo: O "Custo de Oportunidade" da Paz
O impacto mais perverso desses conflitos é o desvio de recursos. Como mostram os dados da IPBES, em 2023, cerca de US$ 7,3 trilhões financiaram práticas prejudiciais ao meio ambiente, incluindo a máquina de guerra, enquanto apenas US$ 220 bilhões foram para a restauração.
As forças militares globais são responsáveis por cerca de 5,5% das emissões de gases de efeito estufa. Se fossem um país, seriam a quarta maior pegada de carbono do planeta. Ao investirmos em bombas na Ucrânia ou drones no Irã, estamos retirando o oxigênio financeiro da transição energética. Cada dólar gasto em um míssil é um dólar retirado da adaptação climática de cidades costeiras ou da proteção da Amazônia.
As consequências de longo prazo incluem:
- Refugiados Ambientais de Guerra: Pessoas que fogem não apenas das balas, mas de terras que não produzem mais e águas que não podem mais ser bebidas.
- Fragmentação da Cooperação Climática: A guerra destrói a confiança necessária para acordos globais de biodiversidade. Como monitorar o degelo do Ártico ou a proteção de espécies migratórias se as potências estão em conflito?
O Brasil e a Economia da Paz
O Brasil, ao revogar decretos predatórios no Tapajós e proteger suas comunidades tradicionais, mostra que existe outro caminho. O respeito aos indígenas e ribeirinhos é a nossa "tecnologia de paz". Enquanto Ucrânia e Irã sofrem as dores de uma geopolítica fóssil e armamentista, o Brasil pode liderar na COP um "Roadmap para a Paz".
Este plano deve exigir que as instituições financeiras e agentes políticos parem de premiar o ecocídio. A segurança climática deve ser entendida como o novo nome da segurança nacional. A verdadeira potência de uma nação no século XXI não será medida pelo seu arsenal, mas pela saúde de seus solos e pela pureza de suas águas.
A paz duradoura nasce da justiça socioambiental. É tempo de trocar a economia da guerra pela abundância regenerativa. O futuro será sustentável ou, simplesmente, não será.

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